Manuel Silveira da Cunha

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Mário Soares faleceu, e infelizmente a imprensa portuguesa teve tempo para preparar aquilo que na gíria se chama de “obituários futuros”. É sabido que todos os idosos com alguma relevância já têm obituários prontos nos jornais. É uma tarefa de investigação e de compilação que se costuma dar a estagiários quando entram nos jornais. Podemos chamar-lhe uma espécie de praxe. Os mais talentosos podem escrever boas peças, geralmente contrariados, que emergem algumas vezes muitos anos depois, não assinadas. Homens como Adriano Moreira, Mário Soares, têm obituários à sua espera há muitos anos. Outros provavelmente já terão também o seu obituário: Manuel Alegre, Cavaco Silva, Ramalho Eanes, Jorge Sampaio, apesar de ainda aparentemente vigorosos, terão provavelmente o seu obituário pronto algures nos jornais ditos de referência. O obituário futuro é algo que poderá chocar o leitor menos familiarizado, mas é um instrumento útil que poupa muito tempo e trabalho, sobretudo se o destinatário tem a pouca decência, segundo o editor em causa, de morrer em cima do fecho da edição!

Mário Soares não seria excepção. Neste caso, o seu estado de saúde com 26 dias num hospital em grave condição, deu tempo a todo o gato-sapato para escrever e preparar a morte do antigo presidente da república. O próprio Marcelo Rebelo de Sousa, escassos segundos após o anúncio da morte de Soares, entra em directo nas televisões com um discurso de quatro minutos, que são ainda umas folhas A4 escritas, um discurso preparado e elaborado e não uma improvisação tão ao seu estilo, em que comentava, é o termo, a morte de Soares.

Pior ainda, a hora da morte de Soares, pelas três e pouco da tarde, é muito anterior ao fecho das edições dos jornais e dos telejornais, o que dá imenso tempo de coligir toda a informação e preparar entrevistas, alinhar imagens de arquivo, alinhar convidados. É caso para dizer que, para jornalistas e comentadores, Soares “foi fixe” até à última hora.

Dir-se-ia que a morte de Soares foi preparada meticulosamente para preparar uma espécie de mito. Uma doença que dá a entender o fim próximo, vinte e seis dias de preparação, que até deu descanso na altura de Natal e de Ano Novo, e um falecimento conveniente a um Sábado à tarde enquanto António Costa anda na Índia a oferecer a entrada na UE aos indianos sediados no Reino Unido através de Portugal.

O corolário desta preparação meticulosa, dir-se-ia preparada por uma agência de comunicação daquelas que dominam a cena mediática portuguesa devido à preguiça jornalística portuguesa, é a enxurrada Soares nos meios de comunicação. Ele é o Soares e a religião, ele é os três erros de Soares, ele é Soares e a comida (!), ele é o Soares e o Panteão, ele é o Soares visto por este e aquele, ele é o Soares em fotos, ele é o Soares em nove histórias, ele é o Soares em fato de banho, até o Miguel Esteves Cardoso não faltou à chamada e escreveu umas banalidades do tipo “ele deu-nos tudo”; material não falta, Soares não era esquivo e deixou-se entrevistar e fotografar à exaustão, material para meses de televisão e jornais, material enunciado por todos os melhores amigos do defunto. São notas de rodapé dizendo “corpo de socialista atravessa Lisboa”, como se corpos de socialistas não atravessassem Lisboa todos os dias…

Durante muitos dias não houve mais nada, não houve notícias, não houve mundo, até o próprio Guterres, Secretário-Geral da ONU, aparece para falar não da Síria, em que mais um atentado matou cinquenta num mercado qualquer sem interesse, mas de Mário Soares, numa declaração interminável, como todas as declarações de Guterres. Sampaio da Nóvoa, soarista tardio, confidencia em tom de contragosto perante milhões de telespectadores as suas memórias, escassas, como se fossem segredos de Estado; Passos Coelho, visivelmente enjoado com o assunto, lá alinha umas banalidades; Cavaco, provavelmente aliviado por ainda cá estar enquanto o seu arqui-inimigo já foi, explica que não é altura de falar de divergências. Enfim, todos têm de aparecer em bicos dos pés nas televisões. É tempo de desligar a televisão portuguesa e ler um bom livro ou ir ao cinema, ou apreciar um bom espectáculo.

Soares não faz falta nenhuma porque já cá não estava. Teve o seu tempo e o seu ciclo. O seu corpo desligou, que vá em paz.

A feira de Santos Silva

O ministro Santos Silva, aquele que gostava de malhar na direita, agora responsável dos negócios estrangeiros, classificou a concertação social como se fosse uma feira de gado. Tem razão, aquilo parece uma negociação de feira de gado. Os negociantes estão todos lá, mas o gado, esse, o gado, a moeda de troca e a mercadoria, somos todos nós, os Portugueses.

É assim que os políticos tratam aqueles que devem servir, como gado do qual os negociantes estão, como donos da feira, na concertação social a trocar por benesses para as cabeças que representam. Vergonhoso e pouco diplomático.

Passos Coelho

A situação no PSD está cada vez pior. Passos Coelho faz uma mensagem de Natal vergonhosa, em que afirma que está por aí para anunciar catástrofes e tempestades, que o Diabo (não somos nós, o Jornal, é mesmo o Demo) virá aí. Entretanto não se descose com um candidato forte a Lisboa para desalojar a clique socialista que usa a cidade a seu belo prazer para ir fazendo negócios expulsando os lisboetas da sua cidade a troco dos cifrões trazidos pelos turistas.

Passos Coelho terá de dar o lugar a outro. Não tem a simpatia do eleitorado, não tem rumo nem estratégia, navega à vista e a sua alma gémea Maria Luís, criatura antipática, desagradável, todos os dias dá tiros nos pés, desmentindo números que Bruxelas já validou, acusando o governo de falsificar os resultados e parecendo que deseja que o País se afunde apenas porque já não faz parte do poder. Marcelo Rebelo de Sousa já percebeu que com estas reses a feira de gado não está completa, para usar a metáfora de Santos Silva, para além do facto de Marcelo não suportar a dupla Coelho-Albuquerque, que anteriormente o tentou impedir de concorrer a presidente, tendo-lhe inclusivamente chamado de “catavento político”. Passos Coelho é aquilo que se chama uma má rês política, e ainda por cima tendo o omnipotente Marcelo contra, pode-se dizer que está marcado para abate rápido.

É tempo de regressar à Social-Democracia, preencher o espectro político ao centro, agora que o PS se encostou à extrema-esquerda, e ganhar as eleições com simpatia, com carisma, com novidade e esperança. José Eduardo Martins, ou outro qualquer, até o rato Mickey, já seriam melhores do que Pedro Passos Coelho.

Soares

É triste ver a feira instalada à porta do hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, onde Mário Soares tem padecido o que podem ser os seus últimos dias. Boletins clínicos diários para um velho cavalo cansado de muitas batalhas não fazem sentido. Soares está reformado da política, já vivia num outro mundo, um mundo ausente deste. O circo mediático não faz sentido e devia-se respeitar a vida, a privacidade e o desgosto da família nesta situação. Trinta jornalistas à porta de um hospital não adiantarão um segundo se houver alguma notícia favorável ou negativa no estado do antigo presidente. É a continuação da feira, mas na variante de feira de papagaios a tentar competir pela plumagem mais vistosa, uma vez que o que dizem é apenas uma repetição do que o dr. Barata, o porta-voz do hospital, vai, laconicamente, informando.

A propósito da edição por um semanário de um livro de Simon Sebag Montefiore, “A Corte do Czar Vermelho”, um livro excelente, como todo o trabalho notável de Montefiore, vem Francisco Louçã afirmar no ‘Expresso’:

[Francisco Louçã] sublinha que só a esquerda “foi capaz de combater o colonialismo francês na Argélia, o colonialismo português em Angola e Moçambique, as ditaduras de Portugal, Espanha e Grécia, bem como rejeitar o estalinismo e a destruição que provocou”. No debate ideológico, diz a concluir, “a esquerda que tem esse nome, tem uma força muito grande, que é simplesmente a de ter dito e ter feito, e lutar em todas as circunstâncias pelas liberdades essenciais do ser humano. As ideias fortes da esquerda são as ideias da liberdade e é isso que constitui o seu património”.

Ou seja, Francisco Louçã, na sua dogmática visão do mundo, vem afirmar que Estaline não seria de esquerda! Pior, foi a esquerda que combateu Estaline e rejeitou-o, bem como a destruição que provocou.

Quem ler Louçã e não tenha uma dimensão crítica da História, poderia até pensar que Estaline não seria de esquerda e que a “verdadeira” esquerda, a dos trotskistas, entenda-se, combateu as ditaduras, teria assim uma força muito grande, um património, nas suas próprias palavras.

Mas este parágrafo encerra demasiadas contradições. Quem combateu contra Portugal em Angola e Moçambique – Louçã esquece a Guiné, não se sabe bem porquê – foram movimentos pagos pelos russos (à mistura de chineses e americanos), herdeiros directos de Estaline, e não a meia dúzia de trotskistas que foram purgados pelo ditador na Rússia. Pior, quem apoiou directamente o regime de Angola foram os cubanos, que chegaram a enviar tropas, e não me parece que os cubanos de Fidel Castro fossem trotskistas. Por outro lado, não parece que tenha restado muita liberdade nos países em causa.

As esquerdas nunca lutaram pelas liberdades. Estaline, que para todos os efeitos era o clímax de qualquer ideia de esquerda, nunca lutou pela liberdade, lutou pelo seu poder, pelo poder da Rússia soviética e, apesar de combater o Nacional-socialismo de Hitler, substituiu na Europa de Leste um reino de terror por outro reino de terror, muito distante da liberdade apregoada por Louçã. Por outro lado, o próprio Trotsky, enquanto teve poder, nunca lutou pela liberdade, lutou isso sim pela “ditadura do proletariado” que levou a centenas de milhares de mortos, ainda no seu tempo enquanto chefe e fundador do exército vermelho, culminando o seu regime com o apogeu de Estaline, cujo reinado se deve em grande medida à meticulosa preparação de Trotsky, antes de este último cair em desgraça, bem entendido.

Quem combateu os regimes totalitários foram as esquerdas estalinistas, os partidos comunistas ortodoxos. Os chamados trotskistas nunca passaram de um punhado folclórico de barbudos desgrenhados, com a louvável excepção capilar do próprio Louça com o seu ar bem barbeado de eclesiástico e os seus dogmas proferidos com ar severo mas que, depois de analisados, são apenas uma espécie de propaganda contraditória e sem nexo.

Afirmar que as esquerdas defendem a liberdade é meter demasiada esquerda num saco muito pequeno. A não ser que Louçã esteja a elogiar os sociais-democratas. Já deve ter faltado mais…

A Câmara de Lisboa prepara-se para entregar à “Órbita” a gestão e fornecimento de equipamento para o sistema de bicicletas partilhadas. São 16.400 euros por bicicleta, cento e quarenta docas, ou postos, e 1.410 bicicletas. O contrato dura oito anos, os custos directos previstos são de 23 milhões de euros mas, no final, com custos financeiros, a Câmara de Lisboa vai ter um custo equivalente de pelo menos 30 milhões de euros, isto numa cidade com declives intensos e orografia inimiga da bicicleta.

O passe anual custará ao lisboeta 36 euros, isto segundo o Jornal de Negócios. A “Órbita” arrecada os vinte e três milhões à cabeça, a Câmara tratará de recolher as verbas dos passes, fará a gestão dos clientes e tentará rentabilizar o negócio. Segundo a Câmara, há perspectivas de obter lucro, ou pelo menos de compensar o investimento. Note-se que os contratos de publicidade para divulgar o sistema ainda não estão assinados, podendo somar mais uns milhões de euros aos custos do projecto. Entretanto, a gestão dos clientes e do sistema não foi contabilizada nos 23 milhões. Custará certamente muito dinheiro, podendo também somar mais uns milhões aos custos estimados inicialmente. Quem usar as bicicletas esporadicamente pagará 10 euros por dia, quem pagar passe pagará 36 euros por ano.

É altura de perceber como este negócio poderá dar dinheiro. Se começarem a ser um sucesso de subscrições e se cada bicicleta tiver utilizadores diários em sistema de passe anual, a receita dos oito anos por utilizador será de quatrocentos mil euros, ou seja, se a Câmara espera ganhar dinheiro com este sistema (pelos 23 milhões), terá de ter 56 utilizadores por bicicleta a pagar passe!

O pesadelo logístico de gerir um sistema de 140 postos, cada qual com dez bicicletas, é de loucura total. Imagine-se que os utilizadores pretendem, de manhã, circular da periferia para o interior de Lisboa. Pelas sete e meia da manhã já não haverá bicicletas nos postos da periferia, todas estarão concentradas no interior, com a chegada dos madrugadores aos seus lugares de trabalho. Por consequência, todas as bicicletas ficarão bloqueadas no centro da cidade aos primeiros minutos da hora de ponta e os subscritores (terão de ser 56 por bicicleta para compensar o investimento!) ficarão a chupar no dedo, esperando desesperadamente que os turistas resolvam, pelas 9h30m da manhã, que é quando começam a sair dos hotéis, dar uma voltinha até ao exterior da cidade, tipo regresso à Pontinha, em massa, com as mil quatrocentas e dez bicicletas do sistema! Ou isso ou então a Câmara terá de ter um sistema de camiões para recolocar as dez bicicletas de cada posto nas periferias, isto em plena hora de ponta. Camiões que ficariam por mais uns milhões e que contribuiriam para a poluição da cidade, tendo depois de voltar ao interior para recarregar as mesmas bicicletas para a periferia depois da segunda vaga de ciclistas ter deixado os empedernidos (e masoquistas) ciclistas nos seus lugares de trabalho. Repare-se que teríamos de ter mais de cinquenta mil ciclistas a querer usar o sistema de 1.410 bicicletas por dia. Isto quando há registados menos de 2.000 ciclistas nas federações de ciclismo amador e turístico em todo o País.

Por outro lado, a utilização por turistas choca com o uso regular, pois o movimento dos turistas ciclistas não os leva para os locais onde serão necessárias para quem as usa para deslocações pendulares. Quando a rapaziada sair do trabalho na Av. da Liberdade e Avenidas Novas, nessa altura vão estar as bicicletas todas nos Jerónimos e no Museu dos Coches e na marginal à beira rio, a não ser que haja o tal ridículo sistema de camiões a transportar bicicletas por toda a cidade…

Todo o negócio está mal contado, é uma negociata de dezenas de milhões de euros atirados positivamente à rua. O número de bicicletas é esquizofrénico e não corresponde a qualquer modelo pensado no cidadão. Quando há milhares de lisboetas a morrer com fome e doenças, idosos sem assistência, isolados, expulsos das suas casas para promover o turismo selvagem, escolas a cair ou sem condições, a Câmara resolve atirar para a rua dezenas de milhões de euros, espoliados aos lisboetas, como através da famosa e vergonhosa taxa de protecção civil, para uma negociata estranha e muito pouco justificada sob as palmas acéfalas de tontos cegos por patranhas ecologistas.

Noruega, Austrália, Suíça, Dinamarca e Holanda são, por ordem, os cinco países mais desenvolvidos do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas. Espanha vem em vigésimo sexto lugar, um lugar que Portugal já ocupou antes dos governos de Sócrates e Passos Coelho: o nosso País vem agora na miserável posição quadragésima terceira, atrás de países como Arábia Saudita, Polónia, Malta, Chipre, Estónia ou Qatar, que partiram muito atrasados face a nós, e Cuba vem em sexagésimo sétimo.

Dos cinco primeiros do Mundo, quatro são monarquias, sendo a Suíça a única não monárquica; mas, não sendo uma verdadeira república, não tem um chefe de Estado republicano convencional, é governada por um conselho federal de sete membros, saídos dos cantões, e cuja estrutura é descendente directa das estruturas colegiais de governo saídas do Império Sacro Germânico em 1291. O “presidente” da Suíça é rotativo dentro do conselho federal.

O Bloco de Esquerda votou no Parlamento português um voto de pesar pelo tirano e assassino Fidel Castro. Os argumentos são variados, ele é o sistema de saúde, ele é a educação, ele é o bem-estar, mas recusou-se a levantar o traseiro das cadeiras quando o Chefe de Estado de Castela, entre outras nações de Espanha, se dirigiu ao Parlamento português a convite do mesmo Parlamento e do Presidente da república. Se compararmos o índice de desenvolvimento humano, o argumento do bem-estar é falacioso, mas o problema não é esse, é o da cortesia devida a um convidado que é de facto o Chefe de Estado de uma democracia desenvolvida.

É uma falta de respeito pelos povos das Espanhas, ainda que sob o domínio centralista de Castela, que são governadas por um Rei, escolha dos súbditos, através de uma constituição votada em cortes, para governar. Mesmo no absurdo do tempo de guerra entre Portugal e Castela, os generais e governantes se cumprimentavam no campo de batalha, mesmo em tempo de guerra se escreviam cartas amistosas entre reis e parentes, quando preocupações de saúde afectavam os governantes vizinhos. Mesmo em tempos de guerra napoleónica, particularmente feroz, os generais em confronto se escreviam, e até chegaram a enviar médicos pessoais para tratar oficiais inimigos. No entanto, as restantes nações de Espanha não são agora nossas inimigas, nem esse argumento faz sentido hoje.

Não se levantar o traseiro da cadeira para cumprimentar um Chefe de Estado é de uma arrogância ideológica miserável, de uma falta de educação peregrina, e denota o ódio visceral, dir-se-ia criminoso, que as esquerdas têm a quem não é da sua cor, é um acto de racismo ideológico; não importa democracia ou ditadura, apenas importa a ideologia ser semelhante. Ter pesar por assassinos e criminosos, como Fidel, está bem, seria recebido de braços abertos e vivas se tivesse vindo ao Parlamento; mas o supremo governante de Espanha, quarenta lugares acima de Cuba no índice de desenvolvimento humano, não merece uma “alevantadura” da cadeira.

Donde se conclui que para o Bloco de Esquerda uma Noruega, Dinamarca, uma Austrália ou uma Holanda não serão os modelos, mas Cuba é o grande exemplo a seguir, para baixo! Viva a revolução cubana cujo modelo social de sessenta anos nos fará descer até ao lugar 70 do índice de desenvolvimento humano!

Morreu na cama, sem ter sido julgado no seu país, o tirano Fidel Castro, homem que governou com mão de ferro a ilha de Cuba desde o início dos anos sessenta. O regime continua através de seu irmão, Raul Castro, que ao contrário de Fidel sempre foi um socialista assumido.

Fidel Castro começou por ser moderado e apenas quando os Estados Unidos lhe negaram apoio para remover outro tirano, Fulgencio Batista, é que se virou para a União Soviética de forma a consolidar o seu regime. Subiu ao poder em Janeiro de 1959 com o posto de comandante supremo das forças revolucionárias, que depois incluíram o exército regular, e tornou-se primeiro-ministro em Fevereiro do mesmo ano. Governou directamente ou através do seu irmão, durante mais de 57 anos! Entre os governantes absolutos Luís XIV ganha-lhe a palma com 72 anos, no entanto Luís XIV governou apenas de facto de 1661, ano em que Mazarino faleceu, até 1715, ou seja, dois anos menos.

Fidel Castro teve muitos méritos, é um facto, um deles foi ter acabado com o regime podre, corrupto, dominado pela máfia americana, de facto o bordel e casino da Costa Leste dos Estados Unidos, de Batista. Um regime que os Estados Unidos, na sua cegueira total e na sua hipocrisia ideológica, mantiveram e apoiaram, apoiando de facto os interesses do crime organizado americano, dando-lhe uma gigantesca máquina de lavar dinheiro sujo que era a Cuba dos anos cinquenta.

Uma cegueira que perdurou ao ter retirado o reconhecimento que dera ao regime de Fidel nos primeiro dias de Janeiro de 1959. É evidente que os Estados Unidos deveriam ter removido Batista antes que Fidel chegasse a Havana e depois de consumado o facto deveriam ter chamado Fidel a si e não ter empurrado o futuro ditador para os braços dos russos.

O grande mérito foi ter posto em sentido os EUA na América Latina, contribuindo para o equilíbrio daquela região do globo e evitando uma hegemonia extremamente negativa que a exploração de recursos americana executava na região, alimentando regimes corruptos, mas obedientes, e que contribuiu para o subdesenvolvimento e criminalidade generalizada na América Latina. Fidel deu saúde e educação ao seu povo, mas também deu uma ditadura sanguinária, presos políticos, exilados, pouca liberdade económica e atraso no desenvolvimento.

Pesando alguns lados positivos, que a História julgará melhor do que nós, há questões de princípio quando se julga um homem marcante, e essas questões são cruciais. Quando se manda matar sem julgamento, quando se manda torturar em nome da revolução, cometem-se crimes imperdoáveis e esses crimes, no caso de Fidel, ficaram impunes. Como não deveriam ficar impunes as políticas americanas na zona. Note-se que Fidel deve o seu sucesso ao paradoxo do bloqueio americano.

Os EUA conseguiram fazer unir a maioria da população de Cuba em torno da política de Fidel e da sua propaganda. Nenhum regime consegue subsistir cinquenta e sete anos tendo a maioria da população contra. A política errada dos Estados Unidos no Caribe, e na América Latina em geral, deu à propaganda de Fidel, ajudada pela sua máquina repressiva, e pela censura, o inimigo exterior, o papão que tanto jeito deu ao regime cubano durante estes três quartos de século.

Hoje em dia Obama tentou quebrar o bloqueio, que não faz o menor sentido estratégico depois da queda do muro de Berlim, e que é apenas uma questão de orgulho e de teimosia americana. Seria uma das poucas acções inteligentes de Obama em política internacional, depois do descalabro do Iraque, a criação do DAESH, ou a idiotia das primaveras árabes que desestabilizaram ainda mais a região árabe fortalecendo o estado si- nistro que é a Arábia Saudita.

Esperamos que com a morte de Fidel a política americana não se inverta e não teime em dar a Raul Castro, agora com 85 anos, e seus sucessores, argumentos para manter o regime.

Escutei na rádio, Antena 1, a missa de Domingo a partir da Igreja de S. João de Brito, em Lisboa. Fiquei estarrecido com dois aspectos. Em primeiro lugar, existe um comentador de missas, uma espécie de voz jovem mas emaciada com requintes de elevação mística beatífica, que vai tecendo comentários aos diversos momentos da Santa Missa em vez de os deixar escutar.

A missa pela rádio destina-se a quem não pode ir à Igreja, doentes, pessoas em viagem, distantes dos centros, sem meios de transporte, com dificuldades motoras; no caso desta missa de S. João de Brito, dir-se-ia que a missa era unicamente destinada a castigar os doentes e os ouvintes crentes que não puderam ir à igreja com os comentários afectados, iluminados por uma luz de suprema beatice e presunção afectada de uma fé sublime e única que enche o beato comentador e, já agora, a desafinação horrífica do “coro”.

Quando pensamos em música na missa pensamos em Mozart, em Josquin, em Schubert, em Beethoven, até no luterano Bach que escreveu a colossal missa católica em Si menor, pensamos em Dvorjak, em Bruckner, pensamos numa música de uma qualidade ímpar, iluminada pela verdadeira Fé e pelo máximo esforço do génio humano de compositores que colocaram na Missa, agora com M grande, todas as suas energias criativas, porque a Missa, vista por estes homens, transcende o humano e torna-se Sobrenatural. As criações musicais para a Missa têm, em grande parte, o toque do Sobrenatural.

Não é o caso do “coro” de S João de Brito, em Lisboa. Já não bastava o beato comentador de missas com voz afectada a tapar a missa: tínhamos o coro infernal, desafinado, fora de tom, berrante, cada um para seu lado, mal captado pelos microfones, que cantava “músicas” miseráveis de per se, mas que, para além disso, estropiava sem dó nem piedade. Note-se que, no caso da Missa, é necessário piedade. Piedade pela congregação, piedade pelo ouvinte da Rádio. Aquilo que poderia ajudar o crente a elevar-se, a chegar ao Céu pelo acto da Comunhão, pelo acto da Partilha, pela Eucaristia, pela Oração, torna-se um momento digno do purgatório, uma vez que, por muita caridade pelo esforço denodado dos paroquianos que cumprem a sua obrigação dominical de tentar fazer umas cantorias, não os devo comparar ao inferno… um inferno em que me colocaram enquanto ouvinte da rádio.

Ouvir a missa nestas circunstâncias não é um acto de Fé, é um acto de penitência, de sacrifício. Perceber-se-ia a intenção da hierarquia da igreja de sujeitar o auditório a um castigo divino, sem par, por não ter ido à missa in loco e por ter cometido o pecado de ficar em casa a tentar escutar a rádio; mas não parece ser o caso.

O caso é que o cuidado com a música na igreja é pouco. Os padres não têm formação, seria melhor mandar calar aquela gente toda e fazer a missa sem cantorias do que escutar tal martírio, ou mandar ensaiar o coro por gente com maior formação. Nem quando se tem a responsabilidade de dar a todo o País, pela rádio, uma missa com cuidado, uma vez por semana, se escolhe um coro mais trabalhado, obras mais elevadas, compositores mais de acordo com a tradição gigantesca da igreja neste domínio.

Creio que é um pecado grave deixar a transmissão da missa a uma igreja qualquer, como S. João de Brito, em que não se cuida da liturgia em todos os seus parâmetros. Agora vou parar de escrever e vou escutar a Missa da Coroação de Mozart…

É espantoso o que se seguiu à eleição de Donald Trump. Muita gente tem vergonha do Presidente que a América elegeu. Na Califórnia preparam-se movimentos para pedir a secessão dos Estados Unidos, há petições para que os grandes eleitores, os membros dos colégios eleitorais dos diversos Estados traiam o voto popular e escolham Hillary Clinton.

De facto, a Constituição dos Estados Unidos prevê que o Presidente da República, e o nome é mesmo esse, República, seja eleito por colégios estaduais, cujo número, mas não a composição, é igual à soma dos senadores, dois por Estado, e dos representantes de cada Estado no Congresso americano, que reúne Senado e Câmara dos Representantes. Geralmente, o vencedor de cada Estado, mesmo que obtenha apenas maioria relativa, recolhe todos os grandes eleitores do colégio que o seu partido nomeou para votar no candidato nomeado pelo partido do candidato mais votado, excepto nos pequenos Estados do Maine e do Nebraska em que cada distrito para a Câmara dos Representantes escolhe um eleitor e o vencedor geral no Estado recebe os dois votantes correspondentes ao senadores de cada Estado.

Este sistema não dá votos automáticos aos vencedores. Em muitos casos, a votação é pública; noutros, é por voto secreto. Quando não se obtém os 270 votos necessários para a eleição na soma de todos os colégios eleitorais em cada Estado, o Congresso escolhe entre os três candidatos mais votados (aconteceu em 1800 e 1824). Jefferson ganhou em 1800 depois de empate com Burr, e depois de 36 votações na Câmara dos Representantes para desempatar; em 1824 John Quincy Adams ganhou a Andrew Jackson no desempate, depois de Jackson ter ganho sem atingir o limite de votos no colégio eleitoral, o que deixou Jackson furioso (viria depois a ser o sétimo Presidente dos Estados Unidos em 1829 e fundador daquele que é hoje o partido democrático).

Houve até hoje muitos casos de “votantes infiéis”, 157 para ser mais preciso. Alguns Estados proíbem a traição no momento da votação e podem ser usadas penas de multa ou inibição de direitos cívicos, mas o Supremo Tribunal dos Estados Unidos consagrou que, apesar de estes votantes poderem ser punidos à posteriori, o seu voto continuaria a ser válido, mesmo que tendo traído a causa para que foi eleito o seu autor. Nos casos em que a votação no colégio é secreta, nem seria possível descobrir o autor da “traição”. Apenas uma vez o voto dos traidores foi decisivo, na eleição do vice-presidente Richard Jonhson, da Virgínia, em 1836: os delegados souberam que vivia com uma escrava e traíram os 23 votos, no entanto Jonhson viria a ser eleito no desempate no Senado. O Senado desempata para o vice-presidente, o que faz sentido, pois o vice-presidente do país preside às sessões do Senado norte-americano.

Os últimos votantes infiéis foram em 2000 e em 2004, sendo que neste último, provavelmente por engano, o “traidor” trocou os boletins de presidente e de vice-presidente. No entanto em ambos os casos, sem pesar na eleição, os votos foram contados.

É pois muito estranha a campanha contra Trump apelando à deserção dos grandes eleitores. A democracia funciona com regras, regras que foram estabelecidas há mais de duzentos anos para permitir uma eleição limpa, em que todos os Estados, pequenos ou grandes, tivessem uma palavra a dizer e que fosse possível de realizar num país muito grande sem grandes meios de comunicações. Fazia sentido que os Estados votassem e que depois, por correio terrestre e mais tarde por telégrafo, as decisões fossem enviadas a Washington. Hoje em dia o sistema faz menos sentido. O voto poderia ser directo, mas isso impossibilitaria a representação de cada Estado como um todo, o que era a ideia fundamental do conceito de os Estados Unidos serem uma federação de Estados.

No dia 19 de Dezembro será a verdadeira e final votação para Presidente dos Estados Unidos nos diversos colégios eleitorais. Nesse dia teremos a certeza sobre se os mais de 290 votos atribuídos a Donald Trump serão reais, ou se os eleitores do partido republicano o vão trair naquele que seria o maior golpe de teatro na democracia americana até hoje. Certamente que Trump ganhou com menos votos do que Hillary, mas com as regras do jogo abertas e conhecidas de todos; se o sistema fosse outro, outra teria sido a campanha. Trump apostou nos Estados decisivos e ganhou. Veremos se a democracia vence no final. Trump pode vir a ser um mau presidente, pode ser embaraçoso para muitos, mas foi a escolha do sistema democrático segundo a Constituição dos Estados Unidos.

Dizia o Dr. Fernando Ulrich, citado pelo “Observador”: “Considero o Dr. António Domingues a pessoa mais qualificada e mais bem preparada que conheço para assumir a responsabilidade de presidente da Caixa Geral de Depósitos (…). Não tenho nenhuma dúvida que é a pessoa mais bem colocada que conheço para assumir esta grande responsabilidade. Acontece por mérito dele. (…) Tenho de felicitar o senhor ministro das Finanças e o senhor primeiro-ministro por terem feito esta escolha. Não conheço melhor”.

A escolha parece ter sido acertada, o Dr. Domingues parece preparado, é um técnico, não veio da carreira política, ao contrário de outros administradores da Caixa, nomeados por este governo, não terá de ir para os bancos da escola estudar sobre o que é um banco.

Domingues não é, naturalmente, um banqueiro. Já escrevemos aqui sobre a diferença entre executivo de topo, um funcionário bancário dirigente que não arrisca nem um cêntimo da sua fortuna pessoal, do seu capital, e os verdadeiros accionistas, os verdadeiros banqueiros, aqueles que arriscam o seu capital. Também já aqui escrevemos contra a tentativa destes executivos de topo de se substituírem aos verdadeiros detentores das acções e se tornarem uma espécie de donos dos bancos de facto. Eles passam despachos que beneficiam a si próprios, ou usam comissões para isso, comissões nomeadas por eles próprios ou por outros iguais a eles, em que fixam os próprios vencimentos escandalosos, fixam também participações abusivas no capital como forma de prémios, e mesmo prémios financeiros chorudos, isto mesmo quando os bancos que gerem têm prejuízos colossais, prejudicando fortemente os clientes e, sobretudo, os reais accionistas.

Veio a notar-se esta tendência nos últimos anos; os executivos passaram a ser uma espécie de sobas indisputados. Mesmo que em alguns casos raríssimos sejam realmente competentes, sérios e honestos, estes executivos beneficiam de uma enorme complacência dos organismos de supervisão, onde os directores pertencem à mesma espécie de casta, e dos organismos legislativos. Estes executivos, sob formas estritamente legais, sonegam rendimentos aos accionistas, prejudicam os restantes trabalhadores dos bancos, como se fossem eleitos por Deus, numa política geral de enriquecimento ilegítimo à custa de quem arrisca realmente o seu dinheiro. O princípio é geral, não acontece apenas em Portugal.

O que está por detrás da recusa de António Domingues em apresentar a declaração de rendimentos a que está obrigado por estar a gerir dinheiro dos cidadãos portugueses é precisamente o receio de que se perceba que uma enorme fortuna foi obtida à custa de clientes e accionistas dos bancos por onde passou, nomeadamente o BPI. A transparência na banca privada é demasiado opaca e a informação dada ao mercado sobre as chorudas e infundadas remunerações dos quadros superiores dos bancos, os bancários de topo, é quase nula.

A muito custo a informação passa para os accionistas que, devido a grandes dispersões em bolsa, não tomam medidas nas escassas assembleias-gerais, com ordens de trabalho formatadas pelas direcções bancárias, para limitar os rendimentos escandalosos dos bancários de topo. Com uma declaração de rendimentos pública, António Domingues poderia ser criticado pelo excesso de rendimentos que obteve como bancário. Milhões de euros que um professor universitário, um cirurgião célebre, um embaixador, um juiz conselheiro, um ministro ou Presidente da República nunca conseguiriam acumular no final de uma vida de trabalho. Por outro lado, ninguém poderia verificar a diferença entre a riqueza pessoal à chegada e no final do mandato da Caixa Geral de Depósitos, o que é mais um escândalo, porque eventuais prémios auto-atribuídos constituem confiscos directos ao accionista da Caixa, o povo português.

António Domingues pode ser competente, e acredito veementemente que sim, mas além disso deve ter ética e vergonha na cara. Apenas quem tem algo a esconder na forma como enriqueceu ao longo de uma vida de trabalho poderá recusar cumprir uma obrigação legal e moral que é evidente para todos os portugueses, a começar pelo garante máximo da legalidade e da constituição, o Sr. Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, que já afirmou que Domingues deve cumprir a sua obrigação e apresentar a referida declaração ao Tribunal Constitucional.

Portugal muito deve aos comandos. Foram combatentes muito empenhados nas recentes guerras de África, resistiram aos avanços comunistas e excessos do pós-vinte e cinco de Abril apesar de terem participado na revolução, posteriormente participaram em missões de paz em que nunca desonraram o país.

Os comandos, se empregues de forma justa e equilibrada, cirurgicamente, de acordo com as suas capacidades e meios, podem ser de grande importância. Napoleão não mandou a velha guarda avançar em Waterloo, era tarde demais, seriam apenas cordeiros destinados à chacina e nada poderiam fazer, no ocaso da derrota, com a chegada de Blücher, para inverter o rumo dos acontecimentos. Os comandos não servem para missões pesadas de choque, não devem participar em acções de grande envergadura, são forças de reserva para empregar em situações delicadas onde, em muitos casos, é necessário tacto e cuidado extremo, para além de espírito de sacrifício e capacidade física e militar.

É nestas circunstâncias que temos de optar entre a loucura do brigadeiro Orde Wingate, por mais român- tica e por maior bravura que demonstre, e a ousada prudência do tenente Stirling. Wingate teve de criar as suas brigadas em condições de elevada dificuldade, o Império da Índia estava em risco se não se cortas- sem a linhas de abastecimento e se atasse o exército  japonês atrás das suas posições avançadas com golpes ousados. O número de baixas, elevadíssimo, era baixo comparado com o preço de perder a Índia. As acções dos Chindits e de Wingate foram muito exploradas pela propaganda aliada, mas as suas campanhas na Birmânia tiveram, no final, pouco sucesso militar relativamente ao elevadíssimo número de baixas dos seus comandos. Estava-se em guerra e as baixas em treino, elevadíssimas sobretudo durante a monção, e em combate, ainda mais elevadas, justificavam-se pela necessidade de sucessos e de levantar o moral das populações na retaguarda.

Já os SAS de Stirling, “special air service”, sempre se comportaram de forma mais responsável na sua ousadia muitas vezes levada ao limite. No entanto, não estiveram imunes a mortes em treino. Recente- mente, em 2013, morreram três soldados no treino de acesso ao SAS devido a calor e desidratação, já este ano faleceu mais um cabo. O escândalo em Inglaterra foi grande e foram tomadas medidas para prevenir futuros acidentes deste tipo.

O que espanta é que os comandos não tenham aprendido com as lições de velhos tempos, dentro da própria unidade, nem com as lições de outras forças especiais noutros países. Um oficial superior, um coronel comandante de unidade, deveria estudar, manter-se a par da doutrina de treino, das especificidades do mesmo e das condicionantes para a saúde das condições extremas, nomeadamente de calor. Um batalhão de comandos é uma unidade militar, paga pelo dinheiro dos seus concidadãos; não é uma tribo a praticar praxes que põem em risco a vida dos soldados confiados ao comando dos oficiais e sargentos instrutores. Uma das funções primordiais dos oficiais será manter a segurança dos seus subordinados e, neste caso, dos instruendos.

Por outro lado, o pessoal médico deverá estar atento, documentado, preparado para ocorrências como as que surgiram no último curso com a morte de dois instruendos e nove baixas no hospital. Um número que nunca poderá ser acidental: acidental seria uma morte, seriam dois ou três instruendos no hospital. Quando há nove baixas graves e dois mortos, algo de muito errado aconteceu e a culpa é de toda a estrutura de comando e de quem desenhou a doutrina de treino sem mecanismos de prevenção do alto risco, nomeadamente no que concerne à segurança dos instruendos em situações extremas de calor e desidratação, que são extremamente fáceis de prever, basta olhar para o termómetro e higrómetro. Finalmente, deixar instruendos numa tenda sem as condições de um hospital, por longas horas, até morrerem, aparenta ser crime e as autoridades judiciais assim o parecem entender. Não entendemos, neste aspecto, o silêncio dos enfermeiros em inquérito judicial: aparenta ser um pacto de silêncio muito grave, que não honra os comandos nem a sua proverbial coragem.

Ao invés de extinguir os comandos, que são cada vez mais necessários, segundo a doutrina cirúrgica das nossas operações militares futuras, é importante dotar esta força de uma doutrina de segurança, para além de preparação física e militar, por uma doutrina de respeito pelo capital humano. Não é necessária a praxe humilhante, basta que a dureza dos cursos faça a sua avaliação decorrer normalmente e que os melhores cumpram as missões que lhes estão confiadas, depois de receberem as boinas e crachás. Que se tirem lições e os culpados sejam punidos exemplarmente, dos sargentos instrutores ao topo da hierarquia que se mostrou ausente e que confiou em oficiais subalternos e sargentos que acabam, infelizmente, por manchar a história dos comandos portugueses e os põem em risco de extinção, mais uma vez, sem a menor necessidade.

CAPA

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