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 Luísa Venturini

Sem nada contundente a mordiscar-me a disposição, saí com um passo desembaraçado e um humor tão solto e jovial como se tivesse recebido uma muito boa notícia, apenas com o propósito de apanhar um pouco de ar, tomar café e entreter corpo e pensamentos com a bondade da tarde, livre dos espartilhos do frio que me mirram a perspectiva.

Uma esplanada pisca-me o olho, naquele trejeito de convite quase insolente que, para mim, as esplanadas sempre têm, e lá estugo eu a passada, na alegria antecipada do seu acolhimento. Tiro da carteira a minha eterna imitação de Moleskine e a minha eterna caneta ArtPen, acendo o cigarro com ânimo e lembro-me subitamente de momentos idênticos vividos no café-jardim do Museu Picasso em Málaga – todo um mimo de rendas de verdes cálidos e tons queimados bem andaluzes. Com a desfaçatez que os pensamentos têm, ocorre-me que a célebre “Malagueña”, a tal que é “salerosa” e ao contrário do que eu pensara toda a vida, é uma canção mexicana e que nesse mesmo dia, em Málaga, para minha tremenda frustração, não cheguei a ter oportunidade de ir a um dos raros “tablaos” de flamenco que ainda resistem na cidade. E fico ali de olhar perdido pela memória, a passear-me pelas belas ruas da Andaluzia, sob um idêntico céu ensolarado e a refrescar durante meia dúzia de minutos toda uma semana entremeada de cansaços e contratempos, como se num passe encantatório uma “abracadabra” me estivesse a animar o momento.

Abro o caderno, escrevo a data e toda uma nova panóplia acadabrante me assalta as ideias, com os dias deste mensário a alvoroçarem-se na minha cabeça, armados em painéis publicitários de néons histéricos, todos a pretenderem protagonismo em simultâneo, num estranho coro de óbitos, casamentos e nascimentos, cada um importante pelas suas próprias razões e cada um deixando em mim a sua distinta pegada, indelével, inesquecível. Fechei rapidamente aquela ruidosa espécie de Jumanji, obrigando-os a calarem-se. Um dia de cada vez, por favor. Um dia de cada vez e em ordem, se for possível!, resmungo entredentes com uma autoridade divertida.

Eis que mal acabo de remeter à carteira caderno e caneta e me preparo para pagar o café, me aparece a Maria do Carmo, cheia de “Ainda bem! Ainda bem que agora a encontro.” Acrescenta, sem respirar: “Ia mandar-lhe uma mensagem. Já fiz as suas reservas para Málaga e estão confirmadas as reuniões de 3ª e de 4ª. As provas das publicações já estão prontas. Não se esqueça que na 6ª há assinatura do contrato e que os ingleses contam consigo para a apresentação do projecto. Amanhã, vai ter tempo para analisar os relatórios que chegaram do Porto ou…”

Por um momento, dei comigo a pensar que me apetecia fechar a Maria do Carmo na gaveta. Quando, finalmente!, se calou, lá consegui dizer-lhe: “Então, Maria do Carmo, toma um café? Então, conte-me lá, como estão as crianças?”

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RENATO EPIFÂNIO

Escreveu Paulo Trigo Pereira no jornal “Observador” (11.04.2017) um interessante artigo intitulado “Agostinho da Silva: Amado e Mal-Tratado”, onde denuncia, a nosso ver com acerto, que Agostinho da Silva tem sido “mal-tratado quer por parte de certa ‘inteligentzia nacional’, quer e sobretudo pelas instituições públicas”.

Sendo a denúncia acertada, as explicações que Paulo Trigo Pereira expõe no seu artigo não acertam, de todo, a nosso ver, no alvo. Dito isto, gostaríamos desde já de ressalvar que não pomos minimamente em causa o agostinianismo de Paulo Trigo Pereira, até porque sabemos, por experiência própria, que há muitas formas de ser agostiniano – formas diferentes, muito diferentes, e até contraditórias. Com efeito, Agostinho da Silva consegue, ainda hoje, congregar pessoas das mais diversas proveniências filosóficas, ideológicas, religiosas, etc.

Feita esta (para nós) importante ressalva, vamos então à nossa explicação para o facto de Agostinho da Silva continuar a ser “mal-tratado quer por parte de certa ‘inteligentzia nacional’, quer e sobretudo pelas instituições públicas”. No essencial, isso deve-se, a nosso ver, à sua visão do país, bem distante (para dizer o mínimo) da visão defendida quer por parte de certa “inteligentzia nacional”, quer e sobretudo pelas instituições públicas.

Compreendemos que, para Paulo Trigo Pereira, que se assume como um “federalista europeu”, o assunto seja incómodo, mas a verdade é que, ainda em vida, Agostinho da Silva expôs as maiores reservas a uma visão oficial do País que, no essencial, reduzia Portugal à então C.E.E. (Comunidade Económica Europeia). Na altura, sobretudo por isso, Agostinho da Silva foi de facto ridicularizado e posto de parte: era, alegadamente, um “passadista”, um “velho do Restelo”, senão mesmo ainda um “homem do Império”, que não aceitava o que nos foi impingido como o (único) futuro, com os resultados que estão hoje à vista de todos.

Na verdade, desde há muito tempo, Agostinho da Silva defendia um outro futuro para Portugal. Apenas alguns exemplos: num texto publicado no jornal brasileiro ‘O Estado de São Paulo’, com a data de 27 de Outubro de 1957, Agostinho da Silva havia proposto “uma Confederação dos povos de língua portuguesa”. Num texto posterior, chegará a falar de um mesmo “Povo não realizado que actualmente habita Portugal, a Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, o Brasil, Angola, Moçambique, Macau, Timor, e vive, como emigrante ou exilado, da Rússia ao Chile, do Canadá à Austrália” [“Proposição” (1974)].

Por tudo isso, chegou a defender: “não me pareceu que a revolução de 1974, tal como estava a ser feita, conduzisse a alguma coisa em que valesse a pena colocar essas ideias. Pareceu-me que era um pronunciamento militar sem grande largueza política” (in “Vida Conversável”, Lisboa, Assírio & Alvim, 1994, p. 53). Face a uma posição como esta, como poderia, de facto, Agostinho da Silva não ser “mal-tratado quer por parte de certa ‘inteligentzia nacional’, quer e sobretudo pelas instituições públicas”? A nosso ver, não poderia. Vamos até mais longe. Se for apenas por esta razão, melhor será que Agostinho da Silva continue a ser “mal-tratado quer por parte de certa ‘inteligentzia nacional’, quer e sobretudo pelas instituições públicas”. Prova de que, no essencial, continua a ter razão, já mais de vinte anos após a sua partida.

José António Cerejo denunciou em tempos Sócrates, e bem. Agora anda obcecado com a Igreja Católica. Escreve um artigo, este Sábado de Páscoa, a denegrir a instituição e as suas finanças. O visado é o cónego Álvaro Bizarro, que gere o património e finanças do Patriarcado de Lisboa há mais de duas décadas. Como católico, acho profundamente errado que um mesmo homem se eternize num lugar chave. No entanto, o ataque soez contra uma instituição que assegura mais de setenta por cento da assistência social em Portugal é vergonhoso.

Numa enorme confusão de números que Cerejo não consegue entender, nem explicar, percebe-se que uma das verbas que dá é a de que um seminarista estrangeiro em pensão completa em Lisboa, incluindo roupa, alojamento, comida, estudos, livros, papel, computador, viagens, não pode custar mais de 333 euros por mês ao Patriarcado. O que faria o Patriarcado ao resto do dinheiro das dádivas quaresmais que são mais de duzentos mil euros? Esquece-se de que há mais dádivas para além dessa e espanta-se que a Igreja gaste muito mais em assistência, seriam uns oitocentos mil; mas por outro lado falta dinheiro, afirma Cerejo! Talvez seja da veterania, que Cerejo é jornalista há mais tempo do que Bizarro é ecónomo, mas as confusões do jornalista são muitas e muito pouco explicadas.

Não sei se Cerejo tem filhos, mas ele que ponha a receita para gastar 10 euros por dia com um estudante universitário ou liceal em Lisboa, incluindo duas viagens por ano para a Índia ou Mindelo ou outra localização intercontinental, que o povo agradece. Eu penso que nem o Salazar, reconhecidamente económico, conseguiria tal milagre. Talvez a Igreja Católica o consiga, mas se assim for, aqui fica o elogio a esta instituição.

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Várias semanas após a escolha de Teresa Leal Coelho para encabeçar a lista do PSD em Lisboa, confirma-se o anunciado desastre que conduzirá Medina de novo ao poder, levado ao colo pela antipatia da senhora e pela sua história recente.

Teresa Leal Coelho não faz declarações, não aparece no combate político, não denuncia nem capitaliza a pouca-vergonha da gestão Medina em Lisboa. Teresa Leal Coelho é o vácuo, o nulo, sem ideias, sem plano, escrito sem convicção pela mão alheia de José Eduardo Martins, e não tem qualquer hipótese, também devido à sua figura desgastada e antipática de defensora número um da troika e de Passos Coelho que desagrada visivelmente ao eleitorado.

Medina, que chegou a presidente de câmara sem ir a votos, continua com sorte: com tal escolha é inevitável uma derrota esmagadora do PSD. A única vantagem é que uma derrota estrondosa do PSD perante um fraco Medina em Lisboa deverá levar a uma rápida substituição de Passos Coelho por alguém capaz como Rui Rio. Marcelo, “o catavento político” de Passos Coelho, agradece, mais uma vez, a pouca inteligência da escolha.

Entretanto, no Porto, o PSD anuncia uma campanha em que vai tentar provar que “Rui Moreira é um bom presidente de Câmara” é um mito! Meu Deus! Será que ninguém consegue ensinar àquelas cabecinhas que fazer uma campanha já de si negativa, e ainda por cima afirmando peremptoriamente no princípio estratégico fundamental a negação do que querem provar usando o termo “bom presidente de câmara”, vai reforçar a imagem positiva de Rui Moreira junto da população? A mensagem é muito complicada e não passa para o público. Lembram-se da fase de Guterres “No jobs for the boys”? O “não” caiu e ficou apenas a parte dos “boys” do PS e de tachos para a rapaziada.

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A gravidade das decisões do Governo, dos partidos que o apoiam no Parlamento e da Administração da Caixa Geral de Depósitos, de não fornecer as informações pedidas pela Comissão de Inquérito da Assembleia da República, decisão contrariada pelo Tribunal da Relação, não tem precedentes na democracia portuguesa. Recordo que o Governo anterior, apesar de ter tido um comportamento pouco edificante em relação à constitucionalidade de algumas leis, sempre cumpriu as decisões do Tribunal.

Acresce que a Administração da Caixa Geral de Depósitos apresentou perdas inacreditáveis ao longo dos últimos dez anos e apenas em 2016 essas perdas somaram 1.933 milhões de euros. Ora pensar que o Governo e os partidos que o apoiam podem manter em segredo os responsáveis pelos créditos concedidos e não pagos e o nome das empresas e dos cidadãos que defraudaram a instituição, constitui um insulto aos contribuintes portugueses e à própria democracia.

A pergunta óbvia é: a quem servem o Governo de António Costa, o PS, o PCP e o Bloco de Esquerda? Estão ao serviço do povo português ou de empresas e de gestores irresponsáveis que defraudaram de forma continuada o interesse público, alguns deles a contas com os tribunais? Os portugueses têm de exigir uma resposta clara a esta pergunta.

Aliás, algumas das actuais decisões da Administração da Caixa vão no mesmo sentido, porque o que pode explicar que as obrigações perpétuas emitidas e a emitir pela instituição paguem aos especuladores internacionais 10,5% de juros e aos portugueses um juro de Euribor mais 1,9%, o que, sabendo-se que a Euribor está negativa, representa um rendimento comparativamente insultuoso de 1,9% para as famílias e investidores portugueses (dados retirados de um estudo de Eugénio Rosa).

Que Governo é este e que partidos são estes que assumem decisões como estas e se recusam a responder perante os eleitores e a dar as informações pedidas por deputados da Assembleia da República? Ao serviço de quem está este Governo e os partidos que o apoiam? Não menos pertinente, onde está o Presidente da República nesta conjuntura?

É conhecida a minha posição de pedir a alteração das leis eleitorais, por considerar que o actual regime político não é democrático, na medida em que os representantes do povo, nomeadamente na Assembleia da República, são escolhidos pelos líderes partidários e, na sua maioria, estão ao serviço dos interesses de manutenção do poder, a qualquer preço, de quem os escolheu e não do povo que, cada vez em menor número, os elege. Por isso, se continuar a actual situação de negar o direito do povo português de conhecer aqueles que estão a arruinar o País, então a nossa democracia deixou de funcionar como tal e entramos numa ditadura de partidos. Aliás, todos os sinais, como os emitidos relativamente ao Conselho de Finanças Públicas e do Banco de Portugal, vão nesse sentido.

Assim sendo, o menos que se pode pedir é que a palavra seja devolvida aos portugueses.

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EVA CABRAL

Para deixar o crescimento anémico que Portugal vive desde o início dos anos 2000, precisamos efectivamente de reformas. Mas o PS não conseguirá fazê-las, por estar refém dos votos do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda – partidos que, por razões ideológicas, simplesmente não as querem.

O Programa Nacional de Reformas e o Programa de Estabilidade são duas peças da liturgia parlamentar e da burocracia europeia que repetem em boa medida as Grandes Opções do Plano, que são aprovadas com todos os Orçamentos de Estado sem que ninguém se interesse e (suspeita-se) poucos se dêem mesmo ao trabalho de as ler.

Cumprindo a tal liturgia política, o último Conselho de Ministros aprovou, na generalidade, as versões finais e completas do Programa Nacional de Reformas para 2017-2020 e do Programa de Estabilidade. Estes documentos vão ser discutidos na Assembleia da República no dia 19 de Abril, e segundo o executivo de Costa “actualizam a visão e a estratégia do Governo para um crescimento económico equilibrado, promotor de uma trajectória de consolidação das contas públicas e de coesão social. O Programa Nacional de Reformas 2017 dá sequência à estratégia em curso, através da avaliação da execução das medidas anteriormente previstas e do lançamento de novas medidas, apresentando uma reforçada ambição para superar os principais bloqueios da economia portuguesa”.

Na propaganda, o ministro do Planeamento e das Infraestruturas disse que “é um programa [Nacional de Reformas] ambicioso, que mobiliza mais de 26 mil milhões de euros de investimento e de recursos, cerca de dois terços dos quais financiados pelo Portugal 2020 e em perfeita sintonia com o rigor e a sustentabilidade orçamental que queremos alcançar, e queremos alcançar também para criar espaço para este conjunto de reformas estruturais, para mais investimento e para mais emprego no nosso País”.

Sem nunca se rir, Pedro Marques, quando questionado sobre os valores do investimento público, detalhou que “feito o trabalho de casa, posto o Portugal 2020 a andar, feitos os projectos, obtidas as declarações de impacto, lançados os concursos públicos, o último indicador de encomendas de obras de engenharia disponível demonstra que cresceu 140% em termos homólogos”. E acrescentou: “é um excelente indicador avançado como o investimento público de proximidade e o investimento público na ferrovia, na mobilidade, já está no terreno e está a acontecer fruto do Programa Nacional de Reformas aprovado há um ano”.

Com este cenário idílico, Portugal vai crescer os mais de 3% dos seus vizinhos espanhóis? Não. E nem o optimismo bacoco do PS – nas suas versões mais ou menos sorridentes – se atreve a prometer sequer 2 %.

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Não são uma causa mediática para os meios “bem-pensantes” do politicamente correcto do Ocidente, mas os cristãos voltaram a ser em 2016 as pessoas mais perseguidas do planeta. Esmagados entre a agressividade do Islão político e a violência do comunismo ressurgente, os seguidores de Cristo por esse mundo tampouco encontram consolo e amparo no Ocidente, que ignora quase totalmente o seu sofrimento.

O centenário das aparições de Fátima aproxima-se e o mundo cristão mobiliza-se para comparecer nas celebrações. No entanto, nem nos tempos da Roma pagã ou no auge do comunismo estalinista a perseguição aos cristãos atingiu os níveis de hoje.

O recente atentado contra uma igreja no Egipto, no qual morreram 44 cristãos, é apenas mais um exemplo da perseguição constante aos milhões de fiéis que vivem fora do Ocidente. Para os cristãos que praticam a sua religião fora da Europa e da América, a Páscoa é sempre um período de ansiedade, visto que os extremistas islâmicos se habituaram a marcar a festa maior do Cristianismo com ataques sangrentos a locais de culto.

A Igreja Católica, as várias Igrejas Protestantes, as Nações Unidas e muitas organizações de acompanhamento alertam para a realidade da perseguição e violência de que são alvo os cristãos no mundo há muitos anos.

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MIGUEL MATTOS CHAVES

No início da década de setenta, Portugal vivia no plano interno uma situação de estabilidade económica. No entanto, no plano político adivinhavam-se já algumas situações de agitação e de contestação ao regime, que haveriam de desembocar no golpe de Estado de há 43 anos.

No início da década de 1970 vários assuntos nesta fase da vida portuguesa merecem destaque: a crise política progressiva, dada a contestação crescente, originada sobretudo no meio estudantil universitário e nos quadros permanentes das forças armadas (que iria ser a “semente” da revolução de 25 de Abril de 1974), a continuação do crescimento económico e da mudança estrutural da economia portuguesa, que de economia agrária dos anos 1940 passou a economia industrial, acompanhada de um crescimento significativo do sector terciário, e o nosso segundo pedido de negociações com a CEE, que desembocaria na assinatura do Acordo de 1972.

Recorde-se que já em 1961 tinha havido o primeiro pedido de abertura de negociações com a CEE que tinha recolhido o apoio de todos os Governos dos membros da organização e que só não desembocou na nossa integração dado o veto do General de Gaulle ao alargamento das Comunidades, dada a sua oposição à entrada da Inglaterra nas mesmas.

No plano internacional, a crise do petróleo de 1973 e o fim do sistema de Bretton Woods, em 1975.

No plano europeu, a criação da “Serpente Monetária” e o primeiro alargamento da Comunidade Económica Europeia, que passou a contar, a partir de 1 de Janeiro de 1973, com nove países com a entrada do Reino Unido, Dinamarca e Irlanda e a consequente perda de influência da EFTA.

No início da década de setenta, Portugal vivia no plano interno uma situação de estabilidade económica, no entanto no plano político adivinhavam-se algumas situações de agitação, de contestação ao regime.

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José Figueiredo

Professor Universitário

A Europa já não é um continente cultural e etnicamente uno. Independentemente das vontades dos vários políticos, é possível que a Europa venha a tender cada vez mais para uma versão dos Estados Unidos, ou seja, um continente multicultural.

Vejamos quais as origens dos estrangeiros em alguns dos Estados europeus (tabela nesta página). Sabemos que em Janeiro de 2014 cerca de 7% dos residentes da União Europeia eram originários de países estrangeiros, embora muitos destes estrangeiros sejam de países contíguos. Por exemplo, uma parte importante dos estrangeiros a residir na Bélgica são cidadãos franceses e holandeses. Assim como a Holanda tem muitos residentes alemães. Ou a Grã-Bretanha tem muitos cidadãos originários da Irlanda.

Contudo, verifica-se a importância dos cidadãos turcos e marroquinos em vários países europeus. Neste caso, estes cidadãos serviram os interesses económicos dos europeus, mas trouxeram diversidade cultural, étnica e religiosa.

Depois, importa referir que estas estatísticas europeias reflectem apenas os cidadãos efectivamente estrangeiros, e já não os cidadãos de 2ª e de 3ª geração, de origem estrangeira. Ou seja, é natural que a importância étnica e cultural extra-comunitária seja bem maior do que os cerca de 7% de cidadãos estrangeiros registados oficialmente.

  • Leia este artigo na íntegra na edição impressa desta semana.

Recentemente começou a circular uma petição para incluir D. Duarte Nuno no protocolo de Estado. Sua Alteza Real não tem qualquer reconhecimento oficial do Estado português, apesar de ser o herdeiro do Trono de Portugal, descendente e herdeiro dos reis que governaram o país durante quase oitocentos anos, de estar depositado sobre a sua figura a tradição e representação dos reis que fundaram a Pátria. Portugal esqueceu-se da sua história.

Os arrivistas que desempenham o lugar que cabe por direito ao rei, o lugar de representação e de cabeça da Nação, os mesmo arrivistas que desbarataram a herança da Monarquia Portuguesa, a mesma monarquia de nos deixou a língua portuguesa, que nos deu Camões e Pessoa, monárquico nascido em 1888, a mesma monarquia que fez de Portugal maior entre os grandes, esquecem-se de que os despojos que agora disputam, os despojos de um Portugal a esvair-se no nevoeiro, são restos da herança da Coroa de Portugal.

A ingratidão da putativa democracia portuguesa republicana e laica é directamente proporcional à avidez cúpida dos devoristas que hoje sangram o país e os portugueses esquecendo que Portugal já foi uma verdadeira democracia em tempos finais da monarquia, como monarquias são os países mais desenvolvidos do Mundo, como a Noruega ou a Suécia.

Honrar Dom Duarte não é honrar o homem, é honrar a memória, a história, a memória e os genes dos nossos antepassados. Esquecer o príncipe que ocupa o lugar de herdeiro ao Trono de Portugal é cuspir em Portugal e na sua fundação e apogeu.

É evidente que Sua Alteza Real está acima de quaisquer que ocupem transitoriamente os poderes políticos efémeros e corruptos de hoje em dia. É evidente que no coração de Portugal D. Duarte Nuno tem um lugar especial. É evidente que mesmo que seja reconhecida a sua posição no protocolo de Estado não lhe será dado o lugar de primazia a que tem direito como representante da Nação Portuguesa. Mas será o mínimo dos mínimos para respeitar a memória de um país.

D. Duarte não precisa de um lugar atrás de duzentos ou trezentos sobas do regime, esse lugar primacial é seu por direito. Mas reconhecer a sua figura, e a figura de qualquer dos seus filhos ou netos que ocupe o seu lugar no futuro é essencial para a reconciliação entre o triste Portugal de hoje e o Portugal Eterno que perdurou por setecentos anos e que voltará um dia, quando finalmente se realizar o Quinto Império neste país.

CAPA

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