Opinião

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 Luísa Venturini

“Conheci o Franco numa reunião do então Instituto de Cooperação. Numa situação de emergência humanitária, o Governo disponibilizava um Hercules para transportar para África quantos bens de primeira necessidade as várias ONGs envolvidas tivessem conseguido angariar.

A sala de reuniões, com o seu belo pé direito e tectos trabalhados, era inóspita, apesar da grande mesa de madeira oval. Recordo que o Dr. Luís C. da Nóbrega arrefeceu ainda mais o ambiente ao informar-nos que tudo que tinha sido ‘mais ou menos apalavrado’ telefonicamente ficava sem efeito, porque o Instituto recebera, entretanto, as manifestações de interesse de um número consideravelmente maior de agências. Tenho de confessar que, ao ouvi-lo, até a minha alma empalideceu. Converter 17 toneladas em 7 nuns quantos minutos era algo tão complicado quanto converter 7 em 17 em meia dúzia de horas. Apesar do susto súbito, refiz-me prontamente, sabendo e antecipando que a organização onde trabalhava iria resolver o assunto: uma unidade de competentes voluntários locais adquiriria nos países limítrofes essas mercadorias e transportá-las-ia numa frota de camiões proporcionada por outro voluntário generoso. De facto, assim sucedeu.

Reconheço que esta abrupta revisão dos planos me deixou para sempre este soslaio desconfiado para com certas instituições públicas.

Mas o susto não se ficou por ali. Na sua segunda intervenção, o Dr. Nóbrega informou-nos que as condições atmosféricas previstas obrigariam o avião a aterrar noutro aeroporto, a mil e poucos quilómetros de distância. E foi nesse momento que vi o Franco. No seu bom português, que não ocultava as suas origens italianas, disse-nos: ‘Tenho um enorme problema. Há mil e oitocentas pessoas que dependem da chegada desse avião. Já não têm comida nem quinino.’ O Dr. Nóbrega franziu o sobrolho e lamentou não poder fazer nada. Recordo que com a mão fiz um sinal ao Franco para que não desesperasse. Que falasse comigo.

Eu só tinha de fazer um telefonema. Mas a bela sala pombalina não tinha rede. Esperámos penosamente pelo fim da reunião e, já da rua, liguei ao chefe da nossa equipa em campo, pondo-o a par do problema. Disse-me que como não era suposto regressarem a esse local, teria de arranjar nem que fosse um helicóptero russo. Quanto à comida e ao quinino, não havia problema. Confirmar-me-ia assim que possível. Trocámos números de telemóvel o Franco e eu. Duas horas depois dava-me as coordenadas do local de entrega. Seis horas depois fomos jantar. Doze horas depois, a Irmã Maria de Jesus telefonava-nos: ‘Tanta comida! Tudo tão limpo! E quinino que chega para todos!’

No meio da enorme adversidade climatérica, o ‘meu’ chefe de equipa tranquilizava-me a cada chamada minha: ‘Já aterrámos. Ouve o rotor!’ ou ‘Fala com a Teresa para teres a certeza que regressámos bem.’

Quase quinze anos depois, janto com o Franco e brindamos com um beijo o nosso décimo segundo aniversário de casamento. Amanhã, ele embarca para o Sudão.”

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RENATO EPIFÂNIO

Numa visão estrita, para não dizer estreita, do existencialismo, tal como ele se configurou enquanto corrente filosófica e cultural no século XX, Fidelino de Figueiredo não foi de todo um existencialista, mesmo quando defendeu que os “existencialistas franceses têm razão indiscutível, quando matam com certo desdém realista esse perturbador e imaginoso problema das essências, coisa tão vã como a querela dos ‘universais’ (…) à qual de resto se articula” (in “Símbolos & Mitos”, Europa-América, 1964, p. 58).

Recordemos que, nessa célebre querela, se confrontaram, no essencial, duas correntes: uma ainda de matriz platónica, para quem os Universais existem (não apenas do ponto de vista temporal como, sobretudo, ontológico) “antes” das coisas (universalia sunt ante res); outra de cariz nominalista, para quem os Universais são considerados como meros nomes, enquanto criações da mente, sem qualquer referente prévio – existindo, assim, “depois” das coisas (universalia sunt post res).

No entanto, a deriva egóica, para não dizer egocêntrica ou subjectivista do existencialismo contemporâneo já não mereceu, de todo, a sua adesão – como chegou a escrever: “Esses existencialistas já não têm sombra de razão quando com mau humor negam a existência do mundo fora do nosso espírito, da sua representação subjectiva e da sua utilização egocêntrica. Por aqui os existencialistas franceses acordam e reforçam o seu parentesco fenomenológico e vão entroncar-se, queiram-no ou não, na velha corrente idealista, e, se analisássemos fundamente essa atitude, contrariariam o seu antiessencialismo, como se perdessem o pé num redemoinho” (idem, p. 58).

Daí, de resto, a sua inequívoca demarcação de duas das mais prominentes figuras do existencialismo: Albert Camus e Jean-Paul Sartre – ainda nas suas palavras: “O livrinho de Camus [“O Mito de Sísifo”] contém um monstruário dos absurdos da existência humana – sem grande acerto na escolha nem na caracterização de cada um” (idem, p. 59); “No código da doutrina, o tratado ‘L´Être e le Néant’, de Sartre, fervilham, como de costume, nos escritos de metafísica, os paralogismos que levam à paradoxia e às logomaquias, as petições de princípio, os postulados gratuitos e o subjectivismo impressionista” (idem, p. 60)

Ainda assim, encontramos na sua obra elementos que nos poderão levar a um neo-existencialismo, mas já devidamente depurado dessa deriva egóica, para não dizer egocêntrica ou subjectivista, pelo próprio Fidelino de Figueiredo denunciada e renegada. Falamos sobretudo da importância que dá ao espaço e ao tempo – mais do que ao tempo, à história – e do papel do ser humano enquanto construtor da história e da cultura. Daí que, ao podermos falar de um neo-existencialismo a propósito de Fidelino de Figueiredo, possamos cumulativamente falar de um neo-humanismo. Eis, em suma, a tese que procuraremos aqui verificar – abordando, sucessivamente, os conceitos de “cultura”, “tradição”, “heroísmo” e, finalmente, o seu inovador conceito de “imagem-força”

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Mário Soares faleceu, e infelizmente a imprensa portuguesa teve tempo para preparar aquilo que na gíria se chama de “obituários futuros”. É sabido que todos os idosos com alguma relevância já têm obituários prontos nos jornais. É uma tarefa de investigação e de compilação que se costuma dar a estagiários quando entram nos jornais. Podemos chamar-lhe uma espécie de praxe. Os mais talentosos podem escrever boas peças, geralmente contrariados, que emergem algumas vezes muitos anos depois, não assinadas. Homens como Adriano Moreira, Mário Soares, têm obituários à sua espera há muitos anos. Outros provavelmente já terão também o seu obituário: Manuel Alegre, Cavaco Silva, Ramalho Eanes, Jorge Sampaio, apesar de ainda aparentemente vigorosos, terão provavelmente o seu obituário pronto algures nos jornais ditos de referência. O obituário futuro é algo que poderá chocar o leitor menos familiarizado, mas é um instrumento útil que poupa muito tempo e trabalho, sobretudo se o destinatário tem a pouca decência, segundo o editor em causa, de morrer em cima do fecho da edição!

Mário Soares não seria excepção. Neste caso, o seu estado de saúde com 26 dias num hospital em grave condição, deu tempo a todo o gato-sapato para escrever e preparar a morte do antigo presidente da república. O próprio Marcelo Rebelo de Sousa, escassos segundos após o anúncio da morte de Soares, entra em directo nas televisões com um discurso de quatro minutos, que são ainda umas folhas A4 escritas, um discurso preparado e elaborado e não uma improvisação tão ao seu estilo, em que comentava, é o termo, a morte de Soares.

Pior ainda, a hora da morte de Soares, pelas três e pouco da tarde, é muito anterior ao fecho das edições dos jornais e dos telejornais, o que dá imenso tempo de coligir toda a informação e preparar entrevistas, alinhar imagens de arquivo, alinhar convidados. É caso para dizer que, para jornalistas e comentadores, Soares “foi fixe” até à última hora.

Dir-se-ia que a morte de Soares foi preparada meticulosamente para preparar uma espécie de mito. Uma doença que dá a entender o fim próximo, vinte e seis dias de preparação, que até deu descanso na altura de Natal e de Ano Novo, e um falecimento conveniente a um Sábado à tarde enquanto António Costa anda na Índia a oferecer a entrada na UE aos indianos sediados no Reino Unido através de Portugal.

O corolário desta preparação meticulosa, dir-se-ia preparada por uma agência de comunicação daquelas que dominam a cena mediática portuguesa devido à preguiça jornalística portuguesa, é a enxurrada Soares nos meios de comunicação. Ele é o Soares e a religião, ele é os três erros de Soares, ele é Soares e a comida (!), ele é o Soares e o Panteão, ele é o Soares visto por este e aquele, ele é o Soares em fotos, ele é o Soares em nove histórias, ele é o Soares em fato de banho, até o Miguel Esteves Cardoso não faltou à chamada e escreveu umas banalidades do tipo “ele deu-nos tudo”; material não falta, Soares não era esquivo e deixou-se entrevistar e fotografar à exaustão, material para meses de televisão e jornais, material enunciado por todos os melhores amigos do defunto. São notas de rodapé dizendo “corpo de socialista atravessa Lisboa”, como se corpos de socialistas não atravessassem Lisboa todos os dias…

Durante muitos dias não houve mais nada, não houve notícias, não houve mundo, até o próprio Guterres, Secretário-Geral da ONU, aparece para falar não da Síria, em que mais um atentado matou cinquenta num mercado qualquer sem interesse, mas de Mário Soares, numa declaração interminável, como todas as declarações de Guterres. Sampaio da Nóvoa, soarista tardio, confidencia em tom de contragosto perante milhões de telespectadores as suas memórias, escassas, como se fossem segredos de Estado; Passos Coelho, visivelmente enjoado com o assunto, lá alinha umas banalidades; Cavaco, provavelmente aliviado por ainda cá estar enquanto o seu arqui-inimigo já foi, explica que não é altura de falar de divergências. Enfim, todos têm de aparecer em bicos dos pés nas televisões. É tempo de desligar a televisão portuguesa e ler um bom livro ou ir ao cinema, ou apreciar um bom espectáculo.

Soares não faz falta nenhuma porque já cá não estava. Teve o seu tempo e o seu ciclo. O seu corpo desligou, que vá em paz.

A feira de Santos Silva

O ministro Santos Silva, aquele que gostava de malhar na direita, agora responsável dos negócios estrangeiros, classificou a concertação social como se fosse uma feira de gado. Tem razão, aquilo parece uma negociação de feira de gado. Os negociantes estão todos lá, mas o gado, esse, o gado, a moeda de troca e a mercadoria, somos todos nós, os Portugueses.

É assim que os políticos tratam aqueles que devem servir, como gado do qual os negociantes estão, como donos da feira, na concertação social a trocar por benesses para as cabeças que representam. Vergonhoso e pouco diplomático.

Passos Coelho

A situação no PSD está cada vez pior. Passos Coelho faz uma mensagem de Natal vergonhosa, em que afirma que está por aí para anunciar catástrofes e tempestades, que o Diabo (não somos nós, o Jornal, é mesmo o Demo) virá aí. Entretanto não se descose com um candidato forte a Lisboa para desalojar a clique socialista que usa a cidade a seu belo prazer para ir fazendo negócios expulsando os lisboetas da sua cidade a troco dos cifrões trazidos pelos turistas.

Passos Coelho terá de dar o lugar a outro. Não tem a simpatia do eleitorado, não tem rumo nem estratégia, navega à vista e a sua alma gémea Maria Luís, criatura antipática, desagradável, todos os dias dá tiros nos pés, desmentindo números que Bruxelas já validou, acusando o governo de falsificar os resultados e parecendo que deseja que o País se afunde apenas porque já não faz parte do poder. Marcelo Rebelo de Sousa já percebeu que com estas reses a feira de gado não está completa, para usar a metáfora de Santos Silva, para além do facto de Marcelo não suportar a dupla Coelho-Albuquerque, que anteriormente o tentou impedir de concorrer a presidente, tendo-lhe inclusivamente chamado de “catavento político”. Passos Coelho é aquilo que se chama uma má rês política, e ainda por cima tendo o omnipotente Marcelo contra, pode-se dizer que está marcado para abate rápido.

É tempo de regressar à Social-Democracia, preencher o espectro político ao centro, agora que o PS se encostou à extrema-esquerda, e ganhar as eleições com simpatia, com carisma, com novidade e esperança. José Eduardo Martins, ou outro qualquer, até o rato Mickey, já seriam melhores do que Pedro Passos Coelho.

Soares

É triste ver a feira instalada à porta do hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, onde Mário Soares tem padecido o que podem ser os seus últimos dias. Boletins clínicos diários para um velho cavalo cansado de muitas batalhas não fazem sentido. Soares está reformado da política, já vivia num outro mundo, um mundo ausente deste. O circo mediático não faz sentido e devia-se respeitar a vida, a privacidade e o desgosto da família nesta situação. Trinta jornalistas à porta de um hospital não adiantarão um segundo se houver alguma notícia favorável ou negativa no estado do antigo presidente. É a continuação da feira, mas na variante de feira de papagaios a tentar competir pela plumagem mais vistosa, uma vez que o que dizem é apenas uma repetição do que o dr. Barata, o porta-voz do hospital, vai, laconicamente, informando.

A propósito da edição por um semanário de um livro de Simon Sebag Montefiore, “A Corte do Czar Vermelho”, um livro excelente, como todo o trabalho notável de Montefiore, vem Francisco Louçã afirmar no ‘Expresso’:

[Francisco Louçã] sublinha que só a esquerda “foi capaz de combater o colonialismo francês na Argélia, o colonialismo português em Angola e Moçambique, as ditaduras de Portugal, Espanha e Grécia, bem como rejeitar o estalinismo e a destruição que provocou”. No debate ideológico, diz a concluir, “a esquerda que tem esse nome, tem uma força muito grande, que é simplesmente a de ter dito e ter feito, e lutar em todas as circunstâncias pelas liberdades essenciais do ser humano. As ideias fortes da esquerda são as ideias da liberdade e é isso que constitui o seu património”.

Ou seja, Francisco Louçã, na sua dogmática visão do mundo, vem afirmar que Estaline não seria de esquerda! Pior, foi a esquerda que combateu Estaline e rejeitou-o, bem como a destruição que provocou.

Quem ler Louçã e não tenha uma dimensão crítica da História, poderia até pensar que Estaline não seria de esquerda e que a “verdadeira” esquerda, a dos trotskistas, entenda-se, combateu as ditaduras, teria assim uma força muito grande, um património, nas suas próprias palavras.

Mas este parágrafo encerra demasiadas contradições. Quem combateu contra Portugal em Angola e Moçambique – Louçã esquece a Guiné, não se sabe bem porquê – foram movimentos pagos pelos russos (à mistura de chineses e americanos), herdeiros directos de Estaline, e não a meia dúzia de trotskistas que foram purgados pelo ditador na Rússia. Pior, quem apoiou directamente o regime de Angola foram os cubanos, que chegaram a enviar tropas, e não me parece que os cubanos de Fidel Castro fossem trotskistas. Por outro lado, não parece que tenha restado muita liberdade nos países em causa.

As esquerdas nunca lutaram pelas liberdades. Estaline, que para todos os efeitos era o clímax de qualquer ideia de esquerda, nunca lutou pela liberdade, lutou pelo seu poder, pelo poder da Rússia soviética e, apesar de combater o Nacional-socialismo de Hitler, substituiu na Europa de Leste um reino de terror por outro reino de terror, muito distante da liberdade apregoada por Louçã. Por outro lado, o próprio Trotsky, enquanto teve poder, nunca lutou pela liberdade, lutou isso sim pela “ditadura do proletariado” que levou a centenas de milhares de mortos, ainda no seu tempo enquanto chefe e fundador do exército vermelho, culminando o seu regime com o apogeu de Estaline, cujo reinado se deve em grande medida à meticulosa preparação de Trotsky, antes de este último cair em desgraça, bem entendido.

Quem combateu os regimes totalitários foram as esquerdas estalinistas, os partidos comunistas ortodoxos. Os chamados trotskistas nunca passaram de um punhado folclórico de barbudos desgrenhados, com a louvável excepção capilar do próprio Louça com o seu ar bem barbeado de eclesiástico e os seus dogmas proferidos com ar severo mas que, depois de analisados, são apenas uma espécie de propaganda contraditória e sem nexo.

Afirmar que as esquerdas defendem a liberdade é meter demasiada esquerda num saco muito pequeno. A não ser que Louçã esteja a elogiar os sociais-democratas. Já deve ter faltado mais…

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 Luísa Venturini

Há muito tempo que não entro num quadro de Vermeer. Há muito tempo que não me sento àquela janela de luz matinal que, do lado esquerdo, tantas vezes lhe ilumina a sala, a tela, a personagem. Tenho sempre a sensação de que me invade um suave cheiro a cera, a sabão azul e a tintas de óleo. Algo assim como o perfume natural daquela casa. Às vezes, vindo não sei de que jarrão adormecido sobre uma mesa próxima, chega o aroma de um ramo de rosas, ou, então, será alguma rapariga, com ou sem brincos, que passa no corredor. Sou capaz de ficar horas ali sentada à janela, fascinada com o que poderei encontrar naquela sala.

Cada carta, cada rolo, cada manuscrito parece encerrar segredos pangeicos, apenas sussurrados àquele Mestre, como paga pelo seu afinco. Fico a assistir ao seu estudo, aos movimentos amplos de pássaro sobre a mesa de trabalho, a pressentir os seus “eurekas” íntimos no fulgor da descoberta que algo ritmadamente lhe assoma aos olhos. É quase como se assistisse ao crepitar de uma fogueira de cintilações matemáticas e fagulhas angulares. O restolhar dos rolos e das cartas, a vibração metálica dos instrumentos que se roçam num gesto mais entusiástico subvertem aquele falso silêncio, onde impera a vozearia dos seus cômputos e raciocínios. Comparo, sem pretendê-lo, a alegria barroca daquela sala de luz macia com a atmosfera macilenta do scriptorium medievo onde só o ouro das iluminuras nos fala dos júbilos intimistas do monge, reverberando o valor da sua aprendizagem.

(Como não recordar a Biblioteca de Borges, com os seus favos aparentemente perfeitos a servir de capa a todos os seus possíveis périplos labirínticos? Como não evocar o fascínio de Avicena ao entrar pela primeira vez na Biblioteca de Bukhara, “Vi livros de cuja existência poucos sabiam e que eu nunca vira até àquele momento, nem voltei a ver desde então…”.)

Sob a luz e contraluz de todos os tempos, aqui me encontro em silêncio à janela da sala de Vermeer, clandestina como traça borboleteando chama, fazendo do geógrafo alguém da minha própria casa. Imagino-lhe a testa alta, o nariz grego, as orelhas bem desenhadas, o queixo arredondado, a arcada das sobrancelhas sobre dois olhos muito escuros e vivos emoldurados por olheiras arroxeadas pelos afãs do espírito. Oiço-lhe a voz baixa e grave de quem passa tempo a fio em diálogos de mente e pressinto o ar distraído com que parte o pão à mesa do jantar e o ar regalado com que desfruta devagar o seu copo de vinho, incapaz de, por instantes, perceber os chorrilhos contentes da mulher que saracoteia à sua volta com uma malga de sopa quente ou uma terrina de guisado fumegante. Vejo-o predisposto a viagens homéricas até outras Salamancas e outras Toledos para mergulhar no espólio dos antigos e debater com contemporâneos os acervos das ideias, na febril conquista de um pouco mais.

Com relutância, saio da janela do geógrafo. A Senhora de Chapéu Vermelho acaba de chamar-me.

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RENATO EPIFÂNIO

A visão agostiniana da Galiza emerge no âmbito da sua reflexão sobre Portugal, sobre o seu sentido histórico. Desenvolveu Agostinho da Silva essa reflexão em diversas obras, desde logo, na sua “Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa”, obra publicada no Brasil, em 1957. Nessa obra, logo no primeiro capítulo, Portugal e Galiza aparecem a par, “como dois noivos que a vida separou”. Separação que Agostinho lamenta, por Portugal sobretudo, dado que, como nos diz, se ela não tivesse ocorrido, “talvez o ouro da Índia e Brasil tivesse dado maior proveito e se não tivesse, em plena época de afluxo de riquezas, de fazer aportar ao Tejo frotas de cereal e pão”.

Separado da Galiza, Portugal perdeu pois, à luz desta visão, as suas raízes mais profundas, o seu Norte. Eis, dir-se-ia, o “pecado original” da formação de Portugal e das futuras Descobertas. Nesta visão da História, não é, contudo, essa separação, essa cisão, um horizonte inultrapassável. Eis o que o próprio Agostinho da Silva, de resto, nos havia já antecipado no seguimento da passagem da sua “Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa” que há pouco transcrevemos, essa em que lamentava a nossa separação, a nossa cisão, com a Galiza – como aí escreveu: “Mas tempo vem atrás de tempo; se há ‘talvez’ para o passado da História, há ‘talvez’ igualmente para o futuro da História; pode ser que um dia a reintegração da Península em si mesma, na sua liberdade essencial, se faça através da reunião de Portugal e da Galiza. Dos dois noivos que a vida separou.”.

Talvez que, contudo, sob uma perspectiva outra, essa separação, essa cisão, tenha sido historicamente necessária. Eis o que, pelo menos, o que o autor de “Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa” sugere numa outra sua obra – “Um Fernando Pessoa”, publicada dois anos depois, em 1959 –, quando aí desenvolve uma visão triádica de Portugal, à luz da qual “o primeiro Portugal foi – nas suas palavras – o Portugal da velha unidade galaico-portuguesa, o Portugal lírico e guerreiro das antigas de amigo e das velhas trovas do cancioneiro popular; nele estiveram – como acrescenta ainda – as raízes mais profundas da nacionalidade e nele sempre residiram as inabaláveis bases daquele religioso amor da liberdade que caracteriza Portugal como grei política”.

Para que Portugal pudesse barcar, talvez que, contudo, tivesse que se cindir da sua arca… Eis, com efeito, o que, no seguimento desta passagem, Agostinho da Silva implícita senão mesmo expressamente defende ao afirmar que esse “Portugal da velha unidade galaico-portuguesa” era “demasiado rígido para as aventuras da miscigenação, da tessitura económica e do nomadismo que não reconheceria limites”. A ser assim, essa cisão foi, pois, genesíaca – dado que dela resultou toda a demanda das Descobertas! Poderia, como expressamente salvaguarda o próprio Agostinho da Silva, no segundo capítulo da sua “Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa”, não ter sido assim – nas suas palavras: “O Português podia ter resistido ao apelo do longe, Portugal podia ter-se recusado à acção.”. Contudo, como se questiona ainda o próprio Agostinho da Silva: “… se Portugal não tivesse embarcado, quem teria embarcado?”.

A Câmara de Lisboa prepara-se para entregar à “Órbita” a gestão e fornecimento de equipamento para o sistema de bicicletas partilhadas. São 16.400 euros por bicicleta, cento e quarenta docas, ou postos, e 1.410 bicicletas. O contrato dura oito anos, os custos directos previstos são de 23 milhões de euros mas, no final, com custos financeiros, a Câmara de Lisboa vai ter um custo equivalente de pelo menos 30 milhões de euros, isto numa cidade com declives intensos e orografia inimiga da bicicleta.

O passe anual custará ao lisboeta 36 euros, isto segundo o Jornal de Negócios. A “Órbita” arrecada os vinte e três milhões à cabeça, a Câmara tratará de recolher as verbas dos passes, fará a gestão dos clientes e tentará rentabilizar o negócio. Segundo a Câmara, há perspectivas de obter lucro, ou pelo menos de compensar o investimento. Note-se que os contratos de publicidade para divulgar o sistema ainda não estão assinados, podendo somar mais uns milhões de euros aos custos do projecto. Entretanto, a gestão dos clientes e do sistema não foi contabilizada nos 23 milhões. Custará certamente muito dinheiro, podendo também somar mais uns milhões aos custos estimados inicialmente. Quem usar as bicicletas esporadicamente pagará 10 euros por dia, quem pagar passe pagará 36 euros por ano.

É altura de perceber como este negócio poderá dar dinheiro. Se começarem a ser um sucesso de subscrições e se cada bicicleta tiver utilizadores diários em sistema de passe anual, a receita dos oito anos por utilizador será de quatrocentos mil euros, ou seja, se a Câmara espera ganhar dinheiro com este sistema (pelos 23 milhões), terá de ter 56 utilizadores por bicicleta a pagar passe!

O pesadelo logístico de gerir um sistema de 140 postos, cada qual com dez bicicletas, é de loucura total. Imagine-se que os utilizadores pretendem, de manhã, circular da periferia para o interior de Lisboa. Pelas sete e meia da manhã já não haverá bicicletas nos postos da periferia, todas estarão concentradas no interior, com a chegada dos madrugadores aos seus lugares de trabalho. Por consequência, todas as bicicletas ficarão bloqueadas no centro da cidade aos primeiros minutos da hora de ponta e os subscritores (terão de ser 56 por bicicleta para compensar o investimento!) ficarão a chupar no dedo, esperando desesperadamente que os turistas resolvam, pelas 9h30m da manhã, que é quando começam a sair dos hotéis, dar uma voltinha até ao exterior da cidade, tipo regresso à Pontinha, em massa, com as mil quatrocentas e dez bicicletas do sistema! Ou isso ou então a Câmara terá de ter um sistema de camiões para recolocar as dez bicicletas de cada posto nas periferias, isto em plena hora de ponta. Camiões que ficariam por mais uns milhões e que contribuiriam para a poluição da cidade, tendo depois de voltar ao interior para recarregar as mesmas bicicletas para a periferia depois da segunda vaga de ciclistas ter deixado os empedernidos (e masoquistas) ciclistas nos seus lugares de trabalho. Repare-se que teríamos de ter mais de cinquenta mil ciclistas a querer usar o sistema de 1.410 bicicletas por dia. Isto quando há registados menos de 2.000 ciclistas nas federações de ciclismo amador e turístico em todo o País.

Por outro lado, a utilização por turistas choca com o uso regular, pois o movimento dos turistas ciclistas não os leva para os locais onde serão necessárias para quem as usa para deslocações pendulares. Quando a rapaziada sair do trabalho na Av. da Liberdade e Avenidas Novas, nessa altura vão estar as bicicletas todas nos Jerónimos e no Museu dos Coches e na marginal à beira rio, a não ser que haja o tal ridículo sistema de camiões a transportar bicicletas por toda a cidade…

Todo o negócio está mal contado, é uma negociata de dezenas de milhões de euros atirados positivamente à rua. O número de bicicletas é esquizofrénico e não corresponde a qualquer modelo pensado no cidadão. Quando há milhares de lisboetas a morrer com fome e doenças, idosos sem assistência, isolados, expulsos das suas casas para promover o turismo selvagem, escolas a cair ou sem condições, a Câmara resolve atirar para a rua dezenas de milhões de euros, espoliados aos lisboetas, como através da famosa e vergonhosa taxa de protecção civil, para uma negociata estranha e muito pouco justificada sob as palmas acéfalas de tontos cegos por patranhas ecologistas.

Noruega, Austrália, Suíça, Dinamarca e Holanda são, por ordem, os cinco países mais desenvolvidos do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas. Espanha vem em vigésimo sexto lugar, um lugar que Portugal já ocupou antes dos governos de Sócrates e Passos Coelho: o nosso País vem agora na miserável posição quadragésima terceira, atrás de países como Arábia Saudita, Polónia, Malta, Chipre, Estónia ou Qatar, que partiram muito atrasados face a nós, e Cuba vem em sexagésimo sétimo.

Dos cinco primeiros do Mundo, quatro são monarquias, sendo a Suíça a única não monárquica; mas, não sendo uma verdadeira república, não tem um chefe de Estado republicano convencional, é governada por um conselho federal de sete membros, saídos dos cantões, e cuja estrutura é descendente directa das estruturas colegiais de governo saídas do Império Sacro Germânico em 1291. O “presidente” da Suíça é rotativo dentro do conselho federal.

O Bloco de Esquerda votou no Parlamento português um voto de pesar pelo tirano e assassino Fidel Castro. Os argumentos são variados, ele é o sistema de saúde, ele é a educação, ele é o bem-estar, mas recusou-se a levantar o traseiro das cadeiras quando o Chefe de Estado de Castela, entre outras nações de Espanha, se dirigiu ao Parlamento português a convite do mesmo Parlamento e do Presidente da república. Se compararmos o índice de desenvolvimento humano, o argumento do bem-estar é falacioso, mas o problema não é esse, é o da cortesia devida a um convidado que é de facto o Chefe de Estado de uma democracia desenvolvida.

É uma falta de respeito pelos povos das Espanhas, ainda que sob o domínio centralista de Castela, que são governadas por um Rei, escolha dos súbditos, através de uma constituição votada em cortes, para governar. Mesmo no absurdo do tempo de guerra entre Portugal e Castela, os generais e governantes se cumprimentavam no campo de batalha, mesmo em tempo de guerra se escreviam cartas amistosas entre reis e parentes, quando preocupações de saúde afectavam os governantes vizinhos. Mesmo em tempos de guerra napoleónica, particularmente feroz, os generais em confronto se escreviam, e até chegaram a enviar médicos pessoais para tratar oficiais inimigos. No entanto, as restantes nações de Espanha não são agora nossas inimigas, nem esse argumento faz sentido hoje.

Não se levantar o traseiro da cadeira para cumprimentar um Chefe de Estado é de uma arrogância ideológica miserável, de uma falta de educação peregrina, e denota o ódio visceral, dir-se-ia criminoso, que as esquerdas têm a quem não é da sua cor, é um acto de racismo ideológico; não importa democracia ou ditadura, apenas importa a ideologia ser semelhante. Ter pesar por assassinos e criminosos, como Fidel, está bem, seria recebido de braços abertos e vivas se tivesse vindo ao Parlamento; mas o supremo governante de Espanha, quarenta lugares acima de Cuba no índice de desenvolvimento humano, não merece uma “alevantadura” da cadeira.

Donde se conclui que para o Bloco de Esquerda uma Noruega, Dinamarca, uma Austrália ou uma Holanda não serão os modelos, mas Cuba é o grande exemplo a seguir, para baixo! Viva a revolução cubana cujo modelo social de sessenta anos nos fará descer até ao lugar 70 do índice de desenvolvimento humano!

Morreu na cama, sem ter sido julgado no seu país, o tirano Fidel Castro, homem que governou com mão de ferro a ilha de Cuba desde o início dos anos sessenta. O regime continua através de seu irmão, Raul Castro, que ao contrário de Fidel sempre foi um socialista assumido.

Fidel Castro começou por ser moderado e apenas quando os Estados Unidos lhe negaram apoio para remover outro tirano, Fulgencio Batista, é que se virou para a União Soviética de forma a consolidar o seu regime. Subiu ao poder em Janeiro de 1959 com o posto de comandante supremo das forças revolucionárias, que depois incluíram o exército regular, e tornou-se primeiro-ministro em Fevereiro do mesmo ano. Governou directamente ou através do seu irmão, durante mais de 57 anos! Entre os governantes absolutos Luís XIV ganha-lhe a palma com 72 anos, no entanto Luís XIV governou apenas de facto de 1661, ano em que Mazarino faleceu, até 1715, ou seja, dois anos menos.

Fidel Castro teve muitos méritos, é um facto, um deles foi ter acabado com o regime podre, corrupto, dominado pela máfia americana, de facto o bordel e casino da Costa Leste dos Estados Unidos, de Batista. Um regime que os Estados Unidos, na sua cegueira total e na sua hipocrisia ideológica, mantiveram e apoiaram, apoiando de facto os interesses do crime organizado americano, dando-lhe uma gigantesca máquina de lavar dinheiro sujo que era a Cuba dos anos cinquenta.

Uma cegueira que perdurou ao ter retirado o reconhecimento que dera ao regime de Fidel nos primeiro dias de Janeiro de 1959. É evidente que os Estados Unidos deveriam ter removido Batista antes que Fidel chegasse a Havana e depois de consumado o facto deveriam ter chamado Fidel a si e não ter empurrado o futuro ditador para os braços dos russos.

O grande mérito foi ter posto em sentido os EUA na América Latina, contribuindo para o equilíbrio daquela região do globo e evitando uma hegemonia extremamente negativa que a exploração de recursos americana executava na região, alimentando regimes corruptos, mas obedientes, e que contribuiu para o subdesenvolvimento e criminalidade generalizada na América Latina. Fidel deu saúde e educação ao seu povo, mas também deu uma ditadura sanguinária, presos políticos, exilados, pouca liberdade económica e atraso no desenvolvimento.

Pesando alguns lados positivos, que a História julgará melhor do que nós, há questões de princípio quando se julga um homem marcante, e essas questões são cruciais. Quando se manda matar sem julgamento, quando se manda torturar em nome da revolução, cometem-se crimes imperdoáveis e esses crimes, no caso de Fidel, ficaram impunes. Como não deveriam ficar impunes as políticas americanas na zona. Note-se que Fidel deve o seu sucesso ao paradoxo do bloqueio americano.

Os EUA conseguiram fazer unir a maioria da população de Cuba em torno da política de Fidel e da sua propaganda. Nenhum regime consegue subsistir cinquenta e sete anos tendo a maioria da população contra. A política errada dos Estados Unidos no Caribe, e na América Latina em geral, deu à propaganda de Fidel, ajudada pela sua máquina repressiva, e pela censura, o inimigo exterior, o papão que tanto jeito deu ao regime cubano durante estes três quartos de século.

Hoje em dia Obama tentou quebrar o bloqueio, que não faz o menor sentido estratégico depois da queda do muro de Berlim, e que é apenas uma questão de orgulho e de teimosia americana. Seria uma das poucas acções inteligentes de Obama em política internacional, depois do descalabro do Iraque, a criação do DAESH, ou a idiotia das primaveras árabes que desestabilizaram ainda mais a região árabe fortalecendo o estado si- nistro que é a Arábia Saudita.

Esperamos que com a morte de Fidel a política americana não se inverta e não teime em dar a Raul Castro, agora com 85 anos, e seus sucessores, argumentos para manter o regime.

CAPA

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