Internacional

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MIGUEL MATTOS CHAVES

É tempo de ser o mais claro possível e dizer às pessoas o que está em causa com a velha discussão sobre o Modelo de Organização Europeu, para que cada um decida por si próprio o que quer defender.

Quem é Europeu convicto (ou seja, a favor da Europa unida)?

Actualmente existem três modelos, três grupos de opinião:

  1. – Os que defendem a Europa das Nações Soberanas, a Europa intergovernamental;
  2. – Os que defendem a Europa Federal, os da Integração Europeia;
  3. – Os que defendem a Europa a duas ou mais velocidades.

Todas as pessoas que integram estes três grupos são europeístas convictas, todos estes grupos de opinião são europeístas.

Quem é contra a Europa unida? Dois grupos são contra esta União europeia: 4º- Os que rejeitam esta U.E. capitalista pois queriam ver, em sua substituição, uma Europa comunista; e 5º- Um outro grupo, que são os denominados “Eurocépticos”. Estes, ou por desconhecerem os modelos diversos dos europeístas, acima enunciados, ou por opção de pensamento, têm grandes dúvidas sobre a bondade, sobretudo, da Europa Federal, a da Integração.

Nota: que fique muito claro o que acima se disse. Estes são os factos. O resto do que se tem dito denota ou uma pura e grave ignorância ou, pior do que isso, uma gravíssima má-fé e um desrespeito total pela informação e formação a que todos os portugueses devem ter direito.

Acresce que todos estes grupos de pensamento são legítimos, pois todas as pessoas têm o direito a pensar e a defender o que entendem. A não ser assim, não me falem em democracia.

Antes de descrever cada um dos cinco grupos de pensamento, desvendo já a minha preferência, ou seja, aquele que é o modelo que eu defendo:

Como o venho dizendo desde 1990, defendo o 1º grupo, ou seja, o grupo dos que defendem a Europa das Nações. A União de países, voluntária, unidos na Paz e no Progresso, mas sem qualquer transferência ou alienação dos direitos Soberanos dos Estados Nacionais.

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Miguel Mattos Chaves

A Comissão Europeia, por iniciativa do seu Presidente, Jean-Claude Juncker, apresentou um documento denominado “Livro Branco da Comissão Europeia sobre o futuro da Europa”. Analisemos as cinco propostas nele contidas, antecipando a participação de todos quantos queiram dar a sua opinião, séria e fundamentada, numa troca de pontos de vista informativa e que contribua para o verdadeiro esclarecimento dos portugueses. Por nós, está aberto este vital debate público!

Nas vésperas da Cimeira dos Chefes de Estado e do Governo que se reunirá em Roma no próximo dia 25 de Março, destinada a celebrar o 60º aniversário da assinatura do Tratado de Roma, o tratado fundador das Comunidades Europeias, hoje União Europeia, a Comissão decidiu relançar o debate sobre o futuro da União.

Neste documento, a Comissão propõe cinco cenários para o futuro da União dos países europeus, agora a 27 com a saída do Reino Unido, no que se refere ao Modelo de Organização.

Este livro é apresentado como “uma contribuição da Comissão” e destina-se a proporcionar a abertura de uma discussão pública e alargada, sobre qual o Modelo de União que os Estados deverão adoptar para enfrentar o futuro, no seio das populações dos Estados-membros.

Cabe ao nosso semanário contribuir para informar devidamente os cidadãos de Portugal sobre o conteúdo do “Livro Branco”, e sobretudo sobre as propostas concretas nele contidas, de forma a que os nossos leitores, suas famílias, seu amigos, ou colegas de trabalho, possam saber em concreto, sem os famigerados “filtros”, o que está em causa.

Tratamos os nossos leitores como Seres Humanos inteligentes e capazes de ler e de perceber o que se propõe. Não os tratamos como outros órgãos, que afirmam que os portugueses não percebem nada sobre este tema.

Vamos então ao documento propriamente dito.

Como introdução Jean-Claude Juncker afirmou: “Há sessenta anos, os Pais Fundadores da Europa escolheram unir o continente mais pela força da lei do que pela força das armas. Podemos estar orgulhosos do que conseguimos até hoje”. E mais adiante: “Na celebração do 60º aniversário do Tratado de Roma, é tempo de uma união da Europa a 27 determinar qual a forma para o seu futuro”, acrescentando ainda que “o Livro Branco da Comissão apresenta uma série de diferentes formas, que deverão ser escolhidas pelos 27 Estados. É o princípio do processo, não o fim, e espero que agora tenha lugar um honesto e alargado debate”. E Juncker termina o seu discurso com a frase “temos o futuro da Europa nas nossas mãos”.

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FRANCISCO HENRIQUES DA SILVA

Embaixador

O Ocidente enfrenta hoje uma crise de refugiados por culpa, não de Bashar al-Assad, mas de quem “decretou” em 2011 que Assad tinha de ser derrubado. Barack Obama declarou-o inequivocamente em 18 de Agosto desse ano. Tratou-se de uma ideia idiota, tão idiota quanto o foram os desastrosos derrubes de Muammar al-Qaddafi, na Líbia, em 2011, e de Saddam Hussein, no Iraque, em 2003. E estamos, ainda hoje, a viver com as consequências. Quanto aos refugiados, rejeito o conceito de que a Europa tem de integrá-los. Não, não tem. Estes têm, isso sim, de obter garantias quanto à sua segurança, têm de ser alimentados, tratados e escolarizados, mas, no essencial, devem ser preparados para regressarem à Síria tão rapidamente quanto possível.

Concentrarmo-nos no problema da Síria e dos refugiados esquecendo-nos do quadro geopolítico global em que estas duas questões conexas se desenvolvem – o Médio Oriente – só o podemos fazer por mera abstracção e sem correspondência com a realidade.

Com efeito, o Estado Islâmico, considerado por muitos como artificial, mas com os atributos reais de Estado (território, população, administração, forças armadas, finanças e, inclusive, cunhagem de moeda própria), apesar de variáveis, é o verdadeiro epicentro regional e, por conseguinte, um actor incontornável.

Podemos considerar que o Estado Islâmico (Daesh) está em recuo, o que não quer por forma alguma dizer que a respectiva erradicação esteja iminente ou seja sequer previsível num horizonte temporal próximo, muito embora tudo aponte para que, a prazo (quem sabe se, ainda, no ano em curso), a queda seja inevitável. Todavia, as metástases, espalhadas um pouco por toda a parte, não desaparecerão facilmente.

Enfim, o fim do Daesh depende das circunstâncias e das quatro potências que contam na região: a Turquia, o Irão, a Arábia Saudita e Israel. Os grandes actores são sem dúvida os dois primeiros, que assumirão um papel de primeira linha ao longo deste ano. Até porque os EUA e a Rússia presumivelmente vão querer sair de cena, de uma forma ou de outra.

Essencialmente, está-se perante um problema do Médio Oriente e, nesse entendimento, o palco fica reservado para os actores locais, designadamente para a Turquia sunita e para o Irão xiita – os qualificativos não são indiferentes. Ambos irão competir na guerra da Síria, até porque têm interesses específicos no respectivo desfecho.

A Turquia vai concentrar-se no seu objectivo principal, o combate aos curdos sírios que lhe são hostis, e só secundariamente nos ataques ao Estado Islâmico. Concentrará os seus esforços de guerra no Norte da Síria, evitando confrontar a Rússia e o Irão.

O Irão, por afinidades político-religiosas, irá empenhar-se na defesa do regime de Assad, na consolidação dos ganhos que já alcançou no terreno e na futura reconstrução do país, em que a Rússia e a China desempenharão, presumivelmente, um papel secundário.

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Activistas radicais, indignados profissionais e artistas “politicamente correctos” continuam a fazer manchetes, mas um olhar mais cuidadoso e atento revela-nos que as maiorias silenciosas continuam a apoiar a firmeza de Trump e a saída do Reino Unido da União Europeia. Apesar do ruído, os principais partidos políticos de ambos os países mantêm-se no caminho escolhido, demonstrando que as suas bases de apoio são muito maiores do que a “narrativa” dominante indica.

As primeiras duas semanas do mandato de Donald Trump como Presidente dos EUA foram agitadas. Enormes manifestações varreram o país, decretos executivos foram emitidos e logo anulados por juízes inconformados com a reviravolta decidida democraticamente, nas urnas, pelos eleitores norte-americanos. Como de costume, certas “sondagens” apontam Trump como “um dos líderes mais impopulares de sempre” e já há quem se ponha a congeminar meios de remover Trump do cargo para que foi eleito. E, no entanto, o Partido Republicano mantém-se maioritariamente firme no rumo traçado e a sua base social de apoio permanece leal a Donald Trump, apesar das muitas previsões em contrário.

Similarmente, a acreditar nas notícias vindas de Londres e arredores, o “brexit” estaria em vias de fracassar devido a “arrependimentos” e mudanças de atitude entre os deputados da Casa dos Comuns: a votação parlamentar – dizia-se – estava a inclinar-se vertiginosamente para revogar no Parlamento o “não” obrido no referendo. E, no entanto, a Câmara dos Comuns acabou por aprovar calmamente o início do “brexit” por uma maioria esmagadora de deputados: 498 votos a favor, 114 contra. Até metade do principal partido da oposição votou a favor da decisão do Governo. E, apesar da corrente desinformação sobre hipotéticas “dissidências” dentro do partido do Governo, apenas um deputado conservador desafiou a decisão de Theresa May de respeitar a vontade popular.

Sem qualquer julgamento político ou moral sobre as políticas de Trump ou do brexit (essa posição cabe ao estimado leitor), o que continua a ser largamente ignorado é que, para todos os efeitos, os principais partidos políticos apoiam os rumos escolhidos no Reino Unido e nos Estados Unidos, mantendo-se claramente mais populares do que a “narrativa” dominante dá a entender e tornando a derrota de ambos muito improvável nos próximos anos.

Estudos há muitos…

As “sondagens” de opinião sobre a popularidade de Trump que têm feito parangonas, ao contrário do que foi noticiado pela imprensa portuguesa, estão longe de ser unânimes. Entre os principais estudos de opinião chega a haver discrepâncias de 16 por cento. Organizações como a CNN ou a Gallup dizem que 53 por cento dos americanos “não aprovam” a presidência de Trump e apenas 44 por cento aprovam. Um estudo do semanário “The Economist” aponta para um empate. E tanto o jornal “Político” como a empresa “Rasmussen Reports” indicam que mais americanos aprovam a liderança de Donald Trump do que desaprovam.

Existem sinais de alguma pressão social e mediática sobre os apoiantes de Donald Trump. As sondagens realizadas directamente por entrevistadores tendem a ser desfavoráveis ao Presidente, enquanto as sondagens anónimas tendem a ser pró-Trump. Divergências deste género também se manifestaram antes do referendo à permanência do Reino Unido na União Europeia, tendendo o anonimato a favorecer a opção “sair”, que acabou por ser a vencedora.

Estas oscilações de resultados também se manifestam na popularidade das políticas de Trump, pois embora o actual Presidente possa ser uma figura na qual muitos eleitores não se revêem pessoalmente, as suas políticas são populares. Neste aspecto, Trump é o reverso da medalha do seu antecessor, Barack Obama. Embora os americanos gostassem do carismático 44º Presidente, a maioria estava contra as suas políticas. Mais de metade dos americanos esteve contra a decisão de Obama de aceitar mais refugiados sírios, mais de metade era contra as suas decisões em termos de política externa, e a controversa “Obamacare”, que fez as despesas de saúde disparar para a classe média, nunca foi popular e nunca teve o apoio de mais de metade dos cidadãos dos EUA. Em contrapartida, a vasta maioria dos americanos aprova a decisão de Trump de dar continuidade ao gigantesco oleoduto “Keystone”, e várias sondagens indicam que a maioria dos americanos é a favor do controverso decreto de restrição de imigração que tanta celeuma causou.

Segundo um estudo do “YouGov” feito para o website “Huffington Post” (assumidamente anti-Trump), 95 por cento das pessoas que votaram em Donald Trump aprovam a sua controversa ordem executiva sobre a imigração, enquanto a Reuters denota que 82 por cento dos militantes do Partido Republicano e um quarto dos militantes do Partido Democrático são a favor da actual política.

Eleições é que contam

Estes números, provavelmente, dão alento ao actual inquilino da Casa Branca e explicam a lealdade do Partido Republicano, pois as eleições é que contam para determinar os destinos de um país, não os protestos e as manifestações. Nesse aspecto, em ambos os lados do Atlântico a classe política alinha-se atrás de quem lhe dá mais garantias de vencer os sufrágios eleitorais.

Os americanos vão novamente às urnas em 2018, visto que cada legislatura do Congresso apenas tem a duração de dois anos. Para anularem a Presidência de Trump, ou até mesmo para o retirar do poder, os democratas teriam de reconquistar o controlo de ambas as Câmaras. No entanto, os números estão contra o partido face à muito maior extensão do apoio às propostas políticas de Trump e dos republicanos. Ao contrário de Portugal, onde os deputados são eleitos segundo o partido a que pertencem, nos EUA as eleições são directas, e existe uma ligação directa entre o inquilino da Casa Branca e a eleição dos deputados que o apoiam ou não.

Neste momento, o apoio a Trump e às suas propostas é elevado em 238 círculos eleitorais, enquanto o apoio aos democratas apenas se revelou expressivo em 182 círculos, revela um estudo recente da revista “The Atlantic”. Estes números são consistentes com a actual dispersão de assentos na Câmara dos Representantes. Denote-se também que os estudos que dão maior popularidade a Trump são aqueles que analisam “eleitores prováveis” e não apenas fatias generalistas da sociedade. Tipicamente, o eleitorado de Trump e dos republicanos tende a ser mais assíduo nas urnas, e mais participativo na comunidade política local, especialmente nas eleições intercalares. O eleitorado democrata tende a “motivar-se” apenas ocasionalmente, e os activistas tendem a ser abstencionistas, ou a apoiar partidos marginais, sem hipótese de vencer eleições.

Apesar do elemento visual dos protestos, em termos práticos a oposição parlamentar ao actual Presidente é minoritária e impopular entre os americanos comuns, e não existem certezas que consigam convencer muitos dos actuais manifestantes a dirigir-se às urnas em 2018. Mais do que genuíno apoio ideológico a Trump, muitos republicanos reconhecem que precisam do actual Presidente e da sua popularidade para manterem a sua maioria parlamentar, para continuarem a governar os destinos do país.

No Reino Unido, a situação é similar: 74 por cento dos parlamentares britânicos eram favoráveis à permanência na União Europeia, mas depois do referendo a maioria mudou de rumo, isso porque apenas 39 por cento (uma pequena minoria dos assentos parlamentares) se encontram em círculos onde o “permanecer” venceu. O maior partido da oposição, os trabalhistas, tem metade dos seus deputados em círculos industriais onde a aversão à UE é significativa, e ao mesmo tempo a outra metade nos círculos urbanos onde o apoio à UE é quase religioso, o que significa que a sua oposição aos planos de Theresa May é errática e inoperante. Entre os outros dois partidos pró-UE, um representa os nacionalistas escoceses, que não concorrem em mais de 50 assentos, e os outros são os liberais democratas que, apesar de manterem uma forte presença mediática, só têm oito assentos na Câmara Baixa.

No fim, quem quer governar tem de se adaptar às circunstâncias, e por essas razões a queda de Trump ou o fim do “brexit” são improváveis. Como disse Theresa May em relação ao líder da oposição durante uma sessão do Parlamento: “Ele pode liderar uma manifestação, eu lidero um país”.

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Estamos no começo de um ano que promete vir a ser muito interessante, quer para os estudiosos do Sistema Internacional, quer para os cidadãos em geral, sobretudo para os residentes nos países do denominado Ocidente.

Vários temas têm dominado o espaço público de discussão, embora nem todos tenham suscitado o interesse da esmagadora maioria das pessoas. Mas, por outro lado, tenho visto com crescente curiosidade a aproximação de pessoas que até agora viam a política como uma maçada, ou se tinham distanciado da discussão dos temas principais, com o argumento de que “isso é com os políticos”, a aproximarem-se dos temas políticos e a tomarem posição sobre os mesmos.

Já dizia Platão que “o castigo dos bons, que não fazem política, é serem governados pelos maus”.

Felizmente que vários milhões de cidadãos, em vários países (EUA, França, Itália, Alemanha, Espanha e outros) estão a abandonar a atitude abstencionista e estão, com isso, a abanar um sistema que está corrupto, caduco e podre, de forma a tentar mudá-lo. Sobretudo na esfera da Direita política, que há longos anos estava quase sem iniciativa e mesmo singularmente manietada por um sentimento de impotência, de desistência, de alheamento, que só prejudicou a política internacional, em geral, e o grau civilizacional do Ocidente, em particular.

Isto nomeadamente porque, entretanto, se assistiu a uma subalternização da Ética, e da Moral Cristã, o que deu origem ao reaparecimento de vários comportamentos que se julgavam já extintos, e que eram próprios de civilizações contemporâneas do ser humano no seu estado primordial ou selvagem.

Como exemplo, direi que esta “evolução” negativa  provocou um recuo civilizacional nos costumes, tal como na defesa da vida, ou seja, na não eliminação de nascituros (na Antiguidade) ou embriões de vida (na actualidade), e no reaparecimento da lei do mais forte, pela mão de um liberalismo sem regras, que propicia essa lei nociva a uma paz desejável no seio da sociedade humana.

Mas não só. Assistiu-se também à progressiva destruição da Família e à instituição de pretensos sucedâneos que mais não fizeram que devolver a sociedade ocidental a práticas dos tempos relatados nos episódios bíblicos de “Sodoma e Gomorra”, agora “vestidos” com a aparência de uma pretensa modernidade, que só o é para os ignorantes e iliteratos.

Mas regressemos então ao plano puramente do Poder, das relações entre os diversos actores internacionais e suas mudanças em perspectiva.

Vejamos apenas dois dos casos em que mudanças houve e as prováveis consequências dessa nova atitude pró-activa, por parte daquela a que eu chamo “maioria silenciosa e abstencionista”.

Brexit e a posição de Theresa May

Na passada semana, a Primeira-Ministra do Reino Unido colocou a sua fasquia negocial de forma muito clara, contrariando as previsões dos políticos defensores do “status quo” que até chegaram a ameaçar aquele país com desgraças incontáveis, esperando com isso que o Reino Unido voltasse atrás na decisão que, recorde-se, foi tomada pela maioria da sua população.

Até o Partido Trabalhista Escocês, no poder na Escócia, ameaçou abandonar o Reino Unido. Agora, e numa evidente mudança de posição política dos socialistas escoceses face ao Brexit, em entrevista concedida à BBC, a actual líder do Partido Trabalhista da Escócia, Kezia Dugdale, disse que “é mais importante manter a coesão no Reino Unido do que ficar mais perto da União Europeia”. E acrescentou mesmo que, para fazer face à pobreza e às desigualdades existentes no Reino Unido, será mais eficaz a actuação dos serviços deste país, do que o recurso aos apoios oriundos da União Europeia.

Recorde-se que o Labour escocês foi um dos campeões da campanha pela permanência do Reino Unido na UE.

Na semana passada, Theresa May, ao anunciar que vai finalmente invocar o Art.º 50 do Tratado de Lisboa, anunciou também a base negocial com que parte para as negociações de saída, que em breve se iniciarão com a Comissão Europeia.

E a fasquia é muito alta. Nada mais, nada menos: a saída do Reino Unido far-se-á sem qualquer pretensão deste país de ficar no Mercado Único; não aceitará mais a jurisprudência ou as decisões do Tribunal da União Europeia; e irá restaurar os controlos de entradas das pessoas no país, pois “O Reino Unido não quer ficar com um pé dentro e outro fora”, segundo declarou em conferência de Imprensa.

Theresa May deixou ainda um aviso suplementar muito claro à UE: “não nos tratem como inimigos, pois quem ficará a perder são vocês”.

Na verdade, e como já o escrevi noutra ocasião, antes de se saber o resultado do referendo que conduziu ao Brexit, o Reino Unido é demasiado importante para poder ser descartado pelo resto da Europa, e é demasiado poderoso para que esta se tente “vingar” da sua atitude.

E as razões que então apontei, em Maio de 2016, e que se mantêm verdadeiras, são as seguintes:

  • O Reino Unido continuará a ser um actor fundamental da economia mundial;
  • Continuará a ser o líder da Commonwealth;
  • Continuará a ser a maior potência militar da Europa Ocidental;
  • Continuará a ser o principal aliado dos Estados Unidos no Atlântico Norte;
  • Londres, a “City”, continuará a ser uma das maiores praças financeiras do Mundo;
  • A Libra sofrerá uma desvalorização temporária (o que aconteceu), o que contribuirá para uma maior competitividade da indústria britânica no mercado mundial e para ganhos adicionais, embora temporários;
  • Politicamente o Reino Unido sofrerá, no curto prazo, alguma hostilidade dos principais países (Alemanha e França) da União (o que está a acontecer), mas no médio e longo prazo tudo voltará à normalidade;
  • Também no curto prazo, o Reino Unido poderá conhecer um abrandamento do investimento, dada essa animosidade e pouca racionalidade; esta prevalecerá no médio e longo prazo (neste ponto, e ao contrário do que eu então previa, tal não se verificou: antes pelo contrário, o investimento tende a aumentar);
  • O Reino Unido continuará a ser uma das potências do armamento nuclear do mundo;
  • Continuará a ser um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, com direito a veto;
  • Em termos geopolíticos, não perderá a sua vital importância;
  • Em termos da economia, é demasiado importante para muitos Estados e milhões de empresas para ser posta de lado;
  • E, finalmente, o seu mercado interno é demasiado grande para ser ignorado, quer pelas empresas europeias, quer pelas instituições.

Estas são as realidades com que é preciso contar e será bom para Portugal que os seus Governos, sejam eles de que Partido forem, as tomem na devida atenção.

Em recentes declarações ao ‘Telegraph’, Mark Boleat, uma figura sénior da City londrina, afirmou que “Londres continuará a ser o Centro Financeiro mais importante, a nível mundial, apesar do Brexit e do nervosismo inicial que o resultado do referendo de 2016 provocou”. Igualmente Matt Brittin, o Presidente europeu do grupo Google, veio reafirmar que “a empresa continuará a investir na Grã-Bretanha, dada a dimensão do seu mercado interno”.

E muitas mais notícias têm confirmado este quadro, como é o facto de o comércio inglês ter registado ‘records’ de vendas, no final do ano passado, quer ainda com o facto de a Bolsa de Londres registar ‘records’ absolutos na valorização dos seus índices.

Será um dossiê a seguir com muita atenção, pois as duas posições negociais de início (RU e UE) estão bastante extremadas, mas, como em qualquer negociação, elas tenderão a aproximar-se, com o desenrolar das negociações, para encontrar um acordo satisfatório entre as partes.

Uma coisa é certa, e já o era antes das declarações da Primeira-Ministra: o Reino Unido, com ou sem acordo, abandona a União Europeia.

Portugal deverá ter em atenção que este país é o seu mais antigo aliado, e que a importância das relações comerciais entre os dois países deverá ser desenvolvida, e não prejudicada, por atitudes irrealistas ou de pura demagogia.

Uma coisa é certa: o referendo que decidiu a saída do Reino Unido, de uma união que espartilha a capacidade de decisão dos povos, foi o acto mais participado pelos cidadãos, nas últimas décadas, no Reino Unido.

Trump e a nova política económica

Igualmente se registou um recorde de votantes nos EUA. Na verdade, estas foram as eleições em que mais cidadãos foram aos locais de voto, cerca de 130 milhões de americanos, desde que há registos.

Na sua sequência, tomou posse o 45º Presidente da história dos Estados Unidos, país nosso aliado na NATO e com quem sempre tivemos relações comerciais mais ou menos importantes.

Embora nem sempre nos tenham tratado bem, sobretudo quando Governos do Partido Democrata estiveram em funções, o que é um facto é que a nossa relação bilateral é antiga e deve ser preservada.

É do nosso interesse manter e, se possível, aprofundar as nossas relações com a potência dominante do Sistema Internacional, por razões óbvias. Isto independentemente de quem esteja no poder.

Uma questão parece ter sido esquecida por muitos. São os americanos que votam, são os cidadãos desse grande país que decidem quem querem a governá-los, com o sistema que adoptaram desde a fundação dos Estados Unidos. Da mesma forma que não gostaríamos de ver americanos a dizerem-nos quem nos deve governar, da mesma forma devemos ser prudentes nas atitudes e declarações sobre este resultado, pelo menos por parte dos nossos dirigentes políticos, com especial incidência nos que estão no Poder.

E assim sendo, e nesta linha de pensamento estratégico, foi com prazer que observei e tive conhecimento da atitude inteligente e realista do Presidente da República, Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, que, compreendendo bem o enunciado da questão, manteve uma conversa telefónica com o novo Presidente dos EUA, antes mesmo de ele ter tomado posse, felicitando-o e relembrando-lhe a aliança e as relações diplomáticas que Portugal e os Estados Unidos mantêm, desde a sua fundação.

Mais a mais porque, apesar de estar no início do seu mandato, os sinais económicos e financeiros que têm vindo a público indiciam que o novo Presidente poderá vir a ter êxito na aplicação do seu programa económico.

Veja-se, como exemplo dessa possibilidade, o enunciado do mais recente relatório do insuspeito Deutsche Bank sobre os efeitos potenciais da Política anunciada por Donald Trump.

Segundo este recente relatório, a política anunciada pelo novo Presidente dos EUA “tem o potencial de criar uma nova era de crescimento da economia americana e pode mesmo vir a servir de padrão para a economia mundial”.

Segundo afirmou David Folkerts-Landau, o Economista-Chefe do Deutsche Bank, “esta política tem o potencial de aumentar significativamente o crescimento da produtividade americana”, acrescentando que “ao mesmo tempo que Trump introduz a incerteza, isso é melhor do que a certeza da continuação de um cenário medíocre”.

No relatório prevê-se ainda para os EUA um crescimento do PIB de 2,4% em 2017 e de 3,6% em 2018, contra o crescimento médio do governo Obama, que foi de apenas de 1,6% ao ano, crescimento que o Deutsche Bank classifica como “the worst recovery since the Great Depression”. Significativo, sobretudo se tivermos em conta a nacionalidade do banco em questão e alguma animosidade do Poder político alemão face ao novo inquilino da Casa Branca.

Trump, ainda antes de tomar posse, já tinha dado vários sinais que levam os analistas a olhar de modo diferente para este novo ciclo que agora se inicia. Como exemplo mais visível, e emblemático, está a atitude de Trump face ao anúncio da Ford americana de construir uma nova fábrica no México, no valor de 1,6 biliões de dólares. Face a esta possibilidade, anunciada pelo executivo da Ford, o Presidente Trump ameaçou cobrar impostos de importação para os carros que aí fossem produzidos, o que levou este gigante da indústria automóvel a cancelar o investimento no México e a anunciar que criaria essa nova unidade nos EUA.

Igualmente, e face a anúncio similar por parte da Toyota,  Trump escreveu o seguinte no Twitter: “A Toyota Motor disse que construirá uma nova fábrica no México, para fabricar carros Corolla para os EUA. Nem pensem! Construam uma fábrica nos EUA ou paguem uma tarifa de importação”.

Ora ambos, a Toyota e a Ford, dependem, e muito, deste mercado, pelo que a nova política de Trump vem contrariar várias das suas práticas, seguidas desde a desregulação do comércio internacional, verificada, sobretudo, a partir dos anos da década de 1980.

E é um facto que em política internacional joga-se em realidades e não em desejos. É bom que os nossos dirigentes políticos tenham isto em mente, pois se este cenário de sucesso se verificar, Portugal poderá beneficiar enormemente do mesmo, sobretudo os empresários e o emprego.

E a pergunta que já se coloca abertamente no seio dos Think-tanks internacionais mais importantes é:

– Está em marcha uma Nova Ordem Mundial?

E a resposta mais ouvida é:

– Tudo parece indicar que sim!

O futuro o dirá, sendo certo que as mudanças são normalmente lentas, sobretudo na constatação dos seus efeitos.

Um quadro emerge já, no entanto, como mais que provável de vir a verificar-se: o reforço do Eixo Londres-Washington, que a aprofundar-se influenciará de forma decisiva o quadro do sistema internacional, dada a potência dos seus parceiros.

Como irão reagir a União Europeia, a China, o Japão, a Rússia, a este novo quadro internacional nascente, é uma questão importante e que deverá ser objecto de atenção redobrada.

Termino relebrando um velho, mas muito avisado, por realista, princípio das Relações Internacionais: “As Nações não têm amigos, defendem interesses próprios”.

Seria bom que os nossos quadros políticos soubessem o que esta verdade insofismável e verificada quer dizer, em toda a sua profundidade, e tirassem daí as ilações devidas, para bem dos Portugueses e de Portugal.

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MIGUEL MATTOS CHAVES

Quis-se resumir a crise na Síria a uma guerra entre “bons” (os chamados rebeldes) e “maus” (o governo de Assad). Mas o conflito é muito mais complexo do que este esquema simplista poderia sugerir e envolve muitos mais interesses do que os dos próprios sírios. Afinal, os “bons” – denunciou já a Amnistia Internacional – têm-se dedicado a cometer as maiores atrocidades, crimes de guerra e outras violações da lei humanitária internacional. Os oposicionistas que falavam em “libertar” a Síria usam sistematicamente os mesmos métodos e torturas que atribuem ao Governo.

Muito se tem escrito e dito sobre a guerra neste país do Próximo Oriente. Os actores, deste conflito, nomeadamente da dita oposição, são diversos, e agrupam mais de 40 facções armadas compostas por entre 100 a 1.500 combatentes, cada uma.

Uma coisa é hoje muito clara: não há, nem nunca houve, nenhuma “frente única de oposição” ao regime vigente na Síria, como chegou a ser ventilado no Ocidente; e muito menos este conflito é civil, como veremos. É uma guerra de contornos religioso-políticos, com primazia para o primeiro factor.

Várias facções, com sírios ou estrangeiros nas suas fileiras, agruparam-se em duas coligações principais: a Jeish el Fatá – O Exército da Conquista – e a Fatá Haleb – Conquista de Aleppo. Em ambas impôs-se a ala salafista.

Não obstante terem sido anunciadas pela imprensa internacional, no início do conflito, como forças que travavam uma “guerra justa” contra Assad, em defesa da instalação de um regime democrático, a realidade é que não foi, e não é, de todo assim.

Várias delas querem impor a lei islâmica e algumas a versão mais radical da Sharia. Todas têm sido acusadas de cometerem crimes de guerra durante os quatro anos em que controlaram o lado ocidental da cidade de Aleppo e outras regiões do país; e a sua maioria quer impor, como já se disse, o regime da Sharia, que é tudo menos democrático.

Segundo fontes das Nações Unidas, o número tanto de civis como de combatentes em Aleppo foi objecto de controvérsia. Os cálculos iniciais da ONU quantificavam em 250.000 o número de civis e em 8.000 o de combatentes rebeldes, nesta cidade em particular.

  • Leia este artigo na íntegra na edição impressa desta semana.

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PEDRO A. SANTOS

Os aniversários da Revolução de Outubro e da União Europeia vão balizar um ano em que vários países europeus poderão optar por mudanças drásticas de política.

Duas celebrações de dimensão transnacional, ainda que em diferentes quadrantes políticos, estão já agendadas para o 2017 que agora começou: os 100 anos da revolução russa e os 60 anos da União Europeia. Cada uma representa um projecto distinto de vida para os povos que em si abarca – mas qualquer deles está posto em causa pelos “desvios” ao projecto original.

Há exactamente 100 anos, no dia 8 de Março, os mencheviques russos derrubaram o Czar e sonharam com a instauração de uma democracia pluralista e próspera. Não tiveram sorte: tal como no PREC português de seis décadas depois, os comunistas estavam à espreita, e no dia 8 de Novembro (é chamada a “revolução de Outubro” pois os russos usavam então o velho calendário juliano) tomaram o poder na Rússia, abrindo caminho para a fundação de uma das ditaduras mais cruéis do século XX: a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Este ano, os vários movimentos marxistas, muitos a recuperar força, vão celebrar a data, um pouco por todo o mundo.

Esta mania de unificar nações em blocos federais não terminou aqui, como se vê bem pelo Tratado de Roma, cuja assinatura, há 60 anos, também será motivo para celebração em 2017. Datado de 25 de Março de 1957, este documento estabeleceu a Comunidade Económica Europeia, a organização antecessora da actual União Europeia. Na altura ainda se acreditava que respeitaria as soberanias das nações aderentes – isto é, que não se transformaria num projecto federalista –, e Portugal, ansioso por estar com “os grandes”, juntou-se à festa em 1986. Mas em 1992, derrotado o outro projecto aglomerador de nacionalistas, a URSS, os federalistas retiraram os termos “comunidade” e “económica” do projecto, e adicionaram “União” de facto consumado. Não vai ser um aniversário feliz: os britânicos planeiam entregar os papéis do divórcio em cima desta data.

É também a favor ou contra esta “União” que quatro dos seis povos fundadores de todo o projecto vão votar em 2017. A primeira prova de fogo para Bruxelas é no dia 15 de Março, quando os holandeses forem às urnas, possivelmente para dar uma vitória ao conservador Partido pela Liberdade, que se assume pela defesa dos valores europeus face ao avanço do islão radical, e deseja fazer um referendo à permanência da Holanda na União. Caso este partido seja o mais votado, o que é provável face às sondagens, então o seu desejo poderá tornar-se uma realidade em 2018.

Os burocratas europeus não vão ter muito tempo para se recomporem deste “Março Horribilis”: as eleições presidenciais francesas estão marcadas para o dia 23 de Abril, com a segunda volta a decorrer no dia 7 de Maio. É quase certo (e se não houver entretanto alterações de fundo) que nessa segunda volta participarão dois candidatos extremamente conservadores, anglófilos, e que defendem boas relações com a Rússia de Putin, tudo valores que não se dão bem com a UE.

  • Leia este artigo na íntegra na edição impressa desta semana.

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O ano termina com o espectro sombrio do terror sobre as cabeças dos povos europeus. Desde os anos 70, quando os movimentos comunistas espalhavam a lei da bala e da bomba, que a velha Europa não via tanta carnificina nas suas ruas.

A narrativa repete-se: cidadãos inocentes são abatidos pelos mensageiros do terror nas ruas da Europa, supostamente pacíficas. Recentemente, mais doze europeus perderam a vida e pouco menos de cem ficaram gravemente feridos quando cometiam o “crime anti-islâmico” de visitar um mercado de Natal.

Os últimos dois anos ficam marcados como os mais sangrentos das últimas quatro décadas. Apesar de alguns momentos de extrema violência, como o ataque bombista em Madrid em 2004, ou o assassinato em massa de inocentes perpetrado por Anders Breivik, um movimento de terror concertado não existia na Europa desde que os comunistas lançaram uma campanha de destabilização das democracias ocidentais durante os anos 70.

De facto, entre o episódio do ataque terrorista em Londres, que vitimou 56 inocentes, e os massacres na Noruega, existe um intervalo temporal de seis anos. Se apenas considerarmos os momentos de terrorismo islâmico em grande escala, a Europa esteve quase dez anos a salvo. Estes números, no entanto, não contam a história real.

O caminho para a actual carnificina há vários anos que está em construção, e uma análise aos dados indica que os terroristas, face ao poderoso aparelho anti-terror montado após os ataques de Londres e Madrid, simplesmente se foram adaptando enquanto esperavam por novos recrutas.

Apesar de não se terem registado grandes ataques terroristas perpetrados pelo radicalismo islâmico durante dez anos, foram-se repetindo pequenos ataques, quase sempre ignorados pelo público devido à sua pequena efectividade. Em 2007, por exemplo, rebentou uma bomba improvisada na Bélgica que matou uma pessoa. Na Suécia, em 2010, um bombista suicida “apenas” se consegue rebentar a si mesmo, mas a tentativa existiu. Na Alemanha, em Março de 2011, um indivíduo radicalizado abateu dois oficiais dos Estados Unidos no aeroporto de Frankfurt. Em Março de 2012, Mohammed Merah assassinou a tiro dois soldados franceses, um rabino judeu e três crianças, uma com oito anos, outra com seis e outra com três anos. Em Julho de 2012, um bombista suicida do Hezbollah matou sete inocentes no aeroporto de Burgas, na Bulgária. Em Maio de 2013 Lee Rigby, um soldado inglês, foi brutalmente assassinado nas ruas de Woolwich por dois radicais islâmicos.

O primeiro ataque em solo europeu identificado como estando inequivocamente ligado ao Estado Islâmico, só aconteceu em Maio de 2014, quando um terrorista massacrou quatro inocentes no Museu dos Judeus da Bélgica.

Olhando para estas datas, compreendemos que a campanha de terror islâmico há vários anos se encontrava presente, mas com um impacto reduzido, em comparação com os últimos dois anos. Somente quando os terroristas atacaram o jornal “Charlie Hebdo” é que o mundo virou as suas atenções para este fenómeno, para o qual as autoridades e os especialistas há muito vinham alertando. Estávamos no dia sete de Janeiro de 2015, e já se iniciara a contagem decrescente para o gravíssimo atentado de Paris de 13 de Novembro, em que 137 inocentes morreram. Desde então, a campanha de destabilização nunca mais parou, culminando em 2016, mais um ano de terror.

Uma das grandes mudanças face a 2015, ano de vários ataques de grande dimensão, foi a frequência com que os “pequenos” ataques foram sendo feitos. Antes do ataque ao Aeroporto de Bruxelas, que matou 35 pessoas, houve uma série de esfaqueamentos nos transportes públicos franceses e alemães, que não resultaram em mortos.

A radicalização entre os imigrantes mais jovens e os descendentes de imigrantes, no entanto, já era visível. Um dos esfaqueamentos foi feito por uma jovem de 15 anos que tinha tentado juntar-se ao Estado Islâmico, mas foi impedida de viajar pela sua mãe. Em Essen, em Abril, dois adolescentes radicalizados atiraram uma bomba a um casamento, atentado que apenas não resultou em mortos por mero acaso.

Mas pouco depois, em França, Larossi Abballa, de 25 anos, assassinou um comandante de polícia e a sua mulher à facada. Abballa já tinha sido preso por recrutar terroristas em 2011, e entretanto os tribunais tinham-no soltado. Em 2016 voltou a atacar. Pouco depois, em Julho, Mohamed Bouhlel assassinou 86 inocentes na cidade de Nice, atropelando-as com um camião enquanto a multidão distraída via os fogos de artifício do dia da Bastilha. Apenas quatro dias depois, um refugiado afegão de 17 anos feriu 5 pessoas com um machado num comboio alemão. Dez dias depois, um refugiado sírio tentou perpetrar um atentado suicida que “apenas” feriu 12 pessoas. O pedido de asilo do sírio tinha, na verdade, sido rejeitado pelas autoridades, mas foi-lhe permitido permanecer na Alemanha devido a problemas psiquiátricos, para os quais estaria a ser tratado. Doze dias após a carnificina de Nice, dois terroristas entraram numa igreja na Normandia e executaram o Padre Jacques Hamel. A senda de esfaqueamentos continuou durante o resto do ano na Bélgica, em Itália e na Alemanha.

Todos estes actos de terror, com mais impacto ou com menos impacto, reforçam a instabilidade social e política que se vive na Europa. As agências de informação e segurança europeias têm conhecimento de que existem redes terroristas bem organizadas às quais estão a tentar dar caça. Muitas destas redes também se estão a apropriar de jovens com mentalidades mais débeis para continuarem a sua campanha de terror, algo que o elevado desemprego entre a juventude e a falta de oportunidades na Europa não estão a ajudar a dissuadir. É também considerado consensual que a entrada em massa de refugiados que se vive desde 2015, concorde-se ou não politicamente com ela, abriu uma grande falha de segurança na Europa pela escala do fenómeno: há muito tempo que a Europa não enfrentava ondas tão numerosas e densas de indivíduos pedindo asilo.

No entanto, a vigilância de perigos internos, incluindo a radicalização e recrutamento de cidadãos nascidos na Europa, também tem vindo a fracassar. Em Novembro, por exemplo, as autoridades alemãs detiveram um agente da “Verfassungsschutz”, o serviço secreto alemão, que se tinha radicalizado e estaria a fornecer informação aos restantes terroristas islâmicos. Novamente, algo que não é uma novidade, visto que os serviços secretos ocidentais foram repetidamente infiltrados pelas células terroristas comunistas durante os anos 70. O indivíduo tinha sido transferido para a “Verfassungsschutz” em Abril, e ainda não se sabe quanta informação passou aos seus colegas de terror.

Este episódio sublinha as dificuldades que as forças de segurança europeias enfrentam face às indecisões dos políticos e à imobilidade burocrática. O suspeito do recente atentado de Berlim, por exemplo, era um membro conhecido da rede extremista “A Verdadeira Religião”, encontrava-se numa lista de vigilância, já tinha sido previamente estado na prisão, em Itália, durante cinco anos, e existiam ordens para ter sido deportado há vários meses da Alemanha.

Os mercados de Natal também seriam um alvo, segundo as agências de informação. Um jovem alemão de origem iraquiana já tinha sido detido em Novembro em posse de explosivos, que o mesmo confessou ter planeado usar no ataque a um mercado de Natal. O terrorista de Berlim conseguiu, no entanto, organizar e realizar o seu ataque sem ser detido ou questionado uma única vez.

2016 termina, assim, com mais um ataque terrorista, um de muitos que marcaram o ano. Não se avista um 2017 pacífico no velho continente.

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Bruxelas treme: as perspectivas são negras para uma Comissão Europeia que averba derrotas atrás de derrotas. A deriva federalista está a revoltar os povos da Europa e, directa ou indirectamente, o futuro da UE vai ser sufragado em eleições em França, Itália, Holanda e Alemanha, enquanto o Reino Unido se prepara para obter vantagens no momento da partida.

Os burocratas, em Bruxelas, suspiraram de alívio e fizeram correr o champagne perante os resultados das eleições presidenciais na Áustria: ao contrário do que receavam, a vitória coube ao federalista e maçon Van der Bellen, que bateu (embora por curta margem) Norbert Hofer, o nacionalista que ameaçava fazer a vida negra à Comissão Europeia.

Mas foi um alívio de curta duração: pouco depois, os italianos foram a votos e rejeitaram liminarmente as reformas constitucionais propostas em Itália, causando a queda do Governo. A Itália juntou-se assim à lista de países que em 2017 terão eleições decisivas, nas quais o principal pomo de discórdia (explícito ou implícito) será a União Europeia.

Mesmo descontando a Alemanha, onde o partido Alternativa pela Alemanha está a subir nas intenções de voto mas não se encontra em posição de formar Governo, os países que podem cair nas mãos de partidos críticos da actual Comissão Europeia representam uma grande fatia da economia da UE, suficiente para a sua saída dinamitar o bloco.

Apesar de continuar a comportar-se como uma potência hegemónica, a Alemanha apenas representa algo como 20 por cento da economia da EU – praticamente o mesmo que o Reino Unido, que vai iniciar a sua saída em 2017 e representa quase 17 por cento. Caso a França, a Itália e a Holanda se juntassem aos britânicos na sua decisão de abandonar esta União de tendência federalista, o PIB da UE ficaria reduzido em metade.

O ‘lobby’ europeu pró-Comissão tem feito tudo o que pode para estancar a sangria. No entanto, as tentativas feitas no Reino Unido para anular o “Brexit” por “via administrativa”, ignorando a vontade popular, falharam redondamente: a Casa dos Comuns votou por uma enorme maioria o normal seguimento do processo de saída, e o Partido Conservador lidera as sondagens por 17 pontos percentuais.

Mas é em França que o desespero federalista mais se manifesta. Aí, as duas alternativas presidenciais com maior probabilidade de vitória pronunciam-se, cada uma à sua maneira, contra o rumo seguido nos últimos anos pela Comissão: o candidato conservador François Fillon aceita a manutenção da França na UE, desde que esta abandone os seus contornos federalistas e respeite a soberania dos Estados-membros; e a candidata “fracturante” Marine Le Pen propõe, pura e simplesmente, que o país abandone a organização.

Em Itália, as jogadas de bastidores de Matteo Renzi deram ao país um sistema eleitoral que, caso aprovado pelos tribunais, pode vir a dar uma maioria absoluta ao Movimento 5 Estrelas que lidera as sondagens. Este grupo de revoltados prometeu um referendo sobre a permanência da Itália no Euro, sufrágio cujas possibilidades de sucesso são elevadas.

Em pânico, Bruxelas já começou a reagir, e o plano é “mais Europa, menos democracia”. Pressionados a terem de provar que merecem existir, os parlamentares europeus estão a acelerar o processo de aprovação de leis, especialmente naquilo que os presidentes da União Europeia (e, para “facilitar”, existem três) definiram como assuntos prioritários, nomeadamente “investimento, empregos e crescimento”. Esta “aceleração” significa que se tenciona que a legislação chegue aos comités e às sessões plenárias já “pronta-a-servir” para ser aprovada por um Parlamento reduzido ao papel de mero fantoche. Um deputado europeu francês, Jean Arthuis, notou mesmo que tinha a impressão de que “a União Europeia era governada por um conselho de administração”, algo que considera que levou “a muito ressentimento e à ausência de debate parlamentar”.

No “espírito democrático” da UE, um acordo de bastidores definiu a partilha de poderes na União, dividindo os cargos importantes entre elementos de esquerda e direita do “centrão”. O cargo de presidente do Parlamento Europeu estava nas mãos de um socialista moderado, e os de Presidente do Conselho e de Presidente da Comissão de dois homens oficialmente “de direita”, e conjuntamente controlavam toda a agenda legislativa e executiva da organização. Este acordo efectivamente anulou a necessidade de os cidadãos votarem nas eleições para o Parlamento Europeu caso não exista um partido divergente ou eurofóbico no boletim de voto.

Mas mesmo esta ‘geringonça’ europeia já se espatifou, visto o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, prestes a perder o “tacho”, e vendo o projecto a cair à sua volta, ter preferido retirar-se de cena para se candidatar a um lugar no Parlamento alemão, e possivelmente a Chanceler da Alemanha.

A “grande coligação” estalou por completo graças à crise europeia. Os socialistas, que têm sofrido derrotas humilhantes, e se preparam para sofrer novas, decidiram recusar as políticas alemãs de austeridade, e falam abertamente em medidas de estímulo à economia e flexibilização dos limites orçamentais (onde foi que os portugueses já ouviram esta cantilena?). Os representantes dos países nórdicos, por sua vez, continuam a insistir em regras inflexíveis e em limites de deficit apertados. Criticam também fortemente o programa de estímulo do Banco Central Europeu, que foi estendido por mais mais nove meses na última semana, e sem o qual países como Portugal enfrentariam uma pesadíssima crise, e talvez um segundo resgate.

Apesar do discurso moralista, a UE convive mal com a democracia, e agora que enfrenta cisões internas está a lidar mal com o processo parlamentar. Sendo necessários 376 votos no Parlamento Europeu para eleger um novo presidente da câmara, parlamentares que até agora foram mantidos de fora estão a exercer o seu peso. Mas os representantes anti-UE, que têm sido mantidos de fora do processo decisivo, representam um quarto de toda a câmara, incluindo a maior fatia da delegação francesa. Os britânicos, apesar do desejo de sair, ainda têm a representação de 73 deputados europeus, a maioria dos quais exige termos mais simpáticos para o Brexit em troca de apoios temporários. As negociações para a saída do Reino Unido vão ter início em 2017, e o Governo de Londres procura ter o máximo de cartas na mão para o confronto com Bruxelas.

Neste contexto de caos, o melhor que os eurocratas conseguiram foi uma iniciativa disfarçada de “voluntariado” em que vão ser distribuídos estágios, a maioria não remunerados, entre jovens europeus à procura de trabalho. Intitulado “Corpo de Solidariedade Europeu” — um termo que os povos do sul da Europa, face à dureza das políticas e das palavras de Berlim, certamente consideram hilariante —, este programa está a revelar-se um ‘flop’. Se o objectivo de Bruxelas era reforçar a possibilidade de a UE vencer nas urnas, então terá de concluir que falhou em toda a linha.

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O Natal que se aproxima é uma data penosa para centenas de milhões de cristãos chineses. Um enorme número de convertidos nos últimos anos está a transformar a China na maior Nação da Cristandade – mas, tal como nos dias da Roma Antiga, os cristãos têm de praticar a sua fé escondidos das autoridades. O regime comunista, assustado com a força que ajudou a derrubar a tirania marxista na Europa, procura um acordo com o Vaticano para que este lhe reconheça o controlo da Igreja no país, de forma a conseguir amordaçar melhor os católicos. A assinatura desse acordo está iminente, mas os cristãos chineses apelam ao Papa para que não aceite os desígnios de Pequim.

Enquanto se acotovelam em compras de Natal que muito pouco têm de consentâneo com os ensinamentos de Jesus Cristo, os cristãos ocidentais não se apercebem do verdadeiro privilégio que é poderem manifestar a sua fé de forma livre. E, certamente, poucos pensarão naqueles que ainda hoje estão proibidos de o fazer. Parece não faltarem, mesmo, cristãos portugueses mais do que dispostos a receberem dinheiro de um regime que oprime diariamente outros cristãos.

Questionar-se-á o leitor: por que razão é o caso chinês mais importante do que qualquer outro dos numerosos casos de perseguição de cristãos no mundo? Afinal, fora do Ocidente, os cristãos são a minoria religiosa mais perseguida do planeta (ler caixa, nestas páginas). Na verdade, a China assume um papel decisivo no futuro da fé a nível global, visto que será brevemente a maior Nação da Cristandade. Estima-se que existam, à data desta publicação, algo entre 80 e 200 milhões de cristãos na República Popular da China. E se a actual taxa de conversão se mantiver, a China terá muito em breve o maior número de cristãos no mundo. Cristãos esses, no entanto, que vão permanecer sob a bota da repressão comunista que reina naquele país.

Até mesmo determinar o número certo de cristãos na China é uma tarefa difícil, pois o regime afirma que apenas existem 20 milhões de praticantes dos ensinamentos de Jesus Cristo na China. Mas o número de exemplares da Bíblia vendidos conta outra história. Apenas uma editora religiosa, a “Amity Printing” (à data desta edição, a última empresa que ainda tem permissão estatal para reproduzir a Bíblia na China), anunciou recentemente que tinha produzido 150 milhões de cópias, e que metade tinha sido editada para consumo interno.

As aplicações para telemóvel com o texto supremo dos cristãos tornou-se também imensamente popular entre as gerações mais novas, especialmente porque pode ser apagada caso o “comissário” do Partido se aproxime. E este número não engloba as inúmeras cópias ilegais, muitas transcritas à mão ou fotocopiadas, que enchem as igrejas clandestinas no país. Se o número de cristãos na China fosse aquele que as autoridades pretendem, então quem estaria a adquirir tantas cópias da Bíblia?

Segundo reportagens de jornalistas da BBC, muitos entretanto expulsos do país, este tipo de Igreja prolifera de forma anónima nos sítios mais inusitados, onde for possível organizar uma missa. Armazéns, cafés, caves, sótãos, tudo serve.

Comunismo impopular

Para o regime comunista, a ascensão do Cristianismo representa um desafio directo ao seu poder. Considera-se que a expansão da fé cristã no país, apesar da pesada repressão, se deve em grande parte ao falhanço do regime em providenciar uma boa qualidade de vida aos seus cidadãos, especialmente em comparação com a República da China, vulgo “Taiwan” ou “Taipei chinesa”. Outras medidas especialmente desumanizantes, como a desagregação forçada de famílias, os abortos forçados, ou a política de repressão da natalidade levaram muitos chineses a procurarem o conformo do cristianismo. Muitos foram os trabalhadores de fábricas forçados a ter de deixar as famílias para trás: o regime permite migração laboral sazonal, mas não permite que os habitantes rurais se mudem para as cidades sem um dispendioso visto.

Mas, para muitos jovens chineses, a adesão ao Cristianismo representa algo mais: a vontade de se ocidentalizarem, democratizarem e atirarem o regime velho e velhaco para o caixote do lixo da história – o que faz da luta anti-cristã das autoridades comunistas uma verdadeira cruzada política e ideológica.

A História não desmente essa leitura. João Paulo II apoiou as forças da liberdade contra os regimes que oprimiam metade da Europa, nomeadamente a sua pátria, a Polónia, onde o falecido Papa (canonizado em 2014) é considerado um herói nacional. Antes mesmo de ser eleito Papa, Karol Wojtyła apelou em 1975 a que os católicos portugueses saíssem à rua para enfrentar a tirania do PREC. “Os católicos têm de sair à rua, e já!”, terá afirmado ao então Bispo de Aveiro, incentivando-o a organizar as célebres manifestações dos católicos desse ano.

Pequim apercebeu-se dos perigos que o Cristianismo, mensagem de libertação por excelência, representa para o regime despótico e anti-espiritual de Pequim. Em 2015, o Partido Comunista demoliu 1500 igrejas só na província de Zhejiang, noutras os comissários andaram de casa em casa a confiscar as cruzes e Bíblias dentro dos edifícios.

Os fiéis ainda procuraram apelar aos tribunais, mas o facto de o advogado mais proeminente nestes casos, o doutor Zhang Kai, ter sido detido pela polícia secreta durante meses — sem direito a visitas ou representação legal — tendo só sido libertado em Março deste ano, mostra que o assunto é prioritário para Pequim.

Muitos padres e activistas cristãos não tiveram a mesma “sorte” que Kai. Thaddeus Ma Deqin, o Bispo Auxiliar de Shanghai, não é visto desde 2012. Ao que tudo indica, estará sob prisão domiciliária por ter rejeitado publicamente o controlo comunista da Igreja. Recentemente, numa manobra de propaganda que está a tornar-se habitual, surgiu uma “notícia” suspeita na Internet em que Ma Deqin aparentemente rejeitava as suas corajosas afirmações iniciais, afirmando ter sido influenciado por “pressões externas” e enaltecendo a liderança comunista do país… Quem teria colocado aquele ‘post’ na Internet? Por certo não foi o Bispo Auxiliar de Shanghai, que continua incomunicável, e portanto impedido de contactar os fiéis da sua Diocese.

Outro elemento do Clero chinês, o influente padre Pedro Yu Heping, que operava na clandestinidade no nordeste da China, foi recentemente encontrado morto a boiar no rio. A polícia decidiu de forma célere que a causa da morte foi suicídio.

Cristianismo com características comunistas

O conflito religioso no país intensifica-se por existirem, efectivamente, “duas igrejas” para cada credo: a versão oficial comunista e a versão clandestina. A Igreja Católica no país encontra-se sob o controlo directo do aparelho comunista desde os anos 50, tendo assumido o nome “Associação Católica Patriótica Chinesa”. É Pequim quem nomeia os bispos no país, e não o Papa, embora não seja raro um bispo nomeado pelo regime ir ao Vaticano pedir o perdão e a bênção do Sumo Prontífice. Mas também é comum existirem nomeados por razões políticas. A normalidade é o nomeado não aceitar o “privilégio”, ou Pequim não se dignar sequer ao trabalho de procurar um candidato. Cerca de 70 Dioceses no país encontram-se sem bispo. Adicionalmente, existem pelo menos mais de uma dezena de “bispos clandestinos”, mas assumir essa posição é arriscar uma longa estadia na prisão, ou pior.

Porém, o regime agora quer mudar um pouco o “modus operandi”, visto sentir que está a perder a batalha pelo coração dos chineses. O partido que em tempos tentou abolir a religião, quer agora alterar a mesma para a tornar “compatível com o caminho socialista do país”, conforme se reconhece num comunicado oficial dos comunistas. O Presidente Xi declarou, durante um discurso, que a religião cristã tem de “aderir à liderança do Partido Comunista Chinês e apoiar o sistema socialista com características chinesas”, notando que o Cristianismo deve “fundir doutrinas religiosas com a cultura chinesa”. De facto, uma comissão nomeada pelo Partido Comunista chinês trabalha neste momento na redacção de uma “nova versão” da Bíblia, mais “compatível” com o marxismo e com a “cultura” comunista oficial.

Acordo com Pequim

É numa lógica de reaproximação ao Vaticano que as autoridades chinesas estão a negociar um acordo com o Papa Francisco que, caso aprovado, o fará novamente chefe da igreja chinesa, mas sob controlo do regime. Aparentemente desejoso de estabelecer um “diálogo” a qualquer preço, o Sumo Pontífice está a ser criticado no Ocidente por uma política de cedência sistemática aos marxistas.

Apesar de ser doutrina da Igreja o Sumo Pontífice deter soberania absoluta sobre as nomeações episcopais, no novo acordo em negociação o Papa apenas poderá reconhecer os bispos que tenham recebido a aprovação prévia de Pequim.

Este acordo também está em linha com uma surpreendente aproximação do Papa Francisco aos regimes ditatoriais de esquerda. Desde o início do seu Pontificado, Francisco recebeu delegações chinesas e tem evitado contactos com representantes da oposição ao regime de Pequim. Os comunistas têm vindo a retribuir os gestos de boa vontade, tendo inclusive oferecido ao Papa uma elaborada estampa de seda com representações dos primeiros missionários cristãos na China, cujas viagens decorreram durante a Idade Média.

Não seria a primeira vez que um acordo desta natureza é assinado, especialmente na óptica de tentar reduzir a perseguição política sobre os crentes. A Igreja, aliás, concedeu ao regime comunista do Vietname, nos anos 90, poder de veto às nomeações de bispos. Mas o número de cristãos na China é muito maior do que neste país.

E o precedente histórico é preocupante. Na Polónia comunista, o regime e os católicos chegaram a um acordo similar de coabitação nos anos 50 apenas para os comunistas ignorarem os termos do acordo de forma repetida.

Entre as vozes que têm vindo a criticar o acordo agora em negociação com o Vaticano, encontram-se figuras como o Cardeal John Tong, Bispo de Hong Kong, que avisa o Papa de que os termos poderão não ser aceitáveis para os milhões de crentes que praticam o Cristianismo na clandestinidade. Outros receiam que a Igreja legitime desta forma a opressão comunista, e que não reconheça o que considera ser o martírio de milhares de opositores ao regime que perderam a vida durante a violenta repressão.

Entretanto, em Portugal, supostamente uma Nação católica, fazem-se votos de pesar pela morte de Fidel Castro na Assembleia da República, insultam-se chefes de Estado de países democráticos, e aceita-se a compra do país, às peças, por um dos regimes mais opressivos do mundo.

Celebrar o Natal em Portugal é muito mais fácil quando não se está a temer a vinda do comissário do Partido e uma estadia num campo de concentração. Verdadeiramente um “luxo”, entre muitos outros, que felizmente se conquistou no dia 25 de Novembro de 1975.

Cristãos entre as minorias mais perseguidas do mundo

Segundo a Sociedade Internacional para os Direitos Humanos, uma organização secular, 80 por cento de todos os actos de discriminação religiosa são dirigidos contra cristãos. Cerca de 100 mil cristãos perdem a vida todos os anos ou para a tirania comunista, ou para o islão ou hinduísmo radical. Facto que não costuma ser divulgado na Europa, apesar de a Europa estar a acolher milhões de pessoas que supostamente são perseguidas.

No Médio Oriente, o massacre de cristãos atingiu um nível tal que foi comparado a um “pogrom”. No Paquistão, por exemplo, não é raro hordas islâmicas “sublevarem-se” para massacrar cristãos inocentes. No Iraque, onde a população cristã numerava 1,5 milhões antes da desastrosa invasão dos EUA, a ascensão do Estado Islâmico e do radicalismo sem controlo significa que a maioria dos cristãos teve de fugir para países vizinhos, embora muito poucos tenham encontrado o caminho para a Europa. Em quase todos os países africanos com maiorias muçulmanas, os cristãos tendem a ser “caçados” e têm de praticar a sua religião em segredo.

Recentemente, o Patriarca de Jerusalém perguntou: “Alguém nos ouve a chorar? Quantas mais atrocidades devemos suportar antes de alguém, algures, vir em nosso socorro?”. Na Europa, enquanto os cristãos se apressam a ir às compras, este apelo de ajuda “passou ao lado”.

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