Opinião

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PEDRO MESQUITELA

Não sou nem nunca fui de “esquerda” na concepção vulgar em que hoje se usa este termo. Não sou nem nunca fui um “democrata” no sentido que se atribui ao tipo de “desgoverno” existente após a Segunda Guerra Mundial em vários países e, mais precisamente, depois do 25 de Abril em Portugal. Gosto de ideias claras, propósitos firmes e programas de Governo sérios.

Acredito na iniciativa privada e no lucro, na justa remuneração do trabalho, na melhoria através de produtividade aumentada, na igualdade dos sexos, no mercado de trabalho e na necessidade de progresso constante e aprendizagem continuada.

A grande questão é que, infelizmente, a jovem democracia portuguesa, que se iniciou no dia 1 de Maio de 1974, se mostrou desde o início infectada por vícios de forma e de conteúdo.

Com efeito, e como reacção aos anos chamados de ditadura, primeiro o PCP e depois o PS como contraponto pago e a serviço dos interesse estrangeiros, sobretudo dos EUA e da Alemanha, conseguiram votar em 1976 uma Constituição de viés socialista e socializante, que não serve aos interesses do Portugal moderno, pois engessa qualquer possibilidade de acção verdadeiramente Reformista, que tão necessária se torna.

Criou-se um Estado artificialmente chamado “social”, gastaram-se milhões de euros em benesses eleitoreiras que o País não podia nem pode pagar, endividou-se um Estado em que os cidadãos já não se revêem.

O País chegou ao ponto de não poder crescer para poder pagar a sua dívida externa e interna. O Governo não possui margem de manobra junto dos seus credores e tem uma visão diminuta do que poderia ser feito. Bruxelas, Frankfurt e Washington mandam mais em Portugal do que o actual Governo.

Para crescer, Portugal só o pode fazer à custa de mais endividamento externo. O rácio da dívida sobre o PIB não vai parar de crescer.

Os partidos políticos, verdadeiras sinecuras, dificilmente se identificam com o interesse nacional, a corrupção e os escândalos financeiros tornam-se corriqueiros, os portugueses sofrem e assistimos todos os dias a uma verborreia de políticos e comentadores que pouco tem a ver com a nossa realidade.

É muito claro para quem quiser ver que temos dois tipos de problemas principais.

Primeiro, um problema político. Não existe nenhum partido ou candidato que se proponha a dar um verdadeiro exemplo de austeridade.

Depois, um problema administrativo e financeiro. Não está a ser feita a verdadeira reforma que o País requer.

  • Leia este artigo na íntegra na edição impressa desta semana.

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MIGUEL MATTOS CHAVES – Militante e ex-dirigente nacional do CDS-PP

O primeiro-ministro de Espanha, em declarações à TVE, sobre a apresentação do OE-2013, referindo-se aos reformados, disse: “A primeira prioridade é tratar os pensionistas da melhor maneira possível.”

E continuou: “A minha primeira instrução ao ministro das Finanças de Espanha é de que as pessoas que não se devem prejudicar são os pensionistas.” Mais adiante: “No Orçamento de Estado deste ano só há dois sectores que sobem: os juros da dívida e as pensões. Não tenho nenhum interesse e se há algo que não tocarei são as pensões.” Mariano Rajoy sublinhou ainda “que o pensionista é a pessoa mais indefesa, que tem a situação mais difícil, porque não pode ir procurar outro posto de trabalho aos 75 ou 80 anos, tendo uma situação muito mais difícil”.

Por outro lado, o Dr. Francisco Sá Carneiro afirmou, em 1980: “As Reformas são intocáveis e impenhoráveis, pois são de quem descontou uma vida inteira para as receber.” Também o Tribunal Constitucional da Alemanha, num Acórdão, refere que “as reformas são intocáveis e são propriedade dos reformados”.

Os Reformados e o Estado português

Posto isto, tenho a dizer aos Srs. Governantes, e seus mal preparados assessores, aos comentadores do regime, avençados pelas televisões, (mas com o acordo dos partidos a que pertencem), e aos economistas do regime, (que perfilham a doutrina ultra-liberal da Escola de Chicago – que os próprios americanos já abandonaram na sequência da Crise de 2008), o seguinte:

  • O reformado e o pensionista entregaram durante 30 a 40 anos o seu (deles) dinheiro ao Estado com a promessa contratual de que quando se reformassem receberiam uma reforma ou pensão.
  • O Governo português, trai assim um contrato, e a confiança das pessoas, o que motivou o Prof. Doutor Adriano Moreira e o Dr. Bagão Félix a acusar o Governo de esbulho!
  • Na verdade, este dinheiro, que Reformados e Pensionistas entregaram ao Estado não é do Estado! É deles, reformados e pensionistas. E escusam de vir dizer que já o gastaram, como desculpa para agora haver alguma dificuldade. Se o gastaram, não o deviam ter feito, pois isso é abuso de confiança;

Ao contrário, deviam ter governado esses fundos, entregues pelas empresas e pelas pessoas, de forma a multiplicarem esse capital e fazê-lo render de forma a que nunca o mesmo faltasse para o cumprimento dos seu fim contratual: o pagamento das reformas.

Estamos, portanto, e salvo melhor opinião, em presença de um crime cometido pelos sucessivos Governos (PSD e PS) que delapidaram os Fundos que lhes foram entregues ao longo dos anos pelos contribuintes. Em mais nenhum dos países se cortaram as reformas, excepto na Grécia. Nem no Reino Unido, nem em Espanha, nem em Itália, nem na Irlanda se cortaram as reformas das pessoas. Esses governos cumpriram o seu contrato.

A decadência dos valores, dos contratos, e a possível nova guerra

Não tenho nenhuma dúvida de que se os actuais dirigentes do PSD (mais infelizmente a sua “muleta” CDS-PP, que agora faz de idiota útil) ganharem as Eleições de 2015, mais cortes virão para a franja mais fraca e desprotegida da sociedade: os reformados. E digo isto com grande mágoa, pois o meu CDS-PP sempre defendeu esta parte da sociedade. Agora a troco de uns lugares para alguns, parece que se esqueceu. Estou envergonhado da actual direcção do meu partido alinhar nos desmandos dos actuais dirigentes do PSD, mais uma vez.

A História da Europa, está recheada de lutas pelos recursos, lutas pelo poder e lutas ideológicas. lutas, umas vezes ditadas pelos (políticos, como lhes chamam) governantes, outras geradas em revoltas populares, que se estenderam ao continente europeu.

O factor preponderante que tem mantido a Europa, desde há 60 anos, fora de conflitos armados de Alta Intensidade, é a existência do Estado Providência, (fundado por Bismark e adaptado e posto em prática pelos conservadores ingleses no pós-Segunda Guerra Mundial e progressivamente estendido à Europa dita Ocidental), agora desvirtuado pelo Estado Social. Este Estado Providência é o que mantém as populações com a noção que têm muito a perder com um novo conflito armado.

O Estado Previdência, fundado por Governos da Direita conservadora, pretendia fazer face à natural imprevidência do ser humano médio, e por isso garantia apenas três factores: quando a pessoa está doente, é tratada; quando está involuntariamente desempregada, não morrerá de fome; quando está já em idade avançada, terá uma vida digna.

Mas, se destruírem o Estado Providência (que não o Estado Social que está a arruinar o primeiro, por estar a dar muito mais que o Estado Providência, tornando-se ele próprio imprevidente), não tenho a certeza de que a Europa não voltará a conhecer um conflito armado de alta intensidade se os ultra-liberais cegos pela ignorância, vencerem eleições.

Pelo contrário, penso que haverá novo conflito armado de alta intensidade no continente europeu, se não houver visão, espírito de missão, seriedade, clarividência e sentido de Estado, por parte dos dirigentes políticos.

A Islândia recusou-se a proteger os credores dos bancos, quando estes passaram por uma grave crise em 2008, e as suas dívidas dispararam para um valor que corresponde a dez vezes o tamanho da economia.

A subsequente decisão de evitar a saída de capital, restringindo a moeda, permitiu ao governo da Islândia evitar os ataques especulativos e “estancar a hemorragia” que pesava sobre a economia do país.

Por seu turno, isso ajudou as autoridades a focarem-se no apoio às famílias e às empresas. “O facto de a Islândia ter conseguido manter um sistema de bem-estar social face a uma consolidação fiscal muito significativa é um dos maiores feitos do governo da Islândia”, referiu Zakharova.

Finalmente, “o comprometimento da Islândia com o seu programa, a decisão de imputar as perdas aos obrigacionistas e não aos contribuintes, de manter blindado o sistema social e de protecção aos desempregados e aos reformados, ajudou a impulsionar a Nação do colapso para a recuperação”, segundo o FMI.

É só comparar o que fizeram os governos da Islândia, de Espanha, do Reino Unido, da Irlanda, com o que tem feito, o Governo Português!

Lá penalizaram os causadores da crise! Em Portugal penalizam os contribuintes e os que já não têm alternativa: os reformados!

Deixo uma pergunta no ar: será que os actuais dirigentes do PSD querem beneficiar as companhias de seguros, facilitando-lhes a vida na “construção e venda de produtos de reforma das pessoas”?

Por outro lado, será que os actuais dirigentes do PSD, se assim for, já pensaram que esse modelo dos EUA, tem como contrapartida:

  • O funcionamento da Justiça rápida (julgamento em dois meses), para o caso de uma seguradora se atrasar no prazo de pagamento ou da verba acordada, para esse tipo de produto?
  • A penalização severa das companhias de seguros que não cumpram o contrato, pois em dois meses são condenadas a pagar o que deviam ter pago, mais uma fortíssima penalização por má-fé, nunca inferior a um milhão de dólares de indemnização?
  • E que por este quadro legal e processual existir, nem passa pela cabeça das companhias de seguros americanas, ou aí sediadas, atrasar-se um dia que seja e muito menos não pagar o que contrataram?

Os actuais dirigentes do PSD sabem isto?

A Traição à Confiança depositada pelos Cidadãos no Estado/Governos

Falar-se de que os que agora trabalham é que estão a pagar as Reformas é pouco ou nada sério.

Em primeiro lugar, porque os que descontaram toda a vida é que possibilitaram e pagaram:

  • A Educação, os Estudos, a Alimentação, dos que agora trabalhamos;
  • A evolução e a construção do País, das empresas, das indústrias, que possibilitam agora a todos nós termos um país, empresas, indústrias onde trabalhar;
  • Os que agora estão reformados, fundaram as escolas e as universidades onde pudemos estudar e evoluir.

E pergunto: agora, como eles já fizeram isso tudo em seu próprio favor, e em nosso favor (em idade activa e mais novos), retira-se-lhes o direito ao contrato que estabeleceram com o Estado de Portugal?

Por fim, relembro apenas aquilo que já anteriormente escrevi: as reformas e as pensões em Portugal, mesmo numa Economia em recessão, significaram entre os 20,13% e os 19,89%, sobre as receitas totais do Estado. Muito longe, portanto, dos anunciados 30% a 35%.

Mas se a análise for feita sobre o PIB, então o seu significado variou, repito, num quadro de uma Economia em recessão, entre os 8,69% e os 7,71%. Portanto, muito longe do anunciado pelos “especialistas”.

A coberto dessas pretensas “realidades” foram cometidos os mais soezes ataques a esta parte da população portuguesa.

Parafraseando o Prof. Doutor Adriano Moreira, “estamos em presença de um esbulho”.

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RODOLFO DE JESUS CORDEIRO 

Li com muito interesse a carta do leitor Virgílio Pinto, incluída na última edição d’O DIABO, e partilho a sua opinião de que os (muitos, imensos, por vezes delirantes) textos publicados recentemente sobre o poeta Herberto Helder omitem, inexplicavelmente, o seu percurso como pessoa. Sob o pretexto de que era um ser “inacessível”, “misterioso”, quase sagrado ou divino, as notas biográficas ultimamente publicadas só referem coisas vagas, por vezes com hiatos de alguns anos. Dir-se-ia que não foi possível encontrar um único jornalista capaz de escrever uma simples biografia de um poeta que faleceu.

É verdade que Herberto Helder se recolhia e protegia da curiosidade mundana e social dos jornalistas, sobretudo evitando ser fotografado ou filmado. Mas creio que isso tinha em vista manter a sua paz de espírito, a sua tranquilidade. Presumo que ele apenas não queria atrás de si a chusma dos “jornalistas culturais”, os mesmos que, afinal, se apossaram dele logo que fechou os olhos. Ao contrário deles, Herberto (é uma frase sua) “não andava no comércio”.

No trato pessoal, Herberto Helder era uma pessoa normal, nada inacessível, nada “sagrado”, e posso afirmá-lo porque o conheci em Luanda em finais de 1971 e vim a reencontrá-lo em Lisboa depois do 25 de Abril. Eu trabalhava então numa firma que desejava implantar-se em Angola, e fui mandado a Luanda auscultar o mercado e estudar a possibilidade de abrir ali uma delegação. Como tinha um amigo que o conhecia, acabei por cruzar-me com Herberto Helder e ser-lhe apresentado. Herberto trabalhava então na revista ‘Notícia’ e era uma simpatia de pessoa. Modesto, calmo, de conversa fluente, apreciador de um bom petisco e de uma cerveja bem tirada, não se vangloriava da sua fama literária. Tanto, que só depois vim a saber que aquele modesto redactor de uma revista era também um grande poeta.

Quando me dei conta da importância de Herberto Helder no panorama da literatura portuguesa, já de regresso à Metrópole, passei a prestar atenção a tudo o que se escrevia sobre ele e a comprar, sempre que possível, os seus livros. É assim que posso hoje adiantar algo sobre a sua passagem por Angola, referida recentemente na Imprensa de uma forma fugidia e misteriosa. Não há qualquer mistério.

Herberto Helder foi trabalhar para Luanda em Abril de 1971 e por lá se manteve cerca de um ano. Não sei se seria jornalista profissional, mas foi redactor da revista ‘Notícia’. Esta publicação, cujo êxito se devia a Charula de Azevedo, era então a mais moderna e a mais prestigiada de Angola. Foi dirigida por João Fernandes (creio que o mesmo jornalista que, anos mais tarde, escreveu n’O DIABO) e teve como redactores, entre outros, António Gonçalves, Carlos Ventura Martins, Maria Virgínia de Aguiar, José Sebag e Moutinho Pereira. Tinha ao seu serviço grandes fotógrafos, como Eduardo Baião, Fernando Farinha e Eduardo Guimarães. Tinha também uma delegação em Lisboa, de onde escreviam Edite Soeiro e Fernando Dacosta. Entre os vários colunistas regulares destacava-se Natália Correia. Um dos ‘cartoonistas’ era Carlos Fernandes.

Sendo uma publicação moderna, escrita por pessoas ligadas ao mundo da cultura, a ‘Notícia’ não era uma revista da oposição. Lembro-me de ter lido na ‘Notícia’ alguns textos altamente elogiosos sobre Marcello Caetano, por exemplo. Aliás, entre os accionistas da ‘Notícia’ contavam-se destacados capitalistas do sistema, como Manuel Vinhas e Cupertino de Miranda. Creio poder afirmar que a ‘Notícia’ seguia a linha de muitas outras publicações do seu tempo, nem bajuladora do regime nem oposicionista, suficientemente acomodada para sobreviver sem dramas no Estado Novo e suficientemente arejada para não ignorar uma ou outra tendência mais reformista.

A ida de Herberto Helder para Luanda parece ter ficado a dever-se a João Fernandes, que o tinha conhecido em Lisboa, no célebre grupo surrealista do Café Gelo. Na ‘Notícia’, Herberto Helder escreveu sempre num tom muito pessoal, um compromisso entre o jornalístico e o literário. Publicou crónicas, reportagens, entrevistas e crítica de livros, assinando ora como “Herberto Helder” ora como “Luís Bernardes” (os seus nomes do meio). Escreveu sobre a seca em Novo Redondo, ocasião que aproveitou para entrar em contacto com os mucubais, sobre os bares de Luanda, sobre o Museu do Café, sobre o Mercado de São Paulo, sobre futebol, etc., etc. Entrevistou figuras da música ligeira, como Carlos do Carmo e o brasileiro Nelson Ned (de quem ficou admirador). Em Luanda, era um homem pacato que gostava de conviver e não se punha nos bicos dos pés. Terá sido também em Luanda que Herberto conheceu aquela que viria ser a sua segunda mulher, a assistente social Olga Ferreira Lima.

Em Março de 1972, quando regressava de uma reportagem sobre o Festival da Chita, no Lobito, com o fotógrafo Eduardo Guimarães, o Volkswagen em que viajavam despistou-se e ficaram ambos bastante feridos. Herberto passou longas semanas no hospital, após o que regressou a Lisboa. Suponho que foi depois que decidiu viajar pelos Estados Unidos, onde possivelmente estaria aquando do 25 de Abril.

Curiosamente, também não vi, nos muitos elogios fúnebres publicados recentemente, qualquer referência à sua passagem pela Emissora Nacional, no tempo do anterior regime, já não recordo se antes se depois do seu período em Angola.

Só voltei a encontrar Herberto Helder alguns anos depois do 25 de Abril, numa esplanada da Rua Passos Manuel, em Lisboa. Reconheceu-me amavelmente e cumprimentou-me com a mesma afabilidade. Falámos brevemente de Angola e do seu terrível acidente de viação, que na altura tinha sido muito falado. Continuava a ser o mesmo homem simples e simpático, nada do retrato de misantropo “divinizado” e mitificado que agora se faz dele.

Foi com surpresa que, há dias, soube que se tinha filiado no Partido Comunista a seguir ao 25 de Abril, embora a sua “militância” tenha sido, segundo li, muito breve.

Todos estes aspectos biográficos que refiro, e muitos outros de interesse entre os anos 50 (quando se estreou como poeta) e 2015 (quando faleceu), escaparam porém aos “jornalistas culturais” que agora se acotovelam para debitar a sua douta opinião sobre Herberto Helder, os quais nem se deram ao trabalho de consultar os trabalhos de Maria Estela Guedes sobre a pessoa que foi este grande poeta. E bem valeria a pena investigar com seriedade e serenidade a vida de um homem cuja obra poética é eminentemente autobiográfica.

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HUGO NAVARRO

Falta fazer em Portugal um estudo sério sobre a linguagem agressiva dos partidos de esquerda, em especial do PCP e dos grupelhos mais extremistas. Esse estudo comprovaria, necessariamente, duas coisas: que a esquerda continua a usar chavões do tempo de Estaline; e que, por isso e não só, se encontra completamente divorciada da maioria dos portugueses.

Um exemplo recorrente, nos últimos tempos, tem sido a expressão “destruição de postos de trabalho”, habitualmente usada por pcpistas e bloquistas, mas também adoptada por tolos úteis que não vêem a esparrela em que estão a cair. O que será “destruir” um posto de trabalho? “Destruir” é um verbo forte, que implica a ideia de demolir, arrasar, aniquilar, exterminar. É um verbo de guerra sem quartel. Neste caso, seria como se um posto de trabalho estivesse muito bem no seu cantinho, e viesse alguém matá-lo impiedosamente à marretada ou à paulada.

Sucede que um posto de trabalho é uma circunstância conjuntural que não tem, em si mesma, existência física: o que existe fisicamente é a pessoa que o ocupa. Assim, ao aplicar-se o conceito de “destruição” a um termo conceptual, o que se faz é transferir a ambiência violenta de um acto físico terminal para a pessoa pressuposta a que ele corresponde.

O resultado é este: com um truque semântico, passa a atribuir-se à extinção (também conjuntural) de um dado posto de trabalho uma carga demolidora que, em última análise, condena quem procedeu a essa extinção (como se, na realidade, tivesse pegado no martelo para matar alguém) e transforma em vítima de holocausto o simples desempregado. Este é apenas um exemplo, entre muitos, da linguagem corrente da esquerda portuguesa.

Quem sabe um pouco de História não pode deixar de detectar nesta violência verbal o estilo da propaganda dos tempos estalinistas, que serviu para “justificar” a aniquilação física real de milhões de pessoas e para atribuir a terceiros a responsabilidade pela ruína e devastação do Leste europeu durante grande parte do século XX. É interessante notar que o erro em que a esquerda portuguesa incorre ao usar este tipo de linguagem é igualmente estalinista: pressupõe que o código da nomenklatura é assimilado pelas massas, quando na verdade estas apenas se conformam à circunstância, aguardando melhores dias.

Os portugueses, seres de uma plasticidade especial (como Orlando Ribeiro, Jorge Dias e muitos outros demonstraram), não se revêem no abuso verbal na esfera pública. Daí que, por mais que gritem, os extremistas da esquerda são sistematicamente derrotados nas urnas eleitorais.

Melhor dito: é precisamente devido a esse abuso verbal que são derrotados, pois ele opõe os seus agentes à sensibilidade dominante.

De certa maneira, ainda bem que assim é, pois radicais esquerdistas de falinhas mansas seriam incomensuravelmente mais perigosos. Há, na esquerda radical, quem se aperceba deste fenómeno. É o caso de Manuel Loff, um professor do ensino universitário cujo sectarismo empedernido alterna com brevíssimos instantes de lucidez táctica. Num desses instantes, Loff defendeu há dias que “só a esquerda pode salvar Portugal”. Esta apropriação da linguagem salvífica dos patriotas (“salvar Portugal”) pode pecar por um enorme exagero hiperbólico, mas não revela estupidez. Pelo contrário: na sua habilidade semântica, que abandona a violência primária para abraçar um projecto proto-religioso (“salvar”), encontramos uma “nuance” que também importa estudar.

A Filosofia da Linguagem vem dos tempos de Aristóteles. Mas parece que ainda não chegou a Portugal.

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CESAR RANQUETAT JÚNIOR – Doutor em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor de Ciências Humanas na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA)/Campus Itaqui, no Brasil.

“A única realidade social é o indivíduo, por isso mesmo ele é a única realidade. O conceito de sociedade é um puro conceito; o de humanidade uma simples ideia. Só o indivíduo vive, só o indivíduo pensa e sente.” – Fernando Pessoa in “Textos Filosóficos”.

Na linguagem coloquial é bastante comum o uso de afirmações do tipo: “a culpa toda é da sociedade”; “a sociedade obrigou-me a agir deste modo”; “sou uma vítima das estruturas sociais”; “a responsabilidade é do sistema social”; “o sistema social é opressor”.

Estas afirmativas são no mínimo arbitrárias, pois tendem a coisificar a sociedade, a fazer dela uma realidade viva e concreta, com intenções, objectivos e finalidades. Contudo, a sociedade, o social, o sistema social e outras expressões afins nada mais são que abstracções.

Noções e conceitos usados pelos leigos e pelos cientistas sociais para descrever a vida de um conjunto de pessoas.

Quando um leigo ou um analista social toma uma ideia ou conceito – como a noção de sociedade e sistema social – e trata-o como se fosse algo concreto e real ele incorre naquilo que é chamado nas ciências sociais e na filosofia de reificação. Reificar é, grosso modo, coisificar uma noção abstracta.

Não apenas na linguagem quotidiana reifica-se o social. Importantes teóricos sociais e filósofos conceberam a sociedade como uma entidade viva.

Émile Durkheim, um dos fundadores da Sociologia, acreditava que a sociedade era uma totalidade orgânica que preexistia a seus membros.

Para ele, a sociedade era como uma “substância moral” e, além disso, uma “consciência colectiva”. O social era uma força moral coercitiva, externa aos indivíduos, que modelava por completo suas atitudes, gostos e pensamentos.

Por sua vez, o marxismo parte da perspectiva de que as estruturas sociais, sobretudo a infra-estrutura económica, determinam a superstrutura religiosa, moral, jurídica e cultural. Sendo assim, os indivíduos nada mais são que marionetes, guiados e arrastados por forças sociais e económicas poderosas.

Outros autores e escolas de pensamento também substancializaram a sociedade. Para os organicistas biológicos do século XIX como Herbert Spencer e Ernst Haeckel, a sociedade era vista como um “organismo vivo gigantesco”.

Os românticos alemães, principalmente Herder, concebiam as sociedades como “almas nacionais”. Hegel defendera a tese de que a sociedade era a materialização do “espírito colectivo”.

Estas perspectivas teóricas partem da premissa de que a sociedade é algo externo aos indivíduos. Uma realidade que está acima e além deles.Definem o social como uma espécie de substância, como uma coisa, como um objecto estático, uma realidade concreta semelhante a uma pedra, a uma árvore ou uma bola de bilhar.

Porém, a sociedade não é propriamente algo subsistente como um organismo vivo ou uma alma. As “forças sociais”, as “estruturas sociais”, “as classes e grupos sociais” e o “sistema social” não existem de forma autónoma, independentemente dos indivíduos que os constituem.

O social nada mais é que um conjunto de indivíduos em interacção. Trata-se de pessoas entre outras pessoas envolvidas em relações de cooperação e conflito.

Como lembra o historiador e sociólogo Norbert Elias, noções como família, escola, indústria, cidade e estado, referem-se essencialmente a grupos de seres humanos interdependentes, formando configurações específicas.

Ademais, o social – a sociedade – não pode ser visto, nem mesmo pode ser captado directamente pelos sentidos físicos. Não é um objecto material, uma entidade do mundo físico perfeitamente delimitada e perceptível. De acordo com Ludwig von Mises: “É algo manifesto que ninguém é capaz de observar e analisar a sociedade como um todo. Tudo o que pode ser observado é apenas a acção de indivíduos”.

Desse modo, só é possível descrever, analisar e compreender uma sociedade, descrevendo, analisando e compreendendo as condutas, as acções, os valores e as ideias dos indivíduos que a compõem.

A sociedade não é capaz de pensar, sentir e agir. O sistema social não tem intenções, vontades e desejos, quem os tem são os indivíduos. Em suma, a sociedade não é um ser dotado de inteligência, consciência e vontade livre. Assim sendo, não pode ser avaliada, julgada e responsabilizada.

A premissa de que a sociedade é um ser vivo subsistente, com finalidades e objectivos, legitima o argumento de que a culpa é sempre da sociedade, de que os indivíduos são meras vitimas de um sistema social opressor.

Ao eximir a responsabilidade dos indivíduos, transferem-se automaticamente as culpas e males para um ente abstracto. O problema reside sempre nesta entidade fantasmagórica e nunca nos indivíduos reais de carne e osso. Não se imputa a responsabilidade a alguém, a uma pessoa concreta, mas a algo abstracto – o famigerado sistema social.

Segundo o filósofo e sociólogo Recásens Siches quando se concebe sociedade como uma substância, uma realidade com existência própria e independente, acaba-se por justificar as doutrinas políticas e sociais que pretendem escravizar os indivíduos.

Ao tornar outras entidades colectivas como o Estado, a nação, a classe e a raça organismos vivos dotados de inteligência e vontade própria, legitima-se a sujeição dos indivíduos a estes entes fetichizados.

A coisificação da sociedade transforma as pessoas em insignificantes e descartáveis elementos da engrenagem social, submergindo-as num todo colectivo amorfo e sem rosto. Em síntese, a coisificação da sociedade acaba por coisificar os indivíduos, pois retira-lhes o rosto humano. É a fonte primordial de toda a forma de colectivismo, socialismo, estatismo, nacionalismo agressivo e racismo.

Com efeito, a estatolatria e a sociolatria modernas favorecem e estimulam o conformismo, o servilismo, o nivelamento igualitário e a massificação. A transformação do Estado, da sociedade e de outras entidades colectivas em ídolos a serem objecto de devoção e culto, conduz à despersonalização e debilita e desintegra as individualidades. Torna os indivíduos seres passivos, objectos inermes completamente moldados por forças impessoais.

A fetichização da sociedade enfraquece – senão mesmo anula – a capacidade de acção dos indivíduos, debilitando a aptidão humana de resistir e se opor as pressões, forças e “condicionamento sociais”.

Faz da pessoa humana um produto mecânico dos influxos sociais e não um sujeito agente capaz de intervir na marcha dos acontecimentos. Ainda, a “tirania do colectivo” reduz todos os ideais, valores e actividades humanas a interesses de teor social.

Tudo aquilo que não tenha uma dimensão e uma finalidade eminentemente social é visto como uma actividade supérflua e ornamental, um “preconceito burguês”, uma atitude egocêntrica e inútil para o bem estar colectivo, convertido – de acordo com o ideal colectivista – em um simples bem estar material tão de agrado ao homem-massa.

Teorias sociais que reificam a sociedade são o fundamento especulativo para os mitos políticos modernos de teor estatólatra e colectivista que tendem, fatalmente, a hipertrofiar “entes colectivos”.

Este processo, via de regra, resulta na diminuição da liberdade e do poder de acção da pessoa humana. O que se busca, em última instância, é a anulação do valor da personalidade, domesticando-a e submetendo-a aos ditames e imperativos de forças impessoais, ou ao arbítrio de lideranças populistas e ditatoriais que afirmam representar os interesses de entidades abstractas como o povo, a nação, humanidade, a comunidade ou determinada classe social.

Há que se restabelecer a primazia da pessoa humana, sua dignidade e valor superior frente a qualquer “organismo colectivo”.

Estado e sociedade não são fins em si mesmo, mas apenas meios para a realização da pessoa humana.

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Carta do leitor publicada na edição de 3 de Fevereiro de 2015

Senhor Director,

O meu nome é José Portugal. Chamam-me Zé. Tenho uma provecta idade e sofri há uns anos uma amputação grave, mas sobrevivi e ainda me sinto com forças para lutar. Vivo remediadamente, apesar de alguns familiares estroinas terem delapidado nas últimas décadas quase tudo o que tinha poupado ao longo da vida.

Moro na rua pobre de um bairro onde há inquilinos de diferentes posses. Umas ruas acima, para Norte, fica a casa de D. Escandinávia, uma senhora rica com três filhas muito trabalhadoras (as meninas Suécia e Dinamarca, para além da menina Noruega, que vive fora).

Perto desta família moram a Alemanha, a Áustria, a Bélgica, o Luxemburgo, a Holanda e a Inglaterra, todas com posses e boas casas. Nos arrabaldes do nosso bairro vivem famílias que aqui se estabeleceram há pouco tempo – desde a orgulhosa D. Polónia, cujos filhos são operários especializados, à pelintra D. Roménia, cuja prole vive de expedientes. Como disse, há de tudo no nosso bairro.

O quarteirão onde moro tem duas zonas: na de cima vivem a D. Irlanda, a D. França e a D. Itália; na zona de baixo estamos nós, a D. Espanha e a D. Grécia. É precisamente a propósito desta última que lhe escrevo.

O estadão de vida desta família tem intrigado toda a vizinhança. A mãe, D. Grécia Helénica da Kosta, passa o tempo no cabeleireiro, nas compras e na pastelaria. A questão é que ninguém sabe de onde lhe vem o dinheiro, pois o marido nunca teve emprego conhecido e leva os dias deitado no sofá, a ver televisão e a beber vinho. Os filhos não trabalham nem estudam. Passam o dia a bronzear-se na praia e é rara a noite em que não dão uma festa lá em casa, partindo copos à medida que vão ficando mais alegres.

Todos os anos aparecem com carros de último modelo e redecoram a casa com móveis de luxo e electrodomésticos do melhor. Quando alguém lhes diz que a vida está difícil e têm de pensar no futuro, ficam muito ofendidos e respondem que têm todo o direito a isso porque são a família mais antiga das redondezas, com pergaminhos que vêm de há milhares de anos.

Eu também tenho pergaminhos, mas cá em casa não podemos dar-nos a esses luxos. E quando a crise aperta, então, passamos as passas dos Algarves. Foi o que aconteceu há uns tempos, quando toda esta zona do bairro foi afectada pelo ‘crash’ de D. América, uma família emigrada no outro lado do mar mas que mantém aqui muitos negócios. Em pouco tempo, a despensa estava vazia e quase não tínhamos pão para dar aos filhos. Numa aflição destas, e como pedir não é pecado, juntámo-nos e fomos à zona Norte do bairro pedir ajuda.

Fui eu, foi a D. Espanha, a D. Itália, a D. Grécia e até a D. Irlanda, que apesar de ser prima da D. Inglaterra, também estava aflita. Em nome dos vizinhos ricos, a D. Germana decidiu-se a emprestar-nos dinheiro, embora a juros altos.

Eu, D. Irlanda e D. Espanha pedimos com moderação, pois tencionávamos pagar e quanto menos devêssemos, melhor. Já D. Grécia Helénica da Kosta pediu mundos e fundos, argumentando que a família era grande e precisa de manter o nível de vida.

Desde então, tudo tenho feito para pôr as contas em dia. Cortei em tudo que era supérfluo, reduzi a metade as mesadas dos pequenos, dispensei uma das empregadas e só comemos carne duas vezes por semana. Poupando aqui, poupando ali, lá temos vindo a pagar a dívida e, se Deus quiser, em breve voltaremos a respirar fundo. O mesmo têm vindo a fazer D. Espanha e D. Irlanda.

Já na casa de D. Grécia da Kosta continua o farrabodó. O marido ainda não arranjou emprego nem dá mostras de querer trabalhar, mas a vida da família não se alterou. Há dias, os cobradores bateram-lhes à porta, mas a música estava tão alta que eles nem ouviram. E o filho mais novo diz que agora quem manda na família é ele e que não tem nada que pagar a dívida e que os ricos vão para o diabo, que ele não quer saber de nada.

Ainda por cima, querem que os do Norte do bairro continuem a pingar dinheiro, e que se for preciso os mais pobres, como nós, também hão-de contribuir para a família Helénica da Kosta, que não faremos mais do que a nossa obrigação.

O bairro está em polvorosa, como se pode imaginar. Com estas más influências, os filhos mais novos da família de D. Espanha também já dizem que querem passar o dia a cantar flamenco e a tocar castanholas. E até na nossa família há um primo em segundo grau, o Costa, parente dos Kosta por casamento, que diz que devíamos era seguir o exemplo de D. Grécia e mandar os credores à fava.

Faz-me impressão, tudo isto. Sempre me ensinaram que as dívidas são para pagar e que quem não tem dinheiro não tem vícios. Na fábula da cigarra e da formiga, que todos aprendemos na escola, quem fica sempre pior não é a formiga, que trabalhou e amealhou para comer no Inverno: é a cigarra, que tudo quis e nada fez. Mas na casa dos nossos vizinhos Helénicos da Kosta o farrabodó continua – e, nos últimos dias, as festas e as celebrações sucedem-se, sem que a vizinhança perceba o que estarão eles realmente a festejar.

O novo chefe da família já diz que, se for preciso, arrasa o bairro e salve-se quem puder. Parece-me que ainda não percebeu que, se a coisa dá mesmo para o torto, ainda recebem ordem de despejo. E onde vão depois encontrar quem lhes mate a fome?

Uma coisa eu sei: cá de casa não sairá nem mais um cêntimo para alimentar os vícios da família Kosta.

Vão trabalhar, que faz bem à saúde!

José Portugal (mais conhecido por Zé)

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Henrique Silveira – Crítico

Continuam as peripécias do folhetim Paolo Pinamonti. Este homem ubíquo não se sabe bem que funções desempenha em Portugal, agora será talvez (ex) putativo consultor artístico do Teatro Nacional de S. Carlos, que, aliás, é uma figura inexistente no quadro legal da instituição, em negociações para continuar a exercer funções, de que apresentou demissão, de uma forma “contratual” ou “extra-contratual”.

Sabemos, no entanto, que em Espanha é director do teatro da Zarzuela de Madrid e que neste país contratou 1.003, ou talvez um pouco menos, cantores a uma particular agência artística de Madrid. O leitor ficou confuso? É razão para isso. A embrulhada arranjada pelo actual titular da pasta de cultura deu origem a uma espécie de folhetim manhoso que não parece ter fim à vista.

Vamos tentar explicar o que se passou no mundo atribulado do S. Carlos desde o início desta história. Paolo Pinamonti foi director artístico do S. Carlos desde 2001 até ser despedido em 2007 por Mário Vieira de Carvalho das funções que começou por exercer de forma titubeante mas que terminou com algum sucesso relativo, facto apreciado pelo autor destas linhas que até ajudou a organizar um jantar de despedida e desagravo num espaço privado da sociedade comercial Theotónio Pereira, juntando críticos e jornalistas culturais portugueses, alguns desavindos há muito tempo mas unidos, finalmente, numa causa comum. Pinamonti fez a sua travessia do deserto, foi director do festival da Coruña e do Festival Terras sem Sombra, no Alentejo, finalmente foi convidado para dirigir o teatro da Zarzuela de Madrid como director artístico.

Depois da saída de Martin André, último director artístico do S. Carlos, houve um hiato de alguns meses em que Portugal percebeu que existia conhecimento e capacidade em Lisboa, nomeadamente no conselho de Administração do OPART, órgão que tutela o S. Carlos, que conseguiu ir montando algumas óperas, produção a produção, sem temporada definida a longo prazo, com escassíssimos recursos e valendo-se do excelente naipe de cantores nacionais existentes e cada vez melhor preparados.

Finalmente, Barreto Xavier resolveu ter a ideia peregrina de contratar um funcionário dos Filipes de Espanha para ser “consultor artístico” do teatro de S. Carlos. Era Paolo Pinamonti que era repescado, reciclado e desagravado daquilo que o PS lhe tinha feito e, numa versão recauchutada e em part-time, passaria a dirigir, do seu gabinete junto do palácio real de Madrid, o teatro de S. Carlos.

Era uma solução péssima. Pinamonti, que mal tem tempo para dirigir um teatro madrileno em actividade plena, teria de montar uma temporada de ópera completa em Lisboa, escolhia títulos, cantores, maestros com toda a componente artística da temporada, juntando a programação de concertos sinfónicos, de actividade de música de câmara e ainda o Festival ao Largo.

Uma ideia peregrina de Barreto Xavier, que bem demonstra a insignificância do personagem e a subserviência cultural relativamente a Espanha. Barreto Xavier viu o S. Carlos como uma espécie de apêndice menor do teatro da Zarzuela, afinal o orçamento que lhe deu era ridículo e até em part-time se poderia montar a insignificante temporada lisboeta.

E se o próprio secretário de Estado via a programação como algo que pudesse ser feito nos intervalos do despacho de Madrid, como poderia Pinamonti pensar e agir de outra forma?

Os resultados foram, naturalmente, desastrosos, a temporada lisboeta passou a incluir “espanholadas”, zarzuelas incluídas, veio uma armada de cantores espanhóis de péssima qualidade, os maestros espanhóis ignorantes e boçais sucederam-se, os cantores portugueses, de qualidade muito superior foram afastados ou relegados para papéis de sorvete.

Todos os cantores estrangeiros passaram a ser agenciados pela mesma agência de Madrid, onde parece que Pinamonti tem conta corrente. Apenas uma reposição de um Werther feito muitos anos antes pelo mesmo Pinamonti, uma espécie de ovo de Colombo, teve algum sucesso relativo entre os títulos programados pelo italiano.

Acrescente-se a isto a eliminação total de qualquer referencial cultural português: não foi programado um único título de compositores portugueses ao contrário dos títulos espanhóis de qualidade miserável e com cantores piores dos que usados em Madrid, uma espécie de segunda divisão, que tivemos de suportar por mérito de Pinamonti ver Lisboa como uma espécie de colónia de Madrid.

Pinamonti apresentou a demissão porque o contrato entretanto assinado a 5 de Novembro, depois de inúmeras trapalhadas em que se incluía uma dívida de 14.000 euros à nossa segurança social, não regularizada pelo próprio, era incompatível com o lugar da Zarzuela.

O patrão espanhol, Filipe VI em última instância, não gostava que o Sr. Pinamonti perdesse nem cinco minutos por dia a pensar no S. Carlos. O Senhor Secretário de Estado entrou em fúria e exigiu a cabeça da OPART, como se a ideia do Pinamonti não fosse uma teimosia sua, isso ou a (re)contratação de Pinamonti agora noutra forma legal qualquer que deixasse de ser incompatível.

A 21 de Dezembro era este o ponto da situação, Pinamonti aceitava conversar com o OPART, a ordens do senhor Barreto Xavier, para “poder ficar em Lisboa”, algo que para o italiano poderá ter uma componente fortemente lucrativa, mas que é ineficaz, artisticamente irrelevante e humilhante para quem pensa que Portugal é um Estado soberano com gente competente que se sabe dirigir, sem a necessidade de um Messias de segunda ordem em part-time.

Nestas questões Deus tem escrito direito com linhas tortas e espera-se que Madrid não deixe que a situação se arraste por muito tempo, porque nestas questões os espanhóis têm mais pundonor do que aquele que existe no governo de Portugal com as suas bandeirinhas na lapela.

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Henrique Silveira – Crítico

Ópera Paride ed Elena de 1770, dedicada ao Duque de Lafões, terceira ópera da reforma da ópera de Gluck, pequeno auditório do CCB em versão de concerto. Libreto de Ranieri de Calzabigi, Os Músicos do Tejo com direcção de Marcos Magalhães, com Marta Araújo no cravo e coordenação, Susana Gaspar em Páris, Ana Quintans em Helena, Joana Seara em Cúpido ou Amor, Ana Paula Russo em Atena e Bruno Almeida no papel menor de troiano. Coro Voces Caelestes com direcção de Sérgio Fontão. Sala a noventa por cento no dia 29 de Novembro.

Depois de Orfeo e Alceste, esta é a menos conhecida das três óperas da reforma de Gluck. Gluck, agora com trezentos anos, algo que passou completamente ao lado em Portugal em termos de ópera encenada, foi um dos mais importantes e inovadores compositores do género de todos os tempos. De facto, Gluck insere-se numa tradição alemã que se inicia com Henrich Schütz, passa por si próprio, e culmina com Wagner e Alban Berg.

O primado da palavra e do teatro na ópera, sublinhada por linhas vocais de uma qualidade ímpar e de uma extraordinária imaginação, sensibilidade, noção do drama e da tragédia, onde se joga a tensão e clímax e onde a música, apesar de servir a cena, é de uma qualidade ímpar no contexto da história da música.

De Schütz perdeu-se a música teatral, sobraram as paixões e as histórias sacras, onde estes elementos são apresentados com uma depuração extrema e a palavra é rainha da linha. Gluck percebeu o beco sem saída da ópera centrada no estrelato vácuo dos cantores, quais pop stars da época, e da total subserviência da ópera às suas estrelas, perdida num convencionalismo estéril e repetitivo, em que recitativos secos, acompanhados ao cravo, interrompiam o fluxo musical para criar solavancos na acção, numa total inverosimilhança em que primavam mais os malabarismos vocais e as ornamentações espúrias do que o fluxo dramático.

Dotado de uma rara intuição teatral, Gluck resolveu dar à acção uma linha contínua, em que recitativos acompanhados pela orquestra se intercalavam com ariosos, intervenções do coro e partes solísticas, não propriamente árias independentes, duetos, tercetos e outras cenas de conjunto e algumas, esparsas, árias convencionais para não quebrar totalmente com as tradições e expectativas.

Evidentemente que Gluck é fruto do seu tempo e seria demais exigir libretos de Ibsen em óperas do século XVIII, por isso o compositor e o seu libretista recorrem a temas convencionais recorrentes na mitologia grega. É o caso desta ópera, cujos protagonistas são quatro sopranos. Páris seria um castrato italiano na estreia de 1770 e três mulheres fariam os restantes papéis.

O radicalismo de Gluck só viria a ter eco em Wagner, quase um século depois, que levaria as ideias de Gluck ao extremo de acabar de vez com as árias e transformar a ópera em drama musical em que o teatro se torna o elemento essencial. Evidentemente, este seria um teatro mágico, sempre inverosímil, em que a mitologia nórdica serve de metáfora ao homem contemporâneo de Wagner. Alban Berg, com Wozzeck, leva o homem comum e o drama da existência real para o teatro de ópera.

Neste caso tivemos uma versão de concerto no CCB, o que diminui muito o sentido do teatro que Gluck pretendeu construir. Existiram alguns elementos de proto semi-encenação, como um papel a representar uma mensagem nas mãos de Ana Quintans ou Joana Seara a fingir um arco de flecha de Cúpido, entradas e saídas de acordo com as cenas e nada mais.

A orquestra minimal dirigida por Marcos Magalhães apresentou algumas incongruências, como violinos com vibrato e outro sem o mesmo, algumas desafinações nos violinos, trompetes com buracos com sonoridade doce e harmónicos matizados, fraudes musicais que nada têm a ver com os instrumentos da época e que desvirtuam completamente a rudeza pretendida nas suas intervenções, aliás extremamente simples e possíveis de executar em instrumentos verdadeiramente naturais.

Esta fraude dos trompetes é extensiva a quase todos os ensembles “historicamente [des]informados” que por aí circulam e que afastam imediatamente qualquer ideia de interpretação vernacular, aquilo que é vendido como o grande trunfo das interpretações chamadas falsamente de autênticas.

Mas também apresentou trunfos de grande calibre, como um sólido baixo, onde pontificam Paulo Gaio Lima no violoncelo, Marta Araújo no cravo e um excelente naipe de fagotes, umas trompas sólidas que souberam dosear timbres e sonoridades, belíssimas flautas e um belo naipe de oboés, liderado pelo excepcional Pedro Casto. O concertino Patrik Cohën-Akenine é sólido mas tem o supino defeito de bater com o pé fazendo estremecer toda a sala, o que é deselegante, grosseirão e brutal, algo que estaria a anos-luz da elegância refinada de um galante cavaleiro Gluck.

A interpretação de Marcos Magalhães foi sempre doce, privilegiando a suavidade em detrimento da aspereza ou violência, o que, no caso de Gluck, é quase sempre acertado. Todavia, essa visão acarretou falta de contraste, como nos trovões e relâmpagos, onde faltou percussão que, mesmo que não estivesse na partitura, estaria claramente subentendida na prática teatral, antes da intervenção de Atena, aliás muito pouco convincente, numa fúria orquestral que deveria ter tido lugar e que foi demasiado contida.

As cantoras estiveram quase sempre bem em termos técnicos e vocais. Ana Quintans mostrou grande à-vontade e musicalidade no repertório e o seu estilo foi muito acertado, tendo ainda uma bela dicção; no entanto, alguma displicência e excesso de confiança fizeram-na esquecer algum texto e desafinar ligeiramente, apesar de ter o papel à frente, e esteve arrogante no terceto, em que a sua linha mais aguda e uma certa facilidade tímbrica em se fazer escutar, e que vai começando a exibir, a levou a tapar, descaradamente e de forma muito pouco inteligente, e pouco equilibrada, a linha das outras cantoras, desprezando, precisamente, a lição de Gluck de que o que é importante é o fim último do teatro, e não o ego dos cantores. Ana Quintans tem uma bela voz e faz coisas muito belas com a linha musical, já o afirmei há muitos anos, mas deve servir a música e o compositor para ser grande como merecem a sua voz e estilo.

No caso de Susana Gaspar, o problema não foi a contenção desejável, que tem, mas a dificuldade em se inserir no estilo de Gluck. Dotada de uma técnica vocal da qual é extremamente difícil prescindir ou alterar, incomodou, sobretudo, o vibrato insistente e os agudos algo destimbrados, em lugar de puros.

No entanto, a colocação é complicada, pois a linha vocal original é ingrata para um soprano puro. Foi, no entanto, irrepreensível na linha musical e musicalidade, descontando o tal vibrato. É uma excelente cantora para um repertório um pouco mais tardio e não penso que esta seja a sua área de eleição.

Joana Seara esteve vocalmente muito bem e muito concentrada, foi excelente em termos estilísticos e muito divertida como motor da acção. A sua voz é suficientemente grande, mantendo a pureza desejável para este repertório, e demonstrou muita musicalidade. Acabou por ter, nesta récita, o papel mais conseguido.

Ana Paula Russo esteve correcta, profissional e empenhada no seu estilo de ópera convencional. A sua actuação teve a vantagem de não desiludir, ao contrário de Susana Gaspar, de quem se esperava mais.

O coro de doze vozes esteve correcto. O jovem tenor Bruno Almeida, também elemento do coro, fez um digno Troiano mas, mais uma vez, demasiado “operático”, no sentido de demasiado romântico, nas suas pequenas intervenções.

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HUMBERTO NUNO DE OLIVEIRA

Diz o Povo, com a sua sabedoria ancestral, que a ignorância é muito atrevida. É um adágio que várias vezes provou ser certeiro. A prisão de um ex-primeiro ministro prova-o uma vez mais.

Os defensores do ”animal feroz” caceteiros e, como ele, igualmente dados a ataques de fúria, não se deixando ficar nas covas, passaram ao contra-ataque, que tudo isto era uma malandrice, uma ignomínia, um ultraje e que jamais em democracia um ex-primeiro-ministro havia sido preso e sujeito a tal infâmia.

Um dos propagadores destas ideias foi o Dr. Soares, republicano, laico e socialista, mas que deve ter sido acometido de esquecimento ou atacado pela ignorância. Ou então achará que pelo facto de se ter sido primeiro-ministro se passa a um estatuto de intocável, o que seria mais grave, e permitiria a estes toda a sorte de tropelias sem que pudessem ser incomodados.

Creio que o Dr. Soares achará que os pais fundadores da primeira república que idolatra dotaram o País de uma república, laica e socialista como gosta (se nela imperava uma democracia é coisa que para mim não é clara, mas não fui eu que o disse) e suficientemente democrática.

Ora bem, nessa idolatrada primeira república existiu um indivíduo, Liberato Damião Ribeiro Pinto de seu nome (Lisboa, 29 de Setembro de 1880 — 4 de Setembro de 1949), que de 30 de Novembro de 1920 a 2 de Março de 1921, presidiu ao 24.º governo republicano (o 10.º governo do período pós-sidonista, a que alguns chamam a “Nova República Velha”), durante 92 dias (ou seja, cerca de três meses, eu sei que é pouco, mas era mesmo assim nesse “El Dorado” desta gente).

Esse indivíduo que acabaria a carreira militar no posto de coronel, foi um político da esquerda republicana, ligado ao Partido Democrático (a designação comum do Partido Republicano Português de Afonso Costa), e que comandou a Guarda Nacional Republicana entre 1917 e 1922.

Nomeado para esse cargo pelo seu partido (no qual se filiara em 1915, sendo mesmo eleito deputado ao Congresso da República nas listas daquele partido por Aljustrel, em 1919) a ele se deve a sua transformação na verdadeira “guarda pretoriana” dos governos dominados pelo seu partido e num feroz meio de oposição sempre que o poder daqueles se encontrava ameaçado (sim, é assim, a verdadeira história da tão saudada primeira república).

Importa porém repor a História e contrariar a histeria de que nunca um primeiro-ministro havia sido preso, em democracia, em Portugal.

Liberato Pinto (como é vulgarmente conhecido) é considerado um “democrático ortodoxo”, e um dos grandes sustentáculos do poder dos “democráticos”.

Um ídolo pois, seguramente, desta gentalha deste regime…

A sua nomeação para a chefia do governo foi da iniciativa de António José de Almeida, então Presidente da República, para que formasse um “governo de geral concentração republicana”. Esta escolha foi apoiada por toda a esquerda republicana, e permitiria controlar a Guarda Nacional Republicana. Durante o seu mandato como chefe do governo acumulou ainda a pasta de ministro do Interior, exercendo ainda, interinamente, os cargos de ministro da Marinha e Ultramar (a partir de 4 de Fevereiro de 1921) e de ministro das Finanças (a partir de 22 de Fevereiro de 1921).

O seu governo (terminou a 2 de Março de 1921) sendo caracterizado por constantes apelos a uma progressiva militarização, ou seja para que implementasse uma ditadura, face aos gravíssimos problemas sociais (caracterizada pelas greves e violência bombista, sim, era esse o cenário comum nesses idolatrados tempos).

Após abandonar o governo, foi demitido da chefia do Estado-Maior da Guarda Nacional Republicana, devido aos actos de indisciplina e de aberta contestação contra o novo governo (que não era do Partido Democrático, claro está…) levados a cabo por aquela Guarda. A sua demissão causou grande agitação na Guarda e entre os próceres do Partido Democrático, motivando várias intentonas, entre as quais a tristemente famosa “Noite Sangrenta”, de 19 de Outubro de 1921, que levou ao assassinato de António Granjo (então presidente do Ministério).

A conjugação destes factos não só levou a que tenha caído em desgraça política, mas ainda chegado mesmo a ser preso em Janeiro de 1922, sob acusação de desvio de fundos da corporação. Será que se vislumbra, neste padrão, aquilo que eles chamam a “ética republicana”?

De qualquer dos modos entre este chefe do governo, que fora Chefe e subchefe do Estado-Maior das Forças Expedicionárias a Moçambique em 1915–1916 e 1916–1917 (Grande Guerra), e sucessivamente feito Comendador da Ordem Militar de Avis, Comendador da Ordem Militar de Cristo, Comendador da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e finalmente Comendador da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, e o ora preso vai uma diferença abissal.

Importa porém repor a História e contrariar a histeria de que nunca um primeiro-ministro havia sido preso, em democracia, em Portugal.

Mas como a ignorância é atrevida lá se vai dizendo a coisa.

CAPA

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