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LUÍSA VENTURINI

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LUÍSA VENTURINIEstava a ver se me lembrava da terra onde nasci – com céus graníticos nos invernos e cascatas azuis a dosselar as primaveras; com campos repletos de duendes verdes e searas enxameadas de fadas muito louras; com olhos sempre prontos a latejar de maravilhamento e corações sem reposteiros.

Estava a ver se me lembrava da terra onde nasci – havia quatro estações e aniversários; havia zangas de família e as pessoas faziam as pazes e selavam acordos e contratos com um aperto de mão; as crianças conheciam o silêncio e o respeito, mas também o frio e a fome, e sonhavam noites a fio com uma surpresa nos sapatinhos.

Estava a ver se me lembrava da terra onde nasci – as ideias viviam emparedadas, quase todas, e as bocas traziam forcas para todas as palavras que ousassem transmiti-las; os coros gritavam com idêntico afã “Ámen” e “golo” e afogavam-se aiando dores, menores as mais das vezes, acompanhados à guitarra e à viola; os risos e as dolências dos acordeões e das concertinas passavam languidamente de moda e a presunção citadina omitia-os do cardápio.

Estava a ver se me lembrava da terra onde nasci – o privilégio da instrução chegava a vinte em cada cem, mas a humildade e a educação dançavam de mãos dadas; os poetas burilavam as senhas, os pintores reinventavam códigos e os músicos exorcizavam quaternariamente os calabouços; à mesa de família, não se falava de religião nem de política nem de negócios; e, por princípio ou criação, as bem-aventuranças estavam na moda, por pouco que delas se soubesse, e a ostentação era um pecado social fosse qual fosse a persuasão.

Estava a ver se me lembrava da terra onde nasci – viravam-se os casacos e trocavam-se punhos e colarinhos; a caneta de tinta permanente substituía o lápis quando a fluência da escrita já dispensava a rasura; faziam-se e desfaziam-se muitas bainhas para fazer render a roupa das crianças e o desperdício não fazia parte do vocabulário das famílias.

Estava a ver se me lembrava da terra onde nasci – as mulheres arrebanhavam-se em obediências e sujeições, ainda coisas, mas algumas já se tresmalhavam em rebuliços sadios passando a ser gente; a história era contada como um rosário doutrinal, com entremezes tão patrióticos e imperiais quanto falsos e colados a cuspo.

Estava a ver se me lembrava da terra onde nasci – tinha natais e muita gente e muitas viagens até às consoadas; e muito alarido de bacalhau, filhós, azevias e favas de bolo-rei e beijos repenicados de avós e muito colo de tias e muita música e brindes; sabia-se pouco de solstícios e ainda menos de outras coisas.

Estava a ver se me lembrava da terra onde nasci – parece que passou uma eternidade pelas estrelas, pelos pinheiros, pelos presépios; houve céus que se rasgaram e chãos que se fenderam e horizontes que se abriram num alvoroço de mudança e transfiguração. Mas, no meio de toda esta revoada, mantém-se, talvez inócuo, como um fio seguro e condutor, o mesmo sentimento em cada um de nós para cada um dos outros: que sejam Boas as vossas Festas!

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LUÍSA VENTURINILá de longe, alguém espreita.

Sou eu a tentar espreitar-me do futuro e a tentar perceber-me nestes agoras, então bem-aventuradamente passados, torcidos nos bilros da memória e ungidos pelo alívio daquilo que já não é. Claro que isto tem todo o suspense da incerteza – não posso saber se chego ao futuro, não posso saber se, chegando, me apetecerá espreitar-me ou se poderei brincar saudavelmente às volições, ou mesmo se as lentes desses outros tempos tisnarão mais ou menos as paisagens que retive.

Pode sempre dar-se o caso, como de facto se dá (gostei de usar o termo “facto” em relação a isto), de espreitar sempre por uma janela que me confunde, de tal maneira estão urdidas as imagens na trama das sensações. É como se sempre recordasse o ponto intermédio entre o que foi vivido e o que julgo ter vivido. É muito engraçado.

Pelo que do longe de hoje espreito tantos ontens, não me custa entender que a sinfonia se baseará no mesmo compasso e, portanto, acabo por perceber a minha vida como um somatório de várias, múltiplas, multifacetadas vidas, todas elas verdadeiras, todas elas falsas, todas elas completamente vividas e sempre incompletamente percebidas.

Como me espreitarei dali de longe, não faço ideia. O olhar envelhecido pode emprestar cambiantes de doçuras ou agruras aos pormenores que agora mal me mereceram cinco gramas de atenção e pura e simplesmente anular com a desfaçatez dos sábios aquelas coisinhas endemoninhadas que agora me roubam o apetite, espantam o sono e envenenam os dias.

Poderá mesmo acontecer que me detenha numa qualquer esquina destes dias esconsos para ficar a regalar-me na esplanada de uma cumplicidade solarenga, benfazeja e breve, como se essa sim tivesse sido a sílaba tónica deste corredor de tecto baixo e sem janelas, como se tivesse mesmo acontecido – irrelevante se sim ou não ou se talvez: se o recordo, que é como quem diz, se o trago de volta ao coração, é porque a alguma das minhas vidas deve pertencer, nem que seja a essa que nunca foi efectivamente vivida.

Para já e por enquanto, o processo é mais esse outro: cá de longe, alguém espreita. E é como ter tempo para perceber o casulo, já sem a ocupação de ter de tecê-lo.

Se é mesmo esse o casulo, nunca poderei sabê-lo, mas interpretar aquele enquanto construo este, sem nunca deixar de ser ambígua a clarividente nitidez da espreitadela, é um balancé delicioso.

Qualquer coisa um bocadinho ao jeito do Mário de Sá Carneiro, quando resmungava: “Eu não sou eu nem sou o outro.

Sou qualquer coisa de intermédio”, mas… convenhamos, sem abdicar da Stein, obviamente!

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LUÍSA VENTURINIJalal, o bom, ocupava-se do seu elefante Jamal, o belo, desde que este ficara órfão, apesar de ter toda uma vasta família com muitas irmãs, tias e primos com quem continuara a conviver.

Mas o certo é que se tinham afeiçoado muito, talvez porque Jamal tivesse sentido no seu imenso coração o afago das lágrimas que Jalal chorara abraçado a ele, junto da sua mãe, subitamente ali caída, sem apelo nem agravo. E Jamal, o belo, percebera o quanto Jalal, o bom, o entendia, tendo também ele sido privado de colo em idade tenra demais para discernir a catástrofe que lhe acontecera.

Fosse como fosse, mal o sol corria o cortinado de bruma e desafogava o horizonte, lá chegava o Jamal no seu passo apressado, solto e alegre, num frenesim de urros, alertando o amigo da sua chegada, e o Jalal desestremunhava-se de olhos acesos, antecipando as cabriolices que o dia lhes traria.

Os anos foram passando e ninguém na aldeia já estranhava ver ao longe o Jamal em longas e pacientes sestas enquanto o Jalal estudava, nem as longas ausências dos dois quando o jovem era convidado para algum passeio da grande família.

Nas redondezas e mesmo nas aldeias mais longínquas, as gentes falavam do guardador de elefantes que viam passar no horizonte, como uma esfinge erguida sobre um vasto trono cinzento e ondulante. Não tardaram a surgir contos e lendas pois os guardadores de elefantes eram raros naquelas regiões e aquele mais parecia ser guardado do que guardar.

Diziam que Jalal sabia falar a língua deles, que comunicavam à distância e que a tribo jejuava quando ele adoecia, fazendo vigílias às portas da aldeia. Contavam até que quando lhe morreu o pai, desfilaram diante da sua casa, num silêncio surdo e rouco de terra tremente, saudando-o no seu luto.

Quando chegou a hora de Jamal, o belo, ir deixando a família, Jalal, o bom, interrogou-se. O companheiro de há doze constantes anos iria ser um jovem solitário como tantos ou reunir-se-ia a outros adolescentes, criando para si uma nova vida noutras paisagens? Talvez devesse afastar-se para que ele se sentisse completamente livre para tomar a sua decisão. Não tinha acabado a época seca e já ele percebera que o Jamal decidira pelos dois.

Os anos continuaram a desdobrar-se por longas derivas entre riachos e lagos, por conversas que só eles entendiam e por breves separações – o Jamal ia deixar o Jalal à sua aldeia quando chegava a hora de ir tratar da sua vida. Depois, de longe, avisava-o do seu regresso e o mundo voltava a ser só deles.

Quando o Jalal casou, já as separações eram mais longas, mas sempre tinham reencontro. Um dia convidaram-no para um lugar como professor na cidade grande – um belo ordenado, casa e até jardim.

O Jalal lembrou-se da história maravilhoso de um outro Jalal e de um outro Jamal. Limitou-se a sorrir e a responder: “Sou o guardador de um elefante. Se não houver lugar para o elefante, como poderá haver lugar para o guardador?”

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LUÍSA VENTURINIChega o mês de Dezembro em catadupas. Catadupas de antecipação, de expectativas de amores-abraços que aguardam por cumprir-se. De invernias e lareiras, de frios e dores tremendas de ossos a atazanar os que passaram a ser velhos antes de o serem, por falta do cobertor quentinho das lãs e dos afectos, dos lenhos em cuja roda se canta para espantar belzebus e sombras e mortos e outros vícios de sofrimentos que o fado e o cante nos colam à pele.

Chega o mês de Dezembro – o tal que já foi décimo e que agora é décimo segundo – com toda a sua panóplia de sentimentos refugados e de ansiedades renovadas pelo voto de epifanias genuínas.

Cheira a Advento pelos caminhos, pelos tremeluzires das luzes, cada vez mais pardacentas e funéreas (e, no entanto, luzes), pela mascarada consumista e consumível das urbes que se afastaram há tantos tempos da sua própria, humana e primordial origem, em que rotinas cíclicas levavam as gentes a saltar fogos, brindar solstícios e criar em si o casulo da primavera.

Chega o mês de Dezembro e traz escarlates de azevinhos colados aos dias e um tear fabril, febril, de boas vontades notificadas para se irem fazendo presentes daqui até algures lá mais adiante.

No vazio da minha casa, chega também o mês de Dezembro. Ázimos os meus dias, azedos os sítios onde estou, temerariamente aventurosa a história dos tempos que vivo. Nas tormentas circulares que os mares conhecem, Dezembro toma um protagonismo insólito – é o mês do entre-tempos. Ainda nada acabou. Ainda nada recomeçou. O mês, o trágico, o quente, o ambíguo mês de Dezembro.

Há uns que dizem que Dezembro traz com ele a convocação individual de um íntimo Nicodemos.

Para já estou só à beirinha de uma estreitíssima fronteira – Dezembro está mesmo a começar. Trará Natal? Sei lá! E o que mais me perturba é que não sei exactamente se me importa que seja Dezembro, que traga ou não Natal ou se vou continuar na ruminação dos dias alheios aos ciclos, às natividades, aos renascimentos. Pergunto-me seriamente se o meu apetecido Nicodemos já terá morrido em mim.

(Mas, meio a dormir, meio acordada, respondo-me: escolho ser o meu próprio advento.

Chega o mês de Dezembro, porque sim, e, por muito que me roubem símbolos e valores, eu vou viver Natal cá dentro. Porque quero. Porque existo. Porque sou.)

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LUÍSA VENTURINIHoje dei comigo a pensar que, de algum modo, o mundo (ou, melhor, as galáxias dos mundos individuais) é uma imensa teia de milhares e milhares de filamentos.

Por estranho que me pareça nestes tempos de des-esperança, são quase todos de luz e a aranha, a bela, a magnífica, a maternal Nit tece-os em todas as declinações do amor.

Para ela, obviamente, não há qualquer diferença. Somos nós, com a nossa necessidade de reconhecer e reflectir um padrão, que criamos nominativos e vocativos, acusativos e genitivos, dativos e ablativos, fora que andamos da Unidade do Logos primordial, o tal de que em certos sítios se diz “no princípio era o Verbo”, aquele que é o locus de toda a criação (não, nem criacionismo nem darwinismo, não agora, por favor), aquele ponto imaterial de puro breu onde toda a luz é gerada, onde há o parto cósmico do 2 e se inicia epicamente a aventura da consciência e do conhecimento.

Com outro glossário, poderia até chamar-lhe de Pátria Pentecostal, o primeiro reduto de Brahma – o “X” no mapa onde reside eternamente o Tesouro Supremo que quer, porque quer, conhecer-se. E nessa luz que cria para conhecer-se, nesse 2, já está contida a dinâmica entre eles, potência de tudo o que pode vir a ser porque, simplesmente, naquele breu maternal, já existe desde sempre e para todo o sempre.

E depois surge esta perplexidade da nossa própria finitude que tem dificuldade em entender o que não gerou nem foi gerado e que, no entanto, sofre voluntariamente a demando do exilado, pois um micronésimo do éon da consciência universal, da centelha, ainda late na experiência da vida do ser, que não sabe e, no entanto, sabe; que se afastou do Verbo e que, no entanto, dele provém em espírito, consciência e conhecimento.

E a consciência que nos leva na viagem entre a constatação da perplexidade e a constatação do saber já encontrou o seu destino, apesar das estações, da repetição das estações, da rotina das estações, qual obra concluída ao negro que sabe em si o rubro, o branco e o ouro.

E tudo isto só vai acontecendo – sim, os maravilhosos gerúndios – enquanto atentarmos nos filamentos e, com Nit, escolhermos tecê-los, entrançá-los, burilá-los, bebendo da luz para precipitarmos amor – declinado humanamente até que a sabedoria dos Hierofantes toque a fímbria dos nossos cabelos e aí passemos a ser, deixando de ser, perdendo-nos e encontrando-nos para sempre em Nit, talvez no Verbo, certamente num qualquer ponto do éon, no que não tem padrão nem nome, no que não gerou nem foi gerado.

…Bom dia!

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LUÍSA VENTURINI
Olha, vim até Clarissa.

O dia fechou-se muito antes de entardecer. Um novelo muito cinzento e redondo de Outono, uma calidez de manta no ar, um estrépito aqui e ali, ao longe. O Guadil apachorrenta-se com veludos de luva junto às margens. Ainda guardo nas mãos o perfume da alfazema que lilazeia os canteiros pelo caminho.

A Avenida das Laranjeiras hoje está muito pacata. De quando em quando chega-me o aroma queimado das lareiras, apesar de não fazer frio. Será da vontade de ninho das famílias… Eu, hoje, sinto-me arredondada como o dia e a música da água sabe-me tão bem, “assim”, sem os corrupios das gentes. Só o rio.

Vim para Clarissa logo de manhã, talvez por ter sonhado toda a noite contigo. Tu sabes que em Clarissa estás sempre mais perto, estejas tu onde estiveres, mesmo que estejas sempre aqui.

A novidade é que acabaram as obras na Abadia de Santa Adélia. Está lindíssima. O lioz recuperou todo o seu esplendor. Logo à noite, vão reinaugurá-la com um concerto nos claustros. Falla, no programa. Para aguçar ainda mais o apetite, o maestro convidado é o Yan Theodorsky. Não consegui bilhetes, claro, que quando soube já estava esgotado.

Manuel Falla… lembras-te? Há quantos anos vimos a Cristina Hoyos e o Antonio Gades no “El amor brujo” do Saura? Falar disto num dia cinzento em que me sinto redonda e debico um chá alourado com uma rodela de limão é quase um paradoxo, não é?

Mas tu sabes que em Clarissa eu fico sempre com espaço a mais para paradoxos, como este de escrever-te sem precisar de escrever-te. Consola-me pressentir o teu sorriso por te trazer, “assim”, desprevenidamente, a Clarissa e às fogueiras da Hoyos e do Gades, num dia outonal como um solo de flauta.

Olha, deve ter acabado de chegar ao largo o carrinho do homem das castanhas – é uma tentação inteira, quentinha e boa, a escapar-se por entre os pingos da chuva. Meia dúzia de pardalitos atrasados acabam de passar, com pressa de chegar a casa.

Eu aconchego-me melhor nas minhas lãs, torno a limpar os óculos e acabo de tomar o meu chá ruivo, com uma vontade doida de comer castanhas e ir para cima de um telhado dançar como Rumi, “assim”, apesar da chuva, apesar do dia precocemente entardecido, apesar da pacatez da Avenida das Laranjeiras.

Desconfio que hoje vou anoitecer por aqui. As luzes acenderam-se e os faróis dos carros acordam nuvens de pirilampos à minha frente. Em Clarissa, mesmo quando raramente não é Junho e a chuva traz às árvores sonatas de mil tons de verde e sépia, respiro-te sempre melhor e a tua presença impregna todos os meus horizontes.

Logo, aninhada no meu pensamento de ti, vou querer adormecer depressa para sonhar contigo outra vez a noite toda, para não deixar de estar “assim” contigo, para dançar contigo sobre os telhados de Clarissa e voar sobre o Guadil, ouvindo Falla, brincando com Rumi e Shams, acendendo fogueiras com a Hoyos, vestida de chuva ou de pirilampos, até amanhecer e ser outra vez Junho em Clarissa.

Mas para já, anda. Vem. A chuva parou. Muito provavelmente vou comer castanhas. Muito certamente vou sentar-me contigo à lareira da nossa casa. Em Clarissa ou em qualquer outro lugar.

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LUÍSA VENTURINIHá coisas estranhas. Definitivamente. Como se movidas por vontade própria, tenho a sensação de que as circunstâncias fazem pactos entre elas, para nosso mal ou para nosso bem. Assim uma espécie de conspiração universal que nos tem na mira.

Eu explico: num belo dia, é a lâmpada do candeeiro do hall da casa que se funde. Tudo bem, é apenas natural. Passados não são cinco minutos, chega a vez da casa de banho ficar mergulhada em treva. Menos natural e mais incómodo, que preciso de um escadote para lá chegar. Mas tudo bem, prossegue-se a lida, limpa daqui, esfrega dali, arruma acolá.

Arrumam-se umas peças no roupeiro. A porta que supostamente é de correr, não corre. Não tuge nem muge. Nem para a frente nem para trás. Uma das gatas deve ter sapateado alguma coisa que impede a calha… bom, há que chamar alguém para resolver o assunto, que eu não tenho força para tanto. Não desmoralizo. Segue o vira. Só que agora o esquentador continua nos seus arquejos, mas a água não aquece.

Quero desligá-lo. O dito não responde. O susto instala-se. Peço ajuda, que estas histórias de esquentadores e de gás nunca me pareceram de fiar. Lá vem uma alma boa que lhe aplica um bisturi certeiro e o leva à semi-morte. Chama-se o técnico. Afinal era só do ventilador… uff! Do mal o menos. Mas, palavras não eram ditas… funde-se o candeeiro da cozinha. Sigo para o supermercado, disposta a adquirir toda uma remessa de lâmpadas, que as de reserva finaram-se.

Degrauzinho arredondado, chuvinha oleosa, folhas de Outono a pregar rasteiras… e lá vou eu num movimento de onda desengonçada estatelar-me em cima de um pobre de um cotovelo que nem tinha sido visto nem achado para nenhuma parte do meu dia.

O que teria o desditoso a ver com esquentadores e com lâmpadas fundidas? Que eu entenda, nada. Mas como as circunstâncias têm destas coisas quando fazem memorandos de entendimento entre elas, alguma razão haverá.

Mas não, não me limitei a ficar de pele esgarçada nem salpicada de papoilas. Não. Fractura mesmo. Daquelas que obrigam à grande discussão: nem desmaias nem vomitas, ouviste? Chama-se a ambulância, passa-se o fim-de-semana fora em grande convívio com enfermeiros, médicos, anestesistas, radiologistas, cirurgiões, auxiliares, etc. Ferro daqui, ferro dali, agrafos, muitos agrafos: um verdadeiro ferro-carril fica instalado no meu braço.

Retorna-se a casa. Expõe-se a parafernália na mesa de cabeceira: protector de estômago, analgésicos, anti-inflamatórios. As gatas interrogam-se, reclamando a falta de um espaço de circulação por elas muito estimado. Eu não reclamo, que apesar da limitação de movimentos, estou sem dores e as mãozinhas funcionam bem. Retomo o meu trabalho. Ah! É verdade! As lâmpadas! Vou ali comprá-las num instantinho.

Volto já (espero eu!).

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LUÍSA VENTURINISe calhar, por causa do ruído dos dias, dou comigo a pensar e a re-pensar não só no silêncio, mas, bem mais precisamente, o silêncio – o tal em cuja existência material eu não creio.

Lembro-me de uma discussão, sem dúvida assanhada por ruidosa, involuntariamente provocada por mim, apenas por ter pensado em voz alta: “De facto, não há silêncio!”

Foi quase um caos de reacções em que me falavam do silêncio da noite, dos campos, das esferas e eu convencida de que as noites, por muito solitárias que sejam, têm sempre o tinir eléctrico das luzes, o ronronar serrilhado dos bichos, o eco longínquo e difuso das vozes e que os campos têm o borbulhar vibrante, senão mesmo compulsivo, da vida dos múltiplos subsolos aos não menos múltiplos estádios dos éteres (e que a vida nunca é silenciosa – teremos, claro, de reportar-nos sempre à acuidade de quem ouve) e que as esferas, as tais longínquas, galácticas, titanicamente transcendentes, são mundos de explosão e contracção, que têm ou detêm a sua própria música – isto é, são completamente avessas ao silêncio.

Talvez que na maioria das vezes se confunda silêncio com calmaria. Mas, quem sou eu para dizer?

Mesmo quando me calo, o meu pensamento não pára e, até quando durmo, ronrona histórias difusas e ruidosas que talvez me sejam lembrança e som no dia seguinte.

Quase que me apetece dizer que o Silêncio, como o Amor e a Felicidade, é um filho dilecto desse Deus Maior que inventámos para conseguirmos suportar o nosso ruído – a ilusão que nos expande, o proto-poema.

Sim, estou a calcorrear uma escala de Si, obviamente. E neste paradoxo em que invoco o Silêncio, só consigo esta imagem que o prova fátuo.

Posso até ter a tentação de dizer: só há Silêncio e Luz. Mas sei que é mentira, porque a Ideia pairará na Luz, abençoadamente, rompendo, rasgando perenemente a hipótese do Nada.

E se não houver Ideia – perguntinha aleatória neste mundo de ruído – haverá Universo?

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LUÍSA VENTURINIComo uma andorinha que se despede, assomou uma pequena nostalgia à minha janela. Talvez seja do Outono. Talvez seja daquela aura azulada e difusa que ganham as coisas como se todas fossem revestidas de tule e não apenas de bruma. E dou comigo a acenar suavemente à pequena nostalgia, não vá eu assustá-la, convidando-a para que entre, sim, que é bem-vinda, que estou cheiinha de espaço em mim para ela. E sinto que o meu olhar, bem fora da minha vontade, fica mais parado na distância e que o meu gesto, impensado, se torna mais lento, como se em vez de um movimento fosse uma preguiçosa sequência de imagens arrastadas por uma qualquer brisa.

E esta é uma nostalgia boa que me leva de viagem para uma colmeia de horizontes, como quem peregrina por um roteiro de sentimentos benfazejos. Não lhe posso chamar saudade. É outra coisa, mais mansa, mais frágil, quase etérea. Fossem outros os tempos e apercebo-me que seria em idênticas estações da alma que um poema me resvalaria pelos dedos.

No entanto, estou atenta. Não a convido a mais do que a um sereno voo pela casa, a um breve descanso no meu coração e a uma ligeira merenda na minha cabeça, que as nostalgias podem sempre pecar por ser abusadoras, instalarem-se com demasiado conforto e, quando damos por nós e por elas, já tomaram o nosso mundo como coisa sua, já se aferraram como hera, já se transformaram em Saudade e, que nem Hidra, podem matar-nos de desolação.

Não gosto de ter saudades. Não gosto dos sofrimentos das saudades. Não gosto dessa coisa obscena de sentir que parte de mim me fugiu. Comentava um amigo comigo que o pior de tudo é ter saudades de alguém com quem se está – essa costuma ser uma dor irremediável.

Mas não, não vou deixar que esta patanisca de memória, sentimento e bruma se julgue mais do que o que é e comece por aí a ganhar mais substância do que a que lhe reconheço. Para isso, já me basta o resto!

Não. O dia está bonito, o céu azul e o sol tão garboso como se fosse Junho. Recolho-a com a mesma suavidade com que a recebi, não vá eu assustá-la, e, como se fosse uma andorinha, lanço-a meigamente pelos ares fora.

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LUÍSA VENTURINIApercebo-me que já começa a ser um número muito redondo o das minhas escritas motivadas ou dedicadas àqueles que de nós se vão apartando. Mas como evitá-lo se, com uma frequência algo sofisticada, os episódios de perda se vão avultando no cenário dos meus dias e se só nestes papéis “queimados pelos incêndios da minha alma” encontro um fio finíssimo e subtil que me vai levando a alguma reparação?

Nestes momentos, ando com o coração cheio de lembranças. Lembranças destes que se apartam e lembranças dos que ficam e a quem não conseguimos valer, porque continua a não haver palavras nem gestos para ajudar a ultrapassar o vazio. Só posso mesmo trazer muitas lembranças no coração e acreditar que os pensamentos se encontram como abraços bons, daqueles que transportam em si a quentura dos amores fraternos e estão imbuídos de uma vontade maternal de mitigação.

Foi no dia 9 de Outubro. Precisamente na data em que se cumpriam trinta e seis anos desde a morte de Jacques Brel e quatro da de Paulo Guilherme d’Eça Leal. A notícia correu pelos media, pelo facebook, pelos sítios da internet, por centenas de telemóveis. Breve, esclarecedora em cada uma das suas tenebrosas palavras, deixou todos (creio que digo bem: todos, família, amigos, colegas, alunos, público em geral), suspensos entre o crer e o não poder crer, o não querer crer.

A frase: Morreu o saxofonista Jorge Reis.

A Igreja de Arroios acolheu o ritual de passagem e o espaço encheu-se dos muitos e muitos de nós que tivemos o privilégio de conhecer um coração tão bom e um talento tão invulgar. Nos silêncios, quase se podia ouvir um imenso coro de requiem a emanar de todos aqueles músicos presentes, de todos aqueles não músicos presentes e até daqueles a quem razões maiores tinham forçado a ausência.

jorge reis
CRÉDITO DA FOTO: jazza-memuito.blogs.sapo.pt

A escadaria propiciou a solenidade, o respeito, o profundo afecto da ovação e, depois, houve aquele adeus delicado como uma renda de bilros com que, em nome de toda a gente, creio, os seus pares interpretaram uma peça da sua autoria, como um lenço muito branco que se acena no cais.

Conheci o Jorge através de grandes amigos comuns, um músico e a sua bela família. Recordo a última vez que tive o imenso prazer de o ver e ouvir integrado no Quinteto de Jazz, no Concerto que o Hot Clube de Portugal promoveu em 2012 no Mosteiro da Batalha e lamento não me ter forçado a criar a oportunidade para tornar a ouvi-lo ao vivo e a cores. Nunca se tem tempo, por uma razão ou outra. No dia do seu funeral, em que imprescindivelmente tive de ter o tempo para me despedir, dei comigo a pensar que sempre se incorre no mesmo erro… Lamentavelmente.

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