João Pereira

0 2088

JOÃO FILIPE PEREIRA

Havia um O DIABO antes de mim, haverá um O DIABO depois de mim e houve um O DIABO, durante cinco anos, em mim. Cinco anos e uma edição depois há muitas histórias para contar e nem todas irão caber neste espaço onde hoje me despeço. 

Cheguei a O DIABO pela mão de João Vasco Almeida há cinco anos. Foi a minha primeira experiência como jornalista na capital, depois de passagens pelo Notícias da Covilhã – onde muito aprendi com o camarada João Alves – e pela Rádio Clube da Covilhã. Foram cinco anos deliciosos a colaborar com o jornal que poucos ousam dizer o nome. Uma escola de jornalismo que faz rir os tontos dos grandes meios de comunicação social e que orgulha os poucos que realmente fazem jornalismo em Portugal.

Uma das máximas do jornal sempre foi não “bater no peito”. Não sentir a necessidade de desmascarar cada vez que um “jornal de primeira” fazia capa com as histórias que você leitor lia aqui primeiro. Mas aconteceram muitas vezes e hoje quebrarei a regra. Foi aqui escrito primeiro quanto rende o negócio das praxes em Portugal, que estava à venda a antiga casa de Salazar em Lisboa e até que a Comissão de Inquérito ao caso Camarate (um tema que O DIABO nunca se negou a investigar) iria chamar o alegado bombista José Esteves para ser ouvido – uma peça escrita pela pena de Frederico Duarte Carvalho.

Você leu aqui primeiro (muito primeiro, mesmo) os relatórios de Segurança Interna que o Governo de José Sócrates e depois de Passos Coelho teimavam em esconder. E também soube que a carrinha do SIRESP que – durante o período de grandes manifestações em Lisboa – esteve estacionada no parque da Assembleia da República permitia a captação de chamadas telefónicas. Documentos publicados em exclusivo por este semanário e que viriam a ser eliminados das páginas online da internet.

Em 2011 realizámos uma cobertura jornalística das eleições legislativas para todo o mundo através do ‘online’ e da rádio. Fomos em busca das contas mal feitas do Orçamento para a Assembleia da República em 2014 e avisámos que, afinal, não só não haveria poupanças como haveria crescimento da despesa. Fomos os únicos a dizê-lo. Fomos os primeiros a escrever em capa que a bancarrota era inevitável, após entrevista a João Duque e Mira Amaral. E fomos o último jornal a ter o privilégio de entrevistar o enorme José Hermano Saraiva.

Estivemos contracorrente. Fomos olhados de lado por camaradas e políticos. Essa foi a nossa grande força: mantivemos a independência.

Os iguais (que se pensam maiores e com superioridade moral) recusam-se a citar O DIABO. “JN”, “Público”, “Expresso”, SIC, TVI, RTP… todos eles, em algum momento, tiveram pudor em citar a fonte quando se tratava de O DIABO. Os que se consideram jornalistas de primeira fazem de conta que O DIABO não existe. Mas ele continua aqui ao fim de 40 anos.

Ressalva para a Lusa que até fez uma peça sobre a cobertura jornalística de O DIABO no Congresso do PS em Matosinhos, em 2011, e para o jornal “i” que recentemente lembrou O DIABO de Vera Lagoa (ainda que omitindo o presente do semanário).

Eu, de si, me despeço. Até já.

1 2369

JOÃO FILIPE PEREIRA

23 de Junho. É esta a data escolhida para os britânicos decidirem a sua continuidade ou não no seio da União Europeia (UE). Finalmente! Este jogo do “eu-não-gosto-de-vocês-e-é-um-favor-eu-continuar-a-seguir-as-vossas-regras” tem que acabar. A prepotência tem limites e a britânica não favorece ninguém.

Regressado de Bruxelas, onde obteve acordo dos parceiros a novas isenções para o Reino Unido, o primeiro-ministro britânico marcou de imediato o – há muito prometido – referendo. A Grécia fez um referendo e foi penalizada. O Reino Unido ainda não o fez e já foi beneficiado em Bruxelas, onde pessoas que nós não conhecemos e muitas que nem elegemos já andaram com paninhos quentes. Hipocrisia ou será a lei do mais forte?

Ingleses, escoceses, norte-irlandeses e galeses têm que decidir de uma vez o que querem. De um lado está o medo do terrorismo e da imigração em massa. Do outro uma série de pesos pesados que creio que irão pesar forte na balança e que passarei a explicar.

O medo do comunismo. Os britânicos têm medo que o Kremlin aproveite um vazio de poder para lançar os tentáculos sobre a Europa. Cameron irá fazer o jogo do mal menor. Sendo que ter a Rússia à porta da ilha seria, sem dúvida, o mal maior para os ingleses.

Perda massificada de dinheiro. No início do ano, o Banco da Inglaterra enviou acidentalmente (acredite quem quiser!) um ‘e-mail’ para o jornal “The Guardian” revelando que tinham estudado com grande rigor os riscos de sair da UE. As previsões não foram, financeiramente, nada agradáveis.

Saída generalizada de empresas. A Bertelsmann Foundation fez um estudo de mercado que revelou que um terço das empresas britânicas e alemãs podem deixar o Reino Unido após um ‘Brexit’, com ênfase particular no sector de IT e tecnologia. Aliás, como já aqui escrevi, Dublin é de facto a capital da tecnologia. Um ‘Brexit’ poderá oficializar essa realidade.

Voos mais caros. Se até agora viver no Reino Unido é uma espécie de paraíso para quem gosta de viajar, com a saída britânica da União Europeia o preço dos voos irá crescer substancialmente. Ou seja, torna-se mais caro a deslocação de pessoas, mas também de bens e mercadorias. Sim, a Grã-Bretanha é uma ilha… Eles não se esquecem disso.

O terrorismo. A faca de dois gumes da discussão. Se por um lado – num cenário de Brexit – a dificuldade em entrar no Reino Unido é vista como uma protecção ao terrorismo, por outro, o fim da cooperação das autoridades europeias com as britânicas coloca em causa o actual sistema britânico. Se o Reino Unido deixa a UE, o acordo que permite a Grã-Bretanha verificar passaportes em Calais (em França), em vez de Dover (Inglaterra) poderia ficar sem efeito, criando verdadeiras selvas em território inglês.

Prevejo dias difíceis por terras de Sua Majestade. Voltaremos a ver o surgir dos bandos anti-imigração a atacar ferozmente (com vernáculos e a aprimorada assertividade britânica) nos transportes públicos e nas ruas.

Pode ser que até Junho, e com as emoções do Campeonato da Europa de Futebol, os britânicos se acalmem um pouco e pensem com ponderação sobre o que realmente querem.

1 2447

JOÃO FILIPE PEREIRA

Em Portugal só há um grupo de portugueses que sabe medir com 100 por cento de eficácia o crescimento ou retracção da economia: os contribuintes. Todos os políticos, comentadores e analistas que por aí surgem na praça são simplesmente ridículos e nem sabem que o são.

Todos podem formular as suas opiniões, justificar números e cifras, e fazer projecções, mas em última análise são as famílias portuguesas que bem sabem quanto a vida custa. Quanto o dinheiro está caro. Não há neste momento ninguém com credibilidade (no País ou no estrangeiro) para falar sobre economia ou finanças. Estamos entregues à bicharada e só podemos contar com o dinheiro que temos no bolso.

Portugal está desde 2008 entregue a terroristas financeiros sem cara, constante e levianamente apelidados de “mercados”. Aliás, sabe-se agora que estes “mercados” (e o próprio Eurogrupo) estão a forçar Portugal a um plano B. Em causa está os planos orçamentais apresentados por Centeno.

E que medidas é que poderão fazer parte deste plano B português? Nem Mário Centeno, nem os outros responsáveis políticos europeus quiseram avançar com ideias. Os mercados irão ditar as reformas a seu tempo. E os contribuintes portugueses irão uma vez mais pagar a factura.

Afinal, qual é o grande problema, pergunta – e bem – o leitor. A questão de fundo é que a economia portuguesa cresceu 0,2 por cento nos últimos três meses do ano, um resultado que confirma o desempenho mais fraco registado na segunda metade do ano passado e que representa o segundo trimestre consecutivo de desempenho mais fraco do que a média da zona euro. A variação do PIB no total de 2015 foi de 1,5 por cento. Depois de ter registado nos dois primeiros trimestres do ano um crescimento do PIB em cadeia de 0,5 por cento e de ter estagnado no terceiro trimestre, a economia portuguesa voltou no quarto trimestre a uma variação positiva. O valor conseguido, de 0,2 por cento, é, contudo, mais moderado do que o apresentado no início do ano.

Ou seja, percentualmente continuamos com uma dívida extremamente elevada em relação ao nosso Produto Interno Bruto.

Os mercados não perdoam e as taxas de juro que vinham a descer já galopam como cavalos selvagens. O ministro alemão das Finanças já manifestou “preocupação” e “tristeza”, pela subida das taxas de juro de Portugal. Wolfgang Schäuble espera que os problemas com o país “não voltem a aparecer”, especialmente porque até aqui, Portugal “estava” no bom caminho. Ainda que a Alemanha seja uma das beneficiadas com a crise nacional.

Nem tudo são notícias más. Ainda que valha de pouco, parece que a economia portuguesa é a 29.ª economia mais inovadora do mundo. A conclusão é da Bloomberg, que divulgou o ‘ranking’ dos países que mais ajudam o desenvolvimento e criação de novas ideias, com destaque para o sector da tecnologia.

0 1063

JOÃO FILIPE PEREIRA

António Costa quer boicotar o seu próprio Orçamento. Só assim se entende que aquele que se apoderou do cargo de primeiro-ministro venha aconselhar o povo português a fugir dos produtos que vão sofrer maior carga fiscal.

Para quem perdeu a pérola socialista, António Costa aconselhou os portugueses – qual chefe de família – a usarem “mais transportes públicos”, a deixarem de fumar e a moderarem” o recurso ao crédito. Lamenta-se que o homem que ainda vê em Passos Coelho o chefe de Governo venha aconselhar os portugueses a consumirem menos devido ao aumento de impostos que ele mesmo criou.

O tom paternalista assumido pelo socialista é de alguém que andou distraído nos últimos oito anos. Os portugueses há muito que aprenderam onde cortar. Foi na saúde, na educação, na alimentação, foi no tabaco, no álcool, nos empréstimos e até nos laços com o País. Não precisamos dos ensinamentos ditados pela pessoa que acaba de aumentar impostos.

Portugal necessita de aumentar a riqueza e não de empobrecer. Essa ideia lunática impingida pelo capital mundial sem cara já foi desmascarada pelo próprio FMI e União Europeia. Aliás, duas instituições que foram precursoras dessa mesma idiotice.

O líder do actual Governo português – que conta com o apoio de cinco partidos no Parlamento – tem de explicar aos contribuintes e à indústria nacional do tabaco porque é que quer fechar negócios das tabaqueiras e aumentar assim o número de desempregados. Que explique aos contribuintes e às empresas como se pode viver sem o recurso ao crédito quando o Estado e as Autarquias não pagam a tempo e horas. E que explique também como é que as empresas de transporte, os vendedores e trabalhadores que dependem do seu automóvel como ferramenta de trabalho poderão diminuir os seus gastos com combustível. Parando de trabalhar? Encostando as viaturas? Já saiu Costa de Lisboa ou do Porto? Que transportes públicos têm os restantes portugueses? Costa fala para Lisboa e Porto como se isso fosse Portugal. Portugal é muito mais. É maior, engloba mais gentes e mais realidades. Realidades que os tacanhos que não saem dos gabinetes desconhecem.

Mas António Costa não é caso único na arte exímia de aconselhar – que parece que ganhou fôlego depois da crise de 2008.

Passos Coelho também teve o seu momento de sabedoria ao aconselhar jovens e professores a emigrar. Em 2011, o então primeiro-ministro sugeria que os professores desempregados emigrassem para países lusófonos, realçando as necessidades do Brasil. Jovens, desempregados e professores. Todos foram alvo de declarações de membros do Governo incentivando-os a procurarem emprego onde existe: lá fora. Ou no meu caso: cá fora.

Não precisamos de políticos que constatem o óbvio. Precisamos de líderes que encaminhem Portugal para o caminho do crescimento

1 1173

JOÃO FILIPE PEREIRA

Londres é a capital do Mundo, sem dúvida. Só superada pela capital do Universo – que será Nova Iorque. Londres é a História da Europa, é a educação social, é a arquitectura que nasceu após o grande incêndio, é o sinónimo de estabilidade de vida e do multiculturalismo… Bem, Londres é, mas o verbo dirige-se para o passado à medida que a capital caminha velozmente num pantanoso presente.

Já por aqui falei que Londres não é de todo a cidade mais criativa do mundo. Aliás, por estas bandas, até se olha meio de lado para quem quer reinventar a roda. E isso tem uma explicação: os ingleses são, na sua essência, moderados e ponderados. Qualquer mudança tem de ser pensada, analisada e discutida bem antes de qualquer primeiro passo ser dado.

A crise mundial e europeia trouxe uma nova realidade. Londres será das cidades do mundo que mais recebeu imigrantes desde 2008. É cada vez mais difícil encontrar um inglês a trabalhar em Londres e ainda mais difícil é encontrar um londrino em Londres. Não são só os árabes, indianos e paquistaneses a povoar a cidade. Ouve-se cada vez mais português, espanhol, francês e italiano nas ruas da capital inglesa.

A visão de uma Londres de respeito onde as regras sociais eram a base forte que sustentava a vida em comunidade é uma visão cada vez mais desactualizada. A vinda de imigrantes em grande escala para Londres desvirtuou a sociedade londrina. Ainda que, a bem da verdade, tenha de ressalvar que essas bases não desapareceram totalmente pelo facto dos imigrantes terem a necessidade de encontrar algo em comum quando aqui chegam: adoptando alguns dos hábitos locais. Mas cada vez menos.

Os imigrantes vêm para Londres com um objectivo claro: fugir às dificuldades dos seus países. Aqui, em Londres, abrem os seus negócios e esperam os dias dourados que a sua imaginação prometeu.

Por isso, Londres assiste a um cenário que me faz lembrar os dias que antecederam a crise do sul da Europa. Espero estar enganado. A bolha imobiliária é ridícula e estrondosamente grande. E promete crescer nos próximos tempos: já custa tanto uma casa nos subúrbios como no centro da cidade.

Com o ordenado mínimo a rondar as mil libras e as rendas de quartos (só quarto, em casa partilhada) a chegarem às 800 libras, não é difícil prever o futuro: mais dificuldades em pagar as contas, mais pedidos de ajuda ao Estado… Onde já vimos este cenário?

O Governo quer começar a reduzir a população já em 2019… Nessa altura, se efectivamente houver uma redução de população, a bolha irá rebentar. Já estivemos mais longe de uma nova crise europeia. Por isso é que a saída do Reino Unido da União Europeia é cada vez menos uma hipótese e mais uma realidade.

Quem mais perderá com o Brexit?

1 1494

JOÃO FILIPE PEREIRA

Tornei-me por estes dias – oficialmente, e no que para as estatísticas diz respeito – emigrante de longa duração. Ou seja, saí do meu país para trabalhar noutro há mais de um ano. Ou será que sou “migrante” de longa duração? Ou será que o termo “migrante” é só aplicado a cidadãos não-europeus? Não é a discriminação positiva uma forma de discriminação? E não é isso contra a tal Constituição de que todos dizem defender?

Bem, deixo as questões no ar porque o que me traz aqui esta semana é algo bem diferente. Neste último ano tenho tido oportunidade de conhecer mais do Mundo, deste planeta Terra, dos seus habitantes e, definitivamente, da sua, tão nossa, História. E nesta epopeia pessoal tenho reparado que não há canto que visite que não tenha um toque português.

Já por aqui mencionei a calçada portuguesa em Praga ou as “Chronicas Ineditos Portuguezas” guardadas no British Museum, em Londres. Na minha mais recente viagem a Edimburgo, na Escócia, descobri em bom destaque “O Canhão Português”. Uma relíquia portuguesa que viajou por todo o mundo após o século XV com a armada espanhola, que o transportavam, também, para as colónias portuguesas no sudeste asiático. Este acabou na mão dos escoceses, bem como muitos outros de outros países. Mas ao contrário dos demais, que acabariam fundidos para ajudar a pagar as guerras do Império, este segue pelo Calton Hill – um dos pontos turísticos mais conhecidos pela capitas escocesa – para delícia dos forasteiros e orgulho dos portugueses.

Portugal continua a ter a sua marca no Mundo. Desenganem-se os Velhos do Restelo.

Os portugueses fundaram Belém, capital do estado brasileiro do Pará, há 400 anos. E ainda hoje a marca nacional é vivenciada no quotidiano pelos locais, muitos deles sem qualquer ligação ao nosso País. Falamos de 1,4 milhões de pessoas.

Mas há mais exemplos. A Língua Portuguesa – aquela que o Acordo Ortográfico pretende delapidar – é ensinada a mais de 1600 alunos na Namíbia; na Venezuela, foi por estes dias oficializada a associação de ensino da Língua Portuguesa; a Universidade de Toronto criou agora um prémio para alunos da nossa língua; e em Londres, está para breve a abertura de uma escola anglo-portuguesa. Este é o inestimável legado português além-fronteiras.

Mas há tantos exemplos espalhados pelo Mundo fora.

E não podemos esquecer o nosso próprio território. Cada vez mais apreciado por estrangeiros com sede de descobrir a nossa Cultura. Uma empresa de reserva de estadias ‘online’ fez saber por estes dias que Portugal é o 12.º país mais visitado do Mundo, por pessoas com menos de 35 anos. Lisboa é o destino mais procurado, mas o Porto surge já no Top40 desse ‘ranking’ e Lagos, no Algarve, entrou no Top100. Lagos aparece neste ranking no 95.º posto, seis posições acima do alcançado em 2014. A cidade algarvia está melhor posicionada que cidades como Glasgow (101.º), Marselha (102.º), Chicago (105.º) ou Oslo (115.º).

Nós temos influência!

Temos de saber manter o nosso estatuto (e melhorá-lo, obviamente) trabalhando o nosso posicionamento no Mundo contemporâneo e não nos deixar ser dizimados por uma avalanche de alterações que nos querem impor e que acabarão por destruir quem fomos e quem somos.

0 1287

JOÃO FILIPE PEREIRA

“Do justo e duro Pedro nasce o brando/(Vede da natureza o desconcerto!),/Remisso e sem cuidado algum, Fernando,/Que todo o Reino pôs em muito aperto;/Que, vindo o Castelhano devastando/As terras sem defesa, esteve perto/De destruir-se o Reino totalmente,/Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.”

O verso anterior finaliza a estrofe cento e trinta e oito do terceiro canto da grande epopeia de Camões. Nele, o poeta alude a D. Fernando I, o Inconsciente ou Inconstante, filho de D. Pedro I e que pela sua fraqueza enquanto líder fez de Portugal um país fraco e submisso, mergulhado em frívolas guerras com Castela.

Talvez inspirado pela história da Escócia e de Edimburgo – que visitei pela primeira vez por estes dias – dei por mim a pensar como foi viver em Portugal há 500 anos. Como era o dia-a-dia, como eram as cidades e vilas, como era a língua portuguesa daqueles tempos tão similar ao galego e até ao castelhano. E foi assim que cheguei a Camões e a este verso.

A História nacional já nos ensinou bastante. Mas continuamos a cometer os mesmos erros. Ou, pelo menos, erros bem semelhantes aos do passado. Da perda de independência a uma fraca sociedade: um fraco governante, um fraco líder, faz fraca a forte gente… Não será tão verdade o contrário. Que uma fraca gente faz fraco o forte líder.

José Pacheco Pereira escreveu há umas semanas e eu subscrevo. Se há um aspecto do comportamento dos portugueses que muito me desagrada, esse comportamento é a tendência para ser subserviente face ao poder, ter muito respeitinho face aos poderosos, nalguns casos ter medo, e, depois de estes caírem do seu pedestal, ir lá a correr atirar a enésima pedra.

Também António Guterres frisou por estes dias que as elites portuguesas não estão ao nível do País que somos.

Falta a Portugal um líder. Temos tudo o resto.

Não podemos esperar que a liderança venha de fora. E sabemos que não é o Presidente da República – seja ele quem for – que vai mudar as elites nacionais nos próximos anos. É a sociedade como um todo que pode eleger quem quer que seja o líder. Mas para isso tem que aparecer alguém com verdadeiras características de liderança.

Seguimos esperando um Dom Sebastião que não aparece e estamos cada vez mais fracos.

1 1441

JOÃO FILIPE PEREIRA

Ouve-se por aí que esta nova geração de portugueses é a mais bem formada (academicamente falando) de sempre. Há quem o repita sentido-se até um pouco mais inteligente por pertencer a uma sociedade tão bem formada.

Utilizam o plural do verbo ser para integrarem um grupo que está longe de ter mérito, cuja essência está no direito a ser inteligente. Ou melhor, no direito a que se lhe seja reconhecida alguma inteligência, por menor que seja.

Com a internet, os portugueses parecem ser todos dotados de espírito crítico, verdadeiros arautos da retórica ‘on-line’. Mas, na verdade, pouco mais vemos – geralmente – do que verdadeiras faltas de educação e demonstrações vias de falta de formação pessoal e cívica.

A Democracia não vive com a maledicência, a falta de educação ou com os ataques feitos cobardemente em caixas de comentários de ‘sites’ da internet. Ainda que a Democracia seja a favor de que os cidadãos tenham direito a ser como desejam – algo que os imbecis não se cansam de relembrar: o seu direito a ser imbecil.

Somos, enquanto sociedade, mais inteligentes do que era a sociedade portuguesa há quarenta anos?

A resposta rápida é “sim”. Temos um conhecimento mais alargado sobre o mundo é sobre tecnologias. Só isso chega para provar que somos/estamos mais inteligentes, certo? Errado.

De facto, temos mais acesso a informação mas isso não quer dizer que saibamos utilizá-la da melhor forma. Aliás, isso nem quer dizer que lemos ou ouvimos a informação que temos ao nosso dispor. Já agora, o facto de ter acesso à internet não significa que saibamos verdadeiramente como usá-la ou como tirar proveito dela.

O número de leitores de jornais decresce todos os anos. A rádio é cada vez mais entretenimento e menos informação. A televisão é cada vez mais ‘reality shows’, mais futebol e menos informação .

Estamos realmente melhor preparados para a sociedade de hoje do que os nossos avós e pais estavam quando tinham a nossa idade?

Antes havia pessoas que queriam construir um mundo melhor. Nasceu a NATO, a ONU, a CEE e até a União Europeia. Havia um projecto, uma ideia, para o Mundo. A sociedade sabia o que não queria e qual o caminho que poderia ser trilhado. Se foram tomadas as melhor decisões é discutível, mas alguém lutou por um mundo que se queria melhor. O que sabemos hoje sobre o nosso futuro? Para onde caminhamos enquanto portugueses, enquanto europeus ou enquanto ocidentais?

Não podemos ser mais espertos e melhor formados quando sabemos tanto sobre o mundo e tão pouco sobre os nossos vizinhos. Quando temos tantas certezas e tão poucas dúvidas. Quando o nosso direito a opinar se sobrepõe ao nosso dever de escutar.

0 1261

JOÃO FILIPE PEREIRA

Já não vale a pena falar de política, deste Governo mascarado ou de como PCP e BE comandam realmente o Executivo de Costa. O líder dos socialistas que não passa disso mesmo.

2016 está aí bem à porta e Portugal estagnou. Temos um Governo cuja face é a de um autarca, mas cujas decisões são tomadas pela Esquerda parlamentar.

Estamos parados à espera de algo ou de alguém. Mas ninguém sabe quem será o Dom Sebastião dos tempos modernos. Andamos há seis anos a dizer “é agora!”, mas o agora é constantemente adiado para amanhã. E o amanhã nunca chega.

Vendemos a Economia a Angola e à China. Vendemos o Turismo a Espanha e à Inglaterra. Vendemos Transportes, Água, Energia… Ficámos a pagar bancos privados.

A classe política virou os cidadãos contra os cidadãos – portugueses contra portugueses, como é o caso das críticas aos médicos, recentemente, aquando do caso do jovem que morreu devido a um aneurisma. Mas também polícias contra polícias e contribuintes contra Funcionários Públicos. Os políticos viraram filhos contra pais e criaram lutas geracionais, como se o problema tivessem sido os cidadãos – naquela velha (e errada) máxima de que andámos a viver a cima das nossas possibilidades.

Onde pára a geração dos “à rasca”?

Onde andam os Precários Inflexíveis?

Onde estão os militares portugueses – que enquanto Instituição tinham o dever de proteger os cidadãos e a Pátria?

O que andamos nós a fazer? Cada um de nós, enquanto elemento essencial à Democracia!

Com o aproximar do fim de mais um ano e o começo de um novo, esta é a época ideal para nos questionarmos sobre quem somos, o que fizemos e o que queremos fazer no futuro.

Está na hora de entender quem devemos combater enquanto cidadãos, criar uma estratégia enquanto sociedade e ir à luta por valores que parecem cada vez mais perdidos.

Daqui a uns anos iremos olhar para trás e perguntar como é que este triste e negro período nacional foi possível. Iremos questionar como é que enquanto sociedade o permitimos. Os nossos filhos e netos irão cobrar o Portugal que lhes entregarmos.

0 989

JOÃO FILIPE PEREIRA

Já perdi a conta às vezes que o FMI já veio assumir erros nos programas de “ajuda” aos países em crise, nomeadamente em Portugal. Em vésperas de Natal, esse cancro financeiro chamado Fundo Monetário Internacional veio de novo largar umas quantas lágrimas de arrependimento.

Não querendo entrar em grandes filosofias económicas ou financeiras – até porque essa não é a minha área mais forte – não vou divagar entre o que seria o perdão da dívida ou a reestruturação da mesma. Mas há uma questão que – enquanto contribuinte atacado por essa máquina brutal comandada por cobardes – não me sai da cabeça: ora, se Vítor Gaspar era um defensor do Excel do FMI, e se esse mesmo Excel estava errado, que raio foi o homem fazer para lá? E porquê? A troco de quê? Para pagar o quê a quem?

Sim, é mais do que uma pergunta.

E de facto surgem umas quantas outras logo de seguida. Por exemplo, se o perdão da dívida ou a reestruturação da mesma era a solução porque é que o governo grego do Syriza falhou ao tentar implementar essa estratégia? Quem não quer afinal que os países em crise saiam da crise? Quem é que está a enriquecer com a crise? Quem quer terminar com o projecto europeu?

Não acredito que centenas de especialistas que ganham milhões livres de impostos sejam ingénuos o suficiente para não saber a porcaria que andaram a fazer. Quando haverá alguém de dentro do FMI com a consciência pesada que conte exactamente quem liderou e pressionou toda a situação?

Só depois de termos estas perguntas respondidas teremos capacidades para seguir um modelo europeu. Até lá, pouco mais há a fazer do que lutar pela re-independência nacional.

Precisamos de um plano de valorização nacional. De como nos colocarmos na esfera global sem precisarmos de ninguém. Sem os condicionalismos de ninguém.

Basta. Chega de brincarem connosco.

É suficientemente mau termos um partido no Governo cujo a figura máxima é um homem há décadas envolvido em escândalos de capas de jornais, cujo processo judicial em curso ainda nem sequer vai a meio.

Quem é a mão do sistema?

Quando vamos entender que a ideologia esquerda/direita foi substituída por ideologias nacionalistas/globalistas. O binómio esquerda/direita já não explica o fenómeno político actual. Daí haver, ao mesmo tempo, tanta aproximação entre partidos da esquerda e da direita. Hoje, mais do que nunca, as políticas são entre o global e o nacional.

Portugal não precisa de um partido de esquerda ou de direita. Portugal precisa de um novo partido que lute pela nossa independência.

CAPA

SIGA-NOS