Manuel Silveira da Cunha

Os pacóvios lusitanos continuam a apostar no turismo, turismo que encarece o custo de vida dos portugueses, que lhes rouba as casas, que expulsa os idosos dos centros urbanos, que invade, polui e destrói, que enriquece uns quantos, ao mesmo tempo que destrói a paz e o sossego de um povo.

Hordas de hunos ululantes, uns de pé descalço, outros atraídos pelas campanhas do turismo homossexual que consideram Lisboa e Porto capitais gays europeias, todos ávidos de agitação, de propostas imaginativas, mas falsas como as do pastel de bacalhau com queijo da serra ou letreiros de falsas lojas históricas para turista ver com datas afixadas também falsas, enquanto o verdadeiro comércio histórico, a começar por livrarias e alfarrabistas, são expulsos por empresários sem escrúpulos, gananciosos alicerçados na lei das rendas da senhora Cristas que tão bem serve os Medinas deste mundo na senda da descaracterização, no desenraizamento, na destruição do verdadeiro tecido urbano, substituindo a população local por turistas de curta duração mais os velhos reformados franceses que deixam de pagar impostos quando se mudam para Portugal, sem no entanto terem contribuído para os sistemas de saúde, de recolha do lixo, dos transportes públicos, de manutenção das ruas ou da segurança de que se servem, sobrecarregando todos os portugueses. Os políticos vão vendendo alegremente Portugal a retalho com a desculpa de aumentarem o emprego desqualificado e mal pago da criadagem que serve o turista.

A Islândia tem dado bons exemplos no passado, nomeadamente na defesa dos costumes e interesses nacionais. Prepara agora um imposto pesado sobre o turismo. Vejamos o que diz Thordis Gylfadottir, ministra do Turismo islandesa, como pudemos ler no ‘Diário de Notícias’:

“O sector, e todos nós, tem de ter cuidado para não se tornar uma vítima do próprio sucesso”. “Para isso, o governo tem em vista duas opções: por um lado, aumentar os impostos aplicados ao sector; por outro, bloquear por completo o acesso aos espaços mais populares do país. A ministra apela aos parceiros do governo e à indústria do Turismo para serem corajosos e lembra que algumas zonas simplesmente não têm capacidade para receber um milhão de turistas todos os anos”. “Se permitirmos estes números em terminadas áreas vamos destruir o que hoje as torna especiais – autênticas pérolas da natureza que fazem parte da nossa imagem e que nos ajudam a vender”.

Consideramos as propostas dos islandeses como extremamente acertadas, o mesmo se diria de Lisboa e Porto. O modelo de desenvolvimento do país não deve passar por vender o mesmo aos estrangeiros e a fomentar emprego desqualificado da criadagem. Deve passar pela qualificação, pela investigação de ponta, pelas invenções e patentes, pelas indústrias e serviços tecnológicos de altíssimo valor acrescentado, pela produção de produtos de luxo e de altíssima qualidade, deve passar pela inovação na produção de energia e na tecnologia.

O turismo deve ser apenas e só um complemento não massificado de altíssimo valor acrescentado, dirigido às classes mais elevadas e pequeno número, de forma a não descaracterizar e destruir as cidades expulsando os verdadeiros habitantes para a periferia, para a exclusão e miséria.

Ponham os olhos na Islândia.

1 5850

Na terça-feira da semana passada Jaime Nogueira Pinto preparava-se para fazer uma palestra sobre “Populismo ou Democracia: O Brexit, Trump e Le Pen”. O evento estava previsto para a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, na Av. de Berna, em Lisboa, e seria organizado pelo grupo “Nova Portugalidade” cujo presidente é Rafael Pinto Borges, jovem que não esconde a sua admiração por Salazar.

Uma Assembleia Geral de Alunos, com cerca de trinta alunos (!), convocada pela Associação de Estudantes em cima do acontecimento, e provavelmente composta de apaniguados da direcção da mesma Associação, votou uma moção propondo que não se atribuísse uma sala para a realização da palestra do pensador Nogueira Pinto, aliás um confesso admirador de Salazar. Segundo o próprio Nogueira Pinto afirmou, “a Direcção da FCSH da Universidade Nova de Lisboa, perante as ameaças da direcção da Associação de Estudantes, de orientação maoísta, decidiu suspender a Conferência que se ia realizar”.

O director da instituição é o professor Caramelo, que já tem levado demasiada pancada nos órgãos de comunicação social, do ministro Manuel Heitor e do próprio Presidente da República, para que nós nos preocupemos aqui com a sua eventual falta de espinha dorsal.

Os argumentos para a censura dos maoístas da Nova, para a destruição do debate livre, para a cocção sobre a liberdade de expressão estavam relacionados com “colonialismo, fascismo, que a palestra violava a Constituição, etc…”.

A questão para nós mais interessante é outra. As esquerdas encontraram uma fotografia do jovem Rafael Pinto Borges a depositar flores na campa de António Oliveira Salazar. Chamando imediatamente fascista ao jovem da Nova Portugalidade, acharam por bem afirmar que “coarctou-se a liberdade de expressão mas aquilo era organizado por fascistas”… como se a liberdade de expressão não fosse um direito absoluto.

Chegamos assim a Salazar. Basta um jovem depositar flores na campa de alguém que governou Portugal por mais de quarenta anos para imediatamente ter menos direitos do que os outros. A esquerda totalitária quer proibir a memória, o respeito devido aos grandes do passado, com os defeitos que possam ter tido no seu tempo, ou a oração pela sua Alma. O problema é que, com todos os seus defeitos, nomeadamente o seu totalitarismo, o Professor Doutor Salazar foi um governante excepcional e um estadista de grande vulto, um dos três estadistas do século vinte português onde se destaca à frente de El-Rei D. Carlos e do Professor Catedrático de Coimbra e também major Sidónio Paes.

Hoje em dia louva-se a educação do regime pós vinte e cinco de Abril, mas esquece-se a plêiade de excepcionais ministros da educação nacional escolhidos por Salazar e Caetano. Destaco Francisco de Paula Leite Pinto, brilhante cientista e engenheiro, Veiga Simão e Hermano José Saraiva. Salazar combateu radicalmente o analfabetismo em Portugal, mais ainda do que durante a monarquia e que o regime democrático apenas continuou sem acrescentar muito. Veja-se o quadro seguinte em que se mostram os números do analfabetismo desde 1890 até 2011. O número 1 corresponde a 1890 e seguem-se por décadas: 5 corresponde à década de trinta em que Salazar começou efectivamente a governar e 10 a 1981, primeiro dado da democracia. Salazar consegue reduzir o analfabetismo de 65% em 1920 para 25% em 1974.

Tabela do autor

O regime passa de uma população brutalmente analfabeta para uma pequena minoria constituída sobretudo por idosos que já não podiam regressar à escola. Afinal, a grande surpresa é esta: Salazar foi um paladino da educação. Note-se que Álvaro Cunhal conseguiu, enquanto preso, defender uma tese em Direito em que defendia teses opostas às preconizadas pelo regime. Hoje em dia, uma tese a defender Salazar seria simplesmente banida pelos caramelos do politicamente correcto.
Agradeço a conversa com António Brotas, antigo secretário de Estado do Ensino Superior, socialista, que me indicou estes factos e números.

Segundo o INE em 2010 o Metropolitano de Lisboa transportou 183 milhões de passageiros, em 2016 transportou 153 milhões. Apesar de abertura de mais estações e linhas como Moscavide, Encarnação e Aeroporto em 2012, mais 3.3 quilómetros de via, ou da abertura em 13 de Abril último da estação da Reboleira, o número de passageiros transportado tem caído face ao número de quilómetros e estações servidas pelo Metro de Lisboa.

Este fenómeno agravou-se drasticamente com o aumento dos preços de bilhetes e de passes desde os tempos dos Governos Passos Coelho, mas também não houve quaisquer melhorias significativas desde que Costa chegou ao poder, antes pelo contrário: em finais de 2016 deu-se uma invulgar crise com carências de bilhetes em todas as estações da rede, causando incómodos e transtornos inimagináveis aos utente, nomeadamente aos turistas que parece serem a galinha dos ovos de ouro para autarcas e governantes socialistas.

Vem isto a propósito de uma inspecção pela Autoridade da Mobilidade e Transportes feita após queixas de muitos cidadãos e de repetidas notícias na imprensa com um elevado número de notícias sobre degradação dos sistemas de segurança do Metro, nomeadamente nos sistemas de travagem das composições, degradação e antiguidade do material circulante, redução do material circulante devido a repetidas avarias que nunca se conseguem reparar, canibalização de locomotivas e carruagens para tirar peças para reparar as que ainda têm arranjo, avarias constantes, repetidas ou mesmo permanentes, das escadas rolantes, incluindo as das estações centrais mais movimentadas, como as da Baixa Chiado, ausência de apoio a cidadãos deficientes, nomeadamente com elevadores em mau estado, avariados, sem conservação, fechados e abandonados ou que nunca chegaram a entrar em funções, altos tempos de espera, composições superlotadas, atrasos constantes, sujidade e vandalismo.

Chegam agora os resultados dessa “inspecção”. A “autoridade” avisou que a iria realizar com alguma antecipação, o que começa por ser mau profissionalismo e até mesmo ridículo; anunciada para Dezembro, a 12, 14 e 18 do mesmo mês, a conclusão é surpreendente e seria motivo para profunda chacota se não fosse tão trágica para o cidadão que utiliza os transportes públicos em Lisboa: não há “insuficiências substanciais no atendimento ao cliente”, isto apesar de não haver bilhetes nas estações, de haver atrasos significativos, apesar da redução da velocidade do Metro de uns possíveis 76 km em boas condições para uns penosos 46 km hoje em dia – trinta anos mais tarde, o Metro anda trinta quilómetros mais devagar – apesar de um brutal aumento dos intervalos entre composições, apesar de apertos em horas de ponta nas estações periféricas, a inspecção acha que está tudo bem e que o problema é que “o contrato não é adequadamente objectivo, de forma a permitir a medição detalhada de indicadores de performance”. Acrescenta a “autoridade” que  “nem todas as obrigações de serviço público são quantificáveis ou mensuráveis”, o que “inviabiliza a precisa aferição de eventuais incumprimentos e aplicação de eventuais sanções/penalidades”.

A pergunta que se impõe é esta: se a autoridade da mobilidade e transportes não sabe qual é a quantificação ou mensuração das obrigações do serviço público, por que razão anunciou esta pretensa inspecção? Foi apenas uma manobra de marketing para fingir que existe e dar tempo a que as queixas se calassem? Foi uma manobra de encobrimento da péssima gestão do Metropolitano nos últimos anos?

Esta autoridade existe para definir o padrão, se não o faz, se anuncia inspecções, que deveriam ser feitas de surpresa, e depois tira conclusões branqueadoras quando a evidência salta aos olhos do contrário do que conclui, a questão que se impõe será: esta autoridade é mesmo um regulador independente ou é apenas mais um instrumento tutelado pelos mesmos governantes que tutelam o Metro? Fica a questão, o leitor que anda de Metro e sofre os horrores do que lá se passa, que tire as suas conclusões. Trinta milhões de passageiros ano tiraram as suas conclusões e passaram a usar outros meios, nomeadamente os automóveis, apesar de haver mais linhas e estações.

O produto interno bruto português em 2015 foi de 179.369,1 milhões de euros. Entre 2011 e 2015, anos de Governo de Passos Coelho, foram exportados cerca de 10.000 milhões de euros para offshores sem qualquer análise ou, aparentemente, cobrança pelo fisco. Essa dezena de milhar de milhões a dividir por cinco anos, admitindo uma saída uniforme de capitais, e a uma tributação média de 33%, corresponderia a cerca de 670 milhões de euros por ano de receita não cobrada pelo Estado em impostos. Essa receita não cobrada poderia ter reduzido em muito o défice, por duas razões: seriam capitais que não sairiam do PIB português, o que não é despiciendo, reduzindo o denominador dos cálculos; e, por outro lado, entrariam nas receitas do Estado, reduzindo por subtracção o défice ou a despesa pública.

Somar cerca de três mil e quinhentos milhões de euros às receitas do Estado em cinco anos teria tido um efeito extremamente benéfico na recuperação económica, na saída dos procedimentos por défice excessivo e teria mitigado a austeridade. Paulo Núncio, o secretário de Estado responsável pelo assunto, vem agora demitir-se de funções políticas no CDS, quando a sua responsabilidade perante o País supera largamente meras atribuições partidárias.

Seria conveniente esclarecer estas matérias com grande energia para evitar que situações semelhantes se repitam no futuro, nomeadamente para saber se a acção do governante serviu para beneficiar colaboradores directos, amigos, empregadores ou associados antigos ou actuais e, no caso de Paulo Núncio estar inocente de qualquer dolo, para limpar o seu bom nome que neste momento atravessa um momento muito negativo perante a opinião pública.

Felizmente, como diz Assunção Cristas, estas transferências, por parte do próprio Governo PSD-CDS, podem ser tributadas por doze anos, podendo ainda a vir a sê-lo até 2023, pelo menos. Foi responsável, essa norma; mas, a ser realizada pelo actual Governo, vai beneficiá-lo de sobremaneira, com a injecção possível de mais de três mil milhões de euros em impostos. Se essas verbas entrarem nos cofres do Estado, quase se cobre o défice anual actual.

O Governo anterior, por provável incompetência ou por outras razões em que não quero crer, deu assim mais um terrível tiro nos seus próprios pés e pode culpar-se a si próprio de grande inabilidade, sem necessidade nenhuma, logo numa altura em que centra a sua oposição numa questão de tricas de trocas de mensagens de telemóveis e no assunto mais ou menos irrelevante de saber se o ministro prometeu explicitamente ou não uma isenção de declaração de rendimentos, ministro que vai reduzindo o défice em números históricos e que muito se rirá se encaixar os impostos destas transferências por culpa do anterior Executivo. Simplesmente ridículo, é tempo de Passos Coelho passar a pasta a outro mais competente e mais bem acompanhado do que Paulo Núncio ou Maria Luís Albuquerque.

Curiosidade interessante

Sabe qual foi o crescimento económico em percentagem do PIB em 1962, 1972, 1975, 1982, 1992, 2002 e em 2012? Respectivamente: 10.53 (Salazar), 10.38 (Caetano), -5.10 (vários), 2.16 (Balsemão), 3.13 (Cavaco), 0,77 (Guterres e Barroso), -4.03 (Passos Coelho). Tire o Leitor as suas conclusões.

A direita portuguesa continua, infelizmente, muito mal dirigida. Enquanto Assunção Cristas tenta descolar do Governo de coligação de Passos Coelho e Paulo Portas, com pouco carisma, pouca habilidade e, sobretudo, sem grande clarividência intelectual, Passos Coelho continua a fazer oposição de forma agreste, ressentida, mais para as suas próprias hostes do que para o País. É aqui que está o busílis da questão.

Focar toda a oposição num assunto absolutamente menor demonstra falta de engenho, falta de capacidade, falta de preparação política e falta de inteligência. O foco da oposição deveria ser o problema autárquico que se aproxima. Deveria ter uma definição clara do que fazer nas cidades mais importantes, Lisboa e Porto, deveria apresentar um programa real, concreto, detalhado e bem escrito para as autarquias, deveria assumir candidatos fortes, não deixar o assunto de um Carreira qualquer mas assumir com clareza e coragem o plano para conquistar as autarquias mais importantes, além da maioria do voto popular e da maioria das câmaras do País. Gastar energias a atacar um ministro, um inábil político, mas extraordinário governante em termos de eficácia que, por sua mercê, ou por circunstâncias favoráveis, conseguiu um deficit inferior a 2.1% do PIB e um crescimento do mesmo PIB da ordem dos 1.4%, é um absurdo sem sentido.

Há assuntos muito mais prementes. Passos Coelho deveria afirmar-se pela positiva, por uma intervenção afectiva junto das populações, deslocando-se, apoiando os seus candidatos autárquicos. Tendo António Costa preso a funções governativas, seria uma oportunidade de se destacar, de estabelecer contactos directos, de criar carisma. Admito que seja tarde para isso, a governação que Coelho efectuou foi muito distante de muitos sectores da população.

Passos Coelho ganhou as últimas eleições ainda sob o efeito de ser primeiro-ministro em efectividade de funções, ainda sob o efeito de o povo julgar que merecia uma oportunidade de governar em tempo de vacas um pouco menos magras. Mas fixar-se no passado, insistir na tecla de que deveria ter sido ele a governar é um erro clamoroso. Umas eleições há dois anos já não deixam memória no eleitorado, as coisas não funcionam assim. Pouca gente, a não ser os apaniguados directos, manterá o sentido de voto nas autárquicas depois de anos de oposição revanchista, agressiva, tacticista, focada em chicana sobre minudências.

Sim, o senhor Centeno prometeu algo que não podia cumprir, os senhores bancários que escolheu para chefiar a caixa não queriam mostrar as declarações de rendimentos, provavelmente porque obtiveram fortunas escandalosas em ordenados principescos em detrimento de clientes e accionistas dos bancos por onde passaram, isso é claro, mas o mesmo assunto já morreu, Centeno prometeu e não cumpriu, meteu os pés pelas mãos com desculpas de mau pagador. Se tivesse dito logo que prometeu porque não conhecia a Lei de 83 e que depois verificou que não era possível manter a promessa porque nem o Presidente, nem o Tribunal Constitucional o deixavam, ninguém lhe levaria a mal a não ser a inépcia política. Centeno não é nem político, nem jurista, é um técnico competente que tirou Portugal do buraco. Usando técnicas que defendemos aqui mesmo durante os tempos de Passos Coelho e que ninguém se deu ao trabalho de pensar e seguir.

Passos Coelho poderia ter usado as mesmas técnicas, mas optou por receitas que se viam à partida condenadas. Hoje arrasta-se, lamenta-se, anuncia diabos que nunca virão, acusa, barafusta e arrasta a direita para uma derrota gigantesca nas próximas eleições. Ainda por cima ataca o Presidente Marcelo num dia para o elogiar no seguinte, e o Presidente Marcelo preferirá que o PSD sofra uma derrota estrondosa nas próximas eleições para substituir um líder do qual nunca gostou; por um lado, vai manter a sua tremenda influência política em tempos de ‘geringonça’, por outro lado o PSD virá a ter assim um líder mais inteligente e sério, como Rui Rio, no final dos anos de ‘geringonça’. Agora focar-se no diz-que-disse das declarações dos senhores da Caixa é fazer um favor ao PS, o povo está-se nas tintas para as declarações da Caixa e apenas vê políticos a fazer figuras tristes, acrescentando descrédito a uma classe e a uma direita que está completamente desacreditada e sem liderança. Até quando?

Conhecidos em todo o Mundo como auto-riquexós e na Tailândia como “tuk-tuks”, existem na China, Índia, Paquistão, Indonésia, Sri Lanka, Madagáscar, Tanzânia, Nigéria, Filipinas, El Salvador, Colômbia, Etiópia, Bangladesh, Camboja e Nepal, entre mais alguns países subdesenvolvidos. Residualmente existem 250 em Paris; uma experiência promovida por um indiano em Londres falhou estrondosamente na primeira década do século XXI. Em Itália não existem propriamente tuk-tuks, mas sim triciclos “Piaggio” para pequenos fins comerciais e para transporte em zona rurais e pobres. Este importante meio de comunicação dos países mais pobres, onde o tráfego é infernal, e a poluição catastrófica, chegou finalmente a Portugal.

Este tipo de transporte tem substituído o riquexó puxado a força humana a pé, e posteriormente a bicicleta, que nasceu na China.

Curiosamente, esta entrada no mercado português acontece ao mesmo tempo que Portugal tem descido do topo da lista dos países com maior índice de desenvolvimento humano da ONU, onde já figurou na casa da vintena e onde hoje figura a aproximar-se perigosamente da meia centena. Esta descida de posição no índice de desenvolvimento humano significa atraso relativo do nosso País face à maioria dos países desenvolvidos.

Não espanta assim que este meio de transporte selvagem, ruidoso, poluente, barato, próprio da pobreza e do subdesenvolvimento, tenha entrado em Portugal por mão dos mais destrutivos empresários, autênticos flibusteiros das grandes cidades, empresários da precariedade e do aproveitamento do que foi construído pelos nossos antepassados ao longo de milénios para exploração comercial sem criação de riqueza permanente ou valor acrescentado, nomeadamente na formação e qualificação, os empresários da indústria do turismo.

O riquexó a motor, como deveria ser chamado, uma vez que até temos palavras para o descrever, é uma praga que tem asfixiado Nova Deli, Carachi, Katmandu, La Paz, entre milhares de cidades do Oriente, África e América Latina. Muita legislação tem sido feita para combater o crime ecológico do riquexó a motor, nomeadamente na Índia, em que passaram a ser obrigados a circular a gás, medida mesmo assim muito pouco eficaz. No Sri Lanka foram proibidos os motores a dois tempos.

Nos Estados Unidos, já desde 2012, apesar de praticamente não existirem riquexós nesse país, foram proibidos os motores de combustão interna nestes veículos. Em 2013, os sistemas de carga rápida, a redução do peso das baterias de lítio e a sua substituição rápida nas estações de apoio permitiram que estes veículos com tracção eléctrica pudessem substituir sem qualquer inconveniente os veículos de combustão interna. Sendo leves, podem facilmente ter autonomias de 160 a 200 km, o que é mais do que suficiente para utilização turística; podem visitar as suas estações e substituir em dois ou três minutos as baterias por outras carregadas.

O ideal seria a proibição total destes veículos incomodativos, que entopem o trânsito, cujos condutores não respeitam o Código da Estrada, que incomodam a vida das pessoas nos bairros históricos e mesmo nas grandes vias de circulação, como por exemplo a ponte sobre o Tejo, e que são símbolos do subdesenvolvimento. Mas enquanto não desaparecem de vez é fundamental a proibição imediata dos riquexós a motor de combustão em todo o País e a sua substituição por motores eléctricos.

Entretanto, alguns partidários da cultura e do (sub)desenvolvimento à custa do turismo têm defendido os riquexós a motor como um modelo a seguir. Medina e Moreira de Lisboa e Porto estão de acordo nestas políticas, exultam com os milhões que encaixam devido a taxas e impostos, um desenvolvimento primitivo, que não qualifica o País, que deveria ser apenas complementar e não fundamental, como na Alemanha ou nos países nórdicos, um desenvolvimento que expulsa os indígenas pobres, típico desde modelo, do coração nobre das cidades entregando-as aos turistas ricos, matando as cidades e os países.

É apontado como sucesso o facto de os rapazes que conduzem as máquinas saberem inglês e terem excelentes qualificações! Um verdadeiro absurdo, esses rapazes e raparigas deveriam estar a usar as suas qualificações a fazer investigação em lugares permanentes em Universidades, a desenvolver projectos de empreendedorismo tecnológico, a desenvolver estudos em companhias modernas, nos gabinetes de juristas de empresas que exportam para todo o Mundo, entre milhares de outras ocupações qualificadas. Ter um doutorado em Direito ou Economia a conduzir um riquexó, sucessores dos desgraçados que na China os puxavam a pé, é um desperdício, é um crime, não é uma vantagem.

“E a tua tia sabes de que tem cara, de p., sabes o que é, uma mulher tão porca que f. com todos os homens e mesmo que tenha r. para f. deixa que lhe ponha a p. no c.”

Este é o excerto da polémica do livro “O Nosso Reino” de Valter Hugo Mãe dado a ler aos jovens de 13 anos do liceu Pedro Nunes, em Lisboa.

O comentário do comissário do Plano Nacional de Leitura, o poeta Fernando Pinto do Amaral, dado à Lusa, foi o seguinte:

“Não está em causa a sua qualidade literária, o que houve foi um problema de inserção na lista. O livro entrou no 3.º ciclo por lapso, porque foi escolhido para o secundário”.

O problema é que é a própria qualidade literária que está em causa aqui: o Mãe escreve mal e é pouco credível no que escreve, o Mãe não devia estar no Plano Nacional de Leitura, aliás uma fábrica para promover amigos e lhes vender os livros como pães.

O próprio Valter Hugo Mãe, pseudónimo do senhor Valter Hugo Lemos, residente em Vila do Conde e nascido em 1971 em Henrique de Carvalho, em Angola, publicou numa rede social o seguinte:

“Ver o meu romance, ‘o nosso reino’, reduzido a duas frases, e por duas frases julgado, é sintomático do tempo de sentenças sumárias em que vivemos. Opinar passou a ser uma espécie de chelique imediato em que a maioria dos opinantes não sabe o que está em causa; não sabe, por isso, o que está a dizer.”

O próprio Mãe não defende as suas duas frases! Ele apenas pensa que o livro devia ser lido na totalidade, o que demonstra que não deve estar muito feliz com as duas frases em particular. Ora é aqui que o Mãe se engana: não é preciso ler muito para ver que o texto é fraco. Como dizia o Oscar Wilde, “não é preciso beber a pipa toda para perceber que o vinho é mau”, e nesse ponto estou melhor acompanhado do que o senhor Lemos, ou Mãe, porque realmente a qualidade literária vê-se por duas frases, tal como um bom vinho se descobre através do primeiro aroma que nos sobe ao nariz.

Ninguém fala ou escreve assim. As vírgulas estão mal colocadas, falta um ponto de interrogação. Quem usa um forte palavrão numa frase, usa também, com grande prazer, um prazer escabroso e delirante, as palavras mais grosseiras que existem para os órgãos sexuais, quer os escreva em nome próprio, quer os escreva em nome de um homem boçal e primitivo, como parece ser o caso no livro em questão; e o Mãe fica-se pelas meias tintas, sem sequer ter a coragem de um Bocage, que assumia por inteiro o palavrão forte num contexto mais jocoso.

A liberdade de escrever qualquer lixo é um direito inalienável. A liberdade de ler o que nos apetece é um direito ainda mais premente. Se me obrigarem a mim ou aos meus rebentos a ler o Valter Hugo Mãe, mais os seus palavrões, protesto. Não por causa dos palavrões propriamente ditos, que são escabrosos, mas porque é má escrita e má literatura.

Eu leio o que quero, e não nego que alguma literatura é forte. Genet é forte mas não é lixo. Já tinha lido todo o Eça aos 13 anos, isto apesar de o primo Basílio resfolegar como um touro durante o acto sexual. O Gil Vicente é licencioso, mas deliciosamente licencioso. Já tinha lido o Bocage, o sério e o satírico, aos 12. Ai de quem me obrigasse aos treze anos a ler um Mãe qualquer, que é como quem diz uma das Marias ou um Sttau Monteiro… Chorei profundamente quando morreu o Cardoso Pires, foi o único escritor a cujo funeral fui, isto apesar dos poemas pindéricos ditos na biblioteca do palácio Galveias pelos habituais abutres da morte alheia, isto apesar de o Cardoso Pires ter coisas bem mais escabrosas, nomeadamente nas suas crónicas, do que o Mãe alguma vez há-de escrever, mas o Pires escrevia-as bem, irrepreensivelmente bem.

Tentei por diversas vezes ler o Mãe, devido a uma publicidade literária insidiosa; não consegui por falta de qualidade da escrita. Infelizmente a polémica não é pela fraca qualidade literária do Mãe, é por causa dos palavrões débeis mas escabrosos que o Mãe emprega na sua escrita. Perdeu-se o foco do que importa realmente: anda-se a ler Mãe e a esquecer Camões, Cardoso Pires, Pessoa, Régio, Aquilino e os outros milhares de escritores portugueses dignos desse nome. Como diria o Almada, morra o Mãe, pim!

Artur Anselmo de Oliveira Soares, presidente da Academia das Ciências, um dos responsáveis do Instituto de Lexicologia e Lexicografia, vem recomendar a revisão do chamado “acordo ortográfico de 1990”, um falso acordo que nunca entrou em vigor e que tem prejudicado gravemente a língua portuguesa e a cultura portuguesa. Um documento foi aprovado. Louvados sejam os autores.

Aquela que foi uma ideia voluntarista, precipitada, irreflectida e irresponsável, sobretudo da autoria de Malaca Casteleiro, um académico da mesma Academia, e que hoje nos poderia fazer escrever “arquiteta” em vez de “arquitecta” ou “espetador” em lugar de “espectador”, entre centenas de outras bárbaras incongruências, esquecendo a etimologia, a história, a tradição e o engenho que nos levou, por prática escrita, a escrever “pára” quando se conjuga o verbo parar em lugar de “para”, contrariando a quem interessa a língua, criando até confusões graves em tempos verbais como “jantamos” e “jantámos”, vai finalmente levar uma machada quase letal.

A Academia das Ciências assume que o falso acordo está profundamente errado, e nem sequer é na questão dos hífens, é mesmo nas consoantes mudas e acentuação. A língua é um corpo vivo e não são meia dúzia de académicos que depois querem fazer uns cobres a editar e a fazer prontuários e dicionários, que podem impor uma vontade putativamente erudita mas que aparentemente é mais própria do bestunto de analfabetos rústicos e primários do que de professores universitários cujo raciocínio deveria ser culto, etimológico, secundário e terciário, percebendo a raiz e a prática do Português escrito e falado pelos portugueses e pelos outros povos utilizadores da língua.

Os “Subsídios para o aperfeiçoamento do acordo ortográfico de 1990” são uma machadada no putativo acordo mas não são a sua sentença de morte. Sou de opinião que o fruto das mentes brilhantes dos académicos chefiados pelo Malaca devia pura e simplesmente ser expurgado do nosso quotidiano. O português deveria ser desinfectado dos dejectos académicos de 1990, a língua não é propriedade dos escassos destroços decrépitos da academia, uma instituição anquilosada e anacrónica, uma instituição que funciona ex cathedra, muitos deles já na altura sem discernimento para ajuizar devido a provectas idades e ao facto de já não produzirem investigação científica ou sequer estarem actualizados.

O novo contributo parece ser um sinal de renovação da academia, é um documento responsável, que quer estabelecer pontes entre dois campos em conflito, afirma-se equilibrado porque quer conciliar. Mesmo assim contou com os votos contra de seis académicos, o que é motivo para recordar o soneto do Bocage sobre os “Vadios” que sentavam os traseiros na Academia (segue na orthographia original):

Não tendo que fazer Apollo um dia

Às Musas disse: “Irmans, é beneficio

Vadios empregar, demos officio

Aos socios vãos da magra Academia!”

“O Caldas satisfaça à padaria;

O França d’enjoar tenha exercicio,

E o auctor do entremez do Rei Egypcio

O Pegaso veloz conduza à pia!”

“Va na Ulysséa tasquinhar o ex-frade:

Da sala o Quintanilha accenda as velas,

Em se junctando alguma sociedade!”

“Bernardo nenias faça, e cague nellas;

E Belmiro, por ter habilidade,

Como d’antes trabalhe em bagatellas!”

 

A direita conservadora portuguesa é, potencialmente, a maior força política portuguesa. Os portugueses, na sua esmagadora maioria, são conservadores, ainda são maioritariamente católicos, gostam de ordem e paz, gostam de estabilidade, são honestos, trabalhadores, pagam as dívidas e honram a sua palavra. Têm um gosto especial pela cunha e pelo nepotismo, que não consideram especialmente imoral, e toleram a corrupção endémica da classe política, que é uma emanação do próprio povo. Isto é especialmente manifesto nas autarquias de qualquer espectro partidário, do PCP ao CDS: as autarquias empregam clientes dos partidos e seus familiares. A direita apenas por inépcia dos seus dirigentes não ganha esmagadoramente todas as eleições. Cavaco Silva, aliás muito pouco dotado, demonstrou à saciedade esse facto.

Infelizmente, o português é muito pouco culto, lê pouco, o seu índice de leitura é dos piores da Europa, o que dificulta as suas escolhas políticas. Por outro lado, preza a normalidade e inveja fortemente a diferença quando esta é diferenciadora. Um jovem inteligente na escola é, no Portugal tradicional, invariavelmente alvo da chacota dos espertos jovens “normais”, isto é, dos menos dotados intelectualmente mas vivos e de piada fácil, que tudo fazem para reduzir o jovem mais dotado à sua insignificância e colocá-lo na norma. Isto tem a ver com o tradicional analfabetismo português. A alfabetização tem muito pouco tempo em Portugal: ainda nos anos 1960 era na casa dos 35%, depois de ter sido da ordem dos 90% na primeira república. Salazar fez um esforço notável na educação, escolhendo ministros de grande craveira intelectual, facto que é escondido pela esquerda ainda hoje, mas o analfabetismo demora séculos a sair do povo. Talvez dentro de cinquenta anos possamos dizer que estamos ao nível de uma Dinamarca ou Suécia.

Sabe-se que as escolhas são feitas por identificação. Passos Coelho, um ex-jovem transmontano nascido em Coimbra, por exemplo, soube, com inteligência intuitiva, identificar-se com os portugueses; a imagem é de um homem poupadinho, normal, vindo das berças, morador em Massamá, nos subúrbios, de origens rurais, pouco culto, pouco inteligente mas esperto, honrado, que honra os seus compromissos, uma espécie de burro (animal teimoso, determinado, trabalhador, parco e esperto). Viu-se que não é verdade, aliás na forma como descartou o seu mentor, Ângelo Correia, que apesar de alguma tontice era a melhor cabeça de que Passos dispunha no seu círculo. Ângelo Correia tem dois cursos superiores tirados a tempo em excelentes escolas, o Instituto Superior Técnico e o ISCTE, ambas em Lisboa, ao contrário de Passos Coelho, que acabou a sua licenciatura aos 35 anos numa Universidade sem ranking internacional.

Mas a metáfora do burro passou e ganhou as eleições a uma desgastada fera, a hiena selvagem que nunca dá descanso à sua presa, cujo modelo era o de um ditador de esquerda, uma espécie de autocrata com laivos paranóides na forma como tentou controlar tudo e todos, também com delírios de super-homem intocável, construtor de uma imagem que passou por fazer de si próprio uma espécie de intelectual, provavelmente para tentar fazer refutar a imagem manchada do seu percurso académico, construção que se tornou obsessiva com livros publicados, mestrados e inscrição num doutoramento que afinal, hoje em dia, não lhe valem de nada. Em Portugal, o burro honrado e poupadinho ganhou à hiena, ao “animal feroz”. Repare-se que Salazar foi, de certa maneira, a combinação das duas coisas, controlador e honrado; e mais: era extremamente culto e inteligente, qualidades que não existem nos dirigentes políticos partidários. Salazar foi, antes de tudo, uma águia.

O problema é que Passos Coelho é um homem sem programa. No caso de 2011, o seu programa foi escrito por outros, por um lado pela troika, por outro lado por figuras como Ângelo Correia e Eduardo Catroga, que já desapareceram do seu espectro. Hoje em dia navega à vista por contradição; é altura em que ser modesto, honrado e poupadinho não chega, é “poucochinho” para combater inimigos políticos melhor preparados, apesar de, também, medíocres.

A direita precisa de um programa, de uma teleologia, de um objectivo para Portugal, e essa mensagem não transparece, nem existe, no discurso de Passos Coelhos nem do PSD que, à deriva, faz oposição tacticista. A questão da redução da TSU é uma vergonha para Passos Coelho. O que vai dizer aos empresários, que diz que defende, precisamente os pequenos empresários, quando estes lhe cobrarem o facto de os ter apunhalado pelas costas? Para além da luta política de caserna, há o País. Passos Coelho demonstra que apenas está preocupado com o retorno ao poder a qualquer custo, mas não é assim que lá voltará.

1 2388

Foi com prazer que li a última edição do nosso Jornal. Apesar de Mário Soares ter falecido antes do fecho da edição, o jornal O Diabo ignorou olimpicamente o facto.

Mário Soares foi um dos fundadores do regime democrático pós vinte cinco de Abril de 1974. É um dos responsáveis pelo laxismo, pelo sistema corrupto, pelo nepotismo, deslumbramento e novo-riquismo do sistema putrefacto que acabou por tomar conta de Portugal. É certo que lutou contra os excessos pós revolucionários, mas o seu papel foi amplamente sobrevalorizado.

É hoje sobejamente conhecido que o Partido Comunista tirou o tapete a Vasco Gonçalves e que não tinha carta-branca do Partido Comunista da então União Soviética para tomar o poder em Portugal. Até a insuspeita trotskista Raquel Varela, historiadora, esclareceu esse facto na sua tese de doutoramento. O PCP nunca poderia avançar para a tomada do poder sem o apoio russo, nem nunca os americanos deixariam que isso acontecesse. Foram, aliás, os americanos que apoiaram Mário Soares e lhe deram argumentos musculados para este assumir a coragem que lhe é atribuída.

Soares sempre foi um homem incompleto, um laxista, que aparentemente nunca leu profundamente os dossiers. Soares era um homem que resolvia problemas e nunca pensou Portugal a longo prazo. Terá lido muito mas assimilado pouco, foi mais um leitor do que um actor cultural, terá tido amigos intelectuais mas nunca o foi por acção, terá pretendido ser por osmose, o que nunca é muito eficaz.

Por muito que se diga, Soares não tinha uma teleologia para o País, e nesse sentido não foi um estadista no sentido de um D. João II, de um Marquês, de um Fontes ou de um Passos Manuel. Tudo resultou de compromissos, acordos, leilões de postos e trocas, não como numa feira de gado mas como em negócios em que o povo português ficou sempre atrás dos interesses claros e menos claros dos políticos. São conhecidas as suas proximidades com os célebres negócios de Macau, as suas amizades com Savimbi, as suas amizades com Bettino Craxi, o corrupto e proscrito Craxi que Soares visitou no seu exílio na Tunísia, o mesmo Craxi que enterrou o partido socialista italiano. Era notória a amizade de Soares por Sócrates.

São também notórias as facadas que Soares deu nas costas políticas de Cavaco Silva enquanto este era primeiro-ministro, esquecendo a lealdade institucional que era devida pelo presidente a um chefe do governo eleito com maioria absoluta no parlamento. São demasiados “amigos” e demasiados atropelos à ética. Para Soares, o valor supremo é a “amizade” e não a ética. A amizade por canalhas, como Craxi ou Savimbi, deve ser reservada e não pública, mas Soares sempre exibiu essas amizades. Esqueceu que num homem de Estado é um homem de exemplo, o Estado não desaparece do homem ao cessarem funções públicas.

É assim natural que a morte de Soares seja um facto relativamente irrelevante para os leitores d’O Diabo que, com alguma clarividência, manteve o marajá do socialismo vivo mais uma semana à espera de alguma contenção e de uma reflexão menos apaixonada sobre um homem em quase tudo menor. Soares é aquilo a que se pode chamar “um homem sem estratégia”: tinha muita táctica, via a médio prazo mas nunca percebeu qual o lugar de Portugal no Mundo nem o modelo de desenvolvimento do País para o futuro.

Modelo que ainda está por fazer, hoje por força das circunstâncias, por os seus sucessores serem ainda piores, por manifesta falta de homens com perfil de estadista. Hoje até o medíocre António Costa é visto como um “génio político” face ao completamente nulo Passos Coelho. O próprio Paulo Portas é um tacticista que se retirou para ganhar uns dinheiros e o País está entregue aos herdeiros de Soares, o que não augura nada de bom para o futuro. Os próprios comunistas e bloquistas, que Soares combateu toda a vida, ganharam a guerra a longo prazo e derrotaram Soares em toda a linha, participando activamente do governo do país.

Qual é afinal o legado de Soares? Um índice de desenvolvimento humano miserável, muito abaixo do que já foi no final do século XX, cinquenta anos de corrupção, um País vendido ao estrangeiro, sem soberania nacional. Ninguém conta a verdadeira história no mito embrulhado por alguns “opinions makers” de que ‘Soares é Fixe’? O povo não engoliu as patranhas da comunicação social e ignorou o funeral do “pai da democracia” que esteve às moscas comparado com Eusébio Ferreira, Amália Rodrigues, Dr. Álvaro Cunhal, Doutor António Oliveira Salazar ou até o General Vasco Gonçalves e o Marechal Óscar Carmona. O povo fez bem, como bem fez O Diabo ao ignorar a morte agora irrelevante de quem já era um cadáver adiado.

CAPA

SIGA-NOS