José Serrão

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JOSÉ SERRÃO
O ano que ora finda fica internamente marcado por quatro casos, na minha modesta opinião:

1- O caso BES e a queda de um Império que ultrapassa, e muito, o sector financeiro. Com o BES cai o mito dos senhores todos poderosos que estão acima de tudo e de todos, que determinam a nossa vida colectiva, desde a política à economia, e que gozavam de uma impunidade, só própria dos monarcas em regime absolutista.

Em 2015 assistiremos às réplicas do terramoto que foi o fim de uma das mais antigas instituições portuguesas.

2- A detenção e a posterior prisão (preventiva) de José Sócrates trouxeram à colação uma nova realidade que poucos julgariam possível nos tempos que correm. A prisão de um ex-Primeiro-Ministro, indiciado por crimes de branqueamento de capitais, fraude fiscal e corrupção caiu como uma bomba no nosso regime político.

Desde estados de negação, a tentativas de vitimização de Sócrates, como se se tratasse de um prisioneiro político sujeito indefeso à mais elaborada cabala, a condenações primárias em violação do princípio da presunção de inocência… assistimos a tudo um pouco.

Sócrates não é um preso político, não está à mercê da PIDE, que fique claro. Sócrates, como qualquer cidadão, está sujeito às leis do nosso Estado de Direito – curiosamente, o “autor” da última reforma penal (foi no seu Governo que ela se realizou) – e como tal deve ser tratado e respeitado. Era importante que os patriarcas do PS e outros assumidos pais da nossa democracia salientassem um dos mais elementares princípios da República: todos são iguais perante a lei, ninguém está acima da lei.

Era importante que valorassem o normal funcionamento das instituições e que não dessem o triste espectáculo de que Uns são mais iguais do que outros, os nossos camaradas, no caso (vide o caso Arnault com o livro que lhe foi devolvido pelo EPE no cumprimento da lei – também ela do governo Sócrates??!!).

3- A nova liderança do PS, resultado de um rocambolesco assalto ao poder no interior do partido. António Costa surgiu no pós-eleições europeias como um novo Messias e o Salvador da Pátria. O futuro dirá o que vale Costa e ao que vem. Será um novo Hollande ou efectivamente uma consequente e inovadora alternativa?

4- O dia 17 de Maio como o dia que marcou o fim do programa de resgate. Sabemos que as nuvens negras perduram nos céus lusitanos e irão inevitavelmente continuar, mas que se honrou o compromisso assinado internacionalmente, lá isso ninguém pode negar. A honra também conta.

A nível internacional, destaco:

1- O campeonato do Mundo de Futebol no Brasil, com a vitória alemã e aquele resultado histórico, que perdurará no tempo, da derrota caseira do Brasil por 7-1.

2- O combate ao Ébola e o perigo de contágio mundial, pondo em causa a saúde do planeta.

3- O surgimento do ISIS – Estado Islâmico – com todo um potencial de violência radicado num fanatismo religioso que está bem longe de ser sustentado no Livro Sagrado, mas que alicia jovens europeus, incluindo portugueses, e que se vai estendendo ao Ocidente.

4- A confirmação de que o Papa Francisco veio inovar e veio trazer uma nova luz ao mundo cristão. Se dúvidas houvesse, como foi corajoso, arrojado e marcante o seu discurso de Natal à Curia romana. Vale a pena ler, reler e meditar.

Mas permitam-me um toque pessoal:

Este ano de 2014 veio fazer de mim avô, o mais babado e feliz do mundo. Naturalmente, em pleno signo de leão – como não podia deixar de ser!!! – nasceu a bebé mais linda do mundo: a minha neta. Que a vida lhe sorria e que o mundo beneficie da sua vinda. Eu estou apenas grato…

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JOSÉ SERRÃOO espírito natalício invade-nos e concede-nos uma pausa nas agruras do dia a dia.
Nele sublimamos as dores de um ano e as angústias do devir.

Nele somos impelidos a regressar às nossas raízes e a reviver aqueles momentos de ansiedade, quiçá angustiante, da chegada dos presentes, que num primeiro momento era uma dádiva do Pai Natal e que a pouco e pouco se perde na descoberta – à data heróica e sinal de “grande maturidade”, para mais se antecipada aos nossos colegas e amigos – de que, afinal, era uma fantasia, talvez a mais bela que soubemos criar, um pouco para as crianças e outro tanto para alimentarmos a criança em nós.

Por isso, não é tempo de falar das nossas questiúnculas caseiras, deixando os caos BES e José Sócrates para outras núpcias. Como não é tempo de discutir o voyeurismo de Teresa Leal Costa na audição ao indigitado Coordenador dos Serviços de Inteligência, nem tão pouco discutir a oportunidade da privatização da TAP e das coerências e incoerências dos senhores da política, que ora defendem uma coisa e depois o seu contrário consoante se é governo ou oposição.

A hora é de paz, de recolhimento e de elevação dos espíritos neste solstício de inverno onde a luz é ténue e a noite é longa.

A hora é de introspecção e de busca interna, reganhando energias e focando-nos no que nos une como cidadãos e como portugueses.

O novo ano será intenso e talvez decisivo no que tange aos próximos anos da nossa vida colectiva, tão carenciada de ideias e de rumos galvanizadores que despertem os valores adormecidos e nos alimentem as vontades e as nossas convicções.

Quero aproveitar esta coluna para desejar aos meus leitores e suas famílias um feliz Natal e umas festas plenas de harmonia e tranquilidade, agradecendo a bondade das críticas, as sugestões e os comentários.

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JOSÉ SERRÃODepois de Mário Soares e Manuel Alegre, eis que surge mais uma pérola no “anedotário” socialista sobre a prisão preventiva de Sócrates.

Desta vez coube a António Campos que, após a vista ao estabelecimento prisional de Évora, afirmou que a justiça, ao colocar José Sócrates na prisão, lançou “uma bomba atómica sobre a democracia” (sic).

Instado a esclarecer se as suas afirmações radicavam no facto de o sistema judicial estar a actuar e ter funcionado com o ex-primeiro-ministro como com qualquer outro cidadão, não hesitou em clarificar que a dita bomba atómica residia no facto de o sistema ter detido e mantido em prisão preventiva José Sócrates.

Começo a desconfiar que a água eborense ou os ares da capital alentejana provocam estados alterados de consciência ou meras alterações na percepção no espírito de tão “ilustres” cidadãos que se reclamam de pais da democracia e de pais da pátria e de pais de todos nós.

Na realidade, não podem tais figuras ignorar que a última reforma penal ocorreu exactamente nos governos de José Sócrates, como não podem ignorar que um dos valores basilares do nosso estado de direito constitucional é o da defesa intransigente do princípio da igualdade, ou seja de que ninguém está acima da lei e que todos são iguais perante a lei.

Sócrates foi o chefe do governo entre 2004 e 2011 e, cessando as suas funções, cessaram quaisquer tipos de privilégios ou prerrogativas inerentes ao seu cargo, mas jamais cessaram, nem podem, as suas obrigações como cidadão, mesmo que a si mesmo se considere um primus inter pares.

Acresce, ainda, que estes homens a quem a democracia muito deve, têm, amiúde, inundado os seus discursos com a propalada ética republicana, fundada e assente no facto de não serem, nem poderem ser, reconhecidos e respeitados direitos especiais de sangue ou outros, privilégios em função do nascimento e quaisquer tipos de títulos nobiliárquicos que não respeitem a igualdade de todos os cidadãos perante a lei e entre si mesmos.

Reclamaria a mais elementar coerência que soubessem integrar nessa mesma ética a humildade democrática, sob pena de a mesma não ser mais do que uma figura de estilo ou de mera retórica, vazia de conteúdo, que soa bem aos ouvidos dos incautos e que devendo comprometer os seus autores mais não faz do que insuflar de ar os seus egos.

Chega de tantos paternalismos, chega de tantos sofismas e de tanta hipocrisia. Sócrates foi detido e está em prisão preventiva como qualquer cidadão que, sendo indiciado pelos mesmos crimes e estando nas mesmas circunstâncias, viu recair sobre si um despacho judicial que o prescreveu. Nada mais do que isso.

Insistir na teoria da cabala política e querer comparar Sócrates a um qualquer preso político – até com Mandela eu já vi alguém compará-lo – é distorcer a verdade, é querer branquear a realidade, é querer ensaiar uma teoria que não pode colher num estado de direito.

Os senhores em causa podem expressar amizades a quem bem entendem, não podem é subverter a realidade e pôr em causa a democracia, o Estado de Direito e a Constituição que nos rege.

A sua atitude não defende Sócrates (presumível inocente, como aqui já escrevi e defenderei até ao último momento), a sua atitude ofende a república, destrói a ética que tanto afirmam e pressiona de forma leviana a Justiça e o sistema judicial. Lamentável… como lamentável é o ruidoso silencio dos que usam e abusam da palavra e que nestas situações lavam as mãos como Pilatos.

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JOSÉ SERRÃOEnquanto nos surpreendíamos, cá no burgo, com a produção epistolar de José Sócrates e o seu desvario, atacando tudo e todos, sem cuidar que ele foi Primeiro-Ministro de Portugal durante 7 anos (2004-2011) e sem se ater, numa mera mas mais que exigida, reflexão sobre o que foram os seus comentários e posicionamentos sobre outros casos mediáticos, envolvendo figuras publicas e altos funcionários do regime, fui surpreendido com uma notícia de um facto inqualificável ocorrido na cidade francesa de Marselha.

Conta a história que os serviços médicos e de assistência social de Marselha decidiram obrigar os sem-abrigo da cidade a usarem uns cartões triangulares amarelos. “O cartão em triângulo identifica a pessoa com a respectiva foto, nome e data de nascimento, e pormenoriza as doenças ou alergias da pessoa. As autoridades locais argumentaram que o objectivo foi ajudar os trabalhadores de saúde a fornecer rapidamente ajuda a um sem-abrigo que adoeça. Foram já distribuídos mais de 100 triângulos” (sic).

A comparação com o ocorrido com os judeus, obrigados a identificarem-se com a amarela estrela de David, é imediata e não deixa de nos remeter para tempos negros da história da humanidade. Tempos que todos pensávamos não serem susceptíveis de voltar a acontecer.

A contestação geral e a revolta dos movimentos de direitos humanos levou a que a municipalidade marselhesa reconsiderasse e revogasse a medida. Porém, o simples facto de alguém a ter pensado e implementado, bem como o beneplácito das autoridades locais, é só por si factor de perturbação que exige de todos nós não só repulsa mas uma veemente resposta.

A estigmatização de pessoas é por si só deplorável. Associar a isso a sua identificação de forma ostensiva é uma violação, não só do direito de reserva que a cada um assiste, como a violação da privacidade e até do bom nome – último refúgio da sua dignidade e da sua condição de pessoa.

A duvidosa bondade da medida, justificada pela eventual necessidade de intervenção médica, não pode ser sequer atendida, até porque é um direito da pessoa humana conservar para si o seu estado de saúde.

O episódio de Marselha não pode ser visto isoladamente.

Ele, associado ao crescimento dos extremismos, numa Europa germanizada e a sofrer uma impiedosa austeridade, fruto da ganância especulativa e financeira de uns quantos, favorecida pelo laxismo dos governos, mais interessados em se perpetuarem do que em defenderem os interesses dos povos que os elegeram, obriga a que nos preocupemos seriamente sobre o futuro desta Europa e, nela, das nações que a compõem.

Naturalmente, a descrença nas instituições, a falta de respeito e de confiança nos governantes e naqueles que nos representam nos órgãos de soberania, a opacidade e o descontrolo na gestão da coisa pública, o enriquecimento dos eleitos, sem que se conheça a causa ou a fonte, constituem terreno fértil para o surgimento dos radicalismos, da violência e do protesto, mas, acima de tudo, para que ressurjam movimentos e práticas despóticas, assentes no culto da personalidade, manipuladoras de pensamentos e de vontades e que a todos arrastem para novos holocaustos, novos genocídios, novos valores que desprezam o Homem e o destrem.

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JOSÉ SERRÃOA entronização de António Costa está completa, após a realização do Congresso do PS, deste fim-de-semana.

Costa seguiu o caminho mais fácil e só o tempo ditará o seu êxito ou o seu fracasso.

Começou por ignorar Sócrates, não só quando manifestou a vontade de separar as emoções pessoais da política, no início do seu discurso de abertura, mas também quando “esqueceu” a excelência da governação socialista ao exaltar as virtudes “exemplares” da governação açoriana e as presidências de Soares e de Sampaio.

Na realidade, poderíamos pensar que se tratou de um lapso, mas Costa já nos habituou a que cada passo que dá é pensado e faz parte de uma estratégia definida há muito e executada com rigor e com frieza.

Na verdade, a omissão de Sócrates e do seu governo, mais do que um acto falhado, revela a fragilidade de uma estratégia e de um discurso populista de esquerda como há muito não se via na política portuguesa.

O discurso de encerramento teve direito, inclusive, à encenação da menção das mulheres vítimas de violência doméstica no corrente ano, como forma de enfatizar que o novo PS se preocupa de facto com as pessoas e com os seus verdadeiros problemas.

Na política não vale tudo, não pode valer tudo.

Foi um discurso em que, à parte a referência sempre positiva ao reforço da coesão e da valorização da cidadania lusófona, através de um novo paradigma da CPLP, tudo o resto foi “música celestial”. Não houve uma única proposta alternativa à actual política, nem, pasme-se, uma única referência ao estado em que o PS deixou Portugal em 2010, nem ao facto de termos estado sob resgate e condicionados aos ditames da Troika… que por acaso o PS assinou e a que se obrigou em nome de Portugal.

Costa continua a não oferecer aos eleitores o seu plano e a sua estratégia, assumindo que a sua imagem, o seu nome e o seu passado político são quanto basta para lhe cair o poder no colo e… com uma maioria absoluta.

Esticou no Congresso a fasquia ao máximo, declarando não fazer coligações com os partidos da actual maioria (PSD e CDS) e provocando os partidos da esquerda a serem parte da solução e não do mero protesto. Como pode a partir de agora falar em compromissos, em consensos, em buscas conjuntas de soluções para Portugal?

Mas do Congresso fica ainda a ideia que está profundamente inculcada, no espírito socialista, a ideia de que as eleições legislativas, presidenciais e tudo o mais, são favas contadas e que resta apenas esperar pela sua ocorrência. No final do primeiro trimestre de 2016 teremos um governo socialista na Região Autónoma da Madeira, na Região Autónoma dos Açores, um Presidente oriundo da área socialista e um governo socialista suportado por uma maioria absoluta!!!

Teremos um país rosa de acordo com os melhores sonhos cor-de-rosa… e quais Alices no país das Maravilhas, cada português será feliz, viverá sem austeridade, sem desemprego, sem dívida externa para pagar, com um Estado Social que tudo suprirá… e com os partidos da direita punidos exemplarmente e à beira da extinção…

Que Costa sonhe na cor que quer, é um problema seu… Mas que nos permitamos deixar-nos embalar nele como crianças, é um problema nosso.

Na realidade, cabe a cada um de nós despertar e estar atento, antes que seja tarde… Já nos deixámos embalar com outros cantos de sereia… E hoje vemos onde chegámos e quem elas eram…

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JOSÉ SERRÃOA detenção de José Sócrates é um assunto político incontornável e de consequências imprevisíveis para o regime e para a nossa democracia.

Não comento, porque não devo e não conheço, os aspectos jurídicos que a determinaram, bem como não comento a forma e o modo como a detenção ocorreu, porque desconheço as razões que determinaram o modus operandi das autoridades judiciais. A seu tempo saberemos…

A primeira nota que importa tecer é acerca do presente e do futuro de Sócrates. E neste particular, salvo qualquer facto novo ou um grosseiro erro judicial, a carreira e a ambição política de Sócrates chegou ao fim. Com o fim de Sócrates é posta em causa a estratégia de António Costa de ressuscitar o seu nome e a sua figura, visando colher junto dos apaniguados do ex-líder os apoios e as motivações que o guindaram à liderança do PS e com que o fazem sonhar com a governação do país.

E é sobre o PS que recai a segunda nota. Costa foi colega de governo de Sócrates e seu número dois no governo de maioria absoluta socialista. A detenção de Sócrates lança um anátema sobre as governações socialistas e cria no espírito dos eleitores uma natural dúvida sobre as propostas e promessas socialistas assentes, como até hoje, na premissa de que “connosco é diferente” e, mais ainda, sobre os homens que hoje encarnam a proposta de mudança mas são os mesmos que estiveram com Sócrates e com ele estiveram até hoje.

Uma terceira nota sobre as reacções à detenção. Edite Estrela e muitos outros socialistas preferiram, ao inteligente silêncio e às sábias palavras de António Costa, invocar a teoria da agenda escondida das autoridades judiciais e ignorar a gravidade objectiva dos indícios criminais imputados a Sócrates.

Esta negação da realidade em nada contribui para a credibilização do regime e muito menos para recuperar a confiança dos cidadãos nas instituições democráticas. Mais, esta reacção sobre um dos seus, em clara contradição com a ligeireza com que se comentam casos de terceiros, de outras cores e famílias políticas, é uma demonstração evidente de que a igualdade republicana ainda é meramente formal e está bem longe de ser material e efectiva.

Uma quarta nota é necessariamente sobre o papel da comunicação social e a forma como exerce o seu direito de informar. Alguns dos media, ignorando por completo o princípio constitucional da presunção da inocência, acusam, julgam e condenam de imediato todo e qualquer arguido, detido ou não, revelando, sabe-se lá como, matérias sobre o próprio e sobre tudo o que gravita à volta dele, deixando no ar a ideia de que as pessoas visadas contaminaram tudo e todos, e que todos os que se aproximaram, por amizade ou por meras relações profissionais ou sociais, são também elas indiciadas, acusadas e… quem sabe, co-autoras.

Acresce, ainda, que fica sempre no ar a ideia de que o segredo de justiça é violado, pois esses mesmo media revelam factos, às vezes documentos, às vezes até informações sobre o que ocorreu nos interrogatórios, tantas e tantas vezes não se coibindo de humilhar os visados… etc.

Urge rever profundamente estes comportamentos noticiosos. Todos, arguidos ou não, têm o direito ao bom nome, à sua boa imagem e à presunção da sua inocência até trânsito em julgado de uma eventual sentença condenatória. O direito/dever de informar jamais pode pôr em causa outros direitos constitucionais, nomeadamente os de natureza pessoal.

A qualidade da nossa democracia também se reflecte nos comportamentos dos agentes políticos e dos que têm o dever de informar. Ninguém pode ser dispensado deste escrupuloso dever de respeito. Hoje pelos outros, amanhã por nós.

Não fui nem sou um apoiante de Sócrates. Mas sei distinguir o político do cidadão. O político foi julgado pelos seus pares nas últimas eleições. O cidadão, hoje arguido – ao que sei à hora que escrevo –, merece-me todo o respeito e tem o direito ao seu bom nome e à sua defesa em condições dignas, e, até que um Tribunal o condene e a sentença transite em julgado, é inocente.

Não sendo assim, o regime faliu, a democracia está doente, a constituição uma letra morta, e a cidadania, que tantos invocam na retórica dos discursos, apenas uma lembrança esfumada mas não integrada nos valores da república.

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JOSÉ SERRÃO
António Costa, ao orçamentar na Câmara de Lisboa as já célebres “taxas e taxinhas” sobre as entradas de turistas na capital, veio desvelar a grande alternativa à austeridade tão propalada pelo PS.

Com efeito, mais do que as dúvidas constitucionais da medida – que saudades vamos ter dos inflamados discursos a favor da Constituição por parte da oposição socialista – e muito para lá das justificações económicas sobre a sua relevância e impacto na cidade – à revelia da associação representativa do sector, que à medida se opõe – o que fica é o registo de uma medida que mais não é do que a criação de um novo imposto sobre todos os que visitam Lisboa.

Costa e o PS sempre se esforçaram por nos dizer que têm uma alternativa à política de austeridade assente no aumento cego da carga fiscal sobre as pessoas, as famílias e as empresas. Sempre (ninguém da actual nomenclatura dirigente se manifestou contra) nos garantiram que, sendo governo, a austeridade terminaria, a economia cresceria e o emprego seria estimulado…

Acontece que, na última semana, não só Costa nos veio dizer que a sua criatividade radica no aumento de impostos, ainda que embrulhado na serôdia explicação que serão os estrangeiros que nos vistam que pagarão 1 euro de imposto, como o PS rompe o acordo feito no passado sobre o IRC e vem dizer que é contra a descida da taxa sobre o rendimento das pessoas colectivas… pasme-se, por razões de calendário eleitoral!

Não serve o argumento de que a maioria que critica a medida prevista para Lisboa seja a mesma que nos tem presenteado com a maior carga fiscal de que há memória, pois, em contraponto, se dirá que quem tanto critica a carga fiscal vigente perde autoridade ao criar um imposto na primeira medida que implementa para aumentar as receitas da cidade… Bem prega Frei Tomás, faz o que eu digo mas não o que eu faço!

O mesmo se diga quanto ao IRC. Como pode o PS estar contra a baixa da taxa de imposto e depois manter o seu discurso contra a austeridade e a carga fiscal?

Em igual senda, veio Costa, também esta semana, afastar-se do compromisso de Seguro de reposição total dos cortes feitos aos salários dos funcionários públicos e até da sua mandatária nacional, Catarina Mendes, ao anunciar que os cortes serão repostos “logo que possível”.

Costa assumiu a postura de “fazer-se morto”, não fazer ondas e deixar que o desgaste do Governo e da maioria lhe permita nada dizer, nada propor, nada contrapor, a não ser que Eu farei diferente, Eu farei melhor, Eu…Eu…Eu…, como se de um iluminado se tratasse.

Talvez, num primeiro momento, a estratégia tenha resultado e daí se justifique o apelo permanente e ansioso de eleições antecipadas que permitissem a Costa chegar ao poder sem se comprometer.

Estou em crer que é uma estratégia perigosa e até suicida para os interesses e anseios de Costa e do PS em conquistarem o poder. O povo eleitor está cansado dos que apenas criticam, dos que querem o poder pelo poder sem nada oferecerem, nem nada trazerem de novo, a não ser o “chavão” de que comigo será diferente e de que tudo se resolverá com o endurecimento das nossas posições no contexto europeu e internacional.

É indubitavelmente a hora de Costa. E ele tem que a assumir e dizer ao que vem. O que tem efectivamente para oferecer, que medidas alternativas apresenta e quais os objectivos que preconiza.

Tem de dar a cara… tem que fazer-se de vivo!

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JOSÉ SERRÃO Celebram-se (hoje dia 9 de Novembro de 2014) os 25 anos da queda do muro de Berlim. Com ele caía, como um castelo de cartas, o bloco soviético, arrastando consigo as transformações políticas e sociais nos países de matriz comunista.

Decorrido um quarto de século, alguns desses países do Leste integram hoje a Comunidade Europeia, a Nato e outras instituições ocidentais.

A Alemanha reunificada assume hoje o papel de líder quase hegemónico da Europa, conseguindo pela economia e pela política o que não conseguira pelas duas grandes guerras que promoveu.

O pacto de Varsóvia cedeu e a Nato, pelo menos na aparência, alargou o seu poder e a sua esfera de acção integrando alguns dos inimigos de outrora.

A Rússia, adormecida durante os primeiros tempos, mostra hoje sinais de se querer assumir como a grande potência de outrora e parece ceder à tentação de restaurar os tempos gloriosos anunciadores do Amanhã que nasce.

25 anos que serviram, também, para que questionemos hoje, com a mesma acutilância e a mesma gravidade, as ideologias socialista e capitalista. Com efeito, se ao socialismo comunista, assente na igualdade de todos, ainda que com o sacrifício da liberdade individual, nas suas diferentes expressões, todos fizemos o enterro (todos? Bem, nem todos porque, qual aldeia gaulesa, permanece resistente à mudança e aos sinais dos tempos, o PCP e outros afins, como é bem claro no editorial do último Avante, que se recomenda…) surge agora agonizante o modelo capitalista.

Priorizando a liberdade como sua matriz essencial, o capitalismo tudo permitiu, não cuidando que é o Homem e não o dinheiro a razão de ser quer da economia, quer da finança, quer da política. Os escândalos financeiros na banca e nas instituições financeiras e o primado da especulação sobre a produção da riqueza, fizeram ruir a confiança e revelaram um modelo moribundo e incapaz de dar resposta às necessidades e exigências das pessoas e dos povos.

25 anos depois, tudo está posto em causa. O Homem de hoje já não se divide entre os dois blocos de ontem, muito menos entre as duas ideologias que se digladiaram no século passado. O Homem de hoje, já no pós crise financeira (ou ainda no seu rescaldo), exige participar activamente na vida social e no “governo da cidade” – muito para lá do voto -, exige transparência e rigor na gestão dos recursos colectivos, exige uma adequada repartição da riqueza e dos contributos de cada um para a causa pública, é mais solidário e recusa-se a alimentar ilusionismos ou os vendedores de facilidades.

O Homem de hoje quer assumir a cidadania, não como uma expressão meramente formal da democracia, mas como um imperativo de consciência que o impele a agir.

Na mesma senda, transposta para as Nações, assistimos a sinais bem interessantes das vontades de independência de Nações integradas em Estados fortes e até seculares. Falo da Escócia, onde decorreu recentemente um referendo sobre o seu futuro dentro ou fora do reino Unido, e falo da Catalunha dentro de Espanha, onde este fim-de-semana decorreu um referendo simbólico sobre a mesma causa.

Pessoas, Povos e Nações aspiram hoje a novos patamares de liberdade, que não encontram eco nos modelos do passado e até do presente.

Vivemos tempos de mudança e cabe-nos a nós, só a nós, encontrar os caminhos do futuro. Seremos capazes?

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JOSÉ SERRÃOVieira da Silva e Ferro Rodrigues invocaram, por mais do que uma vez, o nome de José Sócrates, no recente debate de aprovação do Orçamento de Estado.

É notório o esforço da actual liderança do PS em trazer à tona da vida política, não só o nome, mas o legado (como se lhe referiu Vieira da Silva) de Sócrates.

Naturalmente poderia pensar-se que era uma forma de unir o PS no pós- Seguro, afirmando-se o passado do PS como um património histórico onde ninguém pode, nem deve, ser excluído.

Acontece, todavia, que tal desiderato, mais do que uma nobre missão de António Costa, com vista à conquista da sua maioria absoluta, tem algo mais, embora ainda velado.

As notícias sobre a hipotética candidatura de António Guterres a Secretário-Geral da ONU em 2016 vieram colocar ou recolocar Sócrates na corrida a Belém e para isso ser possível urge “limpar” ou “branquear” todo o passado do ex-Primeiro-Ministro.

O zeloso Costa, crente de que será o novo timoneiro desta pátria adormecida, investido no papel do Sebastião que chega na manhã de nevoeiro, por vontade própria ou por imposição de outros, está a abrir o caminho para o retorno grandioso do “animal feroz”. E que melhor do que suceder a Cavaco?

O actual PS já age como se as eleições do próximo ano fossem um mero plebiscito à sua futura governação e permite-se, em clima de Halloween, ressuscitar fantasmas e persuadir-nos com as teses de 2011 sufragadas negativamente pelo povo.

Esquece que não foi Passos Coelho que derrotou Sócrates. Foi o voto popular que disse não ao homem que em 2009, ignorando a crise internacional – com que mais tarde tudo pretendeu justificar –, decidiu por razões eleitoralistas aumentar salários e apoios sociais. Também, a bem da verdade, esse processo de colocar dinheiro na economia (?), como lhe chamou, era determinado pela vontade da Senhora Merkel (sim, a mesma de quem hoje o PS acusa Passos Coelho de ser o acólito…). E os célebres PECs não eram programas de austeridade? E que, ainda assim, nos conduziram ao pedido de resgate?

Costa, ao invés de nos dizer como vai fazer a economia crescer, criar postos de trabalho e, em simultâneo, reduzir o deficit, cumprir o pacto orçamental e honrar os compromissos com a Troika, “faz-se de morto” e cria as condições para a ressurreição de Sócrates, revelando, pelo menos na aparência, que o seu PS tem uma agenda escondida de poder e que lhe coube a ele ser o executor.

O tempo dirá, mas António Costa corre o risco de se desgastar antes do tempo, do seu tempo, e ao dar por adquirido aquilo que só o voto pode dar, transformar-se a breve trecho num “morto-vivo”… sem ideias e sem rumo.

Costa tem, dizem as sondagens, o poder à sua espera. Mas não basta deixar passar o tempo… Urge mostrar que não é mais do mesmo e nunca ignorar que o povo é sábio e tem memória.

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JOSÉ SERRÃODurão Barroso cessou a sua presidência na Comissão Europeia.

Foram 10 anos difíceis. A crise do sistema financeiro veio pôr em evidência todas as fragilidades de uma Europa que cresceu, no que ao numero de membros diz respeito, mas que se afastou do modelo sonhado pelos fundadores da Comunidade do Carvão e do Aço. Os países perderam poder individual em troca de uma suposta dinâmica democrática que se limitou a conferir aos mais poderosos os poderes de controlo e de domínio.

De uma Europa das Nações, Durão deixou uma Europa germanizada e tutelada por uma Alemanha que em tempos se soube unir e solidificar a sua hegemonia.

Durão Barroso ficará na história da União e certamente não pelas melhores razões. Por culpa própria ou mera vítima das circunstâncias, Durão Barroso fica associado a uma Europa da austeridade, do desemprego, mormente no mundo jovem, de uma Europa incapaz de reagir aos ditames dos tempos, de uma Europa perdida nos seus nacionalismos, de um Europa descredibilizada, onde a voz de Merkel é mais ouvida do que a voz de todos os líderes europeus, subvertendo as instituições e minando um poder que deveria ser agregador e não de mera fachada.

Barroso deixa a Comissão Europeia e só a memória dos tempos permitirá saber se, ainda assim, foi por sua acção que a Europa não se desmoronou por completo face às ameaças do poder financeiro internacional e dos banqueiros europeus, face às tentações hegemónicas de alguns e face ao despertar de potências emergentes como a China e mesmo a Índia.

No seu discurso de despedida, registo o aplauso de pé de Francisco Assis.

O antigo líder parlamentar do PS e candidato derrotado por Seguro à liderança do PS, actual eurodeputado socialista, não se coibiu de aplaudir e de o fazer de pé. As razões do seu acto apenas a ele dizem respeito, mas, como sempre, Assis revelou ser um estadista e um político que sabe estar muito acima dos interesses partidários.

Num acto politicamente incorrecto face aos valores preconizados pela nossa actual nomenclatura pensante, o gesto ganha valor por si próprio e será recordado como expressão de quem sabe pensar e defender a imagem de Portugal e dos que, desta terra, são conduzidos a assumirem no plano internacional funções de alto desígnio.

Não defendo que se aplauda um português apenas pela sua nacionalidade se a sua acção não tiver a dignidade que defenda a nossa imagem colectiva. Mas prefiro e defendo, ao contrário de muitos, um português no exercício de funções de grande relevância internacional a um estrangeiro, por “mais amigo de Portugal” que seja.

Foi assim que defendi Freitas do Amaral na Presidência da Assembleia Geral das Nações Unidas e António Guterres como alto Comissário da ONU para os Refugiados, entre outros.

E assim farei com qualquer português, independentemente da sua cor ou da sua ideologia, desde que a sua capacidade e competência o justifique à partida, confiando que a sua acção promova sempre os valores humanistas e universalistas que, desde os primórdios da nossa nacionalidade, nos levaram a “dar novos mundos ao mundo”.

CAPA

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