Autores Posts porRENATO EPIFÂNIO

RENATO EPIFÂNIO

RENATO EPIFÂNIO
73 POSTS 0 COMENTÁRIOS

1 1065

 

Renato-Epifânio_PB-1-150x150RENATO EPIFÂNIO

Em dois dias consecutivos (29 e 30 de Julho de 2015), nas páginas do jornal PÚBLICO, Ivo Miguel Barroso e Artur Magalhães Mateus traçam um panorama sobre a posição dos nossos partidos políticos sobre o Acordo Ortográfico de 1990. Antes de mais, importa dizer que esse panorama que nos é apresentado não está completo. O “Nós, Cidadãos!”, um dos mais recentes partidos políticos, que está a discutir publicamente o seu programa político-eleitoral, é ignorado. Ora, no fórum criado para essa discussão pública (noscidadaos. pt/forum), pode ler-se a seguinte posição de princípio: “O papel do Instituto Camões deve ser igualmente reforçado, em articulação com o Instituto Internacional de Língua Portuguesa, em prol da difusão da Língua Portuguesa à escala global. No âmbito do Instituto Internacional de Língua Portuguesa, defendemos um melhoramento concertado do Acordo Ortográfico e recusamos qualquer iniciativa unilateral que ponha em causa essa concertação.”.

Provavelmente, adivinhamo-lo, esta será uma posição que não agradará de todo aos autores do panorama em causa, para quem a questão do Acordo Ortográfico parece ser o alfa e ómega de todo e qualquer programa político-eleitoral. Daí, de resto, a escolha partidária que parecem defender, quando escrevem: “O Partido Nacional Renovador é o mais enfático na rejeição do AO90: afirma que ‘obedecer a algo tão aberrante é um perfeito acto de cobardia e de traição à nossa identidade e à nossa cultura’”.

Já tendo apenas em conta os partidos com representação parlamentar na presente legislatura, o coração parece balançar para o Partido Comunista Português, por ter sido “o único Partido que apresentou um Projecto de Resolução, que admitia a ‘desvinculação ou renegociação nas bases do acordo ortográfico’”, ainda que, alegadamente, com uma “fundamentação desadequada”. Longe de nós censurar quem, nas próximas Eleições Legislativas, parece estar à partida indeciso entre o PCP e o PNR: respeitamos sinceramente todas as (in)decisões políticas. Apenas aqui chamamos a atenção para o absurdo que é fazer desta questão o alfa e ómega de um programa político-eleitoral, particularmente numa altura em que, de facto, a nossa soberania está em causa em dimensões muito mais relevantes – bastando, para tal, olhar para a forma como a União Europeia fez capitular a Grécia, apesar de todos os graves erros que o Governo grego cometeu.

Mais do que isso, como o “Nós, Cidadãos!” defende: qualquer desejável melhoramento do Acordo Ortográfico deve ser feito de forma concertada. Toda e qualquer iniciativa unilateral será, pois, contraproducente. Como costuma dizer Adriano Moreira: “sendo também nossa, a língua portuguesa já não é apenas nossa”. Agir como se continuasse a ser apenas nossa é que constituiria um erro colossal que poderia pôr realmente em causa o futuro da Língua Portuguesa à escala global.

0 737

Renato-Epifânio_PB-1-150x150RENATO EPIFÂNIO

Formado em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e, nos dias de hoje, docente na Universidade de Cabo Verde, Elter Manuel Carlos é um dos mais jovens promissores pensadores cabo-verdianos.

Esta sua colectânea de ensaios (“Filosofia, Arte e Literatura: uma abordagem sobre a formação poética, literária e estética do povo cabo-verdiano”) bem o atesta: fazendo plenamente jus ao título e ao subtítulo da obra, nela podemos encontrar um pensamento que é, de modo estrutural, ‘pontifício’. Porque faz pontes: entre Filosofia e Literatura, entre Filosofia e Arte, entre Filosofia e Educação.

‘Pontifício’ também porque, centrando-se na realidade cultural cabo-verdiana, nem por isso deixa de estabelecer pontes com outras realidades culturais, em particular com outras realidades culturais de língua portuguesa, em prol da sedimentação de uma mesma cultura comum: uma cultura de língua portuguesa, uma cultura lusófona, e, por isso mesmo, uma cultura plural e polifónica.

Poderíamos acrescentar: uma cultura mestiça e crioula. A esta luz, Cabo Verde é, de resto, um excelente exemplo, senão mesmo o exemplo máximo, do que pode e deve ser essa nossa comum cultura lusófona. Aparentemente perdida no Atlântico, geometricamente equidistante entre Portugal, Brasil e o continente africano, Cabo Verde é, em si, uma grande ponte, uma ponte oceânica. Não é por acaso que aí se sediou o Instituto Internacional de Língua Portuguesa. Não poderia haver, com efeito, melhor lugar para sediar a entidade a quem cabe, internacionalmente, defender e difundir a nossa língua comum.

Por perceber tudo isso, foi Elter Manuel Carlos oficialmente indigitado, em Junho de 2013, Coordenador do MIL: Movimento Internacional Lusófono em Cabo Verde, onde tem feito um excelente trabalho. Logo no mesmo ano, em Outubro, foi ele o organizador da I Conferência Cabo-Verdiana “Filosofia, Literatura e Educação”, promovida pelo MIL na Universidade de Cabo Verde, em parceria com esta Universidade e com o Instituto Camões, cujas Actas foram entretanto publicadas na nossa Revista: “Nova Águia”, n.º 15 (1.º semestre de 2015).

Sabemos que há quem pense, em Cabo Verde e em Portugal, que este caminho da convergência lusófona – nos planos linguístico e cultural, desde logo, mas também nos planos social, económico e político – se deveria cumprir mais imediatamente. Nós, porém, sabemos que isso não é possível. E por isso gostamos de dizer que este caminho não é para ‘sprinters’ mas para maratonistas. Com ‘sprinters’ não se faria qualquer ponte ou, se se fizesse, ela cederia à primeira onda. Com maratonistas como nós, esta rede de pontes que se estão a criar terá raízes sólidas. Ancoradas no fundo do próprio oceano, irão abarcar e abraçar todos os países e regiões de língua portuguesa. Este livro é mais um passo nesse caminho.

 

0 835

 

Renato-Epifânio_PB-1-150x150RENATO EPIFÂNIO

A tarefa do Syriza era, decerto, bem mais do que hercúlea, mas, passados todos estes meses, não é menos certo que o Syriza cometeu todos os erros possíveis e imaginários para chegar à capitulação final.

Sendo a dívida grega ainda mais impagável do que a portuguesa, havia, à partida, dois caminhos possíveis: manter uma relação empática com os credores, na premissa de que “as dívidas são para gerir, não (realmente) para pagar”, ou afrontar os credores o mais possível.

O Syriza escolheu, legitimamente, o segundo caminho, mas de forma desastrada. Antes de mais, esse só poderia ser um caminho viável se o Syriza tivesse garantido apoios junto de outros Governos, desde logo de países do sul. Como manifestamente não conseguiu, não deveria sequer ter dado o primeiro passo nesse sentido. A menos, claro está, que estivesse disposto a dar o passo final de “saída da zona euro”.

Cheguei a pensar que esse seria o plano final, o único que daria sentido ao caminho trilhado nestes últimos meses. No momento da verdade, porém, o Syriza capitulou por completo, aceitando tudo o que até então disse recusar. Nunca nestes últimos anos houve, no espaço europeu, uma capitação tão estrondosa.

E que ninguém diga aqui que há opções inevitáveis. Mesmo com uma arma apontada à cabeça, uma pessoa pode sempre dizer que não (e muitas pessoas o fizeram ao longo da história). Com povos, decerto, a questão é bem mais complexa. Mas a “saída do euro” não significaria a morte do povo grego. Seria, com certeza, uma decisão com consequências mais gravosas no imediato, mas não seria, de todo, a morte do povo grego. Poderia até ser o passo necessário para uma real recuperação económica a médio-longo prazo.

Tendo escolhido manter-se na zona euro, esse cenário nem sequer se põe. Como já mil e um economistas denunciaram, a zona euro foi estruturalmente construída para agravar as desigualdades entre os países mais ricos e mais pobres. Até há algum tempo, ainda apareciam uns quantos “federalistas” a defender que essa lógica poderia e deveria ser contrariada por compensações financeiras inter-estaduais, como acontece nos Estados Unidos da América. Mas, hoje, já (quase) toda a gente percebeu que o federalismo europeu é uma farsa.

Em suma, o Syriza não deveria ter arrastado as negociações durante mais de seis meses, para mais conduzidas por um ministro das Finanças errático, egomaníaco e megalómano. O referendo a que, no final, submeteu o povo grego revelou-se igualmente uma farsa: não se pode induzir o povo a votar não à austeridade quando se antecipa que se terá depois que a aceitar, em dose reforçada. Chegar às negociações decisivas já com os bancos fechados é, aí sim, negociar com nenhuma margem de manobra. Com tantos deuses gregos em que se inspirar na arte da negociação e do compromisso, custa ver, com efeito, como o Syriza cometeu todos estes trágicos erros.

 

0 743

 

Renato-Epifânio_PB-1-150x150

RENATO EPIFÂNIO

Nos 100 anos da “Arte de Ser Português”, de Teixeira de Pascoaes, propomos aqui a uma (re)leitura dos seus quatro primeiros capítulos. Assim, citaremos, entre aspas, excertos desses quatro primeiros capítulos, que nos permitimos actualizar em prol do novo horizonte que, a nosso ver, se abre a Portugal no Século XXI: o da Convergência Lusófona.

“Uma Pátria é também um ser vivo superior aos indivíduos que o constituem, marcando, além e acima deles, uma nova individualidade. Esta nova Individualidade representa consequentemente uma expressão da Vida superior à vida animal e humana.

A Pátria Lusófona é um ser espiritual que depende da vida individual dos lusófonos. Por outra: as vidas individuais e humanas dos lusófonos, sintetizadas, numa esfera transcendente, originam a Pátria Lusófona.

Temos de considerar a nossa Pátria como um ser espiritual, a quem devemos sacrificar a nossa vida animal e transitória. (…)

Observando agora o processo por que os seres se perpetuam e progridem, vemos que os imperfeitos representam transições para os mais perfeitos. O perfeito alimenta-se do imperfeito. O superior vive do inferior.

A lei suprema da vida é, portanto, a lei do sacrifício das formas superiores às superiores.

Até no mundo físico de revela e tem o nome de gravidade. O corpo menor é atraído pelo maior. Atrair é viver; ser atraído é morrer. O pequeno corpo atraído perde-se, morre no grande corpo que atrai…

Os seres não realizam em si o seu destino, mas naqueles a que sacrificam a sua existência.

O rio é a morte de muitas fontes e o mar é a morte de muitos rios; mas o rio no mar é mar. A consciência humana é também morte, o sacrifício de muitas vidas animais e vegetais inferiores a ela.

Assim o indivíduo sacrificado à Pátria fica também a ser Pátria.

Cumpriu a fonte o seu destino, tornando-se rio, e o rio, tornando-se mar e o indivíduo tornando-se Família, Pátria, Humanidade, subindo da sua natureza individual e animal à perfeita natureza do Espírito.

Nuno Álvares, por exemplo, morreu como homem para viver como Portugal.” Do mesmo modo, Portugal e as demais nações e regiões lusófonas devem sacrificar-se em prol da Pátria Lusófona.

Como prefigurou Agostinho da Silva, ao falar de um “Império, que só poderá surgir quando Portugal, sacrificando-se como Nação, apenas for um dos elementos de uma comunidade de língua portuguesa”. Na sua perspectiva, assim se cumpriria essa Comunidade Lusófona, a futura “Pátria de todos nós”: “Do rectângulo da Europa passámos para algo totalmente diferente. Agora, Portugal é todo o território de língua portuguesa. Os brasileiros poderão chamar-lhe Brasil e os moçambicanos poderão chamar-lhe Moçambique. É uma Pátria estendida a todos os homens, aquilo que Fernando Pessoa julgou ser a sua Pátria: a língua portuguesa. Agora, é essa a Pátria de todos nós.” Conforme afirmou ainda: “Fernando Pessoa dizia ‘a minha Pátria é a língua portuguesa’. Um dia seremos todos — portugueses, brasileiros, angolanos, moçambicanos, guineenses e todos os mais — a dizer que a nossa Pátria é a língua portuguesa.”

0 717

Renato-Epifânio_PB-1-150x150RENATO EPIFÂNIO

Nos 100 anos da “Arte de Ser Português”, de Teixeira de Pascoaes, propomos aqui a uma (re)leitura dos seus quatro primeiros capítulos. Assim, citaremos, entre aspas, excertos desses quatro primeiros capítulos, que nos permitimos actualizar em prol do novo horizonte que, a nosso ver, se abre a Portugal no Século XXI: o da Convergência Lusófona.

*

“Ser lusófono ‘é também uma arte’. Uma arte, porém, não apenas de ‘alcance nacional’, mas, sobretudo, trans-nacional. A condição lusófona, com efeito, não é compatível com a posição estritamente nacionalista.

O mestre que a ensinar aos seus alunos, trabalhará como se fora um escultor, modelando as almas juvenis para lhe imprimir os traços fisionómicos do ser lusófono. São eles que a destacam e lhe dão personalidade própria, a qual se projecta em lembrança no passado, e em esperança e desejo no futuro. E, em si, realiza, deste modo, aquela unidade da morte e da vida, do espírito e da matéria, que caracteriza o Ser.

O fim desta Arte é a renascença lusófona, tentada pela reintegração dos portugueses [e de todos os demais lusófonos] no carácter que por tradição e herança lhes pertence, para que eles ganhem uma nova actividade moral e social, subordinada a um objectivo comum superior. Em duas palavras: colocar a nossa Pátria [lusófona, não apenas portuguesa] ressurgida em frente do seu Destino.

As Descobertas foram o início da sua Obra. Desde então até hoje tem dormido. Desperta, saberá concluí-la…ou melhor, continuá-la, porque o definitivo não existe. (…)

A Lusofonia é uma Pátria “porque existe uma Língua Portuguesa, uma Arte, uma Literatura, uma História (incluindo a religiosa) – uma actividade moral; e, sobretudo, porque existe uma Língua e uma História.

A faculdade que tem um povo de criar uma forma verbal aos seus sentimentos e pensamentos, é o que melhor revela o seu poder de carácter.

Por isso, quanto mais palavras intraduzíveis tiver uma Língua, mais carácter demonstra o Povo que a falar. A nossa, por exemplo, é muito rica em palavras desta natureza, nas quais verdadeiramente se perscruta o seu génio inconfundível.

E é pelo estudo psicológico destes vocábulos, comparado com o estudo das nuances originais (de natureza sentimental e intelectual) descobertas nas Letras, na Arte, na Jurisprudência, no sentimento religioso de um Povo, que podemos definir a sua personalidade espiritual, e daí concluir para o seu destino social e humano.

Se a nossa alma, em seu trabalho de exteriorização verbal, se condensou em formas de som articulado, em palavras gráfica e sonicamente originais, também nas obras dos nossos escritores e artistas autênticos se nota uma instintiva compreensão da Vida, em perfeito acordo com o génio da Língua portuguesa.”

0 952

 

Renato-Epifânio_PB-1-150x150RENATO EPIFÂNIO

Agenda MIL – Esta semana, Nova Águia 15 em Coimbra e Olhão:

01.07.15 – 18h30: Livraria Miguel de Carvalho.

03.07.15 – 19h00: Sociedade Recreativa Olhanense.

No dia 28 de Maio de 2015, publicou António Pinto Ribeiro (A.P.R.) no jornal “Público” um interessante artigo (“O mundo sem nós”), não apenas por aquilo que expressamente diz, como, sobretudo, por aquilo que, de modo mais tácito, denota.

Partindo da tese geral de que a “a presença do homem na Terra é a presença da destruição” (?!), A.P.R. vai depois focar de forma mais precisa o seu alvo, dizendo-nos que “a modernidade europeia que se impôs na colonização fê-lo decepando nas comunidades ameríndias a natureza do humano e a natureza da cultura”, falando, por fim, “daquilo que se designa como a ‘westernização’ do mundo”.

Reconhecendo-se que nada do que A.P.R. defende é propriamente original, nem por isso o referido artigo deixa de nos merecer uma indignada resposta. Sobretudo porque todo o discurso de A.P.R. assenta numa série de equívocos infelizmente cada vez mais disseminados na mundividência pós-moderna.

O primeiro desses equívocos – ou erros absolutos – é o de qualificar a presença do homem na Terra como, sem mais, “uma presença da destruição”. Essa asserção denota uma visão ingénua (para dizer o mínimo) da natureza, muito comum em certas correntes (por exemplo: nos ditos “partidos animalistas”), que é absolutamente falsa. Basta olhar para a natureza com olhos de ver para perceber que toda ela é intrinsecamente cruel e que, mais do que isso, tal é condição do seu próprio equilíbrio (por exemplo: na correlação entre as espécies).

É, pois, absolutamente falso que tenha sido a presença humana a trazer crueldade ou destruição, por mais exemplos que se possam aduzir de crueldade humana. Decerto, temo-los aqui em conta. De igual modo, é absolutamente falsa essa visão também ingénua (de novo, para dizer o mínimo) das comunidades colonizadas pelos povos europeus. Hoje, por exemplo, é mais do que sabido que os povos africanos já se escravizavam entre si antes dos portugueses terem chegado a África – e o mesmo se diga da América e da Ásia.

Ao dizermos isto, não pretendemos, decerto, “branquear” todo o processo de escravatura e de colonização. Não podemos, porém, é aceitar essas visões maximamente maniqueístas que ainda hoje infectam muitos livros de história. Tal como não foi a presença humana que trouxe crueldade e destruição à natureza, também não foram, em particular, os europeus que levaram crueldade e destruição aos “paraísos” africano, americano e asiático. Quanto muito, poder-se-á falar aqui de uma questão de escala – regressando ao exemplo já aduzido, o máximo que podemos dizer é que as autoridades portuguesas da época praticaram a escravatura (já existente, reiteramo-lo) a uma escala maior.

Decerto, como defende A.P.R. citando Lévi Strauss, “o mundo começou sem o homem e terminará sem ele”. Mas isso não significa que a presença humana não tenha sido e continue a ser, absolutamente considerada, um enriquecimento substantivo do próprio mundo. Apesar de toda a dose de destruição (em parte, decerto, evitável), o saldo continua a ser (muito) positivo. Pelos vistos, há quem preferisse um mundo sem humanidade – inclusive, sem línguas nem culturas (em particular, sem lusofonia…). Nós, não. À escala do universo – ou, pelo menos, da nossa galáxia –, a gesta humana no planeta Terra continua a orgulhar-nos.

0 854

Renato-Epifânio_PB-1-150x150

RENATO EPIFÂNIO

De forma pública e descomplexada, saudamos, juntamente com a Associação de Professores de Latim e Grego, a pretensão do Ministério da Educação e Ciência do Governo de Portugal de, no próximo ano lectivo, desenvolver um projecto de Introdução à Cultura e Línguas Clássicas no ensino básico.

Enquanto país europeu que sempre foi, Portugal deve preservar essa sua matriz cultural e civilizacional, contrariando uma certa inércia para o esquecimento histórico, bem patente, por exemplo, na diluição da raiz etimológica de grande parte do nosso vocabulário que o novo acordo ortográfico propõe.

Sendo o país europeu com as mais antigas fronteiras definidas, Portugal, de resto, deveria renegar de vez essa atitude provinciana de “bom aluno europeu”, que este e os anteriores Governos têm, nas últimas décadas, assumido. Não precisamos de fazer prova da nossa condição europeia, nem devemos olhar de baixo os restantes povos europeus. Não temos, em suma, de sentir um complexo de inferioridade em relação a qualquer outro povo deste nosso comum continente.

Dito isto, para nós Portugal não é apenas um país europeu. É, de igual modo, senão ainda em maior medida, cultural e civilizacionalmente, um país lusófono. Por isso, exortamos o Ministério da Educação e Ciência do Governo de Portugal a introduzir, complementarmente à disciplina de “Cultura e Línguas Clássicas”, uma disciplina de “Cultura Lusófona”, também no ensino básico.

Nesta disciplina, deveriam ter lugar as diversas culturas de todos os países e regiões de língua portuguesa, numa visão de convergência, acentuando aquilo que nos une sobre aquilo que nos separa, mas sem qualquer pretensão uniformizadora. A cultura lusófona será tanto mais rica quanto mais assumir a sua dimensão plural e polifónica, ou, para usar um termo que tem tudo a ver com a nossa história comum, “mestiça”. Desde já nos manifestamos disponíveis para colaborar com o Ministério da Educação e Ciência do Governo de Portugal na definição dos conteúdos programáticos dessa nova disciplina.

Essa necessidade de dar a conhecer as diversas culturas de todos os países e regiões de língua portuguesa deveria, de resto, atravessar os diferentes graus de ensino – necessidade tanto mais imperiosa porquanto os nossos ‘mass media’ continuam, por regra, a ignorar ostensivamente o restante mundo lusófono, ou apenas a lembrá-lo pelas piores razões. Se só se pode amar verdadeiramente o que se conhece, é pois tempo de dar realmente a conhecer as diversas culturas de todos os países e regiões de língua portuguesa. Para, enfim, podermos amar a valorizar devidamente a nossa comum cultura lusófona.

0 775

Renato-Epifânio_PB-1-150x150Esse é, de resto, na nossa perspectiva, o maior paradoxo da existência de Agostinho da Silva – como é que alguém que não foi verdadeiramente do nosso tempo conseguiu prever, melhor do que ninguém, o Portugal pós-imperial. Antecipando a previsível catástrofe, tentou, ainda nos anos sessenta, avançar para uma verdadeira Comunidade Lusófona. O Estado Novo não lhe deu ouvidos. A Revolução em curso também não: “…a ideia geral talvez fosse, e eu próprio a defendia e procurei no princípio da guerra em Angola, junto de autoridades portuguesas, por exemplo de um embaixador no Rio, pôr-lhes essa ideia na cabeça… fazer das colónias e de Portugal uma comunidade de língua portuguesa.

Ideia que expus a Franco Nogueira quando vim a Portugal, em 1962, convidado pelo Governo português para discutir o estatuto do Centro de Estudos Portugueses em Brasília. O ministro Franco Nogueira, ministro dos Estrangeiros nessa altura, recebeu-me e pudemos conversar com toda a franqueza, perguntando-me ele se eu achava que a ideia de uma comunidade luso-brasileira seria bem recebida no Brasil, respondi-lhe que não. Exactamente por causa da atitude que Portugal estava a tomar com as colónias, com Angola naquela ocasião, o Brasil de nenhuma maneira ia aceitar isso, pois recordava-se muito bem que tinha sido colónia. A meu ver, Portugal tratou o Brasil muito bem quando foi colónia e se não tivessem sido os portugueses, o Brasil não se teria constituído.

Mas o Brasil muitas vezes achava que os portugueses tinham tido defeitos na colonização — a meus olhos esses defeitos não existiram, embora houvesse muita coisa individual de tipo geralmente conotado com a colonização rapinante dos países. Mas não me parecia que naquela altura aceitassem uma coisa dessas. Mas havia algo que achava que aceitavam e que tomava a liberdade de expor a Franco Nogueira, que de resto tinha tido relações com um grande amigo meu, o poeta Casais Monteiro, e, portanto, eu podia falar com uma certa liberdade, por isso disse-lhe que o que me parecia que se devia fazer era uma comunidade luso-afro-brasileira com o ponto africano muito bem marcado.

Quer dizer, se pudesse, eu poria o ponto central da comunidade, embora cada um dos países tivesse a sua liberdade, a sua autonomia, em África, talvez Luanda ou no interior de Angola, no planalto, de maneira que ali se congregassem Portugal e o Brasil para o desenvolvimento de África e para que se firmasse no Atlântico um triângulo de fala portuguesa — Portugal, Angola, Brasil — que pudesse levar depois a outras relações ou ao oferecimento de relações de outra espécie aos outros países. Então Franco Nogueira disse-me que isso era completamente impossível, que Portugal não se podia dividir e que não havia nada a fazer nesse ponto. De maneira que eu continuo a pensar que, aquando da revolução em 1974, se poderia talvez ter tentado isso.” (in “Vida Conversável”, Lisboa, Assírio & Alvim, 1994, pp. 51-52).

Resta perguntar se, esgotada a ilusão europeísta, que, como sabemos, Agostinho da Silva igualmente antecipou, chegou a hora de tentar de novo. Nós consideramos que sim.

0 707

Renato-Epifânio_PB-1-150x150Mas regressemos a este colossal livro, não tanto pelo seu tamanho (mais de setecentas páginas), como, sobretudo, pela sua ousadia: fazer uma Biografia de Agostinho da Silva. Sabemos bem que esta era uma tarefa tão desejada por muitos quanto ciclópica, dados os muitos “buracos negros” que existiam na vida de Agostinho da Silva. António Cândido Franco, desde já o dizemos, não traz à luz todos esses “buracos negros”. Mas conseguiu realizar uma obra que merece, na íntegra, esse subtítulo: “Uma Biografia de Agostinho da Silva”. E sublinhamos aqui o artigo, que parece ter escapado a alguns comentadores mais apressados: trata-se aqui de “Uma Biografia de Agostinho da Silva”, não de “A Biografia de Agostinho da Silva”.

Isso é desde logo relevante porque toda esta Biografia se desenvolve a partir de uma perspectiva: a de António Cândido Franco, necessariamente. Assim, tal como o próprio Agostinho da Silva nos deu, numa das suas mais conhecidas obras, “Um Fernando Pessoa” e não “O Fernando Pessoa”, assim também António Cândido Franco” nos dá “Um Agostinho da Silva” e não “O Agostinho da Silva”. Tanto mais porque, ao longo da obra, António Cândido Franco parece-nos enaltecer mais as dimensões da vida e obra de Agostinho da Silva em que mais se reconhece – e ao dizermos isto não estamos a fazer, como alguns poderão pensar, um juízo negativo.

Temos aqui bem presente a lição daquele cuja obra, a par de Agostinho da Silva, mais estudámos no âmbito do pensamento português contemporâneo – falamos de José Marinho. Escreveu ele que “quando expomos um pensador devemos dar toda a força ao seu pensamento” – defendendo ainda, citando Schopenhauer, “tal atitude é, em relação a eles, a mais adequada e é, para o nosso próprio pensamento, a mais proveitosa”. Ou seja: António Cândido Franco, ao ter – como escrevemos – enaltecido mais as dimensões da vida e obra de Agostinho da Silva em que mais se reconhece, procurou dar (e bem) “toda a força ao pensamento” agostiniano. Nós, decerto, faríamos diferente – mas com o mesmo objectivo. Também nós, com efeito, tendemos a enaltecer mais as dimensões da vida e obra de Agostinho da Silva em que mais nos reconhecemos.

O retrato que António Cândido Franco nos dá de Agostinho da Silva é pois um seu retrato, mas é, inequivocamente, um retrato verdadeiro. Verdadeiro e generoso: mesmo que algumas passagens possam não agradar a alguns gostos mais conservadores (e isso chegou a acontecer connosco – não temos qualquer complexo em assumi-lo), António Cândido Franco procurou sempre aquele que seria, na sua perspectiva, o melhor ângulo, o ângulo mais favorável ao retratado, mesmo quando não escamoteia as dimensões mais chãs de qualquer existência humana. Em todas essas dimensões, foi, com efeito, Agostinho da Silva um homem maximamente viril, maximamente enérgico. Um colosso, numa palavra. Só acrescentaríamos “estranhíssimo” porque, nos nossos tempos, homens assim são cada vez mais raros. Verdadeiramente, Agostinho da Silva não foi um homem do nosso tempo.

Post Scriptum – No dia 10 de Junho, às 18h, no Espaço Arte Europa-América (Av. Marquês de Tomar, 1b, em Lisboa, junto ao Saldanha), iremos lançar a nossa mais recente obra: “A Via Lusófona II”, com prefácio de Adriano Moreira e apresentação de Mendo Castro Henriques. Fica o convite.

0 930
Renato-Epifânio_PB-1-150x150Comecemos por falar sobre o autor desta obra colossal (“O Estranhíssimo Colosso. Uma Biografia de Agostinho da Silva”, Quetzal, 2015, 735 pp.): António Cândido Franco.

Não tanto para salientar a sua já vasta obra – recordamos aqui alguns títulos: “Memória de Inês de Castro” (1990), “Eleonor na Serra de Pascoaes” (1992), “Vida de Sebastião, Rei de Portugal” (1993), “A literatura de Teixeira de Pascoaes” (2000), “Os Descobrimentos Portugueses e a Demanda do Preste João” (2001), “A Rainha Morta e o Rei Saudade” (2003), “Viagem a Pascoaes” (2006), “A saga do Rei Menino” (2007), “A herança de D. Carlos” (2008), “Vida Ignorada de Leonor Teles” (2009), “Os pecados da Rainha Santa Isabel” (2010) e “Notas para a Compreensão do Surrealismo em Portugal” (2013) –, ou sobre a sua carreira académica na Universidade de Évora – onde é professor há já bastantes anos –, mas sobre o seu carácter, mais precisamente, sobre um traço do seu carácter que valorizamos em particular.

Ao contrário do que é hábito – sobretudo, arriscamos dizê-lo, em Portugal –, António Cândido Franco lida bem com o diferente, ou seja, consegue dialogar com quem tem posições muito diversas das suas, conseguindo até, nalguns casos, admirar essas pessoas, sem que isso implique qualquer abdicação da sua posição de partida. Dou um exemplo recente: a recensão que António Cândido Franco publicou no n.º 14 da Revista “Nova Águia” (2.º semestre de 2014) da obra “O Puto – Autópsia dos Ventos da Liberdade”, de Ricardo Saavedra. Esta obra, para quem não o tenha presente, é ela própria uma biografia, no caso de alguém que, nas palavras de António Cândido Franco, “viveu o lado errado e em geral esquecido da Revolução dos Cravos” – acrescentando: “Este homem não viveu, como tantos de nós, o 25 de Abril mas apenas a descolonização. Em vez de alegria, sentiu medo; em lugar de euforia, a depressão; em vez duma libertação, o pânico de perder casa e vida. É de pasmar que o herói deste livro, já encarcerado, no feriado do 25 de Abril traje de luto pela pátria morta? Não cremos. Está na lógica do livro e da personagem”.

Não conhecemos muitas pessoas que, comungando o mesmo ideário de António Cândido Franco, tenham igual grandeza de carácter para escreverem o que acabei de citar – de imediato, lembro-me de Raul Proença, que salienta a “belíssima alma” de Teixeira de Pascoaes no mesmo gesto em que assume a dissidência em relação à “Renascença Portuguesa”. A regra entre nós é a contrária: as divergências acabam (quase) sempre em desqualificações: se alguém não concorda connosco é porque, em última instância, padece de alguma falha de carácter ou de inteligência.

É bem mais complicado, com efeito, admitir, para mais de forma expressa, que os nossos adversários – ou mesmo os nossos inimigos – sejam pessoas no mínimo tão bem-intencionadas quanto nós, por mais que, objectivamente, consideremos que estejam do “lado errado”. Daí, de resto, o erro absoluto daqueles que reduzem os diferendos ideológicos a divergências éticas – da extrema-esquerda à extrema-direita, passando decerto por todas as variantes do centro, há pessoas bem-intencionadas. A diferença não está pois aí.

CAPA

SIGA-NOS