Destaque

0 1548
Aumento do número de emigrantes com curso superior segue em proporção com o número de novos licenciados. Europa insiste que quase metade dos portugueses têm de ter um curso superior. Seremos doutores em terra de agricultores.

Estará o leitor a par da celeuma da última semana sobre declarações alemãs sobre o número de licenciados em Portugal. Mas antes de irmos às palavras da chanceler Merkel, teremos de ser claros: sim, há licenciados a mais no nosso País. E pior: há licenciados mal formados.

No início de 2004 existiam cerca de 81 mil licenciados desempregados há mais de um ano, segundo dados do INE divulgados pelo Ministério da Economia.

Os dados do Instituto Nacional de Estatística referiam-se ao terceiro trimestre do ano passado e apontavam para um aumento de 11 mil pessoas face ao mesmo período de 2012 e mais cinco mil pessoas face ao segundo trimestre.

Os números do boletim do emprego do Ministério da Economia mostravam “uma realidade bastante adversa para os diplomados no terceiro de trimestre de 2013”.

Neste período, o desemprego de longa duração total parecia “estar a dar a volta”. No entanto, o grupo dos licenciados não acompanhou a tendência geral, juntamente com os desempregados com o 3.º ciclo do ensino básico concluído.

Verificou-se uma melhoria no segundo trimestre, mas depois a situação começou a piorar, tendo-se atingido a segunda marca mais elevada de que há registo.

Já o estudo “Employment and Social Developments in Europe 2013”, elaborado por peritos da Direcção-Geral do Emprego da Comissão Europeia, que refere que “Portugal é dos países europeus com maior índice de sobre-qualificação no emprego”.

Mais qualificação no papel, mas menos conhecimento. Esta é a realidade que chega às empresas portuguesas. Os recém-licenciados, na sua maioria, não estão preparados nem têm as ferramentas adequadas para o mercado de trabalho. O Processo de Bolonha veio agravar essa realidade. “Licenciaturas-expresso” adquiridas em três anos e aumento de vagas para que as universidades possam beneficiar do dinheiro das propinas.

Nos cursos “mais a sério”, a exigência é que licenciatura e mestrado fiquem juntos; e os estudantes, nesses casos, têm de frequentar o ensino durante, pelo menos, cinco anos.

Mercado não procura licenciados

As políticas de ensino que quiseram acompanhar a realidade europeia deram asneira. Portugal tem especificidades diferentes. Somos um povo da agriculta e do mar, do turismo e das fábricas. E andamos a destruir tudo isso para sermos como os restantes países europeus. Somos diferentes.

Andámos a formar estudantes e a dar licenciaturas com um sonho de um país de doutores. Agora, esses doutores a quem foi dado um sonho partem em busca do mesmo, mas lá para fora.

Quase metade dos actuais estudantes universitários pondera emigrar e um em cada 13 portugueses com curso superior emigrou no longínquo ano de 2000, para um total de 90 mil emigrantes nesse ano.

Nada se fez nestes 14 anos para mudar a realidade. Aliás, insistiu-se no erro. Só a Eslováquia (14%) e a Irlanda (23%) nos ultrapassam em termos de fuga de cérebros para o estrangeiro, na União Europeia.

Mais. O número de licenciados desempregados a emigrar aumentou 49,5% entre 2009 e 2011. Um dado que tem relação directa com o número de licenciados em Portugal. É que Portugal contava em 2011 com mais de 1,2 milhões de (pelo menos) licenciados, um aumento de 588 mil no espaço de dez anos.

Ou seja, aumentámos o número de licenciados e na mesma proporção o número de emigrantes. Não vê quem não quer. E na Europa insistem para que tenhamos ainda mais licenciados.

Europa exige

De acordo com o gabinete oficial de estatísticas da União Europeia (UE) – Eurostat, 29,2% dos portugueses entre os 30 e os 34 anos eram licenciados em 2013, registando um aumento de dois pontos percentuais em relação ao ano anterior. O valor continua longe da média na Europa dos 28 (36,8%) e mais longe ainda da meta de 40% que Portugal teria de alcançar em 2020.

O objectivo de, em 2020, ter um Portugal um total de 40% da população entre os 30 e os 34 anos com formação superior traz à discussão outras questões. Desde logo, a empregabilidade e a adaptação da oferta por parte das instituições de ensino superior. A capacidade de escoamento do mercado de trabalho não é proporcional à quantidade de diplomados que todos os anos são lançados pelas instituições.

Nesse sentido, as universidades viram-se obrigadas a adaptar a sua oferta, diminuindo, em alguns casos drasticamente, o número de vagas disponíveis e contrariando a desejável tendência de aumento do número de pessoas com formação superior.

Mas quem olha só para números não quer saber disso. Fique a saber o leitor que a segunda fase de acesso ao Ensino Superior registou a admissão de 8.602 novos estudantes nas universidades e politécnicos, mas esta segunda fase de candidaturas deixou 70 cursos sem estudantes – a maior parte dos quais no ramo da Engenharia, que deixou 45 cursos vazios em todo o País. São cursos sem e para ninguém.

Merkel com razão

Com políticas educativas completamente alheadas da realidade, razão tem Angela Merkel – ainda que as palavras tenham sido inventadas pela comunicação social portuguesa.

Na semana passada, os portugueses foram bombardeados pelas alegadas afirmações da chanceler alemã. Houve mesmo um ministro – Nuno Crato – que respondeu às alegadas afirmações de Merkel. Todas as notícias citavam a agência Lusa e a Bloomberg. A Lusa referia a Bloomberg. Na Bloomberg, nem uma palavra sobre o assunto.

Uma procura mais intensa e lá se encontra o discurso da responsável alemã, que disse algo como: “Eu peço a todos vocês para tornarem claro nos vossos discursos em escolas e perante jovens: a formação profissional é um excelente pré-requisito para levar uma vida de prosperidade. Faremos tudo o que estiver no nosso poder.

Também a OCDE nos fornece muitos números úteis que afirmam que não é uma ‘descida’ social, que o filho ou a filha de um trabalhador qualificado complete uma formação como trabalhador qualificado novamente e, de seguida, se torne um bom técnico. Temos que abandonar a ideia de que o ensino superior é o Nonplusultra para uma carreira bem sucedida. De outra forma não poderemos provar a países como Espanha e Portugal, que têm demasiados licenciados e procuram hoje vias de formação profissional, que isso é bom”.

Ora, isto é muito diferente de “Merkel diz que Portugal tem demasiados licenciados”. Mas se o tivesse dito, desta vez, teria razão em relação ao nosso País.

0 1897
As Finanças antecipam notícias maravilhosas para os portugueses, a Oposição insiste no relato de um País sem trabalho e sem dinheiro. Os portugueses seguem o seu dia-a-dia e já nem os discursos fatalistas ou as previsões douradas de melhores dias têm impacto na sociedade.

Portugal aprendeu que os discursos políticos não têm qualquer valor real. Fartos de parangonas fatalistas ou de promessas vãs, os portugueses lutam diariamente alheando-se cada vez mais da política nacional.

Vale de pouco que a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, tenha dito no sábado à noite em Oliveira de Azeméis que poderá haver “surpresas positivas” em 2015, afirmando que mantém confiança nas previsões do Governo no Orçamento do Estado do próximo ano. São previsões atrás de previsões, feitas num qualquer gabinete longe da realidade popular.

“Acreditamos mesmo que elas [previsões] não são optimistas demais e que teremos margem para conseguir resultados melhores, até, do que aqueles que estão agora no Orçamento e que podemos ter surpresas positivas ao longo do ano de 2015, porque aquilo que estamos a ver como sinais é francamente encorajador”, declarou a governante.

Não esteja o leitor mais desatento a pensar que isto de anunciar o fim da crise é coisa nova. Em Setembro de 2012, O DIABO avisava que se vivia o “1X2 do fim da crise”.

E não falhou uma vírgula: “É a corrida a ver quem acerta na data do fim da crise, qual aposta no totobola. Da Esquerda à Direita, os governantes lusos vão atirando para o ar datas e anos.

Até hoje, para infelicidade de milhões de portugueses, ainda não há totalistas.E os jackpotes – em forma de impostos – vão-se acumulando”.

Em 2009, o então primeiro-ministro afirmava, sem dúvidas: “É o princípio do fim da crise”. Eram as certezas de José Sócrates, em Agosto, no final do primeiro conselho de ministros depois das férias.

Sócrates reforçava assim o que o seu ministro das Finanças já tinha dito, dois meses antes, quando os indicadores sobre o clima económico subiram pela primeira vez desde 2008: “Quero crer que estamos mais próximos do fim da crise do que do seu início e creio que estaremos, porventura, a passar o pior momento da crise nos últimos meses e que, como os indicadores têm vindo a acentuar, a crise está a atenuar-se”.

Em 2011, o ministro Álvaro Santos Pereira também quis ficar na história das apostas, frisando “que 2012, assim como os indicadores mostram, será o princípio do fim da crise”.

Também o actual primeiro-ministro já tinha apontado 2012 como “o ano do princípio do fim da emergência nacional”. Vivia-se o dia 4 de Setembro de 2011, era o último dia da Universidade de Verão do PSD em Castelo de Vide. O mesmo discurso – com a devida correcção temporal – foi feito com pompa e circunstância em 2012, em 2013 e agora em 2014.

Um dia irão acertar.

Perspectiva de futuro

Maria Luís Albuquerque referiu ainda que o Orçamento do próximo ano “dá aos portugueses uma perspectiva de um futuro que começa a ser melhor, em que temos crescimento”.

“Saímos da recessão, tivemos um ano de 2014 de crescimento e teremos um ano de 2105 de maior crescimento, que significa recuperação para todos”, disse a governante, admitindo que o Orçamento do Estado para 2016 poderá ser melhor se continuarmos no caminho do rigor, da responsabilidade, do trabalho e da recuperação.

Imediatamente antes da intervenção da ministra das Finanças, o líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro, também se referiu às previsões do Orçamento do Estado, afirmando que o Governo “tem falhado muitas vezes, mas a favor do País e do desempenho do País”.

“A troika perspectiva para o próximo ano um quadro mais negativo do que aquilo que nós estimamos no Orçamento e, pasme-se, a nossa oposição e o PS, em particular, vieram dizer para ouvir a troika”, assinalou Luís Montenegro. Parece que o PS “já está com saudades da troika”, acrescentou.

O líder da bancada parlamentar do PSD criticou ainda a actual liderança socialista, afirmando que “revela arrogância e fraqueza”, por se recusar a fazer compromissos.

“Não perdem as eleições por fazer acordos ou compromissos com as questões essenciais”, referiu Luís Montengro, considerando que este comportamento político prejudica o País.

Costa já responde pelo PS

As acusações são mútuas. E do lado dos socialistas é o (ainda) autarca António Costa quem vem a terreiro. “Porque é que o Governo fracassou e hoje não tem soluções? Porque iniciou funções sem ter uma estratégia.

Tinha simplesmente um programa de ajustamento e acreditou que, cumprindo à risca esse programa e indo mais além do que a própria troika, produziria o milagre de resolver os problemas estruturais do País”, afirmou António Costa, em Castelo Branco, numa sessão partidária em que apresentou a sua “agenda para a década.

O candidato socialista – que quer ser primeiro-ministro – realçou “o fracasso” do actual Governo, que não diminuiu a dívida, “não acertou ainda numa única meta do seu orçamento e ainda não conseguiu produzir um único orçamento que não fosse contra a Constituição”.

O Governo, acrescentou, “conduziu [o País] à estagnação económica, aumentou brutalmente o desemprego, os níveis de empobrecimento, retomou um ciclo de emigração como não tínhamos desde o 25 de Abril, e a verdade é que está neste momento perdido, sem encontrar soluções para a falta de estratégia e ausência de programa”.

António Costa sublinhou que não é possível ser-se Governo sem ter uma visão estratégica e adiantou que o Governo liderado por Pedro Passos Coelho, “se tivesse uma visão estratégica, não estava hoje perdido, sem saber o que fazer perante o fracasso do programa de ajustamento”.

“É isso que o País tem que resolver. Construir a alternativa não é só substituir a direita pelo PS. É garantir que o próximo Governo do PS fará diferente do que a direita fez”, disse.

E, segundo António Costa, a primeira diferença está no facto de que o PS “tem uma estratégia para o País e a direita não tem”.

Quem os ouve não os leva presos…

1 3026
Já lhe chamam a “onda cor-de-rosa”: muitos dos governos da América Latina estão hoje sob o controlo de forças radicais de esquerda que enganam o eleitorado com a promessa populista de auroras douradas. Os custos da loucura extremista serão elevados.

O populismo sempre foi um instrumento político característico dos países da América do Sul – ou da América Latina, se quisermos incluir o caso da ditadura cubana e do conturbado percurso da Nicarágua. O discurso populista pretende exaltar as massas, servindo-se geralmente de um inimigo comum que “deve ser destruído”: como “inimigo do povo” durante a luta pelo poder, como “inimigo do Estado” depois da conquista do poder.

O inimigo, esse, varia conforme as necessidades do populista: podem ser “os burgueses”, podem ser os norte-americanos (os “gringos”), podem ser “os sabotadores”, pode ser qualquer coisa. Não importa que seja verdade ou mentira, o que interessa é que uma maioria de pessoas acredite que é verdade. Sim, uma maioria: porque os direitos democráticos da minoria não são algo que os populistas estejam interessados em proteger.

A partir do final dos anos 90, o populismo foi crescendo na América do Sul. As economias locais, tradicionalmente caóticas, estavam a recuperar devido ao preço elevado das matérias-primas, nomeadamente o petróleo. Este é o sonho do populista de esquerda: a possibilidade de poder usar dinheiro fácil de obter para pagar políticas que compram votos.

Diga-se que tal não é um fenómeno exclusivo da América Latina. Portugal, durante anos, foi governado por Executivos que usaram financiamento europeu e crédito barato para pagar infra-estruturas e políticas que davam votos. Pelo final deste ciclo, o Governo já pagava, com grande fanfarra e cobertura mediática, computadores portáteis aos alunos portugueses, grandes auto-estradas que hoje estão desertas, e ainda queria construir uma linha de TGV de duvidosa necessidade. Nenhuma destas medidas teve qualquer efeito benéfico na economia portuguesa. O populismo acabou por arruinar as contas nacionais.

As causas do desastre português serão as razões do desastre que se aproxima na América Latina?

República “Bolivariana” da Loucura

Dilma_Rousseff_receiving_a_Hugo_Chávez_picture_from_Nicolás_MaduroOra olhemos então para a Venezuela, governada pelo regime criado por Hugo Chávez, intitulada, muito originalmente diga-se, de “República Bolivariana”. A mudança da designação, de forma a fazer apelo ao nome do famoso líder dos movimentos independentistas latino-americanos, foi um primeiro sinal de alerta: Hugo Chávez via-se como um Simón Bolívar do século XXI.

E esta é a parte menos louca do regime de Chávez, um indivíduo tão “democrático” que começou por tentar alcançar o poder através de um golpe de Estado (falhado) que procurava derrubar um governo legitimamente eleito. Falhada a via golpista, Chávez decidiu candidatar-se a eleições. Para ganhar, usou um discurso altamente agressivo visando virar os cidadãos mais pobres contra a classe média e abastada. Prometeu auroras douradas e ganhou.

O problema de se prometer auroras douradas é que, depois, é preciso cumprir. Mas para um populista isso não é problema: a realidade pode ser vergada à sua vontade. Sempre que algum desastre económico ou social atingiu a Venezuela (e sob o governo brutalmente incompetente de Chávez tal era uma ocorrência regular), a culpa caía sempre sobre algum inimigo fictício da “República Bolivariana”.

O ataque aos “inimigos” alcançou tais níveis de ridículo que Chávez chegou a afirmar que um sismo de grande escala no Haiti fora provocado pelos Estados Unidos, que tinham usado uma “arma de terramotos”. Quando faltava um bem de consumo nas lojas, a culpa era sempre dos “sabotadores burgueses” que impediam que os produtos chegassem ao mercado.

Hugo_Chavez_alzando_el_puñoTodas as semanas Chávez passava horas (ocasionalmente mais de seis horas, à maneira de Fidel) nos ecrãs da televisão estatal a arengar sobre os “inimigos” ficcionais.

Tinha uma grande audiência, não pelo conteúdo ideológico das mensagens, mas porque era nestes programas que Chávez costumava anunciar a distribuição de novos subsídios pelos seus apoiantes.

Desaparecido Chávez e desorientada uma parte da máquina repressiva, o povo finalmente revoltou-se contra o regime e decidiu protestar.

Ao sucessor, Nicolas Maduro, nem sequer ocorreu que a política económica do “chavismo” pudesse estar errada. Mas a realidade entreva pelos olhos dentro: a nacionalização de uma grande parte do tecido económico nacional tinha levado a uma enorme fuga de capitais e a falta de muitos bens de consumo devia-se às “experiências” de planeamento central por parte de um governo inoperante e corrupto.

Em vez de reconhecer a evidência, o novo presidente da Venezuela lançou as culpas para cima dos que protestavam nas ruas, logo apelidados de “terroristas”, “fascistas” e “perigosos reaccionários”. Que queriam, afinal, estes “fascistas”? Um país onde se pudesse comprar papel higiénico nas lojas, bem de consumo que parece nunca estar disponível…

A inflação venezuelana chegou neste Verão aos 62%, e continua a aumentar. A moeda teve de ser radicalmente desvalorizada para evitar o colapso total, que já não demora muito a chegar de qualquer forma. Gastando rios de dinheiro em “programas sociais” para subornar os eleitores, o regime “chavista” pouco fez para criar uma economia forte, tendo vivido a ultima década dos rendimentos do petróleo: 93% das exportações do país são baseadas neste recurso.

Mas a queda súbita do preço do barril de petróleo significa que o país está rapidamente a ficar sem dinheiro para continuar a comprar o “amor” da população.

Argentina: penhoras e falência

1280px-Cristina_y_Lula_2A Argentina, dominada nos últimos anos pelo casal Kirchner, é outro caso de esquerda populista na América do Sul. Os “inimigos” são os do costume, só muda o nome.

Enquanto a Venezuela culpa os EUA por todas as desgraças que lhe caiam em cima, a Argentina culpa a Grã-Bretanha – e continua a querer recuperar as ilhas Falkland, cuja população já votou inequivocamente (99%) pela permanência no Reino Unido.

A guerra de palavras entre os dois países serve os interesses da presidente Cristina Kirchner, pois distrai a populaça dos verdadeiros problemas argentinos, nomeadamente a inflação descontrolada.

O Reino Unido não lhe liga muito, nomeadamente no que se refere às ambições sobre as Malvinas. A Argentina seria dizimada caso tentasse invadir as ilhas Falkland: os caças “Typhoon” da Royal Air Force ali destacados bastariam para destruir em pouco tempo toda a obsoleta Força Aérea Argentina.

Entretanto, no plano económico, a presidente encontrou uma forma original de evitar que as estatísticas demonstrassem que o regime estava a fazer um péssimo trabalho: pura e simplesmente, aboliu o Instituto Nacional de Estatística. Ao contrário de Portugal, por exemplo, onde o INE é independente, na Argentina todos os indicadores económicos são cozinhados e divulgados pelo governo.

Não admira, então, que os dados oficiais apontem para uma situação absolutamente normal, enquanto milhões de argentinos já usam o dólar norte-americano em vez da moeda local, visto que esta já nada vale devido à inflação.

Tal como Eva Perón falava dos “descamisados” enquanto vivia numa opulência chocante, tal como a ditadura militar invadiu as Falkland para disfarçar o caos que se vivia no país, também a actual presidente tenta disfarçar a sua brutal incompetência com retórica. Ao longo das últimas décadas, os governos populistas acabaram por destruir a Argentina, que nos anos 50 era um dos mais ricos do planeta.

Hoje, a presidente não pode levar o jacto presidencial para fora do país, sob risco de vê-lo penhorado pelos credores estrangeiros, que já tentaram (quase com sucesso) fazer o mesmo com um barco da Marinha Nacional.

República Soviética do Brasil

1280px-Dilma_Rousseff_na_Inauguração_da_Rio+20O Partido dos Trabalhadores (PT) domina a política nacional do Brasil desde a eleição de Lula da Silva. Num golpe de teatro à sul-americana, o antecessor de Lula, Fernando Henrique Cardoso, é diabolizado como um perigoso “neoliberal”, “cão das potências estrangeiras”, enquanto que Lula é santificado como o herói dos pobres e miseráveis.

Como é normal nesta parte do mundo, poucos parecem ligar ao facto de Lula apenas ter conseguido implementar as suas medidas sociais graças às reformas económicas de Henrique Cardoso.

O presidente do Partido Social Democrata do Brasil (PSDB) pôs em prática um conjunto de medidas duras, mas necessárias, de forma a travar a inflação galopante (que chegou a ultrapassar os 100% em diversas ocasiões) e que relançaram a economia do Brasil.

Lula aproveitou o dinheiro extra dos impostos, bem como dos rendimentos do petróleo, para lançar programas sociais extremamente ambiciosos e populares. Infelizmente, a sua utilidade é duvidosa, pois muitos dos pressupostos-base do Estado Social foram ignorados por Lula: as escolas brasileiras continuam a ser de péssima qualidade, os hospitais horríveis, a polícia corrupta, os tribunais inoperantes. A uma certa altura parecia que Lula governava apenas para a favela, desprezando uma classe média em crescimento.

Mas é este o público-alvo do PT, e na eleição presidencial de há uma semana tornou-se óbvia a divisão que dilacera o Brasil: os mais pobres sendo subornados a votar no PT, enquanto que nos Estados onde predomina a classe média se registou uma votação massiva no PSDB.

Paradoxalmente, o desenvolvimento do Brasil poderá acabar por ser o “calcanhar de Aquiles” da presidente Dilma Rousseff (vencedora com apenas mais 3% de votos que o seu opositor, Aécio Neves, numas eleições manchadas por possíveis ocorrências de fraude, que já estão a ser investigadas).

A economia do país começa a enfrentar graves problemas. Tal como na Argentina, na Venezuela e em Portugal, o dinheiro do Estado foi regularmente esbanjado em grandes obras públicas apenas com fins eleitorais. O campeonato mundial de futebol, apesar de ter sido um sucesso em termos de impacto comunicacional, deu azo a fortes protestos de uma classe média saturada das políticas do PT.

Em vez de ouvir as críticas, Dilma prepara-se para seguir a via que a maioria dos ditadores sul-americanos já seguiu: o plebiscito. Já foi anunciado nas últimas semanas que a presidente do Brasil pretende convocar um plebiscito para alterar a Constituição do país.

Ditadura-democracia-Dilma
Poster da oposição venezuelana

Por outras palavras, Dilma quer forçar o Congresso, através da ditadura da maioria, a aprovar as leis que ela acha que devem ser aprovadas. Uma das propostas é a proibição dos partidos com menos votos de terem acesso à representação no Congresso, dando ainda mais poder ao Partido dos Trabalhadores.

Já este ano, Dilma tentou colocar líderes de extrema-esquerda do Movimento dos Sem Terra em órgãos de decisão, por força de decreto.

O objectivo confesso é criar um sistema “bolivariano” como o da Venezuela, em que cada medida que os governos locais queiram tomar terá primeiro que ser aprovada por consulta popular, ou seja, pelos novos “sovietes”, denominados “conselhos populares”, que Dilma quer instituir.

Não é, portanto, coincidência que o regime ditatorial de Cuba tenha imediatamente dado os parabéns a Dilma pela sua vitória à tangente: tal como a Venezuela de Maduro, o Brasil está a tornar-se um precioso aliado deste dinossáurio comunista da América Latina.

Aécio Neves já anunciou que concorrerá às próximas eleições presidenciais, em 2018. Será que os “conselhos populares” vão permitir? Ou será que Dilma acabará por cair antes do final do mandato devido aos escândalos de corrupção que varrem o Brasil?

Para já, o PT continua a governar com o dinheiro dos outros…

Querido Defunto Líder

1280px-Mansudae_Grand_Monument_08

Os Estados comunistas sempre se serviram do culto da personalidade criado em redor dos seus líderes – e, em alguns casos, tiveram de usar a sua memória para conseguirem sobreviver.

Lenine foi o primeiro a servir, depois de morto, esse culto.

Apesar de o líder soviético ter pedido para ser cremado, Estaline decidiu embalsamá-lo e expô-lo “religiosamente” na Praça Vermelha, no centro de Moscovo. Uma relíquia macabra que ainda hoje pode ser vista.

Sempre na senda soviética, o actual presidente da Venezuela decidiu também mandar embalsamar Hugo Chávez. Nicolas Maduro chegou a planear instalar o mausoléu numa favela, junto do eleitorado do “querido líder”.

O plano não foi avante por falta de condições (e provavelmente dinheiro) para o fazer, mas mesmo assim Chávez foi sepultado perto do edifício de onde tentou lançar um golpe para derrubar a anterior República.

O caso mais paradigmático do culto comunista dos mortos é o da Coreia do Norte. Tanto Kim Il-sung como Kim Jong-Il, avô e pai do actual líder, foram embalsamados e são venerados em cerimónias de Estado. Mais: ambos continuam a “governar” simbolicamente como “eterno presidente” e “eterno secretário-geral”, respectivamente.

Nem a morte os libertou…

0 2206

“Na iminência de perder a face, Putin fez voz grossa”

Bombardeiros estratégicos russos, capazes de transportar bombas atómicas e mísseis nucleares, ameaçaram pela primeira vez o território de Portugal continental. Desta, os nossos pilotos puseram os intrusos na ordem. Mas até quando?

Pela primeira vez desde as invasões francesas, há duzentos anos, as fronteiras de Portugal Continental foram ameaçadas pela presença de um potencial inimigo em armas. Em dois dias da semana passada, quatro aviões militares russos – dois bombardeiros estratégicos Tupolev Tu-95 e dois aviões de reabastecimento Ilyushin Il-78 – penetraram no espaço aéreo cuja vigilância cabe a Portugal.

Só de lá saíram escoltados por caças F-16 da nossa Força Aérea, que descolaram prontamente da base de Monte Real para interceptar os intrusos e levaram a bom termo a sua missão.

Putin_in_Su-27-1Mas o que vieram fazer, tão perto das praias lusitanas, aviões cuja vocação é transportar bombas atómicas e servir de plataformas de mísseis armados com ogivas nucleares?

Mais do que uma reacção apressada a fazer lembrar os velhos tempos da guerra fria, importa perceber e contextualizar mais esta jogada do hábil presidente russo, Vladimir Putin.

Jogos de guerra

Acossado pelas sanções de americanos e europeus, empobrecido pela queda do preço do petróleo e na iminência – impensável para o senhor do Kremlin – de perder a face perante o seu eleitorado por ter deixado escapar entre os dedos a icónica Ucrânia, Putin encheu o peito de ar, retesou os músculos e fez voz grossa.

Que é como quem diz, o comandante supremo do ex-Exército Vermelho mandou os seus bombardeiros estratégicos e submarinos nucleares fazer “grandes manobras”, ao mesmo tempo que testava um novo míssil balístico intercontinental, o Topol-M.

Como era de esperar, o primeiro alvo das provocações russas foram os países do nordeste da Europa que se libertaram do antigo império soviético: os países bálticos Estónia, Letónia e Lituânia – onde, por sinal, também há F-16 da Força Aérea Portuguesa na primeira linha de defesa. Também a presença de um submarino russo detectado em águas suecas e perseguido pela marinha de guerra de Estocolmo pareceu um ‘remake’ de fitas antigas.

O que aconteceu de verdadeiramente novo a semana passada foi a extensão dos voos dos pilotos russos que, ao chegarem tão perto das águas portuguesas, se afoitaram muito para além das rotas dos seus habituais “jogos de guerra”.

Os complexos do Kremlin

A verdade é que a paranóia é má conselheira, pelo menos no que diz respeito à geopolítica e à geoestratégia. A reacção de Putin não pode deixar de trazer à memória o complexo de cerco do Kaiser Guilherme II, em 1914. Por outro lado, para muitos observadores, a Rússia ainda não fez o luto do fim do império soviético, tanto mais doloroso quanto posto em contraste com a expansão – política, territorial, económica – do “campo socialista” sob Estaline, Kruchev e Brejnev.

A queda do “Muro da Vergonha”, a revelação do universo concentracionário do Gulag, o reconhecimento do fracasso económico da economia planificada, a derrota na guerra fria com o colapso do Pacto de Varsóvia e o descrédito total da ideologia comunista geraram um sentimento de perda que continua a tolher a sociedade e as elites russas.

Putin é (foi?) o depositário da esperança dessas elites e dessa sociedade no renascimento da grandeza da Mãe Rússia. Perante os sinais de declínio, compreende-se melhor a sua recente demonstração de força.

Resta perguntar: até onde está ele disposto a ir. Ou melhor: até onde está o Ocidente disposto a deixá-lo chegar?

Intrusos ao pé da porta

Os aviões russos que foram interceptados pela Força Aérea Portuguesa

Tupolev_Tu-95_MarinaTupolev Tu-95

Bombardeiro estratégico alcunhado ‘Urso’ pela NATO. O modelo entrou ao serviço em 1956, mas tem sido sucessivamente modernizado. É movido por quatro motores NK-12, com turbohélices duplas contrarrotativas, conhecidas pelo alto nível de ruído que provocam. Capaz de transportar armamento nuclear, designadamente a bomba RDS-220, a “Czar Bomba”, ou os mísseis Raduga Kh-20, Kh-22, Kh-26 e Kh-55.

Russian_Air_Force_Ilyushin_Il-78M_BeltyukovIlyushin Il-78

Avião de reabastecimento designado por ‘Midas’ pela NATO. Em serviço desde 1984. Pode reabastecer até três aviões aos mesmo tempo, a uma velocidade de 1361 kg de combustível por minuto.

O filme

 51J0ZZZJYVLVêm Aí os Russos é o título de uma uma paródia aos medos da guerra fria realizada por Norman Jewison em 1966, com Alan Arkin no principal papel.

Um submarino soviético encalha junto a uma pequena localidade da costa nordeste dos EUA e os tripulantes tentam arranjar maneira de pô-lo outra vez a navegar para se irem embora. As situações cómicas sucedem-se a propósito da ignorância e do receio mútuos entre russos e americanos.

A mensagem final é um apelo humanista à coexistência pacífica.

0 1039
PSD e CDS-PP ainda não chegaram a acordo quanto ao candidato presidencial. Santana Lopes encabeça uma corrida em que Marques Mendes é “outsider”, enquanto Rui Rio e Marcelo Rebelo de Sousa permanecem na dúvida. No PS, António Guterres preferia manter-se no estrangeiro e coloca o País em segundo plano.

É – ou era – o nome mais sonante do lado socialista para a Presidência da República, cujo cadeirão dourado ficará vago em 2016. Mas essa parece não ser a principal prioridade de António Guterres. Mesmo sem confirmar ou desmentir uma eventual candidatura a secretário-geral da ONU (cuja eleição decorrerá no mesmo ano), há quem garanta que o actual Comissário para os Refugiados conta já com o apoio de “alguns países importantes” caso queira avançar para o lugar de Ban Ki-moon, lê-se na edição desta semana do Expresso.

2016 poderá ser o ano de todas as decisões para António Guterres. Se por um lado conta com o apoio de nomes grandes do Partido Socialista para avançar na corrida por Belém, por outro tem as aspirações de dar continuidade a uma carreira internacional.

Segundo o Expresso, o actual Comissário para os Refugiados poderá concorrer ao mandato da ONU daqui a dois anos. Contudo, e embora diga que “não é este o momento para pensar nisso”, António Guterres tem mesmo na mira o lugar ocupado actualmente por Ban Ki-moon, segundo garantem fontes próximas do ex-primeiro-ministro.

Ban Ki-moon cessa funções de secretário-geral da ONU apenas em 2016. Segundo as regras de rotatividade do organismo, o seu sucessor deverá ser oriundo da Europa Oriental. Porém, a tensão entre a Rússia e a Ucrânia poderão abrir portas a um candidato da Europa Ocidental, estando, aqui, a oportunidade para António Guterres avançar.

Esta novela do “quem quer o quê” apenas retrata as prioridades do lado da Esquerda. Guterres quer a ONU e deixa o País para segundo plano. António Costa quer Guterres e nem sequer tem segundo plano que se conheça.

Tempo para a Direita convergir. Passos Coelho quer Pedro Santana Lopes, uma parte do PSD preferia Rui Rio – que vai ressurgir no panorama político nas duas próximas semanas, segundo apurou O DIABO. Marques Mendes é opção em caso de um “vazio”. Há ainda Marcelo Rebelo de Sousa, cuja candidatura iria fazer recuar Pedro Santana Lopes – como explicou recentemente o homem-forte da Santa Casa da Misericórdia.

CDS apoia Rui Rio

O CDS-PP não irá avançar com qualquer candidato próprio às presidenciais. Há muito que isso está definido – ainda que haja um plano de contingência “para as eventualidades”. Os centristas vão apoiar o candidato escolhido pelo PSD, ainda que a escolha de Santana Lopes seja um amargo de boca para Paulo Portas.

Nuno Melo já prometeu apoiar o ex-presidente da câmara do Porto, caso este decida concorrer a Belém em 2016. Rui Rio mostrou-se disponível para disputar as eleições presidenciais de 2016 ou a liderança do PSD desde que haja um “movimento muito grande” de apoio.

Com o PSD a apontar para outras opções, o ex-presidente da câmara da Invicta pode ter no CDS o seu maior aliado. Nuno Melo, eurodeputado e vice-presidente dos centristas, promete estar “certamente” entre os apoiantes de Rio caso este decida avançar.

Recorde-se que o sucessor de Rio no Porto, Rui Moreira, teve o apoio do antigo autarca e do CDS. Rui Rio não suportava o candidato oficial do PSD, Luís Filipe Menezes, e associou-se, tal como alguns notáveis do PSD, a Rui Moreira. Mesmo enquanto autarca, Rio governou a cidade em coligação com os centristas.

Apesar deste apoio implícito, figuras centristas como o ministro da Economia, Pires de Lima, ou o líder da bancada do CDS, Nuno Magalhães, afirmaram já que Marcelo seria o melhor candidato do Centro-Direita – afirmações que foram feitas, contudo, antes de Rui Rio se mostrar disponível para avançar.

Se, em vez de concorrer às presidenciais, Rio avançasse para a disputa da liderança do PSD, então as peças ganhariam outra disposição no tabuleiro. Nesse caso, aumentaria o espaço para uma eventual candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa à Presidência.

Durão com um pé fora

Outro nome falado à Direita é o de Durão Barroso, que se despediu na semana passada do cargo de presidente da Comissão Europeia. O futuro que se estende à sua frente ainda está por decidir. Mas uma coisa Durão tem já como certa: seguirá o exemplo de outros políticos que, depois de terem exercido cargos internacionais, andam pelo mundo a proferir conferências e a dar aulas em universidades.

Para o fazer, Durão vai ficar para já com uma base em Bruxelas. “É mais central, fica perto de tudo”, conta uma fonte próxima, explicando que o gabinete terá a tarefa de lançar Barroso como um orador em “road show” pelo mundo. Ou seja, a famosa “licença sabática” que Durão Barroso garante ter necessidade de tirar será tudo menos discreta.

A última semana passada no cargo mostra bem que Durão Barroso não está preparado para sair do palco. Em cinco dias foram 23 os eventos, reuniões e entrevistas de despedida.

Com o olho nas conferências que planeia começar a dar em breve, toda a publicidade é bem vinda. E Durão sabe disso, pelo que a agenda frenética dos últimos dias foi mais uma maneira de mostrar ao mundo aquele que, em Bruxelas, o jornalista italiano Beppe Severgnini considerou “um dos três portugueses famosos no mundo”, a par de Cristiano Ronaldo e José Mourinho.

Por agora, o ex-presidente da Comissão Europeia quer manter todas as opções em aberto e continuar com um pé em Lisboa. O cargo que até agora exerceu dá-lhe direito a manter um gabinete na representação da Comissão Europeia em Portugal.

E já começaram os preparativos para assegurar que Durão Barroso terá um gabinete no edifício do Largo Jean Monnet. O ‘staff’ já está a ser escolhido, para que Barroso tenha uma equipa a trabalhar para si em Portugal.

De Bruxelas para o mundo, mas sem deixar Lisboa, Durão Barroso faz do seu futuro político um tabu e varia nas respostas. Recentemente irritava-se com as perguntas sobre as presidenciais. “Já disse que não sou candidato”.

Um dia depois, as certezas não eram tão fortes. “Ainda não tomei decisões finais sobre nomeações políticas ou eleições, quer no meu país quer nas Nações Unidas”, garantia na despedida dos jornalistas na sala de imprensa da Comissão Europeia.

0 1066
Pequeno crescimento económico associado a um aumento de taxas e impostos, nomeadamente IRS, e um maior controlo das fugas fiscais. Aqui está a receita do Governo para o Orçamento de 2015.

Carros, tabaco e mais trabalho… O Estado arrecadou 27.559,7 milhões de euros em impostos até Setembro, um aumento de 7,3% em termos homólogos, o que se deveu sobretudo ao aumento da receita do IRS, segundo a Direcção-Geral do Orçamento (DGO).

A receita de impostos directos subiu 8,5% para os 13.004,7 milhões de euros até ao terceiro trimestre, impulsionada pelo Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares (IRS), uma vez que as receitas do Imposto sobre o Rendimento de Pessoas Colectivas (IRC) caíram.

As receitas de IRS cresceram 11% até Setembro, situando-se nos 9.461,2 milhões de euros, ao passo que as receitas de IRC caíram 2,4% para os 3.378,6 milhões de euros, de acordo com a síntese da execução orçamental relativa a Setembro.

A DGO justifica o aumento das receitas no IRS com “a melhoria das condições do mercado de trabalho e o crescente impacto positivo decorrente das novas medidas de combate à fraude e à evasão fiscal nos impostos directos”.

Nos impostos indirectos, as receitas cresceram 6,3% até Setembro face ao período homólogo, para os 14.554,9 milhões de euros, sendo que todos os impostos registaram aumentos de receita com excepção do Imposto sobre Produtos Petrolíferos (-0,6%) e do Imposto do Selo (-6,4%).

Com o Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA), que é o imposto que gera mais receitas, o Estado arrecadou 10.283 milhões de euros até Setembro, um aumento de 7,7% em relação aos mesmos meses de 2013.

No documento, a DGO considera que o crescimento das receitas do IVA confirma “o perfil de crescimento sustentado da receita deste imposto, superando o objectivo inscrito na proposta da segunda alteração ao Orçamento do Estado para 2014”, destacando que “esta melhoria evidencia a recuperação da actividade económica e a crescente eficácia das novas medidas de combate à evasão fiscal e à economia paralela no IVA”.

Também as receitas arrecadadas com o Imposto sobre o Tabaco (IT) registaram um aumento homólogo de 7,9%, tendo sido de 1.021,1 milhões de euros.

O imposto indirecto com maior crescimento, de 35,8% nos primeiros nove meses do ano, foi o Imposto sobre Veículos, embora tenha um peso pouco significativo em termos de valor (348,3 milhões de euros até Setembro).

Candidatos a “salvadores”

A memória é curta para lembrar a última vez que Portugal não esteve em crise. E agora que a troika se foi – ainda que não tenha ido de vez – surgem os candidatos a “salvadores do País”. Até, imagine-se, no seio do PSD.

Passos Coelho está alerta. Aliás, o líder do PSD já deixou o aviso interno a putativos candidatos a candidatos e aos comentadores políticos filiados no partido. Ninguém vai tirar vantagem do clima favorável.

O primeiro-ministro sabe que a máquina partidária nunca esteve consigo a 100%. As facções internas foram sempre visíveis. E com a aproximação das Presidenciais e Legislativas tudo vem ao de cima.

Rui Rio, antigo presidente da Câmara Municipal do Porto, deu nestes dias a “receita” para tirar o País da crise: é preciso criar riqueza, apostando na exportação e no investimento nacional. Quanto à opção “austeridade”, em vigor oficial no PSD, nem uma palavra.

O político, que é dado como provável candidato à liderança do PSD, foi o convidado do Clube de Caçadores da Estela, na conferência “Portugal: ontem, hoje e amanhã”.

Mas Rui Rio preferiu não abrir o jogo quanto a intenções futuras, ou falta delas, de se candidatar a algum cargo em S. Bento ou em Belém. Nem sequer quis comentar assuntos de conjuntura política, avançando para uma análise de carácter estrutural ao país. A “crise económica é filha da crise política”, disse Rui Rio. A sua opinião, admite, é diferente de toda a corrente maioritária da sociedade portuguesa, pois considera que todos os partidos políticos são culpados do estado de coisas a que chegámos: “nestes 40 anos após o 25 de Abril, não houve um único ano em que o orçamento de Estado fosse equilibrado; andámos a pedir emprestado durante 40 anos, e deu no que deu”.

Para melhorar o país, afirmou Rui Rio, é preciso enveredar pelo caminho do “crescimento económico”. É que, sustentou, “só se criarmos riqueza é que poderemos ir pagando a dívida”. O caminho passa pela aposta nas exportações e no investimento, com um “Estado facilitador” das condições de desenvolvimento e crescimento das empresas.

Estabilidade “camuflada”

Ainda dentro do PSD, o presidente do Governo da Madeira disse este fim-de-semana que “o País tem tido sorte” de viver num clima de estabilidade social “camuflada”, considerando que esta “está ameaçada” e caminha para a “insustentabilidade”.

“O Estado tem tido sorte de viver num clima de estabilidade dada a gravidade das incidências que a actual política vem lançando em quem trabalha e em todas as pessoas em geral”, afirmou Alberto João Jardim na sessão de encerramento do II congresso regional da UGT na Madeira, que decorreu no Funchal, subordinado ao tema “recuperar a esperança, olhar o futuro”, e que serviu também para reconduzir o actual dirigente madeirense, Ricardo Freitas.

Na opinião do líder insular, esta situação da estabilidade social aparente em Portugal acontece “porque as pessoas têm medo de perder o emprego, da solução nova ser pior do que a actual e daí haver este espectro e camuflagem de estabilidade”.

Mas, para Jardim “o que se está a viver hoje na sociedade portuguesa é uma ameaça à estabilidade”, devido ao que classifica de “situacionismo/conservadorismo português”, apontando que “se não se fizerem as mudanças rápidas e profundas nas políticas, a situação caminha para a insustentabilidade”.

O líder regional elogiou a “paciência e pachorra” da UGT e das confederações sindicais, realçando, contudo, que “a paciência tem limites”. “Não é possível aguentar muito tempo a estabilidade se não se for ao encontro da satisfação das necessidades das pessoas”, vincou, observando que “está provado que se não se reformar o Estado, Portugal não tem qualquer saída”.

Jardim destacou que “a primeira necessidade e preocupação que o país tem agora é o emprego”, comparando a linha de actuação das duas centrais sindicais.

Para o chefe do governo madeirense, enquanto a UGT, embora “contestando veemente a situação em que o País está mergulhado, aponta para soluções para o emprego, a outra [CGTP] encontra-se num caminho corporativo, conservador, de não criar mais emprego, limitando-se ao papel de defender os empregos que já estão”.

12 mudanças em perspectiva no IRS

calculator-424564_1920A proposta de lei de reforma de IRS entregue no Parlamento consagra, como previsto, o quociente familiar e avança com várias alterações nas deduções e com a criação de uma cláusula de salvaguarda. Conheça as 12 principais mudanças em cima da mesa.

1. Quociente familiar: um filho vale 0,3

Actualmente, o rendimento colectável não tem em conta os filhos ou ascendentes (pais e avós que ganhem até 259,3 euros), que só são considerados nas deduções. O quociente familiar vai incluí-los no rendimento colectável, valendo cada 0,3.

2. Deduções pessoais: desaparecem para adultos e crianças com menos de três anos

No cálculo do IRS, há uma dedução pessoal que é feita automaticamente. Por exemplo, cada pessoa tem um desconto automático de 213,75 euros. Esta dedução pessoal vai desaparecer. Também se altera a dedução pessoal por cada filho incluído no IRS. Se hoje cada dependente a cargo com mais de três anos vale 213,75 euros, a proposta prevê que esse valor suba para 325 euros, só que esse passará a ser também o valor para os filhos com menos de três anos que beneficiavam, até aqui, de uma dedução superior, de 427,5 euros.

3. Uma nova dedução de “despesas gerais”: Todas as despesas contam

Na proposta de reforma de IRS é criada uma rubrica de dedução onde cabe quase tudo. É a designada dedução para despesas gerais familiares, que incluirá todas as compras de bens e serviços desde que abrangidas pelo e-factura. O mesmo é dizer que, por exemplo, as rendas cujos recibos de particulares não são enviados automaticamente pelo senhorio para o fisco, não entrarão. A abrangência é maior no tipo de despesas incluídas, mas o valor acaba por ser menor. É que contam para o IRS 40% das despesas gerais, mas só até ao limite de 300 euros por sujeito passivo, ou 600 euros por casal.

4. Despesas de educação com tratamento autónomo

A proposta de reforma que chegou ao Parlamento mantém as despesas de educação como categoria autónoma de despesas.

Inicialmente, estas despesas estavam integradas na nova categoria de despesas gerais, mas o Governo, confrontado com críticas de que muitos agregados com estas despesas iriam pagar mais IRS, optou por criar um abatimento para despesas de educação e formação no IRS, adoptando um abatimento ao rendimento líquido que pode chegar aos 1.100 euros por cada sujeito passivo ou dependente, até um máximo de 2.250 euros por cada declaração de rendimentos.

5. Educação também conta para as despesas gerais familiares

Apesar do tratamento autónomo dado à educação, as despesas que os agregados tenham nesta área e que ultrapassem os limites estabelecidos e aceites para o abatimento contarão também para o “bolo” das despesas gerais familiares.

6. Habitação fica de fora

As rendas e os juros com créditos à habitação eram deduzidos no IRS. Mas isso vai terminar, como se confirma na proposta final agora conhecida.

7. Cláusula de salvaguarda compensa perdas com habitação

Para evitar que alguns agregados familiares fiquem prejudicados por já não poderem deduzir ao IRS os gastos com habitação, o Governo decidiu então criar uma salvaguarda a que chama “cláusula do regime mais favorável ao contribuinte”. Até 2017 – ano em que já estava previsto que estes gastos deixassem de contar – vai ser possível o contribuinte solicitar ao Fisco que faça as contas do seu IRS de acordo com as regras actuais, por um lado, e com as novas regras, por outro. No final, o Fisco fica obrigado a aplicar a liquidação mais favorável ao contribuinte.

8. Saúde com maior dedução

Ao contrário do que acontece com a educação, as despesas com a saúde vão dar direito a uma dedução autónoma, que será até maior. Passam a contar 15% (em vez de 10%) das despesas com saúde até ao máximo de 1.000 euros por agregado, independentemente do número de dependentes.

9. Benefício fiscal pelo IVA mantém-se

Na proposta mantém-se o benefício fiscal com o IVA cobrado nas despesas com restauração, cabeleireiros e oficinas. São 15% do IVA suportado até ao máximo de 250 euros.

10. Casais com entrega de declaração separada

Na proposta pretende-se que a entrega anual da declaração seja feita individualmente, mesmo quando se trata de casais. No entanto, estes podem optar por declarar conjuntamente como até aqui, mas terão de informar o Fisco dessa pretensão. Segundo as consultoras, entregar conjuntamente deverá compensar caso os elementos do casal tenham rendimentos muito diferenciados.

11. Rendimentos até 8.500 euros dispensados de fazer declaração

Nesta reforma, propõe-se ainda que os contribuintes que tenham um rendimento anual bruto de até 8.500 euros fiquem dispensados de apresentar a declaração anual.

12. Entregar declaração fora de prazo retira deduções

A entrega em 2016 da declaração de IRS, referente a 2015, fora de prazo elimina as deduções por despesas gerais e as de saúde.

Mais de 70% das empresas nacionais prevêem crescimento

O Barómetro das Viagens de Negócios Travelstore American Express, apresentado no final da semana no VII Salão das Viagens de Negócios, indica que as empresas portuguesas esperam não só um aumento das viagens internacionais para 2015, como um aumento da própria economia nacional, avança o Jornal de Notícias.

“Das cerca de 280 empresas inquiridas, 71% responderam esperar um crescimento da economia nacional em 2015, enquanto apenas 12% afirmaram esperar um decrescimento e 17% uma estagnação”, revelou a organização do evento.

Este estudo envolveu centenas de empresas nacionais provenientes de diversas áreas de actividade.

Em relação às viagens de negócios, impulsionadas pelo investimento em novos mercados (um terço das empresas tem esse objectivo), já foi registado um aumento do volume nas viagens deste ano (mais 4,5%) relativamente a 2013, sendo que, em 2015, espera-se um aumento de 5,2% de despesa com viagens profissionais.

Quanto ao negócio de cada empresa em si, 85% esperam ver crescer a actividade e 2% temem uma diminuição no volume de negócio, ao passo que 12% esperam um período de estagnação.

0 3796
Malhoa_-_camõesFloresça, fale, cante, ouça-se, e viva
A Portuguesa língua, e já onde for
Senhora vá de si soberba, e altiva.
Se ’té’qui esteve baixa, e sem louvor,
Culpa é dos que a mal exercitaram:
Esquecimento nosso, e desamor.

António Ferreira (século XVI)

Haverá algum português que não entenda um galego ou algum galego que não nos perceba na conversação comum? Dificilmente, pois as nossas duas Línguas são irmãs-gémeas.

Algo as distingue, porém, no contexto linguístico mundial: enquanto o Galego permaneceu durante séculos “fechado” como Língua oral de uso particular, sem direito a entrada na esfera cartorial, o Português tornou-se independente e oficial, evoluiu mais radicalmente e acabou por ser disseminado por todos os Continentes ao acompanhar a Expansão.

Não admira que, hoje, os galegos desejem associar-se às vantagens de uma Língua franca que eles compreendem como se fosse sua e que é falada e escrita em todo o Mundo por 250 milhões de pessoas: o sexto idioma mais usado no planeta, o quinto mais corrente na Internet e o terceiro no ‘ranking’ idiomático das redes sociais Facebook e Twitter.

Foi com este quadro histórico em mente que o parlamento da Galiza aprovou em Abril passado, por unanimidade, um diploma legal que protege a introdução progressiva da Língua Portuguesa em todos os níveis de ensino oficial naquela Comunidade Autónoma espanhola.

A Lei para o Aproveitamento da Língua Portuguesa e Vínculos com a Lusofonia (é este o seu título) já está em vigor e permitirá melhorar o ensino do Português na Galiza. No presente ano lectivo, mais de 2.500 jovens galegos aprendem a nossa Língua em escolas primárias e secundárias, na rede de ensino oficial de idiomas e nas Universidades de Vigo, Santiago de Compostela e A Coruña.

O diploma legal sublinha que “o Português, nascido na velha Gallæcia, é idioma de trabalho de vinte organizações internacionais, incluída a União Europeia, assim como língua oficial de nove países e do território de Macau, na China.

Entre eles figuram potências económicas como o Brasil e outras economias emergentes. É a língua mais falada no Hemisfério Sul”.

Sendo a Língua própria da Galiza inter-compreensível com o Português, e oferendo por isso “uma valiosa vantagem competitiva em muitas vertentes, nomeadamente na cultural, mas também na económica”, o parlamento galego decidiu “fomentar o ensino e a aprendizagem do Português com o objectivo, entre outros, de que empresas e instituições aproveitem a nossa vantagem linguística, um valor que evidencia a importância mundial do idioma oficial dum país vizinho, tendo em conta também o crescente papel de blocos como a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa”.

writing pencil bigHá muito que na Comunidade Autónoma da Galiza se ouvem vozes em defesa do Português e do seu ensino regular nas escolas oficiais.

A grande novidade deste novo diploma reside na oficialização dessa velha aspiração como “objectivo estratégico do governo galego”.

Diz o diploma: “Os poderes públicos galegos promoverão o conhecimento da Língua Portuguesa e das culturas lusófonas para aprofundar os vínculos históricos que unem a Galiza com os países e comunidades de Língua Portuguesa, e pelo carácter estratégico que as relações económicas e sociais têm para a Galiza, no quadro da Eurorregião Galiza-Norte de Portugal”.

A Lei prevê ainda o intercâmbio entre cadeias de televisão galegas e portuguesas.

O interesse da Comunidade da Galiza pela nossa Língua (mesmo que numa vincada óptica economicista, capaz de entristecer os puristas) parece infinitamente mais empenhado do que aquele que a burocracia portuguesa dedica ao assunto.

É meritório o trabalho do Instituto Camões, do Observatório de Língua Portuguesa, do Instituto Internacional da Língua Portuguesa e de várias outras instituições que trabalham pela difusão do Português, ainda que acorrentadas às grilhetas do absurdo Acordo Ortográfico.

Mas a dieta minguada que o Orçamento concede ao ensino e propagação da Língua e da Cultura é ridícula, quando comparada com as reais necessidades de uma política conjugada de “investimento” (passe a palavra) na difusão da nossa Identidade.

Em 2007, quando as vacas ainda estavam gordas e o dinheiro corria como leite e mel, o orçamento anual do Ministério da Educação para a difusão da Cultura e para o ensino do Português no estrangeiro não alcançava sequer os 40 milhões de euros – uma quantia insignificante se posta em confronto com os muitos milhares de milhões desbaratados anualmente em decisões estatais ruinosas.

E se a verba não chegava a 40 milhões em 2007, é apenas possível imaginar a que se reduzirá hoje, após sete anos de cortes médios de 10 por cento ao ano no orçamento da Educação…

Não admira que Joseph Ghanime, dirigente da Associação de Docentes de Português na Galiza, tenha lamentado há dias a falta de “medidas concretas” e de “algum interesse” de Portugal com vista a uma promoção “mais ambiciosa” do Português no sistema educativo galego.

A Galiza dá-nos assim uma bela lição, até porque não é principiante no ensino do Português. Os últimos dados disponíveis apontam para mais de 2.500 estudantes galegos matriculados em aulas oficiais de Língua Portuguesa, entre o ensino primário e o universitário, passando pelas escolas oficiais de línguas.

Essas aulas são ministradas por cerca de 90 professores, agrupados na Associação de Docentes de Português na Galiza (ADPG), que pugna por uma melhor organização da sua actividade.

Até agora, a constituição de turmas de Português no ensino secundário galego tem sido feita na base do voluntariado, não existindo um corpo permanente de docentes da Língua, ao contrário do que sucede, por exemplo, com o Inglês ou o Francês.

É esta escassa especialização que a ADPG deseja superar, propondo que o governo autonómico crie um quadro expresso de professores de Português que só a esta Língua se dediquem.

Curiosamente, apesar da proximidade geográfica e das afinidades históricas e culturais, a Galiza não é a Comunidade Autónoma do Reino de Espanha com mais alunos de Português. Enquanto a Galiza conta 2.500 alunos numa população de 2,3 milhões, a Extremadura (apenas com um milhão de habitantes) tem 20 mil alunos a aprender o Português em 140 centros do ensino oficial, enquanto o canal público extremenho de televisão emite o programa “Falamos Português”, em colaboração com o Instituto Camões.

Este aparente paradoxo explica-se facilmente: embora o interesse pela Língua Portuguesa seja mais intenso na Galiza, muitos galegos têm a convicção de que as nossas duas Línguas são tão semelhantes que não é preciso ter aulas – um equívoco que ignora o facto de o ensino de uma Língua implicar uma envolvência cultural e social que tem de ser aprofundada.

Esta consciência da necessidade de aprofundamento dos conhecimentos linguísticos e culturais é muito mais corrente no meio universitário, como está demonstrado pela existência de vários cursos de Filologia Portuguesa e Estudos Portugueses nas Universidades de A Coruña, Vigo e Santiago. 

Um pouco de História

Frontispício da primeira edição da Grammatica da Língua Portuguesa de João de Barros, 1540Durante a dominação romana da Península, a Província da Galécia incluía as regiões bracarense (Braga), lucense (Lugo) e asturiense (Astorga). A partir do ano 212, a sua capital foi Braga, a nobre e erudita Bracara Augusta, que estendia a sua jurisdição do Rio Douro ao Mar Cantábrico.

Reorganizada sob Fernando Magno após o colapso do Império, toda esta região manteve características próprias. Foi só no século XI que o Rei Alfonso VI, avô de D. Afonso Henriques, juntou a Galiza, Portugal e as Astúrias aos territórios de Castela e Leão, na tentativa de formar uma grande unidade peninsular.

Mas ao pedir auxílio aos barões franceses na sua guerra contra os mouros, Alfonso abriu as portas a uma nova subdivisão do território que unificara, pois foram os descendentes desses barões borgonheses que estiveram na origem das lutas pela re-autonomização do Noroeste da Península Ibérica.

Os primos Raimundo e Henrique da Borgonha vieram a casar-se com duas filhas de Alfonso VI, Urraca e Teresa, a quem o monarca ofereceu a Galiza e o Condado Portucalense, respectivamente. Afonso Henriques, filho de Teresa e Henrique, acabou por questionar o vínculo e lutou em 1128, em São Mamede (Guimarães), contra o domínio de Leão e Castela representado por sua mãe.

O facto de, em São Mamede, a Galiza ter apoiado Teresa contra Afonso Henriques deveu-se à enorme influência exercida pelos bispos na sociedade desse tempo. A rivalidade entre os prelados de Braga e Santiago de Compostela levou à formação de dois “partidos”, tendo os seguidores do arcebispo bracarense Paio Mendes apoiado o “partido” da independência e os seguidores do prelado galego Diego Gelmirez o “partido” de Leão e Castela.

De todo o modo, bispos à parte, a origem comum na Gallæcia Magna manteve a Galiza e Portugal em grande proximidade social e cultural, sobretudo depois de Afonso Henriques ter visto confirmada a autonomia portuguesa em 1143 e de os próprios galegos terem iniciado tentativas de se libertarem, eles próprios, do domínio do Rei de Castela e Leão.

O facto de a Galiza nunca ter conseguido obter essa autonomia fez com que a língua galaica não tivesse estatuto de língua escrita durante muitos séculos, condicionando a sua evolução. Pelo contrário, Portugal, Estado-Nação com um percurso próprio, viu a sua língua evoluir até um estatuto clássico. No dizer de Alexandre Herculano, “o Português não é senão o dialecto galego, civilizado e aperfeiçoado”. 

Um pouco de Linguística

dicionario-de-lingua-portuguesa-online-3Tanto o Português como o Galego resultam de evoluções diferentes a partir de um mesmo idioma comum. Esse idioma original, resultante de uma evolução própria do Latim Vulgar, foi usado na Gallæcia Magna (isto é, num território que hoje corresponde à Galiza, ao Norte de Portugal e à zona Oeste das Astúrias).

Segundo o linguista Ivo Castro, da Universidade de Lisboa, a existência autonóma de uma língua romance galaico-portuguesa começou a ser patente no século VII, quando se verificaram dois fenómenos: a palatalização dos grupos iniciais latinos pl-, kl-, fl- na africada palatal surda tš; e a lenição das soantes intervocálicas latinas -n- e -l-.

Quando se iniciou a Reconquista cristã, a partir do século IX, o romance galego-português era a língua do Noroeste da Península Ibérica. Os distintos caminhos políticos seguidos posteriormente nas várias regiões onde era falada determinaram as progressivas transformações paralelas do galaico-português.

No território de Portugal (Reino independente a partir do século XII), a antiga língua comum evoluiu independentemente e a partir do século XIII já existia claramente aquilo que designamos por Português Antigo. “A abundante produção escrita em Português torna possível, desde então, observar com mais pormenor as mudanças que a língua vai sofrer entre os séculos XIII e XV e que, por graduais transições, a levarão a transformar-se de língua medieval em língua clássica”, como salienta Ivo Castro, agravando-se “o distanciamento em relação ao Galego, entretanto impedido pelo domínio castelhano de existir como língua de cultura”.

0 2126

Tal como Sócrates, Costa quer investimentos.

Ouvir António Costa é praticamente o mesmo que ouvir José Sócrates: tudo o que preconiza depende de investimento feito com dinheiros europeus. A reestruturação de que o Estado necessita não parece fazer parte dos planos do socialista, que ainda é presidente da Câmara Municipal de Lisboa.

O candidato a candidato a primeiro-ministro e a secretário-geral do Partido Socialista, António Costa, considera que só uma solução ao nível europeu é admissível sobre reestruturação da dívida e defendeu um novo equilíbrio financeiro entre obrigações externas, constitucionais e de investimento.

António Costa fez a afirmação no final de uma conferência promovida pelo Grupo Socialista Europeu no Comité das Regiões, depois de interrogado sobre uma eventual reestruturação da dívida pública portuguesa.

“Não nos distraiamos daquilo que é essencial e que está ao alcance da nossa mão, que é reforçar o investimento através dos recursos que estão disponíveis. É necessário naturalmente fazer o outro debate [sobre reestruturação da dívida] e é necessário que os consensos técnicos alargados se vão estabelecendo ao nível europeu, porque só uma solução ao nível europeu seria possível e admissível”, sustentou o presidente da Câmara de Lisboa.

O socialista que quer ser primeiro-ministro defendeu que “não é possível retomar uma trajectória de crescimento se todos os recursos financeiros do país estiverem alocados ao cumprimento das obrigações relativas à dívida”.

“É por isso necessário um novo equilíbrio entre os recursos alocados ao cumprimento das nossas obrigações, os recursos alocados ao cumprimento das obrigações constitucionais (designadamente os direitos dos pensionistas e dos funcionários públicos) e também em relação às necessidades de investimento que o país tem no futuro. Não devemos ficar obcecados com uma destas variantes e não podemos desperdiçar as oportunidades que temos para trabalhar sobre outras variantes”, sustentou o presidente da autarquia lisboeta.

Investimentos

Tal como Sócrates, Costa quer investimentos. Aliás, segundo o próprio, o Governo português “não está a trabalhar na variante do investimento e desperdiçam-se fundos comunitários do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN)”.

“Estamos a adiar a utilização das oportunidades que o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco Europeu de Investimento (BEI) proporcionaram para as pequenas e médias empresas investirem atrás dessa entidade que não ata nem desata que é o Banco de Fomento. Por outro lado, não estamos a programar bem o próximo Quadro Comunitário de Apoio”, disse, numa crítica ao executivo PSD/CDS.

António Costa quer mais do Governo e pisca o olho à União Europeia. Durante a conferência, o candidato socialista culpou o Executivo de coligação pelas dificuldades orçamentais do país e defendeu que não é possível atirar sempre responsabilidades para a União Europeia, acreditando que a Europa “tem costas largas”.

“Isto não é culpa da Europa, é culpa do Governo português. Não podemos estar sempre a atirar para a Europa, acreditando que tem costas largas, a responsabilidade daquilo que são os erros nacionais”, disse numa alusão à proposta do Governo de Orçamento do Estado para 2015.

O candidato a candidato socialista a primeiro-ministro considerou que o Governo PSD/CDS-PP é “incapaz de mobilizar as verbas necessárias para o investimento”, sustentando que “têm vindo a ser criadas, ao nível do Banco Central Europeu e ao nível do Banco Europeu de Investimento, um conjunto de facilidades visando […] aliviar o endividamento das pequenas e médias empresas, de forma a criar melhores condições para o investimento privado”.

Governo lamenta ataque de Costa

O ministro-adjunto e do Desenvolvimento Regional, Miguel Poiares Maduro, apelou a António Costa para que não fizesse dos fundos europeus um “instrumento de combate político”.

Instado a comentar o apelo de Poiares Maduro, António Costa afirmou: “O comentário é muito simples, eu não utilizo os fundos comunitários como combate político, o senhor ministro é que não utiliza os fundos comunitários como os devia utilizar, que é para aumentar o investimento, aumentar a riqueza produzida no país e aumentar a criação do emprego”.

António Costa defendeu que “o que é urgente nos fundos comunitários não é fazer combate político, o que é urgente nos fundos comunitários é utilizar os fundos comunitários”.

“O que estes dados revelam, primeiro, é um enorme atraso na execução do QREN e, sobretudo, uma confissão antecipada do Governo que vai ter uma baixíssima execução do novo quadro comunitário que devia estar a ser utilizado”, adiantou.

Além disso, “releva uma segunda coisa: é que o Governo, no desenho dos programas operacionais, não está a aproveitar as oportunidades que a União Europeia criou, designadamente em matéria de reabilitação urbana, que seria da maior importância para a dinamização de uma indústria que colapsou há cerca de três anos”, acrescentou.

Apoiantes de Seguro unem-se a Costa

Álvaro Beleza, apoiante de António José Seguro, que perdeu as eleições “primárias” a 28 de Setembro, permanece no Partido Socialista e pretende que o legado “segurista” permaneça.

Questionado pelo “Diário de Notícias” sobre as eleições “primárias”, algo inédito em Portugal, o socialista disse que este sufrágio “é uma marca do António José Seguro e uma reforma profunda no sistema partidário”.

“A minha luta é que sejam estendidas à designação de todos os cargos políticos individuais”, garantiu o socialista.

Sobre a vitória de António Costa, Álvaro Beleza afirma que “os resultados foram claros. Aquele que ganhou tem um mandato claro”.

Como apoiante de Seguro, Beleza não esquece a importância que o antigo secretário-geral teve. “Sou amigo dele há muitos anos e, portanto, acho que ele é que teria melhores condições, senão não o teria apoiado. Mas perante o resultado e o mandato dos eleitores nas primárias, e também perante a atitude do António Costa de querer unir o partido a seguir às eleições, ele tem todas as condições para ser o próximo primeiro-ministro, com uma maioria forte”.

0 3924

“O chinês comum continua a ser quatro vezes mais pobre do que um norte-americano”

 

183189_192161620808568_6202532_n

A esquerda radical celebrou: a China tinha “superado” os Estados Unidos da América como principal potência económica mundial. Aquilo que a União Soviética, o “paraíso dos trabalhadores”, nunca conseguira, a República Popular da China acabava de alcançar. O império capitalista estava finalmente derrotado! Excepto num pequeno pormenor: era tudo mentira…

A festa começou quando o Fundo Monetário Internacional anunciou que a China iria ficar este ano em primeiro lugar no ‘ranking’ das maiores economias mundiais, quando considerado em paridade de poder de compra. Ora, este é um sistema de cálculo do PIB inventado para compensar as flutuações de moeda e poder de compra que se verificam de país para país.

Exemplificando: imagine-se que 10 portugueses ganham 100 escudos, e que 10 suecos ganham 100 coroas, ambas as moedas com convertibilidade similar. Para todos os efeitos ambos ganham o mesmo, o PIB é igual. Mas imaginemos que o custo de um pão em Portugal é de 100 escudos, e que o preço do mesmo produto na Suécia é 50. Então, na verdade, apesar de nominalmente ambos ganharem o mesmo, o sueco é duas vezes mais rico do que o português.

É isto que está a acontecer na China: em termos daquilo que os seus cidadãos podem comprar, hoje os Chineses compram mais bens e serviços do que os Americanos, mesmo que o valor desses bens e serviços não seja igual.

A razão pela qual o Partido Comunista Chinês não fez um alarido maior com este “sucesso” é óbvia: o seu verdadeiro (e gigantesco) atraso em relação aos Estados Unidos. Um país com mais de 4 vezes a população do outro, gasta o mesmo, o que significa que, apesar de tudo, o chinês comum continua a ser quatro vezes mais pobre do que um norte-americano.

Em termos de riqueza real, sem manipulações estatísticas, a República Popular da China continua muito atrás dos EUA e da União Europeia. Um chinês com um ordenado médio que visitasse qualquer país ocidental, até alguns dos países mais pobres da Europa, descobriria que não consegue verdadeiramente comprar nada.

Por esta razão é que os comunistas chineses não fizeram um grande alarido: sabem fazer contas. E estão preocupados…

Pequim versus povo

Já foi alvo de muita investigação, e continuará a ser, mas compreender a mentalidade chinesa, e em especial a do governo comunista chinês, não é fácil. Em geral, no entanto, muitos académicos consideram que a visão de uma China “triunfalista” e com desejo de esmagar o Ocidente não corresponde à realidade. Na verdade, o governo chinês vive no terror do “caos”, e está sempre com medo do colapso do próprio país.

foto 2
A vida ainda é muito dura para a maioria dos chineses…

Quando se olha para a História compreende-se esta visão. Depois de séculos de estabilidade (embora com bastante estagnação à mistura), o império Qing desmembrou-se, sendo substituído por um mapa de retalhos de senhores da guerra, movimentos separatistas e comunistas. Tentativas de criar uma “República da China” unificada falharam até 1947, quando a República Popular foi formalmente inaugurada por Mao.

Apesar de unificada, a China continua a ser uma manta de retalhos, com vários grupos linguísticos e étnicos coexistindo num mesmo espaço político. E o desmembramento da URSS em várias Nações-Estado serve como um aviso constante ao governo de Pequim. O regime vive aterrorizado pela perspectiva de desmoronamento do sistema e pela possibilidade, sempre presente, de golpes e revoltas. Por isso, ao contrário do que sucedia na extinta União Soviética, muitas das acções do governo chinês são mais destinadas a consumo interno do que a servir de “mensagens” para o Ocidente.

Internamente, o governo vive obcecado em mostrar aos mil e trezentos milhões de chineses a sua indispensabilidade, a convencê-los de que a China está finalmente “a apanhar” o Ocidente. O progresso económico cai nesta necessidade de mostrar progresso. O desemprego deve ser baixo, mesmo que as condições de trabalho sejam más e os ordenados miseráveis. A economia deve estar em crescimento contínuo, a qualquer custo.

Recessão seria fatal para o regime

Infelizmente para as ambições comunistas, o crescimento eterno e estável não é possível, pelo menos dentro das actuais limitações tecnológicas e humanas.

Ciclos económicos são normais em qualquer sistema económico. Nas economias capitalistas, vamos oscilando entre ciclos de grande entusiasmo económico (como, por exemplo, Portugal durante os anos 90) e períodos de recessão, quando os excessos cometidos durante a fase de entusiasmo são corrigidos pelo mercado.

A velha União Soviética tentou acabar com os ciclos económicos, instituindo um programa de “planos económicos” centralmente planeados, que iria, supostamente, criar o tal crescimento eterno. Os “planos quinquenais” deram origem a uma burocracia bizantina que conduziu a URSS à estagnação – e por fim, sem capacidade de corrigir os seus erros, ao colapso económico total.

Os países ocidentais tentaram uma abordagem mais prática ao problema dos ciclos. Para todos os efeitos, deixaram as recessões destruir as partes ineficientes da economia (“destruição criativa”) ao mesmo tempo que cimentaram o caminho para a retoma com investimento público, e acudiram ao sofrimento humano com subsídios de desemprego e apoios sociais.

A lógica keynesiana de “austeridade na expansão, incentivo na recessão” não foi bem seguida por todos os países, nomeadamente Portugal, que gastou desmesuradamente nos bons e maus tempos. Mas onde foi seguida funcionou razoavelmente. Muitas crises desde 1929 foram geridas de forma a mitigar o possível desastre total.

Mas suportar uma crise é impossível para o regime chinês: uma recessão, por mais pequena que seja, corresponde a admitir que o regime já não serve. O governo decidiu, então, fazer batota.

“Expansão” a qualquer custo

Apesar da “liberalização”, a economia chinesa continua sob controlo do governo. Muitos dos maiores grupos de energia eléctrica, fornecimento de água, indústria pesada e banca pertencem ao Estado, logo são obrigados a obedecer-lhe cegamente.

E Pequim usou esta arma com fartura. Bancos foram obrigados a emprestar dinheiro a empresas com projectos muito duvidosos, e entre os casos de projectos mais duvidosos encontram-se as empreitadas de construção megalómanas que apareceram no “reino do meio” como cogumelos.

foto 1Cidades inteiras foram construídas a um ritmo intenso, tudo com apoio indirecto do Estado para se manter uma baixa taxa de desemprego. Fábricas foram expandidas, maquinaria pesada adquirida, barragens e centrais eléctricas erigidas, auto-estradas pavimentadas, tudo em tempo recorde. A sede de expansão a qualquer custo foi tal que os chineses se tornaram os maiores consumidores de aço e betão do planeta (chegaram a consumir metade de toda a produção mundial).

O único problema é que todo este progresso está a demorar a chegar ao povo da República Popular. A corrupção é endémica e a desigualdade cresceu desmesuradamente. Embora esteja a ser produzida muito mais riqueza, ela está a ser mal distribuída – muito pior do que nos piores “infernos capitalistas”.

Na verdade, 1.300 milhões de chineses consomem tanto como 300 milhões de norte-americanos. Os baixíssimos ordenados, política do regime para atrair investimento, criaram uma situação em que muitos chineses não podem comprar aquilo que o seu país produz.

Os outros, aqueles que conseguiram subir na escada económica chinesa, usam o seu dinheiro no pouco em que podem investir: casas.

O regime chinês, tal como a generalidade dos regimes comunistas, ignorou por completo a cultura do país que dirige, onde a frugalidade e a poupança ainda são valores importantes. O dinheiro da nova classe média não foi canalizado para bens de consumo, mas sim para investimento: títulos do tesouro e dívida pública (muita dela de outros países).

Casas e crédito malparado

Em vez de adaptar os seus planos à realidade, Pequim subjugou os cidadãos à teoria, limitando o escopo das oportunidades de poupança. E os cidadãos responderam, transitando dos produtos financeiros para o imobiliário. Algumas famílias de classe média chegam a ser donas de 11 casas, que ficam depois vazias, enquanto famílias paupérrimas de trabalhadores apenas conseguem abrigo em bairros de barracas.

No Ocidente, este desequilíbrio seria naturalmente corrigido pelo mercado: o preço das casas desceria até haver comprador. Na China, isto não é possível. Caso o preço das casas caia, milhões de cidadãos vão perder as suas poupanças e milhões de empreiteiros apoiados pelo regime vão vender propriedades por um valor menor do que o do empréstimo que fizeram para construir. A possibilidade de crédito malparado é enorme.

Em reacção, Pequim limitou o número de casas que cada família pode comprar, o que não soluciona o problema. É o género de remendos que o regime comunista chinês tanto gosta de fazer, fugindo a verdadeiras reformas estruturais. Um dos maiores problemas com que a China se debate é o sistema de justiça, enormemente ineficiente, corrupto e politizado. Mas pouco está a ser feito para o reestruturar.

No outro lado do Mundo, houve um pequeno país chamado Portugal cujo regime cometeu erros semelhantes. E ainda está a sofrer por causa deles.

Desinvestimento estrangeiro

Por toda a China há empreendimentos embargados, muitos deles torres megalómanas e fábricas que nunca serão inauguradas: não há capital para as terminar.

Tal como sucedeu na União Soviética, a gestão centralizada de um enorme território económico revela-se totalmente ineficaz. Apesar dos esforços do regime, as taxas de crescimento de dois dígitos não parecem regressar; de facto, este ano o crescimento da economia deverá manter-se nos 5%: respeitável, mas nada de extraordinário quando comparado com os 3,4% dos EUA.

O ‘Wall Street Journal’, publicação norte-americana conhecida pela sua voracidade editorial por economias em dificuldades (Portugal chegou a ter direito a artigos diários durante vários meses), avisa que o investimento estrangeiro com que Pequim contava está a desaparecer. Existe mão-de-obra mais barata noutros países, e o mercado chinês, por escolha do regime, não é tão atractivo como seria desejável.

Nos anos 80, também se acreditava que a União Soviética era uma enorme potência. Os comunistas veneravam-na como gigante imbatível. Os alarmistas anunciavam que iria em breve “superar” o Ocidente. Os poucos que avisavam sobre a verdadeira miséria e fantochada que se passava no “paraíso dos trabalhadores” eram considerados loucos ou demagogos.

Só quando o império soviético entrou em colapso se descobriu que não passava de um tigre de papel, mantido em pé apenas pela existência de um regime totalitário. Será a China o tigre de papel do século XXI?

0 2703

A primeira causa directa do recente excedente de produção petrolífera é o avanço tecnológico

Inicialmente publicado a 21 de Outubro de 2014

O mundo parecia assistir ao fim da era do petróleo. Mas, afinal, as notícias da morte deste combustível fóssil foram exageradas: o “ouro negro” está de novo a ficar barato e ameaça alterar drasticamente o quadro geoestratégico mundial.

Ainda este Verão o preço por barril de petróleo rondava os 115 dólares, mas desde então tem vindo a cair a pique. A causa simples é a simples lei do mercado: se há mais oferta do que procura, o preço naturalmente baixa. Tal como numa tempestade perfeita, desta vez reuniram-se todas as condições possíveis para uma queda abrupta.

A primeira causa directa do recente excedente de produção petrolífera é o avanço tecnológico. Usando uma nova técnica que denominaram “fracking”, que consiste em libertar petróleo embebido em areias através do uso de líquidos disparados a alta pressão, os Estados Unidos da América e o Canadá aumentaram, e muito, a sua própria produção de petróleo.

Este aumento é tão significativo que os EUA estão a passar de maior importador mundial de “ouro negro” a grande exportador, ao mesmo tempo que garantem a sua independência energética.

Na Europa, a Dinamarca parece viver em cima de uma verdadeira mina graças ao “fracking”: os seus territórios no Árctico estão, pelos vistos, cheios de petróleo.

Opulência obscena

Manifestamente, os ambientalistas radicais e os académicos de esquerda (que se opõem ao “fracking”) estiveram também errados quanto à quantidade de petróleo que pode ser extraído por meio de perfuração ainda existente. De facto, existem enormes reservas entre o Egipto e a Grécia, a cada mês que passa descobre-se mais petróleo na orla costeira do Brasil, e os peritos suspeitam que existam grandes reservas no mar do Sul da China.

Puro e simples, o petróleo afinal não vai acabar assim tão cedo, o que reduz a pressão especulativa sobre os recursos ao mesmo tempo que a descoberta de novas reservas e de novos métodos de extracção significa que a produção aumentou.

Enquanto a produção nos países desenvolvidos aumenta, a coligação petrolífera árabe que causou as crises energéticas de 1973 e 1977 está dividida. Em tempos, este cartel controlava os preços do recurso e, quando o preço baixava muito, eles também baixavam simultaneamente a produção. Desta forma, muitos governantes árabes e seus amigos puderam viver uma vida de opulência obscena (compras “interessantes” incluem carros pintados a ouro e palácios do tamanho de uma pequena cidade).

SOS, Arábia Saudita

O problema é que muitos destes países nunca desenvolveram fontes de rendimentos alternativos aos petrodólares e muitos deles agora não se podem dar ao luxo de reduzir a produção. Muito pelo contrário: à medida que os preços baixam, a extracção de petróleo aumenta. Entre eles encontra-se a Líbia, cuja infra-estrutura está tão destruída que não pode dispensar cada cêntimo que consegue encontrar. E também temos o Irão, que precisa de ganhar moeda forte para pagar importações visto que, devido às sanções ocidentais, não consegue ter qualquer forma de crédito.

Estes países precisam de preços elevados, mas não podem baixar a produção. Logo, imploraram ao maior produtor do planeta, a Arábia Saudita, que o fizesse de forma a aumentar os preços. Os sauditas disseram não, e pelos vistos estão contentes em deixar o preço continuar a cair.

Apesar de estar a gastar milhares de milhões em despesa social numa tentativa desesperada para apaziguar os islamitas de forma a evitar uma revolta ao estilo do Estado Islâmico dentro das suas fronteiras, a Arábia Saudita possui reservas financeiras suficientemente vastas para suportar deficits orçamentais. E na sua lista de prioridades está o enfraquecimento de um rival regional, o Irão, bem como o enfraquecimento de concorrentes no mercado do petróleo, como a Rússia e a Venezuela.

Eleições à porta

Outro objectivo estratégico é tornar a extracção por meio de “fracking” menos atraente. Visto que o processo é mais caro do que a mera extracção por via de perfuração, a queda dos preços do petróleo afecta directamente as empresas envolvidas, reduzindo-lhes a margem de lucro. Os sauditas esperam conseguir mesmo atirá-los para fora do mercado.

Portugal: fiscalidade penaliza economia

petrol-162948

Portugal é um dos países do Mundo onde os combustíveis são mais caros – e não falta quem pense que o abaixamento do preço da gasolina e do gasóleo é um imperativo nacional, visto que reduz o preço dos transportes, quer de mercadorias que de passageiros, alivia a factura da maquinaria agrícola e baixa o custo da electricidade, favorecendo por isso a produção industrial e as contas domésticas.

Mas não: proteger os ursos polares é mais importante que o bem-estar dos portugueses, e os ambientalistas voltaram a ganhar mais uma batalha. Apesar de o preço do petróleo estar a cair a pique, e com ele o preço da gasolina e do gasóleo, o Governo não quer mesmo deixar os portugueses respirar de alívio nem por um segundo.

A nova “fiscalidade verde” introduzida no Orçamento do Estado aumenta ainda mais a carga fiscal sobre o combustível. Nada escapa: nem o gasóleo agrícola de que os agricultores precisam para cultivar, nem a gasolina “dos pobres”, de apenas 95 octanas, nem sequer o gasóleo usado pelos camiões para abastecer as indústrias nacionais e exportar o bom produto português. Há que proteger os ursos polares.

O Governo sugere alternativas. Umas risíveis, como ir de bicicleta para o trabalho; outras inacessíveis à generalidade dos portugueses, como a compra de viaturas eléctricas a 30 mil euros a unidade. Os defensores desta última opção argumentavam que os carros movidos a electricidade tinham duas vantagens: serem pouco poluentes e permitirem contornar os elevados preços do petróleo.

Quando à questão ambiental, um recente estudo britânico revelou que, devido aos minérios altamente poluentes que são usados no fabrico das gigantescas baterias eléctricas, qualquer carro a gasolina ou gasóleo é mais amigo do ambiente. E quanto ao preço do combustível líquido, o argumento acaba de cair pela base…

A reacção dos norte-americanos tem sido ambígua: por um lado querem proteger o seu novo negócio de extracção petrolífera de forma a proteger uma recém-adquirida independência energética, mas por outro os preços baixos do petróleo são populares. De facto, o Financial Times estima que cada americano vai gastar menos 600 dólares por ano com os actuais preços do barril. E, ao contrário da monarquia absoluta saudita, os EUA têm eleições para o Congresso de dois em dois anos, estando uma eleição marcada para daqui a dois meses.

Aumentar deliberadamente o preço do petróleo pode ser uma medida extremamente impopular para qualquer um dos partidos, pelo que provavelmente estará fora da agenda legislativa por algum tempo.

Entretanto, numa situação consideravelmente irónica, o Estado Islâmico, para se financiar (os relógios de 5.000 euros que o seu líder usa não se pagam sozinhos), está a vender petróleo produzido nas zonas que conquistou, a preços de saldo, e está a ter sucesso em encontrar compradores, sendo mais uma pressão inesperada sobre o preço do “ouro negro”.

Procura mundial diminui

Mas a queda dos preços não pode apenas ser explicada pelo aumento da oferta: a procura também diminuiu bastante. A economia mundial está novamente em apuros, a Zona Euro está estagnada e o ritmo de crescimento da produção industrial chinesa abrandou. Menos crescimento de produção industrial significa menos consumo de petróleo, o que significa menos procura.

E, para adicionar sal à ferida, o Japão, um dos maiores consumidores de energia eléctrica do planeta, decidiu reactivar as suas centrais nucleares. Estas centrais foram desligadas depois do desastre de Fukushima e da pressão da esquerda japonesa. Para compensar, o governo nipónico religou as suas velhas centrais a petróleo, incorrendo num enorme custo financeiro, visto que o Japão necessita de importar cada gota que usa.

Assim que a direita voltou ao poder, as centrais nucleares foram reactivadas. Resultado: uma queda significativa na procura mundial de petróleo.

De volta à URSS

Enquanto esta luta geoestratégica se desenrola, os impérios do petróleo começam a tremer.

A Rússia corre o risco sofrer uma repetição do desastre económico que ocorreu com a sua antecessora, a União Soviética.

Nos anos 80, quando o preço do petróleo caiu a pique, a URSS ficou numa situação de grave crise financeira: a sua economia planeada e ineficiente estava completamente dependente da exportação deste recurso. O resultado foi a diminuição da despesa militar, o abandono do domínio soviético sobre o bloco de Leste e o fim da própria URSS.

Tal como nessa altura, a Rússia de Vladimir Putin depende da exportação deste recurso. Mas, alvo de pesadas sanções ocidentais, será que Putin continuará a poder manter a sua actual política externa e militar? Muitos especialistas duvidam, e de facto o Kremlin já abandonou um gigantesco e caro plano de modernização das forças armadas russas.

Outro caso preocupante é a Venezuela, completamente dependente dos petrodólares e já a braços com revoltas contra o regime. O Estado autoritário de Caracas poderá não resistir a mais um abalo às suas contas.

E finalmente Angola, cuja elite tem vivido no luxo dos petrodólares, arrisca-se a sofrer um terramoto social. A antiga província ultramarina de Portugal pode sofrer um ataque em duas frentes: uma quebra na produção total de petróleo (algo que já está a acontecer) combinada com uma queda abrupta dos preços e uma quebra brutal na receita das exportações.

Eis como o preço do barril de petróleo pode vir a determinar uma alteração do quadro geoestratégico mundial. 

CAPA

SIGA-NOS