Cultura e História

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diaboLUÍS FILIPE AFONSO (em Fukuoka, Japão)

 

“Meus senhores, a questão da rendição, nesta altura, já não se coloca. O país está notoriamente à beira do colapso e de uma insurreição comunista em grande escala — neste momento, já nem a lealdade das forças do interior podemos dar por garantida. A única questão em cima da mesa, nesta hora, é tão-só esta: a quem entregar o país — aos Aliados Ocidentais [com uma chance, ainda que ténue, de preservar o ‘Kokutai’*], ou entregá-lo aos Bolcheviques…”

*‘Kokutai’, literalmente “o corpo do país”, designação referente à ordem política tradicional do Japão, com o Tem’O (imperador) à cabeça.

Por volta das 4:00 da madrugada de 9 de Agosto de 1945 — 23:00, hora de Moscovo, do dia 8 —, coincidindo com o lançamento da bomba atómica sobre Nagasaki, o Supremo Conselho de Guerra reunido em Tóquio tomava conhecimento da Declaração de Guerra da URSS ao Japão, com a denúncia do Pacto de Neutralidade celebrado entre as duas potências quatro anos antes.

Era o cumprir de uma promessa deixada por Estaline aos Aliados Ocidentais em Teerão, ainda dois anos antes — assim a guerra terminasse a Ocidente com a derrota da Alemanha, a União Soviética entraria na guerra contra o Japão —, e reiterada posteriormente em Ialta, e uma vez mais em Potsdam, cuja declaração-ultimato final ao Japão, emitida menos de quinze dias antes, a 26 de Julho, recebera o aval do ‘Vozhd — “cumpre ao Japão cessar prontamente todas as hostilidades e render-se incondicionalmente, ou enfrentar a aniquilação total”.

Ainda mal passava da meia-noite de 8, as forças do Marechal Vasilevsky, contando mais de 1,6 milhões de homens em armas e uma colossal concentração de mais de 5000 carros de combate e equivalente apoio aéreo, iniciava a invasão da Manchúria, num gigantesco movimento “em pinça” Este-Oeste, apoiado por um terceiro exército dito “central, a cargo do General Purkayev, partindo de Norte, e com o objectivo de varrer rapidamente toda a resistência e cortar todas as comunicações numa linha meridional de mais de 3000 km de extensão, numa área equivalente ao todo da Europa Central, contando, porém, com grandes obstáculos naturais no terreno.

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A quebra do Pacto de Neutralidade de Abril de 1941 e subsequente invasão soviética do Manchukuo — estado-fantoche criado pelo Japão ainda em 1931, com o último Imperador Qing, Puu-Yi, nominalmente à cabeça — não vinha, de facto, como uma surpresa total para o Japão, e isto porque Tóquio estava perfeitamente ciente dessa possibilidade havia cerca de dois anos.

Porém, o mesmo já não se podia dizer da força com que o assalto soviético se materializara, e isto porque se a denúncia do Pacto de Neutralidade de 1941 e a entrada dos soviéticos na guerra ao lado das restantes forças Aliadas que se lhe opunham, fora prevista com sobeja antecedência, já a capacidade de concentração de forças, coordenação e apoio logístico por parte do Exército Vermelho a Oriente, fora totalmente subestimada pelos estrategas japoneses, que além de esperarem um ataque só a Norte e com grandes deficiências de execução, haviam, para mais, sobrestimado, e muito, o poder dos obstáculos naturais oferecidos pela geografia, designadamente a extensão territorial em causa, marcada pela aridez e suposta intransponibilidade do deserto e montanhas do lado Mongol, a Oeste, e a extensa área pantanosa do lado oriental, caso se verificasse uma invasão do lado do Rio Ussuri, a Leste — como veio a suceder, e contrariando a previsão dos generais Japoneses, com grande sucesso do lado soviético.

Acresce que do lado das forças japonesas, a capacidade, por esta altura, de fazer opor aos soviéticos uma resistência minimamente capaz, era pouco mais que nula.

O Exército Kwantung — força expedicionária no Norte da China, outrora fina-flor do Exército Imperial — era agora pouco mais que uma funesta sombra do que fora na sua gloriosa década de 30.

O General Yamada, seu último comandante, ainda que contando com cerca de 1,2 milhões de homens na frente, há muito que perdera as suas melhores divisões — cujos veteranos e experiência de combate, ao longo dos últimos quatro anos de guerra, se haviam transferido em peso e à pressa para o caótico teatro de guerra do Pacífico e Sul da Ásia, dispersando-se e esgotando-se em múltiplas frentes —, achando-se o grosso das suas forças composto agora por tropas inexperientes, formadas a correr e acabadas de chegar à frente de combate, totalmente subequipadas e com gravíssimas dificuldades a nível logístico, a que se somava uma deplorável escassez de apoio mecanizado — pouco mais de 1000 tanques ligeiros, na sua maioria Ha-Gō [Tp-95], um modelo obsoleto e sem capacidade para fazer frente ao poderio dos novos T-34 armados com super-canhões de 85 mm — e aéreo — cerca de 1800 aviões, na sua maioria Nakajima Ki-84, um modelo dotado de uma temível capacidade combativa, mas em número muito aquém do necessário para fazer frente a mais de 5000 aviões soviéticos com os poderosos bombardeiros IL-4 na vanguarda.

A piorar ainda mais a situação do Império do Japão nesta altura, cumpre recordar, a Manchúria era, desde o último ano de guerra, um ponto de importância estratégica absolutamente vital, do ponto de vista económico e militar, posto que, com o fito de o fazer escapar à devastadora campanha aérea americana sobre os grandes centros urbanos e industriais das Ilhas-Mãe iniciada ainda em 1944, para lá havia sido transferido e concentrado, ao longo de muitos meses, uma grande parte do poder industrial japonês, indispensável ao respectivo esforço de guerra, e recordando, ainda, que nesse Verão de 1945, o último centro de produção petrolífera, e de outros recursos de primeira ordem na esfera do controle do Império, era precisamente o Manchukuo.

NYT

A monumental operação militar soviética, iniciada a 9, e esperando estender-se até início de Setembro, dada a vastidão da extensão territorial em causa, acaba por revelar-se imparável face à depauperada resistência das forças imperiais, que capitulam como peças de dominó, umas atrás das outras numa questão de dias.

Paralelamente à tomada da Manchúria, as forças soviéticas iniciam, a 11.VIII, a invasão de mais uma das colónias do Japão, uma que a memória russa exigia como supremo troféu: Karafuto — a metade sul de Sakhalin, obtida e incorporada no Império do Grande Japão com a vitória deste sobre a Rússia de Nicolau II, na Guerra de 1904-05.

Em Karafuto, o Exército Vermelho depara-se com uma inesperada e fanática resistência que se estenderia bem para lá do anúncio da capitulação, a 15 — nuns casos por pura teimosia e inabalável recusa em acatar as ordens de cessação das hostilidades, emanadas de Tóquio, noutros por pura e simplesmente as forças em combate, cortadas as comunicações, nem sequer as receberem —, com os combates a prolongarem-se até 25 de Agosto, data em que as forças do 16.º Exército de Purkayev tomam finalmente a capital, Toyohara, na ponta sul da ilha.

A 20, e ainda com focos de resistência das forças de Yamada em Mukden, Changchun e Qiqihar, na Manchúria, forças pára-quedistas do 9.º Exército do Ar apoiadas pelo 36.º Exército sob o comando do Marechal Meretskov, tomam Harbin e Dalian — aliás Dairen (em Nihon-Go), aliás Porto Artur, palco, em 1905, de uma das maiores humilhações sofridas pela Rússia às mãos do Japão.

Da população de 400 mil civis em Karafuto, as autoridades só conseguem proceder à evacuação de cerca de 1/4 da mesma, com o remanescente a ser apanhado na ferocidade dos combates desses últimos dias de Agosto, em muitos casos sem sequer perceber o que se estaria a passar, face ao corte das comunicações com as Ilhas-Mãe.

Na Manchúria, 640 mil soldados e oficiais Japoneses, incluindo o próprio General Yamada Otozō, são feitos prisioneiros, e enviados para campos de concentração na Sibéria, onde muitos viriam a perecer pela década inteira que se seguiria — as estimativas variam muito consoante as fontes, apontando entre mais de 60 mil e 347 mil mortos nos campos da Sibéria, e até 1956.

Entre 11 e 18, segue-se a invasão do Norte da Península Coreana — processo que inaugura o nascimento dessa ainda hoje irredutível RDPC — e das Curilhas. Daqui, Vasilevsky e os seus oficiais planeiam a ofensiva final a Hokkaido e a entrada das suas forças nas Ilhas-Mãe.

Em Agosto de 1945, ao Japão, tudo indicava estar-lhe reservado igual destino que o que caberia ao “Reich dos Mil Anos” e à sua mais dilecta colónia, a Coreia: ser cortado em dois.

Ironia das ironias na hora do cair do pano: cabia agora ao “carrasco” americano salvar o Japão da machadada final na sua existência.

Assinatura da rendição do Japão a bordo do USS Missouri
Assinatura da rendição do Japão a bordo do USS Missouri

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HENRIQUE SILVEIRA – Crítico
Fundado por Dona Amélia no picadeiro real, edifício belíssimo com decorações e pinturas notáveis, o Museu Nacional dos Coches albergava uma colecção única de coches históricos de monarcas, nobres e dos serviços da coroa.

Embora exíguo, o edifício tinha características de nobreza e aparato que se coadunavam com a colecção exibida. No outro lado da rua, na esquina oposta, em Belém, situavam-se os belos edifícios das oficinas gerais do Exército Português.

Foi entendido pelo governo Santana Lopes que os dinheiros resultantes do Casino de Lisboa fossem utilizados para realizar um novo edifício para este museu. Algo surpreendente, se notarmos que não é, certamente, o antigo picadeiro real o mais desajustado edifício para a colecção que lá se encontrava. O Museu da Música, colocado numa estação de metropolitano, o decadente edifício do conservatório, também ornado de belíssimas pinturas e cujo salão nobre, a par de outras instalações, está a cair de podre, careceriam de obras muito mais prementes. Foram gastos quarenta milhões de euros para a destruição das oficinas do Exército e construção do edifício novo do Museu dos Coches.

O projecto foi do arquitecto brasileiro Paulo Mendes da Rocha, prémio Pritzker e doutor honoris causa no Instituto Superior Técnico com título conferido pela Universidade de Lisboa. O novel Museu abriu este fim-de-semana. O projecto é um objecto, um objecto de quarenta milhões, uma afirmação do ego do arquitecto, uma espécie de escultura exterior, uma conjugação de efeitos de luz e de espelhos de água em “monumentais” entradas e uma espécie de armazém, um enorme vazio pós-pós moderno, uma casca de betão desossado onde se encaixam as carroças. Nada no exterior indica a função, nada no interior dignifica a colecção. Toda a construção é uma afirmação contra o local, é um objecto estranho, entre o betão e o esbranquiçado, que depressa empalidecerá dando lugar a um monolítico mamarracho cinzento.

O interior poderia ser, em muitas das suas naves, um armazém de batatas de uma qualquer grande superfície comercial. A museologia é inexistente, o espaço é um amontoado de carros e carroças sem informação. Umas folhas A4 desgarradas e quase ilegíveis, de pequenas, dão breves indicações sobre uma minoria dos coches presentes. Não existe uma teleologia, não existe interacção ou interactividade. Trata-se de um armazém de carroças amontoadas, algo incompreensível no século XXI, pior do que existiria há mais de cem anos quando o museu foi fundado.

Percebe-se que o armazém de carroças tinha de abrir antes das eleições, sem ser na campanha eleitoral oficial, à pressa, sem ideias. Depois de concluído em 2012 e depois de ter estado fechado mais de três anos, surge agora a ideia peregrina do insignificante secretário da cultura de abrir uma obra que não é sua e da qual se mostrou muito crítico, de abrir o museu sem museografia! Fica o mamarracho, contra a cidade.

O esbanjamento é surreal, destruíram-se os edifícios das oficinas do Exército, que remodeladas e reconvertidas por um arquitecto “anti-objecto” poderiam ter dado à cidade um espaço de convivialidade da cidade com o Tejo e os coches que, noutros tempos, serviram para transpor as distâncias entre os homens e países.

Fica também a lamentável nota de José Alberto Carvalho que, junto ao landau de triste memória em que Dom Carlos e Dom Luiz Filipe foram assassinados, leu o testamento do assassino Buíça, como se o Museu não fosse um lídimo e excelente fruto da Monarquia Portuguesa, provavelmente o último, antes da desgraça das repúblicas que se sucedem há mais de cem anos.

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Duarte Branquinho representa Portugal no Colóquio

DUARTE BRANQUINHO, em Paris

Iliade03No passado dia 25 de Abril, o Colóquio consagrado ao “Universo Estético dos Europeus”, organizado pelo Institut Iliade, juntou mais de 800 pessoas em Paris e contou com a presença de oradores de vários países europeus, incluindo Portugal. A iniciativa foi um êxito que mostra o renascimento da cultura europeia.

O Institut Iliade (Instituto Ilíada) foi criado após a morte voluntária do historiador francês Dominique Venner, em 2013, por vontade expressa do próprio. Philippe Conrad, que sucedeu a Venner na direcção de “La Nouvelle Revue d’Histoire”, uma publicação de referência no campo da divulgação histórica que se encontra à venda no nosso país, assumiu a presidência deste instituto.

O Institut Iliade definiu como objectivo trabalhar para que os europeus se reapropriem do seu destino e assumiu como modelos e princípios de vida: “a Natureza como base, a excelência como fim, a beleza como horizonte”. Recordando a máxima de René Marchand de que “as grandes civilizações como a nossa não são regiões de um planeta: são planetas diferentes”, o Institut Iliade considera que o grande apagamento é a matriz da grande substituição. Assim, é preciso responder com um “grande enraizamento”, um recurso às nossas raízes. A escolha do nome da instituição – Ilíada –, segundo o Institut Iliade, não é apenas uma referência aos gregos.

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É um “poema do destino” próprio ao universo mental dos europeus. Depois de consagrar o seu primeiro colóquio à memória de Dominique Venner, no ano passado, e ter iniciado vários cursos de formação, o Institut Iliade dedicou este ano o seu segundo colóquio ao “universo estético dos europeus”, com o objectivo de afirmar a singularidade e a riqueza do nosso património comum, para aí desenhar a fonte e os recursos de uma afirmação serena, mas determinada,da nossa identidade europeia, hoje ameaçada por outras civilizações.

Duarte Branquinho representa Portugal no Colóquio
Duarte Branquinho representa Portugal no Colóquio

O Colóquio teve lugar na Maison de la Chimie, no centro de Paris, perante uma audiência de exactamente 847 pessoas, e contou com as intervenções do filósofo francês Alain de Benoist, com a comunicação “A arte europeia, uma arte da representação”, o escritor sérvio Slobodan Despot, que falou sobre “A arte europeia e o sentimento da Natureza”, o escritor belga Christopher M. Gérard, que reflectiu sobre “A beleza e o sagrado”, o musicólogo Jean-François Gautier que salientou a importância da “polifonia do mundo”, e o espanhol Javier Ruiz Portella, director do jornal “El Manifiesto”, que mostrou como se pode fazer “A dissidência pela beleza”.

Intercaladas com as comunicações, foram feitas várias apresentações de altos lugares europeus: Duarte Branquinho, sobre o simbolismo da Torre de Belém, Adriano Scianca, responsável cultural da CasaPound, sobre o nascimento de Roma, o alemão Philip Stein, sobre o Castelo de Wartburg, e a francesa Marie Monvoisin, sobre a Floresta de Brocéliande e a filiação céltica dos europeus.

O alto nível das apresentações, o interesse da numerosa assistência e a óptima organização são provas de que a vontade de um renascimento da cultura europeia é forte e determinada. O Institut Iliade afirma-se, assim, como uma organização de referência no panorama cultural europeu.

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diaboBRUNO OLIVEIRA SANTOS

 

Por Amor à Língua Portuguesa

Livro FPB

Fernando Paulo Baptista nasceu em Viseu, em 1940. Licenciou-se em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, com a classificação final de 18 valores.

É professor e investigador do Instituto Piaget, no Campus Universitário de Viseu, onde coordena a actividade do Centro de Investigação em Língua Portuguesa (CILP).

Inspector jubilado do Ministério da Educação e investigador convidado do Centro de Investigação em Educação da Universidade do Minho, tem vários títulos publicados nas áreas da língua e da literatura portuguesas, da linguística, da semiótica, da pedagogia e da didáctica. Entre outros, “Tributo à Madre Língua” (Pé de Página Editores, Coimbra, 2003) e “Polifonia, Poiese & Antropopoiese” (Instituto Piaget, Lisboa, 2006).

Publicou recentemente o livro “Por Amor à Língua Portuguesa” (Edições Piaget, Lisboa, 2014, 235 págs.), um “ensaio genealógico-filológico, científico-linguístico e pedagógico-didáctico, visando a superação crítica do actual Acordo Ortográfico/1990”. Segundo a opinião do Prof. Doutor Vítor Manuel de Aguiar e Silva, catedrático jubilado das Universidades de Coimbra e do Minho, trata-se de “uma análise irrefutável, imbatível”.

A língua portuguesa, como organismo vivo que é, jamais poderá fugir à sua transformação progressiva. Os povos que se expressam em português encarregar-se-ão de lhe comunicar vida e, portanto, alteração. Alterar, porém, não é destruir. Ora o Acordo Ortográfico (AO90) destrói mesmo, desfigura o idioma à força de encastelar asneiras sobre asneiras. Foi este o mote para uma conversa longa e agradável com o filólogo Fernando Paulo Baptista (FPB).

“O AO90 é uma obra de medíocres, não acha?” — disparei de chofre, para empolgar a entrevista. “Não quero classificá-la assim”, respondeu-me, “mas é claramente uma obra marcada pela irresponsabilidade, ao não medir as consequências negativas, sobretudo para os nossos jovens, na aprendizagem e uso da língua portuguesa.”

FPB fala como escreve, as frases saem redondas e polidas, prontas para a impressão. Natural de Viseu, foi novo com os pais para Barrelas, terra do Malhadinhas, aquele homem sobre o meanho e reles de figura, que Aquilino imortalizou. A escola distava, escondida atrás de montes e penedias. FPB levantava-se cedo, ainda o Sol não retouçava nas vidraças, e tornava a casa já tarde. O sacrifício garantiu-lhe a matrícula em Coimbra. Por esse então, naquele mundo rural e pobre, poucos o conseguiram. A maior parte teve que pegar numa enxada e cuspir às mãos.

Conhece pessoalmente os artífices do AO90, mas distingue os planos: “Tenho uma relação cordial com Malaca Casteleiro; não entendo, todavia, como é que alguém que sabe que se trata da regulamentação grafémica dos textos escritos vem utilizar o critério da pronúncia, para mais o da chamada pronúncia culta”. E prossegue o raciocínio: “O que é isso da pronúncia culta, tomada agora como referência ou padrão? Em que lugares a podemos encontrar? É a pronúncia culta à moda de Coimbra ou à moda de Lisboa? A do Porto ou a do Funchal? A de Luanda ou a do Rio de Janeiro?”

Certo que em todos esses lugares há pessoas cultas e informadas, sejam quais forem as suas prolações entoativas. Os autores do AO90 não apresentaram ainda uma definição rigorosa, um “critério epistemológico-linguisticamente fundamentado”, como diz FPB, além da mirífica alusão a uma pronúncia dita culta.

Um acordo feito à pressa

O AO90 é uma cancaborrada de lesa-língua. Em matéria assim crucial, poupo-me a imparcialidades. Uso substantivação e adjectivação certeiras, dentro da correcção e da propriedade da linguagem. Sigo o exemplo dos nossos antigos pregadores e moralistas: quando se tratava de rebater más inclinações e maus costumes, não usavam de cerimónias nem eufemismos, não traziam papas na língua. Aos acordistas, cegou-os a vaidade de associar o nome a uma reforma. Essa vaidade incutiu-lhes uma filologia para uso próprio, que trataram de impor a 250 milhões de falantes. É o tiquezinho totalitário de legislar em matéria ortográfica, votinhos a favor e contra, como se a língua pudesse ser despachada por decreto.

“O pior”, avança FPB, “é que o AO90 foi redigido à pressa entre 6 e 12 de Outubro de 1990 na Academia das Ciências de Lisboa!” Bonito serviço! Uma língua velha de séculos, assim alterada atabalhoadamente, no espaço de uma semana, por 21 representantes de sete delegações.

Um passo atrás

No processo de afirmação da língua portuguesa, o AO90 trava a fundo e marcha à ré. FPB explica: “Faço no meu livro uma análise comparativa inter-linguística e inter-lexical, e demonstro que a língua portuguesa, do ponto de vista ortográfico, afastar-se-á do léxico das grandes línguas”.

Por exemplo, a supressão das sequências “ct” e “pt” em palavras como “actor” e “óptimo” provoca uma diminuição da “qualidade competitiva e sobretudo dialogal, dialógica, com as outras línguas que mantêm a raiz latina”.

Os ingleses, os espanhóis e os romenos continuam a grafar “actor”, os franceses escrevem “acteur” e os alemães usam “akteur”.

Diz FPB que este afastamento é tanto mais grave quanto é certo que estamos na era da intercomunicação à escala planetária: “O léxico científico, por exemplo, assenta nas matrizes clássicas greco-latinas e no seu núcleo adeânico-genómico que é a raiz. Ora, a Base IV do AO90 constitui uma guilhotina desfiguradora”.

Ao juízo claro de FPB oponho que a reforma ortográfica de 1911 escancarou a porta às fantasias posteriores. Operou-se aí o primeiro divórcio significativo entre a ortografia e a etimologia, com a supressão das consoantes mudas e das consoantes dobradas: desapareceram as palavras “photographia” e “pharmácia”, que os republicanos consideravam decerto estapafúrdias ou talassas, apesar de outras línguas, como a inglesa ou a francesa, manterem até hoje o étimo grego.

Agrava-se agora o problema com o AO90, uma vez que em Portugal as consoantes mudas têm um valor diacrítico, servem para abrir as vogais que as antecedem, contra a nossa tendência para emudecer vogais.

FPB intervém deste feitio: “Em rigor, não são consoantes mudas, mas grafemas representativos de consoantes. A consoante é um som, o grafema é diferente”.

As facultatividades

Trago à conversa o tema das facultatividades. O AO90 não só não logra a impossível unificação ortográfica, como introduz novas facultatividades, cada povo a grafar à sua maneira, a língua à vontade do freguês.

O meu interlocutor concorda e insiste que o problema reside ainda na “pronunciabilidade” como princípio orientador de um regulamento dito ortográfico: “Desafio os pró-acordistas e até os que são contra a demonstrarem com fundamento que o ‘c’ de determinadas palavras se pronuncia ou não. Em ‘arquitectar’, pronuncia-se o ‘c’? E em ‘expectativa’? A verdade é que não existe um dicionário consensual de ortoépica que justifique uma ou outra pronúncia”.

Com alguma ironia, aventa: “Se querem que se escreva como se fala, tratem de suprimir dos dicionários as mais de 1500 entradas começadas pela letra ‘h’. Ou a letra ‘u’ de palavras como ‘ataque’ ou ‘tanque”’. E conclui: “Um dos erros do AO90 é a sua incoerência constitutiva”.

Falámos também, em registo um tanto trocista, da confusão que por aí vai sobre as regras da hifenização e da acentuação. “Ignoram o significado e os constituintes morfo-semânticos do lexema ‘hífen’”, esclarece FPB, que prossegue: “Ou o conteúdo conceptual para que remete o hífen faz sentido e ele deve ser aplicado em coerente conformidade, ou não faz sentido e então deveria ser pura e simplesmente abolido. O que não se pode é escrever ‘malmequer’, sem hífen, ao lado de ‘bem-me-quer’, com hífen; ‘mandachuva’ e ‘guarda-chuva’; ou ‘cor de laranja’ e ‘cor-de-rosa”’.

Quanto aos acentos, comentámos as incompreensíveis contraposições “por/pôr” e “para/pára”. Um disparate.

 Resistir ao AO90

Os estudos e opiniões de Vasco Graça Moura, António Emiliano, António Feijó, Vítor Manuel de Aguiar e Silva, Maria Helena Mira Mateus e Pedro Correia, entre outros, serviram para demonstrar a sandice do AO90. Se nem assim aos arlequins da linguística lhes desempolga a teima, o mais que temos é prosseguir o combate.

Inconformado, FPB não tem dúvidas: “O AO90 dividiu o País. A minha impressão é que as pessoas com um mínimo de cultura são contra o acordo. Se houvesse um plebiscito nacional, triunfava o não. Em suma, o AO90 é um documento discordiogénico, porque gera discórdia, e iliteraciogénico, visto que produz iliteracia”.

Perguntinha parva: vai continuar a escrever com a actual grafia? É claro que sim. E logo esclarece: “Tenho abertura de espírito. Agradeço, com a maior humildade intelectual, que me demonstrem fundamentadamente os meus erros. Nos vários debates em que tenho participado, ainda não encontrei ninguém que refutasse os fundamentos que apresento. Um documento regulador da ortografia implica um tratamento multidisciplinar e vários saberes conjugados, como os da Linguística, da Filologia, da Etimologia, da História da Língua, da Fonética, da Semiótica, da Gramatologia, da Teoria da Literatura, da Filosofia da Linguagem e da Dicionarística, entre outros. Não me parece que o texto do AO90 tenha seguido este caminho de exigência”.

Pela minha parte, espero que o AO90 seja apenas um sarilho, mais um, do qual a custo ainda nos consigamos livrar. Se tal não suceder, com menos seis lustros no pêlo do que FPB, pode ser que adira por inércia ou esgotamento. Talvez quando a minha ortografia, em lugar de estabelecer pontes, se vier a revelar um entrave à comunicação. Se assim for, muito de mim morrerá também nesse dia.

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“Há tempos de coruja e tempos de falcão”

Na passagem da Idade Média para o Renascimento, o ‘Príncipe Perfeito’ deu um Estado à Nação portuguesa. Para abater o poder dos nobres, não hesitou em mandar degolar o primo e apunhalou o cunhado com as próprias mãos. Centralizado o poder, deu o impulso decisivo aos Descobrimentos que nos levaram à Índia. O seu brasão pessoal ainda hoje é testemunha do amor ao povo: o pelicano que alimenta os filhos com o próprio sangue e o lema “Pela Lei e Pela Grei”.

No dia 20 de Junho de 1483, Évora foi palco de um espectáculo macabro que fez Portugal inteiro tremer de emoção. O homem mais rico e poderoso do reino foi levado ao cadafalso e degolado perante a multidão. D. Fernando (1430-1483), terceiro duque de Bragança, fora julgado por um tribunal composto por cinco juízes, 12 nobres e dois burgueses — e condenado à morte por traição. O processo foi mandado instaurar pelo rei D. João II, que desde há meses estava informado da existência de uma conspiração chefiada pelo duque, que envolvia vários nobres da mais alta aristocracia, com a conivência dos Reis Católicos de Espanha. Perante as provas recolhidas — cartas dos monarcas espanhóis e testemunhos de cúmplices e criados dos conspiradores — o tribunal não teve dúvidas na sentença. O rei não sujou as mãos: o processo correu dentro da mais estrita legalidade.

D Joao II retrato sec XVIIO cronista Rui de Pina conta que, no dia marcado, o duque de Bragança — que pouco antes se gabava de poder levantar em armas três mil cavaleiros e 10 mil soldados a pé nas 25 vilas e fortalezas de que era senhor — foi conduzido à praça principal daquela cidade alentejana onde, no meio de um enorme aparato “chegou a ele por detrás um homem grande, todo coberto de dó que lhe não viram o rosto, o qual se afirma não ser algoz, e ser homem honrado, que estava para o justiçarem e por esta justiça em tal pessoa foi perdoado, e com uma toalha de Holanda que trazia na mão lhe cobriu os olhos e, com muita honestidade, o lançou de costas, pedindo-lhe primeiro perdão; e acabado um espantoso pregão que um rei-de-armas dizia e dois pregoeiros em alta voz davam, o homem, com um grande e agudo cutelo que tirou debaixo da loba, perante todos lhe cortou a cabeça”.

A degola do duque de Bragança marcou a entrada de Portugal numa nova era. Após um período de afirmação da nobreza guerreira que correspondeu ao reinado de D. Afonso V, chamado ‘o Africano’ pelas suas conquistas em Marrocos, o país entrou na modernidade política com D. João II, rei de 1481 a 1495.

O novo soberano levou a cabo um conjunto de medidas, por vezes sangrentas, como era próprio das cortes daquela época, determinadas pela razão de Estado, pelo interesse nacional e não em função de um projecto de grande senhor, como acontecera com o seu pai. Costumava dizer: “Há tempos de usar de coruja e tempos de voar como o falcão.” Foi isso que não entenderam o duque de Bragança nem os seus irmãos D. João, marquês de Montemor, e D. Afonso, conde de Faro. O rei deixara de ser apenas um ‘primus inter pares’, o primeiro dos nobres, e passara a estar noutro plano, acima da nobreza — a quem concedia privilégios, mas a quem impunha a força da lei, escudado no direito.

Morto o duque D. Fernando e exilados os irmãos (o marquês de Montemor foi degolado em estátua), D. João II D Joao II Livro dos Copostomou posse das terras e castelos dos Bragança. Mas a aristocracia não tinha sido abatida. A forma radical como o rei estava a reforçar o seu poder concitou ainda mais os ódios dos que assim perdiam riqueza, mando e influência. Ao tomar posse das terras dos nobres caídos em desgraça, D. João II recuperava para a coroa as possessões distribuídas com generosidade por D. Afonso V, que deixara o filho, segundo se queixou, “rei das estradas de Portugal”…

D. João II sabia que o seu cunhado D. Diogo, duque de Viseu, irmão da rainha D. Leonor, estivera implicado na conspiração anterior — pelo menos por ter conhecimento da conjura e não a ter denunciado. A certa altura, o rei avisou-o de viva voz de que era “sabedor de todas as coisas passadas”. Não valeu de nada.

O duque de Viseu ambicionava vir a ocupar o trono por morte de D. João II, ou pelo menos tornar-se regente em nome do jovem príncipe D. Afonso (que veio a morrer de acidente, alguns anos mais tarde). Não hesitou, por isso, em aderir a uma nova conspiração destinada a acabar com a vida do rei “a ferro ou com peçonha”.

Mas D. João II tinha montado uma rede de informadores eficaz e escolhera para a sua guarda pessoal a elite dos guerreiros portugueses. Não foi coincidência o facto de dessa guarda pessoal terem feito parte dois jovens que deixaram marcas na História de Portugal: Afonso de Albuquerque e Duarte Pacheco Pereira.

Ciente da ameaça que pairava sobre a sua cabeça, o rei atraiu o cunhado ao castelo de Palmela e matou-o ele próprio à punhalada, no dia 22 de Agosto de 1484. Os cúmplices foram alvo de uma repressão justiceira, incluindo o bispo de Évora, D. Garcia de Meneses, atirado para o fundo de uma cisterna seca da torre de menagem de Palmela, onde acabou por morrer. Um dos mais altos funcionários da corte, o escrivão da puridade Fernão da Silveira, conseguiu fugir para França e julgou-se a salvo da ira real. Estava enganado: em 1489 foi ali apunhalado por um assassino contratado por D. João II.

01aO rei tomou posse dos bens dos executados ou banidos. O ducado de Viseu foi extinto e criado em seu lugar o de Beja. O título de duque foi atribuído ao irmão mais novo de D. Diogo, D. Manuel. Este, por morte do príncipe D. Afonso, na sequência da queda de um cavalo, em 1491, tornou-se herdeiro do trono. Quando D. João II morreu, em 1495, subiu ao trono como D. Manuel I. Ao ‘Príncipe Perfeito’ sucedia o ‘Venturoso’.

No coração das sucessivas gerações de portugueses ficou para sempre a grata memória do rei que escolheu para seu brasão pessoal a imagem do pelicano que fere com o bico o próprio peito para alimentar os filhos – e como lema: “Pola Lei e Pola Grei”, isto é, Pela Lei e pelo Povo.

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