Opinião

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A ausência de um pensamento estratégico dos partidos políticos portugueses e a falta de formação dos seus militantes e dirigentes, bem como a inexistência de estudo dos problemas nacionais, resulta em que a governação de Portugal é feita por impulsos, uns mais adequados do que outros, mas quase sempre sem um rumo globalmente consequente. O que é preocupante, porque vivemos hoje num planeta em mudança acelerada e cheio de novidades, o que faz de Portugal um país particularmente vulnerável quando se trata de fazer escolhas, situação agravada pelos atrasos que ainda temos nos planos da educação, da economia e da organização do Estado e sem instituições da sociedade, livres, fortes e independentes.

O resultado desta combinação de factores diversos é que as decisões vão de uma forte vontade de sermos modernos e adoptarmos os últimos gritos da tecnologia mundial, para a contemporização com atrasos económica e socialmente muito relevantes. Por exemplo, por uma qualquer razão decidimos que deveríamos estar na linha da frente na produção de electricidade por via eólica, ou na utilização de automóveis com motores eléctricos, ou ainda na mobilidade rodoviária, para o que construímos auto-estradas sem parar, ao mesmo tempo que sobrevivemos com empresas de transporte ineficientes e desprezámos a ferrovia que já temos há mais de um século. Ou seja, combinámos, sem critério conhecido e sustentável, decisões que pensámos muito avançadas e modernas, com outras que nos colocam entre os países com maiores atrasos.

Como parece evidente, estes impulsos de modernidade sem critério e sem o estudo adequado, têm custos muito elevados e criam enormes desequilíbrios no nosso processo de desenvolvimento. O resultado final é uma elevada ineficiência no sector energético e a um custo insustentável, ou postos de abastecimento de automóveis eléctricos que são óptimos espaços de estacionamento. Ao lado, o Estado sobrevive com sistemas informáticos adquiridos no estrangeiro a peso de ouro, mas que são uma manta de retalhos sem coerência global e com problemas permanentes para dar resposta às necessidades de organização do Estado, ainda que tenhamos empresas nacionais no sector de sistemas de informação de elevadíssima qualidade. Todavia, por alguma razão, preferimos a IBM e a Sapo.

A modernidade não é uma panaceia para o desenvolvimento dos países e as novas tecnologias que não controlamos no seu início só devem ser adquiridas e adoptadas passada a sua primeira fase e quando a curva do seu custo torna a tecnologia mais competitiva e é menor a probabilidade de surpresas desagradáveis. Não sendo assim, os sistemas adquiridos com um custo excessivo tornam-se rapidamente obsoletos e foi isso mesmo que aconteceu com os nossos sistemas de produção de energia, quer eólica quer solar, ou com os poucos carros eléctricos nas nossas estradas. Será diferente quando a tecnologia tem uma origem nacional, porque nesse caso a sua utilização será útil, ainda que de forma moderada, com o objectivo de potenciar a sua divulgação.

Talvez que o caso mais trágico da nossa paixão pela modernidade tenha sido a construção de auto-estradas de todos os lados para todos os lados, sem critério e sem planeamento, ao mesmo tempo que se desprezou o sistema ferroviário, para mais quando já era visível, por razões energéticas e ambientais, que a ferrovia seria o futuro da mobilidade das pessoas e das mercadorias, algo que a China compreendeu muito bem.

Em resumo, a indefinição estratégica em que vivemos, combinada com um certo voluntarismo modernizador, auto-suficiente e impreparado, arruinou o nosso País e empobreceu a generalidade dos portugueses.

Portugal candidatou-se para receber a Agência Europeia do Medicamento. Esta decisão data de Abril de 2017 em Conselho de Ministros. Maria Manuel Leitão Marques, ministra da Presidência e Modernização Administrativa, explicou então que se pretendia receber a Agência em Lisboa, na sequência do Brexit. A Agência sairia de Londres, e não de um lugarejo perdido no Yorkshire ou no Berkshire, tipo Beverley ou Barton-upon-Humber, cidades dignas e respeitáveis nas suas dimensões locais mas desconhecidas a nível europeu. Repare-se que esta agência nem sequer está em Oxford ou Cambridge, pequenas cidades universitárias mas muito prestigiadas.

Portugal acolhe neste momento a Agência Europeia da Segurança Marítima e o Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, sendo este último, dentro das agências europeias, um dos principais parceiros da Agência Europeia de Medicamentos.

Houve uma votação na Assembleia da República que encorajava o Governo a receber a dita agência. Este louvor foi votado a 11 de Maio.

Apenas Rui Moreira notou que a coisa estava em movimento para Lisboa, em 2 de Maio escreve uma carta em que também disponibiliza o Porto para receber a referida Agência.

No dia 19 de Maio, a Comissão Europeia publica os critérios técnicos para a relocalização da Agência, como a necessidade de escolas para mais de 600 crianças, um espaço que acolha 890 empregados e mais de 500 reuniões, capacidade hoteleira e ligação aérea às várias capitais europeias.

Segundo a Imprensa, DN, Público e Expresso, António Costa defendeu também o Porto, mas a comissão técnica que visitou Londres revelou que esta cidade não tinha dimensão nem infra-estruturas para receber uma Agência desta envergadura e que apenas Lisboa poderia oferecer um aeroporto de dimensão e com ligações a quase todas as capitais europeias.

Entretanto, os caciques locais de todas as vilas e lugarejos de Portugal vieram criticar o Governo e a Assembleia pela escolha de Lisboa, por ser centralista, por isolar ainda mais o Interior. Porque não Matosinhos ou Freixo de Espada à Cinta, povoados dignos de comparação com a mui nobre Barton-upon-Humber?

Houve deputados que vieram dizer que estavam arrependidos de ter votado o louvor ao Governo e outros que afirmaram que votaram por Portugal mas nunca por Lisboa…

Toda esta triste discussão revela um facto claríssimo, a pequenez das mentes. Em lugar de lutarem pelo único local capaz de competir pela referida agência, andam todos a digladiar-se pelas suas terreolas onde, à falta de um aeroporto em condições, se chega de automotora depois de sete horas de viagem, ou de uma ligação num alfa pendular da CP estafado e sem rede de internet apesar da publicidade enganosa da companhia, com casas de banho nojentas e imundas e comida pior do que a da sopa do Sidónio, que essa ao menos é caseira.

Por alguma razão as nações têm capitais. Por alguma razão o país Portugal é minúsculo e demora menos de um dia a atravessar em qualquer direcção, por alguma razão a cidade que receberá a agência que tutela uma indústria que vende mais de duzentos mil milhões de euros apenas na Europa deve ter alguma massa crítica e todo o país beneficiará certamente. Se Alguidares de Baixo concorrer, ninguém beneficiará, porque a Agência do Medicamento nunca virá para Portugal.

Ficamos com a típica anedota lusitana protagonizada por luminárias como Catarina Martins, Marco António Costa, Rui Rio, Paulo Rangel e outros, a defenderem todas as cidades e lugarejos menos Lisboa! Há vinte cidades europeias a concorrer. Eu sugiro Freixo de Espada à Cinta, para ser uma candidatura folclórica que, pelo menos, seja assumidíssima! Salva-se a comida e bebida em Trás-os-Montes, que é excelente e fica a léguas da triste francesinha…

Já aqui desmontámos a falácia (ver edição online de 18 de Março último) de que foi o 25 de Abril que acabou com o analfabetismo em Portugal. Foi Salazar quem lutou com todos os meios para acabar com esse flagelo. Os dados do INE não mentem, a redução de analfabetos foi muito superior entre 1933 e 1974 do que posteriormente. Sobrinho Simões, discursador de serviço no dia 10 de Junho, que fez aliás um excelente discurso no restante, deveria conhecer, como cientista que é, os números e o gradiente da curva de redução do analfabetismo em Portugal.

É pena que homens de ciência continuem a glorificar mitos infundados.

Não havia outro?

“É natural que me atribuam este prémio. Até podia ter sido mais cedo”. – Manuel Alegre

O poeta Alegre recebeu um prémio, o Camões. São cem mil euros pagos por si e por mim, cinquenta mil pelo Estado português e outros cinquenta mil pelo estado brasileiro. O poeta Alegre ficou muito contente. Segundo ele, já lhe era devido há muito tempo. Poeta Alegre é um poeta de rima fácil que, na nossa opinião, nunca escreveu nenhuma obra de vulto para além de “Cão como nós” e de outros manifestos semelhantes. É um homem de vaidades fáceis, livros curtos e esquecíveis. Digamos que Alegre estará ao nível de outros premiados como Rachel de Queiroz, que recebeu o prémio Camões em 1993 em detrimento de Jorge Amado, autor que nunca recebeu o prémio. A pergunta que fica é esta: não haveria um escrevinhador menos arrogante ou menos vaidoso, mas com um pouco mais de engenho e de génio, numa comunidade linguística que nos deu Pessoa e Camões?

Será Alegre o paradigma do escritor português do século XXI segundo o júri do prémio atribuído este ano a partir do Brasil?

Alegre vem compor um ramalhete onde pontificaram Miguel Torga, em 1989, entre outros portugueses vencedores como Vergílio Ferreira (1992), José Saramago (1995), Eduardo Lourenço (1996), Sophia de Mello Breyner Andresen (1999), Eugénio de Andrade (2001), Augustina Bessa-Luís (2004), António Lobo Antunes (2007), entre outros mais ou menos esquecíveis do calibre de Alegre.

Antigos combatentes

O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa devolveu a dignidade aos antigos combatentes do Ultramar no dia 10 de Junho. Não só desfilaram entre as fileiras dos militares de hoje como foram efusivamente cumprimentados pelo Presidente. Devolvidos à condição de heróis contemporâneos e vivos, como o próprio afirmou, Marcelo agradeceu a cada um deles a sua presença na cerimónia militar.

Um dever tardio, que finalmente se cumpriu, um afecto que retira do olvido institucional homens que tudo deram à Pátria e que pouco receberam em troca. É tempo de integrar os velhos militares nas cerimónias militares e de lhes dar as devidas honras, é tempo de as forças armadas não se envergonharem do passado da Guerra em que os homens mais valentes de Portugal, com desprezo da própria vida, defenderam a Pátria que os mandou lutar. Os ideais mudaram, mas a Pátria em nome de quem lutaram não mudou nem nunca mudará.

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HENRIQUE NETO

Não se compreende que possa haver surpresa com a decisão da Procuradoria Geral da República de acusar alguns dirigentes da EDP e da REN, por actos de duvidosa legalidade e de mais do que duvidosa seriedade, realizados no intuito de favorecer a EDP e prejudicar os consumidores e o Estado.

De facto, a acusação só peca por tardia, em vista de muitos factos conhecidos e publicados, bem como pelo percurso de alguns dos acusados na sua viagem entre os cargos políticos e os diferentes lugares em empresas públicas e privadas, estas apoiadas politicamente.

Ou seja, são pessoas que há muito habitam no que se convencionou chamar a promiscuidade entre a política e os negócios; e o resultado, mais tarde ou mais cedo, só poderia ser este.

Na recente conferência de imprensa, António Mexia centrou a sua defesa na ideia, repetida vezes sem conta, de que os famosos apoios do Estado se limitaram ao cumprimento da lei, sendo de espantar que nenhum jornalista tenha perguntado quem fez as leis e se estas não foram feitas à medida dos interesses da EDP pelos agora acusados, ou pelos seus parceiros nos governos e na Assembleia da República, como José Sócrates e Manuel Pinho.

  • Leia este artigo na íntegra na edição impressa desta semana.

Portugal tem, inegavelmente, crescido tanto no ano de 2016 como neste ano de 2017. Esse crescimento deve-se sobretudo ao aumento das exportações, facto aparentemente positivo, mas que é também extremamente enganador. Este crescimento é nominal, não é estrutural, como António Saraiva tão bem afirma neste mesmo jornal.

O crescimento das exportações deve-se ao facto de o turismo ser incluído no mercado internacional: as vendas de serviços locais ao estrangeiro figuram nas estatísticas como exportações, quando de facto são vendas de serviços.

A economia portuguesa está, assim, cada vez mais assente na cultura do aluguer do nosso melhor ao estrangeiro, na expulsão dos portugueses dos melhores locais das cidades, da exploração serviçal dos nossos recursos humanos. A cultura portuguesa assenta, pois, na cultura da criadagem, o turismo em Portugal está associado a emprego desqualificado, ao despojamento dos nossos valores, à inacessibilidade ao melhor que Portugal tem para ser entregue a endinheirados estrangeiros.

É evidente que numa altura em que não produzimos nada, em que a nossa agricultura estagna, em que a nossa ciência está em retrocesso e em que a nossa indústria continua estagnada sem progressos ou invenções tecnológicas de vulto, o turismo será uma espécie de tábua de salvação, como o ouro do Brasil foi antes, como o negócio das especiarias foi antanho.

No entanto, basear a economia portuguesa no turismo é baseá-la numa base análoga à escravatura; o turismo traz benefícios de curto prazo, mas não traz qualificação.

Deixamos aqui algumas ideias com custos muito baixos, mas que implicariam uma importante mudança de mentalidades, coisa muito difícil num país anquilosado como Portugal. Para Portugal se desenvolver de forma sustentável, seria necessária uma Justiça simples, ágil e rápida. Um país em que se perdem dez anos para cobrar uma dívida comercial não é um país, é uma anedota.

Outra forma de desenvolver o país seria reduzir drasticamente os impostos à inovação e base tecnológica e científica se incorporada na indústria, bem como reduzir a enorme quantidade de organismos regulamentares. Para fazer uma fábrica de cerveja artesanal é preciso lidar com os Ministérios da Economia e do Ambiente, Câmaras Municipais, Junta de Freguesia, bombeiros, Finanças e, extraordinário, a própria alfândega, para além do registo das pessoas colectivas e obtenção da marca! Deveria haver apenas uma entidade licenciadora que organizasse todo o processo.

Finalmente, os custos energéticos são brutais e asfixiam completamente a indústria portuguesa; a electricidade, em particular, é das mais caras da Europa; corrupção endémica, promiscuidade entre Estado, em Governos sucessivos, e interesses privados têm feito das tarifas da electricidade pasto para abutres que prosperam à custa de todos os portugueses, à custa do desenvolvimento e favorecendo o atraso endémico de Portugal. O que se passa com as rendas energéticas é um dos maiores factores de atraso da economia portuguesa. É um imposto escondido que nem sequer é entregue aos restantes portugueses em benefícios como Educação e Saúde. É um imposto escondido para entregar os seus proventos a um grupo de privilegiados que continua a piratear Portugal e os portugueses. Nem na Sicília existe algo assim!

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Desde Afonso Henriques a Salazar que a questão ibérica foi um dos mais bem cuidados e importantes temas da governação em Portugal, razão porque nos mantivemos como Nação razoavelmente independente durante quase nove séculos. Agora, nomeadamente durante o último quarto de século, o tema deixou de ser tratado com a seriedade que merece e gerou-se a ideia, a meu ver errada, de que a participação de ambos os países na União Europeia alterou os interesses estratégicos e as razões históricas de ambos os países. Assim, a atenção dada à questão ibérica enfraqueceu bastante do lado português, ao mesmo tempo que os objectivos estratégicos de Castela se mantiveram iguais ao que sempre foram: o alargamento do poder político, económico, logístico e cultural de Madrid a toda a península.

Vem isto a propósito da Cimeira Ibérica que agora terminou e que, como as anteriores, teve como resultado que a delegação de Madrid acordou com tudo aquilo que reforça os seus objectivos estratégicos e discordou, ou adiou, tudo aquilo que são os seus interesses, desde a questão de Almaraz à energia. Isto é, desde a Cimeira da Figueira da Foz que a Espanha mostra uma competência e uma coerência estratégicas completamente inexistentes do lado português, razão porque o Governo dá saltos de contente por ter alienado uma parte do nosso poder de negociação independente em Bruxelas a favor de uma negociação conjunta dos nossos interesses fronteiriços.

Suponho que António Costa não sabe, ou tem razões para desconhecer, que durante séculos sempre evitámos negociar os nossos interesses com Madrid, preferindo a negociação multilateral, fazendo intervir no processo as autonomias espanholas, o Papa, a Inglaterra, ou a França, pela razão simples de que sempre tivemos a consciência de sermos vizinhos de um poder superior ao nosso. Em termos meramente tauromáquicos, digamos que sempre tratámos Castela de cernelha e nunca de frente, sendo que apenas agora descobrimos que a reclamada amizade ibérica suplanta os interesses nacionais, razão porque cedemos no passado recente o Mibel-Mercado Ibérico de Electricidade, sem obter, ao menos, a garantia de ligação a França, como acordámos na cimeira desta semana a ligação ferroviária a Salamanca em bitola ibérica, o que coloca  os interesses espanhóis no controlo das exportações portuguesas para a Europa.  Razão porque, entre outras razões, a Espanha tem custos energéticos muito inferiores aos nossos e uma das mais modernas redes ferroviárias do mundo, cujos comboios chegam à Europa enquanto os nossos não passarão de Salamanca.

Confesso que fico sempre arrepiado quando ouço alguns dirigentes portugueses, frequentemente sem os anos necessários para a tarefa, pela forma simultaneamente simplória e pretensiosa com que se auto-elogiam sobre os resultados fulgurantes da última cimeira, sem nunca se preocuparem, ou avaliarem, os resultados das cimeiras anteriores.

Não menos arrepiante é a ligeireza com que tratam alguns dos interesses estratégicos nacionais, seja no Atlântico, nos rios, nas vias férreas, no transporte aéreo, nas pescas e na energia, para citar apenas alguns. Em que a parte mais grave implica subestimar a elevada competência profissional dos espanhóis e a sua determinação estratégica, da mesma forma que não levam em conta o poder que a Espanha construiu em Bruxelas ao longo dos anos.

O domínio de uma grande parte do sistema financeiro nacional pela banca espanhola é apenas um pequeno exemplo da dimensão do problema que temos pela frente, que resulta essencialmente da fraca competência dos governantes nacionais no tratamento da questão ibérica e em que a propaganda destinada a fins eleitorais se sobrepõe à verdade e à avaliação fria dos resultados.

Há dias, os jornais portugueses anunciavam que os espanhóis de Algeciras teriam ficado muito preocupados com a concorrência de Sines, devido à propalada linha férrea de Sines a Badajoz em bitola ibérica. Mas como, se o porto de Algeciras estará em breve ligado por via férrea e em bitola europeia aos portos de Valência e de Barcelona e daí a França, enquanto nós, mesmo que a linha existente seja remendada, ficaremos, finalmente, com uma ligação a Badajoz e sem continuidade para a Europa?

Houve uma vez em que Portugal ganhou a Castela pela via da negociação bilateral, de que resultou o Tratado de Tordesilhas, mas isso foi no século XV, quando o rei D. João II ainda era vivo e Portugal tinha ao seu dispor algumas das mais sábias cabeças da Europa. Era o tempo em que o saber contava e era procurado e valorizado pelo poder político.

Madalena Azeredo Perdigão escreveu no ‘Observador’ de 26 de Maio, jornal online, sobre o Alojamento Local. A sua opinião é a de que a nova legislação proposta pelo PS viola o direito à propriedade e da disposição de uma propriedade em regime horizontal como o proprietário bem entende.

O seu raciocínio, baseado em inúmeras mas dispensáveis tecnicalidades jurídicas, é que o alojamento local a turistas é, de facto, habitação!

O que é facto, e bem conhecido de todos, é que o arrendamento de curtíssima duração a turistas não é, nem nunca será, habitação. O que é um entendimento de toda a sociedade portuguesa, na sua esmagadora maioria, é que o alojamento local de curta duração é um negócio afim da hotelaria e não uma forma de providenciar habitação a pessoas que dela carecem pelas mais variadas razões.

É muito diferente manter um apartamento numa cidade para estudar, nem que seja por uns meses, de mantê-lo para fazer turismo. Mas a questão fundamental não é essa, embora seja pertinente a classificação económica. A razão fundamental é que o alojamento local viola fortemente o direito à propriedade dos restantes habitantes ou condóminos de um prédio urbano.

Quem tem apartamentos localizados junto a alojamentos locais sabe perfeitamente do que se trata, o inferno do ruído, da gritaria, da instabilidade dos turistas, uns sossegados, outros foliões. Não existe a convivência de uma vizinhança estável, existe o desregramento de turistas em férias, em constante pândega, em exaltação foliona. São as entradas fora de hora, os banhos pela madrugada com ruído intenso. São os consumos excessivos de álcool, são os vómitos nas escadas e elevadores.

Um alojamento local num prédio acaba por violar sempre, porque estatisticamente haverá sempre turistas incivilizados ao longo dos anos, o direito ao repouso e à saúde e bem-estar dos restantes habitantes permanentes e, em última análise, desvaloriza fortemente a propriedade dos restantes habitantes de qualquer prédio, violando fortemente o seu direito à propriedade e diminuindo a sua riqueza.

A propriedade horizontal foi instituída de forma a assegurar um equilíbrio de direitos, deveres e garantias de todos os habitantes e proprietários de um prédio. É, pois, caricato ver juristas consagrados a defender uma dama que é do seu interesse, utilizando apenas factores técnicos, e não colocando a discussão no plano mais fundamental da ética e dos direitos fundamentais dos demais interessados na questão: os que vão sofrer na carteira e no seu repouso os efeitos dos negócios chorudos daqueles que querem entregar as cidades portuguesas às hordas de turistas.

Li recentemente que os turistas são bem-vindos às cidades portuguesas, que é no turismo que assenta o recente crescimento económico português, mas que, no nosso entender, não é sustentável, terá limites e criará tensões. No entanto, serem bem-vindos não significa que os turistas passem a dispor de tudo o que é dos residentes e que sejam os próprios portugueses, nomeadamente influentes juristas, a entregar Portugal de bandeja, de forma servil, ao domínio total do turista, seja este estrangeiro ou português.

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O País está contente e o crescimento da economia no último trimestre colocou o Governo, os partidos da maioria e alguns comentadores mais distraídos em plena euforia. Não surpreende que o tema do investimento público volte em força e alguns sectores da economia, como os gabinetes de engenharia e as empresas de construção, já estejam a salivar por mais obras. A probabilidade é, portanto, que a história se repita e que se inicie um novo ciclo de obras públicas, com os diversos ‘lobbies’ a lutar por um lugar ao sol depois de alguns anos de jejum, e após o fartote de José Sócrates.

Como aconteceu no passado, é previsível que cada grupo de interesses favoreça umas obras relativamente a outras e portanto, tal como no passado, o que resultará desta nova fase não terá muito a ver com aquilo de que o País realmente precisa, mas aquilo que seja mais favorável aos interesses instituídos e, no caso, o PS tem mais para oferecer, até porque é o PS que tem a chave do cofre.

Num país bem dirigido e com uma classe política decente, os quatro anos anteriores de pousio no investimento público teriam servido para um debate sério entre técnicos e políticos sobre as obras essenciais ao País, idealmente com base numa definição estratégica para os próximos vinte anos, a fim de os novos investimentos servirem um determinado objectivo económico debatido e consensualizado. Caso em que, se o consenso não fosse possível, os portugueses saberiam, pelo menos, quais as alternativas em presença. Ora não tendo sido isso que aconteceu, não será ofensa dizer que teremos em breve a lotaria dos interesses a ditar como iremos gastar o dinheiro, ou, se preferirem, como irão acumular mais dívida.

O Primeiro-Ministro António Costa anunciou há tempo que as grandes obras públicas teriam no futuro de ser aprovadas no Parlamento. Tal feito de competente propaganda política não vai alterar grande coisa a realidade; pelo contrário, a probabilidade é que a aprovação dependa, quando muito, de uma melhor repartição dos frutos mais desejados pelos vários lobbies em presença. Por exemplo, o porto do Barreiro e a chamada modernização da linha férrea da Beira já terão a sua aprovação garantida, apesar de ser óbvia a sua inutilidade.

Agora, para que conste e fique para a história, defendo para o País uma estratégia euro-atlântica, como se depreende do cabeçalho desta coluna, e, de acordo com essa estratégia, a prioridade nos futuros investimentos deveria ser a do desenvolvimento de uma logística que permitisse atrair para Portugal o investimento estrangeiro de empresas industriais integradoras e melhorar a posição competitiva das exportações nacionais. Assim:

  • A primeira e a principal prioridade seria o reforço da capacidade de atrair mais navios para realizarem o ‘transhipment’ em Sines e ganhar esse mercado aos outros portos europeus, em particular Algeciras e Tânger-Med, beneficiando a economia portuguesa e o investimento estrangeiro da paragem frequente de mais navios e a mais baixo custo, algo que a pequena dimensão da economia portuguesa, por si, não permitiria. Para isso, investir na construção do terminal Vasco da Gama completamente automatizado, a exemplo da recente inovação chegada da China, porventura em parceria com uma nova entidade internacional.
  • A segunda prioridade seria uma nova linha férrea em bitola europeia, do eixo Aveiro/Leixões à fronteira, com dois objectivos: fazer chegar os comboios (nacionais ou estrangeiros, públicos ou privados) directamente de Portugal ao centro da Europa e não fazer depender o comércio externo de Portugal das plataformas logísticas espanholas.
  • A terceira prioridade seria uma nova linha em bitola europeia entre Sines e Vigo, com a ligação a Vigo a ser negociada com a Espanha, sendo que todas estas linhas seriam em via dupla e, simultaneamente, de mercadorias e de passageiros.

Pessoalmente, por razões estratégicas, não privilegiaria, nesta fase, uma nova ligação de Sines a Badajoz. Razão: tal como os nossos antepassados, não favoreço a criação de um único centro político e económico ibérico em Madrid, do tipo Napoleónico, o que também não é favorecido pelas regiões de Espanha, mas aceito o debate sobre o assunto.

Claro que tudo isto mereceria um estudo aprofundado, envolvendo os vários sectores da sociedade portuguesa e a elaboração de projecções independentes, nomeadamente alternativas, na expectativa de que apenas o interesse nacional pudesse estar no pensamento dos dirigentes políticos. Infelizmente, é, porventura, pedir demais.

Nota: os investimentos propostos deveriam dar lugar a uma negociação  na União Europeia para o seu financiamento em 85%, como alternativa, ou em complemento, da previsível negociação sobre a dívida. Além de máxima prioridade a dar à elaboração dos respectivos projectos de engenharia.

Viajei recentemente para o Porto, usei o serviço Alfa Pendular e o Intercidades. O preço rondou os setenta euros.

O primeiro facto que constatei foi a degradação evidente das carruagens. Os revestimentos estavam surrados, desgastados pelo impacto das malas nos corredores. Destaco pela positiva o Intercidades, cuja limpeza era superior. A pontualidade deste serviço deixou-me bem impressionado, apesar de considerar três horas de viagem entre as duas maiores cidades do País, a uma média de cerca de cem km/h, muito pouco eficiente. Isto significa que as linhas estão em mau estado e que as composições, apesar de poderem circular a velocidades muito superiores, neste caso 200km/h, não o podem fazer por razões de segurança da via-férrea. Com o número de paragens que realiza, seria perfeitamente possível realizar esta viagem em pouco menos de 2 horas, se a linha estivesse em bom estado.

As casas de banho estavam em bom estado de limpeza, apesar de ser sexta-feira, com muito movimento. O serviço Intercidades ainda despeja os dejectos dos utentes directamente na linha, o que no século XXI é um crime ecológico e mostra o ponto de atraso em que se encontra a CP longo curso.

Uma nota fortemente negativa foi a inexistência de rede sem fios para computadores, algo que é anunciado como um trunfo e que é apenas uma manobra de marketing enganosa para os utentes. É virtualmente impossível qualquer utilização da pretensa rede nas carruagens da primeira classe, o que volta a mostrar o tremendo atraso da CP.

No serviço Alfa, agora no regresso, as coisas são ainda piores. As carruagens estão visivelmente estafadas, e mesmo em primeira classe, pomposamente designada por “conforto”, se nota muito desgaste. Uma nota muito negativa vai para a limpeza das casas de banho, em estado lastimoso. Uma hora depois de iniciada a viagem em Campanhã, o cheiro fétido e o chão coberto de urina nas casas de banho não mereceram qualquer operação de limpeza, apesar de existirem funcionário de apoio e revisores. O único comentário que obtive foi que “foi feita limpeza antes da partida” e que “não era função dos funcionários a bordo reforçarem a limpeza das mesmas” em caso de necessidade.

Outro aspecto negativo foi a inexistência de corrente nas tomadas. Chamada a atenção para o facto, a corrente foi reposta. Passados três minutos, já não existia de novo corrente. Desistimos de chamar a atenção para o facto. Quem tem de trabalhar e marcou lugar a precisar de corrente eléctrica para alimentar o seu computador, por exemplo, sairá defraudado pelo péssimo serviço. Para rematar, constata-se a total inexistência de ligação à internet. Há rede nas carruagens, mas não está ligada à internet, o que mais uma vez é absolutamente enganador para o cliente que pode ver em todo o lado “Free Wifi”. Poderá ser rede livre em cada carruagem, mas não serve para nada.

Finalmente, o comboio Alfa Pendular de regresso a Lisboa chegou atrasado sete minutos, o que volta a ser escandaloso num dia em que o autor ainda tinha compromissos importantes e contava com pontualidade do serviço. Não se ouviu qualquer informação ou pedido de desculpas. Para a CP, sete minutos devem estar na tolerância. Deve achar pouco para se dar ao trabalho ou ao incómodo de explicar a situação aos passageiros.

Atendendo a que há bilhetes de avião a 50 euros, um preço mais realista do que os falsos 20 euros anunciados por algumas companhias de voos baratos, recomendo vivamente o uso do avião para a ligação Porto-Lisboa. Não há rede de computador nem tomadas de corrente, mas já contamos com isso, não sendo enganados por falsos anúncios. E chegamos em poucos minutos ao destino.

António Costa, primeiro-ministro, sacou da cartola seis estações de Metro para Lisboa.

É conveniente situar: a capital é uma cidade parada, imóvel, encravada pela loucura anti-automóvel que atacou todos os políticos da esquerda militante que ocupa a sede municipal, epidemia que começou com a própria vereação Costa. De facto, o despejar de muitíssimos milhões de euros de dinheiros dos turistas e dos lisboetas, despojados da sua própria cidade pelas negociatas associadas ao boom do turismo, no sistema de trânsito da cidade destina-se, sobretudo, a impedir o automóvel de circular.

Esqueceram-se os senhores que governam a cidade de Lisboa que seria conveniente melhorar o sistema de transportes públicos antes de acabar com o automóvel. As dezenas de milhões de euros gastos nos eixos centrais e previstos para a segunda circular, que se seguirá após as eleições, teriam sido muito mais proveitosos se gastos no Metropolitano de Lisboa, de forma a recuperar a circulação na casa dos mais de setenta quilómetros por hora (que, por razões de segurança, não passa agora dos quarenta e seis por hora), modernizar o material circulante, recuperar as composições avariadas, repor as seis carruagens onde agora apenas circulam quatro ou três. A prioridade deveria ter sido recuperar os mais de cem milhões de passageiros perdidos.

Depois de recuperar esses passageiros, lisboetas e portugueses que precisam do Metro para ir para o trabalho ou levar os filhos à escola ou para fazer compras, o objectivo seria dotar o Metro de condições para transportar pessoas e bagagens, uma vez que agora os turistas que assaltam Lisboa também assaltam o Metro e os lugares disponíveis com milhares de malas, sacos e volumes diversos que impedem a circulação dos habitantes locais. Recuperar estações, arranjar (entre outras coisas) infiltrações, escadas rolantes, elevadores avariados, cuidar da higiene, limpar grafitis, tirar o cheiro a urina que conspurca os corredores, isso sim, seria um plano verdadeiramente ambicioso!

Dotar a cidade de transportes rodoviários decentes e confortáveis, incluindo o autocarro e o eléctrico, que seria reposto em grande parte da cidade, fiscalizar a sério o estacionamento selvagem e em segunda fila, permitiria a circulação destes transportes e levaria a uma enorme recuperação de público nos transportes públicos, sem esquecer uma rede séria, digna e eficiente de transportes escolares.

Depois de dadas alternativas dignas é que faria sentido atacar o excesso de circulação automóvel. Começou-se pelo telhado da casa, primeiro faz-se a vida de toda a gente um inferno. Apenas os atletas sem filhos para deixar nas escolas se podem dar ao luxo da alternativa que Medina quer obrigar todos a usar: a bicicleta. Num acto de verdadeiro autismo que esquece os declives acentuadíssimos da cidade e a ausência de condições para parquear os velocípedes e para tomar banho e mudar de roupa nos empregos, constroem-se ciclovias que quase ninguém usa e fazem-se planos para bicicletas partilhadas que custam mais de duas dezenas de milhões de euros.

Vem agora, em vésperas de eleições, o amigo Costa prometer seis estações novas de Metro, quando tem o sistema actual avariado e sem composições para as estações que já existem. Logo a seguir, para esmagar a concorrência, Assunção Cristas manda para o ar vinte estações de Metro. Atendendo a que os políticos estavam todos em Fátima, será que foram pedir aos novos santos Jacinta e Francisco o milagre da multiplicação dos Metros?

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