Manuel Silveira da Cunha

Conhecidos em todo o Mundo como auto-riquexós e na Tailândia como “tuk-tuks”, existem na China, Índia, Paquistão, Indonésia, Sri Lanka, Madagáscar, Tanzânia, Nigéria, Filipinas, El Salvador, Colômbia, Etiópia, Bangladesh, Camboja e Nepal, entre mais alguns países subdesenvolvidos. Residualmente existem 250 em Paris; uma experiência promovida por um indiano em Londres falhou estrondosamente na primeira década do século XXI. Em Itália não existem propriamente tuk-tuks, mas sim triciclos “Piaggio” para pequenos fins comerciais e para transporte em zona rurais e pobres. Este importante meio de comunicação dos países mais pobres, onde o tráfego é infernal, e a poluição catastrófica, chegou finalmente a Portugal.

Este tipo de transporte tem substituído o riquexó puxado a força humana a pé, e posteriormente a bicicleta, que nasceu na China.

Curiosamente, esta entrada no mercado português acontece ao mesmo tempo que Portugal tem descido do topo da lista dos países com maior índice de desenvolvimento humano da ONU, onde já figurou na casa da vintena e onde hoje figura a aproximar-se perigosamente da meia centena. Esta descida de posição no índice de desenvolvimento humano significa atraso relativo do nosso País face à maioria dos países desenvolvidos.

Não espanta assim que este meio de transporte selvagem, ruidoso, poluente, barato, próprio da pobreza e do subdesenvolvimento, tenha entrado em Portugal por mão dos mais destrutivos empresários, autênticos flibusteiros das grandes cidades, empresários da precariedade e do aproveitamento do que foi construído pelos nossos antepassados ao longo de milénios para exploração comercial sem criação de riqueza permanente ou valor acrescentado, nomeadamente na formação e qualificação, os empresários da indústria do turismo.

O riquexó a motor, como deveria ser chamado, uma vez que até temos palavras para o descrever, é uma praga que tem asfixiado Nova Deli, Carachi, Katmandu, La Paz, entre milhares de cidades do Oriente, África e América Latina. Muita legislação tem sido feita para combater o crime ecológico do riquexó a motor, nomeadamente na Índia, em que passaram a ser obrigados a circular a gás, medida mesmo assim muito pouco eficaz. No Sri Lanka foram proibidos os motores a dois tempos.

Nos Estados Unidos, já desde 2012, apesar de praticamente não existirem riquexós nesse país, foram proibidos os motores de combustão interna nestes veículos. Em 2013, os sistemas de carga rápida, a redução do peso das baterias de lítio e a sua substituição rápida nas estações de apoio permitiram que estes veículos com tracção eléctrica pudessem substituir sem qualquer inconveniente os veículos de combustão interna. Sendo leves, podem facilmente ter autonomias de 160 a 200 km, o que é mais do que suficiente para utilização turística; podem visitar as suas estações e substituir em dois ou três minutos as baterias por outras carregadas.

O ideal seria a proibição total destes veículos incomodativos, que entopem o trânsito, cujos condutores não respeitam o Código da Estrada, que incomodam a vida das pessoas nos bairros históricos e mesmo nas grandes vias de circulação, como por exemplo a ponte sobre o Tejo, e que são símbolos do subdesenvolvimento. Mas enquanto não desaparecem de vez é fundamental a proibição imediata dos riquexós a motor de combustão em todo o País e a sua substituição por motores eléctricos.

Entretanto, alguns partidários da cultura e do (sub)desenvolvimento à custa do turismo têm defendido os riquexós a motor como um modelo a seguir. Medina e Moreira de Lisboa e Porto estão de acordo nestas políticas, exultam com os milhões que encaixam devido a taxas e impostos, um desenvolvimento primitivo, que não qualifica o País, que deveria ser apenas complementar e não fundamental, como na Alemanha ou nos países nórdicos, um desenvolvimento que expulsa os indígenas pobres, típico desde modelo, do coração nobre das cidades entregando-as aos turistas ricos, matando as cidades e os países.

É apontado como sucesso o facto de os rapazes que conduzem as máquinas saberem inglês e terem excelentes qualificações! Um verdadeiro absurdo, esses rapazes e raparigas deveriam estar a usar as suas qualificações a fazer investigação em lugares permanentes em Universidades, a desenvolver projectos de empreendedorismo tecnológico, a desenvolver estudos em companhias modernas, nos gabinetes de juristas de empresas que exportam para todo o Mundo, entre milhares de outras ocupações qualificadas. Ter um doutorado em Direito ou Economia a conduzir um riquexó, sucessores dos desgraçados que na China os puxavam a pé, é um desperdício, é um crime, não é uma vantagem.

“E a tua tia sabes de que tem cara, de p., sabes o que é, uma mulher tão porca que f. com todos os homens e mesmo que tenha r. para f. deixa que lhe ponha a p. no c.”

Este é o excerto da polémica do livro “O Nosso Reino” de Valter Hugo Mãe dado a ler aos jovens de 13 anos do liceu Pedro Nunes, em Lisboa.

O comentário do comissário do Plano Nacional de Leitura, o poeta Fernando Pinto do Amaral, dado à Lusa, foi o seguinte:

“Não está em causa a sua qualidade literária, o que houve foi um problema de inserção na lista. O livro entrou no 3.º ciclo por lapso, porque foi escolhido para o secundário”.

O problema é que é a própria qualidade literária que está em causa aqui: o Mãe escreve mal e é pouco credível no que escreve, o Mãe não devia estar no Plano Nacional de Leitura, aliás uma fábrica para promover amigos e lhes vender os livros como pães.

O próprio Valter Hugo Mãe, pseudónimo do senhor Valter Hugo Lemos, residente em Vila do Conde e nascido em 1971 em Henrique de Carvalho, em Angola, publicou numa rede social o seguinte:

“Ver o meu romance, ‘o nosso reino’, reduzido a duas frases, e por duas frases julgado, é sintomático do tempo de sentenças sumárias em que vivemos. Opinar passou a ser uma espécie de chelique imediato em que a maioria dos opinantes não sabe o que está em causa; não sabe, por isso, o que está a dizer.”

O próprio Mãe não defende as suas duas frases! Ele apenas pensa que o livro devia ser lido na totalidade, o que demonstra que não deve estar muito feliz com as duas frases em particular. Ora é aqui que o Mãe se engana: não é preciso ler muito para ver que o texto é fraco. Como dizia o Oscar Wilde, “não é preciso beber a pipa toda para perceber que o vinho é mau”, e nesse ponto estou melhor acompanhado do que o senhor Lemos, ou Mãe, porque realmente a qualidade literária vê-se por duas frases, tal como um bom vinho se descobre através do primeiro aroma que nos sobe ao nariz.

Ninguém fala ou escreve assim. As vírgulas estão mal colocadas, falta um ponto de interrogação. Quem usa um forte palavrão numa frase, usa também, com grande prazer, um prazer escabroso e delirante, as palavras mais grosseiras que existem para os órgãos sexuais, quer os escreva em nome próprio, quer os escreva em nome de um homem boçal e primitivo, como parece ser o caso no livro em questão; e o Mãe fica-se pelas meias tintas, sem sequer ter a coragem de um Bocage, que assumia por inteiro o palavrão forte num contexto mais jocoso.

A liberdade de escrever qualquer lixo é um direito inalienável. A liberdade de ler o que nos apetece é um direito ainda mais premente. Se me obrigarem a mim ou aos meus rebentos a ler o Valter Hugo Mãe, mais os seus palavrões, protesto. Não por causa dos palavrões propriamente ditos, que são escabrosos, mas porque é má escrita e má literatura.

Eu leio o que quero, e não nego que alguma literatura é forte. Genet é forte mas não é lixo. Já tinha lido todo o Eça aos 13 anos, isto apesar de o primo Basílio resfolegar como um touro durante o acto sexual. O Gil Vicente é licencioso, mas deliciosamente licencioso. Já tinha lido o Bocage, o sério e o satírico, aos 12. Ai de quem me obrigasse aos treze anos a ler um Mãe qualquer, que é como quem diz uma das Marias ou um Sttau Monteiro… Chorei profundamente quando morreu o Cardoso Pires, foi o único escritor a cujo funeral fui, isto apesar dos poemas pindéricos ditos na biblioteca do palácio Galveias pelos habituais abutres da morte alheia, isto apesar de o Cardoso Pires ter coisas bem mais escabrosas, nomeadamente nas suas crónicas, do que o Mãe alguma vez há-de escrever, mas o Pires escrevia-as bem, irrepreensivelmente bem.

Tentei por diversas vezes ler o Mãe, devido a uma publicidade literária insidiosa; não consegui por falta de qualidade da escrita. Infelizmente a polémica não é pela fraca qualidade literária do Mãe, é por causa dos palavrões débeis mas escabrosos que o Mãe emprega na sua escrita. Perdeu-se o foco do que importa realmente: anda-se a ler Mãe e a esquecer Camões, Cardoso Pires, Pessoa, Régio, Aquilino e os outros milhares de escritores portugueses dignos desse nome. Como diria o Almada, morra o Mãe, pim!

Artur Anselmo de Oliveira Soares, presidente da Academia das Ciências, um dos responsáveis do Instituto de Lexicologia e Lexicografia, vem recomendar a revisão do chamado “acordo ortográfico de 1990”, um falso acordo que nunca entrou em vigor e que tem prejudicado gravemente a língua portuguesa e a cultura portuguesa. Um documento foi aprovado. Louvados sejam os autores.

Aquela que foi uma ideia voluntarista, precipitada, irreflectida e irresponsável, sobretudo da autoria de Malaca Casteleiro, um académico da mesma Academia, e que hoje nos poderia fazer escrever “arquiteta” em vez de “arquitecta” ou “espetador” em lugar de “espectador”, entre centenas de outras bárbaras incongruências, esquecendo a etimologia, a história, a tradição e o engenho que nos levou, por prática escrita, a escrever “pára” quando se conjuga o verbo parar em lugar de “para”, contrariando a quem interessa a língua, criando até confusões graves em tempos verbais como “jantamos” e “jantámos”, vai finalmente levar uma machada quase letal.

A Academia das Ciências assume que o falso acordo está profundamente errado, e nem sequer é na questão dos hífens, é mesmo nas consoantes mudas e acentuação. A língua é um corpo vivo e não são meia dúzia de académicos que depois querem fazer uns cobres a editar e a fazer prontuários e dicionários, que podem impor uma vontade putativamente erudita mas que aparentemente é mais própria do bestunto de analfabetos rústicos e primários do que de professores universitários cujo raciocínio deveria ser culto, etimológico, secundário e terciário, percebendo a raiz e a prática do Português escrito e falado pelos portugueses e pelos outros povos utilizadores da língua.

Os “Subsídios para o aperfeiçoamento do acordo ortográfico de 1990” são uma machadada no putativo acordo mas não são a sua sentença de morte. Sou de opinião que o fruto das mentes brilhantes dos académicos chefiados pelo Malaca devia pura e simplesmente ser expurgado do nosso quotidiano. O português deveria ser desinfectado dos dejectos académicos de 1990, a língua não é propriedade dos escassos destroços decrépitos da academia, uma instituição anquilosada e anacrónica, uma instituição que funciona ex cathedra, muitos deles já na altura sem discernimento para ajuizar devido a provectas idades e ao facto de já não produzirem investigação científica ou sequer estarem actualizados.

O novo contributo parece ser um sinal de renovação da academia, é um documento responsável, que quer estabelecer pontes entre dois campos em conflito, afirma-se equilibrado porque quer conciliar. Mesmo assim contou com os votos contra de seis académicos, o que é motivo para recordar o soneto do Bocage sobre os “Vadios” que sentavam os traseiros na Academia (segue na orthographia original):

Não tendo que fazer Apollo um dia

Às Musas disse: “Irmans, é beneficio

Vadios empregar, demos officio

Aos socios vãos da magra Academia!”

“O Caldas satisfaça à padaria;

O França d’enjoar tenha exercicio,

E o auctor do entremez do Rei Egypcio

O Pegaso veloz conduza à pia!”

“Va na Ulysséa tasquinhar o ex-frade:

Da sala o Quintanilha accenda as velas,

Em se junctando alguma sociedade!”

“Bernardo nenias faça, e cague nellas;

E Belmiro, por ter habilidade,

Como d’antes trabalhe em bagatellas!”

 

A direita conservadora portuguesa é, potencialmente, a maior força política portuguesa. Os portugueses, na sua esmagadora maioria, são conservadores, ainda são maioritariamente católicos, gostam de ordem e paz, gostam de estabilidade, são honestos, trabalhadores, pagam as dívidas e honram a sua palavra. Têm um gosto especial pela cunha e pelo nepotismo, que não consideram especialmente imoral, e toleram a corrupção endémica da classe política, que é uma emanação do próprio povo. Isto é especialmente manifesto nas autarquias de qualquer espectro partidário, do PCP ao CDS: as autarquias empregam clientes dos partidos e seus familiares. A direita apenas por inépcia dos seus dirigentes não ganha esmagadoramente todas as eleições. Cavaco Silva, aliás muito pouco dotado, demonstrou à saciedade esse facto.

Infelizmente, o português é muito pouco culto, lê pouco, o seu índice de leitura é dos piores da Europa, o que dificulta as suas escolhas políticas. Por outro lado, preza a normalidade e inveja fortemente a diferença quando esta é diferenciadora. Um jovem inteligente na escola é, no Portugal tradicional, invariavelmente alvo da chacota dos espertos jovens “normais”, isto é, dos menos dotados intelectualmente mas vivos e de piada fácil, que tudo fazem para reduzir o jovem mais dotado à sua insignificância e colocá-lo na norma. Isto tem a ver com o tradicional analfabetismo português. A alfabetização tem muito pouco tempo em Portugal: ainda nos anos 1960 era na casa dos 35%, depois de ter sido da ordem dos 90% na primeira república. Salazar fez um esforço notável na educação, escolhendo ministros de grande craveira intelectual, facto que é escondido pela esquerda ainda hoje, mas o analfabetismo demora séculos a sair do povo. Talvez dentro de cinquenta anos possamos dizer que estamos ao nível de uma Dinamarca ou Suécia.

Sabe-se que as escolhas são feitas por identificação. Passos Coelho, um ex-jovem transmontano nascido em Coimbra, por exemplo, soube, com inteligência intuitiva, identificar-se com os portugueses; a imagem é de um homem poupadinho, normal, vindo das berças, morador em Massamá, nos subúrbios, de origens rurais, pouco culto, pouco inteligente mas esperto, honrado, que honra os seus compromissos, uma espécie de burro (animal teimoso, determinado, trabalhador, parco e esperto). Viu-se que não é verdade, aliás na forma como descartou o seu mentor, Ângelo Correia, que apesar de alguma tontice era a melhor cabeça de que Passos dispunha no seu círculo. Ângelo Correia tem dois cursos superiores tirados a tempo em excelentes escolas, o Instituto Superior Técnico e o ISCTE, ambas em Lisboa, ao contrário de Passos Coelho, que acabou a sua licenciatura aos 35 anos numa Universidade sem ranking internacional.

Mas a metáfora do burro passou e ganhou as eleições a uma desgastada fera, a hiena selvagem que nunca dá descanso à sua presa, cujo modelo era o de um ditador de esquerda, uma espécie de autocrata com laivos paranóides na forma como tentou controlar tudo e todos, também com delírios de super-homem intocável, construtor de uma imagem que passou por fazer de si próprio uma espécie de intelectual, provavelmente para tentar fazer refutar a imagem manchada do seu percurso académico, construção que se tornou obsessiva com livros publicados, mestrados e inscrição num doutoramento que afinal, hoje em dia, não lhe valem de nada. Em Portugal, o burro honrado e poupadinho ganhou à hiena, ao “animal feroz”. Repare-se que Salazar foi, de certa maneira, a combinação das duas coisas, controlador e honrado; e mais: era extremamente culto e inteligente, qualidades que não existem nos dirigentes políticos partidários. Salazar foi, antes de tudo, uma águia.

O problema é que Passos Coelho é um homem sem programa. No caso de 2011, o seu programa foi escrito por outros, por um lado pela troika, por outro lado por figuras como Ângelo Correia e Eduardo Catroga, que já desapareceram do seu espectro. Hoje em dia navega à vista por contradição; é altura em que ser modesto, honrado e poupadinho não chega, é “poucochinho” para combater inimigos políticos melhor preparados, apesar de, também, medíocres.

A direita precisa de um programa, de uma teleologia, de um objectivo para Portugal, e essa mensagem não transparece, nem existe, no discurso de Passos Coelhos nem do PSD que, à deriva, faz oposição tacticista. A questão da redução da TSU é uma vergonha para Passos Coelho. O que vai dizer aos empresários, que diz que defende, precisamente os pequenos empresários, quando estes lhe cobrarem o facto de os ter apunhalado pelas costas? Para além da luta política de caserna, há o País. Passos Coelho demonstra que apenas está preocupado com o retorno ao poder a qualquer custo, mas não é assim que lá voltará.

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Foi com prazer que li a última edição do nosso Jornal. Apesar de Mário Soares ter falecido antes do fecho da edição, o jornal O Diabo ignorou olimpicamente o facto.

Mário Soares foi um dos fundadores do regime democrático pós vinte cinco de Abril de 1974. É um dos responsáveis pelo laxismo, pelo sistema corrupto, pelo nepotismo, deslumbramento e novo-riquismo do sistema putrefacto que acabou por tomar conta de Portugal. É certo que lutou contra os excessos pós revolucionários, mas o seu papel foi amplamente sobrevalorizado.

É hoje sobejamente conhecido que o Partido Comunista tirou o tapete a Vasco Gonçalves e que não tinha carta-branca do Partido Comunista da então União Soviética para tomar o poder em Portugal. Até a insuspeita trotskista Raquel Varela, historiadora, esclareceu esse facto na sua tese de doutoramento. O PCP nunca poderia avançar para a tomada do poder sem o apoio russo, nem nunca os americanos deixariam que isso acontecesse. Foram, aliás, os americanos que apoiaram Mário Soares e lhe deram argumentos musculados para este assumir a coragem que lhe é atribuída.

Soares sempre foi um homem incompleto, um laxista, que aparentemente nunca leu profundamente os dossiers. Soares era um homem que resolvia problemas e nunca pensou Portugal a longo prazo. Terá lido muito mas assimilado pouco, foi mais um leitor do que um actor cultural, terá tido amigos intelectuais mas nunca o foi por acção, terá pretendido ser por osmose, o que nunca é muito eficaz.

Por muito que se diga, Soares não tinha uma teleologia para o País, e nesse sentido não foi um estadista no sentido de um D. João II, de um Marquês, de um Fontes ou de um Passos Manuel. Tudo resultou de compromissos, acordos, leilões de postos e trocas, não como numa feira de gado mas como em negócios em que o povo português ficou sempre atrás dos interesses claros e menos claros dos políticos. São conhecidas as suas proximidades com os célebres negócios de Macau, as suas amizades com Savimbi, as suas amizades com Bettino Craxi, o corrupto e proscrito Craxi que Soares visitou no seu exílio na Tunísia, o mesmo Craxi que enterrou o partido socialista italiano. Era notória a amizade de Soares por Sócrates.

São também notórias as facadas que Soares deu nas costas políticas de Cavaco Silva enquanto este era primeiro-ministro, esquecendo a lealdade institucional que era devida pelo presidente a um chefe do governo eleito com maioria absoluta no parlamento. São demasiados “amigos” e demasiados atropelos à ética. Para Soares, o valor supremo é a “amizade” e não a ética. A amizade por canalhas, como Craxi ou Savimbi, deve ser reservada e não pública, mas Soares sempre exibiu essas amizades. Esqueceu que num homem de Estado é um homem de exemplo, o Estado não desaparece do homem ao cessarem funções públicas.

É assim natural que a morte de Soares seja um facto relativamente irrelevante para os leitores d’O Diabo que, com alguma clarividência, manteve o marajá do socialismo vivo mais uma semana à espera de alguma contenção e de uma reflexão menos apaixonada sobre um homem em quase tudo menor. Soares é aquilo a que se pode chamar “um homem sem estratégia”: tinha muita táctica, via a médio prazo mas nunca percebeu qual o lugar de Portugal no Mundo nem o modelo de desenvolvimento do País para o futuro.

Modelo que ainda está por fazer, hoje por força das circunstâncias, por os seus sucessores serem ainda piores, por manifesta falta de homens com perfil de estadista. Hoje até o medíocre António Costa é visto como um “génio político” face ao completamente nulo Passos Coelho. O próprio Paulo Portas é um tacticista que se retirou para ganhar uns dinheiros e o País está entregue aos herdeiros de Soares, o que não augura nada de bom para o futuro. Os próprios comunistas e bloquistas, que Soares combateu toda a vida, ganharam a guerra a longo prazo e derrotaram Soares em toda a linha, participando activamente do governo do país.

Qual é afinal o legado de Soares? Um índice de desenvolvimento humano miserável, muito abaixo do que já foi no final do século XX, cinquenta anos de corrupção, um País vendido ao estrangeiro, sem soberania nacional. Ninguém conta a verdadeira história no mito embrulhado por alguns “opinions makers” de que ‘Soares é Fixe’? O povo não engoliu as patranhas da comunicação social e ignorou o funeral do “pai da democracia” que esteve às moscas comparado com Eusébio Ferreira, Amália Rodrigues, Dr. Álvaro Cunhal, Doutor António Oliveira Salazar ou até o General Vasco Gonçalves e o Marechal Óscar Carmona. O povo fez bem, como bem fez O Diabo ao ignorar a morte agora irrelevante de quem já era um cadáver adiado.

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Mário Soares faleceu, e infelizmente a imprensa portuguesa teve tempo para preparar aquilo que na gíria se chama de “obituários futuros”. É sabido que todos os idosos com alguma relevância já têm obituários prontos nos jornais. É uma tarefa de investigação e de compilação que se costuma dar a estagiários quando entram nos jornais. Podemos chamar-lhe uma espécie de praxe. Os mais talentosos podem escrever boas peças, geralmente contrariados, que emergem algumas vezes muitos anos depois, não assinadas. Homens como Adriano Moreira, Mário Soares, têm obituários à sua espera há muitos anos. Outros provavelmente já terão também o seu obituário: Manuel Alegre, Cavaco Silva, Ramalho Eanes, Jorge Sampaio, apesar de ainda aparentemente vigorosos, terão provavelmente o seu obituário pronto algures nos jornais ditos de referência. O obituário futuro é algo que poderá chocar o leitor menos familiarizado, mas é um instrumento útil que poupa muito tempo e trabalho, sobretudo se o destinatário tem a pouca decência, segundo o editor em causa, de morrer em cima do fecho da edição!

Mário Soares não seria excepção. Neste caso, o seu estado de saúde com 26 dias num hospital em grave condição, deu tempo a todo o gato-sapato para escrever e preparar a morte do antigo presidente da república. O próprio Marcelo Rebelo de Sousa, escassos segundos após o anúncio da morte de Soares, entra em directo nas televisões com um discurso de quatro minutos, que são ainda umas folhas A4 escritas, um discurso preparado e elaborado e não uma improvisação tão ao seu estilo, em que comentava, é o termo, a morte de Soares.

Pior ainda, a hora da morte de Soares, pelas três e pouco da tarde, é muito anterior ao fecho das edições dos jornais e dos telejornais, o que dá imenso tempo de coligir toda a informação e preparar entrevistas, alinhar imagens de arquivo, alinhar convidados. É caso para dizer que, para jornalistas e comentadores, Soares “foi fixe” até à última hora.

Dir-se-ia que a morte de Soares foi preparada meticulosamente para preparar uma espécie de mito. Uma doença que dá a entender o fim próximo, vinte e seis dias de preparação, que até deu descanso na altura de Natal e de Ano Novo, e um falecimento conveniente a um Sábado à tarde enquanto António Costa anda na Índia a oferecer a entrada na UE aos indianos sediados no Reino Unido através de Portugal.

O corolário desta preparação meticulosa, dir-se-ia preparada por uma agência de comunicação daquelas que dominam a cena mediática portuguesa devido à preguiça jornalística portuguesa, é a enxurrada Soares nos meios de comunicação. Ele é o Soares e a religião, ele é os três erros de Soares, ele é Soares e a comida (!), ele é o Soares e o Panteão, ele é o Soares visto por este e aquele, ele é o Soares em fotos, ele é o Soares em nove histórias, ele é o Soares em fato de banho, até o Miguel Esteves Cardoso não faltou à chamada e escreveu umas banalidades do tipo “ele deu-nos tudo”; material não falta, Soares não era esquivo e deixou-se entrevistar e fotografar à exaustão, material para meses de televisão e jornais, material enunciado por todos os melhores amigos do defunto. São notas de rodapé dizendo “corpo de socialista atravessa Lisboa”, como se corpos de socialistas não atravessassem Lisboa todos os dias…

Durante muitos dias não houve mais nada, não houve notícias, não houve mundo, até o próprio Guterres, Secretário-Geral da ONU, aparece para falar não da Síria, em que mais um atentado matou cinquenta num mercado qualquer sem interesse, mas de Mário Soares, numa declaração interminável, como todas as declarações de Guterres. Sampaio da Nóvoa, soarista tardio, confidencia em tom de contragosto perante milhões de telespectadores as suas memórias, escassas, como se fossem segredos de Estado; Passos Coelho, visivelmente enjoado com o assunto, lá alinha umas banalidades; Cavaco, provavelmente aliviado por ainda cá estar enquanto o seu arqui-inimigo já foi, explica que não é altura de falar de divergências. Enfim, todos têm de aparecer em bicos dos pés nas televisões. É tempo de desligar a televisão portuguesa e ler um bom livro ou ir ao cinema, ou apreciar um bom espectáculo.

Soares não faz falta nenhuma porque já cá não estava. Teve o seu tempo e o seu ciclo. O seu corpo desligou, que vá em paz.

A feira de Santos Silva

O ministro Santos Silva, aquele que gostava de malhar na direita, agora responsável dos negócios estrangeiros, classificou a concertação social como se fosse uma feira de gado. Tem razão, aquilo parece uma negociação de feira de gado. Os negociantes estão todos lá, mas o gado, esse, o gado, a moeda de troca e a mercadoria, somos todos nós, os Portugueses.

É assim que os políticos tratam aqueles que devem servir, como gado do qual os negociantes estão, como donos da feira, na concertação social a trocar por benesses para as cabeças que representam. Vergonhoso e pouco diplomático.

Passos Coelho

A situação no PSD está cada vez pior. Passos Coelho faz uma mensagem de Natal vergonhosa, em que afirma que está por aí para anunciar catástrofes e tempestades, que o Diabo (não somos nós, o Jornal, é mesmo o Demo) virá aí. Entretanto não se descose com um candidato forte a Lisboa para desalojar a clique socialista que usa a cidade a seu belo prazer para ir fazendo negócios expulsando os lisboetas da sua cidade a troco dos cifrões trazidos pelos turistas.

Passos Coelho terá de dar o lugar a outro. Não tem a simpatia do eleitorado, não tem rumo nem estratégia, navega à vista e a sua alma gémea Maria Luís, criatura antipática, desagradável, todos os dias dá tiros nos pés, desmentindo números que Bruxelas já validou, acusando o governo de falsificar os resultados e parecendo que deseja que o País se afunde apenas porque já não faz parte do poder. Marcelo Rebelo de Sousa já percebeu que com estas reses a feira de gado não está completa, para usar a metáfora de Santos Silva, para além do facto de Marcelo não suportar a dupla Coelho-Albuquerque, que anteriormente o tentou impedir de concorrer a presidente, tendo-lhe inclusivamente chamado de “catavento político”. Passos Coelho é aquilo que se chama uma má rês política, e ainda por cima tendo o omnipotente Marcelo contra, pode-se dizer que está marcado para abate rápido.

É tempo de regressar à Social-Democracia, preencher o espectro político ao centro, agora que o PS se encostou à extrema-esquerda, e ganhar as eleições com simpatia, com carisma, com novidade e esperança. José Eduardo Martins, ou outro qualquer, até o rato Mickey, já seriam melhores do que Pedro Passos Coelho.

Soares

É triste ver a feira instalada à porta do hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, onde Mário Soares tem padecido o que podem ser os seus últimos dias. Boletins clínicos diários para um velho cavalo cansado de muitas batalhas não fazem sentido. Soares está reformado da política, já vivia num outro mundo, um mundo ausente deste. O circo mediático não faz sentido e devia-se respeitar a vida, a privacidade e o desgosto da família nesta situação. Trinta jornalistas à porta de um hospital não adiantarão um segundo se houver alguma notícia favorável ou negativa no estado do antigo presidente. É a continuação da feira, mas na variante de feira de papagaios a tentar competir pela plumagem mais vistosa, uma vez que o que dizem é apenas uma repetição do que o dr. Barata, o porta-voz do hospital, vai, laconicamente, informando.

A propósito da edição por um semanário de um livro de Simon Sebag Montefiore, “A Corte do Czar Vermelho”, um livro excelente, como todo o trabalho notável de Montefiore, vem Francisco Louçã afirmar no ‘Expresso’:

[Francisco Louçã] sublinha que só a esquerda “foi capaz de combater o colonialismo francês na Argélia, o colonialismo português em Angola e Moçambique, as ditaduras de Portugal, Espanha e Grécia, bem como rejeitar o estalinismo e a destruição que provocou”. No debate ideológico, diz a concluir, “a esquerda que tem esse nome, tem uma força muito grande, que é simplesmente a de ter dito e ter feito, e lutar em todas as circunstâncias pelas liberdades essenciais do ser humano. As ideias fortes da esquerda são as ideias da liberdade e é isso que constitui o seu património”.

Ou seja, Francisco Louçã, na sua dogmática visão do mundo, vem afirmar que Estaline não seria de esquerda! Pior, foi a esquerda que combateu Estaline e rejeitou-o, bem como a destruição que provocou.

Quem ler Louçã e não tenha uma dimensão crítica da História, poderia até pensar que Estaline não seria de esquerda e que a “verdadeira” esquerda, a dos trotskistas, entenda-se, combateu as ditaduras, teria assim uma força muito grande, um património, nas suas próprias palavras.

Mas este parágrafo encerra demasiadas contradições. Quem combateu contra Portugal em Angola e Moçambique – Louçã esquece a Guiné, não se sabe bem porquê – foram movimentos pagos pelos russos (à mistura de chineses e americanos), herdeiros directos de Estaline, e não a meia dúzia de trotskistas que foram purgados pelo ditador na Rússia. Pior, quem apoiou directamente o regime de Angola foram os cubanos, que chegaram a enviar tropas, e não me parece que os cubanos de Fidel Castro fossem trotskistas. Por outro lado, não parece que tenha restado muita liberdade nos países em causa.

As esquerdas nunca lutaram pelas liberdades. Estaline, que para todos os efeitos era o clímax de qualquer ideia de esquerda, nunca lutou pela liberdade, lutou pelo seu poder, pelo poder da Rússia soviética e, apesar de combater o Nacional-socialismo de Hitler, substituiu na Europa de Leste um reino de terror por outro reino de terror, muito distante da liberdade apregoada por Louçã. Por outro lado, o próprio Trotsky, enquanto teve poder, nunca lutou pela liberdade, lutou isso sim pela “ditadura do proletariado” que levou a centenas de milhares de mortos, ainda no seu tempo enquanto chefe e fundador do exército vermelho, culminando o seu regime com o apogeu de Estaline, cujo reinado se deve em grande medida à meticulosa preparação de Trotsky, antes de este último cair em desgraça, bem entendido.

Quem combateu os regimes totalitários foram as esquerdas estalinistas, os partidos comunistas ortodoxos. Os chamados trotskistas nunca passaram de um punhado folclórico de barbudos desgrenhados, com a louvável excepção capilar do próprio Louça com o seu ar bem barbeado de eclesiástico e os seus dogmas proferidos com ar severo mas que, depois de analisados, são apenas uma espécie de propaganda contraditória e sem nexo.

Afirmar que as esquerdas defendem a liberdade é meter demasiada esquerda num saco muito pequeno. A não ser que Louçã esteja a elogiar os sociais-democratas. Já deve ter faltado mais…

A Câmara de Lisboa prepara-se para entregar à “Órbita” a gestão e fornecimento de equipamento para o sistema de bicicletas partilhadas. São 16.400 euros por bicicleta, cento e quarenta docas, ou postos, e 1.410 bicicletas. O contrato dura oito anos, os custos directos previstos são de 23 milhões de euros mas, no final, com custos financeiros, a Câmara de Lisboa vai ter um custo equivalente de pelo menos 30 milhões de euros, isto numa cidade com declives intensos e orografia inimiga da bicicleta.

O passe anual custará ao lisboeta 36 euros, isto segundo o Jornal de Negócios. A “Órbita” arrecada os vinte e três milhões à cabeça, a Câmara tratará de recolher as verbas dos passes, fará a gestão dos clientes e tentará rentabilizar o negócio. Segundo a Câmara, há perspectivas de obter lucro, ou pelo menos de compensar o investimento. Note-se que os contratos de publicidade para divulgar o sistema ainda não estão assinados, podendo somar mais uns milhões de euros aos custos do projecto. Entretanto, a gestão dos clientes e do sistema não foi contabilizada nos 23 milhões. Custará certamente muito dinheiro, podendo também somar mais uns milhões aos custos estimados inicialmente. Quem usar as bicicletas esporadicamente pagará 10 euros por dia, quem pagar passe pagará 36 euros por ano.

É altura de perceber como este negócio poderá dar dinheiro. Se começarem a ser um sucesso de subscrições e se cada bicicleta tiver utilizadores diários em sistema de passe anual, a receita dos oito anos por utilizador será de quatrocentos mil euros, ou seja, se a Câmara espera ganhar dinheiro com este sistema (pelos 23 milhões), terá de ter 56 utilizadores por bicicleta a pagar passe!

O pesadelo logístico de gerir um sistema de 140 postos, cada qual com dez bicicletas, é de loucura total. Imagine-se que os utilizadores pretendem, de manhã, circular da periferia para o interior de Lisboa. Pelas sete e meia da manhã já não haverá bicicletas nos postos da periferia, todas estarão concentradas no interior, com a chegada dos madrugadores aos seus lugares de trabalho. Por consequência, todas as bicicletas ficarão bloqueadas no centro da cidade aos primeiros minutos da hora de ponta e os subscritores (terão de ser 56 por bicicleta para compensar o investimento!) ficarão a chupar no dedo, esperando desesperadamente que os turistas resolvam, pelas 9h30m da manhã, que é quando começam a sair dos hotéis, dar uma voltinha até ao exterior da cidade, tipo regresso à Pontinha, em massa, com as mil quatrocentas e dez bicicletas do sistema! Ou isso ou então a Câmara terá de ter um sistema de camiões para recolocar as dez bicicletas de cada posto nas periferias, isto em plena hora de ponta. Camiões que ficariam por mais uns milhões e que contribuiriam para a poluição da cidade, tendo depois de voltar ao interior para recarregar as mesmas bicicletas para a periferia depois da segunda vaga de ciclistas ter deixado os empedernidos (e masoquistas) ciclistas nos seus lugares de trabalho. Repare-se que teríamos de ter mais de cinquenta mil ciclistas a querer usar o sistema de 1.410 bicicletas por dia. Isto quando há registados menos de 2.000 ciclistas nas federações de ciclismo amador e turístico em todo o País.

Por outro lado, a utilização por turistas choca com o uso regular, pois o movimento dos turistas ciclistas não os leva para os locais onde serão necessárias para quem as usa para deslocações pendulares. Quando a rapaziada sair do trabalho na Av. da Liberdade e Avenidas Novas, nessa altura vão estar as bicicletas todas nos Jerónimos e no Museu dos Coches e na marginal à beira rio, a não ser que haja o tal ridículo sistema de camiões a transportar bicicletas por toda a cidade…

Todo o negócio está mal contado, é uma negociata de dezenas de milhões de euros atirados positivamente à rua. O número de bicicletas é esquizofrénico e não corresponde a qualquer modelo pensado no cidadão. Quando há milhares de lisboetas a morrer com fome e doenças, idosos sem assistência, isolados, expulsos das suas casas para promover o turismo selvagem, escolas a cair ou sem condições, a Câmara resolve atirar para a rua dezenas de milhões de euros, espoliados aos lisboetas, como através da famosa e vergonhosa taxa de protecção civil, para uma negociata estranha e muito pouco justificada sob as palmas acéfalas de tontos cegos por patranhas ecologistas.

Noruega, Austrália, Suíça, Dinamarca e Holanda são, por ordem, os cinco países mais desenvolvidos do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas. Espanha vem em vigésimo sexto lugar, um lugar que Portugal já ocupou antes dos governos de Sócrates e Passos Coelho: o nosso País vem agora na miserável posição quadragésima terceira, atrás de países como Arábia Saudita, Polónia, Malta, Chipre, Estónia ou Qatar, que partiram muito atrasados face a nós, e Cuba vem em sexagésimo sétimo.

Dos cinco primeiros do Mundo, quatro são monarquias, sendo a Suíça a única não monárquica; mas, não sendo uma verdadeira república, não tem um chefe de Estado republicano convencional, é governada por um conselho federal de sete membros, saídos dos cantões, e cuja estrutura é descendente directa das estruturas colegiais de governo saídas do Império Sacro Germânico em 1291. O “presidente” da Suíça é rotativo dentro do conselho federal.

O Bloco de Esquerda votou no Parlamento português um voto de pesar pelo tirano e assassino Fidel Castro. Os argumentos são variados, ele é o sistema de saúde, ele é a educação, ele é o bem-estar, mas recusou-se a levantar o traseiro das cadeiras quando o Chefe de Estado de Castela, entre outras nações de Espanha, se dirigiu ao Parlamento português a convite do mesmo Parlamento e do Presidente da república. Se compararmos o índice de desenvolvimento humano, o argumento do bem-estar é falacioso, mas o problema não é esse, é o da cortesia devida a um convidado que é de facto o Chefe de Estado de uma democracia desenvolvida.

É uma falta de respeito pelos povos das Espanhas, ainda que sob o domínio centralista de Castela, que são governadas por um Rei, escolha dos súbditos, através de uma constituição votada em cortes, para governar. Mesmo no absurdo do tempo de guerra entre Portugal e Castela, os generais e governantes se cumprimentavam no campo de batalha, mesmo em tempo de guerra se escreviam cartas amistosas entre reis e parentes, quando preocupações de saúde afectavam os governantes vizinhos. Mesmo em tempos de guerra napoleónica, particularmente feroz, os generais em confronto se escreviam, e até chegaram a enviar médicos pessoais para tratar oficiais inimigos. No entanto, as restantes nações de Espanha não são agora nossas inimigas, nem esse argumento faz sentido hoje.

Não se levantar o traseiro da cadeira para cumprimentar um Chefe de Estado é de uma arrogância ideológica miserável, de uma falta de educação peregrina, e denota o ódio visceral, dir-se-ia criminoso, que as esquerdas têm a quem não é da sua cor, é um acto de racismo ideológico; não importa democracia ou ditadura, apenas importa a ideologia ser semelhante. Ter pesar por assassinos e criminosos, como Fidel, está bem, seria recebido de braços abertos e vivas se tivesse vindo ao Parlamento; mas o supremo governante de Espanha, quarenta lugares acima de Cuba no índice de desenvolvimento humano, não merece uma “alevantadura” da cadeira.

Donde se conclui que para o Bloco de Esquerda uma Noruega, Dinamarca, uma Austrália ou uma Holanda não serão os modelos, mas Cuba é o grande exemplo a seguir, para baixo! Viva a revolução cubana cujo modelo social de sessenta anos nos fará descer até ao lugar 70 do índice de desenvolvimento humano!

CAPA

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