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LUÍSA VENTURINI

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LUÍSA VENTURINI

(Às minhas queridas H., C. e R.)

Há famílias que são como laranjas redondas, inteiras, cheias de sol na pele e mel por dentro dos gomos.

E quando um dos seus dulcíssimos gomos lhes é, subitamente, arrancado, o sentimento de cataclismo alia-se à incredulidade e fica ali, irredutível, a pulsar nas veias e nos pensamentos, de dia, de tarde, de noite, até a ideia da perda entrar na própria circulação do sangue e o tempo, sempre o tempo, devagar, muito devagar, trazer algum apaziguamento.

Mas estas famílias que são como laranjas redondas, inteiras, cheias de sol na pele e mel por dentro dos gomos, guardam em cada poro toda a essência do gomo que partiu e não deixam jamais de ser redondas e inteiras.

São verdadeiras obras-primas, nascidas de uma arte maior e sabem pincelar os seus momentos com retoques de ternura e gostam de estender as telas dos seus amores nos cavaletes dos dias e nas paredes das casas e nos pequenos recados, ditos ao ouvido, com que celebram a vida.

Sim, porque estas famílias que são como laranjas festejam a vida em cada momento e se, por um lado, sempre comemoram a memória, por outro, também esboçam o depois, porque, apesar de tudo, nada é maior do que esse sol que resplandecem na pele nem do que esse mel que transportam na seiva.

Quem tem a regalia de conviver com elas ou, tão simplesmente, de se cruzar com elas, deixa-se contagiar pelo seu perfume, pelo seu brilho e, de alguma forma, por algum encanto, sente que também se transforma, magicamente, em gomo.

Ocorre-me um outro momento recente em que uma mulher com nome de Madona que acabara de despedir-se de um homem com nome de lua, dando-me a mão, com a outra, num gesto bíblico, apontou a mesa onde se reuniam filhos, netos e bisnetos e me confidenciou: “Olha como ele deixou tanta terra verde…”

Não posso deixar de pensar (de dia, de tarde, de noite, ainda na incredulidade do cataclismo) no dulcíssimo gomo que se foi. No seu caso, recupero o seu olhar claro, luminoso, e apetece-me, por dentro do coração, apontar para todos os gomos e confidenciar-lhe: “Olha como é maravilhosa esta tua laranja…”

0 1310

LUÍSA VENTURINI

Basta-me olhar para as pérolas no meu pescoço para me lembrar dessa minha bela crioula de porte magnífico. Mas, nestes dias em que Cuba volta a ser tema de notícias, não posso deixar de evocar Azucena de uma forma especial.

Para quem tenha lido “A Gaiola dos Periquitos” (que publiquei há um ano e meio), o nome soará familiar. E foi um ímpeto de nostalgia irremediável que me fez mergulhar nas gavetas de um velho móvel de estimação para calcorrear recordações e reencontrar as ultimas cartas que Azucena me enviou, já de idade muito avançada, mas escrevendo ainda sem óculos, como comentava orgulhosamente com aquela sua letra gorda, redonda, das professoras primárias de outros tempos.

Ao fim de todos estes anos, tanto o sobrescrito como as folhas de papel (de um salmão muito suave e elegantemente timbrado em relevo) preservam o perfume peculiar do bálsamo que ela própria preparava desde os anos de adolescência e descoberta e que detém propriedades únicas como cicatrizante, analgésico, calmante e outras de ordem menos trivial.

Dei comigo a emocionar-me quando percebi que se me colava a fragrância de Azucena, tanto e tão bem como se a tivesse acabado de abraçar.

Nessa penúltima carta, desabafa a tremendura de vazio para onde a viuvez a degredara e quase timidamente fala-me dos deslumbramentos dos seus amores bordados a tangos e a habaneras no bastidor de quase quarenta anos de vida em comum.

Lembra os seus sucessos no Tropicalia e rasga-se de comoção ao falar da enteada, a sua grande amiga Constança da Anunciação e das pérolas que esta lhe tinha oferecido no momento da primeira despedida, em 1937, e que desde então lhe empulseiravam o braço.

Não, já não passeava no Malecón, que sentia as pernas fracas e os seus quase noventa anos desfrutavam mais e melhor dos cadeirões. No entanto, guardava uma pequena esperança: não gostaria de morrer sem tornar a dançar um tango.

Sabia que já não seria a mesma coisa – menos pelas pernas do que pela alma. No entanto, podia sempre fechar os olhos da realidade e imaginar o seu Taylor ali com ela, naquele abraço feérico de todos os sentidos, trazendo Gardel e a felicidade de retorno à vida.

E a carta rematava com a grande revelação: sabia que assim que dançasse o seu último tango, Deus quereria que ela fosse ter com o seu Taylor, provavelmente, desejavelmente, possivelmente no dia do seu santo.

A última carta que recebi de Azucena está na gaveta de minha mesa de cabeceira e foi-me enviada pelo seu advogado. Tem a data de 26 de Maio e com ela me chegavam um longo colar de pérolas, uma caixinha de porcelana com o seu bálsamo e uma jóia de um bilhete: “Para que os uses com o mesmo amor.

Até sempre, Azucena”.

0 1191

LUÍSA VENTURINI

São cinco da tarde e não estou em Madrid.

De todas as constatações pela negativa, de tantas infindas miríades de probabilidades, aquele rouxinol que sempre se traz no peito acaba de me cantar esta, vá lá saber-se por que razão. (Certamente estarei em algum lugar, embora hoje só tenha, como um pequeno felino ao qual se feche uma porta, esta consciência estranha de onde não estou.)

Mas, pronto: o sublinhado do dia é esse. Faria talvez mais sentido ter-me ocorrido que são cinco da tarde e não estou em Granada, oferecendo-me a ponte inevitável com Federico García Lorca e com Antonio Machado e, naturalmente, com Boabdil.

No entanto, prefiro não mergulhar nas dores andaluzas, que as lusas já me bastam, e, elegendo esse lugar onde não estou, deixo-me ir pelo Paseo de la Castellana, visto-me na branquidão alegre das fachadas, devaneio entre arvoredos mansos e sou mesmo capaz de aceitar o convite prazeroso de uma esplanada ali no Paseo de Recoletos, com o olhar cheio de horizonte, provavelmente a divagar que são cinco da tarde e não estou neste lugar onde me ocorreu que não estou em Madrid.

Seja como for, pelo menos evoco esta hora pré-crepuscular em que começam a germinar os poemas e as pontas dos dedos anseiam por cordas e por teclas, já tendo por dentro dos ouvidos o trautear da alma, e percebo que a hora me é mais casa do que o sítio e que já são cinco da tarde há não sei quantas horas e que o presente é apenas este efémero de consciência, este nada que se torna tudo, este ninho fecundo de todas as possibilidades, incluindo a suposta realidade de talvez não serem bem cinco da tarde e de que, porventura, estou aqui.

E nessa errância por dentro desta errância, nesse vagabundear entre o que é, o que não é e o que talvez possa ser, nesta animada correria entre patamares, neste agitado trocar de lentes, apercebo-me subitamente que é por estes novos pontos de fuga (literalmente, pontos para onde fujo para me oferecer outra perspectiva) que consigo trazer-me de regresso ao meu tempo e ao meu espaço com a visão lavada que rasga padrões, tendências e rotinas e me lança na aliciante aventura da redescoberta dos “ses” que me aprouverem, sem ter sequer de obrigar-me à dúvida condicional, condicionante (nem, já agora, à condição duvidosa).

Pois então muito bem: possivelmente serão cinco da tarde, possivelmente não estou em Madrid.

Na minha casa, como música de fundo, atarantam-se gatos e amores e eu, finalmente, aprendo a pintar com Wang-Fo.

0 1256
LUÍSA VENTURINI
Estou quase a chegar. Até já vejo o aceno da outra margem e o rio já não é apenas uma paisagem muda, que o oiço cantarolar um ofertório de graças. Tenho a tentação de apressar o passo, mas percebo que o olhar me engana o horizonte, tanto e tão bem quanto a minha ânsia.

Estou mesmo a chegar, já vejo distintamente a ponte e os barcos já não são pequenos traços com velas. Avisto os resfôlegos dos remos e dentro deles umas figurinhas que o sol ofusca. Adivinho o espadanar e a orla de espuma sobre os seixos e o vaivém da água na areia que não tarda me vai ser chão.

Avisto o vale do outro lado e a serra verde, verde, que se recorta naquele fundo imenso e azul, repleto de asas – duas cegonhas valsam de regresso a casa e fazem-me procurar a chaminé arrefecida há mais de um século onde fizeram o ninho.

Trago os pés magoados e duas feridas latejam, aprimorando-me o compasso da passada como se trouxesse o coração nos pés e um mantra invulgar no corpo inteiro.

Apetece-me cantar ao ritmo das veias, mas não ouso porque tudo à minha volta entoa esse cântico dos cânticos que a natureza conhece bem melhor do que Salomão, que a noiva traz grinaldas nos cabelos, pombas no colo, romãs nas faces e mel de rosmaninho a celebrar-lhe os lábios.

O noivo, esse, tece sedas nas harpas do arvoredo, atapeta o átrio com flores de laranjeiras e recolhe orvalhos tisnados de zimbro e de avelãs para que ela neles se afague e se remoce.

Chega-me um som de um hino ou de uma súplica e um cheiro a alfazema tolda-me os sentidos para tudo o que não seja a percepção daquele aceno.

O cansaço toma-me, a luz ofusca-me e três árvores frondosas oferecem convites de sombra e refrigério. Hesito. Tenho tanta pressa de chegar… parar, assim tão perto?… está já ali mesmo o outro lado… mas, se não parar, será que chego?

Mas, se não parar, será que vivo?

O coração espanta-se-me no peito, os pulmões solfejam só poeira, a boca estiola-se-me de sede, os pés já se rasgam no arrasto. E as árvores ali e o rio além, tão perto, e o aceno a reclamar-me que me cumpra.

De súbito uma aragem. Um pio de mocho, ao longe, atrasa o tempo. Um campo de papoilas acorda a vista e um sino ecoa na distância as horas que não conto. Tiro do bolso um lenço e limpo o rosto.

Arranho as mãos nas silvas e como amoras, como quem percebe que a noite se anuncia. No lusco-fusco o aceno é um gesto branco e já oiço a cantilena dos barqueiros e já lhes vejo as boinas e já sinto nos pés o bálsamo da espuma.

Estou mesmo quase a chegar. Encosto-me, por míngua de um arrimo, às canas que as auras não vergaram. Nos pés, o coração ainda late e no corpo a pulsação ainda entoa. Levanto o braço todo num aceno de encontro ao aceno inteiro da outra margem.

Num ponto bem além do infinito, nesse Aleph que o Borges tão bem disse, as pontas dos meus dedos tocam as pontas dos teus dedos.

Estou a chegar… estou a chegar… amanhã… amanhã… talvez haja amanhã…. Shhhhh…

0 1187
LUÍSA VENTURINI
É muito engraçado: sempre que me encontro com a minha amiga Lídia Carrola e tenho o prazer de desfrutar das suas telas, fico com a imensa vontade de confidenciar com determinada galerista de Clarissa-a-Velha para que aí se faça uma exposição dos seus quadros – principalmente dos que se reúnem sob o título de “Naturezas Vivas”. Porquê? Eu explico.

Claro que tem a ver com o jogo cromático que a pintora, qual guardiã de fogos e tecelã de sensações, nos oferece com aquela prodigalidade quase esbanjadora que a arte oferece à obra. Mas tem principalmente a ver com o facto de nestas telas da Lídia Carrola como em Clarissa ser quase sempre o mês de Junho e sentir-me convidada a colher aqueles frutos para que em mim fiquem perenemente, como um “aide-mémoire” para aqueles dias em que não estou em Clarissa-a-Velha e sinto a vida como uma canja fria.

O aroma a damascos maduros perpassa aquelas janelas e é impossível não sentir as cintilações do azeite como prendas que qualquer dama antiga gostaria de trazer no colo, tal a exaltação dos crepúsculos que nos assoma, que nos asperge, que nos assoberba. No meu caso, é mesmo quase impossível não escutar em mim as palavras do Chico Buarque de Hollanda que o Milton Nascimento tão grandiosamente musicou – falo, claro, de “O Cio da Terra”.

Mais do que numa galeria, imagino estas telas em discretos cavaletes a entremearem as roseiras da Pérgola Junina, um burilado em mármore rosa dos finais do séc. XVIII, que ali quase ao fundo da Avenida das Laranjeiras nos permite descansar o olhar sobre o Rio Guadil e perdê-lo nas distâncias até ao Monte da Luz (nome carinhoso que a população, em tempos imemoriais, atribuiu ao pico mais alto da Serra da Lua).

Espero que este seja um bom pretexto para levar a minha amiga a conhecer por si própria os regalos de Clarissa e, assim, oferecer-se descansar de outras paisagens, talvez não menos solarengas, mas certamente mais austeras.

Acredito, até, que a sensibilidade da Lídia Carrola não resistirá perante os muitos recantos dos arredores medievos, de tons tão mediterrânicos como a sua alma, e que, mais cedo ou mais tarde, neles encontrará a inspiração para uma nova fase.

Pela parte que me toca, gostarei supinamente se o meu convite for aceite. Será essa, porventura, uma forma de lhe agradecer os muitos regalos com que me brinda a alma.

0 1267
LUÍSA VENTURINI
É verdade que fazia frio cá fora e que uma chuvinha itinerante nos massacrava lentamente a paciência, enquanto nos acotovelávamos boamente sob beirais, varandins e guarda-chuvas alheios, aguardando que as portas se abrissem.

Revíamos rostos amigos e até reencontrávamos inesperada e surpreendentemente pessoas que, por muitas que sejam as calendas passadas, nunca deixam de ser nossas, de tal modo os nossos belos conluios prosseguem vivos nos nossos espíritos (ao olhar agora para trás, que gostoso ver os trilhos que então foram construídos…).

Entrando-se, por fim, a sala ia ficando cada vez mais quente, tornando-se numa espécie de casulo, de favo repleto do mel luminoso do que ali a todos reunia.

É verdade que não te vi ali connosco. Mas também é verdade que te senti ali connosco e que por mais de uma vez ouvi o teu saxofone nitidamente a sobressair de quantas vozes os teus talentosos amigos delicada, ternamente, nos faziam chegar.

Os teus instrumentos voltaram a soar melodias tuas e juro que senti o teu olhar pousado orgulhosamente sobre cada um de nós que ali estava contigo.

O clube quente e cheio como um ovo inspirava e expirava ao ritmo da recordação, da saudade, do amor, do respeito e de mil cumplicidades, tornado num único ser muito presente e muito vivo. Claro que só podia ser assim.

Era o Hot Club de Portugal. Era o Concerto para o Jorge Reis – o teu concerto – e era o dia do teu aniversário.

Até jazz, meu amigo.

0 1184
LUÍSA VENTURINI

Deu-me outra vez um daqueles ataques súbitos de abeirar-me da janela e namorar o sol – talvez por me desconfortar tanto a cinza fria com que estes dias andam salpicados e ter de correr o cortinado pretensioso dos pequenos atilhos e dos pequenos cadilhos que me emperram os momentos. Abro mesmo a janela de par em par e faço do meu sol um braseiro manso.

Pois, já percebeste: claro que é outra carta para ti, outra das muitas que revelo sem revelar, sabendo sempre que tu sabes que são cartas para ti. No outro dia, uma amiga perguntou-me se existias. Eu ri-me (como tu sabes que eu sei rir) e disse-lhe, sem mentir, que não, que te inventava como invento quase tudo para poder lidar com a realidade.

Só que tu sabes como não invento nada e como tudo o que aparentemente ficciono é a realidade dos meus dias e como tudo o que aparentemente se mostra como factual não passa de um aparte onde, à parte, desaguo de quando em quando.

Apesar de todas as nossas idiossincrasias fóbicas, escrever-te estas cartas e publicá-las é algo absolutamente delicioso. Gosto que te imaginem de panamá e casaco de linho cor de grão, que a estridência dos tweeds sempre me causa um recuo óptico.

Também não posso referir-me a óculos nem a bolsos assoberbados porque, mesmo que fossem verdade, jamais os reconhecerias como teus. Adoro escrever-te desta forma descarada, sim, e chamar-te de Persa e de milhentos outros nomes, apesar de ser esse o que se me afigura mais correcto, mais luminoso, mais real.

Gosto de cantar-te. E cantar-te assim, à beira do enigma (chapinhando cânticos de sama e muita noite e sentir-te ouvir-me, mesmo naqueles silêncios em que danço, danço, danço só para ti), é a consumação de um entendimento que é só nosso, de um amor em vertigem sem queda, porque sei que me és consolação.

Sigo pela vida, como tu sabes, com a minha rosa etérea nos cabelos e com este corpo a crer-se renascido e com esta alma velha, velha, só porque o teu amor me ensandece de amor por ti. E quando, logo, disseres que me leste, eu responderei, distraída, “O quê?” e será a vez de os berlindes, no céu, dançarem para nós.

Para já, por agora, fico-me com este sabor morno e redondo na alma, esqueço atilhos e cadilhos e acendo uma grinalda pela casa toda.

0 1261
LUÍSA VENTURINI
Pareço uma fatia de queijo espasmodicamente espalmada entre a Melancholia de Dürer e a Náusea de Sartre.

A areia corre, abstraída de tudo, no relógio – fina, compassada, sisificamente – e, apesar de tudo, o quadrado mágico exorta o número excelente, sem que a balança se mova, sem que o sino se comova nem comigo nem com o número, sem que o arco-íris solte duendes, sem que cheguem asas quanto mais voos, neste interregno flácido de agonia.

Daqui à náusea é menos do que um passo. Olho e oiço e vejo e escuto e não entendo a panóplia verborreica e aparatosa que percebo oca, talvez porque, em mim, a confiança se tenha estraçalhado irremediavelmente e já só veja pantominas e ademanes fátuos onde, outrora, julguei ver gente e gesto.

Melencolia_I_(Durero)O ribombar dos atarantamentos assusta-me – talvez por estar convencida que atarantado é o néscio, o tonto e o incompetente e que, ainda à laia de fatia de queijo, são esses os que pretendem gratinar-me.

Dou comigo a refugiar-me por dentro dos meus próprios olhos, que hoje já nem o meu olhar me serve de guarida, que as aguarelas estão por aí espalhadas pelo chão, com os compassos e as bússolas e outras coisas afins. Faz muito frio. Tornam-se muito escuros os dias deste Inverno em que as ruas estão pejadas de rótulos, num desarrazoado de recortes ignorantes do seu todo que se descoalham uns nos outros, empapados que estão das mesmas gomas e viscos.

Não estou no parque. Mesmo que estivesse não tenho lá à mão nenhum castanheiro que me faça discorrer sobre a existência. E como não sou esse outro, isso também não tem qualquer importância.

Hoje estou mais em maré de não discorrer sobre nada. Ou, melhor, sem maré, a ir com a areia e a passar por toda essa inexistência de que todos esses pretensos rótulos me falam, como se fosse eu a ampulheta.

Hoje, só estou mesmo à espera que este mundo se torne “qualquer coisa de asseado”.

Pim!

0 1232
LUÍSA VENTURINI
Hoje, parece-me que vem a propósito recordar os Três Reis Magos.

Aparentemente tudo começa com uma passagem do Evangelho de São Mateus, que se crê ter sido escrito entre 80 e 90 d.C. Nela, o autor conta que uns magos do Oriente chegaram a Jerusalém perguntando onde poderiam ir prestar homenagem ao rei recém-nascido. Herodes, ao saber disto, consultou os sacerdotes e os escribas que lhe disseram ser Belém da Judeia o lugar indicado pelas profecias.

Então, temendo perder o poder com o nascimento do anunciado Messias, Herodes usa um estratagema e chama os magos, pedindo-lhes que encontrem rapidamente a criança nessa cidade, pois também ele gostaria de ir saudá-la. E os sábios assim fizeram, seguindo uma estrela que se deteve no local onde o Menino nascera e aí lhe ofereceram ouro, incenso e mirra. Mas, alertados por um sonho, não informaram o rei da Judeia, cujas intenções se manifestaram naquilo que o mesmo Evangelho refere como o cumprimento da profecia de Jeremias, ou seja a matança dos inocentes.

Mas voltemos aos homens sábios. Segundo parece, é num manuscrito grego provavelmente do séc. V, cuja tradução para latim, no séc. VIII, é conhecida como “Excerpta Latina Barbari”, que pela primeira vez se fica a saber que esses magos eram três reis: Melchior, vindo da Pérsia; Gaspar, vindo da Índia; e Baltazar, vindo da Arábia.

São muitas as tradições e as lendas que lhes estão ligadas, mas talvez a mais comum no ocidente seja a que inspirou o quadro de Giotto (séc. XIV), “A Adoração dos Magos”, que nos mostra Gaspar como um homem idoso, de barbas brancas, e o primeiro a prostrar-se e a oferecer o ouro; Melchior, de meia idade, de cabelos e barbas castanhas, a entregar o incenso; e Baltazar, um jovem negro que apresenta a mirra.

Sobre o que se passou depois, conta-se que São Tomé os terá visitado, aquando da sua viagem à Índia, e que nessa ocasião os teria baptizado.

No séc. XIII, Marco Polo diz que viu os seus três túmulos em Saveh, na Pérsia, e que os seus corpos se encontravam intactos, com cabelo e barba. Mas também se conta que os seus restos mortais foram encontrados por Santa Helena, no séc. IV, aquando da sua peregrinação, e levados para a Hagia Sophia, em Constantinopla, donde foram transladados para Milão e daí para a Catedral de Colónia, onde o Relicário dos Três Reis, que data do séc. XII, se encontra ainda hoje, havendo mesmo registo, numa biografia do Bispo de Milão, de que houve testemunhas presenciais dessa trasladação.

Seja como for, o Dia de Reis continua a ser santificado pelos Católicos Romanos e Ortodoxos e é celebrado por diversas culturas de acordo com as suas próprias tradições – em Portugal, continuamos a alumiar as mesas com a coroa do Bolo-Rei, ainda que já sem os antigos símbolos do brinde e da fava.

Assim, nesta data em que rematamos a estação natalícia, pois tenhamos um belo Dia de Reis!

0 1228

LUÍSA VENTURINI

Depois de um Natal passado à lareira do amor dos meus, onde não houve frestas por onde entrasse o frio das distâncias, regresso a casa e dou com as minhas gatas atarefadas a ensaiar as Janeiras a plenos pulmões, sem conseguirem acertar nem no tom nem no refrão, indiferentes ao bulício timpanal que me provocam e às apreensões e expectativas que me assolam nesta semana de ponte entre dois tempos.

Talvez por causa desta trilha sonora, desvaneceu-se-me a vontade de olhar para trás e apurou-se-me o entusiasmo de olhar para a frente, aferrada à velha ideia de que o melhor está sempre para vir e que a arrogância e prepotência vigentes vão escorrer pelo ralo da lucidez, enquanto jorros de humildade sabedora e sábia começarão a iluminar inteligentemente os nossos dias, soltando-nos dúvidas benéficas e bons sensos saudáveis.

E talvez por causa da lareira de amor dos meus me apeteça tanto desejar que o novo ciclo nos traga mais colo, mais sorriso, mais outros em nós e mais nós nos outros, menos rótulos, menos eufemismos, menos possessão, menos lepra de certezas absolutas e de verdades insofismáveis, menos ismos e muito mais philadelphia e muito mais philosophia e muito mais compaixão (cum passio, claro está).

E também talvez por causa do desgaste em que me vejo, em que nos vejo, apetece-me desejar que nos tornemos supinos na sublimidade da paciência para suportar o inalterável e exímios na criatividade da subversão que leva a novas rotas, que suscita reinvenções de amor com carácter de urgência, tão necessárias hoje como quando o Daniel Felipe para elas alertou há já tantos anos…, que leva a trespassar fronteiras que só existem porque uns quantos assim o pretenderam, sem nunca se ter provado a bondade da decisão – ou, pior, da lei.

As minhas gatas ensaiam as Janeiras e receio que nunca cheguem a acordo, quanto mais a um acorde benévolo, mas agradeço-lhes o mote: eu quero cantar as Janeiras e ir por aí e levar nos olhos, nos lábios e nas mãos “rabanadas, pão e vinho novo” e desejar, porta a porta, que o novo ano traga “uma candeia acesa” que termine de vez com a indigência que regressou aos nossos dias e que a expulse de vez das nossas vidas, para que descubramos, com empenho e convicção, a obra-prima que se esconde sob todo este lodo que se crê granito, sob todo este barro que se julga mármore.

Enfim, numa palavra, desejo-nos, de todo o coração, um feliz Ano Novo!

CAPA

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