Opinião

António Costa, primeiro-ministro, sacou da cartola seis estações de Metro para Lisboa.

É conveniente situar: a capital é uma cidade parada, imóvel, encravada pela loucura anti-automóvel que atacou todos os políticos da esquerda militante que ocupa a sede municipal, epidemia que começou com a própria vereação Costa. De facto, o despejar de muitíssimos milhões de euros de dinheiros dos turistas e dos lisboetas, despojados da sua própria cidade pelas negociatas associadas ao boom do turismo, no sistema de trânsito da cidade destina-se, sobretudo, a impedir o automóvel de circular.

Esqueceram-se os senhores que governam a cidade de Lisboa que seria conveniente melhorar o sistema de transportes públicos antes de acabar com o automóvel. As dezenas de milhões de euros gastos nos eixos centrais e previstos para a segunda circular, que se seguirá após as eleições, teriam sido muito mais proveitosos se gastos no Metropolitano de Lisboa, de forma a recuperar a circulação na casa dos mais de setenta quilómetros por hora (que, por razões de segurança, não passa agora dos quarenta e seis por hora), modernizar o material circulante, recuperar as composições avariadas, repor as seis carruagens onde agora apenas circulam quatro ou três. A prioridade deveria ter sido recuperar os mais de cem milhões de passageiros perdidos.

Depois de recuperar esses passageiros, lisboetas e portugueses que precisam do Metro para ir para o trabalho ou levar os filhos à escola ou para fazer compras, o objectivo seria dotar o Metro de condições para transportar pessoas e bagagens, uma vez que agora os turistas que assaltam Lisboa também assaltam o Metro e os lugares disponíveis com milhares de malas, sacos e volumes diversos que impedem a circulação dos habitantes locais. Recuperar estações, arranjar (entre outras coisas) infiltrações, escadas rolantes, elevadores avariados, cuidar da higiene, limpar grafitis, tirar o cheiro a urina que conspurca os corredores, isso sim, seria um plano verdadeiramente ambicioso!

Dotar a cidade de transportes rodoviários decentes e confortáveis, incluindo o autocarro e o eléctrico, que seria reposto em grande parte da cidade, fiscalizar a sério o estacionamento selvagem e em segunda fila, permitiria a circulação destes transportes e levaria a uma enorme recuperação de público nos transportes públicos, sem esquecer uma rede séria, digna e eficiente de transportes escolares.

Depois de dadas alternativas dignas é que faria sentido atacar o excesso de circulação automóvel. Começou-se pelo telhado da casa, primeiro faz-se a vida de toda a gente um inferno. Apenas os atletas sem filhos para deixar nas escolas se podem dar ao luxo da alternativa que Medina quer obrigar todos a usar: a bicicleta. Num acto de verdadeiro autismo que esquece os declives acentuadíssimos da cidade e a ausência de condições para parquear os velocípedes e para tomar banho e mudar de roupa nos empregos, constroem-se ciclovias que quase ninguém usa e fazem-se planos para bicicletas partilhadas que custam mais de duas dezenas de milhões de euros.

Vem agora, em vésperas de eleições, o amigo Costa prometer seis estações novas de Metro, quando tem o sistema actual avariado e sem composições para as estações que já existem. Logo a seguir, para esmagar a concorrência, Assunção Cristas manda para o ar vinte estações de Metro. Atendendo a que os políticos estavam todos em Fátima, será que foram pedir aos novos santos Jacinta e Francisco o milagre da multiplicação dos Metros?

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Esta frase vem a propósito da proposta de alargamento do Metro de Lisboa feito pela deputada Assunção Cristas, que foi universalmente contrariada como irrealizável e cara, mas, pior do que isso, foi gozada como um exemplo de puro oportunismo político. Esta reacção é típica da política nacional, em que os dirigentes partidários se preocupam essencialmente em serem os únicos a terem ideias e, assim sendo, todas as outras ideias, que não as suas, estão erradas.

Pessoalmente não sei qual a razão porque Assunção Cristas fez a proposta, mas sei que é uma boa proposta. Desde logo porque coloca o Metro na primeira linha das prioridades para Lisboa, como a forma privilegiada de transporte público na capital; e, fazendo-o, atira para segundo plano o transporte rodoviário, seja o carro particular seja o transporte público através do autocarro, com todos os seus inconvenientes de congestionamento de trânsito, ambientais e energéticos. Ao gozarem a proposta, os opositores deveriam pelo menos definir as suas preferências neste domínio, já que a autarquia e os governos nunca justificaram ou planearam um modelo coerente para o transporte público na cidade. Daí a manta de retalhos existente, em que o único objectivo conhecido é complicar a vida aos automobilistas, mas sem uma boa alternativa de transporte público.

Seguidamente, como defensor do transporte ferroviário, que considero ser a melhor forma no futuro do transporte para distâncias até seiscentos a oitocentos quilómetros, considero o Metro como o seu equivalente nas cidades. Ora, se os políticos portugueses estão preocupados em reduzir o consumo das energias do petróleo, bem como os custos da sua importação, não se compreende que não sejam sensíveis à redução da conta energética importada e prefiram o autocarro, mesmo se movido a gás natural.

Sei do que falo, porque ao longo dos anos da minha vida política elaborei várias propostas inovadoras, com o mesmo resultado da proposta da líder do CDS, com a nota de que foram, na sua maioria, propostas a que o tempo deu razão. Neste caso, se o nosso sistema político tivesse como prioridade o interesse nacional, os deputados teriam aceite a proposta e pedido esclarecimentos sobre quais as razões da preferência pelo Metro, o valor do investimento e o prazo previsível de execução.

Num outro país, em que estas coisas sejam tratadas a sério, isso já não seria preciso, porque já existiria um plano aprovado para os transportes públicos, definidos os modos de transporte, os investimentos previstos, o seu financiamento e os prazos de execução. Plano feito pelas entidades com competência para o fazer e aprovado por quem de direito.

Claro que em Portugal não é assim, e a preocupação fica-se pelo facto de a proposta não ser do nosso partido, com o resultado conhecido da abundância de obras inúteis ou erradas, desde o aeroporto de Beja à modernização da linha férrea do Norte, passando por duplas ou triplas auto-estadas sem carros, estádios vazios e um sem-fim de grandes e pequenos investimentos inúteis, como aqui tratei a semana passada.

Em resumo, a cidade de Lisboa necessita de um plano de investimento para resolver o grave problema da mobilidade na cidade, nem que seja a vinte anos, sendo que na minha opinião o transporte por Metro é a solução desejável e provada um pouco por todo o lado. Não podemos continuar a tratar estas questões como inadiáveis, à pressa e para tapar alguns buracos mais urgentes. Por exemplo, a decisão para Lisboa não deve ser a da semana passada, de comprar à pressa mais 80 autocarros, o que é fácil, mas que apenas serve para manter e aumentar a manta de retalhos em que vivemos.

Por todas estas razões, talvez seja bom ouvir as ideias das pessoas antes de as condenar.

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O Governo espanhol, através da ADIF, informou ir fazer um investimento de 42 milhões de euros na electrificação da linha ferroviária entre Salamanca e Portugal, mantendo o seu traçado em bitola ibérica. Acontece que em coincidência temporal o Primeiro-Ministro espanhol, Mariano Rajoy, fez uma declaração pública no dia do 25º aniversário da alta velocidade em Espanha, afirmando que o seu país está empenhado em terminar os seus investimentos na ferrovia de 17.000 milhões de euros, tendo já concretizado 13.000 milhões, em que a esmagadora maioria destes investimentos são em bitola europeia. Ou seja, por que razão vão os espanhóis gastar 42 milhões de euros numa via em bitola ibérica quando a sua estratégia, que estão a concretizar, é a de mudar a sua ferrovia para bitola europeia com o objectivo de ligar a economia espanhola à Europa?

A resposta a esta questão parece ser simples: os espanhóis também estão a investir em três plataformas logísticas, em Zaldeza (Salamanca), Galiza e Badajoz, todas próximas da fronteira portuguesa – ao Centro, ao Norte e a Sul – ou seja, em vista da total ausência de visão e de competência dos governos portugueses, os espanhóis preparam-se para transportar para a Europa, em bitola europeia, as  exportações portuguesas a partir de qualquer destas plataformas, dado que Portugal não tem um único quilómetro de ferrovia em bitola europeia. Mais grave, o actual Governo português já decidiu modernizar a linha da Beira em bitola ibérica, isto é, coloca-se ao lado do Governo espanhol na tarefa de condicionar o acesso da economia portuguesa à Europa por via férrea.

Entretanto, é bom que se diga que os espanhóis aproveitaram ao máximo os fundos comunitários nestes seus investimentos e Portugal desperdiçou fundos europeus de 85% do custo dos investimentos possíveis, quer para a construção de uma nova via em bitola europeia entre Sines/Poceirão e Espanha, quer entre o eixo Aveiro-Leixões até à fronteira. Fundos totalmente perdidos, quando se sabia que o eixo ferroviário do Atlântico era uma das prioridades da União Europeia e nada foi feito para aproveitar esses fundos, apesar de informados pelos mais diversos especialistas portugueses, que andam há anos a avisar os sucessivos governos de que estão a transformar Portugal numa ilha ferroviária dependente da Espanha para o transporte das nossas importações e exportações de e para a Europa.

O anterior Presidente das Infraestruturas de Portugal, António Ramalho, e o secretário de Estado do anterior Governo, Sérgio Monteiro, têm nesta traição aos interesses da economia portuguesa uma particular responsabilidade, porque foram avisados mais de uma vez, mas todos os governos desde Durão Barroso na Figueira da Foz até o actual Governo de António Costa, por omissão e por ausência de estratégia,  têm as mãos sujas, porque cometeram erros graves que a economia portuguesa  e os portugueses terão de pagar, erros a juntar a todos os outros desmandos conhecidos. E não argumentem com a falta de recursos financeiros, porque esses sempre estiveram disponíveis para autoestradas sem carros, para as desastradas parcerias público-privadas, para os postos de abastecimento dos carros eléctricos que não existem, ou até para um aeroporto em Beja e um porto no Barreiro, para já não falar dos estádios e demais obras faraónicas do regime.

Como afirmado na Carta Magna da AIP de 2003, a logística é um dos três principais recursos nacionais, a par dos recursos humanos e dos sistemas de informação. Pois é esse recurso, essencial ao futuro de Portugal, que por ignorância e interesses diversos está a ser atraiçoado, com o perigo de maior dependência de Espanha, o que os nossos antepassados evitaram durante quase nove séculos.

Quando o Papa Francisco chegar a Fátima, na próxima sexta-feira, verá iluminar-se a peça de Joana Vasconcelos intitulada “Suspensão”. É feita de contas brancas, tem 26 metros e vai ser iluminada pela primeira vez precisamente na noite de 12 de Maio, quando o Papa Francisco entrar no recinto do santuário.

A questão é a fealdade do objecto, a sua classificação como arte, a sua originalidade. Questões que têm uma importância fundamental naquilo que se define como arte hoje em dia. É nesta classificação que a discussão sobre o Terço da Joana se deve fixar, e não noutras.

Existe velho um ditado português que diz que “gostos não se discutem”; esse adágio é fruto de uma enorme contradição portuguesa, a velha luta entre a piolheira popular e o advento do Quinto Império. Para fixar ideias: o cantor Quim Barreiros representa o primeiro Portugal, os pensadores Agostinho da Silva e António Quadros ou o poeta Fernando Pessoa, entre tantos outros, representam o segundo. Esta é uma visão simplista, pois figuras nobres e dignas como o Velho do Restelo são difíceis de catalogar. O Velho do Restelo é uma figura conservadora, temerosa, ancestral, uma figura que abomina certamente o Quim Barreiros, mas que não abraça Camões ou Pessoa. Como Roger Scruton já nos ensinou bastas vezes, os gostos discutem-se e discutem-se fortemente. Essa discussão chama-se Estética.

Segundo o jornal ‘Observador’, o reitor do Santuário de Fátima, padre Carlos Cabecinhas, referiu que quando foi lançado o desafio à artista para realizar uma obra que marcasse o centenário tinha a noção “da enorme dificuldade que representava”, “criar uma obra de arte à escala deste enorme recinto era um desafio fora do comum”. “Este desafio foi felizmente aceite”, adiantou Carlos Cabecinhas que, dirigindo-se a Joana Vasconcelos, deu os parabéns, dizendo-lhe que “criou uma peça extremamente fotogénica” que “consegue dominar este enorme recinto de oração”. Lá que domina, domina!

A questão muito abordada pelo sacerdote é que se trata de uma encomenda de uma putativa “obra de arte”, uma obra de arte que vai emoldurar a entrada daquela que é, indiscutivelmente, uma verdadeira obra de arte, a extraordinária Basílica da Santíssima Trindade! Desenhada por um artista, o grande arquitecto grego Alexandros Tombazis, tem o desenho de engenharia de José Mota Freitas que lhe valeu o maior galardão internacional de engenharia do Mundo.

Próximas da Basílica há esculturas de artistas a sério como Domingos Soares Branco e Joaquim Correia, na própria Basílica situam-se os Painéis do Rosário de Pedro Calapez, e há intervenções dos artistas Kerry Joe Kelly, Francisco Providência, Catherine Green, Vanni Rinaldi, Benedetto Pietrogrande, Marko Ivan Rupnik, Czeslaw Dzwigaj. A notabilíssima execução da Cruz Alta, localizada no exterior da igreja, em ferro, com 34 metros de altura, é do grande escultor alemão Robert Schad. A escultura suspensa no pórtico de entrada é da autoria da artista cipriota Maria Loizidou. E há ainda um notável conjunto de painel de azulejos da autoria de Álvaro Siza Vieira.

É junto deste conjunto de artistas, representações dignas do Portugal do Quinto Império, encomendas esclarecidas da Igreja, que figura o Terço da Joana, uma lídima representação do outro Portugal, não menos Portugal, não menos típico, um Portugal que o Velho do Restelo também abominaria, mas um Portugal menor, o Portugal da sardinha assada e do chouriço na brasa que tem o seu lugar num parque de merendas. Terá lugar num altar do Mundo? A Igreja antes contratou Miguel Ângelo, Caravaggio, Palestrina, Mozart ou o Schad que realizou o Cristo lindíssimo da Cruz Alta que será eternamente posto ao mesmo nível dos ‘leds’ e bolas da Joana.

É caso para invocar um raio divino, uma aparição colérica do Senhor dos Exércitos, que dê utilidade ao Terço.

Resolvemos plasmar neste texto os artigos do Código Penal Português relativos à questão da vacinação e da sua ausência. Consideramos que a proibição de vacinação de crianças a cargo de progenitores ou tutores legais constitui um facto de extrema gravidade que, além de deixar expostas crianças a doenças potencialmente fatais, também concorre para a propagação, de forma negligente, de doenças muito graves no seio da comunidade, sendo um crime contra a vida em sociedade.

Decorre da atitude de não vacinar uma tipificação que, vista em sentido lato, constitui crime contra as pessoas e a sua integridade física e, ao mesmo tempo, crime contra a vida em sociedade. Os artigos 144º e 148º estão na primeira categoria e os artigos 283º e 285º na segunda categoria.

«Artigo 144.º

Ofensa à integridade física grave

Quem ofender o corpo ou a saúde de outra pessoa de forma a:

a) […]; b) […]; c) Provocar-lhe doença particularmente dolorosa ou permanente, ou anomalia psíquica grave ou incurável; ou d) Provocar-lhe perigo para a vida;

é punido com pena de prisão de dois a dez anos.

Artigo 148.º

Ofensa à integridade física por negligência

1 – Quem, por negligência, ofender o corpo ou a saúde de outra pessoa, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias.

Artigo 283.º

Propagação de doença, alteração de análise ou de receituário

1 – Quem:

a) Propagar doença contagiosa; b) […]; c) […];

e criar deste modo perigo para a vida ou perigo grave para a integridade física de outrem é punido com pena de prisão de 1 a 8 anos.

2 – […]. 3 – Se a conduta referida no n.º 1 for praticada por negligência, o agente é punido com pena de prisão até 3 anos ou com pena de multa.

Artigo 285.º

Agravação pelo resultado

Se dos crimes previstos nos artigos 272.º a 274.º, 277.º, 280.º, ou 282.º a 284.º resultar morte ou ofensa à integridade física grave de outra pessoa, o agente é punido com a pena que ao caso caberia, agravada de um terço nos seus limites mínimo e máximo.»

Da análise deste articulado compreende-se que a ausência de vacinação de uma criança que resulte na sua posterior morte ou grave doença pode ser entendida como uma forma de infligir/praticar um dos crimes referidos acima por negligência e, salvo melhor opinião, deveria ser objecto de estudo por parte do Ministério Público.

A não vacinação dentro dos prazos estipulados, quando não existir razão médica, deve também ser encarada como uma forma de propagação de doença grave, quando existir um nexo de causalidade entre a doença contraída pela pessoa em causa e a propagação da mesma a outras pessoas na sua vizinhança, se se provar que se deu esta propagação por falta do dever de vacinação.

A vacinação é, sabe-se hoje, e a ciência confirma-o, uma forma de higiene crucial na prevenção e erradicação de doenças gravíssimas. A sua ausência generalizada seria um retorno à barbárie em que existiam taxas de mortalidade infantil de mais de cinquenta por cento. Quem não vacina os seus é triplamente insidioso, expõe os seus rebentos à morte de forma horrível, concorre para a propagação de doenças potencialmente fatais e, de forma egoísta, fia-se em todos os outros que vacinam as suas crianças para não serem expostos aos agentes que, sem uma vacinação generalizada, pululariam. Os exemplos recentes que expõem muitos casos de não vacinação são um sintoma do que aconteceria se todos agissem de forma ignorante e malévola: a protecção que agora existe desapareceria e muitos milhares de crianças, e adultos, morreriam de tétano ou ficariam irremediavelmente marcados pela poliomielite, para não ir mais longe.

Não deverá ser necessário fazer mais alterações à lei, o Código Penal já dispõe de meios punitivos para quem veja a não vacinação ser a causa de propagação de doença grave. Falta a medida pedagógica, que já vigorou em tempos, de impedir que quem não esteja vacinado não possa ter acesso à escola.

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Muita gente em Portugal ainda não percebeu as razões e o alcance da saída da Inglaterra da União Europeia, provavelmente porque tomam o Reino Unido por Londres. Fazem mal, porque o povo inglês representa uma velha Nação que sempre esteve na linha da frente da civilização europeia e desde a Carta Magna lidera o conceito de regime democrático com uma notável continuidade e discernimento. Sabendo isso, dou por vezes comigo a pensar o que fariam hoje os burocratas de Bruxelas se confrontados com a invasão da Polónia por um qualquer Hitler, quando os ingleses não vacilaram e afirmaram que com “sangue suor e lágrimas o Reino Unido prevalecerá” – e prevaleceu. Com muitas ajudas, é certo, nomeadamente dos Estados Unidos, mas não esperaram por ninguém para manter vivo o espírito britânico de coragem, independência e respeito pelas instituições democráticas, mesmo nas mais difíceis circunstâncias. O mesmo respeito que os leva agora a negociar a saída da União Europeia.

Não admira portanto que os ingleses não se dêem bem com a actual governação da Europa, que coloca diariamente em causa séculos de história e de princípios que marcam a natureza do povo inglês e, já agora, da própria Europa. E muitos ingleses consideram, provavelmente com razão, que muitas das decisões de Bruxelas são contrárias a esse espírito britânico que os fez sobreviver por entre as incidências da história e das guerras; e, não vendo o seu futuro na União Europeia com clareza, desesperaram. Porque aquilo que muitos consideram um país com um pé dentro e outro fora das instituições europeias, resulta da vontade de serem europeus, mas não à custa das suas tradições e dos seus valores. Que outros, como Portugal, vejam nisso uma mera questão de mais ou menos solidariedade e de mais ou menos fundos e nisso empenhem a alma, a história e a independência, não influencia os ingleses, que acabaram por não aceitar a irrelevância a que se sentem remetidos nas tarefas do mundo global.

Não sei prever o futuro do Brexit, nem sei se os ingleses ganham ou perdem com a saída da União Europeia, o futuro dirá, mas tenho uma grande admiração pelo povo inglês, por esse país generoso de prados verdejantes e de belos jardins, cuidados diariamente pelas famílias, numa tradição de séculos de devoção à natureza e à sua paisagem rural e urbana. Gosto o suficiente dos ingleses para desejar ao meu País a mesma clareza e independência de propósitos e o mesmo respeito pelas tradições e valores, que são britânicos mas também europeus.

Infelizmente, Portugal não pode escolher sair da União Europeia, o que não desejo, mas pela simples razão de que os governos nacionais, sem grandeza e sem sentido de Estado, se deixaram enredar na teia do dinheiro fácil e da dependência do canto da sereia de Bruxelas. Infelizmente, no momento histórico da adesão à União Europeia não percebemos que, como os ingleses de 1939, precisávamos de algum sangue suor e lágrimas para cumprir o objectivo de nos aproximarmos dos países mais avançados e felizes da Europa. Nesse processo, feito de enganos e de falsas promessas, os governantes portugueses traíram o povo cujas qualidades de trabalho e de sacrifício menosprezaram, em troca de facilidades, de vazio estratégico e da corrupção, de que o País não precisava.

Compreender hoje a decisão do povo britânico ajudará a compreender os dilemas em que se fundamenta a União Europeia, com a ideia, se ainda for tempo, de salvar o sonho europeu de paz e de progresso, o que implica aceitar as diferenças como um valor e não como um problema.

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 Luísa Venturini

Sem nada contundente a mordiscar-me a disposição, saí com um passo desembaraçado e um humor tão solto e jovial como se tivesse recebido uma muito boa notícia, apenas com o propósito de apanhar um pouco de ar, tomar café e entreter corpo e pensamentos com a bondade da tarde, livre dos espartilhos do frio que me mirram a perspectiva.

Uma esplanada pisca-me o olho, naquele trejeito de convite quase insolente que, para mim, as esplanadas sempre têm, e lá estugo eu a passada, na alegria antecipada do seu acolhimento. Tiro da carteira a minha eterna imitação de Moleskine e a minha eterna caneta ArtPen, acendo o cigarro com ânimo e lembro-me subitamente de momentos idênticos vividos no café-jardim do Museu Picasso em Málaga – todo um mimo de rendas de verdes cálidos e tons queimados bem andaluzes. Com a desfaçatez que os pensamentos têm, ocorre-me que a célebre “Malagueña”, a tal que é “salerosa” e ao contrário do que eu pensara toda a vida, é uma canção mexicana e que nesse mesmo dia, em Málaga, para minha tremenda frustração, não cheguei a ter oportunidade de ir a um dos raros “tablaos” de flamenco que ainda resistem na cidade. E fico ali de olhar perdido pela memória, a passear-me pelas belas ruas da Andaluzia, sob um idêntico céu ensolarado e a refrescar durante meia dúzia de minutos toda uma semana entremeada de cansaços e contratempos, como se num passe encantatório uma “abracadabra” me estivesse a animar o momento.

Abro o caderno, escrevo a data e toda uma nova panóplia acadabrante me assalta as ideias, com os dias deste mensário a alvoroçarem-se na minha cabeça, armados em painéis publicitários de néons histéricos, todos a pretenderem protagonismo em simultâneo, num estranho coro de óbitos, casamentos e nascimentos, cada um importante pelas suas próprias razões e cada um deixando em mim a sua distinta pegada, indelével, inesquecível. Fechei rapidamente aquela ruidosa espécie de Jumanji, obrigando-os a calarem-se. Um dia de cada vez, por favor. Um dia de cada vez e em ordem, se for possível!, resmungo entredentes com uma autoridade divertida.

Eis que mal acabo de remeter à carteira caderno e caneta e me preparo para pagar o café, me aparece a Maria do Carmo, cheia de “Ainda bem! Ainda bem que agora a encontro.” Acrescenta, sem respirar: “Ia mandar-lhe uma mensagem. Já fiz as suas reservas para Málaga e estão confirmadas as reuniões de 3ª e de 4ª. As provas das publicações já estão prontas. Não se esqueça que na 6ª há assinatura do contrato e que os ingleses contam consigo para a apresentação do projecto. Amanhã, vai ter tempo para analisar os relatórios que chegaram do Porto ou…”

Por um momento, dei comigo a pensar que me apetecia fechar a Maria do Carmo na gaveta. Quando, finalmente!, se calou, lá consegui dizer-lhe: “Então, Maria do Carmo, toma um café? Então, conte-me lá, como estão as crianças?”

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RENATO EPIFÂNIO

Escreveu Paulo Trigo Pereira no jornal “Observador” (11.04.2017) um interessante artigo intitulado “Agostinho da Silva: Amado e Mal-Tratado”, onde denuncia, a nosso ver com acerto, que Agostinho da Silva tem sido “mal-tratado quer por parte de certa ‘inteligentzia nacional’, quer e sobretudo pelas instituições públicas”.

Sendo a denúncia acertada, as explicações que Paulo Trigo Pereira expõe no seu artigo não acertam, de todo, a nosso ver, no alvo. Dito isto, gostaríamos desde já de ressalvar que não pomos minimamente em causa o agostinianismo de Paulo Trigo Pereira, até porque sabemos, por experiência própria, que há muitas formas de ser agostiniano – formas diferentes, muito diferentes, e até contraditórias. Com efeito, Agostinho da Silva consegue, ainda hoje, congregar pessoas das mais diversas proveniências filosóficas, ideológicas, religiosas, etc.

Feita esta (para nós) importante ressalva, vamos então à nossa explicação para o facto de Agostinho da Silva continuar a ser “mal-tratado quer por parte de certa ‘inteligentzia nacional’, quer e sobretudo pelas instituições públicas”. No essencial, isso deve-se, a nosso ver, à sua visão do país, bem distante (para dizer o mínimo) da visão defendida quer por parte de certa “inteligentzia nacional”, quer e sobretudo pelas instituições públicas.

Compreendemos que, para Paulo Trigo Pereira, que se assume como um “federalista europeu”, o assunto seja incómodo, mas a verdade é que, ainda em vida, Agostinho da Silva expôs as maiores reservas a uma visão oficial do País que, no essencial, reduzia Portugal à então C.E.E. (Comunidade Económica Europeia). Na altura, sobretudo por isso, Agostinho da Silva foi de facto ridicularizado e posto de parte: era, alegadamente, um “passadista”, um “velho do Restelo”, senão mesmo ainda um “homem do Império”, que não aceitava o que nos foi impingido como o (único) futuro, com os resultados que estão hoje à vista de todos.

Na verdade, desde há muito tempo, Agostinho da Silva defendia um outro futuro para Portugal. Apenas alguns exemplos: num texto publicado no jornal brasileiro ‘O Estado de São Paulo’, com a data de 27 de Outubro de 1957, Agostinho da Silva havia proposto “uma Confederação dos povos de língua portuguesa”. Num texto posterior, chegará a falar de um mesmo “Povo não realizado que actualmente habita Portugal, a Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, o Brasil, Angola, Moçambique, Macau, Timor, e vive, como emigrante ou exilado, da Rússia ao Chile, do Canadá à Austrália” [“Proposição” (1974)].

Por tudo isso, chegou a defender: “não me pareceu que a revolução de 1974, tal como estava a ser feita, conduzisse a alguma coisa em que valesse a pena colocar essas ideias. Pareceu-me que era um pronunciamento militar sem grande largueza política” (in “Vida Conversável”, Lisboa, Assírio & Alvim, 1994, p. 53). Face a uma posição como esta, como poderia, de facto, Agostinho da Silva não ser “mal-tratado quer por parte de certa ‘inteligentzia nacional’, quer e sobretudo pelas instituições públicas”? A nosso ver, não poderia. Vamos até mais longe. Se for apenas por esta razão, melhor será que Agostinho da Silva continue a ser “mal-tratado quer por parte de certa ‘inteligentzia nacional’, quer e sobretudo pelas instituições públicas”. Prova de que, no essencial, continua a ter razão, já mais de vinte anos após a sua partida.

José António Cerejo denunciou em tempos Sócrates, e bem. Agora anda obcecado com a Igreja Católica. Escreve um artigo, este Sábado de Páscoa, a denegrir a instituição e as suas finanças. O visado é o cónego Álvaro Bizarro, que gere o património e finanças do Patriarcado de Lisboa há mais de duas décadas. Como católico, acho profundamente errado que um mesmo homem se eternize num lugar chave. No entanto, o ataque soez contra uma instituição que assegura mais de setenta por cento da assistência social em Portugal é vergonhoso.

Numa enorme confusão de números que Cerejo não consegue entender, nem explicar, percebe-se que uma das verbas que dá é a de que um seminarista estrangeiro em pensão completa em Lisboa, incluindo roupa, alojamento, comida, estudos, livros, papel, computador, viagens, não pode custar mais de 333 euros por mês ao Patriarcado. O que faria o Patriarcado ao resto do dinheiro das dádivas quaresmais que são mais de duzentos mil euros? Esquece-se de que há mais dádivas para além dessa e espanta-se que a Igreja gaste muito mais em assistência, seriam uns oitocentos mil; mas por outro lado falta dinheiro, afirma Cerejo! Talvez seja da veterania, que Cerejo é jornalista há mais tempo do que Bizarro é ecónomo, mas as confusões do jornalista são muitas e muito pouco explicadas.

Não sei se Cerejo tem filhos, mas ele que ponha a receita para gastar 10 euros por dia com um estudante universitário ou liceal em Lisboa, incluindo duas viagens por ano para a Índia ou Mindelo ou outra localização intercontinental, que o povo agradece. Eu penso que nem o Salazar, reconhecidamente económico, conseguiria tal milagre. Talvez a Igreja Católica o consiga, mas se assim for, aqui fica o elogio a esta instituição.

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Várias semanas após a escolha de Teresa Leal Coelho para encabeçar a lista do PSD em Lisboa, confirma-se o anunciado desastre que conduzirá Medina de novo ao poder, levado ao colo pela antipatia da senhora e pela sua história recente.

Teresa Leal Coelho não faz declarações, não aparece no combate político, não denuncia nem capitaliza a pouca-vergonha da gestão Medina em Lisboa. Teresa Leal Coelho é o vácuo, o nulo, sem ideias, sem plano, escrito sem convicção pela mão alheia de José Eduardo Martins, e não tem qualquer hipótese, também devido à sua figura desgastada e antipática de defensora número um da troika e de Passos Coelho que desagrada visivelmente ao eleitorado.

Medina, que chegou a presidente de câmara sem ir a votos, continua com sorte: com tal escolha é inevitável uma derrota esmagadora do PSD. A única vantagem é que uma derrota estrondosa do PSD perante um fraco Medina em Lisboa deverá levar a uma rápida substituição de Passos Coelho por alguém capaz como Rui Rio. Marcelo, “o catavento político” de Passos Coelho, agradece, mais uma vez, a pouca inteligência da escolha.

Entretanto, no Porto, o PSD anuncia uma campanha em que vai tentar provar que “Rui Moreira é um bom presidente de Câmara” é um mito! Meu Deus! Será que ninguém consegue ensinar àquelas cabecinhas que fazer uma campanha já de si negativa, e ainda por cima afirmando peremptoriamente no princípio estratégico fundamental a negação do que querem provar usando o termo “bom presidente de câmara”, vai reforçar a imagem positiva de Rui Moreira junto da população? A mensagem é muito complicada e não passa para o público. Lembram-se da fase de Guterres “No jobs for the boys”? O “não” caiu e ficou apenas a parte dos “boys” do PS e de tachos para a rapaziada.

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A gravidade das decisões do Governo, dos partidos que o apoiam no Parlamento e da Administração da Caixa Geral de Depósitos, de não fornecer as informações pedidas pela Comissão de Inquérito da Assembleia da República, decisão contrariada pelo Tribunal da Relação, não tem precedentes na democracia portuguesa. Recordo que o Governo anterior, apesar de ter tido um comportamento pouco edificante em relação à constitucionalidade de algumas leis, sempre cumpriu as decisões do Tribunal.

Acresce que a Administração da Caixa Geral de Depósitos apresentou perdas inacreditáveis ao longo dos últimos dez anos e apenas em 2016 essas perdas somaram 1.933 milhões de euros. Ora pensar que o Governo e os partidos que o apoiam podem manter em segredo os responsáveis pelos créditos concedidos e não pagos e o nome das empresas e dos cidadãos que defraudaram a instituição, constitui um insulto aos contribuintes portugueses e à própria democracia.

A pergunta óbvia é: a quem servem o Governo de António Costa, o PS, o PCP e o Bloco de Esquerda? Estão ao serviço do povo português ou de empresas e de gestores irresponsáveis que defraudaram de forma continuada o interesse público, alguns deles a contas com os tribunais? Os portugueses têm de exigir uma resposta clara a esta pergunta.

Aliás, algumas das actuais decisões da Administração da Caixa vão no mesmo sentido, porque o que pode explicar que as obrigações perpétuas emitidas e a emitir pela instituição paguem aos especuladores internacionais 10,5% de juros e aos portugueses um juro de Euribor mais 1,9%, o que, sabendo-se que a Euribor está negativa, representa um rendimento comparativamente insultuoso de 1,9% para as famílias e investidores portugueses (dados retirados de um estudo de Eugénio Rosa).

Que Governo é este e que partidos são estes que assumem decisões como estas e se recusam a responder perante os eleitores e a dar as informações pedidas por deputados da Assembleia da República? Ao serviço de quem está este Governo e os partidos que o apoiam? Não menos pertinente, onde está o Presidente da República nesta conjuntura?

É conhecida a minha posição de pedir a alteração das leis eleitorais, por considerar que o actual regime político não é democrático, na medida em que os representantes do povo, nomeadamente na Assembleia da República, são escolhidos pelos líderes partidários e, na sua maioria, estão ao serviço dos interesses de manutenção do poder, a qualquer preço, de quem os escolheu e não do povo que, cada vez em menor número, os elege. Por isso, se continuar a actual situação de negar o direito do povo português de conhecer aqueles que estão a arruinar o País, então a nossa democracia deixou de funcionar como tal e entramos numa ditadura de partidos. Aliás, todos os sinais, como os emitidos relativamente ao Conselho de Finanças Públicas e do Banco de Portugal, vão nesse sentido.

Assim sendo, o menos que se pode pedir é que a palavra seja devolvida aos portugueses.

CAPA

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