Opinião

Escutei na rádio, Antena 1, a missa de Domingo a partir da Igreja de S. João de Brito, em Lisboa. Fiquei estarrecido com dois aspectos. Em primeiro lugar, existe um comentador de missas, uma espécie de voz jovem mas emaciada com requintes de elevação mística beatífica, que vai tecendo comentários aos diversos momentos da Santa Missa em vez de os deixar escutar.

A missa pela rádio destina-se a quem não pode ir à Igreja, doentes, pessoas em viagem, distantes dos centros, sem meios de transporte, com dificuldades motoras; no caso desta missa de S. João de Brito, dir-se-ia que a missa era unicamente destinada a castigar os doentes e os ouvintes crentes que não puderam ir à igreja com os comentários afectados, iluminados por uma luz de suprema beatice e presunção afectada de uma fé sublime e única que enche o beato comentador e, já agora, a desafinação horrífica do “coro”.

Quando pensamos em música na missa pensamos em Mozart, em Josquin, em Schubert, em Beethoven, até no luterano Bach que escreveu a colossal missa católica em Si menor, pensamos em Dvorjak, em Bruckner, pensamos numa música de uma qualidade ímpar, iluminada pela verdadeira Fé e pelo máximo esforço do génio humano de compositores que colocaram na Missa, agora com M grande, todas as suas energias criativas, porque a Missa, vista por estes homens, transcende o humano e torna-se Sobrenatural. As criações musicais para a Missa têm, em grande parte, o toque do Sobrenatural.

Não é o caso do “coro” de S João de Brito, em Lisboa. Já não bastava o beato comentador de missas com voz afectada a tapar a missa: tínhamos o coro infernal, desafinado, fora de tom, berrante, cada um para seu lado, mal captado pelos microfones, que cantava “músicas” miseráveis de per se, mas que, para além disso, estropiava sem dó nem piedade. Note-se que, no caso da Missa, é necessário piedade. Piedade pela congregação, piedade pelo ouvinte da Rádio. Aquilo que poderia ajudar o crente a elevar-se, a chegar ao Céu pelo acto da Comunhão, pelo acto da Partilha, pela Eucaristia, pela Oração, torna-se um momento digno do purgatório, uma vez que, por muita caridade pelo esforço denodado dos paroquianos que cumprem a sua obrigação dominical de tentar fazer umas cantorias, não os devo comparar ao inferno… um inferno em que me colocaram enquanto ouvinte da rádio.

Ouvir a missa nestas circunstâncias não é um acto de Fé, é um acto de penitência, de sacrifício. Perceber-se-ia a intenção da hierarquia da igreja de sujeitar o auditório a um castigo divino, sem par, por não ter ido à missa in loco e por ter cometido o pecado de ficar em casa a tentar escutar a rádio; mas não parece ser o caso.

O caso é que o cuidado com a música na igreja é pouco. Os padres não têm formação, seria melhor mandar calar aquela gente toda e fazer a missa sem cantorias do que escutar tal martírio, ou mandar ensaiar o coro por gente com maior formação. Nem quando se tem a responsabilidade de dar a todo o País, pela rádio, uma missa com cuidado, uma vez por semana, se escolhe um coro mais trabalhado, obras mais elevadas, compositores mais de acordo com a tradição gigantesca da igreja neste domínio.

Creio que é um pecado grave deixar a transmissão da missa a uma igreja qualquer, como S. João de Brito, em que não se cuida da liturgia em todos os seus parâmetros. Agora vou parar de escrever e vou escutar a Missa da Coroação de Mozart…

0 216

 Luísa Venturini

William Archer (1856-1924) foi um dramaturgo e crítico de teatro escocês. É conhecida uma máxima sua que pode ser lida como um conselho aos autores: “Drama is anticipation mingled with uncertainty”. De facto, na língua inglesa, o termo “drama” corresponde ao texto em prosa ou verso que se destina a ser representado (tragédia, comédia farsa, melodrama), mas, tal como na língua portuguesa, pode ter uma conotação mais alargada, incluindo não só um género literário como qualquer situação que envolve conflito, sofrimento e aflição.

Aproprio-me da frase de Archer e sinto que, de facto, se enfrenta drama quando estamos num estado de expectativa combinado com incerteza.

Nos tempos que correm, eu sei que a lógica me aconselhará a continuar a alimentar uma certa serenidade, a evitar que me assomem pensamentos mais ou menos especulativos, a repetir-me que não me adianta o sobressalto, porque do estendal tremendo que constitui o que “é”, sinto-me afundada na mais profunda ignorância, pois só me é dado ver o que “parece ser”.

Mas o exercício, garanto, não é nada fácil. Há demasiado ruído, demasiadas legendas simultâneas, demasiadas imagens sobrepostas e, quer queira quer não, percorre-me uma corrente desagradável, como se tivesse estado exposta a mensagens subliminares, de acutilância e intensidade muito peculiares.

Mais difícil se torna, quando me entram pelos olhos e pelos ouvidos enxurradas de opiniões, quase todas a arvorarem uma segurança indiscutível, apesar de estarem tão nimbadas como quaisquer outras do sentido primordial do termo grego: não passam de ideias confusas sobre a realidade.

Assim, com a incerteza de não conseguir ver o estendal do meu pequeno parapeito, fico nesta expectativa de vir a alcançar o desejado conhecimento e a interrogar-me, quase involuntariamente, quanto ao que ele me revelará.

Recuso-me, no entanto e para meu bem, a opinar nem que seja para mim própria, pois, para confusa, já me basto assim.

0 224

RENATO EPIFÂNIO

Contra a opinião dominante nos nossos “media” – cuja tendência para falar negativamente do espaço lusófono em geral e de cada país lusófono em particular se mantém, o que só denota o crescente desfasamento entre a opinião pública e a opinião publicada –, registamos de forma positiva as conclusões da XI Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que terminou no primeiro dia de Novembro do corrente ano, em Brasília.

Antes de mais, saudamos a proposta lançada pelas autoridades portuguesas, visando a “liberdade de residência” para os cidadãos da CPLP. Tendo consciência de que essa não será uma medida exequível no imediato, ela deverá ser, naturalmente, uma das prioridades de médio-longo prazo, em prol da consagração do “passaporte lusófono”, já defendido, entre outros, por Agostinho da Silva.

De igual modo, saudamos a proclamada aposta na cooperação económica. O espaço lusófono é, antes de tudo o mais, um espaço linguístico e cultural, mas só terá a devida projecção a nível global se for também um espaço de crescente cooperação económica para o desenvolvimento sustentável, em prol de um outro paradigma político e ecológico. Também nesse plano, o espaço lusófono poderá fazer a diferença, podendo ser inclusive um bom exemplo para outros blocos geopolíticos do mundo: um bom exemplo de comércio justo e de maior respeito pela natureza.

Como ponto menos positivo, registamos a situação da Guiné-Equatorial, que, se por um lado, tem dado alguns passos, ainda não suficientemente significativos, em prol do ensino da língua portuguesa no seu território, por outro, apresenta ainda um claro défice no respeito dos direitos humanos, plano em que, infelizmente, não está só. Também nesse plano, há muito caminho a trilhar. Muitos dos países de língua portuguesa estão ainda longe de serem verdadeiros Estados de Direito, em que se realmente se respeitam os direitos humanos – o que está muito para além da mera abolição da pena de morte.

Esta tem sido uma questão fetiche para os nossos “media”, sempre prontos a encontrarem novas armas de arremesso contra a CPLP, mas está muito longe de esgotar a questão do respeito dos direitos humanos. Mesmo que a Guiné-Equatorial tivesse entretanto abolido a pena de morte, não seria já, apenas por isso, um verdadeiro Estado de Direito. De igual modo, não é por outros países de língua portuguesa a terem já abolido que merecem esse qualificativo. Para além dos enviesamentos mediáticos, temos plena consciência que a CPLP, já com vinte anos de existência, tem ainda um longo caminho a trilhar para se cumprir. Que os bons sinais que saíram desta Cimeira se confirmem, ao contrário do que muitas vezes aconteceu nos últimos vinte anos – eis o sincero desejo de todos os pró-lusófonos.

É espantoso o que se seguiu à eleição de Donald Trump. Muita gente tem vergonha do Presidente que a América elegeu. Na Califórnia preparam-se movimentos para pedir a secessão dos Estados Unidos, há petições para que os grandes eleitores, os membros dos colégios eleitorais dos diversos Estados traiam o voto popular e escolham Hillary Clinton.

De facto, a Constituição dos Estados Unidos prevê que o Presidente da República, e o nome é mesmo esse, República, seja eleito por colégios estaduais, cujo número, mas não a composição, é igual à soma dos senadores, dois por Estado, e dos representantes de cada Estado no Congresso americano, que reúne Senado e Câmara dos Representantes. Geralmente, o vencedor de cada Estado, mesmo que obtenha apenas maioria relativa, recolhe todos os grandes eleitores do colégio que o seu partido nomeou para votar no candidato nomeado pelo partido do candidato mais votado, excepto nos pequenos Estados do Maine e do Nebraska em que cada distrito para a Câmara dos Representantes escolhe um eleitor e o vencedor geral no Estado recebe os dois votantes correspondentes ao senadores de cada Estado.

Este sistema não dá votos automáticos aos vencedores. Em muitos casos, a votação é pública; noutros, é por voto secreto. Quando não se obtém os 270 votos necessários para a eleição na soma de todos os colégios eleitorais em cada Estado, o Congresso escolhe entre os três candidatos mais votados (aconteceu em 1800 e 1824). Jefferson ganhou em 1800 depois de empate com Burr, e depois de 36 votações na Câmara dos Representantes para desempatar; em 1824 John Quincy Adams ganhou a Andrew Jackson no desempate, depois de Jackson ter ganho sem atingir o limite de votos no colégio eleitoral, o que deixou Jackson furioso (viria depois a ser o sétimo Presidente dos Estados Unidos em 1829 e fundador daquele que é hoje o partido democrático).

Houve até hoje muitos casos de “votantes infiéis”, 157 para ser mais preciso. Alguns Estados proíbem a traição no momento da votação e podem ser usadas penas de multa ou inibição de direitos cívicos, mas o Supremo Tribunal dos Estados Unidos consagrou que, apesar de estes votantes poderem ser punidos à posteriori, o seu voto continuaria a ser válido, mesmo que tendo traído a causa para que foi eleito o seu autor. Nos casos em que a votação no colégio é secreta, nem seria possível descobrir o autor da “traição”. Apenas uma vez o voto dos traidores foi decisivo, na eleição do vice-presidente Richard Jonhson, da Virgínia, em 1836: os delegados souberam que vivia com uma escrava e traíram os 23 votos, no entanto Jonhson viria a ser eleito no desempate no Senado. O Senado desempata para o vice-presidente, o que faz sentido, pois o vice-presidente do país preside às sessões do Senado norte-americano.

Os últimos votantes infiéis foram em 2000 e em 2004, sendo que neste último, provavelmente por engano, o “traidor” trocou os boletins de presidente e de vice-presidente. No entanto em ambos os casos, sem pesar na eleição, os votos foram contados.

É pois muito estranha a campanha contra Trump apelando à deserção dos grandes eleitores. A democracia funciona com regras, regras que foram estabelecidas há mais de duzentos anos para permitir uma eleição limpa, em que todos os Estados, pequenos ou grandes, tivessem uma palavra a dizer e que fosse possível de realizar num país muito grande sem grandes meios de comunicações. Fazia sentido que os Estados votassem e que depois, por correio terrestre e mais tarde por telégrafo, as decisões fossem enviadas a Washington. Hoje em dia o sistema faz menos sentido. O voto poderia ser directo, mas isso impossibilitaria a representação de cada Estado como um todo, o que era a ideia fundamental do conceito de os Estados Unidos serem uma federação de Estados.

No dia 19 de Dezembro será a verdadeira e final votação para Presidente dos Estados Unidos nos diversos colégios eleitorais. Nesse dia teremos a certeza sobre se os mais de 290 votos atribuídos a Donald Trump serão reais, ou se os eleitores do partido republicano o vão trair naquele que seria o maior golpe de teatro na democracia americana até hoje. Certamente que Trump ganhou com menos votos do que Hillary, mas com as regras do jogo abertas e conhecidas de todos; se o sistema fosse outro, outra teria sido a campanha. Trump apostou nos Estados decisivos e ganhou. Veremos se a democracia vence no final. Trump pode vir a ser um mau presidente, pode ser embaraçoso para muitos, mas foi a escolha do sistema democrático segundo a Constituição dos Estados Unidos.

Dizia o Dr. Fernando Ulrich, citado pelo “Observador”: “Considero o Dr. António Domingues a pessoa mais qualificada e mais bem preparada que conheço para assumir a responsabilidade de presidente da Caixa Geral de Depósitos (…). Não tenho nenhuma dúvida que é a pessoa mais bem colocada que conheço para assumir esta grande responsabilidade. Acontece por mérito dele. (…) Tenho de felicitar o senhor ministro das Finanças e o senhor primeiro-ministro por terem feito esta escolha. Não conheço melhor”.

A escolha parece ter sido acertada, o Dr. Domingues parece preparado, é um técnico, não veio da carreira política, ao contrário de outros administradores da Caixa, nomeados por este governo, não terá de ir para os bancos da escola estudar sobre o que é um banco.

Domingues não é, naturalmente, um banqueiro. Já escrevemos aqui sobre a diferença entre executivo de topo, um funcionário bancário dirigente que não arrisca nem um cêntimo da sua fortuna pessoal, do seu capital, e os verdadeiros accionistas, os verdadeiros banqueiros, aqueles que arriscam o seu capital. Também já aqui escrevemos contra a tentativa destes executivos de topo de se substituírem aos verdadeiros detentores das acções e se tornarem uma espécie de donos dos bancos de facto. Eles passam despachos que beneficiam a si próprios, ou usam comissões para isso, comissões nomeadas por eles próprios ou por outros iguais a eles, em que fixam os próprios vencimentos escandalosos, fixam também participações abusivas no capital como forma de prémios, e mesmo prémios financeiros chorudos, isto mesmo quando os bancos que gerem têm prejuízos colossais, prejudicando fortemente os clientes e, sobretudo, os reais accionistas.

Veio a notar-se esta tendência nos últimos anos; os executivos passaram a ser uma espécie de sobas indisputados. Mesmo que em alguns casos raríssimos sejam realmente competentes, sérios e honestos, estes executivos beneficiam de uma enorme complacência dos organismos de supervisão, onde os directores pertencem à mesma espécie de casta, e dos organismos legislativos. Estes executivos, sob formas estritamente legais, sonegam rendimentos aos accionistas, prejudicam os restantes trabalhadores dos bancos, como se fossem eleitos por Deus, numa política geral de enriquecimento ilegítimo à custa de quem arrisca realmente o seu dinheiro. O princípio é geral, não acontece apenas em Portugal.

O que está por detrás da recusa de António Domingues em apresentar a declaração de rendimentos a que está obrigado por estar a gerir dinheiro dos cidadãos portugueses é precisamente o receio de que se perceba que uma enorme fortuna foi obtida à custa de clientes e accionistas dos bancos por onde passou, nomeadamente o BPI. A transparência na banca privada é demasiado opaca e a informação dada ao mercado sobre as chorudas e infundadas remunerações dos quadros superiores dos bancos, os bancários de topo, é quase nula.

A muito custo a informação passa para os accionistas que, devido a grandes dispersões em bolsa, não tomam medidas nas escassas assembleias-gerais, com ordens de trabalho formatadas pelas direcções bancárias, para limitar os rendimentos escandalosos dos bancários de topo. Com uma declaração de rendimentos pública, António Domingues poderia ser criticado pelo excesso de rendimentos que obteve como bancário. Milhões de euros que um professor universitário, um cirurgião célebre, um embaixador, um juiz conselheiro, um ministro ou Presidente da República nunca conseguiriam acumular no final de uma vida de trabalho. Por outro lado, ninguém poderia verificar a diferença entre a riqueza pessoal à chegada e no final do mandato da Caixa Geral de Depósitos, o que é mais um escândalo, porque eventuais prémios auto-atribuídos constituem confiscos directos ao accionista da Caixa, o povo português.

António Domingues pode ser competente, e acredito veementemente que sim, mas além disso deve ter ética e vergonha na cara. Apenas quem tem algo a esconder na forma como enriqueceu ao longo de uma vida de trabalho poderá recusar cumprir uma obrigação legal e moral que é evidente para todos os portugueses, a começar pelo garante máximo da legalidade e da constituição, o Sr. Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, que já afirmou que Domingues deve cumprir a sua obrigação e apresentar a referida declaração ao Tribunal Constitucional.

Portugal muito deve aos comandos. Foram combatentes muito empenhados nas recentes guerras de África, resistiram aos avanços comunistas e excessos do pós-vinte e cinco de Abril apesar de terem participado na revolução, posteriormente participaram em missões de paz em que nunca desonraram o país.

Os comandos, se empregues de forma justa e equilibrada, cirurgicamente, de acordo com as suas capacidades e meios, podem ser de grande importância. Napoleão não mandou a velha guarda avançar em Waterloo, era tarde demais, seriam apenas cordeiros destinados à chacina e nada poderiam fazer, no ocaso da derrota, com a chegada de Blücher, para inverter o rumo dos acontecimentos. Os comandos não servem para missões pesadas de choque, não devem participar em acções de grande envergadura, são forças de reserva para empregar em situações delicadas onde, em muitos casos, é necessário tacto e cuidado extremo, para além de espírito de sacrifício e capacidade física e militar.

É nestas circunstâncias que temos de optar entre a loucura do brigadeiro Orde Wingate, por mais român- tica e por maior bravura que demonstre, e a ousada prudência do tenente Stirling. Wingate teve de criar as suas brigadas em condições de elevada dificuldade, o Império da Índia estava em risco se não se cortas- sem a linhas de abastecimento e se atasse o exército  japonês atrás das suas posições avançadas com golpes ousados. O número de baixas, elevadíssimo, era baixo comparado com o preço de perder a Índia. As acções dos Chindits e de Wingate foram muito exploradas pela propaganda aliada, mas as suas campanhas na Birmânia tiveram, no final, pouco sucesso militar relativamente ao elevadíssimo número de baixas dos seus comandos. Estava-se em guerra e as baixas em treino, elevadíssimas sobretudo durante a monção, e em combate, ainda mais elevadas, justificavam-se pela necessidade de sucessos e de levantar o moral das populações na retaguarda.

Já os SAS de Stirling, “special air service”, sempre se comportaram de forma mais responsável na sua ousadia muitas vezes levada ao limite. No entanto, não estiveram imunes a mortes em treino. Recente- mente, em 2013, morreram três soldados no treino de acesso ao SAS devido a calor e desidratação, já este ano faleceu mais um cabo. O escândalo em Inglaterra foi grande e foram tomadas medidas para prevenir futuros acidentes deste tipo.

O que espanta é que os comandos não tenham aprendido com as lições de velhos tempos, dentro da própria unidade, nem com as lições de outras forças especiais noutros países. Um oficial superior, um coronel comandante de unidade, deveria estudar, manter-se a par da doutrina de treino, das especificidades do mesmo e das condicionantes para a saúde das condições extremas, nomeadamente de calor. Um batalhão de comandos é uma unidade militar, paga pelo dinheiro dos seus concidadãos; não é uma tribo a praticar praxes que põem em risco a vida dos soldados confiados ao comando dos oficiais e sargentos instrutores. Uma das funções primordiais dos oficiais será manter a segurança dos seus subordinados e, neste caso, dos instruendos.

Por outro lado, o pessoal médico deverá estar atento, documentado, preparado para ocorrências como as que surgiram no último curso com a morte de dois instruendos e nove baixas no hospital. Um número que nunca poderá ser acidental: acidental seria uma morte, seriam dois ou três instruendos no hospital. Quando há nove baixas graves e dois mortos, algo de muito errado aconteceu e a culpa é de toda a estrutura de comando e de quem desenhou a doutrina de treino sem mecanismos de prevenção do alto risco, nomeadamente no que concerne à segurança dos instruendos em situações extremas de calor e desidratação, que são extremamente fáceis de prever, basta olhar para o termómetro e higrómetro. Finalmente, deixar instruendos numa tenda sem as condições de um hospital, por longas horas, até morrerem, aparenta ser crime e as autoridades judiciais assim o parecem entender. Não entendemos, neste aspecto, o silêncio dos enfermeiros em inquérito judicial: aparenta ser um pacto de silêncio muito grave, que não honra os comandos nem a sua proverbial coragem.

Ao invés de extinguir os comandos, que são cada vez mais necessários, segundo a doutrina cirúrgica das nossas operações militares futuras, é importante dotar esta força de uma doutrina de segurança, para além de preparação física e militar, por uma doutrina de respeito pelo capital humano. Não é necessária a praxe humilhante, basta que a dureza dos cursos faça a sua avaliação decorrer normalmente e que os melhores cumpram as missões que lhes estão confiadas, depois de receberem as boinas e crachás. Que se tirem lições e os culpados sejam punidos exemplarmente, dos sargentos instrutores ao topo da hierarquia que se mostrou ausente e que confiou em oficiais subalternos e sargentos que acabam, infelizmente, por manchar a história dos comandos portugueses e os põem em risco de extinção, mais uma vez, sem a menor necessidade.

Évora vai inaugurar um monumento às vítimas do Tribunal do Santo Ofício, ou Inquisição! O dia será, segundo o Diário de Notícias, o mesmo em que perante D. João III foi lida a Bula Papal que criava a Inquisição Portuguesa na Sé de Évora.

A Inquisição é um fruto do tempo em que foi criada, em que conceitos como a liberdade religiosa não existiam, eram matéria de Estado. A Inquisição era um instrumento da Igreja no combate à heresia, mas sobretudo um instrumento do Rei no domínio dos seus reinos e na consolidação do seu poder. Os Grandes Inquisidores eram invariavelmente membros da família real, escolhidos pelo soberano e nomeados formalmente pelo Papa, e os crimes não eram estritamente religiosos.

O que espanta no artigo do DN de Sábado passado é a ignorância ou má-fé dos intervenientes, a começar pelo jornal, que classifica a notícia como “Igreja Católica”, como se o assunto fosse de hoje, coloca uma fotografia de João Paulo II, com uma legenda em que se diz que o Papa pediu perdão pela Inquisição, numa notícia que apenas diz respeito a uma inauguração paroquial da Câmara de Évora, algures na praça do Giraldo.

Citam-se dois historiadores, Manuel Branco e Francisco Bilou, nunca se mencionando qual o papel de cada um, não se diz qual é o dia explícito da inauguração, nem a hora! Escreve-se que eram queimadas “esfinges” dos condenados em absência, entre outras barbaridades. O historiador Manuel, citado entre aspas, diz “… ossadas de diversas pessoas que morreram enquanto se encontravam detidas nos cárceres da Inquisição e que foram lançadas para a entulheira como se de um animal se tratasse”. Nem o jornalista nem o “historiador” perceberam o erro de concordância no discurso, entre outras calinadas do texto, como esta, atribuída ao tal “historiador” e também entre aspas: “Nalguns casos foi feita uma esfinge [mesmo, tipo egípcia?] da pessoa para ser queimada na praça pública.”

A ignorância é um facto, a má redacção e a má-fé são evidentes, mas a questão que interessa é a da essência da inauguração. Fala-se de intolerância e liberdade religiosa como se a Inquisição actuasse hoje e não tivesse sido pedida há cinco séculos e introduzida há mas de 450 anos. Compara-se a acção da Inquisição com as crises dos refugiados de hoje, como diz o presidente da Câmara de Évora: «”A intolerância, religiosa ou de outro tipo, é um problema que tem de ser banido da sociedade. Esta iniciativa pretende sensibilizar as pessoas para a importância de conviverem com a diferença”, diz o presidente da autarquia, Carlos Pinto de Sá, lamentando que “se continuem a levantar vozes em torno de valores que julgávamos ultrapassados, como a xenofobia perante os imigrantes ou o terrorismo”».

Acaba o artigo com exemplos que parecem ser paradigmáticos mas que revelam à saciedade o lado útil da Inquisição. Cito: «Destino idêntico teve Luis de la Penha, garrotado e queimado na fogueira em 1626, depois de ter ganho fama como vidente e curandeiro. ‘Benzia enfermos, dizendo orações e palavras em voz baixa de modo que se não podiam ouvir e tinha um livro de quiromancia pelo qual vendo a mão de muitas pessoas dizia e adivinhava coisas que estavam por vir’, registou o inquisidor Francisco Barreto, acusando ainda o réu de ter ‘muitos papéis escritos de sua letra, nos quais se continham invocações do Demónio, sortes para adivinhar, caracteres incógnitos e muitas orações supersticiosas e coisas tocantes à danada arte de magia e feitiçaria’.

Nascido em Espanha, Luis de la Penha foi “denunciado, preso e sentenciado pela Inquisição em 1619”, diz o historiador Francisco Bilou. Libertado uma primeira vez, acabaria por ser novamente preso e, desta vez, condenado à fogueira “porque a Igreja não tem mais que fazer com o réu por usar mal a misericórdia que no primeiro lapso lhe foi concedida”.»

O caso do curandeiro é típico: por andar a burlar pessoas com práticas ditas mágicas foi perdoado uma vez. Depois do perdão, continua na sua vidinha airada de aldrabice e burla e à segunda foi demais. Num mundo em que a pena de morte era usual, penso que se pode afirmar que gozou de muita clemência e não teve respeitinho nenhum pelas Leis do Reino depois de um perdão compreensivo.
Hoje temos figurões que aparecem a ler cartas nas televisões, temos os professores Karambas, temos os homeopatas e outros bruxos e videntes que sacam dinheiro aos néscios. É um tipo de obscurantismo que perdurou, de forma que interrogo: a inquisição hoje ainda teria as suas virtudes?
No caso dos curandeiros, poder-se-ia apreciar vivamente as vantagens do Santo Ofício, isto se evitassem a queima e se aplicassem umas multas ou umas temporadas num aljube qualquer; os tempos mudam e os castigos podiam ser mais civilizados. O que é facto é que ter-se deixado de punir legalmente os curandeiros e bruxos foi um retrocesso civilizacional.

O que ressalta da notícia é o zelo moral da classe de alguns historiadores, um zelo moral pós-moderno, anacrónico, que não consegue ver o tempo da Inquisição como um observador imparcial mas como um juiz moral, um zelo obnubilado pelo ódio à actual Igreja Católica, um ódio de hoje e não de quinhentos anos. Cometem assim o erro capital do historiador, o mesmo erro de quem critica Alexandre ou César por matarem prisioneiros e não respeitarem a convenção dos direitos humanos…

0 317

RENATO EPIFÂNIO

Tal como aconteceu em todos os restantes números, também na NOVA ÁGUIA 18 se evocam diversos autores marcantes da cultura lusófona. Neste número, começamos com uma série de textos sobre Ariano Suassuna – textos apresentados num Colóquio promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, em Abril de 2015 – e Vergílio Ferreira, assinalando o centenário do seu nascimento.

Depois, de forma mais breve mas não menos sentida, evocamos uma série de outros autores, a começar pelo nunca entre nós esquecido Agostinho da Silva – transcrevendo a Conferência que, sobre ele, Eduardo Lourenço proferiu num Colóquio realizado no primeiro semestre deste ano, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Em “Outros Voos”, outros temas são abordados – como, nomeadamente, “a cidadania europeia e a construção do futuro da Europa” (por Adriano Moreira), “a importância das diásporas para Angola” (por Carlos Mariano Manuel), “os caminhos da separação e os motivos da reaproximação entre Brasil e Portugal” (por José Maurício de Carvalho), a questão dos “estrangeirados” (por Miguel Real), ou, ainda, “a Renascença Portuguesa e a Seara Nova” (por Pinharanda Gomes).

Em “Extravoo”, publicamos uma série de textos inteiramente inéditos ou ainda muito pouco conhecidos: de Agostinho da Silva, de Raul Leal, de Vergílio Ferreira e de Delfim Santos. Do último, publicamos a sua “Autobiografia”, um texto só em parte até agora conhecido. Desta forma, associamo-nos ao Ciclo Evocativo que decorre neste ano de 2016, com o alto patrocínio do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, cinquenta anos após o falecimento deste insigne filósofo lusófono.

Depois, em “Bibliáguio”, publicamos uma série de recensões sobre algumas obras marcantes para a cultura lusófona publicadas nos últimos meses – nomeadamente: a Paisagem Portuguesa de Carlos Queiroz, o Epistolário de António Quadros e António Telmo, a Última Entrevista à Imprensa de Agostinho da Silva, o terceiro tomo dos textos relativos à Teoria do Ser e da Verdade de José Marinho, e o Dicionário Crítico de Filosofia Portuguesa. Por fim, em “Memoriáguio”, registamos fotograficamente alguns eventos relevantes decorridos no primeiro semestre deste ano. Caso para dizer: o que os nossos “media culturais” esquecem ou desprezam (por ignorância, recalcamento ou má-fé), a NOVA ÁGUIA lembra…

No próximo número, a levantar voo no primeiro semestre de 2017, antecipamos desde já a publicação de uma série de textos resultantes de dois eventos promovidos pela NOVA ÁGUIA e pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono – falamos do Colóquio “Afonso de Albuquerque: Memória e Materialidade”, decorrido em Dezembro de 2015, que assinalou, da forma descomplexada que nos é (re)conhecida, os quinhentos anos do seu falecimento, e do IV Congresso da Cidadania Lusófona, realizado em Março deste ano, que teve como tema “O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – 20 anos após a sua criação”.

O orçamento foi entregue na Assembleia da República. Mais uma vez é um orçamento à medida de Portugal, pequeno, mesquinho, sem rumo, sem uma estratégia para o País. Um orçamento discutido entre as migalhas disponíveis que as esquerdas disputavam. O IMI não ataca quem deveria atacar. É surpreendente que nem PCP nem o Bloco de Esquerda consigam perceber que quem não paga imposto imobiliário são os grandes fundos, que continuam isentos. Ou estão envolvidos ou demonstram um amadorismo inacreditável. O PS sabe do assunto mas convém-lhe que não se mexa nesse vespeiro.

Vamos continuar a ter milhares de apartamentos fechados em condomínios de luxo por todo esse País. Ainda bem que vamos continuar a dispor desse recurso e que os fundos não os venderam ao desbarato, pois a crise que afectaria Portugal seria ainda mais devastadora do que a crise imobiliária do Japão. Felizmente que Bloco de Esquerda e PCP não se lembraram dessa brecha na lei. O que é seguro é que, quando despertarmos da crise, ou quando o turismo e a velhice trouxerem para Portugal uma plêiade de reformados ou de ricaços interessados em passar aqui uma temporadas, esses apartamentos, essas casas, pertença de fundos nacionais e internacionais, vão estar disponíveis e isso contribuirá, gradualmente, para um aumento da receita fiscal, à medida que esses bens entrem no mercado.

No entanto, se taxar ao nível máximo pudesse criar uma catástrofe económica, seria razoável taxar essas casas fechadas a um nível mínimo razoável. Isso motivaria a colocação das casas no mercado, por parte dos fundos, e contribuiria para evitar a especulação imobiliária e o preço excessivo que o imobiliário de luxo começa a sofrer devido à bolha turística de Lisboa e Porto. Taxar, ainda que muito pouco, e gradualmente, os fundos imobiliários, seria actuar de forma pró-activa na regulação do mercado que começa a dar sintomas especulativos, com prováveis consequências a breve trecho na inflação.

Seria importante um estudo sobre o assunto antes de actuar, um estudo rápido e bem feito. Usar os impostos como forma de governar o País seria inteligente, não como forma de castigar quem trabalhou ou quem poupou. Por outro lado, apesar de serem medidas moralistas e castigadoras da liberdade individual, o sinal social de castigar o açúcar e as bebidas alcoólicas, as munições e o tabaco são bem-vindos. Evidentemente, não passam de paliativos no orçamento, mas temos de concordar com o princípio.

*

Na passada segunda-feira deu-se mais uma manifestação de taxistas. Resolveram, de forma selvagem, bloquear a Rotunda do Relógio, naquilo que mais é um crime de atentado à segurança da circulação rodoviária do que uma verdadeira manifestação. Cada largada de taxistas, como a de segunda-feira, é um tiro no pé dado pelos próprios.

A classe, ou pelo menos a sua vanguarda, é tão anedótica e tão primitiva, sem alfabetização básica, sem princípios, tão brutal nas suas acções, que todo um País se voltou contra os taxistas e a Uber ganhou esta guerra antes sequer de a travar. Os taxistas resolveram suicidar-se em público perante as câmaras de todas as televisões e saíram com o rabo entre as pernas, quando Portugal dormia alegremente sem se preocupar mais com o assunto.

Tempos melhores virão e o sector vai modernizar-se e servir melhor o público. Que venha a extinção do alvará e que passe a existir uma licença sem contingentação, isto sem aumento de preço praticado pelo actual alvará, que ronda as poucas centenas de euros, pago às câmaras municipais. O mercado ditará os números de táxis a operar e acabe-se com este sistema mafioso de traficância de licenças e alvarás que perpetua uma classe miserável. Os melhores, mais educados, com melhores carros, com mais asseio, com mais preparação para servir o público ocuparão os postos de trabalho que os dinossauros vão deixar, nomeadamente pela substituição natural devida ao envelhecimento da classe e pela automação que vai substituir motoristas por carros autónomos dentro de vinte anos no máximo.

A manifestação de segunda-feira é uma manifestação de dinossauros contra o asteróide que atingiu a Terra.

Em primeiro lugar gostaríamos de elogiar o sucesso de António Guterres como futuro Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas. Provou que era o melhor e que o melhor deve ocupar o lugar. Apesar de não ser do sexo certo, apesar de não ser da cor ou religião certa, provou que o melhor candidato deve exercer o lugar.

Não faz o menor sentido que alguém menos preparado, menos empenhado, ou com pior programa e, cumulativamente, num lugar tão sensível como o de SG da ONU, deva ser eleito apenas porque é mulher ou não é da parte certa do sistema de quotas rotativo, em termos rácicos e geográficos, que tem imperado até hoje na eleição de uma peça tão crítica no jogo das nações. Um sistema miserável que teve como expoente máximo (ou mínimo) no cargo de SG da ONU uma espécie de assessor do ministro dos negócios estrangeiros da Coreia do Sul, figura insignificante, que, cúmulo dos cúmulos, andou a apelar ao voto numa “mulher de Leste”, numa perpetuação do chamado politicamente correcto que acaba a promover a mediocridade de uma Kristalina Georgieva à custa da transparência e do bem estar global do Mundo inteiro.

Ver Ban Ki Moon a apoiar uma “mulher de Leste”, qualquer que esta fosse, é uma coisa – afinal, este SG é o apogeu do ‘politicamente correcto’ que elege um irrelevante, um nulo, um incapaz de resolver qualquer coisa, um discursador de banalidades e de lugares-comuns, porque é isso mesmo, um nulo, incapaz de incomodar, que não obsta às negociatas, uma figura do sistema de compromissos e de equilíbrios desastrosos, um sistema em que não existem estadistas mas sim políticos. Ver Angela Merkel e a comissão europeia a suportá-la é outra, e demonstra uma desastrosa visão do Mundo.

Putin é uma espécie de Czar, afirma-se como um estadista. Pode servir interesses obscuros, mas é o único que sabe o que está a fazer no círculo de interesses do Mundo. Atrás de Putin temos os chineses, um colectivo muito experiente, sem personalidades marcantes mas com um sistema de mandarins, os cultos funcionários imperiais chineses, que ressurgiu nos últimos trinta anos, que dispensou de facto o comunismo e que funciona como uma aristocracia, disfarçada de comité central, um sistema acéfalo em que o presidente é uma cópia da figura decorativa que muitos imperadores chineses assumiram no passado; no fundo, um “primus inter pares”. Este sistema é muito eficaz e ocupa um lugar que a pouco e pouco será primacial, um retorno muito forte ao sistema internacional, e não apenas regional, desde que a dinastia Ming se retirou voluntariamente do consórcio das nações. Face a estes potentados extraordinários, o Ocidente tem os tontos dos ingleses, os néscios dos franceses e um fraco presidente americano. Aliás, não há presidente dos Estados Unidos, nem vai voltar a haver nos próximos anos. O último digno desse nome foi Ronald Reagan, e mesmo esse teve as suas fraquezas.

O Ocidente vê-se assim órfão. O único que se afirmou no plano da ONU foi um engenheiro, formado no Instituto Superior Técnico, a grande e quase única instituição de ensino portuguesa digna de ombrear com as grandes escolas do mundo. Afirmou-se apenas por demonstrar ser competente, sério, honrado e humilde. Como português, tenho de elogiar e sentir-me honrado com a distinção que alcançou. Mesmo sabendo que Guterres foi eleito fazendo compromissos, mesmo sabendo que vindo de uma potência decadente, um pobre País fraco do Sul da Europa, também beneficiou da complacência dos grandes que preferiram apostar num candidato de consenso a tentar, pela força, impor um candidato preferencial que seria sempre vetado pelos outros.

Apostar em Kristalina via-se à légua que seria afrontar a Rússia e favorecer imediatamente Guterres. A Rússia poderia votar em Bukova, mais próxima do modelo psicológico do Kremlin, remotamente “socialista”, mas nunca poderia votar em Kristalina. Mal a vice-presidente da comissão europeia apareceu na liça, Guterres eliminou imediatamente as dúvidas que suscitaria entre os russos. Os votos de desencorajamento que surgiram quase sempre, da Nova Zelândia e da Rússia, desapareceram imediatamente e Guterres, voilá, foi eleito, curiosamente com o apoio da Inglaterra e da França, que aproveitaram para desfeitear a Alemanha e a Comissão, pela calada. Resta a espantosa idiotia de Merkel, incapaz de ver o óbvio, e o seguidismo também acéfalo do PPE e da comissão europeia, coroado pelo coraçãozinho hipócrita de Juncker no cartão que mandou a Guterres. Tudo muito pouco ediricante.

Para a histórica fica Guterres que, depois de João XXI, como dizia Adriano Moreira, é a segunda figura portuguesa a ocupar um lugar de liderança mundial. Parabéns a Guterres por se ter afirmado. ■

CAPA

SIGA-NOS