Internacional

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MIGUEL MATTOS CHAVES

Quis-se resumir a crise na Síria a uma guerra entre “bons” (os chamados rebeldes) e “maus” (o governo de Assad). Mas o conflito é muito mais complexo do que este esquema simplista poderia sugerir e envolve muitos mais interesses do que os dos próprios sírios. Afinal, os “bons” – denunciou já a Amnistia Internacional – têm-se dedicado a cometer as maiores atrocidades, crimes de guerra e outras violações da lei humanitária internacional. Os oposicionistas que falavam em “libertar” a Síria usam sistematicamente os mesmos métodos e torturas que atribuem ao Governo.

Muito se tem escrito e dito sobre a guerra neste país do Próximo Oriente. Os actores, deste conflito, nomeadamente da dita oposição, são diversos, e agrupam mais de 40 facções armadas compostas por entre 100 a 1.500 combatentes, cada uma.

Uma coisa é hoje muito clara: não há, nem nunca houve, nenhuma “frente única de oposição” ao regime vigente na Síria, como chegou a ser ventilado no Ocidente; e muito menos este conflito é civil, como veremos. É uma guerra de contornos religioso-políticos, com primazia para o primeiro factor.

Várias facções, com sírios ou estrangeiros nas suas fileiras, agruparam-se em duas coligações principais: a Jeish el Fatá – O Exército da Conquista – e a Fatá Haleb – Conquista de Aleppo. Em ambas impôs-se a ala salafista.

Não obstante terem sido anunciadas pela imprensa internacional, no início do conflito, como forças que travavam uma “guerra justa” contra Assad, em defesa da instalação de um regime democrático, a realidade é que não foi, e não é, de todo assim.

Várias delas querem impor a lei islâmica e algumas a versão mais radical da Sharia. Todas têm sido acusadas de cometerem crimes de guerra durante os quatro anos em que controlaram o lado ocidental da cidade de Aleppo e outras regiões do país; e a sua maioria quer impor, como já se disse, o regime da Sharia, que é tudo menos democrático.

Segundo fontes das Nações Unidas, o número tanto de civis como de combatentes em Aleppo foi objecto de controvérsia. Os cálculos iniciais da ONU quantificavam em 250.000 o número de civis e em 8.000 o de combatentes rebeldes, nesta cidade em particular.

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PEDRO A. SANTOS

Os aniversários da Revolução de Outubro e da União Europeia vão balizar um ano em que vários países europeus poderão optar por mudanças drásticas de política.

Duas celebrações de dimensão transnacional, ainda que em diferentes quadrantes políticos, estão já agendadas para o 2017 que agora começou: os 100 anos da revolução russa e os 60 anos da União Europeia. Cada uma representa um projecto distinto de vida para os povos que em si abarca – mas qualquer deles está posto em causa pelos “desvios” ao projecto original.

Há exactamente 100 anos, no dia 8 de Março, os mencheviques russos derrubaram o Czar e sonharam com a instauração de uma democracia pluralista e próspera. Não tiveram sorte: tal como no PREC português de seis décadas depois, os comunistas estavam à espreita, e no dia 8 de Novembro (é chamada a “revolução de Outubro” pois os russos usavam então o velho calendário juliano) tomaram o poder na Rússia, abrindo caminho para a fundação de uma das ditaduras mais cruéis do século XX: a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Este ano, os vários movimentos marxistas, muitos a recuperar força, vão celebrar a data, um pouco por todo o mundo.

Esta mania de unificar nações em blocos federais não terminou aqui, como se vê bem pelo Tratado de Roma, cuja assinatura, há 60 anos, também será motivo para celebração em 2017. Datado de 25 de Março de 1957, este documento estabeleceu a Comunidade Económica Europeia, a organização antecessora da actual União Europeia. Na altura ainda se acreditava que respeitaria as soberanias das nações aderentes – isto é, que não se transformaria num projecto federalista –, e Portugal, ansioso por estar com “os grandes”, juntou-se à festa em 1986. Mas em 1992, derrotado o outro projecto aglomerador de nacionalistas, a URSS, os federalistas retiraram os termos “comunidade” e “económica” do projecto, e adicionaram “União” de facto consumado. Não vai ser um aniversário feliz: os britânicos planeiam entregar os papéis do divórcio em cima desta data.

É também a favor ou contra esta “União” que quatro dos seis povos fundadores de todo o projecto vão votar em 2017. A primeira prova de fogo para Bruxelas é no dia 15 de Março, quando os holandeses forem às urnas, possivelmente para dar uma vitória ao conservador Partido pela Liberdade, que se assume pela defesa dos valores europeus face ao avanço do islão radical, e deseja fazer um referendo à permanência da Holanda na União. Caso este partido seja o mais votado, o que é provável face às sondagens, então o seu desejo poderá tornar-se uma realidade em 2018.

Os burocratas europeus não vão ter muito tempo para se recomporem deste “Março Horribilis”: as eleições presidenciais francesas estão marcadas para o dia 23 de Abril, com a segunda volta a decorrer no dia 7 de Maio. É quase certo (e se não houver entretanto alterações de fundo) que nessa segunda volta participarão dois candidatos extremamente conservadores, anglófilos, e que defendem boas relações com a Rússia de Putin, tudo valores que não se dão bem com a UE.

  • Leia este artigo na íntegra na edição impressa desta semana.

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O ano termina com o espectro sombrio do terror sobre as cabeças dos povos europeus. Desde os anos 70, quando os movimentos comunistas espalhavam a lei da bala e da bomba, que a velha Europa não via tanta carnificina nas suas ruas.

A narrativa repete-se: cidadãos inocentes são abatidos pelos mensageiros do terror nas ruas da Europa, supostamente pacíficas. Recentemente, mais doze europeus perderam a vida e pouco menos de cem ficaram gravemente feridos quando cometiam o “crime anti-islâmico” de visitar um mercado de Natal.

Os últimos dois anos ficam marcados como os mais sangrentos das últimas quatro décadas. Apesar de alguns momentos de extrema violência, como o ataque bombista em Madrid em 2004, ou o assassinato em massa de inocentes perpetrado por Anders Breivik, um movimento de terror concertado não existia na Europa desde que os comunistas lançaram uma campanha de destabilização das democracias ocidentais durante os anos 70.

De facto, entre o episódio do ataque terrorista em Londres, que vitimou 56 inocentes, e os massacres na Noruega, existe um intervalo temporal de seis anos. Se apenas considerarmos os momentos de terrorismo islâmico em grande escala, a Europa esteve quase dez anos a salvo. Estes números, no entanto, não contam a história real.

O caminho para a actual carnificina há vários anos que está em construção, e uma análise aos dados indica que os terroristas, face ao poderoso aparelho anti-terror montado após os ataques de Londres e Madrid, simplesmente se foram adaptando enquanto esperavam por novos recrutas.

Apesar de não se terem registado grandes ataques terroristas perpetrados pelo radicalismo islâmico durante dez anos, foram-se repetindo pequenos ataques, quase sempre ignorados pelo público devido à sua pequena efectividade. Em 2007, por exemplo, rebentou uma bomba improvisada na Bélgica que matou uma pessoa. Na Suécia, em 2010, um bombista suicida “apenas” se consegue rebentar a si mesmo, mas a tentativa existiu. Na Alemanha, em Março de 2011, um indivíduo radicalizado abateu dois oficiais dos Estados Unidos no aeroporto de Frankfurt. Em Março de 2012, Mohammed Merah assassinou a tiro dois soldados franceses, um rabino judeu e três crianças, uma com oito anos, outra com seis e outra com três anos. Em Julho de 2012, um bombista suicida do Hezbollah matou sete inocentes no aeroporto de Burgas, na Bulgária. Em Maio de 2013 Lee Rigby, um soldado inglês, foi brutalmente assassinado nas ruas de Woolwich por dois radicais islâmicos.

O primeiro ataque em solo europeu identificado como estando inequivocamente ligado ao Estado Islâmico, só aconteceu em Maio de 2014, quando um terrorista massacrou quatro inocentes no Museu dos Judeus da Bélgica.

Olhando para estas datas, compreendemos que a campanha de terror islâmico há vários anos se encontrava presente, mas com um impacto reduzido, em comparação com os últimos dois anos. Somente quando os terroristas atacaram o jornal “Charlie Hebdo” é que o mundo virou as suas atenções para este fenómeno, para o qual as autoridades e os especialistas há muito vinham alertando. Estávamos no dia sete de Janeiro de 2015, e já se iniciara a contagem decrescente para o gravíssimo atentado de Paris de 13 de Novembro, em que 137 inocentes morreram. Desde então, a campanha de destabilização nunca mais parou, culminando em 2016, mais um ano de terror.

Uma das grandes mudanças face a 2015, ano de vários ataques de grande dimensão, foi a frequência com que os “pequenos” ataques foram sendo feitos. Antes do ataque ao Aeroporto de Bruxelas, que matou 35 pessoas, houve uma série de esfaqueamentos nos transportes públicos franceses e alemães, que não resultaram em mortos.

A radicalização entre os imigrantes mais jovens e os descendentes de imigrantes, no entanto, já era visível. Um dos esfaqueamentos foi feito por uma jovem de 15 anos que tinha tentado juntar-se ao Estado Islâmico, mas foi impedida de viajar pela sua mãe. Em Essen, em Abril, dois adolescentes radicalizados atiraram uma bomba a um casamento, atentado que apenas não resultou em mortos por mero acaso.

Mas pouco depois, em França, Larossi Abballa, de 25 anos, assassinou um comandante de polícia e a sua mulher à facada. Abballa já tinha sido preso por recrutar terroristas em 2011, e entretanto os tribunais tinham-no soltado. Em 2016 voltou a atacar. Pouco depois, em Julho, Mohamed Bouhlel assassinou 86 inocentes na cidade de Nice, atropelando-as com um camião enquanto a multidão distraída via os fogos de artifício do dia da Bastilha. Apenas quatro dias depois, um refugiado afegão de 17 anos feriu 5 pessoas com um machado num comboio alemão. Dez dias depois, um refugiado sírio tentou perpetrar um atentado suicida que “apenas” feriu 12 pessoas. O pedido de asilo do sírio tinha, na verdade, sido rejeitado pelas autoridades, mas foi-lhe permitido permanecer na Alemanha devido a problemas psiquiátricos, para os quais estaria a ser tratado. Doze dias após a carnificina de Nice, dois terroristas entraram numa igreja na Normandia e executaram o Padre Jacques Hamel. A senda de esfaqueamentos continuou durante o resto do ano na Bélgica, em Itália e na Alemanha.

Todos estes actos de terror, com mais impacto ou com menos impacto, reforçam a instabilidade social e política que se vive na Europa. As agências de informação e segurança europeias têm conhecimento de que existem redes terroristas bem organizadas às quais estão a tentar dar caça. Muitas destas redes também se estão a apropriar de jovens com mentalidades mais débeis para continuarem a sua campanha de terror, algo que o elevado desemprego entre a juventude e a falta de oportunidades na Europa não estão a ajudar a dissuadir. É também considerado consensual que a entrada em massa de refugiados que se vive desde 2015, concorde-se ou não politicamente com ela, abriu uma grande falha de segurança na Europa pela escala do fenómeno: há muito tempo que a Europa não enfrentava ondas tão numerosas e densas de indivíduos pedindo asilo.

No entanto, a vigilância de perigos internos, incluindo a radicalização e recrutamento de cidadãos nascidos na Europa, também tem vindo a fracassar. Em Novembro, por exemplo, as autoridades alemãs detiveram um agente da “Verfassungsschutz”, o serviço secreto alemão, que se tinha radicalizado e estaria a fornecer informação aos restantes terroristas islâmicos. Novamente, algo que não é uma novidade, visto que os serviços secretos ocidentais foram repetidamente infiltrados pelas células terroristas comunistas durante os anos 70. O indivíduo tinha sido transferido para a “Verfassungsschutz” em Abril, e ainda não se sabe quanta informação passou aos seus colegas de terror.

Este episódio sublinha as dificuldades que as forças de segurança europeias enfrentam face às indecisões dos políticos e à imobilidade burocrática. O suspeito do recente atentado de Berlim, por exemplo, era um membro conhecido da rede extremista “A Verdadeira Religião”, encontrava-se numa lista de vigilância, já tinha sido previamente estado na prisão, em Itália, durante cinco anos, e existiam ordens para ter sido deportado há vários meses da Alemanha.

Os mercados de Natal também seriam um alvo, segundo as agências de informação. Um jovem alemão de origem iraquiana já tinha sido detido em Novembro em posse de explosivos, que o mesmo confessou ter planeado usar no ataque a um mercado de Natal. O terrorista de Berlim conseguiu, no entanto, organizar e realizar o seu ataque sem ser detido ou questionado uma única vez.

2016 termina, assim, com mais um ataque terrorista, um de muitos que marcaram o ano. Não se avista um 2017 pacífico no velho continente.

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Bruxelas treme: as perspectivas são negras para uma Comissão Europeia que averba derrotas atrás de derrotas. A deriva federalista está a revoltar os povos da Europa e, directa ou indirectamente, o futuro da UE vai ser sufragado em eleições em França, Itália, Holanda e Alemanha, enquanto o Reino Unido se prepara para obter vantagens no momento da partida.

Os burocratas, em Bruxelas, suspiraram de alívio e fizeram correr o champagne perante os resultados das eleições presidenciais na Áustria: ao contrário do que receavam, a vitória coube ao federalista e maçon Van der Bellen, que bateu (embora por curta margem) Norbert Hofer, o nacionalista que ameaçava fazer a vida negra à Comissão Europeia.

Mas foi um alívio de curta duração: pouco depois, os italianos foram a votos e rejeitaram liminarmente as reformas constitucionais propostas em Itália, causando a queda do Governo. A Itália juntou-se assim à lista de países que em 2017 terão eleições decisivas, nas quais o principal pomo de discórdia (explícito ou implícito) será a União Europeia.

Mesmo descontando a Alemanha, onde o partido Alternativa pela Alemanha está a subir nas intenções de voto mas não se encontra em posição de formar Governo, os países que podem cair nas mãos de partidos críticos da actual Comissão Europeia representam uma grande fatia da economia da UE, suficiente para a sua saída dinamitar o bloco.

Apesar de continuar a comportar-se como uma potência hegemónica, a Alemanha apenas representa algo como 20 por cento da economia da EU – praticamente o mesmo que o Reino Unido, que vai iniciar a sua saída em 2017 e representa quase 17 por cento. Caso a França, a Itália e a Holanda se juntassem aos britânicos na sua decisão de abandonar esta União de tendência federalista, o PIB da UE ficaria reduzido em metade.

O ‘lobby’ europeu pró-Comissão tem feito tudo o que pode para estancar a sangria. No entanto, as tentativas feitas no Reino Unido para anular o “Brexit” por “via administrativa”, ignorando a vontade popular, falharam redondamente: a Casa dos Comuns votou por uma enorme maioria o normal seguimento do processo de saída, e o Partido Conservador lidera as sondagens por 17 pontos percentuais.

Mas é em França que o desespero federalista mais se manifesta. Aí, as duas alternativas presidenciais com maior probabilidade de vitória pronunciam-se, cada uma à sua maneira, contra o rumo seguido nos últimos anos pela Comissão: o candidato conservador François Fillon aceita a manutenção da França na UE, desde que esta abandone os seus contornos federalistas e respeite a soberania dos Estados-membros; e a candidata “fracturante” Marine Le Pen propõe, pura e simplesmente, que o país abandone a organização.

Em Itália, as jogadas de bastidores de Matteo Renzi deram ao país um sistema eleitoral que, caso aprovado pelos tribunais, pode vir a dar uma maioria absoluta ao Movimento 5 Estrelas que lidera as sondagens. Este grupo de revoltados prometeu um referendo sobre a permanência da Itália no Euro, sufrágio cujas possibilidades de sucesso são elevadas.

Em pânico, Bruxelas já começou a reagir, e o plano é “mais Europa, menos democracia”. Pressionados a terem de provar que merecem existir, os parlamentares europeus estão a acelerar o processo de aprovação de leis, especialmente naquilo que os presidentes da União Europeia (e, para “facilitar”, existem três) definiram como assuntos prioritários, nomeadamente “investimento, empregos e crescimento”. Esta “aceleração” significa que se tenciona que a legislação chegue aos comités e às sessões plenárias já “pronta-a-servir” para ser aprovada por um Parlamento reduzido ao papel de mero fantoche. Um deputado europeu francês, Jean Arthuis, notou mesmo que tinha a impressão de que “a União Europeia era governada por um conselho de administração”, algo que considera que levou “a muito ressentimento e à ausência de debate parlamentar”.

No “espírito democrático” da UE, um acordo de bastidores definiu a partilha de poderes na União, dividindo os cargos importantes entre elementos de esquerda e direita do “centrão”. O cargo de presidente do Parlamento Europeu estava nas mãos de um socialista moderado, e os de Presidente do Conselho e de Presidente da Comissão de dois homens oficialmente “de direita”, e conjuntamente controlavam toda a agenda legislativa e executiva da organização. Este acordo efectivamente anulou a necessidade de os cidadãos votarem nas eleições para o Parlamento Europeu caso não exista um partido divergente ou eurofóbico no boletim de voto.

Mas mesmo esta ‘geringonça’ europeia já se espatifou, visto o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, prestes a perder o “tacho”, e vendo o projecto a cair à sua volta, ter preferido retirar-se de cena para se candidatar a um lugar no Parlamento alemão, e possivelmente a Chanceler da Alemanha.

A “grande coligação” estalou por completo graças à crise europeia. Os socialistas, que têm sofrido derrotas humilhantes, e se preparam para sofrer novas, decidiram recusar as políticas alemãs de austeridade, e falam abertamente em medidas de estímulo à economia e flexibilização dos limites orçamentais (onde foi que os portugueses já ouviram esta cantilena?). Os representantes dos países nórdicos, por sua vez, continuam a insistir em regras inflexíveis e em limites de deficit apertados. Criticam também fortemente o programa de estímulo do Banco Central Europeu, que foi estendido por mais mais nove meses na última semana, e sem o qual países como Portugal enfrentariam uma pesadíssima crise, e talvez um segundo resgate.

Apesar do discurso moralista, a UE convive mal com a democracia, e agora que enfrenta cisões internas está a lidar mal com o processo parlamentar. Sendo necessários 376 votos no Parlamento Europeu para eleger um novo presidente da câmara, parlamentares que até agora foram mantidos de fora estão a exercer o seu peso. Mas os representantes anti-UE, que têm sido mantidos de fora do processo decisivo, representam um quarto de toda a câmara, incluindo a maior fatia da delegação francesa. Os britânicos, apesar do desejo de sair, ainda têm a representação de 73 deputados europeus, a maioria dos quais exige termos mais simpáticos para o Brexit em troca de apoios temporários. As negociações para a saída do Reino Unido vão ter início em 2017, e o Governo de Londres procura ter o máximo de cartas na mão para o confronto com Bruxelas.

Neste contexto de caos, o melhor que os eurocratas conseguiram foi uma iniciativa disfarçada de “voluntariado” em que vão ser distribuídos estágios, a maioria não remunerados, entre jovens europeus à procura de trabalho. Intitulado “Corpo de Solidariedade Europeu” — um termo que os povos do sul da Europa, face à dureza das políticas e das palavras de Berlim, certamente consideram hilariante —, este programa está a revelar-se um ‘flop’. Se o objectivo de Bruxelas era reforçar a possibilidade de a UE vencer nas urnas, então terá de concluir que falhou em toda a linha.

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O Natal que se aproxima é uma data penosa para centenas de milhões de cristãos chineses. Um enorme número de convertidos nos últimos anos está a transformar a China na maior Nação da Cristandade – mas, tal como nos dias da Roma Antiga, os cristãos têm de praticar a sua fé escondidos das autoridades. O regime comunista, assustado com a força que ajudou a derrubar a tirania marxista na Europa, procura um acordo com o Vaticano para que este lhe reconheça o controlo da Igreja no país, de forma a conseguir amordaçar melhor os católicos. A assinatura desse acordo está iminente, mas os cristãos chineses apelam ao Papa para que não aceite os desígnios de Pequim.

Enquanto se acotovelam em compras de Natal que muito pouco têm de consentâneo com os ensinamentos de Jesus Cristo, os cristãos ocidentais não se apercebem do verdadeiro privilégio que é poderem manifestar a sua fé de forma livre. E, certamente, poucos pensarão naqueles que ainda hoje estão proibidos de o fazer. Parece não faltarem, mesmo, cristãos portugueses mais do que dispostos a receberem dinheiro de um regime que oprime diariamente outros cristãos.

Questionar-se-á o leitor: por que razão é o caso chinês mais importante do que qualquer outro dos numerosos casos de perseguição de cristãos no mundo? Afinal, fora do Ocidente, os cristãos são a minoria religiosa mais perseguida do planeta (ler caixa, nestas páginas). Na verdade, a China assume um papel decisivo no futuro da fé a nível global, visto que será brevemente a maior Nação da Cristandade. Estima-se que existam, à data desta publicação, algo entre 80 e 200 milhões de cristãos na República Popular da China. E se a actual taxa de conversão se mantiver, a China terá muito em breve o maior número de cristãos no mundo. Cristãos esses, no entanto, que vão permanecer sob a bota da repressão comunista que reina naquele país.

Até mesmo determinar o número certo de cristãos na China é uma tarefa difícil, pois o regime afirma que apenas existem 20 milhões de praticantes dos ensinamentos de Jesus Cristo na China. Mas o número de exemplares da Bíblia vendidos conta outra história. Apenas uma editora religiosa, a “Amity Printing” (à data desta edição, a última empresa que ainda tem permissão estatal para reproduzir a Bíblia na China), anunciou recentemente que tinha produzido 150 milhões de cópias, e que metade tinha sido editada para consumo interno.

As aplicações para telemóvel com o texto supremo dos cristãos tornou-se também imensamente popular entre as gerações mais novas, especialmente porque pode ser apagada caso o “comissário” do Partido se aproxime. E este número não engloba as inúmeras cópias ilegais, muitas transcritas à mão ou fotocopiadas, que enchem as igrejas clandestinas no país. Se o número de cristãos na China fosse aquele que as autoridades pretendem, então quem estaria a adquirir tantas cópias da Bíblia?

Segundo reportagens de jornalistas da BBC, muitos entretanto expulsos do país, este tipo de Igreja prolifera de forma anónima nos sítios mais inusitados, onde for possível organizar uma missa. Armazéns, cafés, caves, sótãos, tudo serve.

Comunismo impopular

Para o regime comunista, a ascensão do Cristianismo representa um desafio directo ao seu poder. Considera-se que a expansão da fé cristã no país, apesar da pesada repressão, se deve em grande parte ao falhanço do regime em providenciar uma boa qualidade de vida aos seus cidadãos, especialmente em comparação com a República da China, vulgo “Taiwan” ou “Taipei chinesa”. Outras medidas especialmente desumanizantes, como a desagregação forçada de famílias, os abortos forçados, ou a política de repressão da natalidade levaram muitos chineses a procurarem o conformo do cristianismo. Muitos foram os trabalhadores de fábricas forçados a ter de deixar as famílias para trás: o regime permite migração laboral sazonal, mas não permite que os habitantes rurais se mudem para as cidades sem um dispendioso visto.

Mas, para muitos jovens chineses, a adesão ao Cristianismo representa algo mais: a vontade de se ocidentalizarem, democratizarem e atirarem o regime velho e velhaco para o caixote do lixo da história – o que faz da luta anti-cristã das autoridades comunistas uma verdadeira cruzada política e ideológica.

A História não desmente essa leitura. João Paulo II apoiou as forças da liberdade contra os regimes que oprimiam metade da Europa, nomeadamente a sua pátria, a Polónia, onde o falecido Papa (canonizado em 2014) é considerado um herói nacional. Antes mesmo de ser eleito Papa, Karol Wojtyła apelou em 1975 a que os católicos portugueses saíssem à rua para enfrentar a tirania do PREC. “Os católicos têm de sair à rua, e já!”, terá afirmado ao então Bispo de Aveiro, incentivando-o a organizar as célebres manifestações dos católicos desse ano.

Pequim apercebeu-se dos perigos que o Cristianismo, mensagem de libertação por excelência, representa para o regime despótico e anti-espiritual de Pequim. Em 2015, o Partido Comunista demoliu 1500 igrejas só na província de Zhejiang, noutras os comissários andaram de casa em casa a confiscar as cruzes e Bíblias dentro dos edifícios.

Os fiéis ainda procuraram apelar aos tribunais, mas o facto de o advogado mais proeminente nestes casos, o doutor Zhang Kai, ter sido detido pela polícia secreta durante meses — sem direito a visitas ou representação legal — tendo só sido libertado em Março deste ano, mostra que o assunto é prioritário para Pequim.

Muitos padres e activistas cristãos não tiveram a mesma “sorte” que Kai. Thaddeus Ma Deqin, o Bispo Auxiliar de Shanghai, não é visto desde 2012. Ao que tudo indica, estará sob prisão domiciliária por ter rejeitado publicamente o controlo comunista da Igreja. Recentemente, numa manobra de propaganda que está a tornar-se habitual, surgiu uma “notícia” suspeita na Internet em que Ma Deqin aparentemente rejeitava as suas corajosas afirmações iniciais, afirmando ter sido influenciado por “pressões externas” e enaltecendo a liderança comunista do país… Quem teria colocado aquele ‘post’ na Internet? Por certo não foi o Bispo Auxiliar de Shanghai, que continua incomunicável, e portanto impedido de contactar os fiéis da sua Diocese.

Outro elemento do Clero chinês, o influente padre Pedro Yu Heping, que operava na clandestinidade no nordeste da China, foi recentemente encontrado morto a boiar no rio. A polícia decidiu de forma célere que a causa da morte foi suicídio.

Cristianismo com características comunistas

O conflito religioso no país intensifica-se por existirem, efectivamente, “duas igrejas” para cada credo: a versão oficial comunista e a versão clandestina. A Igreja Católica no país encontra-se sob o controlo directo do aparelho comunista desde os anos 50, tendo assumido o nome “Associação Católica Patriótica Chinesa”. É Pequim quem nomeia os bispos no país, e não o Papa, embora não seja raro um bispo nomeado pelo regime ir ao Vaticano pedir o perdão e a bênção do Sumo Prontífice. Mas também é comum existirem nomeados por razões políticas. A normalidade é o nomeado não aceitar o “privilégio”, ou Pequim não se dignar sequer ao trabalho de procurar um candidato. Cerca de 70 Dioceses no país encontram-se sem bispo. Adicionalmente, existem pelo menos mais de uma dezena de “bispos clandestinos”, mas assumir essa posição é arriscar uma longa estadia na prisão, ou pior.

Porém, o regime agora quer mudar um pouco o “modus operandi”, visto sentir que está a perder a batalha pelo coração dos chineses. O partido que em tempos tentou abolir a religião, quer agora alterar a mesma para a tornar “compatível com o caminho socialista do país”, conforme se reconhece num comunicado oficial dos comunistas. O Presidente Xi declarou, durante um discurso, que a religião cristã tem de “aderir à liderança do Partido Comunista Chinês e apoiar o sistema socialista com características chinesas”, notando que o Cristianismo deve “fundir doutrinas religiosas com a cultura chinesa”. De facto, uma comissão nomeada pelo Partido Comunista chinês trabalha neste momento na redacção de uma “nova versão” da Bíblia, mais “compatível” com o marxismo e com a “cultura” comunista oficial.

Acordo com Pequim

É numa lógica de reaproximação ao Vaticano que as autoridades chinesas estão a negociar um acordo com o Papa Francisco que, caso aprovado, o fará novamente chefe da igreja chinesa, mas sob controlo do regime. Aparentemente desejoso de estabelecer um “diálogo” a qualquer preço, o Sumo Pontífice está a ser criticado no Ocidente por uma política de cedência sistemática aos marxistas.

Apesar de ser doutrina da Igreja o Sumo Pontífice deter soberania absoluta sobre as nomeações episcopais, no novo acordo em negociação o Papa apenas poderá reconhecer os bispos que tenham recebido a aprovação prévia de Pequim.

Este acordo também está em linha com uma surpreendente aproximação do Papa Francisco aos regimes ditatoriais de esquerda. Desde o início do seu Pontificado, Francisco recebeu delegações chinesas e tem evitado contactos com representantes da oposição ao regime de Pequim. Os comunistas têm vindo a retribuir os gestos de boa vontade, tendo inclusive oferecido ao Papa uma elaborada estampa de seda com representações dos primeiros missionários cristãos na China, cujas viagens decorreram durante a Idade Média.

Não seria a primeira vez que um acordo desta natureza é assinado, especialmente na óptica de tentar reduzir a perseguição política sobre os crentes. A Igreja, aliás, concedeu ao regime comunista do Vietname, nos anos 90, poder de veto às nomeações de bispos. Mas o número de cristãos na China é muito maior do que neste país.

E o precedente histórico é preocupante. Na Polónia comunista, o regime e os católicos chegaram a um acordo similar de coabitação nos anos 50 apenas para os comunistas ignorarem os termos do acordo de forma repetida.

Entre as vozes que têm vindo a criticar o acordo agora em negociação com o Vaticano, encontram-se figuras como o Cardeal John Tong, Bispo de Hong Kong, que avisa o Papa de que os termos poderão não ser aceitáveis para os milhões de crentes que praticam o Cristianismo na clandestinidade. Outros receiam que a Igreja legitime desta forma a opressão comunista, e que não reconheça o que considera ser o martírio de milhares de opositores ao regime que perderam a vida durante a violenta repressão.

Entretanto, em Portugal, supostamente uma Nação católica, fazem-se votos de pesar pela morte de Fidel Castro na Assembleia da República, insultam-se chefes de Estado de países democráticos, e aceita-se a compra do país, às peças, por um dos regimes mais opressivos do mundo.

Celebrar o Natal em Portugal é muito mais fácil quando não se está a temer a vinda do comissário do Partido e uma estadia num campo de concentração. Verdadeiramente um “luxo”, entre muitos outros, que felizmente se conquistou no dia 25 de Novembro de 1975.

Cristãos entre as minorias mais perseguidas do mundo

Segundo a Sociedade Internacional para os Direitos Humanos, uma organização secular, 80 por cento de todos os actos de discriminação religiosa são dirigidos contra cristãos. Cerca de 100 mil cristãos perdem a vida todos os anos ou para a tirania comunista, ou para o islão ou hinduísmo radical. Facto que não costuma ser divulgado na Europa, apesar de a Europa estar a acolher milhões de pessoas que supostamente são perseguidas.

No Médio Oriente, o massacre de cristãos atingiu um nível tal que foi comparado a um “pogrom”. No Paquistão, por exemplo, não é raro hordas islâmicas “sublevarem-se” para massacrar cristãos inocentes. No Iraque, onde a população cristã numerava 1,5 milhões antes da desastrosa invasão dos EUA, a ascensão do Estado Islâmico e do radicalismo sem controlo significa que a maioria dos cristãos teve de fugir para países vizinhos, embora muito poucos tenham encontrado o caminho para a Europa. Em quase todos os países africanos com maiorias muçulmanas, os cristãos tendem a ser “caçados” e têm de praticar a sua religião em segredo.

Recentemente, o Patriarca de Jerusalém perguntou: “Alguém nos ouve a chorar? Quantas mais atrocidades devemos suportar antes de alguém, algures, vir em nosso socorro?”. Na Europa, enquanto os cristãos se apressam a ir às compras, este apelo de ajuda “passou ao lado”.

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HUGO NAVARRO

Parece que não falta, no insignificante Partido Socialista português, quem queira dar conselhos e lições a propósito da eleição de Donald Trump para o cargo de Presidente dos Estados Unidos da América.

Esse paternalismo ridículo e deslocado lembra-me uma célebre visita oficial que o inenarrável Otelo Saraiva de Carvalho um dia fez a Estocolmo, nos anos 70. Quando perguntaram ao primeiro-ministro Olof Palme como tinha decorrido o encontro com o militar português, Palme sorriu e disse: “Correu bem. Otelo passou uma hora a explicar-me como devo governar a Suécia…”. O ridículo é letal, mas os seres ridículos nunca dão por isso.

Agora, por cá, o presidente do PS, Sr. Carlos César, considerou com ar sisudo que os resultados das eleições presidenciais dos Estados Unidos da América devem ser avaliados com “a maior precaução” – e, a propósito, permitiu-se dar conselhos “à diplomacia europeia, à diplomacia portuguesa e aos governos”. Sem ter tido a coragem de dizê-lo, referia-se o Sr. César às políticas de imigração da nova Administração norte-americana, que prevêem a deportação compulsiva de imigrantes.

Se o Sr. César quisesse ser leal à verdade, evitando demagogias baratas, haveria de reconhecer que aquilo que Trump repetidamente anunciou como sua política foi a deportação dos casos mais graves entre os dois milhões de imigrantes ilegais com cadastro criminal nos EUA, e não a deportação dos onze milhões de imigrantes indocumentados que vivem naquele país.

Não sei o que poderá haver de tão horrível em querer deportar, para as suas terras de origem, quem entrou ilegalmente no país; nele se manteve sem qualquer preocupação de legalizar o seu estatuto; e nele, para cúmulo, se dedicou a uma vida de crime, muitas vezes envolvendo tráfico de drogas, uso de armas de fogo e agressões sexuais.

Mas, se quisesse ser verdadeiramente esclarecedor, o Sr. César poderia ter acrescentado que, segundo dados oficiais do departamento de Immigration and Customs Enforcement dos EUA, o actual Presidente, Sr. Barack Obama, entre 2009 e 2015, deu ordem de deportação a dois milhões e meio de imigrantes ilegais encontrados no território norte-americano (número que não inclui aqueles que foram recambiados logo ao chegarem à fronteira). E ainda falta contar aqueles que ele deportou no seu último ano de mandato, que agora está a chegar ao fim. Isto faz do Sr. Obama o Presidente que mais imigrantes deportou em toda a história dos Estados Unidos. O Sr. Trump, comparado, é um menino de coro, que apenas tem, claro, a desvantagem de não pertencer a uma minoria “politicamente correcta”.

Mas também a deputada Isabel Moreira tem conselhos a dar a propósito das eleições americanas. Não os dá, porém, “à diplomacia europeia, à diplomacia portuguesa e aos governos” apenas: dá-os à Humanidade inteira. Pois Moreira está com pena de um mundo “ignorante e sem qualquer experiência” que traz populistas como Donald Trump ao colo. Para a deputada socialista, Trump venceu as eleições graças à “exploração deplorável das pessoas mais afectadas pelos efeitos de uma má distribuição de rendimentos, pela pobreza, pela exclusão”. Ora, neste grupo, segundo Moreira, estão “milhões de pessoas sem credo em sistema algum, vivenciando interiormente um não-sistema”, em especial os “homens brancos e com baixas qualificações”, que “foram muito importantes na vitória de Trump” e possibilitaram, assim, a “vitória do fascismo” (palavras da própria). Não sei que mais deplorar neste (desculpem a palavra) “raciocínio”: se a absoluta falta de inteligência, se a demagogia primária, se a mais assanhada das clubites.

A esquerda ainda não conseguiu aceitar a derrota dos valores irrisórios em que assentam quer a sua governação quer o “politicamente correcto”, que vêm sendo estrondosamente rejeitados no Reino Unidos, nos EUA, em França e onde mais se verá. Como não pode, por uma questão de decoro, chamar cretino ao eleitorado, encontrou agora uma explicação para a vitória dos adversários (tanto nos Estados Unidos como na Europa): é que eles são “populistas”.

Recordo que, em Portugal, o termo “populista” era geralmente aplicado a quem, do centro para a direita, falava uma linguagem entendível pelo povo. Aplicado agora à política internacional, o “populismo”, tal como visto pela esquerda, envolve o uso de ideias “primárias”, demagogia e mistificação.

Mas digam-me: quem, melhor do que a esquerda, pode rever-se melhor nestes qualificativos?

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Contra quase todas as previsões e sondagens, Donald Trump foi eleito Presidente dos Estados Unidos da América do Norte. O seu inesperado triunfo faz tremer o “centrão” europeu, a braços com vários actos eleitorais nos próximos meses: depois de Trump, a classe média enfurecida já não pode ser domada nem esquecida como tem sido até agora.

No dia em que Trump venceu as eleições, duas mulheres na Europa deram saltos de alegria: Theresa May e Marine Le Pen. Foram, aliás, as duas únicas vozes da Europa Ocidental a enviar parabéns genuínos ao novo líder do mundo livre. Têm razões para estarem felizes.

A primeira-ministra britânica precisava desesperadamente de um aliado face a uma União Europeia vingativa. O 45º Presidente dos EUA, mostrando mais uma vez estar a seguir os passos de Ronald Reagan, admitiu que queria reatar a relação próxima que Reagan e Thatcher em tempos tiveram. Obama, cuja atitude perante o Reino Unido e a Europa sempre foi fria, tinha desdenhado do Brexit, prenunciando que as terras de Isabel II passariam “para o fim da fila” caso votassem a saída da UE. Com Trump, os britânicos podem agora esperar um acordo muito mais favorável de comércio livre, nem que seja pelo facto de muitos elementos do Partido Conservador, incluindo Liam Fox, o ministro do Comércio Internacional, terem ligações profundas com o Partido Republicano.

Marine Le Pen, por sua vez, vê reforçada a sua oportunidade. Enquanto a generalidade dos políticos europeus entrava em pânico, uma sondagem do jornal conservador ‘Le Figaro’ revelava que 56 por cento dos leitores franceses ficaram felizes por verem Donald Trump na Casa Branca. Marine descreveu a vitória como sendo “boas notícias para o nosso país”. Também são boas notícias para ela, pois revelam o quão perto pode estar do poder.

Em Bruxelas, o ambiente ficou gelado. O Presidente do Conselho Europeu mal deu os parabéns ao novo Presidente dos Estados Unidos, apenas sinalizando, de forma implícita, que os “eventos dos últimos meses devem ser tratados como um aviso para todos aqueles que acreditam na democracia liberal”. O impopular Presidente socialista de França, François Hollande, considerou que a vitória de Trump representava a abertura de “um período de incerteza”, e Angela Merkel tentou dar uma lição de moral e ética política ao novo líder americano, em vez de simplesmente lhe mandar os parabéns pela vitória.

Os seus receios têm fundamento, por toda a Europa movimentos similares começaram a alinhar-se para ganhar mais poder. Em Março, os eleitores holandeses preparam-se para dar um voto de confiança a Geert Wilders, um homem com um discurso bem parecido com o de Trump, especialmente em relação à imigração islâmica. Wilders também quer realizar um referendo sobre a permanência da Holanda na União Europeia, sufrágio que os eurocratas acreditam que podem perder.

Na Alemanha, o partido Alternativa pela Alemanha, cuja ascensão representa a revolta dos eleitores contra as políticas imigratórias perseguidas por Merkel, prepara-se para conquistar uma boa fatia do parlamento federal visto que, segundo as sondagens, tem quase tantos votos como o Partido Social Democrático.

Todos estes partidos vão a jogo com um eleitorado similar ao que elegeu Trump, e que estão revoltados pelas mesmas razões. Os avisos do descontentamento na Europa há muito que são enviados para as capitais, onde são ignorados pelos políticos. Nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, realizadas em 2014, os partidos eurocépticos conquistaram um quarto da Câmara. Por outro lado, ninguém esperava que os cidadãos do Reino Unido votassem a favor do abandono da União Europeia, mas foi precisamente o que aconteceu. Ambos estes eventos foram abordados como eventos isolados, pequenos azares de percurso.

No entanto, a crise económica que se vive na Europa é bem mais severa do que a que se vive nos EUA. Há quase uma década que a economia europeia se encontra estagnada. Em países como Portugal, Itália e França, os rendimentos nunca recuperaram desde a última recessão. Os únicos países que prosperam na União Europeia são a Alemanha e o Reino Unido, e um deles está a dirigir-se para a porta de saída. Foi também a Alemanha que abriu incondicionalmente, sem sequer debater com os restantes Estados-membros com os quais tem acordos de fronteiras abertas, as suas portas a milhões de imigrantes ilegais. Entretanto, o terrorismo islâmico, bem como o seu encobrimento e a frouxa resposta das autoridades abalaram qualquer sentido de segurança que os europeus ainda tinham. Mas a vitória inesperada de Trump mostra como as maiorias silenciosas podem estar próximas da vitória: tanto na América do Norte como no continente europeu.

Efeito ‘boomerang’

Hillary Clinton entrou no dia 8 de Novembro absolutamente confiante em que seria a 45º Presidente dos Estados Unidos, e a primeira mulher a ocupar o cargo. Ninguém na sua vasta corte duvidava do resultado final. E assim se manteve a “Clintonlândia” até ao último momento.

A imprensa ajudou a cimentar essa ideia, criando uma imagem de Trump que pensavam fatal para a candidatura “politicamente incorrecta”. As propostas do candidato republicano eram sistematicamente classificadas como ridículas, como o controlo da imigração ilegal mexicana ou a promessa de resposta firme às desonestas políticas económicas chinesas. Principalmente, a imagem que foi construída foi a de um imbecil, e todos aqueles que discordaram desta ideia foram incluídos no que Clinton denominou como “cesto de deploráveis”. Milhões de americanos de classe média e baixa foram enxovalhados pela sua escolha democrática, outros tiveram de esconder a sua opção com medo de represálias sociais dos activistas de esquerda.

A fúria dos derrotados está à vista de todos. Face à vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais, os activistas de esquerda reagiram com toda a ‘graciosidade’ de uma claque de futebol fortemente alcoolizada. Acicatados por “controleiros” marxistas – que não perderam tempo em distribuir cartazes e panfletos do movimento “Alternativa Socialista” – estes jovens saíram às ruas, destruíram propriedade, agrediram apoiantes do adversário (incluindo idosos) e, numa demonstração do seu “patriotismo”, queimaram bandeiras dos Estados Unidos. A sua falsa dedicação à democracia fica bem ilustrada pelo pedido feito ao Colégio Eleitoral dos EUA para não eleger Trump, um pouco com os radicais britânicos continuam a exigir um segundo referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia. Países diferentes, métodos iguais.

No entanto, a máquina mediática continua a dar a estes activistas uma voz desmesuradamente grande face ao eleitorado que verdadeiramente representam. Hillary Clinton apenas conquistou 55 por cento do voto jovem, muito menos do que os democratas costumavam obter. Donald Trump reuniu 40 por cento dos votos das pessoas com menos de 25 anos, e o resto foi em grande parte para Gary Johnson, o candidato libertário cuja visão económica se aproxima mais dos Republicanos.

Nos EUA, o Partido Democrático há vários anos que abandonou a classe trabalhadora e a classe média, verdadeiras construtoras da prosperidade daquele país. O antigo Presidente Bill Clinton, que foi eleito com os votos destas pessoas, terá avisado Hillary para não os ignorar. Mas a “corte imperial” da candidata recusou dar-lhe ouvidos: havia a certeza absoluta de que os cidadãos dos Estados da chamada “cintura de ferrugem” (assim chamada pela quantidade de fábricas abandonadas) iriam votar no Partido Democrático.

Os democratas, no entanto, preferiram apostar em “causas fracturantes”, ao pior estilo do Bloco de Esquerda português. Até ao último minuto, a campanha de Clinton continuou a discutir o feminismo, os direitos dos ditos “LGBTQ” (uma sigla para os vários grupos homossexuais que apenas fica maior e mais complexa com os anos) e os direitos das minorias. No processo, os problemas da maioria passaram ao lado: a desindustrialização, o desemprego, a destruição da família, a criminalidade, a imigração ilegal.

Donald Trump, por sua vez, foi o primeiro candidato em décadas a discutir abertamente as dificuldades que estes grupos enfrentam, e eles deram-lhe um mandato para ser Presidente. E um dos Presidentes mais poderosos das últimas décadas, visto que o seu partido conquistou maiorias absolutas em ambas as Câmaras do Congresso e controla os Executivos de dois terços dos Estados norte-americanos. O sucesso da aposta nas “causas fracturantes” teve um resultado de ‘boomerang’: há 90 anos que os democratas não tinham tão pouco poder dentro do país.

Colapso socialista

Também na Europa a tendência dos partidos socialistas é para o colapso eleitoral. Tendo optado pelas “causas fracturantes”, perderam o apoio das classes médias e trabalhadoras, que transferiram o seu apoio para partidos conservadores, nacionalistas ou radicais de esquerda.

No Reino Unido, por exemplo, é o Partido Conservador que defende uma política de harmonização das relações laborais que dê mais representação aos trabalhadores nas empresas. Entretanto, o dito Partido Trabalhista alterna entre o marxismo do seu líder e o “politicamente correcto” dos europeístas londrinos – ambos desligados das realidades mais prosaicas da vida real.

Em Espanha, o PSOE está preso numa luta sem tréguas com o Podemos, enquanto o único líder preocupado em governar é o conservador Mariano Rajoy.

Na Holanda, os votos no partido eurocéptico e anti-islamização provêm em grande parte do colapso do Partido Trabalhista, que passou de 25 por cento dos votos para apenas 10. É expectável que praticamente desapareça nas próximas legislativas.

Em França, o Partido Socialista emergiu derrotado das eleições regionais após ter falhado no seu objectivo de reduzir de forma significativa o desemprego. Muitos dos seus eleitores também se ressentem de o país estar controlado pela poderosa Alemanha. Tendo grande parte do seu eleitorado trabalhador fugido para a Frente Nacional, este ano os socialistas não sonham sequer em chegar à segunda volta das eleições presidenciais.

A irrelevância dos socialistas deixa o poder na Europa a ser disputado por conservadores anti-Europa, como o Partido Popular Dinamarquês, conservadores pró-Europa, como a União Democrática Cristã de Merkel, nacionalistas como a Frente Nacional francesa e radicais de esquerda como o Syriza e o Podemos. Pelo menos dois destes grupos estão hoje a preparar a sua procissão a Washington. Theresa May, primeira-ministra do Reino Unido, já é a primeira convidada para aparecer na Casa Branca de Trump a fim de se reatar a “relação especial”. Certamente será recebida na presença do busto do compatriota Winston Churchill. Busto esse que Barack Obama, num gesto depreciativo para com o histórico líder, mandou retirar da sala oval.

Em Bruxelas, Berlim e Paris, os resultados da governação Trump vão ser analisados ao detalhe. Apesar de alguns “iluminados” terem previsto uma imediata recessão após uma vitória de Trump, os economistas estão a rever os planos do 45º Presidente dos Estados Unidos, e a dar a sua aprovação. Afinal, o falecido Ronald Reagan enfrentou mais do que uma vez o Japão para proteger as indústrias americanas, e os anos 80 foram um período de enorme prosperidade para os Estados Unidos, pelo menos antes de o acordo NAFTA, da autoria de Bill Clinton, ter levado a que muitas dessas fábricas abandonassem o país.

Armado com o tesouro de um dos países mais ricos do planeta, Trump planeia reconstruir a infra-estrutura dos Estados Unidos, corrigir o desastroso programa de saúde de Obama (que fez disparar em mais de 100% os prémios dos seguros de saúde da classe média) e diminuir os punitivos impostos sobre o capital implementados pelo Partido Democrático, de forma a captar dinheiro americano que se encontra inutilizado fora do país. Caso tenha sucesso, irá dar ânimo aos europeus que estão fartos de uma década de políticos ineficazes.

No momento do voto, quem elege políticos é a maioria silenciosa, que começou a gritar bem alto.

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Francisco Henriques da Silva

Embaixador

No Centro e Leste europeu, a adesão à UE significou, no essencial, a abertura de fronteiras e a liberdade de movimentos: reabriam-se portas que não se voltariam a fechar.

Um dos problemas por que sempre me interessei foi o de saber como é que os países da Europa Central aderiram tão espontaneamente à NATO e à União Europeia e, bem assim, o inevitável encadear de questões conexas que, invariavelmente, carecem, ainda hoje, de respostas claras e precisas: porque é que aderiram? Como é que as instituições e países que integravam aquelas organizações os acolheram e porquê? O que é que significou, em termos concretos, a inserção nessas novas estruturas? Como é que as populações e a opinião pública desses países reagiram? Etc.

Não creio serem necessárias grandes explicações para elucidar a necessidade, a pressa e, mesmo, o atabalhoamento do “lado de cá” em integrar, de qualquer maneira, os países que pertenciam ao Pacto de Varsóvia e que, agora (refiro-me ao período pós-1989, ou seja, na sequência da queda do muro de Berlim), podiam vaguear na periferia da NATO e da UE, sem rumo próprio e sob risco de enfrentarem perigosos vazios de poder ou de enveredarem por caminhos ínvios.

A libertação do jugo da União Soviética e os anti-corpos que todos estes povos tinham gerado, ao longo de décadas, em relação a Moscovo, aos russos e ao comunismo fez com que no relativamente curto espaço de 10 anos integrassem a Aliança Atlântica, matéria em que, como se sabe, Washington desempenhou um papel fundamental. Em suma: as ovelhas voltavam ao redil. Com efeito, em 1999, a Polónia, a Hungria e a República Checa aderiam à NATO, outros seguir-se-lhes-iam.

Subsistia, porém, uma questão de fundo: se os comunistas, os seus simpatizantes e “compagnons de route” estiveram mais de quarenta anos no poder, como é que perderiam os velhos hábitos, tiques e manias e se convertiam muito rapidamente ao novo catecismo da Democracia, do Estado de Direito e da Economia de Mercado? Por ora, “No Comment!”. Não vou por aí. Direi apenas que o passado não se apaga, como alguns pensam, com a passagem de uma esponja molhada no quadro negro pintado a giz.

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MIGUEL MATTOS CHAVES

Dado estar a decorrer o processo de discussão sobre o que será o novo Orçamento Geral do Estado para 2017, renovo aqui as minhas sugestões de medidas concretas para que Portugal possa enveredar pelo caminho do desenvolvimento (de que muito se fala, mas que poucos parecem perceber como se faz) necessário a proporcionar o bem-estar dos portugueses.

Por diversas vezes publiquei estas sugestões e inclusivamente escrevi-as em cartas dirigidas aos anteriores ministros da Economia e das Finanças, às quais não obtive resposta.

O anterior Governo, das minhas sugestões apenas acolheu três:

  1. Desenvolver e valorizar os Certificados de Aforro, medida que foi entretanto bastante diminuída na sua concepção inicial;
  2. Proporcionar a particulares o investimento em certificados do Tesouro;
  3. Baixar a taxa de IRC, o que acabou por fazer, embora esse abaixamento tenha agora sido interrompido pelo actual Governo, o que é pena.

Quanto a uma outra proposta – a criação do Banco de Fomento -, o Governo anterior fingiu que o criou (no papel e instalações e quadros bem pagos) mas até agora não funcionou. O actual Governo também nada quer fazer nesta matéria, ao que parece.

Como o meu primeiro partido é Portugal, renovo e relembro as minhas propostas, lançando um desafio claro: faça este Governo o que já devia ter sido feito pelo anterior, para que Portugal entre na senda do desenvolvimento real, não no dos discursos ocos a que temos vindo a assistir. E elas são apenas onze, bem simples de implementar, se houver competência e vontade política:

Banco de Fomento

Pôr a funcionar o Banco de Fomento, que se destina a financiar Novos Projectos Industriais ou do sector Primário (agricultura e pescas) cujos promotores têm o projecto, a ideia, o ‘know-how’ dos mercados e das técnicas de produção, mas que não têm dinheiro para os “construir”. Os fundos deste banco proviriam do BEI (Banco Europeu de Investimentos), dos fundos do horizonte 2020, na parte do novo investimento, e dos juros cobrados aos novos empréstimos concedidos.

  • Leia este artigo na íntegra na edição impressa desta semana.

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Por esta altura já o Reino Unido deveria estar em colapso, a Escócia prestes a separar-se de Londres, a economia em ruínas, a monarquia abolida e os sete cavaleiros do apocalipse a passear pelas ruas da City. Isto, claro, segundo a campanha negra dos europeístas radicais. No mundo real, não só o Brexit está quase a acontecer sem grandes percalços, como agora várias agências financeiras dizem que a versão “saída imediata” sem negociações não será uma má opção para Theresa May. 

O Reino Unido está de saída da União Europeia, e os federalistas europeus estão decididos a tentar travar o processo, ou pelo menos a torná-lo o mais difícil possível para os britânicos. Subiu de tom, como seria previsível, o chorrilho de ameaças e previsões catastróficas para o Reino Unido.

Nada a que os ingleses não estejam habituados. Antes mesmo do referendo, os ditos “especialistas” avisavam que a economia do país iria entrar em colapso assim que se votasse a favor da saída da UE. O voto aconteceu, o Verão passou e o desemprego no Reino Unido continua baixo, o mercado imobiliário continua forte, e o consumo aumentou. Tudo em contra-ciclo com a estagnação total que se vive na União Europeia, onde o desemprego continua elevadíssimo, especialmente entre os jovens, e o consumo em queda. As taxas de juro da dívida do Reino Unido continuam controladas, e o deficit foi reduzido em seis mil milhões de euros.

Para todos os efeitos, o Reino de Isabel II é um dos países mais prósperos e economicamente dinâmicos da Europa. A OCDE, cujo secretário-geral fez algumas previsões catastróficas sobre os impactos do Brexit, já veio a público admitir que não tinha acertado devido às acções rápidas e inesperadas do Banco de Inglaterra. Um comentário que acaba também por ser mais uma “bofetada sem mão” na União Europeia, pois cimenta a ideia de que o controlo da sua própria moeda permitiu ao Reino Unido manter a prosperidade.

Estabilidade total

Na frente política, não só o Partido Conservador conseguiu eleger velozmente uma sucessora para o primeiro-ministro David Cameron, como derrotou de tal forma a oposição que o semanário ‘The Economist’ considera que a Grã-Bretanha vai ter essencialmente um “regime de partido único” nos próximos anos.

Com efeito, o Partido Trabalhista, principal formação oposicionista, vive em clima de guerra civil depois de o seu actual líder, Jeremy Corbyn, ter dado alento às correntes trabalhistas marxistas mais radicais, cuja posição face à UE é semelhante à do PC portugues. O maior partido britânico abertamente pró-UE, o Liberal Democrata, é geralmente aplaudido com fanfarra no Parlamento Europeu, mas conta com um total de 8 deputados em 650 na Câmara dos Comuns, sendo efectivamente o PAN em versão inglesa. Segundo as sondagens, se Theresa May convocasse eleições, conquistaria uma maioria absoluta ainda mais expressiva, quase dois terços do parlamento.

Já na “província” descontente da Escócia, que recebeu tanta atenção da imprensa, a opinião pública virou bruscamente contra a saída da União britânica. Segundo as novas sondagens, a maioria absoluta dos escoceses deseja permanecer no Reino Unido e nem quer ouvir falar em novo referendo.

“City” fica em Londres

Outra ameaça constante é a de que o sector financeiro do Reino Unido, concentrado na histórica City of London, iria abandonar o país, causando um enorme “buraco” económico, visto representar uma parcela substancial do PIB nacional. O que a Bloomberg noticiou esta semana, no entanto, é que os “oráculos da folha de excel” se esqueceram de um “ligeiro” pormenor: as empresas precisam de escritórios para operar, e não existem edifícios comerciais suficientes na Europa para albergar todas as empresas actualmente sediadas na “City”. E cada uma destas empresas precisa geralmente de edifícios com capacidade para albergar vários milhares de funcionários num único local.

Ao todo, estima-se que um grande êxodo da “City” exigiria um milhão de metros quadrados de espaço comercial de qualidade na Europa continental. Dublin, geralmente citada como a cidade preferida para o hipotético exílio dos inúmeros bancos e seguradoras sediados em Londres, tem o seu espaço comercial quase totalmente ocupado por empresas de tecnologia. Entretanto, as torres e arranha-céus de Paris, Amesterdão e Frankfurt estão quase totalmente ocupados.

Face a estes constrangimentos, as empresas terão de considerar se os custos de sair da City valem a pena. A Moody’s certamente considera que não, notando que mesmo na eventualidade de um Brexit imediato “os impactos directos seriam modestos” e sentir-se-iam principalmente através de “um ligeiro aumento das despesas administrativas” algo que a empresa considera que reduziria um pouco a lucratividade, mas que “pode ser facilmente gerido”.

“Leave now!”

Desmascaradas as previsões catastrofistas e provado o acerto da decisão de abandonar o navio fantasma da Desunião Europeia, muitos dos colegas parlamentares de Theresa May defendem agora que a primeira-ministra avance para uma saída imediata. Richard Tice, um dos líderes do movimento “sair significa sair”, afirmou mesmo que era preferível sair “sem acordo do que com um mau acordo”, uma opinião com a qual uma grande parte do Governo concorda, incluindo o ministro encarregado da pasta do “brexit”, David Davis.

Há sinais de que a cautelosa Theresa May terá ouvido os conselhos dos seus colegas de partido, mas para já a primeira-ministra não quer abrir o jogo. Theresa afirmou, no entanto, que não receava a ameaça de veto das negociações de saída por parte de algum Estado-membro: a líder ‘tory’ tem a certeza de que “os 27 vão assinar um acordo connosco” , pois apenas têm a ganhar com isso, e não deixará de ser “ambiciosa” nas suas exigências.

Tem espaço de manobra: a UE encontra-se politicamente fragilizada, dividida num número de subgrupos que não se entendem entre si. Por outro lado, o Parlamento Europeu nomeou um conhecido federalista para encabeçar as negociações com o Reino Unido, dando sinal de que não aceitará menos do que uma rendição total e completa de Londres. Logo, se se trata de guerra sem quartel, em vez de esperar dois anos de “pântano”, o Parlamento em Londres pode simplesmente declarar que o Reino Unido já não faz parte da UE, e o país reconquistará instantaneamente a sua plena soberania. Apesar de os europeístas gritarem que tal seria “ilegal”, não existe qualquer tribunal com jurisdição para “julgar” o Reino Unido, e a UE não possui um exército para forçar os britânicos a aceitar as exigências de Bruxelas.

Comércio continua

Fora da UE, mesmo que unilateralmente, o Reino Unido continuará a exportar para todo o planeta segundo as regras da Organização Mundial de Comércio. As temidas “taxas alfandegárias” para os produtos britânicos entrarem na UE não ultrapassarão, segundo revelou o jornal ‘The Telegraph’, a média de 2,4 por cento. Certos produtos, como automóveis ou têxteis, poderão pagar mais: 10 ou 12 por cento. Mas os especialistas notam que, como a maioria das exportações do Reino Unido nestes segmentos é de alto valor e baseada em marcas de luxo, o impacto não será tão grande como esperado. Note-se que muitos produtos, como por exemplo a vasta maioria dos aparelhos electrónicos de que os europeus tanto gostam, têm origem em países fora da UE, e nem por isso se deixam de vender. Países como a pequena Islândia permanecem fora do mercado único, e não faliram.

Por sua vez, o Reino Unido fica também livre para reactivar as negociações de um espaço de comércio livre na Commonwealth, projecto que teve de ser abandonado em 1973. Tanto o Canadá como a Austrália e a Nova Zelândia já mostraram abertura à ideia. O primeiro-ministro da Austrália afirmou durante a conferência do G20 que os planos informais já se encontravam numa “fase avançada”, que a Austrália está a prestar “assistência técnica” nos acordos comerciais, e que tinham intenção de ter um acordo assinado “rapidamente”, assim que o Reino Unido saísse de vez da UE.

Theresa May está a preparar a sua estratégia para o brexit, mas os europeístas têm de se convencer de uma vez por todas de que “brexit significa mesmo sair”. A bem ou a mal.

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