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Planos técnicos que foram metidos na gaveta. Falta de coordenação entre os serviços de emergência. Uma regionalização encapotada e ideológica que pode ajudar à tragédia na floresta. Caos e negociatas na gestão dos meios aéreos. Extinção da Guarda Florestal. De tudo isto se fez o dramático início da “época dos fogos 2017”. Ainda o incêndio de Pedrógão ardia e já os bombeiros da assessoria de imprensa tentavam apagar o fogo da opinião pública, mas é impossível fugir ao facto estatístico de que Portugal arde hoje mais do que nunca na sua história, e o povo português começa a exigir responsabilidades à classe política por décadas de má gestão.

Todos os anos Portugal é flagelado por vastos incêndios, todos os anos se discute a questão, todos os anos a sociedade aplaude o sacrifício dos bombeiros e, sem excepção, todos os anos a classe política pouco ou nada faz para diminuir a intensidade dos incêndios.

Os fogos à escala que Portugal enfrenta hoje não são uma inevitabilidade histórica, ao contrário do que alguns sectores da sociedade nos querem ‘vender’. Segundo estimativas oficiais, em Portugal ardiam em média entre 5 mil e 10 mil hectares por ano nos anos entre 1950 a 1975. Em comparação, só o incêndio de Pedrógão Grande e Góis, que vitimou dezenas de pessoas, consumiu mais de 50 mil hectares de floresta, o equivalente a vários anos de incêndios de décadas anteriores.

Desde 1975 que a situação dos incêndios em Portugal se descontrolou por completo. Só nesse fatídico ano, em plena instabilidade do PREC, arderam 89 mil hectares e nos anos seguintes as médias não pararam de aumentar. Nos anos 80 entrámos na era dos grandes fogos, e novos ‘recordes’ têm sido sucessivamente ultrapassados: em 1985 superou-se os 100 mil hectares ardidos num ano e em 2003 alcançou-se o ‘recorde’ de 425 mil hectares.

A mortalidade entre os civis, essa, também não pára de aumentar. Em 2003 morreram 18 pessoas, o País chorou e a classe política prometeu acção, mas efectivamente nada fez. E a tragédia deste ano é a consequência lógica tanto das suas más decisões como da sua inexplicável inacção.

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A campanha eleitoral em Sintra está a ser marcada por uma questão pessoal: o percurso político do candidato socialista, antigo fundador do CDS e ex-defensor dos patrões da Indústria.

Sintra sociedade sem classes? Monserrate a caminho da gestão socialista? Maddona e o proletariado a tomarem conta do Lourel? A aliança operário-camponesa instalada a banhos na Praia das Maçãs? Se acreditássemos nas coisas espantosas que os homens dizem, todos estes cenários seriam plausíveis – agora que estamos à beira de umas eleições autárquicas em que um dos principais concorrentes à Câmara sintrense é o actual autarca, Basílio Horta, carente de mais um mandato.

Mas O DIABO anda cá há muitos anos e já não acredita nas coisas espantosas que os homens dizem. Basílio Horta, por exemplo.

Basílio Adolfo de Mendonça Horta da Franca já tinha 31 anos feitos quando, em 19 de Julho de 1974, ajudou a fundar o CDS: não se pode dizer que tenha sido levado por um impulso irreflectido de adolescente. Jurista com Curso Complementar da Universidade de Lisboa, encetara uma circunspecta carreira em cargos públicos e posicionava-se, nesse momento, como um dos três dirigentes máximos da Direita parlamentar portuguesa.

Foi nessa presunção, pelo menos, que muitos portugueses lhe deram o seu voto, ao longo de anos, elegendo-o deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República. Nessa qualidade foi ministro do Comércio e Turismo dos II e VII Governos Constitucionais, ministro de Estado e Adjunto do Primeiro-Ministro do VII Governo Constitucional e ministro da Agricultura, Comércio e Pescas do VIII Governo Constitucional. Foi vice-presidente e secretário-geral do CDS, vice-presidente da Assembleia da República e membro do Conselho de Estado em representação do seu sector de opinião. Tendo sido secretário-geral da Corporação da Indústria nos tempos da outra senhora, foi-lhe entregue o cargo de director-geral da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), o que pressupõe a confiança do patronato industrial, nesses tempos apodado de “fascista” e “monopolista”. E em 1991, coroando uma carreira de serviço à Direita e à Propriedade Privada, foi candidato a Presidente da República com o apoio do CDS.

Mas em 2001, aos 58 anos, Basílio Horta decidiu mudar de vida. Começou por abandonar o CDS para aderir ao Partido Socialista, cujos princípios doutrinários tinha passado a vida a combater.

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“O mais grave na gestão camarária de Leiria é o compadrio”, afirma. Sempre polémico, Fernando Costa foi Presidente da Câmara Municipal das Caldas da Rainha durante longos anos em que pura e simplesmente revolucionou a cidade. “Apanhado” na guilhotina da limitação de mandatos – medida com que nunca concordou –, nas últimas autárquicas candidatou-se a Loures e ajudou a geriu uma Câmara ganha pelo comunista Bernardino Soares. Este ano é o cabeça de lista do PSD a Leiria. Fernando Costa respondeu a um questionário elaborado por Eva Cabral , e dividido claramente em duas partes: A Política e A Vida. Diz “ter uma convicção muito forte” de que pode ganhar Leiria.

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É cabeça de lista a Leiria pelo PSD. Como tem visto a actual vaga de incêndios no distrito de Leiria? O que preconiza para actuação dos bombeiros?

Daqui a umas semanas, com os mortos esquecidos dos noticiários, tudo ficará na mesma: agora, é a hipocrisia política ao melhor nível. As causas e os problemas vão continuar nas próximas décadas. Também não é fácil de resolver, confesso. A desertificação do Interior e a falta de políticas florestais correctas são muito prejudiciais. Há mato a mais, e o mato é que vai continuar a matar os inocentes destas tragédias. Os criminosos, entre eles os políticos, não se vão “demitir”. Uns têm nisto, nas cenas dantescas, prazer, outros interesses económicos e outros falta de ética. Os bombeiros, jovens cheios de ideal, e os mais velhos, homens respeitáveis, merecem toda a minha admiração pelo seu heroísmo. Um dia vão desaparecer, cansados da incompetência e da falta de ética dos altos dirigentes, dos políticos e dos que vivem dos negócios à volta deste “fogo infernal”. Por que demitiram um homem altamente competente, José Manuel de Moura?

 

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Bicicletas, ciclovias e canteiros são uma obsessão de Fernando Medina. Como as ciclovias estão às moscas, e o presidente da autarquia lisboeta quer alimentar a sua obsessão anti-carros e a favor das bicicletas, na quarta-feira passada deu mais um passo nesta loucura que está a custar milhões aos lisboetas, sobrecarregados de taxas e taxinhas.

A rede de bicicletas partilhadas da Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa (EMEL) começou na quarta-feira a ser testada por voluntários e convidados, que darão sugestões ao projecto, numa fase piloto que deveria ter arrancado em Março.

E como na cidade das sete colinas e à torreira do Verão ninguém quer morrer em cima de uma bicicleta, Medina despeja milhões. O investimento da EMEL no projecto é na ordem dos 23 milhões de euros, através de um contrato de prestação de serviços celebrado com a empresa portuguesa Órbita, para um período de oito anos.

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A ausência de um pensamento estratégico dos partidos políticos portugueses e a falta de formação dos seus militantes e dirigentes, bem como a inexistência de estudo dos problemas nacionais, resulta em que a governação de Portugal é feita por impulsos, uns mais adequados do que outros, mas quase sempre sem um rumo globalmente consequente. O que é preocupante, porque vivemos hoje num planeta em mudança acelerada e cheio de novidades, o que faz de Portugal um país particularmente vulnerável quando se trata de fazer escolhas, situação agravada pelos atrasos que ainda temos nos planos da educação, da economia e da organização do Estado e sem instituições da sociedade, livres, fortes e independentes.

O resultado desta combinação de factores diversos é que as decisões vão de uma forte vontade de sermos modernos e adoptarmos os últimos gritos da tecnologia mundial, para a contemporização com atrasos económica e socialmente muito relevantes. Por exemplo, por uma qualquer razão decidimos que deveríamos estar na linha da frente na produção de electricidade por via eólica, ou na utilização de automóveis com motores eléctricos, ou ainda na mobilidade rodoviária, para o que construímos auto-estradas sem parar, ao mesmo tempo que sobrevivemos com empresas de transporte ineficientes e desprezámos a ferrovia que já temos há mais de um século. Ou seja, combinámos, sem critério conhecido e sustentável, decisões que pensámos muito avançadas e modernas, com outras que nos colocam entre os países com maiores atrasos.

Como parece evidente, estes impulsos de modernidade sem critério e sem o estudo adequado, têm custos muito elevados e criam enormes desequilíbrios no nosso processo de desenvolvimento. O resultado final é uma elevada ineficiência no sector energético e a um custo insustentável, ou postos de abastecimento de automóveis eléctricos que são óptimos espaços de estacionamento. Ao lado, o Estado sobrevive com sistemas informáticos adquiridos no estrangeiro a peso de ouro, mas que são uma manta de retalhos sem coerência global e com problemas permanentes para dar resposta às necessidades de organização do Estado, ainda que tenhamos empresas nacionais no sector de sistemas de informação de elevadíssima qualidade. Todavia, por alguma razão, preferimos a IBM e a Sapo.

A modernidade não é uma panaceia para o desenvolvimento dos países e as novas tecnologias que não controlamos no seu início só devem ser adquiridas e adoptadas passada a sua primeira fase e quando a curva do seu custo torna a tecnologia mais competitiva e é menor a probabilidade de surpresas desagradáveis. Não sendo assim, os sistemas adquiridos com um custo excessivo tornam-se rapidamente obsoletos e foi isso mesmo que aconteceu com os nossos sistemas de produção de energia, quer eólica quer solar, ou com os poucos carros eléctricos nas nossas estradas. Será diferente quando a tecnologia tem uma origem nacional, porque nesse caso a sua utilização será útil, ainda que de forma moderada, com o objectivo de potenciar a sua divulgação.

Talvez que o caso mais trágico da nossa paixão pela modernidade tenha sido a construção de auto-estradas de todos os lados para todos os lados, sem critério e sem planeamento, ao mesmo tempo que se desprezou o sistema ferroviário, para mais quando já era visível, por razões energéticas e ambientais, que a ferrovia seria o futuro da mobilidade das pessoas e das mercadorias, algo que a China compreendeu muito bem.

Em resumo, a indefinição estratégica em que vivemos, combinada com um certo voluntarismo modernizador, auto-suficiente e impreparado, arruinou o nosso País e empobreceu a generalidade dos portugueses.

Portugal candidatou-se para receber a Agência Europeia do Medicamento. Esta decisão data de Abril de 2017 em Conselho de Ministros. Maria Manuel Leitão Marques, ministra da Presidência e Modernização Administrativa, explicou então que se pretendia receber a Agência em Lisboa, na sequência do Brexit. A Agência sairia de Londres, e não de um lugarejo perdido no Yorkshire ou no Berkshire, tipo Beverley ou Barton-upon-Humber, cidades dignas e respeitáveis nas suas dimensões locais mas desconhecidas a nível europeu. Repare-se que esta agência nem sequer está em Oxford ou Cambridge, pequenas cidades universitárias mas muito prestigiadas.

Portugal acolhe neste momento a Agência Europeia da Segurança Marítima e o Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, sendo este último, dentro das agências europeias, um dos principais parceiros da Agência Europeia de Medicamentos.

Houve uma votação na Assembleia da República que encorajava o Governo a receber a dita agência. Este louvor foi votado a 11 de Maio.

Apenas Rui Moreira notou que a coisa estava em movimento para Lisboa, em 2 de Maio escreve uma carta em que também disponibiliza o Porto para receber a referida Agência.

No dia 19 de Maio, a Comissão Europeia publica os critérios técnicos para a relocalização da Agência, como a necessidade de escolas para mais de 600 crianças, um espaço que acolha 890 empregados e mais de 500 reuniões, capacidade hoteleira e ligação aérea às várias capitais europeias.

Segundo a Imprensa, DN, Público e Expresso, António Costa defendeu também o Porto, mas a comissão técnica que visitou Londres revelou que esta cidade não tinha dimensão nem infra-estruturas para receber uma Agência desta envergadura e que apenas Lisboa poderia oferecer um aeroporto de dimensão e com ligações a quase todas as capitais europeias.

Entretanto, os caciques locais de todas as vilas e lugarejos de Portugal vieram criticar o Governo e a Assembleia pela escolha de Lisboa, por ser centralista, por isolar ainda mais o Interior. Porque não Matosinhos ou Freixo de Espada à Cinta, povoados dignos de comparação com a mui nobre Barton-upon-Humber?

Houve deputados que vieram dizer que estavam arrependidos de ter votado o louvor ao Governo e outros que afirmaram que votaram por Portugal mas nunca por Lisboa…

Toda esta triste discussão revela um facto claríssimo, a pequenez das mentes. Em lugar de lutarem pelo único local capaz de competir pela referida agência, andam todos a digladiar-se pelas suas terreolas onde, à falta de um aeroporto em condições, se chega de automotora depois de sete horas de viagem, ou de uma ligação num alfa pendular da CP estafado e sem rede de internet apesar da publicidade enganosa da companhia, com casas de banho nojentas e imundas e comida pior do que a da sopa do Sidónio, que essa ao menos é caseira.

Por alguma razão as nações têm capitais. Por alguma razão o país Portugal é minúsculo e demora menos de um dia a atravessar em qualquer direcção, por alguma razão a cidade que receberá a agência que tutela uma indústria que vende mais de duzentos mil milhões de euros apenas na Europa deve ter alguma massa crítica e todo o país beneficiará certamente. Se Alguidares de Baixo concorrer, ninguém beneficiará, porque a Agência do Medicamento nunca virá para Portugal.

Ficamos com a típica anedota lusitana protagonizada por luminárias como Catarina Martins, Marco António Costa, Rui Rio, Paulo Rangel e outros, a defenderem todas as cidades e lugarejos menos Lisboa! Há vinte cidades europeias a concorrer. Eu sugiro Freixo de Espada à Cinta, para ser uma candidatura folclórica que, pelo menos, seja assumidíssima! Salva-se a comida e bebida em Trás-os-Montes, que é excelente e fica a léguas da triste francesinha…

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EVA CABRAL

É líder do CDS-PP e encabeça a coligação “pela Nossa Lisboa” que junta CDS-PP, MPT e PPM na corrida à Câmara da capital. Há meses no terreno, Assunção Cristas respondeu a um questionário elaborado por Eva Cabral, e dividido claramente em duas partes: a Política e a Vida. São vinte perguntas sobre um exercício de equilíbrio que uma determinada e sorridente mulher escolheu para a Política e para a Vida.

  • Está no terreno há meses, à frente de uma coligação que une CDS-PP, MPT e PPM na corrida à Câmara de Lisboa, intitulada “pela Nossa Lisboa”. Se for eleita Presidente da CML qual a sua primeira prioridade?

Para mim, há dois temas que ocupam ‘ex æquo’ o primeiro lugar: a mobilidade na cidade, que toca a todos (desloquemo-nos em transporte colectivo ou individual), é caótica e responsável por uma grande perda de qualidade de vida; e a inclusão social, porque me chocam de forma muito particular os inúmeros relatos que tenho ouvido nos bairros sociais, onde abundam casas por atribuir e há muitas famílias em casas sobrelotadas e/ou à espera de uma casa.

  • A pressão turística descontrolada não está a matar Lisboa?

Há gestão urbana a menos em áreas cruciais, muito afectadas pelo turismo, nomeadamente: mobilidade, higiene urbana, habitação. A CML tem um papel a desempenhar em todos estes domínios e pouco ou nada tem feito. É preciso encontrar um são equilíbrio na convivência entre residentes e turistas. O turismo traz emprego, riqueza, cosmopolitismo à cidade, mas é preciso dar atenção particular aos residentes. Até porque sem nós os próprios turistas, que tanto referenciam a autenticidade de Lisboa, perderão o interesse em visitar-nos

  • O CDS-PP sempre foi contra as “taxas e taxinhas”. Quais vai eliminar?

À cabeça, a taxa de protecção civil, que é ilegal e porventura inconstitucional (o Provedor de Justiça, aliás, acabou de enviá-la para o Tribunal Constitucional). Mas identificámos mais de 200 taxas aplicáveis em Lisboa. Proponho um “simplex” neste domínio, de forma a organizar, fundir e eliminar na medida do possível e razoável. A taxa turística, que mereceu o voto contra do CDS, está hoje bem absorvida pelo sector, pelo que neste caso a nossa preocupação centra-se na utilização das verbas arrecadadas. Vários aspectos da tal gestão urbana mais eficaz que a pressão do turismo reclama podem ser financiados por esta taxa, em estreito diálogo com o sector.

  • Leia este artigo na íntegra na edição impressa desta semana.

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No dia 15 de Junho, finalmente, o português médio começou a ganhar dinheiro para si mesmo: até então, e desde o primeiro dia de Janeiro, tudo o que recebeu foi derretido em impostos. Em Portugal, quase metade dos salários são “nacionalizados” pela classe política em impostos sobre o trabalho. E nestas contas não entram o IVA, o imposto sobre combustíveis, etc, etc. É pagar e não bufar!

Em cada dez euros que um trabalhador português recebe da entidade patronal, pelo menos quatro euros são consumidos pela máquina fiscal em impostos directos, e mais um tanto terá como destino os impostos indirectos. Esta carga fiscal significa que se estima que, de 1 de Janeiro até 15 de Junho, os trabalhadores portugueses estiveram, em média, a trabalhar para o Estado. Noutros termos: quase metade dos rendimentos do trabalhador médio em Portugal é todos os anos nacionalizado pela classe política. Algo realmente digno de um país cuja constituição afirma que o objectivo nacional é “abrir caminho para uma sociedade socialista”…

Os mais recentes números da OCDE revelam que Portugal é um dos países do mundo com maiores cargas fiscais sobre os rendimentos do trabalho. Na demanda por aproximar Portugal das “finlândias” deste mundo, a classe política aumentou desmesuradamente a despesa pública, e mesmo depois da austeridade aplicada tanto por Passos Coelho como (disfarçadamente) por Costa, o Estado vai precisar de 87 mil milhões de euros para se manter a funcionar. Esse dinheiro, como esperado, vem dos bolsos dos portugueses. Em IRS vão cobrar-nos 12 mil milhões de euros, o que parece bastante, mas quase que nem paga os juros da dívida; e em Segurança Social, que é paga tanto pelo patrão como pelo empregado, o Estado vai encaixar 22 mil milhões de euros.

Este é um dos raros aspectos em que os políticos conseguiram realmente aproximar-nos da Europa dita “progressista”: a carga fiscal sobre os trabalhadores portugueses supera mesmo a de alguns países nórdicos. Infelizmente, só nos aproximamos destes países nos impostos que pagamos. Portugal já conseguiu superar a Dinamarca e a Noruega em termos de carga fiscal sobre o trabalho. Apesar da fama, nestes dois países os trabalhadores conseguem, segundo a OCDE, levar para casa 64 por cento dos seus ordenados, mais do que os pobres portugueses, que ainda por cima recebem bastante menos em termos nominais. Ainda não conseguimos alcançar o exemplo da Finlândia — os trabalhadores finlandeses levam para casa 56 por cento do seu ordenado bruto, enquanto que os “ricos” dos portugueses ainda conseguem arrecadar 58 por cento — mas já não andamos longe dos “melhores” exemplos da taxação elevada.

Nem sempre fomos assim tão “progressistas”. Uma análise realizada pela Universidade Nova de Lisboa estima que do ano 2000 ao ano 2010 os portugueses “apenas” tinham de trabalhar para o Estado até meados do mês de Maio. Mas essa carga fiscal mais baixa tinha como contrapartida a contracção constante de créditos no estrangeiro. Desde 2011, com o “enorme aumento de impostos” aplicado pelo anterior Governo, os portugueses estão a pagar décadas acumuladas de má gestão do erário público.

Na liga dos impostos elevados, Portugal surge em desvantagem mesmo só considerando os impostos directos. Contudo, aos 58 por cento que os portugueses conseguem meter ao bolso, o Estado ainda vai buscar mais um bom bocado.

Esmifranço indirecto

A juntar ao que nos leva em IRS e Segurança Social, o Estado ainda cobra IVA aos portugueses sempre que há a venda de um bem, ou a prestação de um serviço. É, de facto, uma necessidade absoluta para a máquina estatal, pois todo o dinheiro que os trabalhadores pagaram em IRS este ano quase não chega para pagar os juros da enorme dívida portuguesa, quanto mais para fazer face ao resto das despesas.

Por isso, coloque uns dias de trabalho adicionais de lado, porque o Estado tenciona arrecadar mais em IVA este ano do que em IRS, cerca de 15 mil milhões de euros. Se conduz, então ainda vai dar mais uns dias de trabalho ao Estado, porque quase todo o dinheiro que gasta em gasolina — cerca de 70 por cento — tem como destino os cofres do erário público, num total de 3,4 mil milhões de euros. E não esquecer o imposto automóvel, onde o Estado arrecada 700 milhões dos nossos euros, ou o imposto de circulação, que ainda dá mais 300 milhões para o Governo fazer face às despesas.

Quem fuma ainda vai dar mais uns dias do seu labor a António Costa e companhia, que arrecadam 1,5 mil milhões de euros nas pesadas taxas sobre o tabaco; e se for beber um copo com amigos, então vai dar mais um dia ou dois do seu trabalho ao Estado, que assim coloca mais 280 milhões nos cofres. De facto, a única forma de não pagar taxas ao Estado é não comprar comida, não conduzir, não fumar, não beber e… não trabalhar. Uma proeza que não está ao alcance de todos.

Pague muito, leve pouco

Se os portugueses são esmifrados a um nível nórdico, seria de esperar que recebesse de volta serviços com uma qualidade similar, mas nem metade do nosso dinheiro é gasto em prestações sociais, e apenas uma minúscula parte do Orçamento do Estado este ano vai ser gasto em investimento público. Ou seja, construção de barragens, ferrovias infra-estruturas comerciais e industriais, escolas ou outras necessidades produtivas para a Nação ficam para segundo plano no uso do seu dinheiro.

Mais de metade do dinheiro que foi obrigado a entregar ao Estado tem como destino três áreas simples: juros da dívida, “gorduras do Estado” e ordenados dos funcionários públicos. Em duas destas rubricas continua a flutuar o vulto de José Sócrates.

Os juros sobre a dívida, que se prevê venham a consumir dez por cento de toda a despesa nacional este ano, dizem inteiramente respeito à dívida contraída durante o consulado do actual arguido da Operação Marquês. No total são 8 mil milhões de euros que vão ser pagos este ano com o nosso dinheiro. Em comparação, é mais do que se planeia gastar em educação, quase tanto como se planeia gastar em saúde, e o quádruplo do dinheiro que se gastou a manter o que ainda resta das nossas Forças Armadas.

Esta situação não irá mudar nos próximos anos, ou décadas, algo que o próprio Governo admite. Até ao final da actual legislatura (assumindo que não são convocadas eleições antecipadas) em 2019, os trabalhadores portugueses vão ser “convidados” a entregar uma boa fatia dos seus rendimentos anuais para pagar 23,5 mil milhões de euros em dívida, uma pequena parte dos créditos contraídos pelos anteriores Governos.

Gordo não faz dieta

A juntar aos juros da dívida, temos também de pagar que se designa em termos técnicos como “consumo intermédio”. Os políticos dizem que é nesta rubrica que se encontra aquilo a que eufemisticamente se chama “gorduras do Estado”, um termo depreciativo mas relativamente amigável que esconde as facturas que realmente absorvem uma boa parcela do nosso dinheiro. Entre os “consumos intermédios”, temos as infames Parcerias Publico-Privadas, mas também “serviços” prestados por amigos, trabalho de consultadoria muitas vezes desnecessário (e sim, pago a peso de ouro) e muito mais.

Apesar de todos os políticos falarem na necessidade de cortes nas “gorduras do Estado”, o certo é que esta rubrica continua a crescer mesmo quando se aplicam políticas de austeridade. Um mistério. Em 2016, enquanto que as despesas de capital (ou seja, investimento público) receberam um corte de 41 por cento, o consumo intermédio aumentou 2,5 por cento…

E não falamos de uma despesa pequena: 5,6 por cento do valor de toda a economia nacional são gastos com este tipo de despesas: são mais de dez mil milhões de euros. Deste valor, 2 mil milhões de euros do seu dinheiro vão ser derretidos este ano com as concessões de auto-estradas, mais do que o orçamento das nossas Forças Armadas.

Em termos de funcionários públicos, um quarto do OE17, cerca de 20 mil milhões de euros, é gasto nos ordenados do meio milhão de pessoas que trabalham para o Estado, e são quase todos administrativos. Nos quadros do Estado apenas restam 140 mil professores em todos os níveis de ensino e o nosso País tem pouco mais de 40 mil polícias. O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, por exemplo, apenas tem cerca de 700 agentes numa nação com vastas fronteiras a proteger. As Forças Armadas, por sua vez, têm pouco mais do que 30 mil efectivos, em todos os ramos e escalões.

No entanto, se tivermos em conta que uma boa fatia da população entrega praticamente metade dos rendimentos do seu ano de trabalho ao Estado, então pode-se afirmar que somos quase todos funcionários do Estado. Uns prestam serviços ao mesmo, outros financiam-no. De todas as formas, o nosso serviço público está, por agora, terminado, e podemos começar a tentar ganhar algum dinheiro para nós mesmos. Aproveitemos agora, que a 1 de Janeiro começamos novamente a trabalhar para o patrão-Estado.

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