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O debate ideológico, os interesses deixados criar pelo sistema político e as culpas acumuladas estão a impedir a avaliação rigorosa do que aconteceu ao sistema financeiro português na última década, e isso está na base dos erros sucessivos que têm sido cometidos por administrações, governos e reguladores.

Desde o caso do BPN até ao do Montepio, passando pelo Millennium, BES, Banif e Caixa Geral de Depósitos, nunca foi feita uma avaliação rigorosa e competente sobre o que correu mal, isto é, nenhum dos casos serviu para evitar os seguintes.

As comissões de inquérito da Assembleia da República, como as auditorias feitas pelas mesmas empresas que coexistiram com a devastação feita, não fizeram mais do que arranhar a superfície do problema e cada partido procurou, procura ainda, evitar que as suas culpas, as culpas dos seus dirigentes e dos seus ex-dirigentes, sejam conhecidas, com o objectivo de evitar que sejam condenados na justiça e na opinião pública.

As actuais manobras do PS na Assembleia da República para evitar que se conheça o desastre em toda a sua extensão do caso da CGD e avaliados os manobrismos de José Sócrates e de Armando Vara, bem como as culpas de sucessivas administrações, são parte do ‘cover up’ realizado desde há pelo menos dez anos e que faz dos executores norte-americanos de Watergate um bando de amadores.

O caso do Montepio é agora a cereja em cima do bolo e vale a pena ler o excelente texto de José Manuel Fernandes no “Observador” para se ficar aterrado e revoltado. Gestores a contas com a justiça, relações com o BES e com Ricardo Salgado e os favores mútuos, as matrafices da OPA sobre o Finibanco, as Assembleias-Gerais com votações totalmente viciadas; e, acima de tudo isso, paira a figura sinistra de Tomás Correia e dos seus diversos acompanhantes.

Sobre esta questão, que afecta as poupanças de mais de quinhentos mil portugueses, o Primeiro-Ministro diz-se tranquilo; o Ministro Vieira da Silva, a quem cabe regular a Associação Mutualista, dona do Montepio, está calado que nem um rato; e Carlos Costa, do Banco de Portugal, como bom burocrata, lá vai adiando o inevitável com panaceias e panos quentes.

Por sua vez, o Presidente da República anda feliz e contente a contentar os portugueses com afectos e ‘selfies’.

Ora, onde será que os portugueses já viram e pagaram – de facto, vão pagar os filhos e os netos – este filme?

Entretanto, a Procuradoria-Geral da República resolveu arquivar o processo de Dias Loureiro no BPN, o qual se declarou chocado com as insinuações feitas pelos juízes.

Vejam os leitores que choque devem sentir os portugueses em presença dos ruinosos “actos de gestão” praticados por este ex-ministro e ex-conselheiro de Estado.

Em resumo, para quando a limpeza do nosso sistema político e começar a construir uma nova democracia com seriedade e verdade?

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EVA CABRAL

A aquecer os motores para o 25 de Abril e o 1º de Maio, a ala sindicalista do “povo de esquerda” tem de mostrar serviço e manter a tradição: em Abril repete-se a ameaça de protestos mil.

O PCP e o BE parecem cada vez mais domesticados na frente política e parlamentar. Contudo, para não perderem totalmente a face perante o seu eleitorado, têm de preparar o rápido regresso “à rua”, não vá o “povo de esquerda” interpretar mal o seu apoio às medidas do PS (que sempre apelidaram de direita).

No melhor estilo de “agarrem-me senão eu bato”, o líder da CGTP, Arménio Carlos, deixou tudo bem encaminhado em recente entrevista ao ‘JN’, na qual exigiu que o Governo apresente datas para revogar as normas da legislação laboral herdadas da troika. E lá ficou o aviso: “Não nos obriguem a ir para a rua”. Mas parece que não o agarraram – e a solução é mesmo a rua.

A Federação Nacional dos Trabalhadores da Função Pública, um bastião da CGTP, marcou uma greve geral para 26 de Maio. Será a primeira deste ano e a terceira que o Governo liderado por António Costa enfrenta na Função Pública, todas com a marca desta estrutura sindical que integra a Frente Comum, afecta à CGTP. Mas a Fesap e o STE (do universo da UGT), as outras duas estruturas sindicais da Administração Pública, não estão convencidas: o recurso à greve é uma das formas de pressão que têm em cima da mesa para tentar desbloquear negociações que estão a “resvalar à semanas”, mas, para já, não querem vincular-se à iniciativa.

A greve convocada pela estrutura sindical liderada por Ana Avoila visa exigir o horário semanal das 35 horas para todos os trabalhadores da função pública. O regime das 35 horas foi reposto em Julho de 2016, deixando de fora os funcionários com contrato individual de trabalho, sobretudo os que prestam serviço nos hospitais EPE.

No seu caderno reivindicativo para 2017, a Frente Comum tinha exigido aumentos salariais de 4%, com um mínimo de 50 euros, e o descongelamento das carreiras e progressões. O Orçamento do Estado para 2017 acautelou um aumento faseado (de 50 cêntimos no total) do subsídio de alimentação dos funcionários públicos e apontou para 2018 o início do descongelamento das progressões.

Ana Avoila justifica a necessidade de “avançar já para a luta”: como o Orçamento para 2018 já está a ser preparado, não faz sentido que os trabalhadores vão para a luta “em Julho, Agosto ou Setembro”. Até porque há dinheiro “para resolver já alguns problemas”.

Têxtil com Arménio

Mas muitos outros protestos começam a aparecer que nem cogumelos. Assim, a FESETE e seus sindicatos filiados têm em curso de 3 a 7 de Abril uma Semana de Luta Reivindicativa nas empresas do sector têxtil, vestuário e calçado, pela melhoria dos salários dos trabalhadores, em particular os da produção, e pela aplicação dos direitos plasmados nos contratos colectivos sectoriais.

E lá sai Arménio Carlos para a rua. No dia 7 de Abril, o secretário-geral da CGTP/IN vai estar presente na greve dos trabalhadores da Huber Tricot (na Zona Industrial do Cavaco, em Santa Maria da Feira) pelo aumento de 40 euros nos salários.

Com protesto marcado está também o Sindicato da Hotelaria do Algarve. Com esta acção, o Sindicato pretende chamar a atenção para a grave situação social que se vive hoje em dia no sector. Embora os resultados da actividade turística registem recordes consecutivos, ano após ano, os rendimentos dos trabalhadores continuam a diminuir e a penosidade dos ritmos de trabalho não param de aumentar.

Segundo o Sindicato, os trabalhadores são os únicos que não estão a beneficiar dos excelentes resultados obtidos nos últimos anos, quando se verificou só no ano de 2016 uma subida de 17% nos proveitos. Em sentido inverso, sem contar com os ganhos de produtividade, devido ao congelamento das tabelas salariais, os trabalhadores perderam, no mínimo, cerca de 9% do poder de compra desde 2010 devido à inflação registada desde essa altura.

FNE admite tudo

Já Federação Nacional da Educação (afecta à UGT) admitiu todas as formas de contestação para dar visibilidade à insatisfação dos profissionais do sector, incluindo a articulação de acções com outras organizações sindicais.

As acções a realizar, este ano lectivo, serão decididas num plenário de dirigentes dos sindicatos da FNE, a realizar no dia 18, em Lisboa, anunciou o secretário-geral Federação, João Dias da Silva, em conferência de imprensa. Para o mesmo dia está marcada uma manifestação da Federação Nacional de Professores (FENPROF) em frente ao Ministério da Educação.

“Há um forte sentimento de desvalorização e de desconsideração relativamente aos profissionais da educação”, disse o dirigente da FNE, que representa docentes e não docentes.

Dias da Silva reiterou que os professores continuam a gastar muito tempo em tarefas não pedagógicas e que subsiste o problema da falta de funcionários nas escolas. “Há serviços a funcionar limitadamente ou que não funcionam, por falta de funcionários, e nada está a ser feito”, declarou.

O descongelamento e progressão nas carreiras é uma das principais reivindicações e cuja resolução os sindicatos temem ver adiada, por não conseguirem “um compromisso” nesse sentido por parte do ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, que consideram estar “refém” do Ministério das Finanças e “sem capacidade” para dar respostas aos problemas do sector.

De acordo com a estrutura sindical, os trabalhadores do sector estão “cansados de promessas não cumpridas” e precisam de um ministro que “seja amigo” dos profissionais da Educação.

GNR e o seu estatuto

Também a Associação dos Profissionais da Guarda (APG/GNR) anunciou que vai realizar, a 24 de Maio, uma manifestação em Lisboa para protestar contra o novo estatuto da GNR e exigir promoções que estão por concretizar.

Em comunicado, a associação mais representativa da Guarda Nacional Republicana adianta que a manifestação vai decorrer entre o Comando-Geral da GNR e o Ministério da Administração Interna (MAI), reflectindo o protesto “a existência de um grande descontentamento e desmotivação” entre os militares da GNR.

Em causa está o novo estatuto profissional da GNR, que vai entrar em vigor no início de Maio, considerando a APG que este documento “contém normas que não só acentuam a subalternização da instituição a princípios militaristas e às Forças Armadas, como produz alterações que atentam contra os direitos” dos militares desta força de segurança.

A APG está contra que as promoções passem “a ser quase exclusivamente por escolha, favorecendo os mais antigos em detrimento dos mais competentes”, e não aceita os cortes nos dias de férias, que passaram de 25 para 22 dias.

A Associação dos Profissionais da Guarda sublinha também que os militares da GNR exigem imediatamente promoções (uma vez que “estão demasiadas por concretizar” e “apenas uma percentagem vai ocorrer devido ao adiamento justificado por medidas de contenção orçamental”) e o desbloqueamento dos índices remuneratórios.

Os militares da corporação exigem ainda condições de serviço dignas”, que passam por “um real e sério investimento em meios e equipamentos”, bem como “pela gestão sustentada de recursos humanos”.

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Em 2016, António Costa promulgou uma Lei das Rendas que os senhorios portugueses logo classificaram de “gonçalvista”, porque lhes fazia lembrar o PREC de má memória. E avisaram: o mercado de arrendamento ia entrar em colapso. A premonição já se confirmou: há cada vez menos casas para arrendar, e os preços das poucas que estão disponíveis dispararam em flecha. Não contente, a ‘geringonça’ aprovou ainda mais medidas que ameaçam matar de vez o mercado.

Em 2016, a um ano de estar concluída a transição para o mercado livre das rendas, que daria mais controlo aos senhorios sobre as rendas que podem cobrar, António Costa, para apaziguar as forças de esquerda radical que sustentam o seu Governo, decidiu aprovar uma Lei das Rendas restritiva que transformou muitos senhorios, efectivamente, em órgãos de assistência social.

O Presidente da Associação Lisbonense de Proprietários, Menezes Leitão, afirmou na altura que as medidas de Costa iriam “matar o mercado de arrendamento”. A premonição tornou-se realidade. Segundo informações reveladas em Março, o número de casas arrendadas em Portugal caiu 40 por cento, apesar de a procura, especialmente entre jovens, ter aumentado. Segundo informações do portal Imovirtual, que conecta indivíduos e agências imobiliárias, quase 300 mil portugueses procuraram uma casa para arrendar, mas no mesmo período de tempo apenas foram disponibilizadas 121 mil. Falta de habitações livres não foi certamente o problema, visto que no mesmo período surgiram 600 mil anúncios de casas para vender.

Muitos senhorios não confiam na estabilidade legislativa do actual Governo, receando que as suas propriedades possam ser efectivamente nacionalizadas, algo que aconteceu a milhares de proprietários que descobriram que não podiam despejar inquilinos ou aumentar-lhes as rendas, mas que tinham de pagar tanto o IMI das propriedades (mesmo que ele fosse mais alto do que a renda que não pode ser aumentada) mais o IRS das rendas pagas (valor: 28 por cento, não proporcional), e ainda tinham de fazer obras na propriedade.

E alguns inquilinos podem ser bastante espinhosos – inquilinos como, por exemplo, o Partido Socialista, cuja secção no Bairro Alto estava a pagar apenas 93 euros mensais por uma moradia com quase mil metros quadrados. Apesar da renda irrisória da propriedade, alugada desde 1975, os socialistas exigiram obras. O que se seguiu é surreal: como o senhorio, António Manzoni, tivesse replicado não poder fazer obras a receber 93 euros por mês, os camaradas socialistas mostraram-se compreensivos e aceitaram passar a pagar 1.390 euros por mês; mas nunca honraram o compromisso, tendo acumulado 47 mil euros de rendas em atraso; e ainda assim continuaram a exigir obras, que obviamente o senhorio só poderia ter feito se lhe tivessem pago o que deviam.

Tendo em conta situações como esta, a maioria dos proprietários, quando aluga, prefere contratos de muito curto prazo, e a preços mais elevados, resultado de uma mistura tóxica de falta de confiança no mercado e de uma procura muito superior à oferta. Segundo números da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal, a renda média pedida por casas disponíveis em Lisboa é de 1.200 euros por mês, e 1.100 euros no Porto, mas quem está à procura de casa afirma apenas ter disponibilidade para pagar entre 400 e 600 euros.

E não é só nas cidades que os preços aumentam: mesmo na periferia das grandes cidades estão a subir de forma significativa. Sem hipótese de arrendar casa, resta aos portugueses comprar habitação, razão pela qual os preços das habitações aumentaram 7,1 por cento em 2016, e 6,8 por cento no primeiro trimestre de 2017, muito mais do que a inflação ou o aumento dos ordenados.

Em Lisboa, epicentro do terramoto imobiliário, os preços das casas aumentaram 10 por cento em apenas três meses. Resultado: mais endividamento para as famílias – a percentagem de portugueses com créditos à habitação subiu de 33% para 44% – e maior dificuldade para os jovens portugueses saírem de casa dos pais. Muitos só têm mesmo a opção de recorrer aos programas de rendas convencionadas das autarquias, mas são poucos os “privilegiados” que têm acesso aos mesmos. Um concurso realizado em Março pela Câmara de Lisboa recebeu três mil candidaturas para apenas dez casas. Em Abril há mais “fartura”: a CML conta disponibilizar 15 casas…

Não obstante esta situação de caos no mercado, a ‘geringonça’ decidiu regressar à carga, tendo aumentado novamente o prazo do congelamento das rendas reguladas, passando de cinco anos (no ano passado) para oito (a partir deste ano) para pessoas com “baixo rendimento”. Denote-se que o “baixo rendimento” equivale a 2.500 euros mensais ou menos.

Caso os senhorios queiram fazer obras no valor de um quarto do edifício e queiram resolver o contrato com o inquilino, têm de lhe pagar dois anos inteiros de renda. O Governo diz que esta situação se aplica a um número muito restrito de casos, cerca de sete mil, mas os proprietários discordam dos números oficiais, e afirmam existir pelo menos 50 mil inquilinos nesta situação, com a possibilidade de haver muitos mais.

Para amortecer um pouco o impacto da nova lei nos senhorios, o PS queria o ano passado aprovar um subsídio de renda para os proprietários que são eles próprios pobres mas que estão impedidos de aumentar rendas. A proposta, originalmente do Partido Socialista, acabou por ser levada ao Parlamento pela mão de um partido companheiro de ‘geringonça’, onde foi chumbada pelo PS, que pela voz da deputada Helena Roseta alegou insuficiência económica para aprovar a medida, tendo notado a parlamentar que “o Governo não tem condições para aprovar” os subsídios destinados a auxiliar as vítimas de uma lei que o Partido Socialista aprovou.

Em compensação, o IRS fixo sobre as rendas, de 28 por cento, poderá tornar-se proporcional, o que não será uma grande ajuda para os senhorios cujas rendas mal cobrem os impostos que têm de pagar ao Estado.

Longe vão os tempos em que o ministro da Administração Interna de José Sócrates, um político chamado António Costa, aprovou uma lei que iria permitir um aumento progressivo das rendas para dinamizar o mercado, acto legislativo que a esquerda radical viria a criticar ferozmente como sendo produto do Governo PSD-CDS, apesar de este a ter herdado do consulado socialista. Até mesmo os prazos estabelecidos pelo ministro Costa, e que o primeiro-ministro Costa agora quebrou, foram cumpridos pelo anterior Executivo, que concordou com a abordagem do ministro Costa, da qual o primeiro-ministro Costa agora discorda. Nessa altura, o ministro felicitou-se por ter resolvido “uma questão que tem seis décadas e que é responsável pela degradação do património imobiliário das cidades portuguesas, pelo abandono de imóveis e pelo clima de suspeita e desconfiança entre inquilinos e proprietários”.

Infelizmente, os números mostram que esse clima de suspeição está de volta, com custos elevados para os portugueses.

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EVA CABRAL

Em Portugal, António Costa e outros responsáveis governamentais lançaram foguetes pelo hipotético convite que o ministro Mário Centeno teria recebido para passar a liderar o Eurogrupo. Deslumbramento tolo ou publicidade enganosa?

O lugar é prestigiante e o ministro das Finanças português teria sido sondado para presidente do Eurogrupo. O primeiro-ministro e líder da geringonça encheu o peito e defendeu que Mário Centeno é tão bom que o País não pode prescindir dele em ‘full time’, ocupadíssimo que está a salvar as Finanças Públicas portuguesas e (talvez mesmo) a servir de farol para os seus pares.

Problema desta narrativa? A história é épica, mas ridícula. Na sexta feira, o Eurogrupo reuniu em Malta e Jeroen Dijsselbloem disse que nenhum ministro pediu a sua demissão, indo continuar no cargo independentemente dos comentários que fez sobre os povos do Sul em matéria de acerto na condução das Finanças Públicas.

Dizendo de forma clara: não está vago o cargo de presidente do Eurogrupo.

Mário Centeno terá aparentemente sido convidado para um lugar que não está vago, e passou ainda pela vergonha de o seu secretário de Estado das Finanças ter afirmado na reunião de Malta que Portugal mantém o pedido de demissão do presidente do Eurogrupo, considerando que Jeroen Dijsselbloem não percebeu que o problema nas suas declarações foi a ideia subjacente e não as palavras.

  • Leia este artigo na íntegra na edição impressa desta semana.

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LUÍS MIRA AMARAL

Engenheiro (IST), Economista, Professor Catedrático

Ministro do Trabalho e Segurança Social e da Indústria e Energia nos X, XI e XII Governos Constitucionais

O resultado do referendo sobre a permanência do Reino Unido (RU) na União Europeia (UE), levando ao “Brexit”, surpreendeu os meios económico-financeiros, provocando a depreciação da Libra e uma elevada volatilidade nos mercados financeiros, com correcções significativas dos activos de risco e consequentes valorizações dos activos de refúgio, tais como a dívida pública americana, a dívida dos países europeus do centro e ainda do ouro.

Apesar dessas fortes quedas nos primeiros momentos, os activos de risco acabaram por recuperar, para o que contribuiu em parte o suporte dos Bancos Centrais, designadamente Banco de Inglaterra (BOE) e BCE. No que toca aos mercados emergentes (EMs), espera-se também maior flexibilidade dos Bancos Centrais para acomodarem o choque, e isso é evidente na Reserva Federal Americana com a redução ou abrandamento do ciclo de subidas das taxas de juro que tinha começado, aliviando assim a pressão para a valorização do dólar. Neste contexto, os investidores tinham fugido das moedas ligadas aos emergentes e refugiaram-se em moedas como a norte-americana.

A estratégia suicida de David Cameron e a City de Londres

Nas últimas eleições gerais, que ganhou com maioria absoluta, o que lhe permitiu dispensar os liberais como “junior partner” no Executivo, Cameron, para calar a ala direita dos “Tories” e os adeptos do “Leave” liderados por Boris Johnson, o ex-mayor de Londres, prometeu o referendo.

Como seria de esperar, a demagogia campeou na campanha, ameaçando os adeptos do “Leave” com a entrada duns milhões de turcos e dizendo que a contribuição do RU para a UE permitia financiar facilmente o Serviço Nacional de Saúde (NHS).

O espantalho dessa emigração maciça, agitada demagogicamente, deve ter contribuído, e muito, para o resultado.

  • Leia este artigo na íntegra na edição impressa desta semana.

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diabo

JOSÉ ALMEIDA

O modernismo português parece viver a sua segunda vida. Ocultado durante décadas devido a inconvenientes e constrangimentos político-filosóficos levantados pelos seus principais interlocutores e protagonistas, o nosso modernismo parece estar hoje a ganhar um novo fulgor. Talvez este seja um sinal do redespertar para o “ethos” português através do reencontro com a nossa tradição.

Fundada em 1915, a revista Orpheu constituiu uma curta mas importante aventura editorial dentro do universo modernista de inícios do século XX. Pensada enquanto projecto luso-brasileiro, esta revista teve como directores Luís de Montalvor, em Portugal, e Ronald de Carvalho, no Brasil, ficando o lugar de editor reservado a António Ferro – essa figura ímpar da cultura portuguesa que viria a tornar-se no inexcedível dinamizador cultural do Estado Novo. Apesar de terem sido publicados apenas dois números daquela revista, tendo o terceiro sido abandonado por questões ligadas à suposta falta de financiamento, Orpheu deixou uma marca indelével na cultura portuguesa. Para a história ficaram também muitos dos nomes que integraram esta publicação como, por exemplo: Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Raul Leal, Santa-Rita Pintor, Mário de Sá-Carneiro, Alfredo Guisado, entre outros.

“Orpheu e o Modernismo Português” é o título de uma obra ensaística colectiva, organizada por Paulo Samuel na sequência de um colóquio promovido pela Fundação Eng. António de Almeida a 19 de Março de 2015. Este encontro foi realizado como uma extensão do Congresso Internacional “100 Orpheu”, promovido pelo CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), permitindo a descentralização das comemorações do primeiro centenário da publicação da revista Orpheu, incluindo desta forma a cidade do Porto.

Este volume reúne uma série de artigos em torno desta revista, bem como da sua influência no contexto do modernismo português e brasileiro. Entre os diversos colaboradores cujo nome perfila no sumário desta obra podemos encontrar Paulo Samuel, Ernesto Rodrigues, Fernando Aguiar-Branco, Arnaldo Saraiva, Isabel Ponce de Leão, Salvato Trigo, Eduardo Paz Barroso, António Apolinário Lourenço, Maria de Fátima Lambert, entre outros.

Conforme observa o organizador deste volume, a natureza das conferências apresentadas nesse colóquio exigia a publicação das mesmas, tanto pela qualidade literária, como pelo importante contributo que aportam aos diversos campos do conhecimento, desde a História, à estética, poesia ou literatura. De resto, a Fundação Eng. António de Almeida tem, ao longo das últimas décadas, revelado uma apurada sensibilidade pelo modo como trata as celebrações das efemérides dos momentos altos da nossa História e cultura. Seja através da organização e promoção de encontros, ou através do seu importante plano editorial – no qual se enquadra a publicação deste livro –, colocando-se assim num lugar cimeiro entre as instituições portuguesas que apoiam e promovem a cultura nacional. De resto, a importante marginália e compilação iconográfica anexa a este volume são de tudo isso uma prova mais do que firmada.

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RENATO EPIFÂNIO

Menos de um ano após ter decorrido, por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira e do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto, um Colóquio sobre “A Obra e o Pensamento de Amorim de Carvalho”, é agora lançado o volume que resultou desse evento (MIL/DG Edições), assim justificado, na contracapa: “Nascido, no Porto, duas semanas antes de José Marinho (1904-1975), a quem sobreviveria alguns meses, e mais velho um ano do que Álvaro Ribeiro (1905-1985), em cujas tertúlias lisboetas participou regular e activamente, até se ter fixado em Paris, em meados dos anos 60 da passada centúria e onde a morte o veio surpreender faz, agora, precisamente, quarenta anos, José Maria Caldas de Matos Amorim de Carvalho (1904-1976), que, literariamente, se identificava pelos dois últimos apelidos, foi uma singular figura da nossa reflexão contemporânea a que, até hoje, não fora conferida a atenção de que, inquestionavelmente, é merecedor, lacuna que o presente colóquio pretendeu começar a preencher”.

O volume inicia-se com uma panorâmica da vida e obra de Amorim de Carvalho, realizada pelo seu filho, Júlio Amorim de Carvalho, seguida de uma série de mais de uma dúzia de ensaios, que abordam as várias facetas do seu pensamento: J. Pinharanda Gomes, “A crítica dos filósofos portuenses – Amorim de Carvalho”; Afonso Rocha, “A metafísica de Sampaio (Bruno) segundo Amorim de Carvalho: um ‘positivismo metafísico’”; António Braz Teixeira, “A ontognosiologia de Amorim de Carvalho”; Artur Manso, “Amorim de Carvalho e a missão universalista de Portugal”; Filipe Delfim Santos, “A correspondência entre Amorim de Carvalho e Delfim Santos”; Joaquim Pinto, “Amorim de Carvalho e a intimação ontológica ao(s) ‘eu(s)’ orteguiano(s)”; José Almeida, “Amorim de Carvalho: entre o exílio e O fim histórico de Portugal”; Júlio Amorim de Carvalho, “Da noção de poesia à métrica na obra de Amorim de Carvalho”; Manuel Cândido Pimentel, “A dialéctica mononómica de Amorim de Carvalho”; Mário Carneiro, “Amorim de Carvalho, crítico de Fidelino de Figueiredo”; Renato Epifânio, “Para além d’O fim histórico de Portugal”; Samuel Dimas, “O problema de Deus na filosofia de Amorim de Carvalho: necessidade e liberdade, emanação e criação”.

Saiu no Diário de Notícias uma entrevista a Teixeira dos Santos, ex-ministro das Finanças de José Sócrates Pinto de Sousa, um dos responsáveis pela situação actual da Caixa-Geral de Depósitos e que nós prevíamos neste mesmo jornal, em artigo publicado em 2012, que iria dar em catástrofe.

Segue textualmente com perguntas e respostas e a devida vénia ao DN o texto da entrevista no ponto em que interessa. A ortografia é do DN, que segue o acordês em vez do Português.

*

“Teve responsabilidades diretas sobre a Caixa quando era ministro das Finanças, e escolheu um conselho de administração para a Caixa…

Escolhi dois, até.

Quando escolheu Armando Vara fê-lo por considerar que era um bom gestor bancário?

Sim.
E não se arrepende disso?
Não… Atenção! Eu acho que – e não tenho, para já, motivos, e as questões que têm vindo a ser levantadas, para mim, ainda estão por esclarecer -, neste momento, não tenho razões para dizer que foi uma má escolha. Naquele momento era uma pessoa que conhecia, com quem tinha trabalhado no governo, uma pessoa que conhecia a Caixa, porque tinha lugares de elevada responsabilidade na Cai- xa e, portanto, era uma pessoa que me dava con ança para cumprir um cargo: o cargo para que foi, ao m e ao cabo, convidado e que aceitou. Não tive, na altura, quaisquer dúvidas quanto à sua capacidade, que aliás revelou durante o período que esteve na Caixa, a ponto de o doutor Santos Ferreira, quando foi convidado para o BCP, entender convidar o Dr. Armando Vara para o levar consigo para o BCP, porque lhe reconheceu capacidade e competência, porque o mostrou enquanto esteve como administrador da Caixa. Portanto, isso, para mim…”

*

Há pouco mais a dizer. Teixeira dos Santos nomeou Armando Vara porque o conhecia! Tinha tido lugares de elevada responsabilidade, creio que um desses lugares de grande responsabilidade teria sido o de caixa num balcão remoto da instituição, o que é realmente algo de muito importante e que valoriza o currículo de qualquer gestor bancário. Uma das razões porque Teixeira dos Santos convidou Armando Vara foi porque “ao fim e ao cabo” ele o convidou e o sr. Vara aceitou!

Uma das grandes valias do sr. Vara foi ter sido reconhecido por um dos homens que conduziu o chamado “assalto do PS ao BCP” (que, entre outras coisas, quase culminava com falência deste banco), o também extremamente competente “doutor” Santos Ferreira!

Felizmente o jornal não cortou as hesitações, engasgos e soluços do Sor doutor Teixeira dos Santos para se perceber o embaraço. O que é espantoso é que Vara foi responsável pelas participações financeiras da Caixa, sector que se revelou catastrófico para a CGD e fantástico para alguns devedores que embolsaram os capitais e que nunca pagaram. O senhor doutor Teixeira dos Santos, que agora trabalha para os angolanos do BIC que lhe compraram o nosso BPN a si mesmo, “não tem, para já, motivos” para duvidar da escolha de Armando Vara e dois conselhos de administração que escolheu para a Caixa, onde aliás pontificavam outras sumidades do nosso sistema bancário como Celeste Cardona, nomeada precisamente em 2005.

Será que mais de quatro mil milhões de motivos não lhe bastam?

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Comemoram-se os sessenta anos do Tratado de Roma e fazem-se as mais diversas avaliações sobre o futuro da União Europeia, por vezes as mais delirantes. Pessoalmente, interessa-me principalmente o caso português e, nele, o mal-entendido que resulta de os Governos portugueses explicarem as suas incompetências e mal-aventurança com as falhas da União Europeia. O contexto das declarações parvalhonas de Jeroen Dijsselbloem, que tanto têm excitado os governantes e os mal governados portugueses, serve-me de deixa.

Aparentemente, não compreendemos ainda que existe um mal-entendido entre Bruxelas e Lisboa que urge esclarecer: os países do Norte da Europa não acreditam que nós nos saibamos governar e nós tudo fazemos para lhes dar razão e batemo-nos galhardamente para que eles nos ponham por conta, que é como quem diz que nos paguem as dívidas e não nos peçam nada em troca. Tudo em nome da solidariedade.

A Alemanha, país que depois da última guerra europeia se tem sabido governar bem e está em forma economicamente, representa para governantes e cronistas portugueses o mau da fita e a senhora Merkel o vilão a abater. As críticas têm como base o conceito de solidariedade dos países mais ricos para com os mais pobres, ideia defensável, não se desse o caso de já termos espatifado uns larguíssimos milhares de milhões de euros de ajudas ao desenvolvimento com o resultado que está a vista. Ou seja, enquanto nós pretendemos mais solidariedade, os alemães querem mais disciplina e por isso não nos entendemos, uma situação semelhante à que existiu entre Mário Centeno e António Domingues – trata-se aqui também de um erro de percepção mútua.

Se não nos tivéssemos endividado até ao tutano, se não tivéssemos feito investimentos ruinosos, se não tivéssemos deixado que os corruptos e os incompetentes dessem cabo do sistema financeiro e se os partidos políticos se tivessem entendido sobre a melhor estratégia para o desenvolvimento do País, teríamos certamente todas as razões para falar grosso na União Europeia. Infelizmente, apenas sabemos justificar as nossas desgraças com a crise internacional de 2008, fazendo por esquecer o pequeno problema de que a maioria dos outros países europeus soube ultrapassar a crise e, ao mesmo tempo, melhorar a vida dos seus cidadãos. A Irlanda, cuja economia cresce na casa dos 6% e onde o salário mínimo é o dobro do nosso, é disso o exemplo mais à mão.

A governação em Portugal é atrabiliária, a geringonça não se entende quanto ao futuro do País, os partidos têm entre si ideias diferentes quanto à União Europeia e à NATO, consomem-se a dialogar se é melhor nacionalizar ou privatizar, se devem aumentar os salários e o consumo ou fazer crescer o investimento e as exportações, ou tudo isso e o seu contrário ao mesmo tempo. Mas numa coisa há acordo: insultar o senhor holandês tanto quanto ele nos insultou, além de reivindicar que alguém nos perdoe as dívidas, com a probabilidade de nos continuarmos a endividar no futuro próximo.

Finalmente, e para que conste: os portugueses são tão ou mais trabalhadores do que os cidadãos dos outros países europeus; também é verdade que têm feito enormes sacrifícios para sobreviver; obviamente não são gastadores, o que seria difícil dada a média dos salários nacionais; e quanto ao álcool e a sexo, não são nem mais nem menos do que os holandeses, suponho. Por isso, o problema de Portugal, a razão dos nossos problemas e dos atrasos de muitos anos, reside na indisciplina e na má governação, nos interesses ilegítimos criados e sustentados no interior dos partidos políticos e na promiscuidade entre os negócios e a política. Porventura, tal como os gregos e os italianos.

Claro que podemos negar esta realidade, podemos mesmo continuar a diabolizar a União Europeia, mas o resultado será apenas o de esconder a incompetência e a venalidade dos responsáveis políticos e não porque essa seja a via adequada a melhorar Portugal e a construir um futuro melhor para os portugueses.

CAPA

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