Internacional

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O ambiente de cortar à faca no órgão supremo do partido no poder em Moçambique desde 1975 obrigou a que a última reunião decorresse à porta fechada. Mas o que lá aconteceu acabou por transpirar… 

Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Assim parece estar a acontecer na Frelimo, o partido político que foi único em Moçambique até 1990 e que mesmo depois disso tem conseguido afastar do poder toda e qualquer oposição.

O tempo da hegemonia, contudo, parece ter os dias contados. Na última reunião do Comité Central da omnipotente Frelimo, dirigentes históricos do partido confessaram abertamente as dificuldades crescentes que estão a enfrentar na captação das simpatias populares, sobretudo no Centro e Norte do país, onde a Renamo e os outros partidos da oposição encontram, pelo contrário, terreno cada vez mais favorável.

O tom das críticas tornou-se insuportável para os actuais dirigentes da Frelimo e a reunião acabou por se realizar à porta fechada, apenas com a participação dos membros do Comité Central. Mas o descontentamento é tal que nem mesmo assim foi possível esconder as denúncias ali feitas.

Segundo o jornal moçambicano ‘Mediafax’, as “indisfarçáveis cisões e consequentes construções de alas” na Frelimo reflectiram-se na reunião, destinada a analisar a “situação interna do partido governamental”, num momento em que se preparam já as próximas eleições: autárquicas em 2018 e legislativas em 2019.

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A companhia diamantífera estatal angolana, Endiama, e a empresa russa Alrosa assinaram na passada semana, em Luanda, um contrato de investimento relativo ao projecto mineiro do Luaxe. O protocolo estipula os passos a dar com vista à constituição da empresa que vai explorar o Luaxe, cujo estudo de viabilidade técnica está já a ser elaborado.

Os técnicos da diamantífera russa estimam que a nova mina angolana do Luaxe, o terceiro maior kimberlito do mundo, representa um valor comercial total de 35 mil milhões de dólares (31,3 mil milhões de euros).

Sobre este negócio, que a partir de 2018 poderá duplicar a produção anual de diamantes em Angola, a Alrosa informou que em 2013, nos trabalhos de exploração da concessão do Luaxe, foi encontrado o kimberlito Luele.

O presidente da Alrosa, que esteve em Luanda para assinatura da constituição da nova empresa, citado numa informação da própria diamantífera, recorda que ao longo dos últimos anos, e “actuando com o apoio do Governo russo”, a Alrosa “tem estado envolvida em negociações com a alta administração angolana e investidores” sobre este projecto mineiro.

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A convulsão por que passam o Brasil e a Venezuela – onde temos enormes colónias de emigrantes – estão a deixar muito preocupados os portugueses. Só do lado do Executivo da ‘geringonça’ é que o silêncio parece ser a regra, mesmo quando se começam a perder vidas e propriedades.

No caso do Brasil, o último a “estoirar” na passada semana, a confusão é total. O ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso sugeriu que a renúncia pode ser o melhor caminho para o actual Presidente Michel Temer, se este não conseguir explicar de forma convincente as acusações que vieram à tona, e que FHC avaliou como “gravíssimas”.

Recorde-se que o Presidente Michel Temer é alvo de graves acusações após a divulgação, pelo jornal ‘O Globo’, na noite da passada quarta-feira, de que teria dado aval a uma suposta operação de compra de silêncio do deputado e ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.

Segundo o jornal, os irmãos Joelho e Welles Batista, do grupo JBS, investigados em desdobramentos da Operação Lava Jato, negociaram uma “delação premiada” (isto é, um “perdão de culpa” como recompensa por denunciarem os seus cúmplices) e entregaram aos investigadores uma gravação em que Joelho conta a Temer que pagava a Eduardo Cunha e a Lúcio Funcionar uma mesada na prisão para ficarem calados. O Presidente Temer então teria respondido: “Tem que manter isso, viu?”.

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Ao fim de 42 anos de poder absoluto, a Frelimo é forçada a aceitar o pluralismo político. Do velho partido maoísta e anti-português já pouco resta – a não ser os tiques ditatoriais de quem tudo quer e tudo manda.

Tem sido um lento e penoso caminho desde que os dirigentes maoístas da Frelimo, com Samora Machel à cabeça, se impuseram na mesa das negociações a um MFA dominado pelo PCP, em 1975.

Chegaram ao poder quase sem terem de mexer um dedo e instalaram-se a seu bel-prazer, apoderando-se da riqueza imensa de um Moçambique em pleno desenvolvimento – uma terra de esperança de que os moçambicanos brancos foram expulsos em condições dramáticas e revoltantes. Pela força das armas afastaram do poder todos os rivais, sacrificando o país numa guerra civil cruel e sem sentido e reduzindo-o a uma miséria pungente.

Aburguesaram-se, entretanto, e depressa esqueceram o socialismo e a revolução do campesinato com que no passado enchiam a boca: bem à mostra ficou o seu mais grosseiro desígnio de enriquecerem na podridão, de comprarem fato de seda em Lisboa e em Paris e de exibirem carros, casas e amores fáceis como troféus de caça.

Obrigados pela comunidade internacional a aceitar o pluralismo político, fingiram professá-lo enquanto se agarravam ainda mais aos ‘tachos’ e aos negócios de Estado. Dos terroristas anti-europeus de antigamente pouco ou nada lhes resta – e os poucos sobreviventes dos tempos da guerrilha contra Portugal são hoje relíquias secas apenas lembradas em aniversários oficiais. Agora, que soou a hora da verdade e têm de partilhar o poder com uma oposição obstinada, é com relutância que têm de admitir a trégua que há-de levar, se tudo correr bem, à paz duradoura prometida para o final deste ano.

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EVA CABRAL

A Junta da Galiza vai começar a introduzir paulatinamente a Língua Portuguesa na educação secundária daquela Região Autónoma de Espanha. A cooperação económica vai também ser aprofundada.

Dizem que o Galaico-Português é uma âncora forte que liga Portugal à Galiza desde há muitos séculos. O certo é que os portugueses, quando ouvem galegos, detectam apenas um ligeiro sotaque, mais uma das muitas formas de se falar Português. Já os galegos, quando confrontados com portugueses a falarem num pseudo-Castelhano, costumam aconselhar (com algum azedume) a que falemos em Português.

Esta aproximação tem sido uma constante das últimas décadas. E basta dizer que na Galiza até os jornais portugueses se vendem nos quiosques normais. Integrados em Espanha, os galegos sempre que podem vão-nos dizendo do seu gosto em refazer o mapa da Península. Lembram que para cá (Portugal) fugiram muitos galegos quando o regime franquista os perseguia, e paulatinamente vão construindo laços de aproximação a Portugal.

Nesse sentido, o presidente da Junta da Galiza, Alberto Nuñez Feijóo, disse na passada semana, no Porto, que tem intenções de “paulatinamente” introduzir o conhecimento do Português como Língua estrangeira no ensino secundário galego.

Depois de receber a Medalha Municipal de Honra da Cidade do Porto pelo seu contributo para o relacionamento entre o Norte de Portugal e a Galiza, o presidente da Junta galega recordou o Memorando de Entendimento para a Adopção do Português como Língua Estrangeira de Opção e Avaliação Curricular no Sistema Educativo Não Universitário da Comunidade Autónoma da Galiza, assinado em Fevereiro de 2015, e afirmou que a intenção actual é ir “introduzindo paulatinamente o conhecimento do Português como Língua estrangeira dentro da educação secundária na Galiza”.

Reforço económico

Feijóo disse também que há intenção de ampliar estudos bibliográficos das Línguas Galega e Portuguesa nas respectivas bibliotecas públicas.

Na área da Educação, o presidente da Junta da Galiza assumiu que o “programa de cooperação inter-universitária deve continuar, assim como a mobilidade de estudantes e a promoção de projectos formativos comuns”, acrescentou Feijóo.

Há “quatro áreas importantes” para reforçar da colaboração entre galegos e o Norte de Portugal, observou o presidente da Junta da Galiza. Além da área da Educação e da Cultura, Feijóo falou também no âmbito institucional e no sector da Economia, referindo a necessidade de dinamizar os “respectivos mercados”, com Jornadas de Emprego no âmbito da euro-região e no âmbito institucional” e organizando reuniões políticas sectoriais.

“Temos instrumentos muito importantes para materializar a cooperação”, afirmou, recordando que têm à disposição a primeira estratégia de especialização inteligente transfronteiriça da União Europeia, e que aspira a mobilizar 360 milhões de euros até 2020.

O presidente da Junta da Galiza defendeu também a vontade de trabalhar com o Norte de Portugal para ambos se “posicionarem no mercado latino-americano”.

Em seu entender, “tanto a Galiza como Portugal têm condições para reforçar a colaboração no Brasil e nos países latino-americanos, trocando informação, fazendo missões conjuntas dos empresários, intensificando a nossa relação”.

Compostela nas cidades lusófonas

Enquanto em Lisboa se defendia o reforço dos laços, Compostela decidiu juntar-se à associação das cidades lusófonas no decorrer de uma reunião em Luanda.

A capital da região espanhola da Galiza, Santiago de Compostela, foi já admitida como membro observador da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), durante a 33.ª assembleia-geral da organização, realizada em Luanda.

De acordo com o secretário-geral da UCCLA, Vítor Ramalho, reconduzido nas funções para novo mandato, até 2019, esta aproximação, com a adesão à organização, resulta “do desejo” de Santiago de Compostela de “reforçar as relações com as cidades do mundo lusófono, não apenas com as portuguesas.

A UCCLA conta actualmente com 41 cidades lusófonas associadas, além de cerca de 40 empresas cooperantes, e nesta 33.ª assembleia-geral terminou o mandato de Maputo (Moçambique) na liderança rotativa da comissão executiva, que passa agora a ser assumida, até 2019, por Santo António do Príncipe, em São Tomé e Príncipe.

Esta cidade vai receber no final do corrente ano a próxima reunião da comissão executiva, enquanto a 34.ª assembleia-geral da UCCLA deverá ter lugar em Cascais, Portugal, no início de 2018, conforme proposta daquele município, aprovada na mesma reunião.

O apoio à organização e formação no seio das autarquias que integram a UCCLA é uma das prioridades da organização, que está a virar-se também para a promoção económica destas áreas no exterior.

Além disso, a UCCLA tem conduzido candidaturas a fundos comunitários e ao Instituto Camões para projectos de apoio ao desenvolvimento nas respectivas cidades, explicou o secretário-geral da organização.

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SOARES MARTÍNEZ

Há ainda quem se mantenha fiel à ideia, ou à afirmação, de que o amor da liberdade, ou o seu triunfo, provém da Revolução Francesa, que, afinal, naquilo que teve de bom, apenas traduziu os Evangelhos, por vezes em calão de baixo coturno. Outros transferem tal origem para a Revolução Russa, para o “5 de Outubro”, ou para o “25 de Abril”.

Outros mais, actualmente quase todos, na ignorância plenária característica dos tempos que correm, a qual, por desgraça, nem poupou muitos constelados de mercês, até universitárias, já não cuidam das origens, ou da razão, seja do que for; salvo do que possa proporcionar-lhes vantagens materiais fartas e imediatas. No meio dessa ignorância plenária, aparecem escrevinhadores, blasonando de eruditos, que, na sua busca de antecedentes remotos e ilustres para instituições recentes, vão repetindo que os regimes democráticos já foram adoptados nas antigas cidades gregas, sábias e prósperas.

Esquecem-se esses mesmos escrevinhadores que, naquelas cidades, as votações e outras participações nos governos e na administração respeitavam exclusivamente aos membros das comunidades políticas activas, cujo ingresso era concedido aos supostos descendentes dos fundadores das próprias cidades. Em consequência, essas democracias acabavam por incluir apenas núcleos aristocráticos, pelo modo de viver e pelo dever de servir, ligado à participação nos corpos armados e nas magistraturas.

Mesmo assim, segundo os escritos da época, esses regimes, limitadamente democráticos, costumavam perder-se em discussões estéreis, sendo substituídos por ditaduras. E os celebrados sábios da Grécia, reduzidos à escravidão, foram distribuídos pelas famílias romanas, como secretários dos seus chefes ou como preceptores dos seus meninos.

Felizmente, o amor da liberdade, ou das liberdades possíveis, conservou-se, através de inúmeras adversidades, e com algum sucesso, sempre que a autoridade e a ordem souberam servir esse ideal constante dos povos, em conformidade com as imposições da natureza. Sob rótulos democráticos ou sem eles, no escrupuloso respeito da legitimidade do poder político e das suas justas limitações.

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Não são uma causa mediática para os meios “bem-pensantes” do politicamente correcto do Ocidente, mas os cristãos voltaram a ser em 2016 as pessoas mais perseguidas do planeta. Esmagados entre a agressividade do Islão político e a violência do comunismo ressurgente, os seguidores de Cristo por esse mundo tampouco encontram consolo e amparo no Ocidente, que ignora quase totalmente o seu sofrimento.

O centenário das aparições de Fátima aproxima-se e o mundo cristão mobiliza-se para comparecer nas celebrações. No entanto, nem nos tempos da Roma pagã ou no auge do comunismo estalinista a perseguição aos cristãos atingiu os níveis de hoje.

O recente atentado contra uma igreja no Egipto, no qual morreram 44 cristãos, é apenas mais um exemplo da perseguição constante aos milhões de fiéis que vivem fora do Ocidente. Para os cristãos que praticam a sua religião fora da Europa e da América, a Páscoa é sempre um período de ansiedade, visto que os extremistas islâmicos se habituaram a marcar a festa maior do Cristianismo com ataques sangrentos a locais de culto.

A Igreja Católica, as várias Igrejas Protestantes, as Nações Unidas e muitas organizações de acompanhamento alertam para a realidade da perseguição e violência de que são alvo os cristãos no mundo há muitos anos.

Em 2011, o Papa Bento XVI fez um aviso solene sobre o actual martírio dos cristãos. E a Chanceler Angela Merkel chegou a afirmar em 2012 que o Cristianismo era “a religião mais perseguida em todo o mundo” enquanto tentava orientar a política externa da Alemanha para proteger minorias cristãs; mas foi quase imediatamente censurada pela esquerda “politicamente correcta”. Face a este cenário, a generalidade dos políticos do Ocidente nem sequer ousa tocar no assunto, apesar de a violência anti-cristã estar a começar a bater às suas portas.

130 países na lista negra

Em 2016, a situação do Cristianismo no mundo continua a ser dramática, e os números que começamos agora a conhecer reflectem essa realidade. O número de mortos varia consoante o método escolhido para fazer esta tenebrosa contabilidade. As estimativas menos pessimistas apontam para sete mil mortos, total que apenas inclui o número de cristãos executados pela sua crença, e que estão legalmente identificados. Mas organizações como o Centro de Estudos de Religião, baseado em Turim, referem um balanço muito mais elevado de 90 mil cristãos mortos em 2016 quando se incluem os conflitos tribais em África, onde exércitos muçulmanos atacam regularmente aldeias cristãs, sendo o grupo islâmico Boko Haram apenas um dos exércitos mais célebres. O que é certo é que mais de 200 milhões de cristãos, cerca de um em cada 12 crentes, se encontram actualmente em situação de perigo apenas por seguirem a mensagem de Cristo.

As imagens que nos chegam do Médio Oriente, da China e de África são aterradoras: crucificações, igrejas a arder, escravatura sexual das mulheres cristãs capturadas, decapitações, pessoas queimadas vivas, espancamentos públicos e várias humilhações, há um pouco de tudo.

Muita desta violência é coordenada pelos próprios Estados, especialmente os muitos reinos e repúblicas islâmicos. Os cristãos são activamente perseguidos em 130 países do mundo, e em 104 deles a perseguição tem o apoio directo ou indirecto dos seus governantes.

Entre os dez países mais perigosos para os seguidores dos ensinamentos de Jesus Cristo, segundo a organização “Open Doors” (fundada em 1955 para resistir à opressão comunista sobre os cristãos no bloco soviético), encontram-se nove países com regimes islâmicos e uma república comunista. Nos 50 piores casos apontados, 40 são países onde o Islão se confunde com o Estado, e dois são Estados comunistas. Entre os piores casos, em 15º lugar, encontra-se também a Índia, terra de missionação de Madre Teresa, onde uma nova força anti-cristã, o hinduísmo radical, começa a mostrar a sua força. Apesar de o conflito entre muçulmanos e hindus receber o principal foco mediático, os cristãos neste país estão a ser vítimas de um ataque cerrado dos militantes do actual partido no poder, que defende a supremacia dos hindus sobre os cristãos.

Futebol no Qatar

Face a este cenário de terror, o Ocidente mantém uma estranha complacência para com países onde se praticam as maiores atrocidades sobre cristãos. Em alguns casos, os Estados e organizações ocidentais tornam-se mesmo cúmplices desses países.

O Campeonato Mundial de Futebol de 2022, por exemplo, vai-se realizar no Qatar, um país que se encontra no topo da lista de países que matam e perseguem cristãos pela sua fé. E muitos países constantes da mesma lista negra patrocinam e compram empresas no Ocidente supostamente cristão para financiar os seus regimes. Em Portugal existe um partido representado na Assembleia da República que defende a Coreia do Norte, o Estado que persegue de forma mais feroz o Cristianismo, e que tenta desculpar a brutal repressão na China, o país que caminha (conforme noticiado neste jornal) para ser a Nação com mais crentes no Cristianismo no mundo, apesar da perseguição feroz do regime.

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LUÍS MIRA AMARAL

Engenheiro (IST), Economista, Professor Catedrático

Ministro do Trabalho e Segurança Social e da Indústria e Energia nos X, XI e XII Governos Constitucionais

O resultado do referendo sobre a permanência do Reino Unido (RU) na União Europeia (UE), levando ao “Brexit”, surpreendeu os meios económico-financeiros, provocando a depreciação da Libra e uma elevada volatilidade nos mercados financeiros, com correcções significativas dos activos de risco e consequentes valorizações dos activos de refúgio, tais como a dívida pública americana, a dívida dos países europeus do centro e ainda do ouro.

Apesar dessas fortes quedas nos primeiros momentos, os activos de risco acabaram por recuperar, para o que contribuiu em parte o suporte dos Bancos Centrais, designadamente Banco de Inglaterra (BOE) e BCE. No que toca aos mercados emergentes (EMs), espera-se também maior flexibilidade dos Bancos Centrais para acomodarem o choque, e isso é evidente na Reserva Federal Americana com a redução ou abrandamento do ciclo de subidas das taxas de juro que tinha começado, aliviando assim a pressão para a valorização do dólar. Neste contexto, os investidores tinham fugido das moedas ligadas aos emergentes e refugiaram-se em moedas como a norte-americana.

A estratégia suicida de David Cameron e a City de Londres

Nas últimas eleições gerais, que ganhou com maioria absoluta, o que lhe permitiu dispensar os liberais como “junior partner” no Executivo, Cameron, para calar a ala direita dos “Tories” e os adeptos do “Leave” liderados por Boris Johnson, o ex-mayor de Londres, prometeu o referendo.

Como seria de esperar, a demagogia campeou na campanha, ameaçando os adeptos do “Leave” com a entrada duns milhões de turcos e dizendo que a contribuição do RU para a UE permitia financiar facilmente o Serviço Nacional de Saúde (NHS).

O espantalho dessa emigração maciça, agitada demagogicamente, deve ter contribuído, e muito, para o resultado.

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José Figueiredo

Professor Universitário

Porque não será antes possível fazer melhorar as condições de vida locais dos povos do Médio Oriente e do Norte de África, para assim evitar a contínua mudança do mosaico cultural europeu?

A temática da imigração tem assolado a Europa ao longo dos últimos anos. No passado já longínquo, a Europa foi sobretudo uma zona de expedição de emigrantes, em particular para o Novo Mundo, nas Américas, mas também para África. Após a II Guerra Mundial, a Europa Central passou a ser receptor de fluxos de imigração, em particular dos países europeus mais pobres, como Portugal e Espanha.

Depois, na sequência das descolonizações ultramarinas, começaram a afluir à Europa imigrantes oriundos da Argélia, do Marrocos, assim como da Nigéria, de Cabo-Verde, ou ainda da Índia, do Paquistão e da Jamaica.

Esta imigração das antigas colónias europeias resultava basicamente de quatro factores:

  1. A Europa era atractiva sob ponto de vista económico, para os imigrantes;
  2. A relação e a ligação cultural entre povos (antigos colonizadores e colonos) ajudava a uma maior interligação;
  3. A as antigas colónias não conseguiram ser suficientemente bem-sucedidas, de modo a manterem os seus cidadãos nas suas terras;
  4. A Europa necessitava de trabalho com um custo mais baixo, numa época em que os cidadãos europeus se recusavam a aceitar profissões menos qualificadas e menos bem pagas.
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Brandão Ferreira

“Muito honrado Capitão Paxá, bem vi as palavras da tua carta. Se em Rhodes tivessem estado os cavaleiros que estão aqui neste curral podes crer que não a terias tomado. Fica a saber que aqui estão portugueses acostumados a matar muitos mouros e têm por Capitão António da Silveira, que tem um par de tomates mais fortes que as balas dos teus canhões e que todos os portugueses aqui têm tomates e não temem quem não os tenha!” (Gaspar Correia, “Crónica dos Feitos da Índia”, Vol. IV, pág. 34-36).

Esta foi a resposta que deu António da Silveira, Capitão de Diu, à carta que Suleimão Paxá, Comandante turco (que era eunuco), que com 70 galés e 23.000 homens cercava a cidade, defendida por 600 portugueses.

Nessa carta, Suleimão prometia livre saída de pessoas e bens, desde que entregassem a fortaleza e as armas. E prometia esfolar vivos todos os que não o fizessem, gabando-se de ter com ele muitos guerreiros que ajudaram na conquista de Belgrado, a Hungria e a Ilha de Rhodes. Perguntava no fim a Silveira, como se iria defender num “curral com tão pouco gado!”

Recep Tayyip Erdogan, 63 anos, é o Chefe de Estado de um país chamado Turquia, membro da NATO, aspirante frustrado a membro da UE e herdeiro de um dos mais temíveis impérios existentes à face da terra, no segundo milénio da era de Nosso Senhor Jesus Cristo. Império que ganhou projecção mundial após conquistar Constantinopla em 1453, data que marca o fim do Império Romano do Oriente e tida como marco inicial para o que se convencionou chamar “Idade Moderna”.

O Império Otomano (1299-1923), que tinha o seu núcleo original no Planalto da Anatólia, quis expandir-se em todas as direcções, nomeadamente para Oeste, tendo progredido perigosamente no Norte de África, nos Balcãs e no Mediterrâneo Oriental. Este império foi finalmente sustido no Norte de África, quando já estava em Argel (porventura a maior motivação para D. Sebastião ter querido ir a Larache, principal objectivo a preservar e que não incluía a surtida que acabou tragicamente em Alcácer Quibir); no Mediterrâneo Oriental foram derrotados na batalha naval de Lepanto, em 1571, mas nunca se conformaram. Note-se que foi graças à esquadra portuguesa que foram batidos novamente em Matapão, em 19 de Julho de 1717, faz este ano 300 anos.

Finalmente progrediram nos Balcãs, em direcção à Europa Central, até efectuarem dois terríveis cercos a Viena, coração do Império Austro-Húngaro, dos Habsburgo, em 1529 e 1683, data em que foram inexoravelmente derrotados.

O “croissant”, massa folhada em forma de “crescente vermelho”, que se passou a comer ao pequeno-almoço e ao lanche, aí está a ilustrar a vitória. Ou seja, cada vez que se come um “croissant”, quer dizer que se “come” um turco ao pequeno-almoço… É possível que os turcos, desde então, não achem graça à coisa.

No fim da I Guerra Mundial, a Dinastia Otomana desapareceu e o seu império desagregou-se, tendo grande parte dos seus territórios ficado debaixo do controlo de potências ocidentais vencedoras da guerra, sob mandato da então Sociedade das Nações, nomeadamente a França e a Inglaterra. Mais tarde, a maioria destes territórios veio a adquirir, sucessivamente, a independência. A criação do Estado de Israel, em 1948, veio baralhar e complicar ainda mais a complexa geopolítica da região.

Em 1923, o General Mustafá Kemal Atatürk assumiu o cargo de primeiro Presidente da República da Turquia, até à sua morte em 10/11/1938, e transformou o país num estado laico, onde os militares tinham um peso desproporcionado. A necessidade de conter a URSS no início da Guerra-Fria, no fim da Segunda Guerra Mundial, e arranjar um Estado-tampão no Cáucaso e Oriente Médio, fez com que a Turquia fosse convidada a aderir à NATO, o que aconteceu em 1952.

A Turquia, apesar de tudo, dos problemas internos – onde se destaca a questão curda – e dos ódios figadais e seculares (por vezes milenares) entre todos os povos daquela região, teve um papel mais estabilizador do que o contrário. Seria ocioso explicitar tudo o que se passou. A Turquia tirou partido da sua participação na NATO (onde a quezília secular com a Grécia, agravada pelo conflito cipriota, constituiu sempre uma dor de cabeça para a Aliança – e agora é também para a UE), recebeu armamento moderno, acesso a tácticas, doutrinas e logística, e permitiu trocas comerciais com os países do Ocidente, facilitando a emigração de largas massas de turcos e curdos para a Europa. O ovo da serpente começou a crescer desmesuradamente… E pertencer à NATO ajudava a conter um dos seus ancestrais inimigos, o Império Russo!

Quando Erdogan chega a Chefe do Governo (2003-2014) e a Presidente, logo de seguida, tudo muda: cada vez há maior oposição na UE, nomeadamente em França (melhor dizendo, no Grande Oriente Francês…) relativamente à entrada da Turquia na UE. Chegaram, inclusive, ao ponto de assumir como “dogma de fé” que na Arménia tinha havido um genocídio de cristãos, feito pelos otomanos, entre 1915 e 1923, onde se estimam tenham perecido entre 800.000 e 1.800.000 pessoas (o que por acaso até é verdade). Ankara, obviamente estrebuchou.

Erdogan – que em 1994 proferiu uma frase algo premonitória, “a Democracia é um comboio: quando se chega ao nosso destino, saímos” – começou paulatinamente a por de lado a herança de Atatürk e a retirar poderes aos militares. A seguir entrou numa deriva islamita, torpedeando o laicismo e aproximando-se de tudo o que preconiza o Corão. Finalmente envolveu-se no conflito sírio e ficou submerso de refugiados.

Em 15/7/2016 deu-se um estranhíssimo caso de tentativa de golpe de Estado. O que se passou parece um decalque do “11 de Março de 75” português. Erdogan não perde tempo e parte à perseguição dos seus opositores. Prendeu-os e “saneou-os”, às dezenas de milhar, e insiste para que os EUA extraditem um conterrâneo seu (de que ninguém ouvira falar até então) como suposto cabecilha do frustrado golpe de estado. O homem – Fethullah Gülen – ainda vive nos EUA, mas as principais potências ficaram quedas e mudas, a olharem para ontem, sem saberem o que fazer ou dizer.

Erdogan tarda, mas arrecada. Com estes trunfos na mão, embala para mudar a Constituição, a fim de reforçar o seu poder. Pelos vistos, a eternizar-se nele. Estamos pois em vista de um potencial “Califa”, que a seu tempo ocupará o palácio de Topkapi. Só falta organizar o Serralho e o Regimento de Janízaros.

Porém, para obter estes poderes, necessita de votos para um referendo que quer fazer, prestes. Os turcos existentes nos seus domínios não lhe chegam e pretende catequizar a diáspora. E não se fez rogado: país onde houvesse comunidade que valesse a pena influenciar, seria “invadido” por comparsas seus, a começar por membros do seu próprio Governo! Não sabemos exactamente o modo como informou os Governos dos países visados ou sequer se se deu ao trabalho de o fazer; queria ir e pronto!

Quando os Governos e as opiniões públicas de alguns dos países europeus visados souberam da trama, dispuseram-se a contestar tais desejos/ordens. O que espoletou a ira do putativo otomano e foi um ver se te avias de guerra de palavras, ameaças e despautérios. O que encontra amplos antecedentes nos devaneios democráticos e cobardia dos países europeus e da UE, a que têm o despautério de apelidar de “superioridade moral da democracia”! Chamam-lhe um figo…

Os países europeus reagiram individualmente, de um modo frouxo, cobardolas e apaziguador, o que denota o estado de degenerescência política, social e anímica em que a Europa se encontra (para já não falar na incapacidade militar, que é consequência daquelas…). A UE como tal, não reagiu e por cá ouviram-se umas frases de circunstância circunspecta. Ou seja, os europeus viraram uns verdadeiros eunucos…

Entretanto, o grão-turco profere ameaças e manda, filantropicamente – só pode – as famílias turcas emigradas terem cinco filhos. Compreende-se: enquanto não têm balas, disparam rebentos.

Como fazem cá falta os tomates do Capitão António da Silveira e dos cavaleiros que estavam com ele em Diu!

CAPA

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