Internacional

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Não são uma causa mediática para os meios “bem-pensantes” do politicamente correcto do Ocidente, mas os cristãos voltaram a ser em 2016 as pessoas mais perseguidas do planeta. Esmagados entre a agressividade do Islão político e a violência do comunismo ressurgente, os seguidores de Cristo por esse mundo tampouco encontram consolo e amparo no Ocidente, que ignora quase totalmente o seu sofrimento.

O centenário das aparições de Fátima aproxima-se e o mundo cristão mobiliza-se para comparecer nas celebrações. No entanto, nem nos tempos da Roma pagã ou no auge do comunismo estalinista a perseguição aos cristãos atingiu os níveis de hoje.

O recente atentado contra uma igreja no Egipto, no qual morreram 44 cristãos, é apenas mais um exemplo da perseguição constante aos milhões de fiéis que vivem fora do Ocidente. Para os cristãos que praticam a sua religião fora da Europa e da América, a Páscoa é sempre um período de ansiedade, visto que os extremistas islâmicos se habituaram a marcar a festa maior do Cristianismo com ataques sangrentos a locais de culto.

A Igreja Católica, as várias Igrejas Protestantes, as Nações Unidas e muitas organizações de acompanhamento alertam para a realidade da perseguição e violência de que são alvo os cristãos no mundo há muitos anos.

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LUÍS MIRA AMARAL

Engenheiro (IST), Economista, Professor Catedrático

Ministro do Trabalho e Segurança Social e da Indústria e Energia nos X, XI e XII Governos Constitucionais

O resultado do referendo sobre a permanência do Reino Unido (RU) na União Europeia (UE), levando ao “Brexit”, surpreendeu os meios económico-financeiros, provocando a depreciação da Libra e uma elevada volatilidade nos mercados financeiros, com correcções significativas dos activos de risco e consequentes valorizações dos activos de refúgio, tais como a dívida pública americana, a dívida dos países europeus do centro e ainda do ouro.

Apesar dessas fortes quedas nos primeiros momentos, os activos de risco acabaram por recuperar, para o que contribuiu em parte o suporte dos Bancos Centrais, designadamente Banco de Inglaterra (BOE) e BCE. No que toca aos mercados emergentes (EMs), espera-se também maior flexibilidade dos Bancos Centrais para acomodarem o choque, e isso é evidente na Reserva Federal Americana com a redução ou abrandamento do ciclo de subidas das taxas de juro que tinha começado, aliviando assim a pressão para a valorização do dólar. Neste contexto, os investidores tinham fugido das moedas ligadas aos emergentes e refugiaram-se em moedas como a norte-americana.

A estratégia suicida de David Cameron e a City de Londres

Nas últimas eleições gerais, que ganhou com maioria absoluta, o que lhe permitiu dispensar os liberais como “junior partner” no Executivo, Cameron, para calar a ala direita dos “Tories” e os adeptos do “Leave” liderados por Boris Johnson, o ex-mayor de Londres, prometeu o referendo.

Como seria de esperar, a demagogia campeou na campanha, ameaçando os adeptos do “Leave” com a entrada duns milhões de turcos e dizendo que a contribuição do RU para a UE permitia financiar facilmente o Serviço Nacional de Saúde (NHS).

O espantalho dessa emigração maciça, agitada demagogicamente, deve ter contribuído, e muito, para o resultado.

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José Figueiredo

Professor Universitário

Porque não será antes possível fazer melhorar as condições de vida locais dos povos do Médio Oriente e do Norte de África, para assim evitar a contínua mudança do mosaico cultural europeu?

A temática da imigração tem assolado a Europa ao longo dos últimos anos. No passado já longínquo, a Europa foi sobretudo uma zona de expedição de emigrantes, em particular para o Novo Mundo, nas Américas, mas também para África. Após a II Guerra Mundial, a Europa Central passou a ser receptor de fluxos de imigração, em particular dos países europeus mais pobres, como Portugal e Espanha.

Depois, na sequência das descolonizações ultramarinas, começaram a afluir à Europa imigrantes oriundos da Argélia, do Marrocos, assim como da Nigéria, de Cabo-Verde, ou ainda da Índia, do Paquistão e da Jamaica.

Esta imigração das antigas colónias europeias resultava basicamente de quatro factores:

  1. A Europa era atractiva sob ponto de vista económico, para os imigrantes;
  2. A relação e a ligação cultural entre povos (antigos colonizadores e colonos) ajudava a uma maior interligação;
  3. A as antigas colónias não conseguiram ser suficientemente bem-sucedidas, de modo a manterem os seus cidadãos nas suas terras;
  4. A Europa necessitava de trabalho com um custo mais baixo, numa época em que os cidadãos europeus se recusavam a aceitar profissões menos qualificadas e menos bem pagas.
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Brandão Ferreira

“Muito honrado Capitão Paxá, bem vi as palavras da tua carta. Se em Rhodes tivessem estado os cavaleiros que estão aqui neste curral podes crer que não a terias tomado. Fica a saber que aqui estão portugueses acostumados a matar muitos mouros e têm por Capitão António da Silveira, que tem um par de tomates mais fortes que as balas dos teus canhões e que todos os portugueses aqui têm tomates e não temem quem não os tenha!” (Gaspar Correia, “Crónica dos Feitos da Índia”, Vol. IV, pág. 34-36).

Esta foi a resposta que deu António da Silveira, Capitão de Diu, à carta que Suleimão Paxá, Comandante turco (que era eunuco), que com 70 galés e 23.000 homens cercava a cidade, defendida por 600 portugueses.

Nessa carta, Suleimão prometia livre saída de pessoas e bens, desde que entregassem a fortaleza e as armas. E prometia esfolar vivos todos os que não o fizessem, gabando-se de ter com ele muitos guerreiros que ajudaram na conquista de Belgrado, a Hungria e a Ilha de Rhodes. Perguntava no fim a Silveira, como se iria defender num “curral com tão pouco gado!”

Recep Tayyip Erdogan, 63 anos, é o Chefe de Estado de um país chamado Turquia, membro da NATO, aspirante frustrado a membro da UE e herdeiro de um dos mais temíveis impérios existentes à face da terra, no segundo milénio da era de Nosso Senhor Jesus Cristo. Império que ganhou projecção mundial após conquistar Constantinopla em 1453, data que marca o fim do Império Romano do Oriente e tida como marco inicial para o que se convencionou chamar “Idade Moderna”.

O Império Otomano (1299-1923), que tinha o seu núcleo original no Planalto da Anatólia, quis expandir-se em todas as direcções, nomeadamente para Oeste, tendo progredido perigosamente no Norte de África, nos Balcãs e no Mediterrâneo Oriental. Este império foi finalmente sustido no Norte de África, quando já estava em Argel (porventura a maior motivação para D. Sebastião ter querido ir a Larache, principal objectivo a preservar e que não incluía a surtida que acabou tragicamente em Alcácer Quibir); no Mediterrâneo Oriental foram derrotados na batalha naval de Lepanto, em 1571, mas nunca se conformaram. Note-se que foi graças à esquadra portuguesa que foram batidos novamente em Matapão, em 19 de Julho de 1717, faz este ano 300 anos.

Finalmente progrediram nos Balcãs, em direcção à Europa Central, até efectuarem dois terríveis cercos a Viena, coração do Império Austro-Húngaro, dos Habsburgo, em 1529 e 1683, data em que foram inexoravelmente derrotados.

O “croissant”, massa folhada em forma de “crescente vermelho”, que se passou a comer ao pequeno-almoço e ao lanche, aí está a ilustrar a vitória. Ou seja, cada vez que se come um “croissant”, quer dizer que se “come” um turco ao pequeno-almoço… É possível que os turcos, desde então, não achem graça à coisa.

No fim da I Guerra Mundial, a Dinastia Otomana desapareceu e o seu império desagregou-se, tendo grande parte dos seus territórios ficado debaixo do controlo de potências ocidentais vencedoras da guerra, sob mandato da então Sociedade das Nações, nomeadamente a França e a Inglaterra. Mais tarde, a maioria destes territórios veio a adquirir, sucessivamente, a independência. A criação do Estado de Israel, em 1948, veio baralhar e complicar ainda mais a complexa geopolítica da região.

Em 1923, o General Mustafá Kemal Atatürk assumiu o cargo de primeiro Presidente da República da Turquia, até à sua morte em 10/11/1938, e transformou o país num estado laico, onde os militares tinham um peso desproporcionado. A necessidade de conter a URSS no início da Guerra-Fria, no fim da Segunda Guerra Mundial, e arranjar um Estado-tampão no Cáucaso e Oriente Médio, fez com que a Turquia fosse convidada a aderir à NATO, o que aconteceu em 1952.

A Turquia, apesar de tudo, dos problemas internos – onde se destaca a questão curda – e dos ódios figadais e seculares (por vezes milenares) entre todos os povos daquela região, teve um papel mais estabilizador do que o contrário. Seria ocioso explicitar tudo o que se passou. A Turquia tirou partido da sua participação na NATO (onde a quezília secular com a Grécia, agravada pelo conflito cipriota, constituiu sempre uma dor de cabeça para a Aliança – e agora é também para a UE), recebeu armamento moderno, acesso a tácticas, doutrinas e logística, e permitiu trocas comerciais com os países do Ocidente, facilitando a emigração de largas massas de turcos e curdos para a Europa. O ovo da serpente começou a crescer desmesuradamente… E pertencer à NATO ajudava a conter um dos seus ancestrais inimigos, o Império Russo!

Quando Erdogan chega a Chefe do Governo (2003-2014) e a Presidente, logo de seguida, tudo muda: cada vez há maior oposição na UE, nomeadamente em França (melhor dizendo, no Grande Oriente Francês…) relativamente à entrada da Turquia na UE. Chegaram, inclusive, ao ponto de assumir como “dogma de fé” que na Arménia tinha havido um genocídio de cristãos, feito pelos otomanos, entre 1915 e 1923, onde se estimam tenham perecido entre 800.000 e 1.800.000 pessoas (o que por acaso até é verdade). Ankara, obviamente estrebuchou.

Erdogan – que em 1994 proferiu uma frase algo premonitória, “a Democracia é um comboio: quando se chega ao nosso destino, saímos” – começou paulatinamente a por de lado a herança de Atatürk e a retirar poderes aos militares. A seguir entrou numa deriva islamita, torpedeando o laicismo e aproximando-se de tudo o que preconiza o Corão. Finalmente envolveu-se no conflito sírio e ficou submerso de refugiados.

Em 15/7/2016 deu-se um estranhíssimo caso de tentativa de golpe de Estado. O que se passou parece um decalque do “11 de Março de 75” português. Erdogan não perde tempo e parte à perseguição dos seus opositores. Prendeu-os e “saneou-os”, às dezenas de milhar, e insiste para que os EUA extraditem um conterrâneo seu (de que ninguém ouvira falar até então) como suposto cabecilha do frustrado golpe de estado. O homem – Fethullah Gülen – ainda vive nos EUA, mas as principais potências ficaram quedas e mudas, a olharem para ontem, sem saberem o que fazer ou dizer.

Erdogan tarda, mas arrecada. Com estes trunfos na mão, embala para mudar a Constituição, a fim de reforçar o seu poder. Pelos vistos, a eternizar-se nele. Estamos pois em vista de um potencial “Califa”, que a seu tempo ocupará o palácio de Topkapi. Só falta organizar o Serralho e o Regimento de Janízaros.

Porém, para obter estes poderes, necessita de votos para um referendo que quer fazer, prestes. Os turcos existentes nos seus domínios não lhe chegam e pretende catequizar a diáspora. E não se fez rogado: país onde houvesse comunidade que valesse a pena influenciar, seria “invadido” por comparsas seus, a começar por membros do seu próprio Governo! Não sabemos exactamente o modo como informou os Governos dos países visados ou sequer se se deu ao trabalho de o fazer; queria ir e pronto!

Quando os Governos e as opiniões públicas de alguns dos países europeus visados souberam da trama, dispuseram-se a contestar tais desejos/ordens. O que espoletou a ira do putativo otomano e foi um ver se te avias de guerra de palavras, ameaças e despautérios. O que encontra amplos antecedentes nos devaneios democráticos e cobardia dos países europeus e da UE, a que têm o despautério de apelidar de “superioridade moral da democracia”! Chamam-lhe um figo…

Os países europeus reagiram individualmente, de um modo frouxo, cobardolas e apaziguador, o que denota o estado de degenerescência política, social e anímica em que a Europa se encontra (para já não falar na incapacidade militar, que é consequência daquelas…). A UE como tal, não reagiu e por cá ouviram-se umas frases de circunstância circunspecta. Ou seja, os europeus viraram uns verdadeiros eunucos…

Entretanto, o grão-turco profere ameaças e manda, filantropicamente – só pode – as famílias turcas emigradas terem cinco filhos. Compreende-se: enquanto não têm balas, disparam rebentos.

Como fazem cá falta os tomates do Capitão António da Silveira e dos cavaleiros que estavam com ele em Diu!

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MIGUEL MATTOS CHAVES

É tempo de ser o mais claro possível e dizer às pessoas o que está em causa com a velha discussão sobre o Modelo de Organização Europeu, para que cada um decida por si próprio o que quer defender.

Quem é Europeu convicto (ou seja, a favor da Europa unida)?

Actualmente existem três modelos, três grupos de opinião:

  1. – Os que defendem a Europa das Nações Soberanas, a Europa intergovernamental;
  2. – Os que defendem a Europa Federal, os da Integração Europeia;
  3. – Os que defendem a Europa a duas ou mais velocidades.

Todas as pessoas que integram estes três grupos são europeístas convictas, todos estes grupos de opinião são europeístas.

Quem é contra a Europa unida? Dois grupos são contra esta União europeia: 4º- Os que rejeitam esta U.E. capitalista pois queriam ver, em sua substituição, uma Europa comunista; e 5º- Um outro grupo, que são os denominados “Eurocépticos”. Estes, ou por desconhecerem os modelos diversos dos europeístas, acima enunciados, ou por opção de pensamento, têm grandes dúvidas sobre a bondade, sobretudo, da Europa Federal, a da Integração.

Nota: que fique muito claro o que acima se disse. Estes são os factos. O resto do que se tem dito denota ou uma pura e grave ignorância ou, pior do que isso, uma gravíssima má-fé e um desrespeito total pela informação e formação a que todos os portugueses devem ter direito.

Acresce que todos estes grupos de pensamento são legítimos, pois todas as pessoas têm o direito a pensar e a defender o que entendem. A não ser assim, não me falem em democracia.

Antes de descrever cada um dos cinco grupos de pensamento, desvendo já a minha preferência, ou seja, aquele que é o modelo que eu defendo:

Como o venho dizendo desde 1990, defendo o 1º grupo, ou seja, o grupo dos que defendem a Europa das Nações. A União de países, voluntária, unidos na Paz e no Progresso, mas sem qualquer transferência ou alienação dos direitos Soberanos dos Estados Nacionais.

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Miguel Mattos Chaves

A Comissão Europeia, por iniciativa do seu Presidente, Jean-Claude Juncker, apresentou um documento denominado “Livro Branco da Comissão Europeia sobre o futuro da Europa”. Analisemos as cinco propostas nele contidas, antecipando a participação de todos quantos queiram dar a sua opinião, séria e fundamentada, numa troca de pontos de vista informativa e que contribua para o verdadeiro esclarecimento dos portugueses. Por nós, está aberto este vital debate público!

Nas vésperas da Cimeira dos Chefes de Estado e do Governo que se reunirá em Roma no próximo dia 25 de Março, destinada a celebrar o 60º aniversário da assinatura do Tratado de Roma, o tratado fundador das Comunidades Europeias, hoje União Europeia, a Comissão decidiu relançar o debate sobre o futuro da União.

Neste documento, a Comissão propõe cinco cenários para o futuro da União dos países europeus, agora a 27 com a saída do Reino Unido, no que se refere ao Modelo de Organização.

Este livro é apresentado como “uma contribuição da Comissão” e destina-se a proporcionar a abertura de uma discussão pública e alargada, sobre qual o Modelo de União que os Estados deverão adoptar para enfrentar o futuro, no seio das populações dos Estados-membros.

Cabe ao nosso semanário contribuir para informar devidamente os cidadãos de Portugal sobre o conteúdo do “Livro Branco”, e sobretudo sobre as propostas concretas nele contidas, de forma a que os nossos leitores, suas famílias, seu amigos, ou colegas de trabalho, possam saber em concreto, sem os famigerados “filtros”, o que está em causa.

Tratamos os nossos leitores como Seres Humanos inteligentes e capazes de ler e de perceber o que se propõe. Não os tratamos como outros órgãos, que afirmam que os portugueses não percebem nada sobre este tema.

Vamos então ao documento propriamente dito.

Como introdução Jean-Claude Juncker afirmou: “Há sessenta anos, os Pais Fundadores da Europa escolheram unir o continente mais pela força da lei do que pela força das armas. Podemos estar orgulhosos do que conseguimos até hoje”. E mais adiante: “Na celebração do 60º aniversário do Tratado de Roma, é tempo de uma união da Europa a 27 determinar qual a forma para o seu futuro”, acrescentando ainda que “o Livro Branco da Comissão apresenta uma série de diferentes formas, que deverão ser escolhidas pelos 27 Estados. É o princípio do processo, não o fim, e espero que agora tenha lugar um honesto e alargado debate”. E Juncker termina o seu discurso com a frase “temos o futuro da Europa nas nossas mãos”.

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FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA

Embaixador

O Ocidente enfrenta hoje uma crise de refugiados por culpa, não de Bashar al-Assad, mas de quem “decretou” em 2011 que Assad tinha de ser derrubado. Barack Obama declarou-o inequivocamente em 18 de Agosto desse ano. Tratou-se de uma ideia idiota, tão idiota quanto o foram os desastrosos derrubes de Muammar al-Qaddafi, na Líbia, em 2011, e de Saddam Hussein, no Iraque, em 2003. E estamos, ainda hoje, a viver com as consequências. Quanto aos refugiados, rejeito o conceito de que a Europa tem de integrá-los. Não, não tem. Estes têm, isso sim, de obter garantias quanto à sua segurança, têm de ser alimentados, tratados e escolarizados, mas, no essencial, devem ser preparados para regressarem à Síria tão rapidamente quanto possível.

Concentrarmo-nos no problema da Síria e dos refugiados esquecendo-nos do quadro geopolítico global em que estas duas questões conexas se desenvolvem – o Médio Oriente – só o podemos fazer por mera abstracção e sem correspondência com a realidade.

Com efeito, o Estado Islâmico, considerado por muitos como artificial, mas com os atributos reais de Estado (território, população, administração, forças armadas, finanças e, inclusive, cunhagem de moeda própria), apesar de variáveis, é o verdadeiro epicentro regional e, por conseguinte, um actor incontornável.

Podemos considerar que o Estado Islâmico (Daesh) está em recuo, o que não quer por forma alguma dizer que a respectiva erradicação esteja iminente ou seja sequer previsível num horizonte temporal próximo, muito embora tudo aponte para que, a prazo (quem sabe se, ainda, no ano em curso), a queda seja inevitável. Todavia, as metástases, espalhadas um pouco por toda a parte, não desaparecerão facilmente.

Enfim, o fim do Daesh depende das circunstâncias e das quatro potências que contam na região: a Turquia, o Irão, a Arábia Saudita e Israel. Os grandes actores são sem dúvida os dois primeiros, que assumirão um papel de primeira linha ao longo deste ano. Até porque os EUA e a Rússia presumivelmente vão querer sair de cena, de uma forma ou de outra.

Essencialmente, está-se perante um problema do Médio Oriente e, nesse entendimento, o palco fica reservado para os actores locais, designadamente para a Turquia sunita e para o Irão xiita – os qualificativos não são indiferentes. Ambos irão competir na guerra da Síria, até porque têm interesses específicos no respectivo desfecho.

A Turquia vai concentrar-se no seu objectivo principal, o combate aos curdos sírios que lhe são hostis, e só secundariamente nos ataques ao Estado Islâmico. Concentrará os seus esforços de guerra no Norte da Síria, evitando confrontar a Rússia e o Irão.

O Irão, por afinidades político-religiosas, irá empenhar-se na defesa do regime de Assad, na consolidação dos ganhos que já alcançou no terreno e na futura reconstrução do país, em que a Rússia e a China desempenharão, presumivelmente, um papel secundário.

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Activistas radicais, indignados profissionais e artistas “politicamente correctos” continuam a fazer manchetes, mas um olhar mais cuidadoso e atento revela-nos que as maiorias silenciosas continuam a apoiar a firmeza de Trump e a saída do Reino Unido da União Europeia. Apesar do ruído, os principais partidos políticos de ambos os países mantêm-se no caminho escolhido, demonstrando que as suas bases de apoio são muito maiores do que a “narrativa” dominante indica.

As primeiras duas semanas do mandato de Donald Trump como Presidente dos EUA foram agitadas. Enormes manifestações varreram o país, decretos executivos foram emitidos e logo anulados por juízes inconformados com a reviravolta decidida democraticamente, nas urnas, pelos eleitores norte-americanos. Como de costume, certas “sondagens” apontam Trump como “um dos líderes mais impopulares de sempre” e já há quem se ponha a congeminar meios de remover Trump do cargo para que foi eleito. E, no entanto, o Partido Republicano mantém-se maioritariamente firme no rumo traçado e a sua base social de apoio permanece leal a Donald Trump, apesar das muitas previsões em contrário.

Similarmente, a acreditar nas notícias vindas de Londres e arredores, o “brexit” estaria em vias de fracassar devido a “arrependimentos” e mudanças de atitude entre os deputados da Casa dos Comuns: a votação parlamentar – dizia-se – estava a inclinar-se vertiginosamente para revogar no Parlamento o “não” obrido no referendo. E, no entanto, a Câmara dos Comuns acabou por aprovar calmamente o início do “brexit” por uma maioria esmagadora de deputados: 498 votos a favor, 114 contra. Até metade do principal partido da oposição votou a favor da decisão do Governo. E, apesar da corrente desinformação sobre hipotéticas “dissidências” dentro do partido do Governo, apenas um deputado conservador desafiou a decisão de Theresa May de respeitar a vontade popular.

Sem qualquer julgamento político ou moral sobre as políticas de Trump ou do brexit (essa posição cabe ao estimado leitor), o que continua a ser largamente ignorado é que, para todos os efeitos, os principais partidos políticos apoiam os rumos escolhidos no Reino Unido e nos Estados Unidos, mantendo-se claramente mais populares do que a “narrativa” dominante dá a entender e tornando a derrota de ambos muito improvável nos próximos anos.

Estudos há muitos…

As “sondagens” de opinião sobre a popularidade de Trump que têm feito parangonas, ao contrário do que foi noticiado pela imprensa portuguesa, estão longe de ser unânimes. Entre os principais estudos de opinião chega a haver discrepâncias de 16 por cento. Organizações como a CNN ou a Gallup dizem que 53 por cento dos americanos “não aprovam” a presidência de Trump e apenas 44 por cento aprovam. Um estudo do semanário “The Economist” aponta para um empate. E tanto o jornal “Político” como a empresa “Rasmussen Reports” indicam que mais americanos aprovam a liderança de Donald Trump do que desaprovam.

Existem sinais de alguma pressão social e mediática sobre os apoiantes de Donald Trump. As sondagens realizadas directamente por entrevistadores tendem a ser desfavoráveis ao Presidente, enquanto as sondagens anónimas tendem a ser pró-Trump. Divergências deste género também se manifestaram antes do referendo à permanência do Reino Unido na União Europeia, tendendo o anonimato a favorecer a opção “sair”, que acabou por ser a vencedora.

Estas oscilações de resultados também se manifestam na popularidade das políticas de Trump, pois embora o actual Presidente possa ser uma figura na qual muitos eleitores não se revêem pessoalmente, as suas políticas são populares. Neste aspecto, Trump é o reverso da medalha do seu antecessor, Barack Obama. Embora os americanos gostassem do carismático 44º Presidente, a maioria estava contra as suas políticas. Mais de metade dos americanos esteve contra a decisão de Obama de aceitar mais refugiados sírios, mais de metade era contra as suas decisões em termos de política externa, e a controversa “Obamacare”, que fez as despesas de saúde disparar para a classe média, nunca foi popular e nunca teve o apoio de mais de metade dos cidadãos dos EUA. Em contrapartida, a vasta maioria dos americanos aprova a decisão de Trump de dar continuidade ao gigantesco oleoduto “Keystone”, e várias sondagens indicam que a maioria dos americanos é a favor do controverso decreto de restrição de imigração que tanta celeuma causou.

Segundo um estudo do “YouGov” feito para o website “Huffington Post” (assumidamente anti-Trump), 95 por cento das pessoas que votaram em Donald Trump aprovam a sua controversa ordem executiva sobre a imigração, enquanto a Reuters denota que 82 por cento dos militantes do Partido Republicano e um quarto dos militantes do Partido Democrático são a favor da actual política.

Eleições é que contam

Estes números, provavelmente, dão alento ao actual inquilino da Casa Branca e explicam a lealdade do Partido Republicano, pois as eleições é que contam para determinar os destinos de um país, não os protestos e as manifestações. Nesse aspecto, em ambos os lados do Atlântico a classe política alinha-se atrás de quem lhe dá mais garantias de vencer os sufrágios eleitorais.

Os americanos vão novamente às urnas em 2018, visto que cada legislatura do Congresso apenas tem a duração de dois anos. Para anularem a Presidência de Trump, ou até mesmo para o retirar do poder, os democratas teriam de reconquistar o controlo de ambas as Câmaras. No entanto, os números estão contra o partido face à muito maior extensão do apoio às propostas políticas de Trump e dos republicanos. Ao contrário de Portugal, onde os deputados são eleitos segundo o partido a que pertencem, nos EUA as eleições são directas, e existe uma ligação directa entre o inquilino da Casa Branca e a eleição dos deputados que o apoiam ou não.

Neste momento, o apoio a Trump e às suas propostas é elevado em 238 círculos eleitorais, enquanto o apoio aos democratas apenas se revelou expressivo em 182 círculos, revela um estudo recente da revista “The Atlantic”. Estes números são consistentes com a actual dispersão de assentos na Câmara dos Representantes. Denote-se também que os estudos que dão maior popularidade a Trump são aqueles que analisam “eleitores prováveis” e não apenas fatias generalistas da sociedade. Tipicamente, o eleitorado de Trump e dos republicanos tende a ser mais assíduo nas urnas, e mais participativo na comunidade política local, especialmente nas eleições intercalares. O eleitorado democrata tende a “motivar-se” apenas ocasionalmente, e os activistas tendem a ser abstencionistas, ou a apoiar partidos marginais, sem hipótese de vencer eleições.

Apesar do elemento visual dos protestos, em termos práticos a oposição parlamentar ao actual Presidente é minoritária e impopular entre os americanos comuns, e não existem certezas que consigam convencer muitos dos actuais manifestantes a dirigir-se às urnas em 2018. Mais do que genuíno apoio ideológico a Trump, muitos republicanos reconhecem que precisam do actual Presidente e da sua popularidade para manterem a sua maioria parlamentar, para continuarem a governar os destinos do país.

No Reino Unido, a situação é similar: 74 por cento dos parlamentares britânicos eram favoráveis à permanência na União Europeia, mas depois do referendo a maioria mudou de rumo, isso porque apenas 39 por cento (uma pequena minoria dos assentos parlamentares) se encontram em círculos onde o “permanecer” venceu. O maior partido da oposição, os trabalhistas, tem metade dos seus deputados em círculos industriais onde a aversão à UE é significativa, e ao mesmo tempo a outra metade nos círculos urbanos onde o apoio à UE é quase religioso, o que significa que a sua oposição aos planos de Theresa May é errática e inoperante. Entre os outros dois partidos pró-UE, um representa os nacionalistas escoceses, que não concorrem em mais de 50 assentos, e os outros são os liberais democratas que, apesar de manterem uma forte presença mediática, só têm oito assentos na Câmara Baixa.

No fim, quem quer governar tem de se adaptar às circunstâncias, e por essas razões a queda de Trump ou o fim do “brexit” são improváveis. Como disse Theresa May em relação ao líder da oposição durante uma sessão do Parlamento: “Ele pode liderar uma manifestação, eu lidero um país”.

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Estamos no começo de um ano que promete vir a ser muito interessante, quer para os estudiosos do Sistema Internacional, quer para os cidadãos em geral, sobretudo para os residentes nos países do denominado Ocidente.

Vários temas têm dominado o espaço público de discussão, embora nem todos tenham suscitado o interesse da esmagadora maioria das pessoas. Mas, por outro lado, tenho visto com crescente curiosidade a aproximação de pessoas que até agora viam a política como uma maçada, ou se tinham distanciado da discussão dos temas principais, com o argumento de que “isso é com os políticos”, a aproximarem-se dos temas políticos e a tomarem posição sobre os mesmos.

Já dizia Platão que “o castigo dos bons, que não fazem política, é serem governados pelos maus”.

Felizmente que vários milhões de cidadãos, em vários países (EUA, França, Itália, Alemanha, Espanha e outros) estão a abandonar a atitude abstencionista e estão, com isso, a abanar um sistema que está corrupto, caduco e podre, de forma a tentar mudá-lo. Sobretudo na esfera da Direita política, que há longos anos estava quase sem iniciativa e mesmo singularmente manietada por um sentimento de impotência, de desistência, de alheamento, que só prejudicou a política internacional, em geral, e o grau civilizacional do Ocidente, em particular.

Isto nomeadamente porque, entretanto, se assistiu a uma subalternização da Ética, e da Moral Cristã, o que deu origem ao reaparecimento de vários comportamentos que se julgavam já extintos, e que eram próprios de civilizações contemporâneas do ser humano no seu estado primordial ou selvagem.

Como exemplo, direi que esta “evolução” negativa  provocou um recuo civilizacional nos costumes, tal como na defesa da vida, ou seja, na não eliminação de nascituros (na Antiguidade) ou embriões de vida (na actualidade), e no reaparecimento da lei do mais forte, pela mão de um liberalismo sem regras, que propicia essa lei nociva a uma paz desejável no seio da sociedade humana.

Mas não só. Assistiu-se também à progressiva destruição da Família e à instituição de pretensos sucedâneos que mais não fizeram que devolver a sociedade ocidental a práticas dos tempos relatados nos episódios bíblicos de “Sodoma e Gomorra”, agora “vestidos” com a aparência de uma pretensa modernidade, que só o é para os ignorantes e iliteratos.

Mas regressemos então ao plano puramente do Poder, das relações entre os diversos actores internacionais e suas mudanças em perspectiva.

Vejamos apenas dois dos casos em que mudanças houve e as prováveis consequências dessa nova atitude pró-activa, por parte daquela a que eu chamo “maioria silenciosa e abstencionista”.

Brexit e a posição de Theresa May

Na passada semana, a Primeira-Ministra do Reino Unido colocou a sua fasquia negocial de forma muito clara, contrariando as previsões dos políticos defensores do “status quo” que até chegaram a ameaçar aquele país com desgraças incontáveis, esperando com isso que o Reino Unido voltasse atrás na decisão que, recorde-se, foi tomada pela maioria da sua população.

Até o Partido Trabalhista Escocês, no poder na Escócia, ameaçou abandonar o Reino Unido. Agora, e numa evidente mudança de posição política dos socialistas escoceses face ao Brexit, em entrevista concedida à BBC, a actual líder do Partido Trabalhista da Escócia, Kezia Dugdale, disse que “é mais importante manter a coesão no Reino Unido do que ficar mais perto da União Europeia”. E acrescentou mesmo que, para fazer face à pobreza e às desigualdades existentes no Reino Unido, será mais eficaz a actuação dos serviços deste país, do que o recurso aos apoios oriundos da União Europeia.

Recorde-se que o Labour escocês foi um dos campeões da campanha pela permanência do Reino Unido na UE.

Na semana passada, Theresa May, ao anunciar que vai finalmente invocar o Art.º 50 do Tratado de Lisboa, anunciou também a base negocial com que parte para as negociações de saída, que em breve se iniciarão com a Comissão Europeia.

E a fasquia é muito alta. Nada mais, nada menos: a saída do Reino Unido far-se-á sem qualquer pretensão deste país de ficar no Mercado Único; não aceitará mais a jurisprudência ou as decisões do Tribunal da União Europeia; e irá restaurar os controlos de entradas das pessoas no país, pois “O Reino Unido não quer ficar com um pé dentro e outro fora”, segundo declarou em conferência de Imprensa.

Theresa May deixou ainda um aviso suplementar muito claro à UE: “não nos tratem como inimigos, pois quem ficará a perder são vocês”.

Na verdade, e como já o escrevi noutra ocasião, antes de se saber o resultado do referendo que conduziu ao Brexit, o Reino Unido é demasiado importante para poder ser descartado pelo resto da Europa, e é demasiado poderoso para que esta se tente “vingar” da sua atitude.

E as razões que então apontei, em Maio de 2016, e que se mantêm verdadeiras, são as seguintes:

  • O Reino Unido continuará a ser um actor fundamental da economia mundial;
  • Continuará a ser o líder da Commonwealth;
  • Continuará a ser a maior potência militar da Europa Ocidental;
  • Continuará a ser o principal aliado dos Estados Unidos no Atlântico Norte;
  • Londres, a “City”, continuará a ser uma das maiores praças financeiras do Mundo;
  • A Libra sofrerá uma desvalorização temporária (o que aconteceu), o que contribuirá para uma maior competitividade da indústria britânica no mercado mundial e para ganhos adicionais, embora temporários;
  • Politicamente o Reino Unido sofrerá, no curto prazo, alguma hostilidade dos principais países (Alemanha e França) da União (o que está a acontecer), mas no médio e longo prazo tudo voltará à normalidade;
  • Também no curto prazo, o Reino Unido poderá conhecer um abrandamento do investimento, dada essa animosidade e pouca racionalidade; esta prevalecerá no médio e longo prazo (neste ponto, e ao contrário do que eu então previa, tal não se verificou: antes pelo contrário, o investimento tende a aumentar);
  • O Reino Unido continuará a ser uma das potências do armamento nuclear do mundo;
  • Continuará a ser um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, com direito a veto;
  • Em termos geopolíticos, não perderá a sua vital importância;
  • Em termos da economia, é demasiado importante para muitos Estados e milhões de empresas para ser posta de lado;
  • E, finalmente, o seu mercado interno é demasiado grande para ser ignorado, quer pelas empresas europeias, quer pelas instituições.

Estas são as realidades com que é preciso contar e será bom para Portugal que os seus Governos, sejam eles de que Partido forem, as tomem na devida atenção.

Em recentes declarações ao ‘Telegraph’, Mark Boleat, uma figura sénior da City londrina, afirmou que “Londres continuará a ser o Centro Financeiro mais importante, a nível mundial, apesar do Brexit e do nervosismo inicial que o resultado do referendo de 2016 provocou”. Igualmente Matt Brittin, o Presidente europeu do grupo Google, veio reafirmar que “a empresa continuará a investir na Grã-Bretanha, dada a dimensão do seu mercado interno”.

E muitas mais notícias têm confirmado este quadro, como é o facto de o comércio inglês ter registado ‘records’ de vendas, no final do ano passado, quer ainda com o facto de a Bolsa de Londres registar ‘records’ absolutos na valorização dos seus índices.

Será um dossiê a seguir com muita atenção, pois as duas posições negociais de início (RU e UE) estão bastante extremadas, mas, como em qualquer negociação, elas tenderão a aproximar-se, com o desenrolar das negociações, para encontrar um acordo satisfatório entre as partes.

Uma coisa é certa, e já o era antes das declarações da Primeira-Ministra: o Reino Unido, com ou sem acordo, abandona a União Europeia.

Portugal deverá ter em atenção que este país é o seu mais antigo aliado, e que a importância das relações comerciais entre os dois países deverá ser desenvolvida, e não prejudicada, por atitudes irrealistas ou de pura demagogia.

Uma coisa é certa: o referendo que decidiu a saída do Reino Unido, de uma união que espartilha a capacidade de decisão dos povos, foi o acto mais participado pelos cidadãos, nas últimas décadas, no Reino Unido.

Trump e a nova política económica

Igualmente se registou um recorde de votantes nos EUA. Na verdade, estas foram as eleições em que mais cidadãos foram aos locais de voto, cerca de 130 milhões de americanos, desde que há registos.

Na sua sequência, tomou posse o 45º Presidente da história dos Estados Unidos, país nosso aliado na NATO e com quem sempre tivemos relações comerciais mais ou menos importantes.

Embora nem sempre nos tenham tratado bem, sobretudo quando Governos do Partido Democrata estiveram em funções, o que é um facto é que a nossa relação bilateral é antiga e deve ser preservada.

É do nosso interesse manter e, se possível, aprofundar as nossas relações com a potência dominante do Sistema Internacional, por razões óbvias. Isto independentemente de quem esteja no poder.

Uma questão parece ter sido esquecida por muitos. São os americanos que votam, são os cidadãos desse grande país que decidem quem querem a governá-los, com o sistema que adoptaram desde a fundação dos Estados Unidos. Da mesma forma que não gostaríamos de ver americanos a dizerem-nos quem nos deve governar, da mesma forma devemos ser prudentes nas atitudes e declarações sobre este resultado, pelo menos por parte dos nossos dirigentes políticos, com especial incidência nos que estão no Poder.

E assim sendo, e nesta linha de pensamento estratégico, foi com prazer que observei e tive conhecimento da atitude inteligente e realista do Presidente da República, Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, que, compreendendo bem o enunciado da questão, manteve uma conversa telefónica com o novo Presidente dos EUA, antes mesmo de ele ter tomado posse, felicitando-o e relembrando-lhe a aliança e as relações diplomáticas que Portugal e os Estados Unidos mantêm, desde a sua fundação.

Mais a mais porque, apesar de estar no início do seu mandato, os sinais económicos e financeiros que têm vindo a público indiciam que o novo Presidente poderá vir a ter êxito na aplicação do seu programa económico.

Veja-se, como exemplo dessa possibilidade, o enunciado do mais recente relatório do insuspeito Deutsche Bank sobre os efeitos potenciais da Política anunciada por Donald Trump.

Segundo este recente relatório, a política anunciada pelo novo Presidente dos EUA “tem o potencial de criar uma nova era de crescimento da economia americana e pode mesmo vir a servir de padrão para a economia mundial”.

Segundo afirmou David Folkerts-Landau, o Economista-Chefe do Deutsche Bank, “esta política tem o potencial de aumentar significativamente o crescimento da produtividade americana”, acrescentando que “ao mesmo tempo que Trump introduz a incerteza, isso é melhor do que a certeza da continuação de um cenário medíocre”.

No relatório prevê-se ainda para os EUA um crescimento do PIB de 2,4% em 2017 e de 3,6% em 2018, contra o crescimento médio do governo Obama, que foi de apenas de 1,6% ao ano, crescimento que o Deutsche Bank classifica como “the worst recovery since the Great Depression”. Significativo, sobretudo se tivermos em conta a nacionalidade do banco em questão e alguma animosidade do Poder político alemão face ao novo inquilino da Casa Branca.

Trump, ainda antes de tomar posse, já tinha dado vários sinais que levam os analistas a olhar de modo diferente para este novo ciclo que agora se inicia. Como exemplo mais visível, e emblemático, está a atitude de Trump face ao anúncio da Ford americana de construir uma nova fábrica no México, no valor de 1,6 biliões de dólares. Face a esta possibilidade, anunciada pelo executivo da Ford, o Presidente Trump ameaçou cobrar impostos de importação para os carros que aí fossem produzidos, o que levou este gigante da indústria automóvel a cancelar o investimento no México e a anunciar que criaria essa nova unidade nos EUA.

Igualmente, e face a anúncio similar por parte da Toyota,  Trump escreveu o seguinte no Twitter: “A Toyota Motor disse que construirá uma nova fábrica no México, para fabricar carros Corolla para os EUA. Nem pensem! Construam uma fábrica nos EUA ou paguem uma tarifa de importação”.

Ora ambos, a Toyota e a Ford, dependem, e muito, deste mercado, pelo que a nova política de Trump vem contrariar várias das suas práticas, seguidas desde a desregulação do comércio internacional, verificada, sobretudo, a partir dos anos da década de 1980.

E é um facto que em política internacional joga-se em realidades e não em desejos. É bom que os nossos dirigentes políticos tenham isto em mente, pois se este cenário de sucesso se verificar, Portugal poderá beneficiar enormemente do mesmo, sobretudo os empresários e o emprego.

E a pergunta que já se coloca abertamente no seio dos Think-tanks internacionais mais importantes é:

– Está em marcha uma Nova Ordem Mundial?

E a resposta mais ouvida é:

– Tudo parece indicar que sim!

O futuro o dirá, sendo certo que as mudanças são normalmente lentas, sobretudo na constatação dos seus efeitos.

Um quadro emerge já, no entanto, como mais que provável de vir a verificar-se: o reforço do Eixo Londres-Washington, que a aprofundar-se influenciará de forma decisiva o quadro do sistema internacional, dada a potência dos seus parceiros.

Como irão reagir a União Europeia, a China, o Japão, a Rússia, a este novo quadro internacional nascente, é uma questão importante e que deverá ser objecto de atenção redobrada.

Termino relebrando um velho, mas muito avisado, por realista, princípio das Relações Internacionais: “As Nações não têm amigos, defendem interesses próprios”.

Seria bom que os nossos quadros políticos soubessem o que esta verdade insofismável e verificada quer dizer, em toda a sua profundidade, e tirassem daí as ilações devidas, para bem dos Portugueses e de Portugal.

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MIGUEL MATTOS CHAVES

Quis-se resumir a crise na Síria a uma guerra entre “bons” (os chamados rebeldes) e “maus” (o governo de Assad). Mas o conflito é muito mais complexo do que este esquema simplista poderia sugerir e envolve muitos mais interesses do que os dos próprios sírios. Afinal, os “bons” – denunciou já a Amnistia Internacional – têm-se dedicado a cometer as maiores atrocidades, crimes de guerra e outras violações da lei humanitária internacional. Os oposicionistas que falavam em “libertar” a Síria usam sistematicamente os mesmos métodos e torturas que atribuem ao Governo.

Muito se tem escrito e dito sobre a guerra neste país do Próximo Oriente. Os actores, deste conflito, nomeadamente da dita oposição, são diversos, e agrupam mais de 40 facções armadas compostas por entre 100 a 1.500 combatentes, cada uma.

Uma coisa é hoje muito clara: não há, nem nunca houve, nenhuma “frente única de oposição” ao regime vigente na Síria, como chegou a ser ventilado no Ocidente; e muito menos este conflito é civil, como veremos. É uma guerra de contornos religioso-políticos, com primazia para o primeiro factor.

Várias facções, com sírios ou estrangeiros nas suas fileiras, agruparam-se em duas coligações principais: a Jeish el Fatá – O Exército da Conquista – e a Fatá Haleb – Conquista de Aleppo. Em ambas impôs-se a ala salafista.

Não obstante terem sido anunciadas pela imprensa internacional, no início do conflito, como forças que travavam uma “guerra justa” contra Assad, em defesa da instalação de um regime democrático, a realidade é que não foi, e não é, de todo assim.

Várias delas querem impor a lei islâmica e algumas a versão mais radical da Sharia. Todas têm sido acusadas de cometerem crimes de guerra durante os quatro anos em que controlaram o lado ocidental da cidade de Aleppo e outras regiões do país; e a sua maioria quer impor, como já se disse, o regime da Sharia, que é tudo menos democrático.

Segundo fontes das Nações Unidas, o número tanto de civis como de combatentes em Aleppo foi objecto de controvérsia. Os cálculos iniciais da ONU quantificavam em 250.000 o número de civis e em 8.000 o de combatentes rebeldes, nesta cidade em particular.

  • Leia este artigo na íntegra na edição impressa desta semana.

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