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LUÍSA VENTURINI

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LUÍSA VENTURININa história de Clarissa-a-Velha, como na história de qualquer local, há um capítulo extremamente sedutor onde se reúnem num abraço de grande equívoco episódios verídicos do seu passado e lendas que o consolo ou desconsolo do povo foi forjando.

No caso, há mesmo evidências históricas a atestar a existência de um tal João Ruiz Arrais, Senhor da Boa Morte, tanto nos registos baptismais da Igreja de Santa Maria, como numa menção na “Chronica do muito esclarecido príncipe e pio senhor Dom Affonso”, do cronista Gil Sanches, aos seus “muito bons préstimos e corajosos feitos”, pelos que o príncipe decidira agraciá-lo, doando-lhe “a Herdade da Boa Morte, com seus vinhedos e pomar”.

Não bastando isso, também existe prova da existência de uma tal Dona Maria Joanes Sanches, como se pode ainda hoje ver na lápide tumular que se encontra no pavimento da Capela de Santa Isabel, a terceira do lado esquerdo da nave da Igreja de Santa Maria.

Tanto quanto pude averiguar, para o que foi preciosa a consulta feita à “Imagens de Clarissa-a-Velha – uma perspectiva histórica”, do Prof. Dr. António Maria Senna, nada se sabe do casamento de João Ruiz Arrais com Maria Joanes Sanches, mas consta que ocorreu e que terão tido descendência, da qual se perdeu rasto e memória.

A partir daqui, já só me chegaram os perfumes da lenda que conta que João Ruiz Arrais terá partido, ao serviço do seu príncipe, para longes terras e nelas pelejado durante largo tempo, deixando Maria Joanes Sanches em grande aflição e com três filhas, sem que houvesse dia em que não lançasse os olhos ao rio Guadil, a ver se o via chegar.

Com a vida debruada a angústias e ansiedades, os cabelos tinham-lhe encanecido, ainda que mantivesse a grácil figura e a beleza do rosto. Qual Penélope, ocupava as mãos com tecidos e bordados e a cabeça com leituras, ainda que o olhar todas as tardes se lhe escapasse para o rio. Mas o tempo já lhe esgotava a alma e a Maria cada vez mais se convencia que, certamente, estaria viúva.

Passados muitos anos, aos olhos lhe chegou o sobressalto e viu aproximar-se um cavaleiro de belo porte, a quem decidiu perguntar se saberia do seu marido. Com grandes ambiguidades, ele lá lhe foi respondendo que talvez sim, mas que a resposta teria preço. Em desespero por tamanha maldade perante tamanha esperança, Maria foi oferecendo dinheiro e outros bens, mas o cavaleiro tudo rejeitava. Só a aceitaria a ela como resgate da sua resposta. Ao ver-se assim aviltada, Maria Joanes Sanches bradou por ajuda e foi nesse momento que João Ruiz Arrais se deu a conhecer, pedindo-lhe para ver a outra metade do anel que sempre trazia.

A lenda entrou no repertório popular com as resenhas mais variadas, sendo recolhida e burilada por Almeida Garrett que a incluiu no “Romanceiro”, com o título de “A Bela Infanta”.

Eu, por mim, estou em crer que nasceu aqui.

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LUÍSA VENTURINI Acabo de chegar. Fui a correr alçar estores, abrir janelas, assarapantar as gatas como de costume e tomar um duche rápido que me resgatou do pouco sono dormido. Pretensamente fresca, mas certamente bem-cheirosa, olhei para o relógio que, ímpio, mais parecia lançado numa competição contra mim do que pretender a parceria com que, há anos, nos habituámos a viver – tanto e tão bem que há mais de vinte não o trago no bolso. Preparo o café enquanto vejo o correio – três contas e um convite – e beberico-o enquanto instalo e ligo o portátil. Enfio literalmente uma túnica marroquina, muito roxa e com um bordado muito branco (nada como um bom contraste mediterrânico) e sento-me à secretária com aquele ar matinal e decidido que automatiza os dedos no teclado, lê meia dúzia de e-mails a eito e contabiliza mentalmente: são 7:30h, consigo traduzir dez páginas até à hora do almoço e mais cinco até meio da tarde. Depois, fico com umas horas soltas para desfiar tudo o que guardo desta viagem, do ram-ram do comboio, que me trouxe, de mão dada pela noite, de Madrid até aqui. Mais um gole de café, o bom aroma de um cigarro a soltar um filete branco-azulado, tão ondulante como uma odalisca, a avivar o cinzeiro, até ali imaculado e pronto. Abro a pastinha informática onde se avolumam os “.doc” e os “.pdf”, com o original do texto a traduzir e o meu ficheiro de tradução. Só que, por um abracadabra maquinal, abro uma página em branco.

Não passam três segundos e já vejo nela a sedução, a tentação de transformar subitamente todo o meu estrito, ascético, programa para o dia.

Começo pela premissa mais simples: hoje quero ser feliz. Não a mando do relógio, nem dos prazos, nem do cansaço. Ser feliz só porque sim, porque me apetece ser feliz, assim, sem mais, sem purismos Tomistas, êxtases Rumínicos nem transes Nietzschianos. E ser feliz aqui e agora é rememorar a Anunciação de Fra Angelico, que vi pela primeira vez ao vivo ontem no Prado, deixar-me encandear por toda aquela luz durante um momento eterno, saber-me hierofanicamente muito mais do que mim própria, sentir-me transportada para um lugar de mim que é todo o universo, solta de todas as amarras que me encurtam as asas e me tolhem o tempo.

Curiosamente, não cheguei a escrever na página em branco, traduzi dez páginas até à hora do almoço e, mais curiosamente, uma aurazinha de felicidade translucida as paredes, reverbera pelo espaço, dá às minhas gatas um olhar morno de deleite verde e a mim esta faculdade milimétrica e, no entanto, maravilhosa, de transformar o meu chumbo em ouro.

 

LUÍSA VENTURINI

Abeira-te aqui, que hoje não estou em dia de mastigar sozinha os meus desajustes. O tempo (tão bom ter assim à mão uma quase imaterialidade de costas largas) anda a bulir comigo.

Alheia às angústias com que me encharca o ar e a alma, a trovoada estrepita e ribomba impavidamente neste pedaço de céu. Uma paz muito azul destaca-se ali defronte, num daqueles acenos que a Natureza tão bem conhece e que nos diz “Isto também passará”, como na história do anel do rei.

O dia fez-me recordar uma bela varanda numa bela janela, onde, há já uns bons pares de anos, assistíamos ao esplendor rasgado do céu em noites de invernia, como quem se oferece um primeiro balcão numa ante-estreia. Mas, deixando o espectáculo magnífico fora destas cogitações, o certo é que tanta electricidade no ar interfere com o meu sistema nervoso, belisca-me a sensibilidade, provoca-me sinapses dispensáveis, desagradáveis mesmo. No fundo, ressinto-me como um cão ou um gato, o que talvez me faça olhar mais humildemente para esses convivas do meu pequeno universo e repetir, tão mantricamente quanto possível, “isto também passará”.

É nestas alturas que parece que uma tremenda lente se impõe entre mim e a vida e tudo me surge numa dimensão olímpica – é isso mesmo: estúpida e dramaticamente citius, altius, fortius – vendo dos dias apenas os socalcos da frustração ou do fracasso. A objectividade, o distanciamento, o tratamento asséptico das emoções, a ponderação das ideias? Tudo parece esvair-se pelo ralo negro de um caos irremissível, onde me atordoo na busca inglória em que, fatalmente, só alcançarei perder-me, sem Florbela Espanca que me valha.

Também entendo que não faria muita falta dizer-te isto, não a ti, que sabes tão bem quanto eu como só me lembro da Florbela nessas alturas e que, passada a rezinguice e ultrapassado o curto-circuito, a lente esmifra-se como por encanto e volto a saber de proporções e Regras de Ouro, a namorar com os filhos de Da Vinci e de Rumi e a ser, claro está, bem menos tenebrosa.

Sabes? Sei que sabes, mas gosto de repetir-to: É bom ter-te, por todas as razões e por mais essa, a de me seres como um anel sempre presente, como um pedaço muito meu de céu azul que me vai recordando uma e outra vez, uma e outra vez, “Isto também passará”.

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LUÍSA VENTURINI Não sei que me deu. Foi um daqueles arremessos com que a alma nos acorda e tive um acesso de saudades dos meus amigos de Colares. É verdade que já lá vai um bom par de anos desde a última vez que nos enchemos os corações de regalo com o prazer da nossa companhia. Mas também é verdade que talvez tivéssemos precisado de todo este tempo para refazer-nos da míngua em que ficámos depois da morte do Vicente e da Gwen. Dizem que o tempo cura. Curar, curar, curar mesmo, não lhe confiro essa benesse tão plena. É mais a outra, menos redentora, mas que permite que a cicatrização vá acontecendo, assim, num gerúndio infinito, que não infinitivo.

Bom… Adiante. O certo é que aproveitei o convite da alma e fui ter com eles que, por uma coincidência maravilhosa, também estavam acabados de chegar dos seus próprios percursos. A Berenice chegava de Espanha e o Afonso com a mulher, a Helena, aterravam de um congresso onde participaram, em Londres. Em casa da Clara, já sorumbava o Francisco na preparação da sua tese. A Cecília, o marido e a cria – que já nada tem de “cria”, pois estes anos acrescentaram-lhe envergadura, tanto de corpo como de espírito – com a sua disponibilidade generosa de sempre, apressaram-se a sair de Lisboa para ir ter connosco.

Só lamentámos que o Tomás e o Manuel estivessem numa maratona de trabalho, a acabar de resgatar a decoração art-déco de um restaurante, com data marcada para a inauguração. Sempre nos fazem falta aqueles dois, com o seu humor e gargalhada gostosa. Ainda me lembro do dia em que os conheci, há muitos anos já, chegavam eles numa buzinaria estrepitosa à casa de Colares, com aquele ar de quem sempre anima a festa com os confetti de uma alegria muito lavada e colorida.

Apesar da chuvinha doida que teimou em embaciar-nos os olhos e a paisagem, ainda conseguimos um remanso para um lanche ajantarado no jardim, com uns mimos que a Berenice levou e uns robalinhos grelhados de cortar a respiração. Até o Francisco, sempre tão comedido, se desenfreou com as guloseimas. Foi vê-lo pegar na guitarra e desafiar a Cecília que, passado todo este tempo, deve ter mandado os pejos para as urtigas e já nos solta aquela voz magnífica sem os rogos de antanho.

Claro que tivemos de ouvir Gershwin e Segóvia ao serão e claro que a Berenice dançou. Depois, foi aquela sarabanda de quartos para uns e sofás para outros, ia a noite tão alta que já mal se via. A sensação que todos tivemos naquele pequeno-almoço de café com pão (que só nos lembrava o Manuel Bandeira e pôs a Clara numa lengalenga desbragada) foi que não tínhamos conversado nem metade do que nos apetecia e que o fim-de-semana ia ser mirrado. E claro que foi. Mas, desta vez, selámo-nos numa promessa: antes deste ano acabar, iremos estar todos juntos outra vez.

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LUÍSA VENTURINIApesar de nunca ter casado e pertencer a uma geração em que as mulheres eram, na sua maioria, sentenciadas a esquivarem-se da vida, a minha tia Catarina nunca foi uma “solteirona” (palavrinha curiosa, bem encharcada do preconceito de toda uma época).

Porque é Setembro, para mim “o suave mês” e porque acredito que a minha tia Catarina faria anos em Setembro, provavelmente a 14 (que assim, na minha sinestesia, resultam na combinação perfeita das mansas tonalidades sépia com as alegrias de fulgores mais rubros) e porque ao arrumar uns espaventos de livros e papéis, mais uma vez me saltou aos olhos o seu diário, não resisti a relê-la, arredondando-me o serão com alguns gomos dos seus dias.

Ainda me pergunto por que terão bulido tanto comigo as referências que faz ao Joaquín de Saavedra. É verdade que é um dos nomes que mais permeia a suas páginas e é verdade, pelo que escreve, que raramente coincidiram em lugar e tempo. Mas dei comigo a pensar (com esta cabeça domesticada por outras gerações post-Freudianas) se a minha tia Catarina não se teria inventado um amor hollywoodesco com esse tal Joaquín, nem que fosse para afugentar solidões e outros estigmas.

Por outro lado, não sei se ele não faria outro tanto, arranjando sempre enredo epistolar para fazer-lhe chegar poemas em labareda, partilhar com ela intimidades intelectuais e buscar-lhe colos cúmplices para sua sensibilidade desabrida.

O certo é que se escutavam. Mais certo ainda que se entendiam.

Reli a página em que ela descreve como soube do seu suicídio, especialmente o último parágrafo: “Hoje, por volta do meio-dia, ouvi o carteiro. Deixara-me um sobrescrito sóbrio, manuscrito numa bela letra esguia e ligeiramente inclinada para a direita. Lá dentro, um pequeno auto-retrato da Frida, pincelado a café. Como num filme mudo, entendi. Deixei duas flores de cor gulosa na caixa do correio e despedi-me de Joaquín de Saavedra para todo o sempre.”

Não fosse ter-lhe ele enviado aquele retrato, não fosse gulosa a cor das flores e não me teria atrevido a enveredar por esta pseudo-análise. Aliás, estou convencida que, a despedir-se para todo o sempre, não terá sido do Joaquín de Saavedra, mas do altar de esperança que se acostumara a visitar há tantos anos que passara a fazer tão parte dos seus dias como o despretensioso gesto de pentear-se de manhã e à noite. Com ele continuaria a conversar em cada momento, fazendo dessa intimidade um espanta-espíritos, daqueles que até trauteiam pensamentos nos dias mais salobres.

Decididamente, hoje vou pôr ao lume uma sopa de alho francês e comer amoras à sobremesa, para recordá-la melhor. Sob o retrato da Kahlo que ainda me ilumina a sala, talvez me decida a pôr umas flores de cor gulosa em honra dos amores inventados, dos Joaquíns de Saavedra desta vida e da minha especialíssima tia Catarina.

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LUÍSA VENTURINI

À conta de um belo terço de recordações que a conversa do serão de ontem suscitou, dei comigo a pensar numa frase que, creio, é pronunciada por uma personagem do “Mystic River” (2003, Clint Eastwood), “O que nos acontece é para sempre”, e a reconstatar o quanto concordo com ela. Mais do que uma tela ou uma película que regista as impressões dos acontecimentos, somos esta maleável peça de olaria que, ao ritmo da roda e da grande artesã que á a vida, vai formando e transformando inexoravelmente a nossa matéria-prima – desde há muito considerada barro, pelo menos por certas Escrituras, o que resulta muito adequado para esta minha metáfora.

E ainda que nestas lides (sim, com “e”) da recordação nos seja bem mais aprazível sentar-nos à sombra dos momentos luminosos, por alguma característica dessa tal nossa matéria-prima, com frequência são os mais penosos que mais rapidamente nos moldam, criando-nos até arestas prepotentes e tão insidiosas que poderão contaminar toda a nossa estrutura.

Talvez que o que mais me fascine no ser humano seja a sua capacidade praticamente ilimitada de aprender e essa outra sua consequente de ter a maleabilidade, consciente ou inconsciente, da adaptação.

Uma adaptação que não tem por que significar “con-formação” – isto é, o ser ficar reduzido à mesma forma ou replicar mimeticamente a forma da circunstância – mas que poderá significar “sub-versão” – isto é, uma outra leitura, mais íntima e profunda, da mesma circunstância que conduz à transformação do ser noutro sentido.

O grave problema ocorre quando a matéria-prima se desanima – abdica da sua anima, da sua vontade e pensamento – e não faz mais do que andar de roda, de roda, de roda, na roda. Como alguém disse, o vazio é sempre um convite do espaço para que algo o ocupe.

E sem entrar por caminhos ainda mais obscuros, as possessões, como se diria na Idade Média, ou as manipulações, como se dirá hoje, têm uma grande probabilidade de acontecer. O que nos acontece é para sempre e a vida, como artesã exímia que é, ocupa-se em criar circunstâncias irremediáveis, para as quais não fomos vistos nem achados. Somos apenas sujeitos, no duplo sentido do termo (subjugados a sofrer a acção).

Se desanimarmos, não conseguiremos alterar nem um avo de quanto está nas nossas mãos inovar, corrigir, inverter, transformar, subverter. Assim, a minha perguntinha de hoje tem precisamente a ver com isso. Será que o que nos está a acontecer tem mesmo de acontecer-nos? Convirá pensar um pouco, ou mesmo muito, porque, se nos acontecer, se consentirmos que nos aconteça, poderemos ficar certos, é mesmo para sempre.

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Abeiro-me do “loch” com uma chávena de café acabadinho de fazer. Ataranto-me na pressa do despertar, do sair do lusco-fusco que apaga a noite urbana, já de si tão raramente estrelada. Imagino braçados redondos, acolchoados, a cheirar a alfazema, que me chamem devagar e sem ruído.

Apetece-me o “loch”, o vale, o intervalo entre os pontos, o imenso interstício das galáxias ruidosas e fulgurantes onde, de vez em quando, encontro o silêncio e deleito-me na visão dos rastros que continuam a ser luz e que até podem guiar, apesar de já só existirem para os olhos, a distâncias de tempos, de espaços, de matérias que já deixaram de o ser. Olho para o céu, nesses silêncios, e vejo as lamparinas acesas por pavios e óleos lentamente consumidos em antanhos de que não há sequer memória (só há luz).

Não dormi o suficiente e o café parece desprovido da costumeira qualidade de arrumador de neurónios. Duas ou três ideias continuam a acotovelar-se na sua ânsia de se traduzirem em qualquer coisa que faça sentido. Mas o estaleiro está desarrumado e as pilhas de palavras estorvam-se entre si e dói-me a cabeça, e doem-me os pés e as mãos para que me apeteça procurá-las, catá-las com cuidado. Acabo por tropeçar e fazê-las cair, sem querer, com mais ou menos estrondo. Fico de braços cruzados, encostada a uma parede, estupidamente à espera que todo aquele reboco seja abraço ou porta ou ponte, como se as palavras pudessem vir ter comigo animadas da sua própria vontade. E é quando me canso de esperar que me calo, que percebo a espera e que, finalmente, num suspiro de esperança ou desespero, olho o céu – dossel minuciosamente entretecido de rastros de memória – tentando vislumbrar algum pequeno ponto-de-assis que me valha neste desamparo de início de dia.

Continuo a beberricar o meu café, empurrando o atordoamento com a força possível nesta hora estremunhada. E é ainda com as pálpebras a meia haste e uma vontade de sonho na cabeça que enfrento a água e me arrumo e arroupo entre aromas e pensamentos de rastros de luz.

Evito olhar para o relógio, que anda a um compasso que hoje não é o meu.

Repito-me, mântrica e terapeuticamente: Não há pressa. Não há pressa.

Pronto, vamos lá começar tudo outra vez: Abeiro-me da secretária com uma chávena de café acabadinho de fazer. Bom dia!

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LUÍSA VENTURINI

“Minha querida Eugénia,

Porque sei que gosta de cartas, aqui lhe envio esta para agradecer-lhe os incómodos a que se deu para tornar inesquecível a visita que lhe fiz e transmitir-lhe os recados de amigos que um ramo de coincidências me permitiu encontrar por estes dias.

A Matilde e o marido foram passar uns dias ao Alentejo com a tropa-fandanga toda, para se despedirem do Ricardo, que lá torna ao Dubai por mais seis meses, e da Rita que, como de costume, se contorce só de pensar que regressa às noites nórdicas. Prometeram que assim que voltarem organizam uma graça em casa deles e que a vão buscar e levar, para que não haja desculpas.

O João Luís lá continua em casa dos pais, a viver entre esperanças. No mês passado conseguiu trabalhar durante quinze dias como motorista e guia de um casal de holandeses, mas, tirando isso, tem sido a penitência do costume. A pequenita passou uns dias com ele e os avós, o que lhe deu muita alegria, como é óbvio, mas já voltou para o Luxemburgo com a mãe e o padrasto.

Encontrei a Margarida no supermercado, na lufa-lufa do costume. Disse-me: “A partir deste mês passas a chamar-me de Santa que ando a fazer omelettes sem ovos e a multiplicar pães que nem Nosso Senhor. Mais 250 euros que se foram e os mesmos cinco lá em casa. E agora, como não faltava mais nada, o pai Matias anda doente e ainda não perceberam o que se passa com ele. Olha, se tocarem na reforma do Carlos, ficamos sem chão. Nem tenho tido cabeça para falar com a Eugénia. Manda-lhe muitos beijos nossos!” – missão cumprida, portanto.

Quem me telefonou ontem à noite foi o Alberto. Parece que os problemas da Carolina continuam. Já é a quarta vez que lhe alteram a medicação, mas, ao que parece, sem melhoras à vista. Voltou a passar os dias deitada, com intermináveis crises de choro. Perguntou se conhecíamos alguém de confiança para passar umas horas com ela, porque ele anda com receio de deixá-la sozinha. Se souber de alguém, por favor, diga-lhe.

Quanto a mim, minha amiga, lembra-se de ter comentado que o Dr. Sousa andava com um ar estranho? Pois, fim do mistério. Vai fechar as instalações em Portugal e apostar seriamente na empresa que tem com os sócios em Moçambique. Que aqui vai ficar apenas um gabinete de apoio para os clientes que tem na Europa. Marcou para dia 1 uma reunião para esclarecer toda a gente. Como pode imaginar, estamos todos antecipadamente esclarecidos, consternados e desempregados. Eu sei que a esperança é a última a morrer, mas, talvez por isso mesmo, eu me vá antes!

A ver vamos se, como costuma dizer, alguma janela se irá abrir. Certo é que a visita que lhe fiz, minha cara Eugénia, me trouxe paz e ânimo para enfrentar estes dias. Bem-haja.

Com muita amizade, a sua

A.”

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LUÍSA VENTURINI

Ainda bem que chegaste hoje. Já sentia falta de ver a casa desarrumada com as tuas malas, pastas, máquinas fotográficas e bandos de livros a pousarem em todos os cantos; o panamá no bengaleiro, o casaco de linho cor de grão, amarrotado, sempre, a resguardar as costas de uma cadeira e a tua voz grave como um bálsamo de Sarastro a antecipar-me as perguntas e a querer – querer! – saber de mim.

Sempre me fascinou a maneira como contas as aventuras da tua vida – qualquer minudência ganho rasgos homéricos e não há retrato a preto e branco que não narre as cores da Kahlo. Aprecio supinamente o silêncio profundo que guardas para me ouvir nas raras vezes em que tenho alguma coisa para dizer-te e as lamparinas que se acendem nos teus olhos quando falas dos filhos, dos projectos e daquela imensa vontade que tens de voltar a São Petersburgo.

Ainda bem que chegaste hoje. Por entediada, a minha almofada já não me atura, as gatas ignoram-me, Barcelona não está ao virar da esquina e é, no mínimo, presunçoso telefonar aos meus só porque qualquer coisa correu bem.

Tu entendes como ninguém por que vivo entre sonhos e por que as minhas personagens são as grandes arguidas do percalço que tem sido, que é, a minha existência. Agrada-me muito que gostes de ler-me. Às vezes, até incorro na tentação de acreditar que, mais do que por necessidade minha, escrevo apenas para ti, para te levar comigo de passeio pelos meus mundos, para fazer de conta que ando contigo de passeio pelos teus.

No outro dia (eu sei que não ouviste) contei a história de um homem com nome de príncipe. Não, não era a tua história, nem sequer era o teu nome. Mas, mais uma vez e como sempre, escrevi-a para ti, porque tu sabes ouvir por dentro das palavras e conhecer as pessoas por trás das personagens. Mais: tens a sabedoria de querer aprender a amá-las. Por isso és um príncipe, claro. O meu príncipe.

Ainda bem que chegaste hoje e que o teu mundo alvoroçou o meu e que as revoadas dos teus livros e papéis se cutucam assarapantadamente com os enxames com que coabito e que os cinzeiros pedem alforria e que, mesmo noite alta, as janelas da minha casa cantam, alucinadas, os adventos do sol. No pino do Verão, não há clareira como a tua, farol como o teu para eu encontrar o meu caminho de volta a mim.

Mais logo, quando tornar a amanhecer, as chávenas de café no lava-louças, a flor na jarra e os “post-it” no frigorífico vão explicar-me muito bem que não sonhei.

Ainda bem que chegaste hoje. Ou, melhor: Hoje, ainda bem que chegaste.

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Luísa Venturini

A conversa com um amigo levou-me, como tantas vezes, até ao imaginário pessoano e, talvez pela atmosfera pesada do dia ou pelo meu cansaço, que anda a ensopar-me os ossos e novamente a brincar à apanhada com as minhas insónias, ficou mesmo a apetecer-me apanhar o tal eléctrico amarelo, passear entre pirâmides e conversar com o rei Quéops.

Claro que isto me dá pretexto para matar saudades do meu amigo Paulo Guilherme d’Eça Leal, refascinar-me com os mistérios dos côvados e tornar a revisitar mentalmente a maravilha gótica de uma Aljubarrota da alma.

E, mesmo sem querer, entristeço por não se me escapar o pensamento sobre o acanhadas que andam as nossas alas, mas isso são outras histórias, que hoje não me restam ganas para suspirar por Álvares, por muito que me sejam de Boa Memória.

Hoje é mesmo dia de apanhar o eléctrico amarelo (sim, amarelo e não de qualquer outra cor), que ilumina veredas, por esconsas que sejam, e me transporta deste acabrunhamento em que o mundo, o dito real, tem andado afivelado.

O trajecto? Provavelmente alucinado, com infusões de ervas exóticas a amparar encontros com avós Délficas, com percursos geniais por clareiras do Hindustão, com danças de roda por montes de lua e de muita bruma, com ou sem lagos nas redondezas, porque, à míngua, qualquer riacho serve.

Digamos que meia dúzia de paragens-entre-mundos, para me reabastecer para este, que me anda a engasgar as ideias de tal modo que qualquer interstício entre elas gera espaço suficiente para um belo eléctrico amarelo e para quantos trajectos me aprouverem.

Hoje, contentar-me-ei com apear-me numa rosácea, daquelas que dos orientes trazem as “letras” para os que sabem ler e que iluminam a cidade de Santa Res e a outra, a de Taurus, e mais umas quantas conhecidas dos demandadores de caminhos e de outras coisas.

Vou enrodilhar-me nela e ficar à escuta.

Tenho a certeza que, esta noite, o sol vai cantar para mim.

CAPA

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