Opinião

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RENATO EPIFÂNIO

A ocasião mais significativa em que me cruzei com Mário Soares ocorreu em 2011, na Academia das Ciências de Lisboa. O MIL: Movimento Internacional Lusófono ia entregar o Prémio Personalidade Lusófona a Ximenes Belo e, sem que estivesse à espera disso, Mário Soares apareceu na sessão. Adriano Moreira, então Presidente da Academia das Ciências, convidou-o para a mesa de honra.

Quando chegou a minha vez de intervir na sessão, justificando a entrega do Prémio, olhei para Mário Soares e tive um momento de hesitação. No meu discurso, enaltecia longamente a personalidade de Ximenes Belo e, mais longamente ainda, a personalidade do povo timorense. Como então fiz questão de frisar, aquele prémio era entregue a Ximenes Belo e, na sua pessoa, a todo o povo timorense: no essencial, por ter conseguido resistir à brutal ocupação indonésia e, depois da libertação, por se ter integrado na CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, reafirmando assim a sua condição de país irmão lusófono.

A par disso, tecia também algumas considerações sobre todo o processo de descolonização. E seria hipócrita não o fazer: a ocupação indonésia de Timor-Leste não aconteceu no vazio. Foi, ao contrário, a última etapa de um processo catastrófico que se iniciou com uma descolonização nada exemplar, que propiciou inclusivamente uma guerra civil. E de pouco vale alegar aqui que as guerras civis que ocorreram em Timor-Leste e noutros países então descolonizados foram uma consequência da Guerra Fria (entre os Estados Unidos da América e a União Soviética).

Decerto, isso é verdade. Simplesmente, a Guerra Fria já existia muito antes do processo da descolonização. A sua existência deveria antes ter levado a um cuidado redobrado, não a uma descolonização apressada, para dizer o mínimo. Feita como foi, o resultado foi catastrófico – e não apenas em Timor-Leste. Países como Angola e Moçambique ainda hoje se procuram recompor de uma guerra civil particularmente sangrenta. E nos países em que não houve propriamente uma guerra civil, logo se instauraram ditaduras de partido único, o que não deixa de ser também tragicamente irónico quando se fala de um processo de descolonização que pretendia ser um processo de libertação. Face a tudo isso, insistir na tese da “descolonização exemplar” constitui uma piada de (muito) mau gosto.

Sendo que, no caso de Timor-Leste, há responsabilidades acrescidas. No texto que levava escrito, falava disso, aludindo até a uma tristemente célebre passagem de uma obra de Mário Soares (“Portugal amordaçado”, 1973), em que se caracterizava Timor-Leste como “uma ilha indonésia que não tem grande coisa a ver com Portugal”. No meu discurso, porém, preferi passar por cima dessa passagem. Preferi pensar que a presença de Mário Soares na sessão tinha sido uma forma de o próprio se retractar dessa página mais negra dessa sua obra, senão mesmo de toda a sua vida. Na hora da sua morte, prefiro pensar que foi isso mesmo que aconteceu. É mais do que tempo de virarmos, todos, essa página.

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RENATO EPIFÂNIO

Comecemos, então, pelo conceito de cultura de Fidelino de Figueiredo – nas suas palavras: “Cultura é o conjunto de ideais condutores, o sistema de juízos e valores, de opções e preferências, que orientam uma época; é a imagem que cada homem civilizado se forma do mundo e do passado da sua espécie, e o plano de actuação futura que se reserva” (“Menoridade da Inteligência”, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1933, pp. 50-51).

Ainda segundo Fidelino de Figueiredo, esse “conjunto de ideias condutores”, que se consubstancia, geração após geração, num “plano de actuação futura”, não se faz necessariamente, nem sequer idealmente, por renegação do passado, antes no respeito da tradição, pelo menos enquanto esta é, nas suas palavras, “uma força viva”, “sangue quente a circular no organismo social, continuidade profunda e involuntária, como o laço familiar, e não doutrina artificiosamente reconstituída pela nostalgia estática ou pela renúncia descoroçoada” (idem, p. 115)

Eis, ainda segundo Fidelino de Figueiredo, a tarefa das elites culturais de qualquer povo, que se devem reger por essa lógica criadora – ou criacionista, como diria Leonardo Coimbra –, senão mesmo por uma lógica de heroísmo – ainda nas suas palavras: “Por heroísmo entendo eu, não só a sua forma marcial, mas todas as potencialidades humanas levadas ao máximo, o predomínio dos melhores, a reconquista dos direitos da inteligência, da força moral, do ideal interior, para fazer impor e triunfar uma ideia: a capacidade de curvar, obediente, a argila humana às dedadas do génio” (“Torre de Babel”, Empresa Literária Fluminense, 1925, p. 172).

Entrevemos aqui toda a importância dada à cultura, na sua prevalência sobre todos os demais planos – nomeadamente, os planos social, económico e político. Daí também, enfim, o seu conceito de “imagens-força” (cf., por exemplo, “Interpretações”, Editorial Nobel, 1944, p. 30). Correspondem estas às “visões do mundo” que, historicamente, se tornaram hegemónicas ao longo dos séculos – desde a visão mítica do mundo, passando pela visão clássica (de matriz aristotélica), até à visão do Renascimento e da Contemporaneidade (onde, para Fidelino de Figueiredo, a figura de Einstein, e da sua física relativista, avulta). Pois bem – perguntamos: não será tempo de se abrir uma nova visão do mundo, uma visão não diremos “neo-existencialista” mas, de forma assumida e descomplexada, “neo-humanista”?

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Acedi ao convite que me foi feito e passarei a estar semanalmente presente neste jornal com um pequeno texto, sabendo antecipadamente que haverá alguns meus amigos de esquerda que se zangarão comigo por aceitar escrever n’O Diabo e que outros amigos de direita me criticarão por aquilo que aqui venha a publicar. É da vida, que não altera o essencial do que penso propor à análise crítica dos leitores.

Os textos têm um objectivo, que é defender uma visão estratégica para Portugal expressa no título que se manterá no espaço destas crónicas, “Um País Dois Destinos”, que pretende justificar a urgência de Portugal adoptar com clareza os seus dois destinos: a permanência na União Europeia e, ao mesmo tempo, cumprir a sua vocação secular de país Atlântico e universalista.

É interessante notar que inicio este debate com os leitores pouco tempo depois da morte de Mário Soares, o qual tem sido acusado, a meu ver injustamente, de erros no processo de descolonização. Mas, singularmente, ninguém o acusa de ter errado ao considerar Portugal apenas um país europeu ao arrepio de cinco séculos da sua história, quando de facto não havia, nos processos de descolonização e de adesão à CEE, qualquer contradição estratégica na realização de “Um País e Dois Destinos”, ou seja, pertencer à União Europeia e, simultaneamente, ser um país Atlântico, que por razões da história, da geografia e da cultura tem uma relação particular com o mar e que através dele se encontra ligado a todos os continentes.

A corrupção

A corrupção é a mais grave doença dos regimes democráticos, porque ataca na sua essência a igualdade perante a lei, a justiça igual para todos e reduz o incentivo ao trabalho e ao serviço público dos cidadãos e das instituições.

Assim sendo, o bom governo caracteriza-se por não permitir o desenvolvimento da corrupção, desde logo no seu próprio meio e depois no Estado e na sociedade.

Para isso existem regras de boa governação, tais como:

  1. A escolha para membros do Governo de pessoas de idade madura, com provas dadas de competência e de seriedade e com hábitos democráticos;
  2. A cultura da transparência e do rigoroso cumprimento da lei, bem como a permanente disponibilidade de acesso dos meios de comunicação a toda a informação relativa a actos dos governos e da administração pública;
  3. A investigação rigorosa do enriquecimento sem causa conhecida e a existência de leis que permitam condenar os casos de enriquecimento ilícito;
  4. Celeridade da justiça e a existência legal da figura do arrependido, com penas elevadas para os condenados, naturalmente com todas as garantias de defesa dos acusados;
  5. Remunerações dos membros do Governo e dos servidores do Estado em altos cargos compatíveis com a sua importância na hierarquia do Estado;
  6. Por último, mas não menos importante, uma cultura de condenação social da corrupção, cultura que pode ser desenvolvida através da pedagogia exercida pela boa governação, que actuará pelo exemplo e impedirá por todos as formas a impunidade.

A história recente da democracia portuguesa mostra que estamos longe da adopção destas regras do bom governo e por isso não surpreende que a corrupção esteja a minar os fundamentos do nosso regime democrático. Com o perigo de a corrupção ser já sistémica, atingindo os mais altos cargos do Estado, ao mesmo tempo que a impunidade se tornou num incentivo objectivo para a prática da corrupção e um obstáculo ao prestígio das instituições e ao crescimento da economia. Por exemplo, a falência do nosso sistema financeiro resultou da convivência do poder político com práticas ruinosas de troca de favores e de promiscuidade do Estado com entidades privadas poderosas.

Também a promulgação de leis feitas para satisfazer sectores concretos da sociedade, bem como a prática de os governos e de as autarquias realizarem contractos com entidades privadas por ajuste directo, são factores adicionais que favorecem a corrupção do Estado.

O caso das contrapartidas resultantes da compra de material militar, que atravessou quatro governos da esquerda e da direita do espectro político nacional, mostrou o nível sistémico atingido pela corrupção. Caso que se tornou um exemplo claro da colaboração do poder político com os interesses ilícitos de entidades privadas, nacionais e estrangeiras, em que nem a condenação dos corruptores activos no estrangeiro levou as autoridades portuguesas a tomar quaisquer iniciativas de investigação.

Continuaremos a tratar este tema.

A direita conservadora portuguesa é, potencialmente, a maior força política portuguesa. Os portugueses, na sua esmagadora maioria, são conservadores, ainda são maioritariamente católicos, gostam de ordem e paz, gostam de estabilidade, são honestos, trabalhadores, pagam as dívidas e honram a sua palavra. Têm um gosto especial pela cunha e pelo nepotismo, que não consideram especialmente imoral, e toleram a corrupção endémica da classe política, que é uma emanação do próprio povo. Isto é especialmente manifesto nas autarquias de qualquer espectro partidário, do PCP ao CDS: as autarquias empregam clientes dos partidos e seus familiares. A direita apenas por inépcia dos seus dirigentes não ganha esmagadoramente todas as eleições. Cavaco Silva, aliás muito pouco dotado, demonstrou à saciedade esse facto.

Infelizmente, o português é muito pouco culto, lê pouco, o seu índice de leitura é dos piores da Europa, o que dificulta as suas escolhas políticas. Por outro lado, preza a normalidade e inveja fortemente a diferença quando esta é diferenciadora. Um jovem inteligente na escola é, no Portugal tradicional, invariavelmente alvo da chacota dos espertos jovens “normais”, isto é, dos menos dotados intelectualmente mas vivos e de piada fácil, que tudo fazem para reduzir o jovem mais dotado à sua insignificância e colocá-lo na norma. Isto tem a ver com o tradicional analfabetismo português. A alfabetização tem muito pouco tempo em Portugal: ainda nos anos 1960 era na casa dos 35%, depois de ter sido da ordem dos 90% na primeira república. Salazar fez um esforço notável na educação, escolhendo ministros de grande craveira intelectual, facto que é escondido pela esquerda ainda hoje, mas o analfabetismo demora séculos a sair do povo. Talvez dentro de cinquenta anos possamos dizer que estamos ao nível de uma Dinamarca ou Suécia.

Sabe-se que as escolhas são feitas por identificação. Passos Coelho, um ex-jovem transmontano nascido em Coimbra, por exemplo, soube, com inteligência intuitiva, identificar-se com os portugueses; a imagem é de um homem poupadinho, normal, vindo das berças, morador em Massamá, nos subúrbios, de origens rurais, pouco culto, pouco inteligente mas esperto, honrado, que honra os seus compromissos, uma espécie de burro (animal teimoso, determinado, trabalhador, parco e esperto). Viu-se que não é verdade, aliás na forma como descartou o seu mentor, Ângelo Correia, que apesar de alguma tontice era a melhor cabeça de que Passos dispunha no seu círculo. Ângelo Correia tem dois cursos superiores tirados a tempo em excelentes escolas, o Instituto Superior Técnico e o ISCTE, ambas em Lisboa, ao contrário de Passos Coelho, que acabou a sua licenciatura aos 35 anos numa Universidade sem ranking internacional.

Mas a metáfora do burro passou e ganhou as eleições a uma desgastada fera, a hiena selvagem que nunca dá descanso à sua presa, cujo modelo era o de um ditador de esquerda, uma espécie de autocrata com laivos paranóides na forma como tentou controlar tudo e todos, também com delírios de super-homem intocável, construtor de uma imagem que passou por fazer de si próprio uma espécie de intelectual, provavelmente para tentar fazer refutar a imagem manchada do seu percurso académico, construção que se tornou obsessiva com livros publicados, mestrados e inscrição num doutoramento que afinal, hoje em dia, não lhe valem de nada. Em Portugal, o burro honrado e poupadinho ganhou à hiena, ao “animal feroz”. Repare-se que Salazar foi, de certa maneira, a combinação das duas coisas, controlador e honrado; e mais: era extremamente culto e inteligente, qualidades que não existem nos dirigentes políticos partidários. Salazar foi, antes de tudo, uma águia.

O problema é que Passos Coelho é um homem sem programa. No caso de 2011, o seu programa foi escrito por outros, por um lado pela troika, por outro lado por figuras como Ângelo Correia e Eduardo Catroga, que já desapareceram do seu espectro. Hoje em dia navega à vista por contradição; é altura em que ser modesto, honrado e poupadinho não chega, é “poucochinho” para combater inimigos políticos melhor preparados, apesar de, também, medíocres.

A direita precisa de um programa, de uma teleologia, de um objectivo para Portugal, e essa mensagem não transparece, nem existe, no discurso de Passos Coelhos nem do PSD que, à deriva, faz oposição tacticista. A questão da redução da TSU é uma vergonha para Passos Coelho. O que vai dizer aos empresários, que diz que defende, precisamente os pequenos empresários, quando estes lhe cobrarem o facto de os ter apunhalado pelas costas? Para além da luta política de caserna, há o País. Passos Coelho demonstra que apenas está preocupado com o retorno ao poder a qualquer custo, mas não é assim que lá voltará.

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Foi com prazer que li a última edição do nosso Jornal. Apesar de Mário Soares ter falecido antes do fecho da edição, o jornal O Diabo ignorou olimpicamente o facto.

Mário Soares foi um dos fundadores do regime democrático pós vinte cinco de Abril de 1974. É um dos responsáveis pelo laxismo, pelo sistema corrupto, pelo nepotismo, deslumbramento e novo-riquismo do sistema putrefacto que acabou por tomar conta de Portugal. É certo que lutou contra os excessos pós revolucionários, mas o seu papel foi amplamente sobrevalorizado.

É hoje sobejamente conhecido que o Partido Comunista tirou o tapete a Vasco Gonçalves e que não tinha carta-branca do Partido Comunista da então União Soviética para tomar o poder em Portugal. Até a insuspeita trotskista Raquel Varela, historiadora, esclareceu esse facto na sua tese de doutoramento. O PCP nunca poderia avançar para a tomada do poder sem o apoio russo, nem nunca os americanos deixariam que isso acontecesse. Foram, aliás, os americanos que apoiaram Mário Soares e lhe deram argumentos musculados para este assumir a coragem que lhe é atribuída.

Soares sempre foi um homem incompleto, um laxista, que aparentemente nunca leu profundamente os dossiers. Soares era um homem que resolvia problemas e nunca pensou Portugal a longo prazo. Terá lido muito mas assimilado pouco, foi mais um leitor do que um actor cultural, terá tido amigos intelectuais mas nunca o foi por acção, terá pretendido ser por osmose, o que nunca é muito eficaz.

Por muito que se diga, Soares não tinha uma teleologia para o País, e nesse sentido não foi um estadista no sentido de um D. João II, de um Marquês, de um Fontes ou de um Passos Manuel. Tudo resultou de compromissos, acordos, leilões de postos e trocas, não como numa feira de gado mas como em negócios em que o povo português ficou sempre atrás dos interesses claros e menos claros dos políticos. São conhecidas as suas proximidades com os célebres negócios de Macau, as suas amizades com Savimbi, as suas amizades com Bettino Craxi, o corrupto e proscrito Craxi que Soares visitou no seu exílio na Tunísia, o mesmo Craxi que enterrou o partido socialista italiano. Era notória a amizade de Soares por Sócrates.

São também notórias as facadas que Soares deu nas costas políticas de Cavaco Silva enquanto este era primeiro-ministro, esquecendo a lealdade institucional que era devida pelo presidente a um chefe do governo eleito com maioria absoluta no parlamento. São demasiados “amigos” e demasiados atropelos à ética. Para Soares, o valor supremo é a “amizade” e não a ética. A amizade por canalhas, como Craxi ou Savimbi, deve ser reservada e não pública, mas Soares sempre exibiu essas amizades. Esqueceu que num homem de Estado é um homem de exemplo, o Estado não desaparece do homem ao cessarem funções públicas.

É assim natural que a morte de Soares seja um facto relativamente irrelevante para os leitores d’O Diabo que, com alguma clarividência, manteve o marajá do socialismo vivo mais uma semana à espera de alguma contenção e de uma reflexão menos apaixonada sobre um homem em quase tudo menor. Soares é aquilo a que se pode chamar “um homem sem estratégia”: tinha muita táctica, via a médio prazo mas nunca percebeu qual o lugar de Portugal no Mundo nem o modelo de desenvolvimento do País para o futuro.

Modelo que ainda está por fazer, hoje por força das circunstâncias, por os seus sucessores serem ainda piores, por manifesta falta de homens com perfil de estadista. Hoje até o medíocre António Costa é visto como um “génio político” face ao completamente nulo Passos Coelho. O próprio Paulo Portas é um tacticista que se retirou para ganhar uns dinheiros e o País está entregue aos herdeiros de Soares, o que não augura nada de bom para o futuro. Os próprios comunistas e bloquistas, que Soares combateu toda a vida, ganharam a guerra a longo prazo e derrotaram Soares em toda a linha, participando activamente do governo do país.

Qual é afinal o legado de Soares? Um índice de desenvolvimento humano miserável, muito abaixo do que já foi no final do século XX, cinquenta anos de corrupção, um País vendido ao estrangeiro, sem soberania nacional. Ninguém conta a verdadeira história no mito embrulhado por alguns “opinions makers” de que ‘Soares é Fixe’? O povo não engoliu as patranhas da comunicação social e ignorou o funeral do “pai da democracia” que esteve às moscas comparado com Eusébio Ferreira, Amália Rodrigues, Dr. Álvaro Cunhal, Doutor António Oliveira Salazar ou até o General Vasco Gonçalves e o Marechal Óscar Carmona. O povo fez bem, como bem fez O Diabo ao ignorar a morte agora irrelevante de quem já era um cadáver adiado.

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 Luísa Venturini

“Conheci o Franco numa reunião do então Instituto de Cooperação. Numa situação de emergência humanitária, o Governo disponibilizava um Hercules para transportar para África quantos bens de primeira necessidade as várias ONGs envolvidas tivessem conseguido angariar.

A sala de reuniões, com o seu belo pé direito e tectos trabalhados, era inóspita, apesar da grande mesa de madeira oval. Recordo que o Dr. Luís C. da Nóbrega arrefeceu ainda mais o ambiente ao informar-nos que tudo que tinha sido ‘mais ou menos apalavrado’ telefonicamente ficava sem efeito, porque o Instituto recebera, entretanto, as manifestações de interesse de um número consideravelmente maior de agências. Tenho de confessar que, ao ouvi-lo, até a minha alma empalideceu. Converter 17 toneladas em 7 nuns quantos minutos era algo tão complicado quanto converter 7 em 17 em meia dúzia de horas. Apesar do susto súbito, refiz-me prontamente, sabendo e antecipando que a organização onde trabalhava iria resolver o assunto: uma unidade de competentes voluntários locais adquiriria nos países limítrofes essas mercadorias e transportá-las-ia numa frota de camiões proporcionada por outro voluntário generoso. De facto, assim sucedeu.

Reconheço que esta abrupta revisão dos planos me deixou para sempre este soslaio desconfiado para com certas instituições públicas.

Mas o susto não se ficou por ali. Na sua segunda intervenção, o Dr. Nóbrega informou-nos que as condições atmosféricas previstas obrigariam o avião a aterrar noutro aeroporto, a mil e poucos quilómetros de distância. E foi nesse momento que vi o Franco. No seu bom português, que não ocultava as suas origens italianas, disse-nos: ‘Tenho um enorme problema. Há mil e oitocentas pessoas que dependem da chegada desse avião. Já não têm comida nem quinino.’ O Dr. Nóbrega franziu o sobrolho e lamentou não poder fazer nada. Recordo que com a mão fiz um sinal ao Franco para que não desesperasse. Que falasse comigo.

Eu só tinha de fazer um telefonema. Mas a bela sala pombalina não tinha rede. Esperámos penosamente pelo fim da reunião e, já da rua, liguei ao chefe da nossa equipa em campo, pondo-o a par do problema. Disse-me que como não era suposto regressarem a esse local, teria de arranjar nem que fosse um helicóptero russo. Quanto à comida e ao quinino, não havia problema. Confirmar-me-ia assim que possível. Trocámos números de telemóvel o Franco e eu. Duas horas depois dava-me as coordenadas do local de entrega. Seis horas depois fomos jantar. Doze horas depois, a Irmã Maria de Jesus telefonava-nos: ‘Tanta comida! Tudo tão limpo! E quinino que chega para todos!’

No meio da enorme adversidade climatérica, o ‘meu’ chefe de equipa tranquilizava-me a cada chamada minha: ‘Já aterrámos. Ouve o rotor!’ ou ‘Fala com a Teresa para teres a certeza que regressámos bem.’

Quase quinze anos depois, janto com o Franco e brindamos com um beijo o nosso décimo segundo aniversário de casamento. Amanhã, ele embarca para o Sudão.”

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RENATO EPIFÂNIO

Numa visão estrita, para não dizer estreita, do existencialismo, tal como ele se configurou enquanto corrente filosófica e cultural no século XX, Fidelino de Figueiredo não foi de todo um existencialista, mesmo quando defendeu que os “existencialistas franceses têm razão indiscutível, quando matam com certo desdém realista esse perturbador e imaginoso problema das essências, coisa tão vã como a querela dos ‘universais’ (…) à qual de resto se articula” (in “Símbolos & Mitos”, Europa-América, 1964, p. 58).

Recordemos que, nessa célebre querela, se confrontaram, no essencial, duas correntes: uma ainda de matriz platónica, para quem os Universais existem (não apenas do ponto de vista temporal como, sobretudo, ontológico) “antes” das coisas (universalia sunt ante res); outra de cariz nominalista, para quem os Universais são considerados como meros nomes, enquanto criações da mente, sem qualquer referente prévio – existindo, assim, “depois” das coisas (universalia sunt post res).

No entanto, a deriva egóica, para não dizer egocêntrica ou subjectivista do existencialismo contemporâneo já não mereceu, de todo, a sua adesão – como chegou a escrever: “Esses existencialistas já não têm sombra de razão quando com mau humor negam a existência do mundo fora do nosso espírito, da sua representação subjectiva e da sua utilização egocêntrica. Por aqui os existencialistas franceses acordam e reforçam o seu parentesco fenomenológico e vão entroncar-se, queiram-no ou não, na velha corrente idealista, e, se analisássemos fundamente essa atitude, contrariariam o seu antiessencialismo, como se perdessem o pé num redemoinho” (idem, p. 58).

Daí, de resto, a sua inequívoca demarcação de duas das mais prominentes figuras do existencialismo: Albert Camus e Jean-Paul Sartre – ainda nas suas palavras: “O livrinho de Camus [“O Mito de Sísifo”] contém um monstruário dos absurdos da existência humana – sem grande acerto na escolha nem na caracterização de cada um” (idem, p. 59); “No código da doutrina, o tratado ‘L´Être e le Néant’, de Sartre, fervilham, como de costume, nos escritos de metafísica, os paralogismos que levam à paradoxia e às logomaquias, as petições de princípio, os postulados gratuitos e o subjectivismo impressionista” (idem, p. 60)

Ainda assim, encontramos na sua obra elementos que nos poderão levar a um neo-existencialismo, mas já devidamente depurado dessa deriva egóica, para não dizer egocêntrica ou subjectivista, pelo próprio Fidelino de Figueiredo denunciada e renegada. Falamos sobretudo da importância que dá ao espaço e ao tempo – mais do que ao tempo, à história – e do papel do ser humano enquanto construtor da história e da cultura. Daí que, ao podermos falar de um neo-existencialismo a propósito de Fidelino de Figueiredo, possamos cumulativamente falar de um neo-humanismo. Eis, em suma, a tese que procuraremos aqui verificar – abordando, sucessivamente, os conceitos de “cultura”, “tradição”, “heroísmo” e, finalmente, o seu inovador conceito de “imagem-força”

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Mário Soares faleceu, e infelizmente a imprensa portuguesa teve tempo para preparar aquilo que na gíria se chama de “obituários futuros”. É sabido que todos os idosos com alguma relevância já têm obituários prontos nos jornais. É uma tarefa de investigação e de compilação que se costuma dar a estagiários quando entram nos jornais. Podemos chamar-lhe uma espécie de praxe. Os mais talentosos podem escrever boas peças, geralmente contrariados, que emergem algumas vezes muitos anos depois, não assinadas. Homens como Adriano Moreira, Mário Soares, têm obituários à sua espera há muitos anos. Outros provavelmente já terão também o seu obituário: Manuel Alegre, Cavaco Silva, Ramalho Eanes, Jorge Sampaio, apesar de ainda aparentemente vigorosos, terão provavelmente o seu obituário pronto algures nos jornais ditos de referência. O obituário futuro é algo que poderá chocar o leitor menos familiarizado, mas é um instrumento útil que poupa muito tempo e trabalho, sobretudo se o destinatário tem a pouca decência, segundo o editor em causa, de morrer em cima do fecho da edição!

Mário Soares não seria excepção. Neste caso, o seu estado de saúde com 26 dias num hospital em grave condição, deu tempo a todo o gato-sapato para escrever e preparar a morte do antigo presidente da república. O próprio Marcelo Rebelo de Sousa, escassos segundos após o anúncio da morte de Soares, entra em directo nas televisões com um discurso de quatro minutos, que são ainda umas folhas A4 escritas, um discurso preparado e elaborado e não uma improvisação tão ao seu estilo, em que comentava, é o termo, a morte de Soares.

Pior ainda, a hora da morte de Soares, pelas três e pouco da tarde, é muito anterior ao fecho das edições dos jornais e dos telejornais, o que dá imenso tempo de coligir toda a informação e preparar entrevistas, alinhar imagens de arquivo, alinhar convidados. É caso para dizer que, para jornalistas e comentadores, Soares “foi fixe” até à última hora.

Dir-se-ia que a morte de Soares foi preparada meticulosamente para preparar uma espécie de mito. Uma doença que dá a entender o fim próximo, vinte e seis dias de preparação, que até deu descanso na altura de Natal e de Ano Novo, e um falecimento conveniente a um Sábado à tarde enquanto António Costa anda na Índia a oferecer a entrada na UE aos indianos sediados no Reino Unido através de Portugal.

O corolário desta preparação meticulosa, dir-se-ia preparada por uma agência de comunicação daquelas que dominam a cena mediática portuguesa devido à preguiça jornalística portuguesa, é a enxurrada Soares nos meios de comunicação. Ele é o Soares e a religião, ele é os três erros de Soares, ele é Soares e a comida (!), ele é o Soares e o Panteão, ele é o Soares visto por este e aquele, ele é o Soares em fotos, ele é o Soares em nove histórias, ele é o Soares em fato de banho, até o Miguel Esteves Cardoso não faltou à chamada e escreveu umas banalidades do tipo “ele deu-nos tudo”; material não falta, Soares não era esquivo e deixou-se entrevistar e fotografar à exaustão, material para meses de televisão e jornais, material enunciado por todos os melhores amigos do defunto. São notas de rodapé dizendo “corpo de socialista atravessa Lisboa”, como se corpos de socialistas não atravessassem Lisboa todos os dias…

Durante muitos dias não houve mais nada, não houve notícias, não houve mundo, até o próprio Guterres, Secretário-Geral da ONU, aparece para falar não da Síria, em que mais um atentado matou cinquenta num mercado qualquer sem interesse, mas de Mário Soares, numa declaração interminável, como todas as declarações de Guterres. Sampaio da Nóvoa, soarista tardio, confidencia em tom de contragosto perante milhões de telespectadores as suas memórias, escassas, como se fossem segredos de Estado; Passos Coelho, visivelmente enjoado com o assunto, lá alinha umas banalidades; Cavaco, provavelmente aliviado por ainda cá estar enquanto o seu arqui-inimigo já foi, explica que não é altura de falar de divergências. Enfim, todos têm de aparecer em bicos dos pés nas televisões. É tempo de desligar a televisão portuguesa e ler um bom livro ou ir ao cinema, ou apreciar um bom espectáculo.

Soares não faz falta nenhuma porque já cá não estava. Teve o seu tempo e o seu ciclo. O seu corpo desligou, que vá em paz.

A feira de Santos Silva

O ministro Santos Silva, aquele que gostava de malhar na direita, agora responsável dos negócios estrangeiros, classificou a concertação social como se fosse uma feira de gado. Tem razão, aquilo parece uma negociação de feira de gado. Os negociantes estão todos lá, mas o gado, esse, o gado, a moeda de troca e a mercadoria, somos todos nós, os Portugueses.

É assim que os políticos tratam aqueles que devem servir, como gado do qual os negociantes estão, como donos da feira, na concertação social a trocar por benesses para as cabeças que representam. Vergonhoso e pouco diplomático.

Passos Coelho

A situação no PSD está cada vez pior. Passos Coelho faz uma mensagem de Natal vergonhosa, em que afirma que está por aí para anunciar catástrofes e tempestades, que o Diabo (não somos nós, o Jornal, é mesmo o Demo) virá aí. Entretanto não se descose com um candidato forte a Lisboa para desalojar a clique socialista que usa a cidade a seu belo prazer para ir fazendo negócios expulsando os lisboetas da sua cidade a troco dos cifrões trazidos pelos turistas.

Passos Coelho terá de dar o lugar a outro. Não tem a simpatia do eleitorado, não tem rumo nem estratégia, navega à vista e a sua alma gémea Maria Luís, criatura antipática, desagradável, todos os dias dá tiros nos pés, desmentindo números que Bruxelas já validou, acusando o governo de falsificar os resultados e parecendo que deseja que o País se afunde apenas porque já não faz parte do poder. Marcelo Rebelo de Sousa já percebeu que com estas reses a feira de gado não está completa, para usar a metáfora de Santos Silva, para além do facto de Marcelo não suportar a dupla Coelho-Albuquerque, que anteriormente o tentou impedir de concorrer a presidente, tendo-lhe inclusivamente chamado de “catavento político”. Passos Coelho é aquilo que se chama uma má rês política, e ainda por cima tendo o omnipotente Marcelo contra, pode-se dizer que está marcado para abate rápido.

É tempo de regressar à Social-Democracia, preencher o espectro político ao centro, agora que o PS se encostou à extrema-esquerda, e ganhar as eleições com simpatia, com carisma, com novidade e esperança. José Eduardo Martins, ou outro qualquer, até o rato Mickey, já seriam melhores do que Pedro Passos Coelho.

Soares

É triste ver a feira instalada à porta do hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, onde Mário Soares tem padecido o que podem ser os seus últimos dias. Boletins clínicos diários para um velho cavalo cansado de muitas batalhas não fazem sentido. Soares está reformado da política, já vivia num outro mundo, um mundo ausente deste. O circo mediático não faz sentido e devia-se respeitar a vida, a privacidade e o desgosto da família nesta situação. Trinta jornalistas à porta de um hospital não adiantarão um segundo se houver alguma notícia favorável ou negativa no estado do antigo presidente. É a continuação da feira, mas na variante de feira de papagaios a tentar competir pela plumagem mais vistosa, uma vez que o que dizem é apenas uma repetição do que o dr. Barata, o porta-voz do hospital, vai, laconicamente, informando.

A propósito da edição por um semanário de um livro de Simon Sebag Montefiore, “A Corte do Czar Vermelho”, um livro excelente, como todo o trabalho notável de Montefiore, vem Francisco Louçã afirmar no ‘Expresso’:

[Francisco Louçã] sublinha que só a esquerda “foi capaz de combater o colonialismo francês na Argélia, o colonialismo português em Angola e Moçambique, as ditaduras de Portugal, Espanha e Grécia, bem como rejeitar o estalinismo e a destruição que provocou”. No debate ideológico, diz a concluir, “a esquerda que tem esse nome, tem uma força muito grande, que é simplesmente a de ter dito e ter feito, e lutar em todas as circunstâncias pelas liberdades essenciais do ser humano. As ideias fortes da esquerda são as ideias da liberdade e é isso que constitui o seu património”.

Ou seja, Francisco Louçã, na sua dogmática visão do mundo, vem afirmar que Estaline não seria de esquerda! Pior, foi a esquerda que combateu Estaline e rejeitou-o, bem como a destruição que provocou.

Quem ler Louçã e não tenha uma dimensão crítica da História, poderia até pensar que Estaline não seria de esquerda e que a “verdadeira” esquerda, a dos trotskistas, entenda-se, combateu as ditaduras, teria assim uma força muito grande, um património, nas suas próprias palavras.

Mas este parágrafo encerra demasiadas contradições. Quem combateu contra Portugal em Angola e Moçambique – Louçã esquece a Guiné, não se sabe bem porquê – foram movimentos pagos pelos russos (à mistura de chineses e americanos), herdeiros directos de Estaline, e não a meia dúzia de trotskistas que foram purgados pelo ditador na Rússia. Pior, quem apoiou directamente o regime de Angola foram os cubanos, que chegaram a enviar tropas, e não me parece que os cubanos de Fidel Castro fossem trotskistas. Por outro lado, não parece que tenha restado muita liberdade nos países em causa.

As esquerdas nunca lutaram pelas liberdades. Estaline, que para todos os efeitos era o clímax de qualquer ideia de esquerda, nunca lutou pela liberdade, lutou pelo seu poder, pelo poder da Rússia soviética e, apesar de combater o Nacional-socialismo de Hitler, substituiu na Europa de Leste um reino de terror por outro reino de terror, muito distante da liberdade apregoada por Louçã. Por outro lado, o próprio Trotsky, enquanto teve poder, nunca lutou pela liberdade, lutou isso sim pela “ditadura do proletariado” que levou a centenas de milhares de mortos, ainda no seu tempo enquanto chefe e fundador do exército vermelho, culminando o seu regime com o apogeu de Estaline, cujo reinado se deve em grande medida à meticulosa preparação de Trotsky, antes de este último cair em desgraça, bem entendido.

Quem combateu os regimes totalitários foram as esquerdas estalinistas, os partidos comunistas ortodoxos. Os chamados trotskistas nunca passaram de um punhado folclórico de barbudos desgrenhados, com a louvável excepção capilar do próprio Louça com o seu ar bem barbeado de eclesiástico e os seus dogmas proferidos com ar severo mas que, depois de analisados, são apenas uma espécie de propaganda contraditória e sem nexo.

Afirmar que as esquerdas defendem a liberdade é meter demasiada esquerda num saco muito pequeno. A não ser que Louçã esteja a elogiar os sociais-democratas. Já deve ter faltado mais…

CAPA

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