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DUARTE BRANQUINHO 

“O livro de citações é dos géneros literários mais antigos”, diz-nos o autor de “500 frases que mudaram a nossa História”, de João Ferreira, um livro muito útil que nos recorda frases bem conhecidas, explicando-as e enquadrando-as historicamente, bem como algumas mal atribuídas, desfazendo enganos.

João Ferreira é jornalista e historiador, o que o torna um excelente autor de obras de História divulgativa, como “Histórias Rocambolescas da História de Portugal”, “Histórias Bizarras de um Mundo Absurdo”, ou “Frases Que Fizeram a História de Portugal”, em co-autoria com Ferreira Fernandes.

Este é um género habitualmente menosprezado pelos auto-proclamados “especialistas”, mas o seu sucesso editorial prova que contribui bastante para satisfazer a curiosidade histórica do público em geral.

A História divulgativa baseia-se na investigação académica e é um género fundamentado, que se dirige a um leque mais abrangente de leitores. Como afirmou João Ferreira em entrevista a O DIABO: “Quando estou a preparar estes livros de História divulgativa uso o resultado de muitos trabalhos feitos por investigadores universitários que trazem perspectivas originais sobre a História e que servem de matéria-prima para a divulgação.”

O aspecto mais curioso desta obra é o capítulo “Afinal, quem disse isto?”, dedicado às falsas citações ou frases mal atribuídas.

Dos vários casos, há exemplo de um bem conhecido e português: “Enterrar os mortos e cuidar dos vivos.” A frase é geralmente atribuída ao futuro marquês de Pombal, perante a destruição de Lisboa pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755.

No entanto, o autor explica que, quando o rei D. José perguntou ao seu núcleo de conselheiros o que fazer perante tamanha devastação, a resposta – segundo o historiador Veríssimo Serrão – foi-lhe dada, não por Sebastião José de Carvalho e Melo, mas por D. Pedro de Almeida, marquês de Alorna: “Enterrar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos.”

Infelizmente, a obra segue o famigerado Acordo Ortográfico de 1990, algo que apenas a empobrece. Nunca é demais recordar autores e editoras desta má decisão, porque esta é uma questão fundamental que está longe de estar encerrada.

Apesar da ortografia acordizada, este é um livro bem feito e bem organizado, com um índice de todas as citações. Um daqueles volumes aos quais recorremos amiúde, tanto para verificar o que já sabemos normalmente através de lugares-comuns, ao mesmo tempo que obtemos um enquadramento histórico, como descobrir frases marcantes que não conhecíamos ou que atribuíamos ao autor errado.

Porque, como escreveu o brasileiro João Guimarães Rosa, citado no livro, “o homem nasceu para aprender, aprender tanto quanto a vida lhe permita”.

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JOSÉ SERRÃO Celebram-se (hoje dia 9 de Novembro de 2014) os 25 anos da queda do muro de Berlim. Com ele caía, como um castelo de cartas, o bloco soviético, arrastando consigo as transformações políticas e sociais nos países de matriz comunista.

Decorrido um quarto de século, alguns desses países do Leste integram hoje a Comunidade Europeia, a Nato e outras instituições ocidentais.

A Alemanha reunificada assume hoje o papel de líder quase hegemónico da Europa, conseguindo pela economia e pela política o que não conseguira pelas duas grandes guerras que promoveu.

O pacto de Varsóvia cedeu e a Nato, pelo menos na aparência, alargou o seu poder e a sua esfera de acção integrando alguns dos inimigos de outrora.

A Rússia, adormecida durante os primeiros tempos, mostra hoje sinais de se querer assumir como a grande potência de outrora e parece ceder à tentação de restaurar os tempos gloriosos anunciadores do Amanhã que nasce.

25 anos que serviram, também, para que questionemos hoje, com a mesma acutilância e a mesma gravidade, as ideologias socialista e capitalista. Com efeito, se ao socialismo comunista, assente na igualdade de todos, ainda que com o sacrifício da liberdade individual, nas suas diferentes expressões, todos fizemos o enterro (todos? Bem, nem todos porque, qual aldeia gaulesa, permanece resistente à mudança e aos sinais dos tempos, o PCP e outros afins, como é bem claro no editorial do último Avante, que se recomenda…) surge agora agonizante o modelo capitalista.

Priorizando a liberdade como sua matriz essencial, o capitalismo tudo permitiu, não cuidando que é o Homem e não o dinheiro a razão de ser quer da economia, quer da finança, quer da política. Os escândalos financeiros na banca e nas instituições financeiras e o primado da especulação sobre a produção da riqueza, fizeram ruir a confiança e revelaram um modelo moribundo e incapaz de dar resposta às necessidades e exigências das pessoas e dos povos.

25 anos depois, tudo está posto em causa. O Homem de hoje já não se divide entre os dois blocos de ontem, muito menos entre as duas ideologias que se digladiaram no século passado. O Homem de hoje, já no pós crise financeira (ou ainda no seu rescaldo), exige participar activamente na vida social e no “governo da cidade” – muito para lá do voto -, exige transparência e rigor na gestão dos recursos colectivos, exige uma adequada repartição da riqueza e dos contributos de cada um para a causa pública, é mais solidário e recusa-se a alimentar ilusionismos ou os vendedores de facilidades.

O Homem de hoje quer assumir a cidadania, não como uma expressão meramente formal da democracia, mas como um imperativo de consciência que o impele a agir.

Na mesma senda, transposta para as Nações, assistimos a sinais bem interessantes das vontades de independência de Nações integradas em Estados fortes e até seculares. Falo da Escócia, onde decorreu recentemente um referendo sobre o seu futuro dentro ou fora do reino Unido, e falo da Catalunha dentro de Espanha, onde este fim-de-semana decorreu um referendo simbólico sobre a mesma causa.

Pessoas, Povos e Nações aspiram hoje a novos patamares de liberdade, que não encontram eco nos modelos do passado e até do presente.

Vivemos tempos de mudança e cabe-nos a nós, só a nós, encontrar os caminhos do futuro. Seremos capazes?

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Os comunistas continuam a propalar “verdades” ideológicas que nada têm a ver com a verdade dos factos

O artigo do jornal do PCP sobre a queda do muro de Berlim fez rir muita gente. Mas não é caso para isso. Os comunistas continuam a defender com unhas e dentes uma ditadura desumana que mandava atirar a matar sobre os seus próprios cidadãos. O mesmo PCP com quem António Costa formou uma coligação…

Um caso de humor involuntário? Não, muito mais grave do que isso. O artigo com o título “A chamada ‘queda do muro de Berlim’”, publicado no semanário ‘Avante!’, jornal oficial do PCP, não é para ser lido com ligeireza.

O “órgão central” serve para delimitar a ortodoxia doutrinal dos comunistas portugueses que, em pleno século XXI, 25 anos depois da derrocada do Muro da Vergonha, continua a propalar “verdades” ideológicas que nada têm a ver com a verdade dos factos.

Damos de barato a propaganda, a fazer lembrar a velha cassete dos tempos do dr. Barreirinhas Cunhal – mas em versão simplista, porventura mais ao gosto do incansável animador dos serões culturais de Pirescoxe -, de que o melhor exemplo é a conclusão lapidar: “Num processo acidentado, feito de avanços e recuos, de vitórias e derrotas, o futuro da Humanidade não é o capitalismo mas o socialismo e o comunismo.”

O que nos interessa apontar são as inverdades factuais, vulgo mentiras, do “órgão central”: “A construção do muro de Berlim em 1961, com carácter defensivo (…)”.

Muro de protecção… contra os alemães de leste

tumblr_m8xb80xMPj1qa1iiqo1_1280O primeiro-secretário do Partido Socialista Unificado (resultado da fusão forçada do Partido Comunista com o Partido Social-Democrata, na zona de ocupação soviética) e presidente do Conselho de Estado da RDA (isto é, o ditador comunista da Alemanha Oriental), Walter Ullbricht, chamou-lhe “muro de protecção antifascista” – mas só depois de iniciada a construção, em Agosto de 1961.

Apenas semanas antes, a 15 de Junho, jurava a pés juntos, numa conferência de imprensa, em resposta a uma pergunta directa da correspondente do diário ‘Frankfurter Rundschau’: “Ninguém tem a intenção de construir um muro.”

Na verdade, a única coisa que o muro pretendia proteger era o regime de Pankow (o bairro de Berlim Oriental onde estava instalado o governo do partido único) contra a sua própria população. Inconformados com a ditadura comunista, os alemães de leste tinham optado por “votar com os pés”: até 1961, mais de 2,5 milhões tinham trocado o “paraíso dos trabalhadores” pelo Ocidente capitalista, a maior parte através do sector de ocupação soviética de Berlim.

Continua o ‘Avante!’: “É a resposta a constantes provocações na linha de demarcação entre a parte Leste e Ocidental da cidade e reiteradas violações de soberania da RDA, no coração de cujo território se encontrava Berlim, num incontestável acto de segurança e de soberania.”

“Faixa da morte”

É natural que o PCP considere “constantes provocações” as milhares de tentativas de fuga de alemães para Berlim Ocidental depois da construção do muro e da instalação de um complexo sistema de vigilância e repressão.

Este incluía uma primeira barreira de cimento e arame farpado (o “muro interior”), uma cerca electrificada; ‘snipers’ colocados no alto de torres com ordem para matar; cães de guarda colocados ao longo do perímetro; uma larga faixa de terra e areia para facilitar a detecção de pegadas, separada por um corredor central de cimento para permitir a deslocação de veículos policiais; constantes patrulhas armadas ao longo do muro com ordem para disparar a matar; e, no limite da “faixa da morte”, armadilhas anti-carro e espigões para rasgar pneus e impedir a aproximação ao último e mais poderoso obstáculo: o muro propriamente dito, uma estrutura de cimento com 3,6 metros de altura, arredondado no topo para dificultar tentativas de escalada, ao longo de 106 quilómetros, cercando completamente Berlim Ocidental.

Voltando um pouco atrás no artigo do “órgão central”: “Hostilizada e caluniada pela reacção internacional, a RDA, pelas suas notáveis realizações nos planos económico, social e cultural e pela sua política antifascista e de paz, impôs-se e fez-se respeitar no concerto das nações (…)”

Túneis, carros, balões e ultra-leves

O que o ‘Avante!’ omite é a epopeia heróica de milhares de alemães comuns que arriscaram a vida para fugir ao regime dessas “notáveis realizações nos planos económico, social e cultural”.

Cerca de 5000 conseguiram: famílias inteiras escaparam por túneis escavados sob a “faixa da morte”, outros voaram para a liberdade em balões e ultra-leves, muitos atiraram-se contra o arame farpado e saltaram o muro durante a construção (foi o caso do jovem polícia Conrad Schumann, logo em Agosto de 1961).

A maior parte conseguiu “rasgar a cortina de ferro” passando para o Ocidente em carros modificados das maneiras mais imaginativas: debaixo dos bancos, junto às rodas ou, como fez uma rapariga de 17 anos, em 1987, ensanduichada entre duas pranchas de surf.

136 mortos

Mauerfall_1989_Berlin_Getty_112122114_pt_8Mas muitos não sobreviveram. As estatísticas oficiais identificaram 136 pessoas mortas na sequência da tentativa de escapar à ditadura comunista. A primeira vítima mortal do muro foi a viúva Ida Siekmann, de 58 anos, que no dia 22 de Agosto de 1961 saltou da janela de sua casa, no terceiro andar do nº 48 da Bernauer Strasse – o prédio pertencia à zona de ocupação soviética, mas o passeio já estava dentro da zona francesa.

Dois dias depois, Günter Litfin, de 24 anos, foi a primeira pessoa abatida a tiro pelos guardas do Muro da Vergonha. As mortes sucederam-se: junto ao muro, nos rios Spree e Havel e no canal Teltow. O último morto da lista foi Winfried Freudenberg, a 8 de Março de 1989.

Nem as igrejas escapavam: para facilitar a vigilância na “faixa da morte” confinante com a zona francesa, o regime comunista mandou arrasar a Igreja da Reconciliação, na Bernauer Strasse, em 1985.

Anedotas

East_German_Guard_-_Flickr_-_The_Central_Intelligence_Agency_(1)_CMYKO beijo na boca entre o chefe da RDA, Erich Honnecker, e o todo-poderoso secretário-geral soviético, Leonid Brejnev, tornou-se um ícone do “socialismo real”.

Descontando a componente homoerótica na relação entre líderes de “partidos irmãos”, o comunismo foi um manancial inesgotável de anedotas. Apesar de ser apanhado a contá-las poder custar pesadas de penas de prisão por “difusão de propaganda anti-socialista”…

Aqui fica uma: Erich Honnecker levanta-se de manhã, abre a janela do quarto e saúda: “Bom dia, sol”. Responde o sol: “Bom dia, camarada secretário-geral!”

Ao meio-dia, no seu gabinete, Honnecker vai à varanda e diz: “Boa tarde, sol!” E o sol: “Boa tarde, camarada secretário-geral!”

Ao pôr-do-sol, Honnecker despede-se: “Até amanhã, sol!” Silêncio. Honnecker volta à carga: “Então, sol, não me respondes?” E o sol, por fim: “Eu quero que tu te *****! Agora estou no Ocidente!”

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Uma auditoria do Tribunal de Contas da União europeia arrasa alguns países que gostam de acusar mas que, no momento da verdade, são tão culpados como os outros do mau uso dado aos dinheiros de Bruxelas.

Foi revelado que mais de 5% do orçamento da União Europeia são desperdiçados em gastos que, no mínimo, são impróprios. Ou seja, nunca deviam ter sido feitos.

Quem o revela é o próprio Tribunal de Contas da União Europeia, segundo o qual estes 5% já incluem o reembolso que os vários Estados-membros conseguiram obter: sem este factor, a taxa de erro total seria de 6,3%. Dada a dificuldade na obtenção dos reembolsos, o facto é que quem recebeu dinheiro de forma irregular fica, geralmente, a rir-se.

Mas nota-se um pequeno esforço para proteger, ainda que minimamente, o complexo de Babel que actualmente se chama União Europeia, pelo mesmo organismo responsável pela auditoria.

Ora, dizem os eurocratas, não estamos perante uma situação de “fraude”, pois fraude é, de acordo com os seus próprios termos, “um acto lesivo deliberado para obter um benefício”, e neste caso estaremos perante casos de “montantes que não deveriam ter sido pagos porque não foram utilizados em conformidade com a legislação aplicável”.

Ou seja: um agricultor da Sardenha que recebeu fundos europeus para não usar um químico nocivo para o ambiente mas que, afinal, usou esse químico pelo menos 12 vezes, não praticou uma fraude, apenas uma “irregularidade”…

Do ponto de vista estritamente formal, é possível que o Tribunal de Contas não esteja errado: segundo aquele órgão comunitário, a culpa pode não estar em quem faz o pedido, mas sim em quem está disposto a aceitá-lo sem quase olhar para ele.

Gasta! Gasta! Gasta!

Há anos que a história do agricultor que, em vez de um tractor, comprou um Range Rover com fundos europeus circula nas conversas de café dos portugueses. Tal como em todas as histórias, existe um pouco de verdade, de mentira e de preconceito à mistura, mas o facto é que esta auditoria revela que a forma como o sistema está montado significa que a história, no mínimo, é inteiramente plausível.

E a culpa reside, em grande parte, nos Estados-membros. A auditoria revela que as autoridades de cada Estado dispunham de informação suficiente para resolverem rapidamente os casos de irregularidade, sem ser necessária intervenção dos órgãos da União. E Portugal não é citado como um dos piores casos, embora o país que diz que somos mal organizados, a Alemanha, seja citada como um fracasso neste campo, bem como a Irlanda, França e Itália. Porventura, até fomos “honestos demais”, tendo em conta a possibilidade de países mais ricos do que o nosso estarem a ser favorecidos com dinheiros saídos do nosso orçamento.

A auditoria critica o ambiente esbanjador que rodeia o sistema de atribuição de fundos, que denomina como “gastar ou perder”. Ou seja, cada Estado está mais concentrado em absorver o máximo de fundos europeus, prontificando-se a ajudar o cidadão a cumprir as regras necessárias para que as propostas sejam aceites pela burocracia bizantina de Bruxelas.

Segundo a auditoria, quase metade das ditas “irregularidades” encontra-se no sector da “política regional, transportes e energia”, ou dito por miúdos, no segmento da infra-estrutura e obras públicas: 6,9% de todo o dinheiro gasto neste segmento seguiram a norma regulamentar. Segue-se o sector do “desenvolvimento rural, ambiente, pescas e saúde”, onde 6,7% das verbas foram mal gastos – ainda assim uma melhoria, visto que a taxa de erro já chegou a atingir os 7,9% em 2012.

Orgia keynesiana

Mas, neste ambiente de orgia keynesiana, ninguém parece estar muito preocupado com os benefícios destes investimentos. Talvez seja por causa disso que António Costa tanto quer investimento europeu: gastar dinheiro sem resultados tangíveis é quase uma plataforma do partido que lidera.

“Falta de ênfase no desempenho constitui uma deficiência fundamental na concepção de grande parte do orçamento da UE”, dizem os auditores. Nada que não fosse esperado de uma organização que até há relativamente pouco tempo pagava aos agricultores e pescadores europeus para não produzirem, de forma a serem cumpridas as “quotas de mercado” inventadas por Bruxelas.

O objectivo é gastar, o mais rapidamente possível, sem olhar a resultados. Não é de admirar que haja erros numa organização que funciona com esta mentalidade.

Afirmam os auditores que a fonte de maior erro é a “inclusão de custos inelegíveis nas declarações de despesas”, ou seja, despesas com gasolina de carros privados, pagamentos de tarifas de telemóveis, Range Rovers em vez de tractores, entre outros desvios.

A este segmento seguem-se “projectos, actividades ou beneficiários inelegíveis” e ainda algo que todos suspeitávamos que acontecia: “erros graves na adjudicação de contratos públicos”. Mas desengane-se o leitor se pensa que este é um fenómeno exclusivamente português: um dos casos de “infâmia” que é apresentado pelos auditores vem da terra dos defensores da “moralidade e austeridade”, a implacável Alemanha.

O caso é simples: na terra da senhora Merkel estava a ser construído um terminal de passageiros num aeroporto, mas a execução do projecto correu mal e precisou de obras complementares. O problema reside no facto de que estas obras alemãs, que foram feitas com financiamento de todos os europeus, foram adjudicadas sem concurso, de forma directa. Se fosse em Portugal já se gritava “compadrio!” e “corrupção!”, mas na terra dos diligentes engenheiros, pelos vistos, não passa tudo de “irregularidade”.

Mais abusos

Outro exemplo mostra bem como comportamentos que consideramos como “tipicamente portugueses” são, afinal, correntes noutros países, que apenas sabem esconder melhor os seus pecados e não alimentam o vício da auto-depreciação. Na Eslovénia foi criada uma pequena/média empresa (PME) com base em fundos europeus.

O objectivo desta empresa era promover a investigação e o desenvolvimento na área da indústria automóvel. E, no entanto, veio-se a descobrir que a empresa era propriedade de grandes grupos económicos e que trabalhava em regime de exclusividade para estes.

Noutro caso, os nossos vizinhos espanhóis decidiram comprar quatro helicópteros com a finalidade de patrulhar as fronteiras externas da Europa, de forma a combater a imigração ilegal.

Enviaram a factura para a UE, que só mais tarde descobriu-se que os helicópteros apenas estão a ser usados para o propósito oficial durante 25% do seu tempo de utilização. Entretanto, a nossa Força Aérea, com um orçamento cada vez mais reduzido, tem de continuar a dar uso aos velhinhos Alouette, helicópteros que já vêm do tempo da guerra no Ultramar.

Mas, no fim, há que referenciar um ponto positivo: a taxa de erro na receita é de 0%, o que significa que, pelo menos, no momento de “sacar” dinheiro aos Estados, que por sua vez o “sacam” aos contribuintes, a União Europeia funciona perfeitamente. Só a gastar é que já não exibe tantos escrúpulos…

É capaz de ser por estas razões que o Reino Unido, e agora também a Holanda, estão a recusar pagar um aumento nas suas contribuições. A Alemanha protesta, até ameaça expulsar estes países da EU (algo que não pode, na verdade, fazer), mas o facto é que as sementes da discórdia estão lançadas.

Pode a (des)União Europeia continuar assim?

Apartes

Ioannes_Claudius_Juncker_die_7_Martis_2014É preciso lata!

O novo líder da União Europeia, Jean Claude Juncker, que foi primeiro-ministro do Luxemburgo durante uma década, usou práticas muito pouco “europeias” para favorecer o seu país em detrimento de outros – soube-se na semana que findou.

Durante o seu consulado, Juncker assinou centenas de contratos com grandes multinacionais para que pudessem fugir aos impostos noutros países. No Luxemburgo, aquelas empresas pagavam menos de 1% sobre os seus lucros.

Ora, assim é fácil para um país com apenas meio milhão de habitantes viver muito acima da média europeia. Com que autoridade e moral virá este senhor agora defender o fim da offshore da Madeira, quando ele próprio ordenou a criação da offshore do Luxemburgo?

Infelizmente para Juncker, ele é agora o líder que tem de impedir “conflitos de taxação” numa Europa que não se quer a funcionar a dois tempos e em guerra consigo mesma.

Nem carne nem peixe: o que é a União Europeia?

europe-69526Neste momento em que tanto se questiona a União Europeia, há um dado que fica sempre pouco esclarecido: o que é, de facto, a UE?

A UE não é considerada um Estado Federal, visto que cada Estado membro pode sair da União a qualquer momento, e que a UE não possui Forças Armadas de dimensão significativa. É por esta razão considerada uma organização supranacional e intergovernamental.

E se compararmos a UE com o exemplo da bicentenária Federação de Estados do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos da América, verificaremos que a organização estrutural de ambos é bem semelhante.

Tal como na UE, a soberania nos EUA considera-se dividida entre os seus estados constituintes e o governo central. E para reforçar o paralelo histórico, os EUA eram uma Confederação com um governo central muito fraco antes da aprovação da sua primeira (e, até hoje, única) Constituição, em 1789. Situação nada dissimilar da europeia antes da aprovação do Tratado de Maastricht e do Tratado de Lisboa, que criaram e reforçaram, respectivamente, a União Europeia, em substituição da Comunidade Económica Europeia

No século XIX, o orçamento federal dos EUA era consideravelmente mais pequeno do que o orçamento dos Estados-membros, não tendo poder para taxar directamente os seus cidadãos e ficando dependente de taxas aduaneiras e de financiamento por parte de cada Estado.

O jovem país também tinha um exército federal muito pequeno, enquanto que cada estado tinha a seu cargo a organização das suas próprias forças de defesa (a Guarda Nacional dos EUA descende destes exércitos estaduais).

Tal como a UE, os Estados Unidos possuem uma moeda única, de cuja gestão os Estados-membros estão excluídos. No caso dos EUA, o banco central é a Reserva Federal; no caso da U, o Banco Central Europeu.

E o Conselho Europeu? Este órgão, composto pelos líderes dos 28 Estados europeus, não tem de facto equivalente nos Estados Unidos. Não tem hoje, mas já teve no século XIX, quando o Senado dos Estados Unidos, Câmara Alta do Congresso, era composto por representantes nomeados pelos líderes dos vários Estados, e não por eleição popular. A sua função, tal como a do Conselho Europeu, era representar os vários Estados-membros e os seus governos.

E, tal e qual como nos Estados Unidos da América, existe uma legislatura bicamaral na Europa, visto que, para todos os efeitos, o Parlamento Europeu serve a mesma função de câmara baixa que a Câmara dos Representantes do Congresso Norte-Americano, enquanto que o Conselho serve como câmara alta.

Portanto, não será a UE um pouco “pesada” demais para ser uma simples organização supranacional? Será que a UE já pode ser considerada uma federação?

Bruxelas evita a questão, pois o anti-federalismo ainda é uma força poderosa na Europa. Mas os indícios estão aí…

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Aumento do número de emigrantes com curso superior segue em proporção com o número de novos licenciados. Europa insiste que quase metade dos portugueses têm de ter um curso superior. Seremos doutores em terra de agricultores.

Estará o leitor a par da celeuma da última semana sobre declarações alemãs sobre o número de licenciados em Portugal. Mas antes de irmos às palavras da chanceler Merkel, teremos de ser claros: sim, há licenciados a mais no nosso País. E pior: há licenciados mal formados.

No início de 2004 existiam cerca de 81 mil licenciados desempregados há mais de um ano, segundo dados do INE divulgados pelo Ministério da Economia.

Os dados do Instituto Nacional de Estatística referiam-se ao terceiro trimestre do ano passado e apontavam para um aumento de 11 mil pessoas face ao mesmo período de 2012 e mais cinco mil pessoas face ao segundo trimestre.

Os números do boletim do emprego do Ministério da Economia mostravam “uma realidade bastante adversa para os diplomados no terceiro de trimestre de 2013”.

Neste período, o desemprego de longa duração total parecia “estar a dar a volta”. No entanto, o grupo dos licenciados não acompanhou a tendência geral, juntamente com os desempregados com o 3.º ciclo do ensino básico concluído.

Verificou-se uma melhoria no segundo trimestre, mas depois a situação começou a piorar, tendo-se atingido a segunda marca mais elevada de que há registo.

Já o estudo “Employment and Social Developments in Europe 2013”, elaborado por peritos da Direcção-Geral do Emprego da Comissão Europeia, que refere que “Portugal é dos países europeus com maior índice de sobre-qualificação no emprego”.

Mais qualificação no papel, mas menos conhecimento. Esta é a realidade que chega às empresas portuguesas. Os recém-licenciados, na sua maioria, não estão preparados nem têm as ferramentas adequadas para o mercado de trabalho. O Processo de Bolonha veio agravar essa realidade. “Licenciaturas-expresso” adquiridas em três anos e aumento de vagas para que as universidades possam beneficiar do dinheiro das propinas.

Nos cursos “mais a sério”, a exigência é que licenciatura e mestrado fiquem juntos; e os estudantes, nesses casos, têm de frequentar o ensino durante, pelo menos, cinco anos.

Mercado não procura licenciados

As políticas de ensino que quiseram acompanhar a realidade europeia deram asneira. Portugal tem especificidades diferentes. Somos um povo da agriculta e do mar, do turismo e das fábricas. E andamos a destruir tudo isso para sermos como os restantes países europeus. Somos diferentes.

Andámos a formar estudantes e a dar licenciaturas com um sonho de um país de doutores. Agora, esses doutores a quem foi dado um sonho partem em busca do mesmo, mas lá para fora.

Quase metade dos actuais estudantes universitários pondera emigrar e um em cada 13 portugueses com curso superior emigrou no longínquo ano de 2000, para um total de 90 mil emigrantes nesse ano.

Nada se fez nestes 14 anos para mudar a realidade. Aliás, insistiu-se no erro. Só a Eslováquia (14%) e a Irlanda (23%) nos ultrapassam em termos de fuga de cérebros para o estrangeiro, na União Europeia.

Mais. O número de licenciados desempregados a emigrar aumentou 49,5% entre 2009 e 2011. Um dado que tem relação directa com o número de licenciados em Portugal. É que Portugal contava em 2011 com mais de 1,2 milhões de (pelo menos) licenciados, um aumento de 588 mil no espaço de dez anos.

Ou seja, aumentámos o número de licenciados e na mesma proporção o número de emigrantes. Não vê quem não quer. E na Europa insistem para que tenhamos ainda mais licenciados.

Europa exige

De acordo com o gabinete oficial de estatísticas da União Europeia (UE) – Eurostat, 29,2% dos portugueses entre os 30 e os 34 anos eram licenciados em 2013, registando um aumento de dois pontos percentuais em relação ao ano anterior. O valor continua longe da média na Europa dos 28 (36,8%) e mais longe ainda da meta de 40% que Portugal teria de alcançar em 2020.

O objectivo de, em 2020, ter um Portugal um total de 40% da população entre os 30 e os 34 anos com formação superior traz à discussão outras questões. Desde logo, a empregabilidade e a adaptação da oferta por parte das instituições de ensino superior. A capacidade de escoamento do mercado de trabalho não é proporcional à quantidade de diplomados que todos os anos são lançados pelas instituições.

Nesse sentido, as universidades viram-se obrigadas a adaptar a sua oferta, diminuindo, em alguns casos drasticamente, o número de vagas disponíveis e contrariando a desejável tendência de aumento do número de pessoas com formação superior.

Mas quem olha só para números não quer saber disso. Fique a saber o leitor que a segunda fase de acesso ao Ensino Superior registou a admissão de 8.602 novos estudantes nas universidades e politécnicos, mas esta segunda fase de candidaturas deixou 70 cursos sem estudantes – a maior parte dos quais no ramo da Engenharia, que deixou 45 cursos vazios em todo o País. São cursos sem e para ninguém.

Merkel com razão

Com políticas educativas completamente alheadas da realidade, razão tem Angela Merkel – ainda que as palavras tenham sido inventadas pela comunicação social portuguesa.

Na semana passada, os portugueses foram bombardeados pelas alegadas afirmações da chanceler alemã. Houve mesmo um ministro – Nuno Crato – que respondeu às alegadas afirmações de Merkel. Todas as notícias citavam a agência Lusa e a Bloomberg. A Lusa referia a Bloomberg. Na Bloomberg, nem uma palavra sobre o assunto.

Uma procura mais intensa e lá se encontra o discurso da responsável alemã, que disse algo como: “Eu peço a todos vocês para tornarem claro nos vossos discursos em escolas e perante jovens: a formação profissional é um excelente pré-requisito para levar uma vida de prosperidade. Faremos tudo o que estiver no nosso poder.

Também a OCDE nos fornece muitos números úteis que afirmam que não é uma ‘descida’ social, que o filho ou a filha de um trabalhador qualificado complete uma formação como trabalhador qualificado novamente e, de seguida, se torne um bom técnico. Temos que abandonar a ideia de que o ensino superior é o Nonplusultra para uma carreira bem sucedida. De outra forma não poderemos provar a países como Espanha e Portugal, que têm demasiados licenciados e procuram hoje vias de formação profissional, que isso é bom”.

Ora, isto é muito diferente de “Merkel diz que Portugal tem demasiados licenciados”. Mas se o tivesse dito, desta vez, teria razão em relação ao nosso País.

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As Finanças antecipam notícias maravilhosas para os portugueses, a Oposição insiste no relato de um País sem trabalho e sem dinheiro. Os portugueses seguem o seu dia-a-dia e já nem os discursos fatalistas ou as previsões douradas de melhores dias têm impacto na sociedade.

Portugal aprendeu que os discursos políticos não têm qualquer valor real. Fartos de parangonas fatalistas ou de promessas vãs, os portugueses lutam diariamente alheando-se cada vez mais da política nacional.

Vale de pouco que a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, tenha dito no sábado à noite em Oliveira de Azeméis que poderá haver “surpresas positivas” em 2015, afirmando que mantém confiança nas previsões do Governo no Orçamento do Estado do próximo ano. São previsões atrás de previsões, feitas num qualquer gabinete longe da realidade popular.

“Acreditamos mesmo que elas [previsões] não são optimistas demais e que teremos margem para conseguir resultados melhores, até, do que aqueles que estão agora no Orçamento e que podemos ter surpresas positivas ao longo do ano de 2015, porque aquilo que estamos a ver como sinais é francamente encorajador”, declarou a governante.

Não esteja o leitor mais desatento a pensar que isto de anunciar o fim da crise é coisa nova. Em Setembro de 2012, O DIABO avisava que se vivia o “1X2 do fim da crise”.

E não falhou uma vírgula: “É a corrida a ver quem acerta na data do fim da crise, qual aposta no totobola. Da Esquerda à Direita, os governantes lusos vão atirando para o ar datas e anos.

Até hoje, para infelicidade de milhões de portugueses, ainda não há totalistas.E os jackpotes – em forma de impostos – vão-se acumulando”.

Em 2009, o então primeiro-ministro afirmava, sem dúvidas: “É o princípio do fim da crise”. Eram as certezas de José Sócrates, em Agosto, no final do primeiro conselho de ministros depois das férias.

Sócrates reforçava assim o que o seu ministro das Finanças já tinha dito, dois meses antes, quando os indicadores sobre o clima económico subiram pela primeira vez desde 2008: “Quero crer que estamos mais próximos do fim da crise do que do seu início e creio que estaremos, porventura, a passar o pior momento da crise nos últimos meses e que, como os indicadores têm vindo a acentuar, a crise está a atenuar-se”.

Em 2011, o ministro Álvaro Santos Pereira também quis ficar na história das apostas, frisando “que 2012, assim como os indicadores mostram, será o princípio do fim da crise”.

Também o actual primeiro-ministro já tinha apontado 2012 como “o ano do princípio do fim da emergência nacional”. Vivia-se o dia 4 de Setembro de 2011, era o último dia da Universidade de Verão do PSD em Castelo de Vide. O mesmo discurso – com a devida correcção temporal – foi feito com pompa e circunstância em 2012, em 2013 e agora em 2014.

Um dia irão acertar.

Perspectiva de futuro

Maria Luís Albuquerque referiu ainda que o Orçamento do próximo ano “dá aos portugueses uma perspectiva de um futuro que começa a ser melhor, em que temos crescimento”.

“Saímos da recessão, tivemos um ano de 2014 de crescimento e teremos um ano de 2105 de maior crescimento, que significa recuperação para todos”, disse a governante, admitindo que o Orçamento do Estado para 2016 poderá ser melhor se continuarmos no caminho do rigor, da responsabilidade, do trabalho e da recuperação.

Imediatamente antes da intervenção da ministra das Finanças, o líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro, também se referiu às previsões do Orçamento do Estado, afirmando que o Governo “tem falhado muitas vezes, mas a favor do País e do desempenho do País”.

“A troika perspectiva para o próximo ano um quadro mais negativo do que aquilo que nós estimamos no Orçamento e, pasme-se, a nossa oposição e o PS, em particular, vieram dizer para ouvir a troika”, assinalou Luís Montenegro. Parece que o PS “já está com saudades da troika”, acrescentou.

O líder da bancada parlamentar do PSD criticou ainda a actual liderança socialista, afirmando que “revela arrogância e fraqueza”, por se recusar a fazer compromissos.

“Não perdem as eleições por fazer acordos ou compromissos com as questões essenciais”, referiu Luís Montengro, considerando que este comportamento político prejudica o País.

Costa já responde pelo PS

As acusações são mútuas. E do lado dos socialistas é o (ainda) autarca António Costa quem vem a terreiro. “Porque é que o Governo fracassou e hoje não tem soluções? Porque iniciou funções sem ter uma estratégia.

Tinha simplesmente um programa de ajustamento e acreditou que, cumprindo à risca esse programa e indo mais além do que a própria troika, produziria o milagre de resolver os problemas estruturais do País”, afirmou António Costa, em Castelo Branco, numa sessão partidária em que apresentou a sua “agenda para a década.

O candidato socialista – que quer ser primeiro-ministro – realçou “o fracasso” do actual Governo, que não diminuiu a dívida, “não acertou ainda numa única meta do seu orçamento e ainda não conseguiu produzir um único orçamento que não fosse contra a Constituição”.

O Governo, acrescentou, “conduziu [o País] à estagnação económica, aumentou brutalmente o desemprego, os níveis de empobrecimento, retomou um ciclo de emigração como não tínhamos desde o 25 de Abril, e a verdade é que está neste momento perdido, sem encontrar soluções para a falta de estratégia e ausência de programa”.

António Costa sublinhou que não é possível ser-se Governo sem ter uma visão estratégica e adiantou que o Governo liderado por Pedro Passos Coelho, “se tivesse uma visão estratégica, não estava hoje perdido, sem saber o que fazer perante o fracasso do programa de ajustamento”.

“É isso que o País tem que resolver. Construir a alternativa não é só substituir a direita pelo PS. É garantir que o próximo Governo do PS fará diferente do que a direita fez”, disse.

E, segundo António Costa, a primeira diferença está no facto de que o PS “tem uma estratégia para o País e a direita não tem”.

Quem os ouve não os leva presos…

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“Vamos dormir”, versão século XXI

PAULO FERRERO

Sinais dos tempos: os meninos continuam rabinos mas na hora da deita, quando há que apagar a luz e o sono já espreita, os livrinhos de história já não são o que eram nem conseguem o que dantes conseguiam. Resultado: não há mãe que a tanto resista, ao pesadelo real de não conseguir dormir nem fazer com que o filho Samuel o faça. No fim quem se trama é o cão.

Esta podia ser a sinopse, bastante injusta, de “O Senhor Babadook”, o filme australiano de terror psicológico que Jennifer Kent escreveu e realizou, e Essie Davis e o pequeno Noah Wiseman interpretam de forma soberba.

Eles e a personagem terrífica que dá título ao filme e que mais não é do que o próprio desaparecido feito lobo feroz imaginário dos três porquinhos (aqui dois), numa espécie de cruzamento de Mr. Penguin com Nosferatu, fruto assombroso dos medos, traumas e complexos de ambos, e das culpas a que se atribuem reciprocamente, mãe e filho.

No filme, que é rodado todo ele, praticamente, em ‘huis clos’ e decorado a cinzentos e azúis (é magnífica a fotografia do polaco Radek Ladczuk), onde só há “princesas” e os homens parecem ser doutro mundo, há uma grande história de terror à oriental para contar, onde os inevitáveis alçapões e o ranger da madeira, mais as respetivas pancadas de entrada em cena e uma música impressiva, convivem em pé de igualdade com uma reflexão honesta sobre o mundo que nos rodeia: a família, a solidão, a velhice, o sentimento de perda, as falsas amizades, a degenerescência, e tudo o mais que se sabe.

  • O Senhor Babadook
  • Título original: The Babadook
  • De: Jennifer Kent
  • Com: Essie Davis, Daniel Henshall, Tiffany Lyndall-Knight
  • AUS, 2014, 93 min.
  • Estreia: 16 de Outubro de 2014.

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JOÃO VAZ

Num panorama editorial dominado pelo esquerdismo e o politicamente correcto, de vez em quando aparece um ensaio assim. E, por sinal, a Guerra e Paz ainda vai sendo uma das casas que nos surpreende positivamente. Foi assim com John Gray, Paul Johnson, Roger Scruton e agora com Rodney Stark.

“O Triunfo do Ocidente” é um livro que vai contra muito do que se vende agora como verdadeiro e indiscutível. Por isso, não deverá merecer grandes destaques na Imprensa do costume. Vai contra um certo tipo de revisionismo permitido, o revisionismo bom, aquele que ensina que o Ocidente foi uma entidade maligna, exploradora e causadora de boa parte dos males do mundo, talvez de todos. Rodney Stark mostra-nos que não é assim, antes pelo contrário.

É claro que antes dele já houve quem o fizesse, mas nunca é demais recordá-lo, sobretudo quando se trata de um trabalho tão abrangente. Nele, o autor desmonta uma série de mitos que enxameiam hoje os discursos académico, político e afins. Entre outros, mostra-nos que as Cruzadas não são bem aquilo que se diz, mas antes uma resposta de um Ocidente ameaçado na sua fé e existência. Nada que uma pessoa com um mínimo de bom senso não possa constatar: é óbvio que a Reconquista e as Cruzadas são movimentos de resposta a agressões anteriores. Infelizmente, bom senso é coisa que não abunda hoje em muitos meios.

Outra das ilusões aqui recusada é a da Idade Média como época de obscurantismo. Há muito que medievalistas o vêm fazendo, mas o eco das suas investigações é relativamente fraco e um volume como este atinge sempre um público mais vasto. Assim, Rodney Stark demonstra que é na Idade Média que se devem encontrar as raízes de movimentos e evoluções futuras, do Renascimento à Revolução Industrial. Do mesmo modo informa-nos acerca da ligação entre Cristianismo e ciência, derrubando mais um dos enraizados ícones da mitologia iluminista e posterior, a de que a Igreja teria sido (e é) hostil à investigação científica.

Outra das verdades desmontada é a que diz respeito ao “brilhantismo da civilização islâmica”, que não foi assim tão excepcional e deveu, em grande parte, as suas melhores produções a infiéis que viviam sob o seu jugo, nomeadamente cristãos nestorianos e judeus.

Outras certezas absolutas são aqui revogadas, de forma sólida e bem fundamentada. Assim, e pese embora a existência de uma ou outra imprecisão histórica, sobretudo em termos de datas, temos no conjunto uma obra séria e informada que merece leitura atenta, sobretudo para aqueles que não aceitam o retrato do Ocidente que nos é dado, mas sabem que esse é o lugar por excelência da liberdade, da investigação e da grande cultura. Assim, e sem mais. De resto, se assim não fosse e continuasse a ser, os movimentos migratórios mostrá-lo-iam de forma clara. Afinal, não é para o Ocidente que quase todos querem vir e não é a ele que pretendem conquistar?

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Já lhe chamam a “onda cor-de-rosa”: muitos dos governos da América Latina estão hoje sob o controlo de forças radicais de esquerda que enganam o eleitorado com a promessa populista de auroras douradas. Os custos da loucura extremista serão elevados.

O populismo sempre foi um instrumento político característico dos países da América do Sul – ou da América Latina, se quisermos incluir o caso da ditadura cubana e do conturbado percurso da Nicarágua. O discurso populista pretende exaltar as massas, servindo-se geralmente de um inimigo comum que “deve ser destruído”: como “inimigo do povo” durante a luta pelo poder, como “inimigo do Estado” depois da conquista do poder.

O inimigo, esse, varia conforme as necessidades do populista: podem ser “os burgueses”, podem ser os norte-americanos (os “gringos”), podem ser “os sabotadores”, pode ser qualquer coisa. Não importa que seja verdade ou mentira, o que interessa é que uma maioria de pessoas acredite que é verdade. Sim, uma maioria: porque os direitos democráticos da minoria não são algo que os populistas estejam interessados em proteger.

A partir do final dos anos 90, o populismo foi crescendo na América do Sul. As economias locais, tradicionalmente caóticas, estavam a recuperar devido ao preço elevado das matérias-primas, nomeadamente o petróleo. Este é o sonho do populista de esquerda: a possibilidade de poder usar dinheiro fácil de obter para pagar políticas que compram votos.

Diga-se que tal não é um fenómeno exclusivo da América Latina. Portugal, durante anos, foi governado por Executivos que usaram financiamento europeu e crédito barato para pagar infra-estruturas e políticas que davam votos. Pelo final deste ciclo, o Governo já pagava, com grande fanfarra e cobertura mediática, computadores portáteis aos alunos portugueses, grandes auto-estradas que hoje estão desertas, e ainda queria construir uma linha de TGV de duvidosa necessidade. Nenhuma destas medidas teve qualquer efeito benéfico na economia portuguesa. O populismo acabou por arruinar as contas nacionais.

As causas do desastre português serão as razões do desastre que se aproxima na América Latina?

República “Bolivariana” da Loucura

Dilma_Rousseff_receiving_a_Hugo_Chávez_picture_from_Nicolás_MaduroOra olhemos então para a Venezuela, governada pelo regime criado por Hugo Chávez, intitulada, muito originalmente diga-se, de “República Bolivariana”. A mudança da designação, de forma a fazer apelo ao nome do famoso líder dos movimentos independentistas latino-americanos, foi um primeiro sinal de alerta: Hugo Chávez via-se como um Simón Bolívar do século XXI.

E esta é a parte menos louca do regime de Chávez, um indivíduo tão “democrático” que começou por tentar alcançar o poder através de um golpe de Estado (falhado) que procurava derrubar um governo legitimamente eleito. Falhada a via golpista, Chávez decidiu candidatar-se a eleições. Para ganhar, usou um discurso altamente agressivo visando virar os cidadãos mais pobres contra a classe média e abastada. Prometeu auroras douradas e ganhou.

O problema de se prometer auroras douradas é que, depois, é preciso cumprir. Mas para um populista isso não é problema: a realidade pode ser vergada à sua vontade. Sempre que algum desastre económico ou social atingiu a Venezuela (e sob o governo brutalmente incompetente de Chávez tal era uma ocorrência regular), a culpa caía sempre sobre algum inimigo fictício da “República Bolivariana”.

O ataque aos “inimigos” alcançou tais níveis de ridículo que Chávez chegou a afirmar que um sismo de grande escala no Haiti fora provocado pelos Estados Unidos, que tinham usado uma “arma de terramotos”. Quando faltava um bem de consumo nas lojas, a culpa era sempre dos “sabotadores burgueses” que impediam que os produtos chegassem ao mercado.

Hugo_Chavez_alzando_el_puñoTodas as semanas Chávez passava horas (ocasionalmente mais de seis horas, à maneira de Fidel) nos ecrãs da televisão estatal a arengar sobre os “inimigos” ficcionais.

Tinha uma grande audiência, não pelo conteúdo ideológico das mensagens, mas porque era nestes programas que Chávez costumava anunciar a distribuição de novos subsídios pelos seus apoiantes.

Desaparecido Chávez e desorientada uma parte da máquina repressiva, o povo finalmente revoltou-se contra o regime e decidiu protestar.

Ao sucessor, Nicolas Maduro, nem sequer ocorreu que a política económica do “chavismo” pudesse estar errada. Mas a realidade entreva pelos olhos dentro: a nacionalização de uma grande parte do tecido económico nacional tinha levado a uma enorme fuga de capitais e a falta de muitos bens de consumo devia-se às “experiências” de planeamento central por parte de um governo inoperante e corrupto.

Em vez de reconhecer a evidência, o novo presidente da Venezuela lançou as culpas para cima dos que protestavam nas ruas, logo apelidados de “terroristas”, “fascistas” e “perigosos reaccionários”. Que queriam, afinal, estes “fascistas”? Um país onde se pudesse comprar papel higiénico nas lojas, bem de consumo que parece nunca estar disponível…

A inflação venezuelana chegou neste Verão aos 62%, e continua a aumentar. A moeda teve de ser radicalmente desvalorizada para evitar o colapso total, que já não demora muito a chegar de qualquer forma. Gastando rios de dinheiro em “programas sociais” para subornar os eleitores, o regime “chavista” pouco fez para criar uma economia forte, tendo vivido a ultima década dos rendimentos do petróleo: 93% das exportações do país são baseadas neste recurso.

Mas a queda súbita do preço do barril de petróleo significa que o país está rapidamente a ficar sem dinheiro para continuar a comprar o “amor” da população.

Argentina: penhoras e falência

1280px-Cristina_y_Lula_2A Argentina, dominada nos últimos anos pelo casal Kirchner, é outro caso de esquerda populista na América do Sul. Os “inimigos” são os do costume, só muda o nome.

Enquanto a Venezuela culpa os EUA por todas as desgraças que lhe caiam em cima, a Argentina culpa a Grã-Bretanha – e continua a querer recuperar as ilhas Falkland, cuja população já votou inequivocamente (99%) pela permanência no Reino Unido.

A guerra de palavras entre os dois países serve os interesses da presidente Cristina Kirchner, pois distrai a populaça dos verdadeiros problemas argentinos, nomeadamente a inflação descontrolada.

O Reino Unido não lhe liga muito, nomeadamente no que se refere às ambições sobre as Malvinas. A Argentina seria dizimada caso tentasse invadir as ilhas Falkland: os caças “Typhoon” da Royal Air Force ali destacados bastariam para destruir em pouco tempo toda a obsoleta Força Aérea Argentina.

Entretanto, no plano económico, a presidente encontrou uma forma original de evitar que as estatísticas demonstrassem que o regime estava a fazer um péssimo trabalho: pura e simplesmente, aboliu o Instituto Nacional de Estatística. Ao contrário de Portugal, por exemplo, onde o INE é independente, na Argentina todos os indicadores económicos são cozinhados e divulgados pelo governo.

Não admira, então, que os dados oficiais apontem para uma situação absolutamente normal, enquanto milhões de argentinos já usam o dólar norte-americano em vez da moeda local, visto que esta já nada vale devido à inflação.

Tal como Eva Perón falava dos “descamisados” enquanto vivia numa opulência chocante, tal como a ditadura militar invadiu as Falkland para disfarçar o caos que se vivia no país, também a actual presidente tenta disfarçar a sua brutal incompetência com retórica. Ao longo das últimas décadas, os governos populistas acabaram por destruir a Argentina, que nos anos 50 era um dos mais ricos do planeta.

Hoje, a presidente não pode levar o jacto presidencial para fora do país, sob risco de vê-lo penhorado pelos credores estrangeiros, que já tentaram (quase com sucesso) fazer o mesmo com um barco da Marinha Nacional.

República Soviética do Brasil

1280px-Dilma_Rousseff_na_Inauguração_da_Rio+20O Partido dos Trabalhadores (PT) domina a política nacional do Brasil desde a eleição de Lula da Silva. Num golpe de teatro à sul-americana, o antecessor de Lula, Fernando Henrique Cardoso, é diabolizado como um perigoso “neoliberal”, “cão das potências estrangeiras”, enquanto que Lula é santificado como o herói dos pobres e miseráveis.

Como é normal nesta parte do mundo, poucos parecem ligar ao facto de Lula apenas ter conseguido implementar as suas medidas sociais graças às reformas económicas de Henrique Cardoso.

O presidente do Partido Social Democrata do Brasil (PSDB) pôs em prática um conjunto de medidas duras, mas necessárias, de forma a travar a inflação galopante (que chegou a ultrapassar os 100% em diversas ocasiões) e que relançaram a economia do Brasil.

Lula aproveitou o dinheiro extra dos impostos, bem como dos rendimentos do petróleo, para lançar programas sociais extremamente ambiciosos e populares. Infelizmente, a sua utilidade é duvidosa, pois muitos dos pressupostos-base do Estado Social foram ignorados por Lula: as escolas brasileiras continuam a ser de péssima qualidade, os hospitais horríveis, a polícia corrupta, os tribunais inoperantes. A uma certa altura parecia que Lula governava apenas para a favela, desprezando uma classe média em crescimento.

Mas é este o público-alvo do PT, e na eleição presidencial de há uma semana tornou-se óbvia a divisão que dilacera o Brasil: os mais pobres sendo subornados a votar no PT, enquanto que nos Estados onde predomina a classe média se registou uma votação massiva no PSDB.

Paradoxalmente, o desenvolvimento do Brasil poderá acabar por ser o “calcanhar de Aquiles” da presidente Dilma Rousseff (vencedora com apenas mais 3% de votos que o seu opositor, Aécio Neves, numas eleições manchadas por possíveis ocorrências de fraude, que já estão a ser investigadas).

A economia do país começa a enfrentar graves problemas. Tal como na Argentina, na Venezuela e em Portugal, o dinheiro do Estado foi regularmente esbanjado em grandes obras públicas apenas com fins eleitorais. O campeonato mundial de futebol, apesar de ter sido um sucesso em termos de impacto comunicacional, deu azo a fortes protestos de uma classe média saturada das políticas do PT.

Em vez de ouvir as críticas, Dilma prepara-se para seguir a via que a maioria dos ditadores sul-americanos já seguiu: o plebiscito. Já foi anunciado nas últimas semanas que a presidente do Brasil pretende convocar um plebiscito para alterar a Constituição do país.

Ditadura-democracia-Dilma
Poster da oposição venezuelana

Por outras palavras, Dilma quer forçar o Congresso, através da ditadura da maioria, a aprovar as leis que ela acha que devem ser aprovadas. Uma das propostas é a proibição dos partidos com menos votos de terem acesso à representação no Congresso, dando ainda mais poder ao Partido dos Trabalhadores.

Já este ano, Dilma tentou colocar líderes de extrema-esquerda do Movimento dos Sem Terra em órgãos de decisão, por força de decreto.

O objectivo confesso é criar um sistema “bolivariano” como o da Venezuela, em que cada medida que os governos locais queiram tomar terá primeiro que ser aprovada por consulta popular, ou seja, pelos novos “sovietes”, denominados “conselhos populares”, que Dilma quer instituir.

Não é, portanto, coincidência que o regime ditatorial de Cuba tenha imediatamente dado os parabéns a Dilma pela sua vitória à tangente: tal como a Venezuela de Maduro, o Brasil está a tornar-se um precioso aliado deste dinossáurio comunista da América Latina.

Aécio Neves já anunciou que concorrerá às próximas eleições presidenciais, em 2018. Será que os “conselhos populares” vão permitir? Ou será que Dilma acabará por cair antes do final do mandato devido aos escândalos de corrupção que varrem o Brasil?

Para já, o PT continua a governar com o dinheiro dos outros…

Querido Defunto Líder

1280px-Mansudae_Grand_Monument_08

Os Estados comunistas sempre se serviram do culto da personalidade criado em redor dos seus líderes – e, em alguns casos, tiveram de usar a sua memória para conseguirem sobreviver.

Lenine foi o primeiro a servir, depois de morto, esse culto.

Apesar de o líder soviético ter pedido para ser cremado, Estaline decidiu embalsamá-lo e expô-lo “religiosamente” na Praça Vermelha, no centro de Moscovo. Uma relíquia macabra que ainda hoje pode ser vista.

Sempre na senda soviética, o actual presidente da Venezuela decidiu também mandar embalsamar Hugo Chávez. Nicolas Maduro chegou a planear instalar o mausoléu numa favela, junto do eleitorado do “querido líder”.

O plano não foi avante por falta de condições (e provavelmente dinheiro) para o fazer, mas mesmo assim Chávez foi sepultado perto do edifício de onde tentou lançar um golpe para derrubar a anterior República.

O caso mais paradigmático do culto comunista dos mortos é o da Coreia do Norte. Tanto Kim Il-sung como Kim Jong-Il, avô e pai do actual líder, foram embalsamados e são venerados em cerimónias de Estado. Mais: ambos continuam a “governar” simbolicamente como “eterno presidente” e “eterno secretário-geral”, respectivamente.

Nem a morte os libertou…

CAPA

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