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LUÍSA VENTURINI

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Estive a deliciar os olhos com a imagem de um relógio em espiral – uma espiral daquelas suficientemente fibonaccianas para serem perfeitas e de horas suficientemente ambíguas para serem minhas, que é como quem diz (à boa maneira da Constança Laura Portalegre), “apócrifas”.

Talvez seja esta a imagem que melhor retrata, realmente, as minhas horas, naquela sua pretensa infinitude abissal e auto-fágica que me deixa rever o fora-de-horas das minhas. E não quero com isto dizer que não continuo a absorver hora a hora e a des-horas a sabedoria do Eclesiastes. Porém, haver um Tempo para tudo não quererá dizer que há um tempo para tudo, já que o Tempo tem tempos que apenas o Tempo entende.

Mas sim, cada vez me convenço mais de que as minhas horas são fora-de-horas, estão fora-de-horas, como se fossem uma pseudo-sombra, esfíngica e difusa, da tal espiral perfeita e o mundo, tal como o vejo e o vivo, estivesse a 17º do real, do comum, dando-me sensações e percepções de intensidade e subtileza vária, mas sempre muito pessoal.

Nestes fora-de-horas das minhas horas, descortino o mundo (afasto mesmo as cortinas e, em momentos mais avessos, arranco-as para escancarar as janelas das ideias) e descortico as palavras (retiro-lhes a cortiça protectora, tantas vezes hipócrita, deixando-lhes o sentido à flor da pele, para poder tocar na intenção, na volição, que num momento distraído poderá escapulir-se pelas bainhas das discursos). Um pouco como olhar de lado para uma partida de xadrez para melhor entender o jogo.

À vista de terceiros poderei, até, ter um relógio disfuncional… Vá-se lá saber! O que de facto me importa é que nestas minhas horas fora-de-horas o Tempo decorre na liberdade de convocar os tempos que lhe aprouver, e eu lá sigo pela espiral, se calhar apenas vivendo, mas, quase sempre, a pensar que voo. É bom.

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LUÍSA VENTURINI

Vem, asa de gaivota!, e desenha o que puderes… O céu só tem a cor dos dias que compuseres e se é azul, vermelho, a roxo cintilado depende tão-só do rastro, do esquisso, de um voto alado que possas enfeitiçar, desenhar, cumprir no ar. Vem, asa de gaivota!, e desenha o que puderes que neste céu já não há nem sequer saber… Entre o viver e o morrer é tudo um recomeçar, um ir devagar, um evitar morrer, um desenhar que se possa. Vem, asa de gaivota!, canta, lança-te, sem medo, sem mistério nem segredo, sem quereres saber o fim. Desenha-te só assim, sem perguntas nem respostas. Não importa se entendes nem sequer se é o que gostas: és asa – voa, revoa, mas segue sem te deteres. Vem, asa de gaivota!, e desenha o que puderes…

Cantou-se. Outros diriam que cumpriu-se. Outros, talvez, que alguém ressurgiu. São vozes, meu amor. São vozes. Que ouves e não ouves. Mas nada importa: sussurros e ruídos na sombra de jardins, na cauda de cometas, alaridos. Plasmo-me ou invoco-me, sempre sem meio termo. Entre sóis e luas, há quem conte planetas e estrelas. Outros, oásis ou os mais ermos desertos. Não importa. Cantou-se. Outros diriam que cumpriu-se.

(Viro o Universo do avesso. Com o cuidado de não deixar as mangas amarrotadas, mal dobradas, desconfortáveis à vista e ao vestir. E quando se canta, meu Deus quando se canta!, não há alinhavo que resista, bainha que permaneça em estado inócuo, virginal, “rematado”. Mas é só avesso o Universo que viro mas que afinal é o meu. Resta saber de que lado. E já não sei se sou eu quem vira o Universo do avesso ou se o meu Universo é mesmo este avesso sem verso, nem rima, nem medida. Mas como se cantou! Mas como se espraiou em todos os meus horizontes! Mas como se cumpriu! E agora? – … um resíduo de espuma na areia ainda traz um canto de gaivota, um grito de tempestade, um resquício qualquer da verdade deste avesso.)

São vozes, meu amor, são vozes. Tricoto a noite a duas mãos. Estranhamente, a uma cor apesar das vozes. Que ouves e não ouves. Mas nada importa. À minha volta, um espaço. Fluido, quase real. Neste avesso tremendamente universal, quantas vezes o vazio não é só traço? Ambiguidades de avesso. E a pergunta será sempre, sempre a mesma: é tudo fim? é tudo recomeço?

Alguém ressurgiu. Num silêncio profundo, no outro lado de um estertor nauseado, numa solidão raiada de presenças mas nem por isso menos saudade nem menos ausência. Alguém ressurgiu. Um esboço de asa de gaivota resistiu e voou. Ah como voou! Sem se preocupar em saber sequer se era avesso, cosmos, caos ou tropeço no inebriamento simples de um simples renascer. Cantou-se, meu amor. Anunciou-se. Há uma asa nova com sede do mar todo.

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LUÍSA VENTURINI

Nada me cansa mais do que a angústia. E é curioso como uma palavrinha, aparentemente tão inofensiva, contém um significado tão amplo e multifacetado, senão mesmo entrançado. Nela se implicam em doses diversas, porém, amiúde simultâneas, a ansiedade, a tensão, o receio, a nostalgia, a insegurança, a dor e a expectativa. Indiscutivelmente, essa é uma sensação estranha de inquietação que me toma até as vísceras e que me deixa exausta – tanto mais que a minha insónia nela encontra bom pretexto para justificar-se e, impante de gáudio e glória, instalar-se durante uns quantos dias, até que o corpo se imponha e lhe grite “basta!” com um sono bom, profundo, de muitas horas.

Vejo a angústia também como uma espécie de dor de alma, fininha, insidiosa e de garra afiada que nem anzol, de que mal me dou conta quando se ferra em mim e que me levará muito trabalho e tempo para afugentar, a não ser que uma qualquer circunstância especialmente feliz a escorrace sem mais nem menos, de um momento para o outro.

Ocorre-me que o Sartre falava da angústia como consequência da nossa condenação à liberdade. Pois sim, também será isso, que a responsabilidade constante pela opção, apesar de intrinsecamente natural e nem sempre consciente, não deixará de ser razão de tensão permanente. Mas a angústia, tal como a sinto e observo, e muito possivelmente por ser filha dessa liberdade, parece mais enteada da contrariedade com que coabitamos nos nossos dias, num mundo cada vez mais materialista e no qual, paradoxalmente, a materialidade cada vez nos torna mais infelizes e incompletos: criou-se o mítico objectivo e desfizeram-se as ferramentas eficazes para, mais que não seja, tentar alcançá-lo. E o pior, e talvez o mais angustiante, nesta panóplia em que a vida se tornou, é que não há inocentes, pois todos, de algum modo, somos coniventes, em palavras, pensamentos, actos e omissões.

Enfim… Mais vale pensar que já chegou o mês de Maio, que muitas flores vão começar a pintalgar a paisagem para alegria dos nossos olhos e que, apesar de não haver cura para as minhas saudades e, quiçá, para as minhas angústias, só posso senti-las porque, apesar de muito contrariada, ainda estou aqui, condenada à minha liberdade. Valha-me isso!

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LUÍSA VENTURINI

Quer se queira quer não, a própria história de Portugal fundamenta-se numa certa soteriologia, que se reflecte na tentação sempre presente da crença milagreira do povo. Mas, não é esta a vertente que pretendo abordar. É mais a outra, a que nos esclarece as ideias, eleva o pensamento e arredonda o espírito.

Por um acaso, daqueles que parecem provocados pelo conjuro de umas quantas bruxas, tive a oportunidade de uns minutos de conversa amena e fácil com o Dr. Joaquim Eusébio, historiador de arte e agora doutorando que, dentro de dias, defenderá a sua tese sobre Santo António na Azulejaria Portuguesa dos sécs. XVII e XVIII em Portugal e no Brasil.

O padroeiro dos pobres, oprimidos e doentes, dos náufragos e das famílias, o santo casamenteiro que sempre atende o responso para que se encontre o que se perdeu e que, perdida a nacionalidade, também é venerado como padroeiro dos combatentes, passa a ter lugar no coração português como Santo António de Lisboa, relegando-se Pádua mais para os domínios da teologia do que da fé popular. É, na altura certa, recuperado pelo nosso excelso filósofo seiscentista, o bom Padre Vieira, que a ele recorre para a grande metáfora de justiça social e que nele vê a referência para a sua intrínseca necessidade de pensamento humanista.

Entre a vocação jesuítica de António Vieira e a franciscana de Fernando de Bulhões criou-se uma ponte tão extraordinariamente estreita que quase vejo (permita-se-me a extrapolação) na figura do Papa Francisco uma emulação desse ideal maior: a íntima relação entre o conhecimento dos homens, a filosofia e a demanda do Sagrado.

Nestes tempos em que a moral se instrui de leituras mercantilistas e que a dignidade do ser humano se vê restringida a definições tão espaventosas que se me afigura urgente uma sua reperspectivação, a recuperação deste arquétipo – através da figura de Santo António, tão pedagógica e iluminantemente cantada por Vieira – na mente das gentes, ergue-se no meu horizonte como algo necessário.

O Dr. Joaquim Eusébio, homem bom e sábio, irá dissertar sobre azulejos, é certo. Não tenho dúvida que, com a sua sapiência de estudo feita e com a sua sabedoria conquistada na filosofia filadélfica de quem constantemente se quer vivo, nos devolverá, entre linhas, entre letras, entre espaços, o grande paradigma de que a nossa nação tanto precisa.

Aguardo, não sem ansiedade, a publicação deste seu trabalho. Aguardo, portuguesa, a recuperação deste nosso arquétipo.

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LUÍSA VENTURINI

Luísa Venturini

Depois da abençoada surpresa da visita de uns amigos, fiquei com imensa vontade de, como quem lança uma cana ao mar, anzolar outra vez o mais que conhecido mote da Gertrude Stein. Porque por muitas certezas identitárias que tenhamos – nem que sejam essas que confirmam o muito que nos desconhecemos – há mundos onde a rosa é mais rosa e outros, em que por muito rosa que a rosa seja, só sente em si o fenecer lento do desgaste e da claustrofobia.

Continuo a extasiar-me com as múltiplas interacções que geramos e com as múltiplas formas como cada uma nos afecta no difícil funambulismo que é o dia-a-dia. E, por vezes, como necessitamos duma saudável licença sabática para nos retirarmos de tudo e de todos e digerirmos lentamente os impactos que tudo e todos têm em nós.

Confesso que ando tentada a forçar-me uma tal licença. Sendo como sou, o maior desafio ao longo da vida tem sido o de cultivar uma certa equanimidade e a verdade é que não pareço estar à altura do projecto, vivendo como sempre vivo com uma intensidade inclemente lágrimas e risos, maldades e bondades, em todas as suas declinações.

Claro que isto tem um sal especialmente alegre e prazeroso quando vejo a minha rosa florescer porque há pessoas cheias de Graça, que só por existirem parecem regá-la a tempo inteiro e são mundos tão grandes e aliciantes que a obrigam a desabrochar e crescer em cor e perfume.

Idealmente, o mundo esconso de muitas outras não me afectaria. Mas afecta. Confunde-me, desassossega-me e murcha-me a alma. É nesses momentos que me apetece refugiar-me em Clarissa-a-Velha, perder-me pelo suave labirinto da baixa antiga, passear-me em silêncio pelos claustros da Abadia e repetir-me, à laia de mantra, como a Stein: Rose is a rose is a rose is a rose…

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LUÍSA VENTURINI

Luísa Venturini

Ouve lá… Tenho tantas saudades tuas… Andas longe há tanto tempo…

Eu sei, eu sei que te guardo e que até cantamos quando faz frio. E sei como largamos papagaios para celebrar a Primavera e nos aninhamos como órfãos à lareira, mantendo a boa tradição do queijo e do vinho tinto. Claro que é tudo isso. Mas hoje, hoje, tenho tantas saudades tuas…

Não me chegam as cartas nem as certezas nem os filmes em tempo real. Quero que me chegue o sabor a sal da tua pele e quero sentir o calor bom do teu abraço.

É tão estranho. Não posso fazer nada. Eu estou aqui e tu estás acolá sem recta rápida que nos una. É este entrar na casa que é a nossa e ver os pássaros tristes no poleiro e sentir os ombros órfãos ao fim do dia. É Abril, meu amor, e eu choro-te todos os dias neste cansaço de estar sempre à tua espera.

Eu sei que me deste um girassol e os poemas de Thiago de Mello e os madrigais rosados do Eugénio e que me foste acácia e que valsaste comigo que nem Chico, apesar de eu não ter vestido novo para estrear…

Passeio o cão quatro vezes por dia porque gosto de animar o meu amigo. Converso com ele, sabes? E ele entende-me. Aprendemos os dois a falar um canês muito nosso. Falo-lhe de ti e ele rejubila, matando as saudades uma a uma. Depois, aconchega-se a mim, tentando matar-me as saudades uma a uma. E lança-me aquele olhar todo escorreito e mel e chama a minha mão para o abraço, com aquela sua pata muito, muito humana, muito amiga. Quando digo o teu nome, alça as orelhas e dá-me uma lambidela rápida na mão, não vá eu ficar lamechas. Depois, aninha-se aos meus pés, no conforto do meu amor por ele e sabendo que o meu pensamento está todo cheio de ti.

Ouve lá… Um dar de mãos também é importante. Uma febre, um fervor, um delírio na desarrumação da casa, um desconcerto de gostos, um desarranjo de planos, um desencontro de entre-almas ao fim da tarde (pelo prazer de um conforto ao fim da noite), tudo me falta.

Faltas-me. Fazes-me falta. Ponho nos dedos os anéis que tu me deste e nos lençóis a urdidura dos teus sentidos e nos dias a tua sombra, a tua sombra, a tua sombra…

Ouve lá… o tempo é tão curto.

…Percebes?

…Será que percebes?

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LUÍSA VENTURINI

De quando em quando acontecem-me estes momentos de constatação, francamente impiedosa, dos silvados que me atapetam a vida e é como se não houvesse fresta alguma por onde conseguisse escapar-me. Fico acocorada num canto, a engasgar-me de impaciência e não vale nem a pena sermonear-me com sensatezes salomónicas, porque nestas ocasiões a saturação é tanta que até ao Salomão mando às urtigas, e bem posso tentar sacudir os espinhos que eles, alheados, teimam em afincar-se à minha pele.

Hoje estava eu num desses dias avinagrados em que talvez devesse andar com um espanta-espíritos dependurado na cabeça ou, menos espaventosamente, fazer um intervalo e ir dormir, na esperança de que o acordar me trouxesse um outro, melhor, mundo.

Mas como não podia deixar de ser, é claro que não fiz nada disso e que, com uma ventania a arejar-me a cabeça, fui buscar uns óculos lavados à gaveta, daqueles que trazem uma corzinha colada às lentes, e vestir uma saia bem rodada e florida, com bolsos dos grandes, onde posso guardar segredos e tesouros.

Talvez por coincidência, acaso, ou outra qualquer conspiração, eis que se me abracadabra uma porta recheada de sorrisos frescos, acabadinhos de colher, e um par de mãos, abertas que nem asas, me acolhe e perlimpimpimpa as silvas e os vinagres, transformando-os numas belas pratadas de doces, tão sinceros quanto primaveris.

De repente, já estou a cantarolar as palavras do Régio, debruço-me à varanda daquela bela janela, lambuzo-me sem reticências com uma travessa de leite-creme e tenho criancices tais, tais e tantas, que bom será ter pudor de as contar seja a quem for.

Nos bolsos grandes da minha saia rodada e florida trago sons de Cuba, gargalhadas de crianças e rendas de família. No laçarote que trago no coração, hoje acrescentei um bordado novo, todo feito a ponto pé-de-flor.

(Ah! E reparei, quando cheguei a casa, que já não trazia os óculos…)

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LUÍSA VENTURINI

Eu chego com a Primavera e trago na pele veludos de andorinha para te amaciar as solidões. Vou levar-te na subtileza do meu voo manso, como se fosses um papagaio de papel e assim ilumines o céu triste que ainda permanece nos olhos das crianças. E vou tecer-te um casulo num beiral do meu coração, para que saibas sempre, sempre, que por muito que te exiles, sempre tens a tua casa ao regressares.

Vou cantarolar-te uma chuva miudinha para que te passeies por uma praia de cristais e os teus olhos voltem a ter o cintilar picante da alegria; e cozinhar-te aromas à lareira, para que te arredondes no colo da vida; e fechar bem as janelas que não queres para que o ruído da querela não te chegue e o vento não apague as tuas velas.

Vou mergulhar contigo no sonho que Consolação apeteça e trazer-te uma sonata que só tu vais entender. Vou purificar os óleos mais preciosos e neles embeber linhos que te afaguem as mãos e elas, livres de canseiras, possam voltar ao gesto que é o teu.

Vou resgatar-te dos dias e das noites em que te estilhaçaste de encontro ao vazio e fazer-te até esquecer o estrondo, o medo, a ansiedade, o nada além-da-porta, o nada aquém-da-porta e o momento trágico da ausência de ti. E vou dar-te uma oferenda de silêncio com uma grinalda do poema pressentido, para que a uses e, assim, a completes por muitos e muitos anos.

Trago-te também um chapéu de palha, para que os teus olhos não temam regressar ao horizonte iluminado, e uma pequena malga para que tenhas sempre onde guardar o amanhã.

Eu chego-te com a Primavera. Só tens de dar um passo que eu, eu, já estou a correr ao teu encontro (nos éteres soam esperanças vivaldinas, nos campos não tardarão amores-perfeitos, nos seres, os corações exultam).

Eu chego por ti com a Primavera.

Vem.

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LUÍSA VENTURINI

Mal tinha eu terminado de perceber o intuito da encomenda, já a minha Soledad deixara para trás a rede e a mansidão da sesta e todo o seu abraço me envolveu. Creio mesmo que é nestes meus silêncios mais profundos que ela me ouve, me entende melhor. Será do seu sexto, ou talvez sétimo, sentido.

Serviu-me um rum de esporas vivas e aguardou pacientemente que as picadas me acordassem o sangue e acalmassem o sufoco do peito. E serviu-mo outra vez e outra ainda.

Dia e noite, noite e dia, a Soledad, o rum e eu vivemos abraçados, entranhados, endemoninhados, até quase perder os sentidos. Nos entaramelados da ressaca, desenfreava-se-me o pensamento em catadupas de imagens, de memórias de momentos e conversas em que, de tão boquiaberto, mais parecia tonto, mas isso não importava. Ocorriam-me as histórias da Índia e da Pérsia, um episódio no Egipto e uma aventura com berberes, no Norte de África, tudo entremeado como uma bela “tocineta” com mil mosaicos de Singapura. Até me falara do Bagavad Gita e de outras coisas que eu não entendi, dizendo-me, com um sorriso curioso que lhe rejuvenescia o semblante, para sempre respeitar o número cinco. Ainda hoje estou para saber porquê.

Passou-se um tempo. Seriam umas sete da tarde quando decidimos acordar. Ela levantou-se, imponente, e acendeu-me uma cigarrilha como se me desse um beijo. Perguntou-me se desceríamos ao pueblo, se não para falar com o cura, pelo menos para abraçar algum daqueles a quem Melquíades amara. Acenei com a cabeça, na pavidez daquele susto que me cortava as palavras e se grudava às ideias.

A Soledad quebrou o meu espanto, perguntando-me:

– E quando voltou de Singapura? Lembras-te?

Pois se me lembro! Ao vê-lo regressar a Macondo, depois de termos tomado como tão irremediavelmente certa a sua morte, não houve quem não replicasse Tomé o Dídimo, chegando até a picá-lo com uma agulha para lhe ver o sangue e tirar a limpo que não era alma penada. E ele ria, com frondosas gargalhadas, dando-nos palmadas nas costas e nos ombros, no júbilo do reencontro e da estima e, fazendo-se zangado, repreendendo-nos pela falta de maneiras, que estava com fome e sede e ainda ninguém lhe oferecera uma arepa que fosse, nem uma caneca de água, nem uma cadeira onde descansar as pernas.

Trazia tantas malas como de costume e recordo que, naqueles momentos de alegria, me irritei muito comigo por estar tão inapropriadamente curioso quanto ao que elas guardariam.

Foi quando ficámos os dois a olhar as lonjuras do céu que ele me disse que a morte era um sítio muito solitário. A verdade é que não o levei a sério. Como poderia ele regressar da morte? E, no entanto… A Soledad, porém, acreditava que Melquíades tinha um pacto com Deus.

– Pois se é cigano, hombre! Pois se nasceu en Hindustán, hombre!

Tinha a boca seca e o hálito tresnoitado do rum, mas, ainda assim, senti que a noite se aveludava à minha volta. Entre silêncios e mimos enganámos a fome com umas colheradas de frijoles e saímos. Estamos a caminho do pueblo, tão calados que parece que cantamos. A noite está de lua e a minha Soledad, de braço dado comigo, aponta ao longe. Sim, creio ver a sombra alongada de uma silhueta. Estreito-lhe o braço com mais força. Um arrepio de esperança ou de loucura percorre-me as entranhas. Será Melquíades? Não, não, não pode ser. E, no entanto…

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LUÍSA VENTURINI

Depois de muitas, muitas horas de apoquentação, avistei, finalmente, que ao fundo do caminho resfolegava a poeira levantada pelos cascos de um burro cansado, que só vi passados alguns lentos momentos.

Percebi rapidamente que era o Juanito. Aliás, só podia ser o Juanito, pois àquela hora de estrépito de sol, silêncio e ausência, não há vivalma que se atreva por aqueles contrastes de deserto-a-prenunciar-o-pântano.

Peguei no meu chapéu já meio ratado nas orlas maduras de muitos anos e fiquei ali pasmado no alpendre, a ouvir o estilhaçar da brita sob os cascos e a ver os resfôlegos da poeira, como se o chão respirasse e fizesse questão de mostrar-me os seus miasmas.

A quietude estúpida do esplendor solarengo das cinco da tarde dá ao ar magias de sentimento e som. Claro que era o Juanito. Claro que era o seu burro. Mas que raio o traria aqui, nesta tarde de inferno, onde até as sombras se escondem sob os ulmeiros de um rio forasteiro desta terra?

Ajeitei os suspensórios, consertei o cós das calças na cintura – como se ainda tivesse cintura! – e ri a bom rir para comigo ao ver a pança bonacheirona que deixou de preocupar-me há mais, mas há muito mais!, de vinte anos.

Com uma passada quase solene, fui buscar uma cigarrilha tão morena como a minha Soledad, acendi-a ainda na cozinha e, com estilo, dei a primeira baforada no alpendre, conjugando-a com as nuvens poeirentas dos cascos do burro.

Ouvi a minha própria gargalhada, claro está, que não sou homem de levar a vida a sério, tendo a certeza que o Juanito também já a ouvira e se benzera com as três cruzes costumeiras, resmoneando “Por Diós!”, como se eu fora sacrílego só pelo facto de desconhecer as notícias que ou ele, ou o próprio burro, me trazia.

Apagava eu o tabaco sob o tacão da bota e já me ouvia a bem-vindar o moço, ainda que, para manter distâncias e respeitos, nem me passasse pela cabeça oferecer-lhe uma limonada – a xícara de água estava ao lado e isso lhe bastaria. Com os salamaleques trémulos de quem os desconhece e ao seu preceito, abriu a mochila (por acaso roubada há uns anos a um americano de má sorte) e dela tirou um enchumaço forrado a papel pardo e com aquele lacre que sempre me cheira a enxofre aziago.

O rapaz ficou-se por ali, querendo parecer ensimesmado, de sobrancelha curiosa pelas notícias que, não sendo dele, o tinham tornado mensageiro. Meti a mão ao bolso e despedi-o com uma gorjeta gorda que lhe comprasse senão o silêncio todo, pelo menos o momentâneo. E vi-o seguir com o seu burro, devagar, caminho abaixo, entre “patacones” de poeira e som de cascos.

Espreitei pela janela do alpendre. A Soledad ainda dormia a sesta. Abri com delicadezas adamadas a encomenda parda. As lágrimas correram-me pelo rosto.

Era Melquíades que me dizia Adeus.

CAPA

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