Economia

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JOSÉ FIGUEIREDO

PROFESSOR UNIVERSITÁRIO

Depois de ter beneficiado de ventos muito favoráveis no último ano, o Governo de António Costa é desafiado pelo Presidente da República a ser mais ambicioso na economia. Logo agora, quando já se avistam sinais perturbadores de que o temporal se aproxima…

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, parece agora exigir que o Governo de António Costa seja mais ambicioso, colocando até uma fasquia de crescimento económico anual acima dos 2%.

Entretanto, os EUA têm registado um crescimento económico ao longo dos últimos anos acima dos 2%.

Para o Presidente Trump, este nível de crescimento é excessivamente moderado, colocando como desafio, para a sua presidência, um nível superior a 3% ao ano.

Decididamente, o desafio de Donald Trump é diferente do que tem pela frente António Costa. O Primeiro-Ministro de Portugal beneficiou até de ventos muito favoráveis. Assim, analisemos os seguintes factos:

  • Se observarmos a Tabela 1, verificaremos que Portugal apenas registou um crescimento económico superior a 2% em 2007, ao longo de um período de 10 anos.
  • Em 2016, ano de responsabilidade integral de António Costa, Portugal ficou aquém dos 2% de crescimento económico, apesar das imensas condições favoráveis a nível internacional, como seja o preço do barril de petróleo estar abaixo dos 50 dólares, e a relação euro/dólar encontrar-se historicamente no seu patamar inferior (1 euro=1,10 dólares).
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José Figueiredo

Professor Universitário

São fenómenos como o da manipulação da situação financeira da Nação, em que se procura branquear e embelezar a realidade, que é bastante mais do que cinzenta escura, que levam à criação dos tais fenómenos populistas, que tanto incomodam os poderes vigentes em muitos países europeus.

A versão oficial dos governantes portugueses, nomeadamente do Presidente da República e do Governo, é de que Portugal vai no bom caminho.

Aliás, o valor do deficit público alcançado (que resulta do rácio entre a dívida pública assumida em cada ano e o respectivo PIB) foi mesmo objecto de gozo e fanfarra por parte de quem governa a Nação. Como disseram, “o deficit de 2,1% alcançado em 2016 foi o mais baixo da democracia portuguesa”.

Dado que a presente solução de Governo da Nação quer mostrar serviço ao nível da gestão da dívida da Nação, atentemos então sobre qual foi a evolução anual do pagamento de juros suportados pela dívida pública, conforme Tabela 1.

Assim, verificamos que os portugueses suportaram bem mais do que 8 mil milhões de euros de juros em 2016. Ou seja, afinal a hidra dos juros não deixou de aumentar neste mesmo ano, apesar do propalado crescimento económico, em particular por via do aumento da actividade do turismo.

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Eva Cabral

A “boa notícia” de que no espaço da União Europeia se regressou a uma inflação virtuosa em torno dos 2% faz tremer as finanças e a economia de Portugal, por se saber que o BCE está agora pressionado a pôr um ponto final na política de estímulos que passava pela compra de obrigações dos países.

Com a nossa taxa de juro a dez anos em torno dos 4%, Portugal ficará em maus lençóis se Mario Draghi e o Banco Central Europeu acabarem com as “ajudas” aos Estados-membros no final deste ano.

Os avisos repetem-se, destacando-se nos últimos dias a voz de Teodora Cardoso, presidente do Conselho Superior de Finanças Públicas. A economista confirma que nestes anos “foi muito importante o BCE, mas não podemos contar com o BCE eternamente”.

Em Fevereiro, a taxa de inflação na Zona Euro atingiu os 2%, segundo os dados divulgados agora pelo Eurostat. Recorde-se que é a primeira vez em quatro anos que a subida dos preços acelera para um ritmo que já fica acima da meta do Banco Central Europeu (BCE), que pretende uma inflação “perto, mas abaixo de 2%” no médio prazo.

Com esta taxa, Mario Draghi, presidente do BCE, poderá ficar sob uma pressão ainda maior para acabar com os estímulos monetários à economia, que foram lançados com o propósito de fazer subir a inflação, que chegou a estar perto de 0% (um cenário igualmente indesejável).

Na verdade, o BCE utiliza medidas para calibrar a taxa de inflação para um valor ligeiramente abaixo dos 2% através da política monetária. Ou seja, quando a taxa de inflação se aproximou de 0%, criando riscos de formação de uma espiral de deflação na Zona Euro, a autoridade monetária liderada por Mario Draghi decidiu tomar medidas como a redução das taxas de juro (directoras, para zero, e dos depósitos, para valores negativos) e avançar com as compras de títulos de dívida pública e privada.

Estas compras de dívida têm sido essenciais para Portugal numa fase em que o país estava a sair de uma intervenção externa originada pela total irresponsabilidade dos Executivos socialistas de José Sócrates, que obrigaram a chamar a Troika e fizeram mergulhar os portugueses em anos de chumbo.

Agora, com a taxa de inflação a ascender aos 2%, sobretudo graças à evolução dos preços da energia (cuja queda também tinha provocado a baixa inflação dos últimos anos), torna-se maior a pressão sobre Mario Draghi para que o programa de compra de dívida – que tem sido decisivo para o acesso de Portugal aos mercados – não seja prolongado além do final do ano e, por outro lado, para que as taxas de juro também não caiam mais.

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Eva Cabral

O Fórum para a Competitividade considera “francamente optimista” a previsão de que Portugal conseguirá um défice de 1,6% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano, depois de o valor do défice de 2016 ter sido atingido graças a medidas pontuais.

“O objectivo do défice de 2017 de 1,6% parece-me francamente optimista, com base no Orçamento do Estado de 2017 que foi apresentado. Recorde-se que relativamente a 2016, se não tivesse havido um conjunto de medidas adicionais durante o ano, o Orçamento inicial teria colocado o défice acima dos 3%”, lê-se na análise de Joaquim Miranda Sarmento sobre “Os riscos financeiros e económicos de Portugal em 2017”, que integra a Nota de Conjuntura do Fórum para a Competitividade, recentemente divulgada.

Entre as medidas extraordinárias referidas estão o programa de “perdão fiscal” lançado pelo Governo (PERES), corte de investimento e cativações, aumento de receita e corte na despesa, que em conjunto representam quase 2 mil milhões de euros.

O professor do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), da Universidade de Lisboa, diz que Portugal “parte para 2017 com um défice (sem medidas pontuais, que valeram no ano passado cerca de 0,5% do PIB), em torno dos 2,7%”, em vez do défice dos 2,1% do PIB em 2016 contabilizados oficialmente.

Além disso, afirma Joaquim Miranda Sarmento, as medidas tomadas pelo Governo “vão agravar o défice em 0,2 pontos percentuais, o que implica que o verdadeiro ponto de partida do défice ronda os 3%”.

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José Figueiredo

Economista e Professor Universitário

Para que se criasse um ambiente económico favorável ao aumento da riqueza a distribuir, seria necessário baixar a carga fiscal às empresas, reduzir a burocracia e criar uma imagem positiva do lucro. Como todos sabemos, nenhuma destas três condições faz parte do programa do governo do Dr. António Costa.

Após o fim do chamado Programa da Troika, muitos portugueses exultaram com o feito. Afinal, Portugal deixaria de ter a visita imposta dos representantes dos credores, impondo medidas ou fazendo sugestões mais ou menos insidiosas.

Ficou, assim, um País aparentemente mais livre, mas ainda fortemente condicionado. Assistiu-se posteriormente a alguma recuperação económica, nomeadamente quanto ao emprego e também no que se refere à recuperação das actividades relativas à exportação e ao turismo.

No 1º trimestre de 2013, a taxa de desemprego cifrava-se em 17,7%. Os últimos dados do emprego, referentes ao início de 2017, referem que cerca de 10% da população activa continua desempregada. Ou seja, houve uma melhoria significativa a nível do emprego, no período pós-Tróika.

Contudo, a taxa de desemprego reflecte apenas uma imagem muito superficial sobre a realidade económica de Portugal. Senão, analisemos por exemplo, a evolução dos trabalhadores portugueses que auferem o salário mínimo nacional, como se pode ver na Tabela.

Afinal, e de acordo com o Ministério do Trabalho, mais de um quarto da população portuguesa auferia o salário mínimo nacional, e quase um terço das mulheres portuguesas auferiam esse mesmo nível salarial, em 2016.

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Eva Cabral

O líder da CIP colocou-se ao lado dos partidos da extrema-esquerda que apoiam o Governo de António Costa ao afirmar que “será mais difícil a economia crescer enquanto a dívida estiver elevada”.

O tom e os fundamentos invocados para defender a reestruturação da dívida são diferentes, e até se afastam teoricamente das razões esgrimidas pela esquerda radical. Mas, em todo o caso, declarações como a do líder da CIP prejudicam sempre o País pelo aumento da percepção do risco sentido por quem se disponibiliza a comprar dívida portuguesa, com o inevitável aumento das taxas de juro.

Falando numa conferência organizada pela CIP – “Moldar o Futuro, o Imperativo do Crescimento” – António Saraiva, presidente daquela organização patronal, afirmou que enquanto a dívida pública se mantiver elevada o crescimento da economia portuguesa será mais difícil, mas excluiu o recurso a um perdão da dívida.

Para o líder dos patrões, a solução passa por uma “reestruturação”, sem que se esclareça o modelo. Em boa verdade, alguns pagamentos antecipados ao FMI, iniciados no Executivo de Passos Coelho e que se mantiveram no de António Costa, representam já uma “reestruturação de dívida”. Mas a margem para se percorrer este caminho é estreita quando a dívida pública continuou a aumentar em 2016.

António Saraiva é claro sobre o tema: “Reconhecemos que, enquanto a dívida pública se mantiver elevada, o crescimento económico [de Portugal] será mais difícil. Temos de aliviar o pesado fardo que o serviço da dívida tem, mas a solução não passará por perdão da dívida ou por pedidos unilaterais por parte de Portugal”.

Para o líder da CIP, o recurso a este tipo de medida “seria contraproducente” porque “elevaria o prémio de risco exigido pelos mercados” e nesse sentido “ fragilizaria ainda mais os bancos nacionais”.

António Saraiva adianta a posição de economistas que entendem que “a solução passará por uma reestruturação que aconteça pela positiva num contexto de mercado e resultante de políticas económicas que se traduzam em maior crescimento”.

“Os problemas com que a economia portuguesa se confronta, nomeadamente o desemprego e o endividamento público e privado, só poderão ser ultrapassados se criarmos as condições necessárias a uma significativa melhoria da competitividade que permita atingir taxas anuais de crescimento económico superiores a 3%”, adianta. Isto quando o crescimento de Portugal foi de 1,6% em 2015 mas voltou a baixar pata 1,4 % em 2016, o que preocupa os empresários.

Os níveis da dívida pública estão, segundo a CIP, a limitar um crescimento mais elevado, porque colocam constrangimentos à condução de uma política orçamental mais favorável ao crescimento e avolumam as pressões nos mercados financeiros internacionais que se reflectem nas taxas de juro e tornam o acesso ao crédito mais difícil.

Saraiva considera que só “o regresso à rota da convergência real com os parceiros da União Europeia” poderá garantir a prazo a prosperidade da economia portuguesa. A CIP entende que Portugal tem alternado entre a recessão e crescimento anémico e que a actividade económica no País está em níveis comparáveis aos de 2004, “longe de ter recuperado plenamente da crise”.

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Portugal nunca recuperou da bancarrota de 2011 e os portugueses continuam a ser mais pobres do que antes desse evento catastrófico. Os avisos vindos de fora estão aí: os salários vão desvalorizar-se ainda mais. O sucessor de José Sócrates sorri e promete um futuro dourado aos portugueses. Mas a evidência é inegável: Portugal está à beira de se tornar o país mais pobre da União Europeia.

Os últimos prognósticos da Comissão Europeia são politicamente bons para o Governo e razoáveis para as folhas ‘excel’ da propaganda, mas são sem dúvida más notícias para aqueles a quem mais interessam: os portugueses. Enquanto Costa e Centeno festejam a relativa ordem nas contas e o ténue crescimento da economia, o povo na rua não sentirá qualquer efeito destes factores estatisticamente manipuláveis.

Na realidade, longe de se “virar a página da austeridade”, o que se segue agora é mais uma dose de austeridade sobre os rendimentos dos portugueses comuns, que vai acontecer de forma silenciosa. Em 2017 e 2018 está previsto que o aumento do custo dos bens de consumo será mais elevado do que os aumentos salariais. Após vários anos em que a inflação, um velho inimigo dos ordenados dos portugueses que viveram os anos 70 e 80, esteve quase nula, agora deverá regressar em breve.

No total, os aumentos previstos não são muito elevados: 1,3 por cento em 2017 e 1,4 por cento em 2018. Mas os ordenados crescerão apenas 1,2 por cento no mesmo período. O desemprego, por sua vez, vai-se manter elevado, o que poderá anular ainda mais o reduzido efeito que possa ter um aumento milimétrico no salário mínimo. Reduzido a miúdos, os portugueses vão ganhar mais no papel, mas na prática os seus ordenados vão conseguir comprar ainda menos. Quem esperava um regresso à prosperidade de outrora, pode aguardar sentado.

Apesar de o actual Governo querer passar a ideia de que a bancarrota de 2011 já se encontra no espelho retrovisor, os bolsos dos portugueses nunca recuperaram dessa catástrofe nacional. Mas a crise vem de longe. Desde a adopção do Euro que o poder de compra dos portugueses não aumenta verdadeiramente quando se tem em conta a inflação, isto apesar de a população ter visto os números na folha de pagamentos a aumentar.

Segundo dados da OCDE, em 2009 o ordenado médio de um trabalhador português comprava o mesmo que em 2000, apesar de nominalmente ter aumentado quatro mil euros. Desde a bancarrota, no entanto, o poder de compra do povo tem vindo a cair, tendo cada português perdido em média mais de mil euros desde 2010.

Em comparação, um eslovaco nestes 15 anos viu o seu poder de compra real aumentar quatro mil euros, face a um aumento nominal de sete mil euros. Um esloveno, que tinha o mesmo poder de compra de um português em 2000, hoje supera-o em cinco mil euros. Mas não é só no antigo bloco de Leste que os rendimentos reais crescem: os espanhóis, mesmo com dificuldades económicas, ganharam dois mil euros de rendimento real. Em termos de estagnação de poder de compra, apenas nos comparamos aos italianos que, no entanto, têm um nível de poder de compra mais elevado do que o dos portugueses. Os gregos, mesmo a sofrer uma profunda recessão, ainda têm em média ordenados mais elevado do que o dos portugueses. E estes números não têm em conta o facto, já abordado nas páginas deste jornal, de os bens de consumo em vários destes países serem bastante mais baratos.

Infelizmente, a situação não parece ser reversível, pelo menos enquanto Portugal se mantiver no Euro. Face à baixa produtividade e competitividade nacionais, especialmente face aos ressurgentes países do Leste europeu, Portugal necessitaria de desvalorizar a sua moeda. Segundo o “Índice Mundial de Preços”, citado pela Reuters, o Euro neste momento é um caos que “beneficia” a Alemanha em detrimento dos “parceiros da zona euro”. Citando textualmente o relatório: o Euro é “um desastre para países como a Grécia [e Portugal] que foram prejudicados por um Euro demasiado forte para a sua economia anémica”, concluindo os académicos que o outro lado do sucesso comercial da Alemanha é “crescimento lento e desemprego” no resto da Europa.

Portugal, devido à decisão unilateral da classe política de aderir ao Euro, não pode desvalorizar a sua moeda visto ter abdicado desse elemento de soberania. Aumentar a competitividade nacional já segue demasiado tarde. Graças aos erros de 40 anos de má governação, e mesmo com mundos e fundos a virem de Bruxelas, os portugueses têm hoje dos piores níveis de qualificações da Europa, estando já bastante afastados dos povos do antigo Bloco de Leste ou da restante Europa Ocidental. Os preços da electricidade e da água são elevados, os impostos proibitivos e a infra-estrutura comercial inadequada. Face a todas estas dificuldades, a solução restante é desvalorizar o poder de compra dos portugueses.

Algo que o anterior Governo deu sinais de compreender. Num momento de honestidade com a população — pela qual foi crucificado pelos órgãos de comunicação social e pela esquerda — o antigo primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, afirmou que “não vale a pena fazer demagogia sobre isto, nós sabemos que só vamos sair desta situação empobrecendo – em termos relativos, em termos absolutos até”.

Algum do optimismo disfarçado da UE face a Portugal encontra-se nesse facto, escondido no meio das tabelas de análise. Espera-se que os custos reais do trabalho desçam 0,9 por cento em 2017 e 1,1 por cento em 2018, algo que torna a economia efectivamente mais competitiva, especialmente para o turismo, mas que torna os portugueses mais pobres em termos relativos. Infelizmente, para além da austeridade, apenas existe mais austeridade, a única diferença é que esta é camuflada e silenciosa.

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A empresa de automóveis francesa Peugeot quer adquirir a Opel à norte-americana General Motors, mas Angela Merkel ainda não decidiu se autoriza a transacção. O famoso “proteccionismo”, afinal, não é exclusivo da América…

Em causa estão as mesmas razões que Donald Trump alegou para justificar as suas políticas: proteger empregos. Apesar de ter censurado activamente as ideias do actual Presidente para proteger empregos nos EUA, a Chanceler alemã mantém uma política interna fortemente proteccionista e que se pode considerar efectivamente nacionalista.

“Vamos fazer tudo o que podemos para manter empregos e fábricas na Alemanha”, afirmou Merkel na última sexta-feira sobre a possível venda da Opel, pela qual a Peugeot está disposta a pagar quase 2 mil milhões de euros já no dia 23 de Fevereiro. A fabricante de automóveis emprega mais de 20 mil funcionários alemães de forma directa, e muitos mais em redor das suas fábricas. Em comparação, veja-se o impacto da Autoeuropa na economia portuguesa, apesar de apenas empregar directamente menos de quatro mil funcionários.

A acicatar os nervos de Berlim está o facto de muitos dos funcionários da Opel pertencerem a sindicatos poderosos, e o tema é politicamente sensível num país que vai a eleições daqui a oito meses. O receio é que uma estrutura unificada permita despedimentos em grande escala nas fábricas alemãs, até hoje relativamente protegidas desse fenómeno.

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São dados oficiais do Banco de Portugal e, por mais que gostasse de adoçá-los, o Governo socialista terá de aceitá-los com todo o seu amargo travo: a dívida pública bruta atingiu no final do ano passado 241,1 mil milhões de euros, mais 9,5 mil milhões de euros do que em 2015. Ainda segundo o Banco central, a dívida pública líquida, que desconta os depósitos, aumentou 5,5 mil milhões de euros, totalizando 223,8 mil milhões de euros em 2016.

As emissões de obrigações de retalho, vendidas a aforradores particulares, que totalizaram 3,5 mil milhões de euros e foram em grande parte responsáveis pelo aumento da dívida. As subscrições de certificados de tesouro também cresceram para 3,4 mil milhões de euros. Por outro lado, a dívida não aumentou ainda mais devido ao reembolso antecipado de 4,5 mil milhões de euros ao Fundo Monetário Internacional.

As estatísticas do Banco de Portugal mostram que a dívida pública atingiu o valor mais alto em Setembro (244.397 milhões de euros), tendo depois descido ligeiramente nos quatro meses seguintes.

Juros: Portugal é “caso especial”

Economistas do Commerzbank consideram que muitos dos países da Zona Euro serão capazes de lidar com a expectável subida dos juros mundiais, mas que Portugal terá extrema dificuldade em acompanhá-los, por ser “um caso especial” – adiantou o jornal online ‘Observador’ na última semana.

Os economistas do banco alemão Commerzbank emitiram a sua nota de análise, destinada aos investidores, numa altura em que os juros da dívida de Portugal atingiam novos máximos desde 2014, nos 4,26% a 10 anos. Segundo o ‘Observador’, “os economistas fizeram as contas às poupanças em juros da dívida que os países da Zona Euro têm conseguido graças aos juros baixos proporcionados pela política do Banco Central Europeu (BCE). A conclusão é a de que, mesmo que os juros venham a subir nos próximos meses ou anos, como se espera, os países vão continuar a financiar-se a taxas razoáveis. A excepção? Portugal, que é ‘um caso especial’ – e não pela positiva”.

E o jornal adiantava: “Os países da Zona Euro têm conseguido reduzir os encargos anuais com a dívida pública, incluindo Portugal, que no início de 2015 emitia dívida a 10 anos com taxas de 2%. Em contraste, a taxa média da dívida antiga era de 3,6% nessa altura, pelo que se percebe como os juros baixos são uma vantagem: ao renovar dívida a custos mais baixos do que a antiga, os países têm conseguido baixar a factura com juros […]. Esse não é, contudo, o caso de Portugal, que já fez uma emissão de dívida a 4,2% (numa altura em que o ‘stock’ caiu até aos 3,4% em 2015, segundo os dados mais recentes do IGCP). Essa foi a única emissão de dívida de longo prazo até ao momento, mas, com taxas destas, Portugal voltará a não conseguir abater na factura anual com juros da dívida, via efeito dos juros baixos causados pela política do BCE”.

“Gasolina na fogueira”

Entretanto, os partidos da esquerda radical que sustentam o Governo no Parlamento continuam a insistir na “renegociação da dívida” – um eufemismo usado para designar, pura e simplesmente, o não cumprimento dos compromissos de honra do País perante os credores.

“A dívida é insustentável, os juros da dívida são muito elevados e a única coisa a fazer é reestruturar” – voltou a afirmar a ruidosa deputada Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda. Segundo aquela parlamentar radical, “com o nível de dívida pública que temos e as taxas de inflação e de crescimento, qualquer taxa de juro é relativamente incomportável a médio prazo. A dívida é insustentável. A única coisa a fazer quando a desestabilização dos juros provoca um caos num país é reestruturar a divida. Um país não pode ficar dependente de desejos especulativos dos mercados”.

O líder do principal partido da oposição, Pedro Passos Coelho, não demorou a responder. Para o ex-primeiro-ministro, “falar da renegociação da dívida portuguesa na situação actual, quando Portugal paga juros elevados para se financiar, é deitar gasolina em cima da fogueira”.

E explicou: “Se estamos a pagar mais caro para nos financiarmos, é natural que os investidores comecem a ver crescer alguma desconfiança quanto à nossa capacidade de pagar”. Se, ainda por cima, “a isso se juntar uma conversa do próprio Governo e dos partidos que o apoiam à volta da renegociação da divida”, então a credibilidade portuguesa desaparece por completo. “Essa é a abordagem não apenas mais inútil, mas também a mais perigosa de todas. O importante era o Governo parar com essa conversa e pedir aos partidos que o apoiam que parem também, porque isso vai prejudicar toda a economia portuguesa”.

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José Figueiredo

Professor Universitário

Comparemos os resultados económicos e financeiros de duas soluções políticas opostas: a Espanha registou o dobro do crescimento económico português em 2016, a criação de emprego em Espanha é quatro vezes superior à portuguesa e Portugal paga mais do dobro de Espanha para financiar a sua dívida pública.

O último ciclo eleitoral de Portugal e de Espanha foi praticamente coincidente. Enquanto em Portugal a maioria PSD/CDS foi a mais votada em 2015, nem por isso deu origem a um novo governo, sendo substituída por uma maioria anti-PSD/CDS. Em Espanha, a magra vitória do PP não conduziu a uma maioria negativa, isto é, não se conseguiram juntar os partidos anti-PP.

Do lado de cá da fronteira, foi habitual lerem-se analistas e articulistas a louvarem a nova solução governativa portuguesa; e, por comparação, relevaram um certo nacionalismo, do género “afinal os espanhóis são ingovernáveis, ao contrário dos portugueses, que arranjaram uma solução governativa criativa”.

Entretanto, os portugueses levam 15 meses de ‘geringonça’, enquanto os espanhóis levam poucos meses de um governo minoritário do PP, com a anuência temporária do PSOE e do Ciudadanos.

E, afinal, como estão os dois países da Península Ibérica?

Conforme se pode verificar na Tabela 1, a Espanha registou o dobro do crescimento económico português, em 2016. Paralelamente, a criação de emprego de Espanha é quatro vezes superior à portuguesa. Finalmente, a percepção dos investidores em dívida pública dos dois países ibéricos penaliza significativamente a dívida pública portuguesa: Portugal paga mais do dobro de Espanha para financiar a sua dívida pública.

Sendo assim, será que o caminho definido pelos políticos portugueses, em particular pelo PS e pelo Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, foi o mais adequado? Parece que não, pois os resultados apresentados são muito fracos. Isto é, não compensou aos portugueses terem optado por uma solução política criativa.

Não vale a pena arranjar as habituais desculpas para justificar os pequenos resultados. Não vale a pena arranjar bodes expiatórios, como no passado.

Afinal:

  • O preço do petróleo está em cerca de 55 dólares por barril, que é metade do seu valor de há três anos.
  • O BCE comprou em 2016 largos biliões de euros de dívida pública portuguesa, ajudando assim a que os ‘yields’ da dívida pública não sejam ainda maiores.
  • A relação Euro/Dólar é das mais baixas da última década, favorecendo as exportações portuguesas (início de 2017, 1€=1,05 dólares, face a 1€=1,40 dólares em 2014).

Paralelamente, o sector financeiro espanhol denota uma enorme pujança, face a um sector bancário português descapitalizado e mal-amado por muita classe política nacional (conforme Tabela 2).

A generalidade dos opinantes portugueses pensa que a banca só traz prejuízo para os contribuintes e que os banqueiros devem ser eliminados da economia. Esta visão é contrária às economias de mercado.

Poderemos mesmo afirmar que a força da banca ilustra a capacidade de criação de riqueza de uma nação. Ou seja, é importante eliminar os maus banqueiros, mas tem que se apostar em novos e fortes banqueiros. De outra forma, a economia não arranca. E, também aqui, a solução governativa denominada ‘geringonça’ não conseguiu gerir adequadamente o dossier bancário.

Parece até que o problema bancário se resume à “solução pública” da CGD, conforme se pode deduzir das múltiplas afirmações do Primeiro-Ministro António Costa. A este propósito, recordamos que nenhum país da União Europeia tem um banco público da dimensão da CGD!

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