Economia

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EVA CABRAL

O Executivo de António Costa está a preparar as eleições autárquicas com várias medidas eleitoralistas que vão cair em cima da ida às urnas. Do aumento das pensões à promessa de novas admissões na Função Pública pela integração de precários, passando pelo subsídio de refeição dos funcionários públicos, o Governo da geringonça concentrou tudo no período eleitoral.

A estratégia não é nova. José Sócrates aumentou os funcionários públicos em 2,9 % em 2009, o que lhe permitiu nova vitória nas legislativas. Com um pouco de memória, todos se lembram que esta festa acabou em 2011 com o País a pedir um resgate para evitar a bancarrota. Mas como se diz que a memória dos povos é curta, o Executivo de Costa está a preparar as autárquicas com um conjunto de medidas simpáticas que sirvam de bandeira eleitoral à geringonça.

E se as autárquicas são eleições com calendário certo, a complexa situação mundial e europeia pode igualmente levar a que se possa regressar a uma situação de crise económica e política que obrigue a legislativas antecipadas. É um cenário que neste momento parece afastado, mas que o calendários de eleições em vários países europeus como Áustria, Alemanha, França – e que começa já em Dezembro com o referendo em Itália – pode alterar de um momento para o outro.

Recorde-se que na sequência da eleição de um novo Presidente dos EUA as taxas de juro a dez anos de Portugal galgaram até perto dos 4%, um valor manifestamente preocupante quando se vive com uma dívida pública astronómica, que passou os 133% do PIB, e numa situação de inflação especialmente baixa.

Indiferente aos riscos que pendem sobre o País, a geringonça já só pensa em eleições – e decidiu que Agosto era o mês mais apropriado para aumentos beneficiando os funcionários públicos e os pensionistas, as duas classes de eleitorado que o Executivo PS escolheu privilegiar. No caso da Função Pública, foi igualmente reposta a contratação colectiva.

  • Leia este artigo na íntegra na edição impressa desta semana.

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Eva Cabral

O verdadeiro folhetim em que se transformou o caso da não entrega das declarações de rendimentos ao Tribunal Constitucional por parte de António Domingues e da restante equipa de administradores da Caixa Geral de Depósitos (CGD) faz com que se esteja a atrasar o programa de recapitalização da instituição pública, e a protelar a recuperação do maior banco português. Com a legitimidade de quem está dentro da casa, até a Comissão de Trabalhadores da CGD já veio a público afirmar que a reestruturação não está a avançar, enquanto o ministro das Finanças aproveitou uma ida ao Parlamento para admitir que a recapitalização da CGD já só irá ocorrer em 2017.

Desta forma se confirma o impasse em que mergulhou a CGD. Apesar de a administração ter reunido na passada quinta-feira, a questão das declarações ao TC não mereceu qualquer tomada de posição por parte da equipa de António Domingues, o que leva a enormes especulações sobre o que efectivamente existirá na situação patrimonial de alguns administradores para ‘precisarem’ de evitar cumprir as regras de transparência.

Os gestores da CGD tencionam responder dentro de alguns dias ao pedido feito pelo Tribunal Constitucional e têm juristas a tratar das respostas. Refira-se que o prazo para a entrega das declarações de rendimentos termina a 9 de Dezembro. Caso não o queiram fazer, deverão fundamentar a decisão e esperar que o Palácio Ratton aceite os argumentos. A maioria dos constitucionalistas não considera viável a não entrega das declarações, pelo que o quase esgotamento do prazo está a dar péssimas indicações ao mercado, e a deitar mais lenha para a fogueira da suspeição.

Perante este longo braço de ferro, vão inclusivamente surgindo notícias que colocam a hipótese de a actual administração “bater com a porta”, podendo mesmo vir a pedir uma indemnização ao Estado por não terem sido cumpridos os termos da sua contratação pelo Ministério das Finanças.

Compromisso escrito

A CGD está transformada num imbróglio sem fim, e quando em causa está uma instituição bancária estas dúvidas instaladas na opinião pública provocam um ruído ensurdecedor, que de um momento para o outro pode desembocar em riscos acrescidos na relação da Caixa com os seus depositantes e clientes. Isto num país que nos últimos anos viu uma sucessão de bancos a cair com estrondo: BPP, BPN, Banif, BES…

A preocupação de muitos portugueses quanto ao futuro da Caixa estende-se ao facto de uma ‘limpeza’ de imparidades na CGD demasiado violenta implicar igualmente medidas no BCP e no Novo Banco , uma vez que nos grandes empréstimos era frequente estes serem chamados a financiar os mesmo projectos. Assim, se a CGD considerar como imparidade – ou seja, em risco sério de não pagamento – determinado empréstimo, os outros dois bancos terão igualmente de reflectir isso nos seus balanços, carregando-os de tintas mais negativas.

Com as novas regras europeias, os grandes bancos passaram a ter uma supervisão igualmente europeia, o que faz com que do processo de reestruturação da CGD dependa de certa forma todo o sistema bancário português. Daí todos quererem ver a reestruturação da CGD avançar. Nos últimos dias sucederam-se os apelos para que a questão das declarações de rendimentos ao Tribunal Constitucional se resolva, enquanto vários partidos, incluindo o BE, anunciaram que irão entregar no Parlamento diplomas que possam reverter os elevados salários acordados entre Mário Centeno e a equipa de António Domingues. Esses níveis salariais provocaram mossa na opinião pública, ou seja no eleitorado, o que explica o progressivo afastamento que o primeiro-ministro António Costa tem adoptado, demarcando-se do facto de ter sido o seu Governo a tentar, por via da alteração do estatuto do gestor público, mudar as regras para ir ao encontro do acordado com a nova administração da CGD.

Já na passada semana António Lobo Xavier disse saber que existia um compromisso escrito entre o Executivo e a nova equipa da CGD para resolver o problema salarial, e esta alteração ao estatuto do gestor público inseria-se no cumprimento desse compromisso. A contestação aos ordenados da CGD, que no caso do presidente é de quase meio milhão por ano a que acrescem prémios, tem vindo em crescendo de forma cada vez mais dura.

Numa sessão com militantes do PS, quando confrontado com a questão da não entrega das declarações de rendimentos ao TC, António Costa foi dizendo que a decisão cabe ao Tribunal Constitucional e não ao Governo, para depois passar a demarcar-se de uma questão que inevitavelmente o vai perseguir.

“Muito negativo”

Neste momento, a entrega da declaração de rendimentos é exigida pelo Tribunal Constitucional, pelos dirigentes partidários (entre eles, destacados militantes do PS) e pelo próprio Presidente da República, que recebeu Domingues em Belém. Isolada perante uma larguíssima maioria da opinião pública, a nova administração da CGD está assim a queimar-se em lume brando.

O próprio presidente da Associação Portuguesa de Bancos, Faria de Oliveira, referiu – em entrevista ao ‘Público’ – que a discussão sobre a entrega das declarações de rendimento no TC “não pode demorar muito mais tempo. O sistema financeiro e qualquer instituição do sistema financeiro necessita de estabilidade. Este ruído é muito negativo. É muito negativo para a Caixa e é muito negativo para o sector bancário”.

Faria de Oliveira, que até 2013 foi presidente do banco público, acrescentou que “todo o ruído acerca da Caixa Geral de Depósitos é extremamente negativo. Para além do seu programa de recapitalização, a CGD precisa de estabilidade e de entrar em pleno funcionamento. E este ruído ensurdecedor é profundamente negativo. É tempo de acabar com ele, e é chegada a hora de pôr um ponto final a todas estas questões”.

Implicações no défice

O processo de recapitalização da CGD, que é a verdadeira grande questão que deveria estar a ser debatida neste momento, ainda pode vir a ter implicações a nível do défice. Quem alerta é Teodora Cardoso, presidente do Conselho de Finanças Públicas, que em audição no Parlamento admitiu que “a parte da recapitalização da CGD relativa a prejuízos passados que ainda não foram contabilizados no défice orçamental terão de ser incluídos nesse apuramento”.

Mário Centeno negociou com Bruxelas regras especiais para a reestruturação da Caixa, mas cabe ao Eurostat – o organismo estatístico europeu – indicar a forma como a operação deve ser contabilizada no défice. Segundo Teodora Cardoso, “a regra do Eurostat não diz respeito à recapitalização da Caixa directamente, mas diz respeito ao facto de a parte da necessidade de recapitalização que resulta de prejuízos passados e que ainda não foi compensada por aumentos de capital – que esses já foram ao défice – terá de ir ao défice”.

Recorde-se que nas suas mais recentes previsões económicas e orçamentais, de 9 de Novembro, a Comissão Europeia admitiu que o “impacto potencial” do apoio público ao sector bancário em Portugal é um risco negativo que pode penalizar o cumprimento dos objectivos orçamentais a que o País está obrigado. Para contornar este risco, o ministro das Finanças, Mário Centeno, já confirmou em audição parlamentar que a injecção pública de capital na CGD só vai ocorrer em 2017, e não ainda em 2016, como estava previsto. Segundo o ministro, “a capitalização tem um acordo com a Comissão Europeia para ser concretizada sem ajuda do Estado. O impacto que um investimento desta natureza tem no défice será obviamente avaliado e analisado em conjunto com as autoridades europeias”.

Se a reestruturação da CGD falhar, é a cabeça de Mário Centeno que estará em risco. Essa é a opinião de muitos, mas já foi verbalizada pelo presidente do Conselho Directivo do Fórum para a Competitividade, que criticou publicamente os gastos elevados do banco estatal com os seus recursos humanos.

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EVA CABRAL

A esquerda continua a defender a “renegociação da dívida pública” – uma expressão que esconde a intenção de, pura e simplesmente, não honrar os compromissos de Portugal perante os credores. O PS é mais cauteloso e fala em renegociar apenas os juros.

Convicta de que “não pagar” a dívida pública nacional seria uma possibilidade e indiferente ao seu aumento desde que o PS formou Governo, a esquerda portuguesa insiste numa fórmula suicida que, a ser posta em prática, levaria a uma subida de juros insustentável por falta de confiança por parte dos credores.

E se a taxa de juro a dez anos da dívida de Portugal está em torno dos 3,3 % – quase o dobro do que paga Espanha – uma “renegociação” da dívida pode pura e simplesmente fechar o mercado, repetindo o que aconteceu em 2011 com o Executivo de José Sócrates.

Ou seja: um passo no sentido do não pagamento da dívida aos credores empurraria o País novamente para a bancarrota, situação em que não existiria sequer a garantia de que a comunidade internacional estivesse disponível para um novo programa de assistência a Portugal.

O Bloco de Esquerda e o PCP defendem a “renegociação da dívida” de forma taxativa, embora mascarando com o verbo “renegociar” a intenção inequívoca de “não pagar”. Mas são muitos os dirigentes do PS, hoje no Executivo, que em 2014 assinaram o chamado Manifesto dos 74, em que se falava na necessidade de “preparar a reestruturação da dívida para crescer sustentadamente”. Este manifesto era assinado por pessoas de vários quadrantes ideológicos, mas entre os nomes do PS encontramos o que é hoje o ‘núcleo duro’ da equipa de António Costa, como Ferro Rodrigues, Eduardo Cabrita, Pedro Nuno Santos, João Galamba ou Pedro Delgado Alves.

O debate do Orçamento do Estado para 2017 na generalidade, que se realizou no final da última semana, trouxe novidades: uma nova posição política do PS de abertura face à chamada “renegociação da dívida pública”, embora abrangendo apenas os juros. Questionado pelo Bloco de Esquerda, o ministro das Finanças assumiu que esta “renegociação da dívida pública” deve ser feita num “quadro europeu”, e tendo como objectivo a questão da taxa de juro paga aos credores.

“Ter credibilidade”

Mariana Mortágua foi a primeira a criticar que todo o excedente orçamental seja canalizado para uma dívida que Portugal não vai conseguir pagar. A deputada lamentou que o excedente orçamental de 5.276 milhões de euros deste Orçamento para 2017 esteja “a ir para o pagamento de juros de dívida pública”, e mesmo assim “não chega”, estando o País a endividar-se ainda mais por uma dívida pública que nunca vai conseguir pagar. Neste momento, Portugal tem um serviço da dívida de cerca de 8.500 milhões de euros.

Mário Centeno afastou, no entanto, a hipótese de um pedido de “reestruturação” pura e dura, e assegurou que Portugal está a fazer um caminho no qual tem que cumprir as obrigações para ter a credibilidade que permite “ter uma voz nesta matéria”.

Mas o titular das Finanças não deixou de concordar com o BE, considerando que é absolutamente “crucial para o futuro próximo da economia que Portugal tenha uma redução na taxa de juro que paga pelo seu endividamento”. O ministro das Finanças foi claro: “É uma discussão que apenas pode ser tida num contexto europeu, o Governo está disposto a tê-la no plano europeu, e tem feito por isso”.

Também a líder do BE, Catarina Martins, atacou a “chantagem europeia” sobre países como Portugal, considerando que a questão da “renegociação” não pode ficar apenas pela questão dos juros e retomando a tese de que parte da dívida é injusta e que, nessa medida, terão de ser feitas outras contas. Uma tese mais radical que, pelo menos para já, não merece acolhimento do PS.

PCP contra regras da UE

A questão da dívida foi retomada por João Oliveira, líder parlamentar do PCP, que criticou os “constrangimentos externos” impostos por Bruxelas a Portugal.

O dirigente comunista frisou que “precisamos do dinheiro da dívida como de pão para a boca”, acrescentando que na perspectiva do PCP “o enquadramento que envolve o debate do Orçamento do Estado evidencia uma crescente necessidade de ruptura com a política de direita, e que enfrente os constrangimentos externos. As regras e critérios da União Monetária e do Euro impõem metas orçamentais limitadoras”.

João Oliveira repetiu a doutrina do PCP sobre a questão da dívida pública. “É preciso uma política que enfrente o constrangimento da dívida e a sua renegociação” pois o país precisa de “investimento público que contrarie o condicionamento dos serviços públicos e permita o desenvolvimento das nossas actividades económicas”.

Contradições de Centeno

A posição de Mário Centeno sobre os juros da dívida pagos por Portugal acaba por contrastar com a posição do seu Ministério face à dívida ao FMI. Recorde-se que o Governo optou por adiar parcialmente em 2016 o pagamento antecipado ao FMI – que tem uma taxa de juro superior a 4,3%, quase o dobro do que cobra de juro, por exemplo, o Mecanismo Europeu de Estabilidade – para usar parte desse dinheiro na injecção pública de 2.700 milhões de euros na Caixa Geral de Depósitos.

Sendo a dívida do FMI aquela que implica maior esforço em matéria de taxa de juro, não se entende que esses pagamentos ao Fundo (que em 2016 deveriam ser de seis mil milhões de euros) fiquem reduzidos a dois mil milhões, e que os outros quatro mil milhões sejam adiados para o final da legislatura.

Dados do Instituto de Gestão da Tesouraria e do Crédito Público confirmam que o Governo só prevê o reembolso de dois mil milhões, ou seja, ficam por pagar quatro mil milhões de euros antes previstos para este ano. O Executivo socialista ainda não mexeu nas previsões para os anos seguintes, que exigem um esforço menor do que para 2016. Para 2017 há uma previsão de pagamento ao FMI de 1.500 milhões, e para 2018 um reembolso de 3.500 milhões.

Dívida engorda em Setembro

Considerando que o Governo pode em Bruxelas renegociar as taxas de juro, o Executivo PS não parece não estar preocupado com o facto de a dívida pública ter engordado mais 1,1 mil milhões de euros, só em Setembro, atingindo um novo máximo histórico. Genericamente, o endividamento do Estado nos últimos meses cresceu cerca de mil milhões de euros por mês, com os reflexos que isso tem no serviço da dívida.

No final de Setembro, o Estado português devia 244,4 mil milhões de euros aos credores, um total que ainda assim não deverá representar um recorde em percentagem do PIB graças à subida da produção em 2015 e neste ano.

Segundo o relatório estatístico divulgado pelo BP, “esta variação reflecte emissões líquidas positivas de títulos (0,8 mil milhões de euros) e um aumento das responsabilidades em numerário e depósitos (0,5 mil milhões de euros)”.

Refira-se, no entanto, que “o crescimento da dívida pública foi acompanhado por um aumento mais acentuado dos activos em depósitos (1,6 mil milhões de euros), pelo que a dívida pública líquida de depósitos da administração central registou uma diminuição de 500 milhões de euros em relação ao anterior mês de Agosto, totalizando 223,1 mil milhões de euros”, revela Banco de Portugal.

A ‘almofada’ financeira do Estado continua assim a crescer, aumentando a margem de manobra pública em caso de necessidade de liquidez ou de aumento repentino dos juros da dívida nos mercados, o que poderá acontecer caso o BCE abandone a compra de dívida pública dos países europeus.

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MIGUEL MATTOS CHAVES

Se as nações que integram o Universo Lusófono constituíssem um único país, este seria a sétima maior Economia do Mundo, à frente da Índia, da Itália, do Canadá ou da Rússia. Todos os países lusófonos teriam a lucrar com o fortalecimento da articulação entre si: cada um deles se tornaria menos dependente do bloco regional em que está inserido e ganharia um peso internacional totalmente diferente. Juntos, passariam a constituir um bloco organizado com voz activa no globo.

Muito se tem falado da Lusofonia e da sua importância. Muito se tem falado da organização da CPLP/Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que congrega nações com uma História e uma Língua comum de mais de 500 anos, e que deu corpo organizativo e visibilidade internacional a uma comunidade cuja matriz é Portugal. Muito se tem falado na necessidade de aprofundar a mesma, com benefício para todos os seus integrantes.

Partilho destas asserções e apoio-as inteiramente. Há uns dias perguntei-me qual a dimensão económico-financeira deste bloco. E meti mãos à obra para, de forma simples e fácil de ler, compreender melhor a sua dimensão, neste capítulo.

É esse trabalho que agora partilho, de bom grado e boa vontade, com os leitores. Creio que ficamos todos mais informados e mais aptos a exigir dos Poderes políticos o aprofundamento deste bloco de países irmãos.

Vejamos, então, a dimensão económica do Mundo Lusófono.

O conjunto dos Oito

As oito economias do Bloco Lusófono (isto é, os países originariamente lusófonos da CPLP, cinco dos quais são Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa/PALOP) valem cerca de 2,1 biliões de euros e têm uma população total de cerca de 271 milhões de pessoas. Vejamos então qual a sua dimensão, no particular de cada país, e no seu conjunto.

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Como se infere da leitura do Quadro 1 – sendo um conjunto de países com uma dimensão apreciável, tem no entanto algumas fragilidades, como é o caso de as contas nacionais serem negativas, exceptuando Portugal e Timor, e o facto de ser um bloco com grandes assimetrias, quer em termos populacionais que em termos de riqueza gerada por cada país.

Vejamos então mais alguns indicadores, e algumas previsões do FMI sobre as respectivas economias para 2016 e para 2017, bem como a importância relativa de cada um deles no seu conjunto e a sua importância relativa nos Blocos Regionais em que se inserem.

Angola

Angola é o maior produtor de petróleo na África subsaariana e é a terceira maior economia do Continente Africano. Tem um défice nas contas nacionais de cerca de 8,5%. As perspectivas de evolução da economia são de estagnação: o FMI prevê que o país sofra uma estagnação este ano, recuperando depois em 2017 para os 1,5%.

“Angola está, como a Nigéria e a África do Sul, a adaptar-se à forte queda nas receitas das exportações de petróleo, não deverá crescer este ano e vai ter um fraco crescimento no próximo ano”, lê-se no relatório divulgado em Washington. O FMI revê em forte baixa as previsões de crescimento da economia angolana, já que em Maio apontava para um crescimento de 2,5% este ano e uma ligeira aceleração para os 2,7% no próximo ano.

Angola tem um PIB que ronda os 102,9 mil milhões de dólares e está inserida num espaço regional mais alargado, a África Austral, cujo PIB conjunto dos seus 15 membros chega a cerca de 650 mil milhões de dólares.

Brasil

Este país é, naturalmente, a maior economia do conjunto dos oito países da CPLP analisados. O FMI, na actualização de Outubro ao ‘World Economic Outlook’, antecipa uma recuperação económica no Brasil em 2017, ano em que o crescimento da economia deverá rondar os 0,5%, depois de dois anos de recessão.

“A economia brasileira permanece em recessão, mas a actividade parece estar perto de sair do fundo do poço”, disseram os analistas do FMI, sobre a nona maior economia mundial.

Moçambique

Também em Moçambique os analistas do FMI esperam um crescimento de 4,5% este ano e 5,5% em 2017. Está também inserido no espaço regional da África Austral, cujo PIB conjunto dos 15 membros chega quase a 650 mil milhões.

Portugal

As previsões do FMI apontam para um crescimento de 1% este ano e uma ligeira aceleração para 1,1% em 2017.

São Tomé e Príncipe

São Tomé e Príncipe deverá registar taxas de crescimento de 4% e 5% em 2016 e 2017. É o país com a economia mais fraca dos PALOP.

Timor

Para Timor-Leste, o FMI prevê taxas de crescimento de 5% e 5,5%, em 2016 e em 2017, respectivamente.

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Ao analisarmos, quer em termos do tamanho da sua economia e riqueza produzida, quer em termos de população, chegamos às seguintes conclusões:

Embora não seja muito correcta, tecnicamente, a afirmação de que se fosse um único país, o Bloco CPLP seria a 7ª maior economia do mundo, aqui fica esta nota de mera curiosidade. De facto, um Bloco é constituído por vários países. Como é do conhecimento geral, mesmo sem a produção deste trabalho, a maior economia dos oito é o Brasil, com uma quota de 84,61% do PIB do conjunto. Portugal significa 9,5% da riqueza produzida neste bloco de países, ficando em terceiro lugar. Angola com 4,91%. No seu conjunto, estes três países (Brasil, Portugal e Angola) somam 99,02% da riqueza produzida no total do Bloco Lusófono. Sem o Brasil, o conjunto teria um PIB total de 322,5 mil milhões de dólares, um PIB per Capita de 1.187 dólares e cerca de 67 milhões de habitantes.

Em termos de População, o quadro de importância relativa apresenta algumas diferenças importantes, face ao anterior, mantendo naturalmente, mesmo assim, também neste capítulo, a liderança do Brasil com 75,5%. Mas em segundo lugar aparece Moçambique com 10,3%, seguindo-se Angola com 9,3%. Portugal, neste capítulo, aparece apenas em 4º lugar.

Performance – Capacidade Instalada vs. Riqueza Produzida

Num exercício teórico, em que a população total fosse considerada como a “capacidade produtiva instalada” e a comparássemos com o resultado em riqueza produzida, medindo assim a performance de cada país, em termos de resultados, teríamos o seguinte quadro.

Com performances positivas estariam Brasil e Portugal, pois têm uma quota de riqueza produzida (PIB) superior à quota da sua “capacidade produtiva instalada”, neste caso a população, como acima se referiu.

Blocos Regionais – Comunidades Económicas

Todos estes países estão inseridos em Blocos Regionais, mais ou menos formais, em termos económicos. Vejamos então a dimensão dos mesmos, e a importância de cada um dos países no seu seio.

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Pela leitura do quadro 3, pode-se verificar que o Bloco Lusófono, em riqueza gerada (PIB), está em 5º lugar, a meio da tabela, na classificação dos principais blocos de cooperação económico-financeira mundiais. O bloco mais rico é a NAFTA, de que fazem parte os EUA, o Canadá e o México. O mais pobre é a CEEAC, de que também faz parte São Tomé e Príncipe.

O Bloco Lusófono tem, como se pode ver, uma importância relativa considerável, apesar de o Brasil ter um peso predominante no mesmo. Considerável, pois em termos geográficos é aquele em que mais zonas do globo estão integradas (Ásia, África, América do Sul e Europa). Os restantes blocos têm uma menor dispersão geográfica.

Quanto ao peso predominante de um país, o mesmo, então, se poderá dizer do bloco NAFTA, onde os EUA pesam 86,9%. E nem por isso este bloco deixa de ter a importância que tem.

Vejamos agora mais alguns dados dos blocos regionais, em que os vários países da Lusofonia se inserem.

ASEAN

A ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático) é uma organização regional de Estados do Sudeste asiático instituída em 8 de Agosto de 1967 através da Declaração de Bangkok. A ASEAN engloba 12 nações: dez delas são países-membros e duas são observadores em processo de adesão ao grupo.

Na Ásia, Timor-Leste, com um PIB de 2,6 mil milhões de dólares, está inserido neste bloco, uma comunidade com um PIB conjunto de 2,4 biliões de dólares.

CEEAC

É uma Comunidade Económica da África Central criada em Libreville, Gabão, em Dezembro de 1981. A CEEAC tornou-se operacional em 1985 e os seus objectivos são promover a cooperação e o desenvolvimento auto-sustentável, com particular ênfase na estabilidade económica e a melhoria da qualidade de vida. Na Comunidade Económica dos Estados da África Central (CEEAC) está São Tomé e Príncipe. Esta comunidade tem um PIB que, no conjunto dos países que a compõem, vale 337 milhões de dólares.

CEDEAO

Na Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), que engloba quinze países da África Ocidental e que vale 675 mil milhões de dólares, estão Cabo Verde, com um PIB de 1,6 mil milhões, e a Guiné-Bissau, com 1,05 milhões de dólares.

MERCOSUL

O Mercado Comum do Sul é um bloco composto pela Argentina, o Brasil, o Paraguai e o Uruguai; mais tarde, a ele aderiram a Venezuela e a Bolívia. O Brasil vale 1,77 biliões de dólares. O PIB conjunto do Mercosul conjunto cifra-se em cerca de 3,5 biliões de dólares. O Brasil significa, portanto neste bloco, 50,65% do mesmo.

U.E.

Portugal, com um PIB de 199,1 mil milhões de dólares, está inserido na União Europeia, cujo PIB está estimado em cerca de 16,5 biliões de euros. A economia portuguesa pesa, neste grupo (antes do alargamento – CE a 15 países) 1,33%. Face ao actual (U.E.) e ao total dos 28, Portugal significa 1,21%.

Vejamos então, num quadro resumo, a importância relativa de cada país-membro da Lusofonia e da CPLP, face aos blocos regionais em que se integram:

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Como é fácil de verificar, apenas o Brasil tem uma posição predominante, ou significativa, dentro do bloco regional em que se insere – o MERCOSUL – onde a sua economia tem um peso de 50,65%. A seguir, o país que tem mais peso no bloco regional a que pertence é Angola, cujo PIB significa 15,83% do total do mesmo, seguindo-se Portugal com apenas 1,21% de peso no seu bloco regional, a União Europeia.

Postos os números a descoberto, algumas conclusões se podem retirar:

Em primeiro lugar, que todos os países da CPLP teriam a lucrar com o fortalecimento desta organização. Porquê? Porque não só os tornaria menos dependentes dos blocos regionais em que estão inseridos, como o seu peso internacional seria totalmente diferente, por mais significativo.

Em segundo lugar, por se inserirem num bloco de expressão mundial com um peso, no seu conjunto, mais significativo do que cada um isoladamente considerado.

Em terceiro lugar, por se constituírem como um bloco organizado que tem uma história e língua comuns, o que, a par de uma eventual concertação de posições políticas de carácter internacional, lhes proporcionaria uma voz activa no globo.

Este facto pode agora ser potenciado, dada a circunstância de a Comunidade Lusíada ter um seu membro a ocupar o alto cargo de Secretário-geral das Nações Unidas. Poderia, assim, se houvesse vontade política e discernimento dos líderes de cada país, vir a ser uma potência ouvida e respeitada no Sistema Internacional das Nações.

É preciso que os mais altos dirigentes, de cada um dos países da CPLP, percebam que se se unirem de facto, e não só nos discursos de circunstância, cada país ganhará um espaço e uma influência no Sistema Internacional muito superior à sua importância individual.

Não é por acaso que pediram para serem Membros Observadores (antecâmara de adesão plena) países tão diversos como a Hungria, República Checa, Eslováquia e Uruguai, que foram aceites na Cimeira da CPLP, da semana passada, e que se juntaram assim à ilha Maurícia, Namíbia, Senegal, Turquia, Japão e Geórgia.

Se este grupo de países, que têm uma História e uma Língua comum de mais de 500 anos, fosse um País, seria a sétima maior economia do mundo, atrás da França e à frente de países como a Índia, a Itália, o Canadá, Rússia e outros, como veremos no quadro seguinte:

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Ou seja, o fortalecimento e o aprofundamento do Bloco Lusófono seria benéfico para cada país da Lusofonia, para o Bloco em si mesmo, para a Economia conjunta do mesmo e de cada um dos integrantes. Seria sobretudo útil e benéfico para os habitantes de cada um dos países-membros.

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José Figueiredo

Professor universitário e economista

O Estado espanhol consegue obter uma maior pujança económica do que Portugal, apesar de ter também um enorme fardo de juros a pagar.

A evolução económica portuguesa não tem sido a melhor ao longo da última década, conforme informação constante da Tabela 1. No período 2006-2015, Portugal não consegue atingir num único ano um patamar de crescimento económico de 3%. Por comparação, a vizinha Espanha atingiu neste mesmo período, por três vezes, níveis de crescimento económico superiores a 3%.

Porque não consegue Portugal sair da anemia económica?

Para os apoiantes da Geringonça, a culpa desta situação relaciona-se com o fardo da dívida pública e, por consequência, dos inerentes juros. Contudo, antes de 2008, a dívida pública portuguesa era inferior a 100% do PIB (actualmente, este rácio é de 130%), e o argumento da dívida e do respectivo serviço não colhe.

Paralelamente, porque atinge Espanha um nível de crescimento económico superior a 3%, por três vezes em 10 anos? Porque se mexe melhor o gigante espanhol, face à pequena realidade portuguesa (o PIB espanhol é 6 vezes maior do que o português)?

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EVA CABRAL

O Orçamento de Estado para 2017 encerra uma alteração de estratégia por parte do executivo de António Costa que, perante a necessidade de alavancar o crescimento do PIB, muda a agulha para o reforço do investimento, depois de ter passado o seu primeiro ano a apostar quase exclusivamente no consumo interno, com os maus resultados que se conhecem.

Quem detectou esta mudança de estratégia foi o Conselho de Finanças Públicas (CFP), na análise que fez do documento entregue no Parlamento. Nessa análise, apesar de considerar que os números do cenário macroeconómico apresentam projecções estatisticamente plausíveis, acaba por colocar várias interrogações para o futuro.

No parecer elaborado sobre o Orçamento, a instituição liderada por Teodora Cardoso alerta que “o cenário macroeconómico subjacente ao OE/2017 apresenta importantes alterações da trajectória esperada para a economia portuguesa relativamente à que era apresentada quer no Orçamento de 2016, quer no Programa de Estabilidade 2016-2020 enviado para Bruxelas”.

O Conselho de Finanças Públicas refere que é reconhecido o arrefecimento da economia que se verifica desde o segundo semestre de 2015. Por outro lado, é de assinalar a substituição do consumo privado, enquanto motor do crescimento económico, pelas exportações e pelo investimento tal como, em seu entender, se verifica na proposta de Orçamento do Estado para 2017.

Como se sabe, é o enorme desvio entre o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) previsto pelo Governo quando elaborou o Orçamento para este ano, e os números agora revistos em baixa, e que apontam para a anemia da economia portuguesa, que levam a que se tenha que mudar de rumo. Na verdade há poucos meses a previsão do governo para o PIB era de 1,8%, tendo sido revista em baixa para cerca de 1%, o que levou mesmo a que fossem tomadas medidas adicionais de arrecadação de receita como o perdão para quem tem dívidas ao Fisco e se dispõe negociar o pagamento com a Autoridade Tributária.

As campainhas de alarme soaram quando se verificou que, depois de o PIB ter crescido 1,6% em 2015, se estava a verificar uma profunda regressão em 2016, o que levou o secretário-geral do PS a fazer esta inversão de rumo. Uma inversão que, curiosamente, tem sido um tema pouco falado no espaço mediático, até pela gestão de expectativas feita pelo Executivo, sempre secundada pela poderosa máquina de propaganda da geringonça.

A opção de crescer em 2016 por via do consumo interno demonstrou, mais uma vez, que não se cresce por decreto. Por outro lado, os constrangimentos impostos pela necessidade de se cumprir o acordado com Bruxelas em matéria de défice público levaram o Governo de António Costa a comprimir o investimento público a níveis muito mais baixos do que os verificados na fase do resgate, com as desastrosas consequências que já se referiram a nível de crescimento do PIB, que pode terminar o ano em metade do inicialmente previsto.

CFP alerta para riscos

Mas este novo rumo tem riscos que o CFP detecta: “as condições de financiamento e a incerteza e expectativas dos agentes económicos sobre a economia portuguesa são condicionantes importantes da evolução esperada desta variável”.

A estes factores somam-se as limitações orçamentais. “O CFP tem sistematicamente assinalado que as previsões da evolução do investimento estão muito associadas a um conjunto vasto de políticas que não se restringem ao campo da política orçamental”, lê-se no documento do organismo, que adianta “não dispor de informação que permita, de forma sustentada, apreciar o quadro de medidas de política, fora da esfera orçamental, que possam ter influência sobre a dinâmica do investimento prevista pelo Governo”.

Resta saber se António Costa conseguirá fazer esta inversão de estratégia, no meio do quadro de instabilidade fiscal que o Orçamento para o próximo ano encerra, e que em si mesmo afugenta o investimento, existindo ainda o pecado capital de ser um Governo minoritário do PS apoiado no Parlamento pelos chamados partidos da esquerda “pura e dura” – PCP e BE – o que deixa de pé atrás quem quer aplicar capital, e pode optar pelo Mundo inteiro, apostando em países que garantam melhores retornos e ofereçam maior segurança.

Marcelo tem insistido

O Presidente da República tem repetidamente pontuado os seus discursos nos últimos meses com a necessidade de o País não descurar a questão do crescimento. Tem percorrido Portugal de Norte a Sul puxando pelo ânimo da população, e tem visitado comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo tentando dinamizar os laços de pertença ao País, por questões afectivas mas igualmente por as remessas dos emigrantes serem importantes para a nossa economia (ver peça nas páginas seguintes).

Mas enquanto se consolidou a ideia de que Portugal consegue em 2016 cumprir o défice negociado com Bruxelas, verificou-se igualmente que o País não cresce de forma a convergir com a média da União Europeia. Foi perante esta realidade que o Presidente da República começou a pressionar com a necessidade de se olhar para o investimento público e privado, bem como para o apoio às exportações.

Em finais de Setembro – numa intervenção no 26º congresso da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações – Marcelo alertava mais uma vez para a necessidade de reverter os dados menos positivos no investimento e nas exportações, sublinhando que os avanços já conseguidos não passam de conjunturais se não houver crescimento económico.

“Temos de nos assumir cada vez mais como aquilo que constitui a nossa vocação desde sempre, uma plataforma entre culturas, civilizações e continentes, temos de atrair mais investidores internos e externos com estratégias de médio e longo prazo, temos de cuidar de os atrair e não de os retrair, mesmo sem disso ter a noção”, referiu.

Era uma claro “recado” para o perigo de actuações como as da bloquista Mariana Mortágua, que veio defender a taxação do património imobiliário numa fase em que a medida nem sequer estava acordada com o PS. O ruído provocado pela intervenção do BE acarretou, segundo se queixaram as agências imobiliárias, desde logo uma retracção por parte de eventuais investidores pelo alarme que medidas fiscais deste tipo provocam.

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EVA CABRAL

Se António Costa parece ter respondido aos sucessivos apelos do Presidente da República e estar a fazer agulha para a defesa do investimento nacional e estrangeiro, bem como para o reforço das exportações, a prevista renegociação dos fundos comunitários com Bruxelas pode atrasar estes objectivos.

Os fundos comunitários, que em 2016 tiveram uma execução muito baixa, são para António Costa uma esperança de injectar dinheiro na economia em 2017. Mas, para isso, deve acelerar-se a aprovação dos projectos de investimento e assegurar que os fundos são libertados, não estando neste momento garantido que isso aconteça.

O ministro do Planeamento e das Infra-estruturas, Pedro Marques, assumiu recentemente que o Governo quer começar a renegociar os fundos comunitários com a Comissão Europeia, já em 2017, para incluir algumas das prioridades do Plano Nacional de Reformas.

Segundo o governante, o programa Portugal2020 (PT2020), através do qual são canalizados os fundos comunitários, “não reflecte necessariamente as prioridades deste Governo”, uma vez que foi negociado pelo Executivo anterior, liderado por Passos Coelho e de coligação com o CDS.

Na visão de Pedro Marques, “o Programa Nacional de Reformas tem seis prioridades claras que precisarão de ser financiadas”, apontando que “o PT2020 tem uma evidente insuficiência de dotação relativamente à qualificação de adultos, e das competências escolares em particular”.

Apesar disso, o ministro do Planeamento e Infra-estruturas afirma pretender “manter o ritmo” na execução dos fundos comunitários, “chegando a 2017 com mil milhões de pagamentos”, e admitiu ser possível, globalmente, “atingir um quantitativo de cinco mil milhões de investimento público e privado apoiado pelos fundos”. Um projecção que muitos consideram demasiado optimista.

Pedro Marques indicou ainda que existe uma “dotação específica para pagamentos de contrapartida nacional” de 100 milhões de euros no Orçamento de Estado para 2017, que permitirá “alavancar 600 ou 700 milhões no total”.

Mas esta nova receita para o crescimento do Executivo de António Costa não impede que existam vozes críticas de vários quadrantes a duvidarem do sucesso desta nova orientação.

Vozes críticas da estratégia

Nos últimos dias, são muitas as vozes que se levantam no espaço público com duras críticas ao Executivo do PS, questionando as virtualidades do Orçamento de 2017 para levar o País a um crescimento mais robusto. E são vozes com várias sensibilidades políticas, de Pedro Ferraz da Costa (que durante anos liderou a CIP) ao ex-ministro socialista Daniel Bessa.

Ferraz da Costa, presidente do Fórum para a Competitividade, afirmou que o Governo português não inspira confiança à sociedade portuguesa, nem à “grande parte dos potenciais investidores”.

Em entrevista em entrevista à RR e ao Público, frisou mesmo que “neste momento estamos pendurados em coisas muito ténues”. Segundo o responsável pelo Fórum para a Competitividade, o Orçamento do Estado para 2017 tem “várias coisas más” para atrair mais investimento.

Ferraz da Costa acrescenta que o Governo “não inspira confiança nenhuma a uma grande parte dos potenciais investidores” uma vez que “estamos com níveis de poupança muito baixos”. Para captar investimento, o presidente do Fórum para a Competitividade defende que é necessário realizar “acordos suficientemente formais” que permitam estabilidade. Enfim, tudo o que Portugal da era da geringonça não oferece.

Também o ex-ministro socialista Daniel Bessa veio deixar sérios avisos, afirmando mesmo que poderá haver o risco de Portugal sofrer um novo resgate, e que o fundamental é criar estratégias que reduzam a probabilidade de isso acontecer. Em entrevista dada ao jornal Eco Daniel Bessa afirma que este é um assunto daqueles “que é melhor não falar”, sublinhando que é de grande sensibilidade. Uma posição que curiosamente contrasta com as suas próprias declarações sobre o risco de um novo resgate para Portugal.

Mais do que o Orçamento para 2017, o economista socialista avisa que o maior problema na consolidação orçamental pode acontecer em 2018, o primeiro ano em que o Governo não poderá contar com qualquer receita da sobretaxa de IRS, que terá uma eliminação faseada ao longo do próximo ano.

Daniel Bessa desvaloriza ainda a passagem do controlo dos bancos nacionais para investidores estrangeiros. “A mudança de capital ocorre basicamente por falta de capital e, depois, por processos de gestão em que o capital que havia se perdeu”.

O ex-ministro socialista realça ainda que os investidores portugueses não foram a jogo porque não tinham dinheiro e conclui que “com estrangeiros tenho banca, com nacionais aparentemente não teria”.

Costa foi à China testar novo rumo

A recente visita de António Costa à China foi já uma forma de se testar este novo rumo de se olhar para o investimento e para as exportações. O primeiro-ministro regressou aos modelos de diplomacia económica, desenvolvidos durante o anterior executivo PDSD/CDS-PP, e apostou na captação de investimento estrangeiro, tentando atrair para Portugal a Huawei, um gigante que se dedica às tecnologias de informação e comunicação, e que está neste momento a aumentar a sua quota em telemóveis e tablets.

António Costa tentou que os investidores chineses olhassem para as virtualidades dos nossos Portos, designadamente o de Sines, que é de águas profundas, e que equacionassem uma aposta na indústria, criando unidades de raiz, e não apenas adquirindo unidades já instaladas.

Até ao momento, o investimento chinês em Portugal acabou por se resumir à compra de capital de grandes empresas, como a EDP ou o Haitong Bank, o antigo Banco BES Investimento. Na prática, os investidores chineses aproveitaram de alguma forma os preços baixos e atraentes desses activos – que perderam valor durante os anos da crise que colocou Portugal debaixo de um resgate financeiro – para comprar algumas das grandes empresas portuguesas. O mesmo se pode dizer em relação aos imóveis de valor acima dos 500 mil euros, que dão acesso aos chamados ‘vistos gold’, que muitos particulares chineses de rendimentos mais elevados compraram, já que assim asseguram o direito de residência em Portugal, e dessa forma adquirem igualmente o acesso a todo o espaço europeu. Eram casas que estavam já construídas; na maioria dos casos, tratou-se de escoar ‘stocks’ que em muitos casos estavam nas carteiras dos bancos.

Esta visita do primeiro-ministro português aconteceu numa fase em que Portugal vem perdendo quotas de exportação para a China, pelo que António Costa tentou fazer diligências diplomáticas para tentar estancar o fenómeno. Isto apesar de se saber que a queda das exportações está relacionada com a falta de competitividade das empresas portuguesas, e que na hora de comprar o que interessa é verdadeiramente o preço.

Também a banca esteve na agenda deste regresso à diplomacia económica agora na era do Executivo PS, e António Costa teve contactos com investidores que podem entrar no capital de alguma das instituições financeiras. Recorde-se que o Novo Banco, e em certa medida o próprio BCP, precisam de ter uma solução robusta e, tal como diz Daniel Bessa, não existem investidores nacionais com dinheiro para tal.

Só no futuro se conseguirá avaliar se esta visita de Estado à China deu frutos, se as exportações portuguesas crescem, e se Portugal consegue captar capitais chineses para novos investimentos de raiz.

Diplomacia económica

Na mesma linha de diplomacia económica da era socialista, António Costa vai visitar, já em Janeiro, a Índia, outro país que é um gigante da economia mundial. A captação de investimento é o grande ponto na agenda, com o primeiro-ministro a considerar que as suas origens goesas lhe podem facilitar os contactos num país onde a história conta muito.

Neste novo cenário, o papel do ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, terá de ser bastante mais activo ou deixará de fazer sentido a sua presença no Governo. Caldeira Cabral aparece hoje como um dos remodeláveis numa futura mexida que Costa queira fazer no seu Governo.

Isso mesmo reconheceu Luís Marques Mendes que, falando numa conferência com o título “Portugal em exame”, assumiu mais o seu papel de comentador do que de Conselheiro de Estado, para afirmar que o actual ministro da Economia não vai continuar muito tempo no cargo, sendo substituído, em breve, por alguém com perfil “mais político”.

Na sua análise à proposta do Orçamento do Estado para 2017, Marques Mendes defendeu que o documento devia ser “mais virado para a Economia”, referindo que o primeiro-ministro, António Costa, se dedicará mais às empresas, como já está a acontecer nas viagens programadas ao exterior.

Em suma, a nova estratégia de se apostar no investimento e nas exportações tem algumas facilidades conjunturais, como a queda do euro face ao dólar, que torna os preços dos bens e serviços dos países da Moeda Única mais baixos, o que poderá ajudar nas vendas de Portugal para fora da Europa. Mas a pedra de toque para os investidores é a confiança no País, e essa não está assegurada.

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JOSÉ FIGUEIREDO

Professor universitário

A desigualdade de rendimentos é talvez o tema mais relevante na política a nível internacional, tanto nos países mais desenvolvidos como nos subdesenvolvidos.

Também em Portugal, a luta política foca-se invariavelmente à volta de um aumento de mais ou menos 10 euros no salário mínimo nacional. Os empregados vão-se alimentando do sonho de mais uns trocos no bolso. O patronato vai fazendo as contas que conduzam a mais despedimentos ou até mesmo ao eventual fecho da loja.

Verificamos que cerca de 1/4 da população portuguesa era pobre em 2012. E o que significa ser pobre? Basicamente, significa possuir um rendimento mensal inferior a 469 euros (em 2012).

Esta realidade é dura, mas tem que ser assumida como tal. Mais de 40 anos após o 25 de Abril de 1974, Portugal continua muito longe de atingir um patamar de rendimentos ao nível do pelotão da frente da OCDE. Ainda assim, Portugal continua muito à frente dos rendimentos do Terceiro Mundo.

Contudo, verificamos que a situação da pobreza se agravou após a intervenção externa da Troika. Isto é, a taxa de pobreza aumentou mais de 6%, entre 2009 e 2012.

  • Leia este artigo na íntegra na edição impressa desta semana.

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MIGUEL MATTOS CHAVES

Os Povos aguentam tudo durante um certo tempo, mas não aguentam tudo todo o tempo, e muito menos aguentam muito tempo que entidades estranhas lhes dêem ordens ou lhes digam como se hão-de auto-governar. No segundo caso, que nos afecta directamente, sou forçado a chegar à conclusão de que o projecto de Cooperação e União para a Paz e o Progresso, gizado pela maioria dos Fundadores, foi desvirtuado, com prejuízo evidente para o conjunto dos países da Comunidade.

Não posso deixar de lamentar esta realidade, como defensor que sou da linha Intergovernamental, isto é, de uma União de Cooperação Europeia entre Nações Soberanas, na linha de De Gaulle, De Gasteri, Adenauer, Spaak e de outros eminentes fundadores, que ajude a Europa a manter-se em Paz e no caminho do Progresso.

Clarificando então o tema. Comecemos pelo projecto dos Pais Fundadores, pela maioria deles, que decidiram e acordaram em construir um projecto de cooperação entre as Nações/Povos do continente, que evitasse futuras guerras europeias.

A receita era simples:

  • Começar por unir nesse projecto os países do centro europeu e ir estendendo-o a outros países, quando as condições políticas o permitissem e aconselhassem.
  • Neles instituir a liberdade de circulação de pessoas e bens, a liberdade de estabelecimento e posteriormente a liberdade de prestação de serviços.
  • A estas quatro liberdades, que ajudariam a cimentar um maior relacionamento entre os vários Povos (as várias Nações) que habitam o continente, juntar-se-ia a formação de um Mercado Único, destinado a facilitar as transacções de produtos e serviços no espaço europeu.
  • Pretendiam que esta aliança mantivesse as Nações, e os Estados que as representam, interessadas pelo factor económico e de prosperidade que esse projecto progressivamente iria proporcionar.

E o Tratado (de Roma) Fundador da Europa unida foi um acordo que previa e estabelecia as regras para que este projecto fosse construído. Nele não se estabelecia nenhuma cedência da Soberania dos Estados ou de minimização da Independência das Nações. Os ideólogos e os negociadores do Tratado de Roma sabiam que a Independência de uma Nação se faz pela construção do maior número de interdependências possível, ou de alianças, que assegurem um bom relacionamento entre Povos, entre Nações. Isto pela simples razão de que os países sempre precisaram de trocar uns com os outros produtos e serviços, como condição fundamental para a sua própria sobrevivência.

O propósito era que uma aliança deste tipo iria aprofundar e solidificar essas interdependências, essas relações entre os vários países, que passariam assim a ter todo o interesse em mantê-la, ao mesmo tempo que não se coarctava o direito a que cada um estabelecesse as relações com povos/nações europeias, ou extra-europeias, se o entendesse necessário e útil para o seu próprio progresso. Sabiam, porque eram cultos e tinham estudado História, que a Europa é um espaço habitado por vários Povos que lutaram entre si, ao longo de séculos, pelo direito à sua autodeterminação. Sabiam igualmente que as diversas Nações/Povos da Europa lutaram, ao longo de séculos, pelo seu direito ao auto-governo – numa palavra, à sua independência política –, o que lhes dava o direito de criarem, eles próprios, as suas hierarquias de autoridade política que os governassem e os representassem no sistema internacional.

  • Leia este artigo na íntegra na edição impressa desta semana.

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JOSÉ FIGUEIREDO

Professor Universitário

Portugal perdeu 8 lugares no “campeonato” global da competitividade, segundo o último relatório do World Economic Forum. O nosso desempenho competitivo aproxima-se cada vez mais do Brasil e da Grécia.

Num mundo globalizado e interligado pela Internet, a boa percepção que se tem das organizações ou dos países é vital, para que se possam afirmar e distinguir de forma positiva.

Por exemplo, desde que Portugal é governado por uma maioria parlamentar que congrega a Esquerda moderada e a Esquerda radical, os mercados financeiros vão atribuindo a Portugal uma percepção de risco mais elevado, que se tem consumado em ‘yields’ da dívida pública a 10 anos, mais elevados.

Recentemente, o World Economic Forum publicou o Relatório de Competitividade Global, referente ao período de 2016-17. Esta organização não governamental é sediada na Suíça, e é famosa pelo facto de organizar anualmente os encontros económicos de Davos.
Verificamos que não há grande alteração relativamente aos 10 países mais competitivos do mundo, entre 2016-17 e 2015-16. Curiosamente, mantêm-se no topo da competitividade global países pequenos, como a Suíça, Singapura, Hong Kong e a Finlândia. Mas alguns países grandes também conseguem ser muito competitivos, como por exemplo os Estados Unidos da América, a Alemanha, o Reino Unido e o Japão.

Portugal regista uma das maiores quedas no ‘ranking’ da competitividade, perdendo 8 lugares.

  • Leia este artigo na íntegra na edição impressa desta semana.

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