Autores Posts porJornal O DIABO

Jornal O DIABO

Jornal O DIABO
1003 POSTS 0 COMENTÁRIOS

0 1091

Cavaco Silva, que outrora privilegiou os serviços e os subsídios em detrimento das pescas e da agricultura, tem insistido em que o caminho é voltar às terras. E é isso mesmo que se tenta fazer numa pequena freguesia da Covilhã: recuperar usos e costumes e procurar riqueza para o meio local.


Na década de 70, a resinagem representava uma das principais actividades económicas nacionais, com Portugal a assumir-se como um dos maiores exportadores do sector a nível mundial.

Nos últimos anos, a ascensão de economias emergentes, como a China e o Brasil, ditaram a perda de competitividade do sector em Portugal, conduzindo ao declínio e ao abandono quase total desta prática.

Recentemente, a volubilidade destas economias face ao mercado europeu e a procura de alternativas aos derivados do petróleo mais ecológicas renovaram o interesse pelo sector da resina.

Acompanhando esta tendência, o Baldio da Freguesia de Cortes do Meio, na Covilhã, iniciou o processo de revitalização desta actividade no seu perímetro florestal. É o Interior nacional a regressar às origens e aos tempos áureos. O objectivo está traçado e é animador.

Para já, foi necessário um grande esforço de recuperação dos processos e técnicas associados a esta prática. “Curiosamente estas práticas baseiam-se, em muito, no saber fazer, conhecimento guardado pelas gerações mais antigas, mentoras desta tradição e responsáveis pela escassa produção e fabrico, ainda artesanal, das ferramentas e utensílios necessários à actividade”, explica David Bizarro, da Junta de Freguesia de Cortes do Meio.

“Ensinamentos que estiveram na base da acção de formação, desenvolvida pelo Baldio em parceria com a Associação Empresarial da Região de Castelo Branco, que antecedeu a campanha deste ano, promovendo o encontro inter-geracional e a transmissão de conhecimentos ancestrais às gerações vindouras”, conta o responsável.

A implementação destas práticas veio reforçar a multifuncionalidade dos espaços florestais e a dinamização da área rural, constituindo um factor de sustentabilidade ambiental, económica e social indo ao encontro da estratégia desenvolvida pelo Baldio de Cortes do Meio, que na última década tem procurado a diversificação das suas actividades e serviços de forma a garantir a independência de subvenções financeiras e a criação de condições de sustentabilidade futura para a sua organização.

A joalharia da agricultura

A produção de receitas próprias para a comunidade local permitiu a criação de postos de trabalho, bem como a inserção e reestruturação profissional de desempregados de longa duração, favorecendo o empreendedorismo social e o desenvolvimento local integrado.

“Na esfera ambiental resultam como principais benefícios a melhoria do sistema de ordenamento florestal, a valorização dos recursos endógenos bem como o reforço da vigilância e prevenção de incêndios, devido à permanência do resineiro na floresta durante os meses mais quentes do ano, principal período para o desenvolvimento dos trabalhos”, assegura David Bizarro.

A importância da recuperação desta actividade tradicional não se esgota na escala local. A fileira do sector resineiro, fortemente vocacionada para as exportações, apresenta um enorme potencial de crescimento, tendo efeitos multiplicadores que passam pelo desenvolvimento de novas técnicas, novas ferramentas e metodologias de apoio à actividade que permitam integrar valor acrescentado ao produto e fomentem a criação de uma cadeia de valor integrando o desenvolvimento industrial e comercial associado ao sector.

São exemplos destes que o Governo quer ver. Aliás, a ministra da Agricultura e do Mar confessou nestes dias a ambição de que Portugal seja conhecido como a “joalharia da agricultura”.

Assunção Cristas esforça-se ainda por convencer os jovens de que a Agricultura é uma actividade “sexy”. Isso mesmo aconteceu numa aula oferecida aos jovens centristas pela ministra, que acabou por revelar que em Portugal a taxa de execução do Proder está acima da média da União Europeia.

A ministra tem insistido em que deseja tornar a Agricultura de novo uma actividade rentável. Assunção diz mesmo que Portugal tem “belíssimos produtos diferenciados”, afirmando que os portugueses têm muito a ganhar com a valorização dos produtos nacionais.

Mas as críticas a quem destruiu a Agricultura não são esquecidas, ainda que Cristas prefira não dizer nomes. Explica a ministra que os portugueses andaram deslumbrados com tudo aquilo que vinha de fora e que era novidade e, talvez, não tivessem valorizado aquilo que era próprio da nossa terra.

O desafio tem sido lançado. A ministra quer que os portugueses inovem e criem novas tradições, alegando que “daqui a muitos anos as tradições que hoje se criam darão cartas seguramente”.

Economia enaltece Agricultura

Demasiado tarde, governos e Presidente alertaram para que era necessário voltar às terras. O mesmo Presidente que, quando era primeiro-ministro, favoreceu o sector dos serviços e se submeteu às políticas europeias de subsídios que precipitou a destruição das pescas e o abandono das terras.

Hoje, os números não mentem. O regresso à Agricultura está a dar frutos. O ministro da Economia, Pires de Lima, referiu na semana passada a importância de responder à nova procura dos consumidores por alimentos mais saudáveis e aos nichos de produção para mercados “sofisticados”.

Numa sessão realizada no âmbito da Agroglobal, Feira das Grandes Culturas, o governante sublinhou o contributo da agricultura portuguesa para o crescimento do emprego e da competitividade da economia. António Pires de Lima justificou a sua presença com a ligação que o sector tem à indústria.

O ministro referiu os dados há pouco divulgados sobre o crescimento do emprego na Europa no segundo trimestre do ano, que dão conta de um crescimento de 0,9% em Portugal (o segundo que mais cresceu em toda a União Europeia), afirmando que a Agricultura tem vindo a dar um contributo positivo para este crescimento.

Pires de Lima apontou ainda o contributo do sector para o aumento da competitividade da economia portuguesa, que subiu 15 lugares no ‘ranking’ da competitividade mundial (de 51.º para 36.º), frisando a importância das exportações.

O sector da agricultura e da alimentação representou quase 10% da balança de exportação de bens, cerca de 3.000 milhões de euros, tendo o crescimento, até Julho, sido 4% superior ao registado no mesmo período de 2013, afirmou.

0 1452

Desengane-se quem espera um raio de sol por detrás da nuvem negra que paira sobre o Sul da Europa: a tempestade económica amainou, mas o céu vai continuar muito nublado...

Desengane-se quem espera um raio de sol por detrás da nuvem negra que paira sobre o Sul da Europa: a tempestade económica amainou, mas o céu vai continuar muito nublado…


Estão desempregados 45 milhões de trabalhadores nos países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, ou seja, nos países ditos “desenvolvidos”. E é pouco provável que este número desça significativamente. Quem o afirma é a própria OCDE, no seu relatório sobre emprego lançado esta semana.

O problema reside numa economia europeia que não consegue criar novos empregos, mesmo estando em processo de retoma. De especial preocupação é a ausência de empregos estáveis e bem remunerados. Este não é, contudo, um problema generalizado a todas as nações da organização: o “olho da tempestade” parece estar mesmo nos países do Sul europeu.

Os Estados Unidos da América, que possuem um mercado mais dinâmico e livre, já conseguiram começar a sarar as feridas da grande recessão de 2008. A taxa de desemprego nos EUA é hoje de apenas 6,1 por cento. No Japão, um país onde tradicionalmente o mercado de trabalho é altamente protegido por convenções sociais e legislação nacional, o desemprego já só afecta 3,7 por cento da população, número que fica perto do pleno emprego. Estes dois países estão consideravelmente abaixo da média da OCDE de 7,3 por cento, e muito abaixo dos 14 por cento portugueses, ou dos tenebrosos 24% espanhóis, ou catastróficos 27% gregos.

Alguns são mais iguais que outros

No Sul europeu, o problema do desemprego adensa-se devido, em parte, às desigualdades do mercado de trabalho. Enquanto que outros países já adoptaram soluções em que foi encontrado um meio caminho entre a flexibilidade e a segurança laboral, em Portugal uma fatia considerável da população continua extremamente protegida por um sistema de trabalho inflexível, em detrimento de outra que está quase completamente desprotegida e numa situação de grande insegurança social.

Vejamos um exemplo prático: o caso dos funcionários públicos que não podem ser demitidos enquanto que, em contrapartida, os trabalhadores independentes, através do infame sistema de recibos verdes (criado por um governo de Mário Soares), se encontram numa situação de enorme instabilidade.

Mesmo vivendo com a adaga por cima da cabeça, estes trabalhadores têm de enfrentar uma forte carga tributária, em cuja factura avulta a contribuição para a Segurança Social, que é uma taxa não progressiva. E aqui reside outro problema. Várias organizações mundiais, incluindo a própria OCDE, consideram que as taxas não progressivas são uma séria barreira ao emprego e ao desenvolvimento económico, até porque o valor cobrado às empresas encarece consideravelmente o preço do trabalho.

No caso português, cada empresa privada tem de despender o equivalente a quase um quarto do salário do empregado (a “contribuição” para a segurança social é de 23,75%) para o manter. Já os trabalhadores independentes pagam à segurança social entre 28,3% e 34,75% dos seus rendimentos, quer ganhem miseravelmente ou abundantemente. E ainda há que pagar muitas outras taxas, como o IRS. Sai caro trabalhar em Portugal.

É compreensível a revolta contra este sistema injusto: estes trabalhadores, depois de devidamente “sangrados”, beneficiam de muito poucas garantias sociais. Isto apesar de pagarem bastante mais para sustentar o Estado do que os seus congéneres do sector público. Cada funcionário público desconta apenas 11 por cento do seu salário para a Segurança Social, sendo que os restantes 23,75 por cento são pagos pela empresa financiada por todos nós: o Estado.

A OCDE avisa que casos como o acima descrito criam sérios desequilíbrios no mercado de trabalho. Desequilíbrios que o Estado tem por obrigação resolver, sob pena de as taxas de desemprego continuarem elevadas. Em muitos casos, devido a situações de taxação não progressiva (em especial a Segurança Social), o pacato cidadão arrisca-se a trabalhar quase apenas para pagar impostos.

Em certos casos extremos, o rendimento que lhe propõem nem sequer paga na totalidade o imposto correspondente. Em contrapartida, o funcionário público recebe um rendimento certo e garantido ao fim do mês, com enormes benesses e privilégios. Rendimento garantido que o sector privado deve subsidiar através de impostos, nos bons tempos e nos maus tempos.

Não havia uma certa Constituição que garantia equidade entre todos os trabalhadores?

Políticas actuais prejudicam economia

A OCDE é clara nas suas recomendações para se reformar o mercado laboral: “reformas apontadas a incentivar a competição e a produtividade em mercados para bens e serviços, facilitando a mobilidade dos trabalhadores para empregos mais produtivos e satisfatórios, protegendo os rendimentos dos trabalhadores mais mal pagos e reforçando a formação e reformação dos trabalhadores”.

A recente queda do desemprego não pode ser vista como sinal de que o desemprego vai continuar a baixar, afirma esta organização, visto que a maioria dos postos de trabalho criados é de fraca qualidade laboral: mal remunerados, sem perspectivas de promoção, de fraca produtividade.

A economia ressente-se do facto de existir uma grande fatia de pessoas nesta situação. Os especialistas avisam: a ausência de postos de trabalho bem remunerados significa que haverá menos transacções, tendo o efeito causativo de que, a longo prazo, a economia não vai ter capacidade de absorver toda a mão-de-obra existente.

A organização deixou, assim, um forte aviso contra as políticas de redução dos custos do trabalho através do que foi eufemisticamente chamado “ajuste de ordenados” – uma política que teve a sua utilidade durante o pico da crise, mas que agora pode prejudicar o crescimento económico e aumentar o desemprego em vez de reduzi-lo. A situação torna-se ainda mais gravosa quando se considera que os rendimentos médios caíram de forma muito considerável durante este período, graças à inflação.

Portugal não conseguirá competir através de ordenados baixos enquanto existirem países onde se paga parcas dezenas de euros por mês aos trabalhadores. O máximo que os cortes nos salários conseguem fazer a partir deste momento é diminuir o poder de compra dos portugueses, acentuando os nossos enormes problemas estruturais.

Uma consequência imediata é o desincentivo ao ensino superior, num País onde apenas 21 por cento dos jovens têm diploma, enquanto que a média nos países desenvolvidos é 43 por cento.

Ironicamente, o mesmo país que durante anos foi visto como “a grande ameaça” às indústrias nacionais, a China, começa a ver aumentos de ordenados à medida que a sua economia se terciariza e os seus cidadãos se tornam mais afluentes e mais formados. Os ordenados chineses cresceram, em média, 11 por cento só neste ano, dinamizando o consumo e, por arrasto, toda a economia.

As indústrias que se baseiam na baixa remuneração já começaram a abandonar a China com rumo a novos territórios que fornecem mão-de-obra (ainda mais) barata. África, Bangladesh e Vietnam são os destinos mais comuns. Para que um país como o nosso pudesse tornar-se “apetecível”, deste ponto de vista, muito português teria de literalmente morrer à fome.

O desemprego elevado é algo que requer uma solução mais urgente do que se pensa, diz a OCDE. Cada ano em que um trabalhador está inactivo é um ano em que a sua formação fica estagnada e é um ano em que o trabalhador perde ritmo de trabalho. Quanto mais tempo um profissional se encontra numa situação de desemprego, menor é a hipótese que tem de encontrar emprego no futuro: um grande espaço em branco num currículo é geralmente mal visto por empregadores.

E alguns especialistas na área avisam: o custo de subsidiar estágios e contratações (como o Estado atualmente já faz) pode ser muito menor do que o custo, a longo prazo, do desemprego estrutural. Mesmo assim, o governo português fez recentemente cortes nestas iniciativas, reduzindo, por exemplo, o tempo dos estágios de introdução ao mercado de trabalho de 12 meses para apenas nove.

Tudo dito, ainda há reformas muito significativas a fazer, e nem todas elas são claras, simples ou fáceis. No nosso País, a folga orçamental para novas iniciativas é muito reduzida, a situação demográfica é trágica, e todos os dias perdemos alguns dos nossos trabalhadores mais bem formados. A tempestade passou, mas o mau tempo continua…

0 1080

A política regressou em força à praça pública. Passos Coelho ensaia o tom da campanha eleitoral para as eleições do próximo ano. O PS continua a pedalar em seco, dividido por dentro e desgastado por fora. E o CDS volta a demarcar-se da política dura do governo e a defender o alívio da carga fiscal sobre as famílias.

“Escapámos a todas as pragas que nos rogaram”. “Tudo o que conseguimos alcançar foi sem a ajuda da oposição, mas com o empenhamento dos portugueses”. “O desemprego não continuou a aumentar, baixou. O investimento tem estado a recuperar devagarinho, e nós fechamos estes três anos com a consciência de que fizemos o que era preciso fazer”.

Assim falou em Castelo Branco, na semana que findou, o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho. Ou seria o líder do PSD? Fosse quem fosse, garantiu não estar em campanha eleitoral: “As eleições ainda vêm longe”. Mas apressou-se a acrescentar: “O PSD está bem preparado para os desafios que aí vêm. Aqueles que pensam que ao fim de três anos estamos cansados, estão enganados”.

Está dado o tom: daqui até às eleições legislativas de Outubro de 2015, Passos Coelho não desperdiçará uma só oportunidade de enaltecer o trabalho do seu governo, respondendo taco a taco à campanha socialista que, a pretexto de eleições internas, tem vindo a ocupar grande parte da agenda política nacional.

Na sua digressão de há dias pelas Beiras, Passos Coelho bateu sempre nas mesmas teclas: não evita o contacto com o eleitorado, não tem qualquer problema em assumir o que faz, o País está a melhorar. Numa visita à Feira de São Mateus, em Viseu (cidade que em tempos chegou a ser considerada “a capital do Cavaquistão”), o primeiro-ministro submeteu-se mesmo a “contactos imediatos de terceiro grau” com o povão que o esperava para lhe contar as últimas do desemprego e da emigração.

Sempre com os holofotes da comunicação social por perto, Passos não se furtou ao confronto. Uma mulher, que o esperava em cima de um banco para melhor ser ouvida, contou que a empresa onde trabalha vai fechar no final do mês e que irá mais gente para o desemprego. “Não deixe fechar tanta empresa, ponha um ponto final nas empresas a fecharem. As pessoas estão a morrer de fome”, apelou.

Passos Coelho explicou-lhe que, “desde o início do ano, o número de empresas que tem aberto supera o número de empresas que tem fechado” e que, portanto, Portugal tem conseguido “criar mais postos de trabalho do que aqueles que são destruídos”.

Outra mulher queixou-se de não conseguir emprego e de estar a ser discriminada por ter 46 anos. “Dizem que já estamos velhas para trabalhar. Mas para a reforma não estamos”, lamentou.

No final da visita, Passos Coelho admitiu aos jornalistas que o desemprego é “uma chaga grande” em Portugal, mas aludiu a situações piores, como a de Espanha, que tem uma taxa de desemprego de quase 25 por cento, e a da Grécia, “onde o desemprego não consegue baixar dos 26 por cento”.

“Nós estamos a reduzir a taxa de desemprego. Sabemos que muitas pessoas tiveram de sair, como saíram na Irlanda, na Grécia e algumas também em Espanha”, afirmou. No entanto, considerou “um motivo de esperança” o facto de estarem a ser criados “mais empregos do que aqueles que são destruídos”.

Sempre jurando que não está em campanha eleitoral…

Soares fala em “sarilho”

O PS, por seu turno, não precisa de se esforçar para ter visibilidade na comunicação social: a “luta de galos” que opõe António Costa a António José Seguro na corrida à liderança da oposição assegura aos socialistas uma presença constante nos lares dos portugueses. Mas não pelas melhores razões: o espectáculo não tem sido edificante e a guerra que divide o PS em dois terá, necessariamente, pesados custos eleitorais.

Marinho Pinto confirma novo partido e MPT diz que foi “barriga de aluguer”

Marinho Pinto vai criar um novo partido. A informação foi confirmada pelo antigo bastonário da Ordem dos Advogados. Em reacção, o líder do Movimento Partido da Terra (MPT) diz que fica triste com a saída de Marinho Pinto e admite que o MPT foi uma espécie de “barriga de aluguer”.

O eurodeputado, cabeça de lista do MPT nas últimas eleições europeias, revelou que a “separação” foi concretizada há uma semana, numa reunião da comissão política.

Marinho Pinto conta que entendeu que só com um novo partido será possível “contribuir para resolver os problemas dos portugueses, da democracia e do Estado de Direito”.

As próximas eleições
  • 2014, 19 de Outubro: eleição intercalar da Assembleia de Freguesia de São Pedro (Figueira da Foz).
  • 2014, 9 de Novembro: eleição intercalar da Assembleia de Freguesia de Fornelos (Fafe).
  • 2015, Outubro: eleição da Assembleia da República (mandato de 4 anos).
  • 2015, Outubro: eleição da Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira (mandato de 4 anos).
  • 2016, Janeiro: eleição do Presidente da República (mandato de 5 anos).
  • 2016, Outubro: eleição da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (mandato de 4 anos).
  • 2017, Setembro/Outubro: eleição dos órgãos das Autarquias Locais (mandato de 4 anos).
  • 2019, Maio: eleição dos deputados ao Parlamento Europeu (mandato de 5 anos).

Sempre atento, Mário Soares veio na semana passada em auxílio dos seus camaradas – desviando a bola política “para canto” ao pronunciar-se sobre o “caso BES”. Para Soares (que, recorde-se, no passado teve um importante papel no regresso da família Espírito Santo aos negócios em Portugal e na re-privatização do seu banco), o governo “meteu-se num grande sarilho” recusando auxílio de emergência a Ricardo Salgado e fazendo o Banco de Portugal intervir no banco. E avisou: “Quando ele [Salgado] falar, e vai falar, as coisas vão ser diferentes”.

Enquanto o hipotético “grande sarilho” do BES é cozinhado nos bastidores, o “grande sarilho” socialista, esse, parece já garantido. A lutar em duas frentes, o PS arrisca-se simplesmente a perder as próximas eleições – contra todas as promessas de vitória que desde a queda de José Sócrates têm sido reiteradas até à exaustão.

O PS apresenta-se hoje sem capacidade para alcançar uma maioria absoluta. E o “histórico” Jaime Gama até tem dúvidas sobre se o seu partido conseguirá uma vitória eleitoral relativa que lhe permita liderar uma coligação de Governo. Foi isso mesmo que o antigo presidente do Parlamento e fundador do PS disse, na sexta-feira à noite, no debate organizado pelo CDS sobre política de alianças, em que também participou Marcelo Rebelo de Sousa.

“Temos um sistema político que tem um elevadíssimo limiar eleitoral de formação de maiorias. Para um partido atingir uma maioria é muito difícil. O PS teve essa possibilidade em circunstâncias únicas, não me parece que tenha capacidade para o repetir. E o PSD, depois de Cavaco Silva, já o perdeu também”, disse Jaime Gama, em resposta às perguntas dos jovens que participam na Escola de Quadros do CDS, que decorreu até domingo, em Peniche.

CDS demarca-se

A um ano das eleições legislativas, o CDS volta a posicionar-se como “terceira via” – uma opção que no passado lhe garantiu lugares em governos de coligação com o PS e desde 2011 fez do partido o inevitável aliado governamental do PSD.

Em Peniche, o vice-presidente do CDS-PP, Nuno Melo, defendeu abertamente que, passada a “excepcionalidade” da intervenção externa, os centristas devem “afirmar mais” as suas políticas e aquilo em que acreditam, neste período de final da legislatura. “Não será aceitável que Portugal viva nessa excepção permanente e é por isso que também entendo, entendemos no CDS, que o CDS terá, neste próximo ciclo, pelo menos neste termo de legislatura e no próximo ano, que trabalhar legitimamente no sentido de afirmar mais as nossas políticas, aquilo que somos e em que acreditamos”, afirmou Nuno Melo, que muitos apontam como o mais provável sucessor de Paulo Portas na liderança dos centristas.

Melo afirmou que a decisão de o CDS integrar o Governo em 2011 não terá sido a “mais popular, mas foi seguramente a decisão mais patriótica”. E foi “por patriotismo”, sublinhou, que os centristas tiveram que “sacrificar” algumas ideias e propostas, dada a “situação de emergência nacional”. Mas “o CDS, até ao fim da presença da ‘troika’ em Portugal, procurou sempre representar e temperar a governação com um humanismo social-cristão que só nós representamos”, concluiu.

Significativas foram também as palavras do actual ministro da Economia, o centrista António Pires de Lima, que adoptou o discurso da “moderação fiscal”. A actual carga tributária deve ser considerada “transitória”, disse Pires de Lima. A reforma do IRS deve dar “um sinal que defenda casais que têm filhos, que estimule o empreendedorismo, que também possa significar um sinal de moderação das taxas do IRS”.

E, antecipando-se a críticas que pudessem surgir na coligação a propósito das suas palavras, o governante afirmou em tom cândido: “No PSD também há vozes que defendem a descida fiscal o mais depressa possível”. Para bom entendedor…

0 876

A cidade do pecado está de regresso

A anos-luz daquela que terá sido a melhor adaptação de uma BD ao grande ‘écran’ nas últimas décadas – a “Sin City” de 2005 –, esta sequela intitulada “Sin City: Mulher Fatal”, novamente co-realizada por Roberto Rodriguez e Frank Miller (também autor da banda desenhada homónima), tinha tudo para dar certo mas não conseguiu, e não foi pelo poderoso efeito surpresa de há quase já 10 anos.

De facto, de pouco lhe valem agora as personagens escuras, eróticas, violentas, sórdidas de então, sempre tão aparentemente desgarradas entre si, ou alguns dos actores (Mickey Rourke, Jessica Alba, Powers Boothe, Bruce Willis) que tão bem deram corpo e fama ao primeiro filme.

A acção, a muita acção continua, tal como a narrativa se mantém assente naquela virtuosa montagem aos solavancos. Contudo, tudo parece repetição e não fora a nova fabulosa história de amor sado-masoquista à ‘film noir’ dos anos 30-40, protagonizada pelo par de fazer faísca Eva Green E Josh Brolin e um tal de ‘chauffeur’ de nome Manute (talvez a personagem mais bem conseguida de todas) obcecado pela patroa (alô “Sunset Boulevard”…), e estávamos perante uma imensa desilusão, mau grado a sombra, o movimento e os fluxos sanguíneos que continuam a jorrar a branco e encarnado, ao sabor dos violentíssimos sopapos e arrancares de olhos de Marv (a personagem interpretada por Rourke é de facto imprescindível a esta BD) ou dos golpes de espada da acrobática Miho.

“Sin City: Mulher Fatal” só mesmo a espaços consegue não perder com o primeiro filme, apresentando buracos surpreendentes no enredo e histórias que nem chegam a colar, como sejam as das vinganças de Nancy e do jogador de póquer Johnny, ambas contra o terrível e sanguinário senador interpretado por um Powers Boothe sempre em forma. Além do mais, desta vez há muito menos efeito BD, muito menos grafismo e muito mais rostos reais. Não, de facto, sem a história da mulher-fatal (e que cena espectacular a da piscina, em novo aceno ao imortal filme de Wilder) e só restariam o estilo e Marv.

0 753
Uma biografia de Karl Marx

PAULO FERRENO

Isaiah Berlin foi um dos mais relevantes filósofos das ideias do século passado. A sua defesa do liberalismo e a sua crítica aos sistemas totalitários colocam-no ao lado de pensadores como Karl Popper, por exemplo, embora este seja mais original.

Em 1939, Isaiah Berlin concluiu a sua obra dedicada a Karl Marx. Para trás ficavam alguns anos de trabalho que culminaram com um volume de páginas muito superior ao que acabou por sair, devido a exigências editoriais, sendo o autor obrigado a cortes que bastante o magoaram. À data, a sua investigação debateu-se com a ausência de uma edição completa das obras do filósofo germânico ou com biografias de vulto que não fossem minimamente apologéticas. Por isso, o mérito de Berlin foi ainda maior. Esta edição que nos surge, agora, é o resultado de sucessivas revisões, que não macularam a essência do texto, a sua frescura e rigor, pese embora a possibilidade natural de discussão de alguns pontos de vista expressos pelo autor.

Isaiah Berlin conduz-nos pela vida de Marx, desde a sua infância e a sua relação com o pai – uma das poucas pessoas pelas quais nutriu algum afecto durante a vida –, passando pelos dias da universidade e os sucessivos exílios em Paris, Bruxelas ou Londres. O seu desprezo pela humanidade, que considerava pouco inteligente (ou talvez não tanto por ela, mas mais pelos homens considerados singularmente), os conflitos com outros revolucionários da época que não se encaixavam no espírito autoritário do alemão, a sua progressiva afirmação como nome incontornável da intelectualidade do século XIX, tudo isso passa por aqui. É o retrato de um homem com uma capacidade de trabalho única, com uma curiosidade intelectual abismal, com um gosto pela leitura fora do comum, sendo esse aliás um dos poucos prazeres que se permitia – juntamente com os passeios dominicais quando havia dinheiro e saúde. É o retrato de um homem que viveu durante vinte anos no limbo da miséria, sobrevivendo muitas vezes graças ao apoio de admiradores e do fiel Engels, personagem que sai daqui bastante favorecida. E é o retrato de um homem dedicado em absoluto a uma causa, a ponto de negligenciar a família com a consequente perda de três dos filhos, em parte, vítimas da pobreza forçada a que o afastamento do mundo escolhido pelo pai os obrigava. E, ainda assim, pôde sempre contar com o apoio de Jenny, a dedicada esposa.

E é isto. O resto são as ideias, as influências de Owen, Fourier, Saint-Simon, Hegel, mais ou menos reconhecidas, a progressiva autonomização e a publicação a espaços das suas obras, tantas vezes citadas e tão pouco lidas. Do conjunto geral o que fica é uma indisfarçável simpatia de Berlin pelo homem, não pelas teorias (pelo menos a maior parte), pelo modelo social e político.

0 974

O PS tem dado um triste espectáculo nesta sua campanha interna para a escolha do candidato a Primeiro-Ministro e futuro líder do PS.

A uma ausência de ideias para Portugal, a um consequente debate vazio, oco e sem qualquer conteúdo ideológico ou mesmo programático, a disputa centra-se no “eu sou melhor que tu”, com Costa a autoproclamar-se o Grande Líder pelo qual o partido ansiava e o país desesperava e Seguro a vitimizar-se, ignorando que a gratidão em política (como no resto, infelizmente) é apenas uma figura de estilo ou de mera retórica.

Todo o foco político nestas eleições internas mas de inquestionável importância para o país radica em quem pode derrotar Passos Coelho nas eleições legislativas. A lógica subsumida na premissa é a de pura conquista do poder. Do poder pelo poder.

Ninguém pode iludir-se que, uma vez conquistada a cadeira de S. Bento, de imediato se perfilarão outros candidatos à sucessão. No entretanto fica Portugal…

É neste ciclo e contra-ciclo, versão moderna do rotativismo do século XIX, que nos encontramos. A política transformada numa mera luta clubística dos bons (os meus, do meu partido, da minha facção dentro do partido, dos meus apoiantes…) e os maus (os outros, todos os outros que dentro e fora do partido me impedem de conquistar o poder e de ser o poder – vã ilusão!).

Perdido o discernimento e a capacidade de se colocarem ao serviço da Causa Pública pelo apelo cego do poder pelo poder, os nossos políticos dão uma confrangedora ideia de gente incapaz de singrar sem o recurso ao viciante jogo das influências e do domínio.

É neste contexto que ninguém se pode espantar com as “golpadas” nos cadernos eleitorais, com as “fraternais” acusações de adulteração dos cadernos eleitorais, de quotas pagas em série, de dezenas de supostos militantes com a mesma residência, com os incontornáveis “moralistas” de cada uma das facções a imputaram as ilegalidades à parte contrária e a rasgarem as vestes da ofensa de lhes imputarem exactamente o mesmo.

Depois de tudo o que se tem visto na casa socialista quem pode ficar descansado que algo de novo está para chegar à política em Portugal?

Quem pode gritar hossanas ao novo Messias que chega da Praça do Município com vontade de chegar ao Palácio de S. Bento?

Que pode o PS afirmar que possa, de facto, ser levado a sério?

Costa, conhecedor dos primeiros resultados das eleições para as Federações, apressou-se a vir clamar que é a hora de pensar em cicatrizar as feridas. Está, como político experiente, bem ciente do que será o PS no dia 29 de Setembro. Bem sabe que nada ficará como dantes. Bem sabe que se foi longe de mais e que muito dificilmente os “camaradas” do Rato se voltarão a olhar da mesma forma. Bem sabe que a sua liderança poderá sempre ser posta em causa em qualquer momento, em qualquer circunstância, sempre que o cheiro do poder entrar pelas narinas dos sequiosos pelo mesmo. O precedente foi criado…!!!

 Aguardemos pelos debates televisivos que, naturalmente, só podem melhorar a situação presente… mas só depois de ver, como S. Tomé… sendo que as declarações de unidade do partido, de proclamação do pluralismo e força do debate interno, de um partido mais pujante e vigoroso, de que o adversário política é o Governo, etc., etc… – a que todos assistiremos na noite eleitoral – nada mais são do que música celestial para os ouvidos dos incautos (ainda os há?… não creio…)

Cá para mim… teremos mais do mesmo… e depois que não se queixem os senhores da guerra…

0 1582

Crise ou não crise, os governos de Portugal nunca negam ajuda militar a países amigos ou às organizações internacionais em que estamos integrados. Os compromissos externos são cumpridos com pundonor e o trabalho dos nossos homens é respeitado em todo o mundo.


É a mais recente missão: militares portugueses vão para uma zona de risco do vírus ébola. O contingente português – 41 militares são da Força Aérea (FAP) e seis do Exército – vai integrar uma missão de manutenção de paz das Nações Unidas e ficará sedeado em Bamako. A capital do Mali integra uma zona de risco delineada pelas autoridades locais, por fazer fronteira com a Guiné-Conacri, um dos quatro países da África Ocidental afectados pelo vírus do ébola.

Apesar de, no último mês, o Mali ter sinalizado vários casos suspeitos de ébola, nenhum foi confirmado como positivo. Ainda assim, as autoridades mantêm sob vigilância as fronteiras e, no aeroporto internacional de Bamako, há medidas de controlo excepcionais.

Os militares estão informados e as Forças Armadas estão preparadas para fazer a evacuação de militares portugueses, em caso de necessidade.

Aliás, no contingente estão integrados dois médicos e seis enfermeiros, da Força Aérea, para apoio directo ao destacamento e para enfrentar eventuais riscos sanitários, incluindo o ébola. De resto, já se encontram no Mali alguns militares portugueses e outros foram enviados com o intuito de avaliarem também os riscos sanitários.

No âmbito desta missão foram estabelecidos acordos com estruturas médicas militares da força das Nações Unidas local para assistência, também em eventuais casos de infecção por ébola. Em caso de necessidade, está prevista a evacuação de militares para o Senegal ou para Lisboa.

No Mali, a missão é a de manutenção de paz da ONU. Durará três meses e envolve também um avião C130.

Outro contingente segue para a Lituânia. São 70 os militares portugueses com a missão de policiamento no espaço aéreo da Lituânia, no âmbito da NATO, durará quatro meses e engloba seis aviões caça F16.

De acordo com o Ministério da Defesa, estas são duas missões importantes para a segurança e manutenção da paz internacionais, em que, apesar das dificuldades financeiras do país, Portugal não vai deixar de participar.

Em força para Moçambique

Mas as missões dos militares portugueses não se ficam por aqui. O Presidente português Aníbal Cavaco Silva respondeu positivamente ao pedido do homólogo de Moçambique, Armando Guebuza, para o envio de observadores militares portugueses para monitorizar o processo de cessar-fogo entre o braço armado da Renamo e o exército moçambicano.

O convite à missão de peritos militares de Portugal foi feito há duas semanas pelo chefe de Estado moçambicano, que assinou um acordo de cessação de hostilidades com Afonso Dhlakama, líder da Renamo, o maior partido da oposição, que já regressou a Maputo, cinco anos depois de abandonar a capital do país para se refugiar nas matas da Gorongosa.

Em comunicado divulgado na página da Internet, a Presidência da República de Portugal refere que, “em estreita articulação com o Governo”, Cavaco Silva “decidiu dar resposta positiva ao pedido do Presidente da República de Moçambique, e que foi hoje transmitida às autoridades moçambicanas”.

“Esta decisão foi tomada na convicção de que este acordo, que tem por base um compromisso político que importa apoiar, vai ao encontro das legítimas aspirações do povo moçambicano e constitui uma base fundamental para o aprofundamento do processo democrático em curso no país e para o desenvolvimento e progresso de Moçambique”, refere a nota.

A missão vai “observar, monitorar e garantir a implementação do acordo de cessação das hostilidades militares”, permitindo o avanço das “fases subsequentes” estipuladas no memorando de entendimento acordado entre a Renamo e o Governo, que inclui a desmilitarização do braço armado do partido liderado por Afonso Dhlakama.

A integração dos homens armados da Renamo nas forças de defesa e segurança do país ou em outras funções do aparelho do Estado é outro dos termos negociais que os observadores internacionais terão de acompanhar.

O comando da missão, que tem a duração de 135 dias com possibilidade de prorrogação, vai ser instalado na capital moçambicana, Maputo, e será dirigido por um brigadeiro indicado pelo Botsuana e por quatro coronéis – um italiano, um zimbabueano, um do exército moçambicano e um da Renamo.

Além de Maputo, a missão manterá ainda equipas em quatro províncias do país, designadamente Inhambane, Sofala, Tete e Nampula.

Reforçar posição de “aliado fiável”

O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, esteve em Cardiff, no País de Gales, onde participou na cimeira da NATO reforçando a presença de Portugal como “aliado fiável” da organização.

De acordo com fonte do gabinete do primeiro-ministro, durante a cimeira houve oportunidade para afirmar a presença “fiável” de Portugal na NATO e debater temas que interessam em concreto ao país, casos da “operacionalização de uma estratégia de segurança marítima”, que deverá passar pelo reforço do papel da aliança.

Passos Coelho participou na Cimeira da NATO acompanhado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, e pelo ministro da Defesa, José Aguiar Branco.

O Afeganistão e a Ucrânia foram os tópicos dominantes durante os dois dias de encontro.

0 1479

soares martinez - CARA copy

Um longo currículo sempre me situou, bem ou mal, entre os mais humildes, mas decididos, adversários da Rússia, ou, melhor, da URSS, pois pelos russos sempre me senti ligado por simpatia e alguma compreensão, que me viria da sua literatura, despida de reservas que me suscitariam os autores mais consagrados, cujo contacto me foi facultado por traduções fiáveis, em línguas que me eram acessíveis.

Essa compreensão foi acrescida quando me debrucei sobre a história das guerras do século XX e da própria implantação do regime soviético. Mas a minha condição de adversário da URSS manteve-se. Vinha já daquele tempo em que muitos contemporâneos meus, depois fidelíssimos aos dogmas democráticos, ainda viviam na adoração do bolchevismo e dos seus chefes, porquanto ainda não lhes tinha sido dado conhecimento das violências soviéticas. Talvez já então lessem mal e pensassem pior.

Quanto a mim, a persistente posição adversa provinha apenas, ou fundamentalmente, da circunstância de a política soviética ser ostensivamente contrária aos interesses portugueses, de todos os portugueses, e à própria integralidade nacional.

2A2

Prossegui nesses trilhos. E, pouco tinha passado dos vinte anos de idade, em 1949, quando fui colocado num ‘bunker’, erguido no parque do Palácio das Necessidades, onde tinham sido instalados os serviços do Pacto do Atlântico Norte – OTAN ou NATO – organização defensiva então claramente definida pela aliança de numerosas potências e o propósito de proteger a referida zona geográfica contra as investidas russas, que muito se temiam. Nem excluo que o ambiente ali vivido tenha acerado a minha atitude anti-soviética. E o temor colectivo dos russos e dos seus acólitos também.

3

3
Plano Soviético para a Invasão da Europa Ocidental

Tanto se temiam, mesmo a níveis cimeiros de responsabilidades, que, no pressuposto das hostilidades russas, se previa que a resistência, na linha do Reno como na do Loire, fosse apenas simbólica, ou retardadora, programando-se continuada, indefinida, nas montanhas pirenaicas, embora sem excluir que o Governo português, aqueles serviços da NATO e outros mais tivessem de instalar-se nos Açores. Era a Guerra, que acabou por manter-se relativamente fria e se estava travando pela hegemonia dos Estados Unidos, que procuravam repartir os respectivos encargos por diversos países, também interessados em deter os russos. E agora, por vezes, recordando esses tempos, dou comigo a pensar se teria sido possível confiar numa defesa indefinida, na linha dos Pirenéus, no caso de a Guerra Civil de Espanha ter decorrido em termos diversos.

4

A Guerra dita fria prolongou-se no tempo. E houve momentos em que receei, de novo, o sucesso dos russos. Apenas porque eles, além de não terem deixado de saber História, podiam, e podem, por eles e por outros, dispor de infantarias, sem as quais, quando a capacidade de fogo não é suficientemente intimidativa, não há guerras vitoriosas. Nem sequer as frias, que sempre hão-de contar com bases suficientes para poisar a sua mesma frialdade.

 

5

Os tempos mudaram. E quando o regime soviético ruiu, de harmonia com as promessas de Fátima, logo de 1917, e as preces fervorosas de muitos, através do brutal século XX, já me pareceu preocupante que aquele ruir tenha acompanhado e, para mais, em simultaneidade, ou quase, profundas amputações do império moscovita e grandes humilhações para os russos. Lembrei-me de todas as trágicas infelicidades dos tratados de paz de 1919 e das amputações já então sofridas pela Rússia. Lembrei-me de que as injustiças sofridas, nesse tempo, pela Alemanha e pela Rússia, explicam o pacto germano-soviético de 1939, sem o qual não teria podido iniciar- -se a pavorosa e apavorante Segunda Guerra Mundial.

6

Claro que se a felicidade integral dos povos reside na formação de uma federação universal e numa única soberania, regida por Washington; se a situação política e militar dos Estados Unidos é amplamente folgada, em relação aos seus encargos e às suas ambições; se não há ameaças e perigos de maior que ponham em risco todo o debilitado Ocidente; se os russos se opõem à paz democrática e benéfica oferecida pelo “Tio Sam”; se a Rússia não tem qualquer papel a desempenhar relativamente ao equilíbrio do Leste europeu, ou da vas tíssima Ásia, sem esquecer a complexa herança do Império otomano, então

O fim do império soviético deixou os EUA como superpotência dominante do planeta...
O fim do império soviético deixou os EUA como superpotência dominante do planeta…

possivelmente, está tudo certo. A Rússia e muitos outros terão de submeter-se. Mas será de ponderar a multiplicidade dos “ses” condicionantes.

7

Talvez convenha lembrar, quando a História, remota e próxima, anda tão esquecida, sobretudo pela omissão de traços fundamentais, que o povo russo, e outros seus limítrofes, não podem ser responsabilizados por múltiplos desastres que os atingiram, com particular dureza, durante todo o século XX. A começar pela Guerra iniciada em 1914, só possível pelas promessas miríficas que Paris e Londres fizeram ao Czar Nicolau. Nem pelo apoio decisivo que a Alemanha imperial prestou a Lenine e aos seus companheiros, cautelosamente transportados, no seu vagão blindado, com ampla largueza de meios, desde Zurique até à Finlândia. Nem pela implantação do regime soviético, para o qual também a França e a Inglaterra contribuíram, por omissões e por acções, umas e outras ditadas por poderosos grupos económicos, dominados por preocupações capitalistas de lucros económicos, alheias às pátrias. Nem o povo russo pode ser responsabilizado pela sua própria tragédia centenária, que resultou, em larga medida, desde Pedro o Grande, da imitação de soluções ocidentais, que não se ajustavam à heterogeneidade, étnica, religiosa, cultural, daquele imenso império.

8

Atribui-se a Clemenceau, um dos grandes responsáveis dos erros, ou crimes, de 1919, o dito segundo o qual “a guerra é demasiado séria para ser confiada a militares”. É velha pecha jacobina a má vontade aos soldados de profissão e vocação. Mas talvez àquele dito possa ser reconhecido algum fundamento, na actualidade acrescido pelas guerras em que avultam as insídias 9Bdo terrorismo e das guerrilhas urbanas. Realmente essas guerras só poderão ser ganhas através das lutas em defesa da família, da dignidade das escolas, da prevenção policial e da reforma completa da legislação repressiva e dos sistemas punitivos.

9

A nova, ou novíssima Rússia, assim como muitos outros Estados do Leste europeu, no decurso das últimas dezenas de anos, têm dado exemplos magníficos de capacidade de retorno, de reconstituição, na fidelidade a si próprios, à sua fé cristã, às suas tradições nacionais, à sua própria identidade, nalguns casos antes mantida através da heterogeneidade austro-húngara. Mereceriam respeito, quando não merecessem a maior admiração pela sua efectiva resistência aos factores adversos.

10

O Mundo precisa deles. E eles precisam de todos os outros, em termos de globalização mundial, económica e política, mas que não poderá confundir-se com qualquer forma de subordinação. Porque o que de melhor saberão oferecer será a sua própria independência, as suas próprias particularidades. Aqueles povos, herdeiros legítimos de altas culturas e civilizações, não precisam de ser colonizados para se integrarem, em inteira dignidade, num plano internacional cioso da paz, que há-de depender do respeito de todos e de cada um. Não precisarão de adquirir uma cidadania universal. Nem mesmo quando corresponda, formalmente, aos ideais de liberdade e de democracia correspondentes ao teor de vida norte-americano. O “pronto a vestir” não assenta bem à integridade das nações. Nem às exigências da paz.

Cartoon do século XIX onde os EUA "ensinam" outros povos...
Cartoon do século XIX onde os EUA “ensinam” outros povos…

CAPA

SIGA-NOS