Opinião

Reza o ‘Expresso’ a 1 de Outubro, na sua edição online (cito de memória): “Não deixo cair um amigo”, disse ainda o sr. Mário [qualquer coisa, pois infelizmente não retive o nome do senhor], ao explicar que é amigo da candidata “há sete anos”, com quem “manteve uma intensa relação de trabalho no Parlamento Europeu”. “Pude verificar as suas qualidades de trabalho”, acrescentou, esclarecendo que o convite para colaborar na sua candidatura surgiu “há dois anos“, quando Kristalina Georgieva colocou a hipótese de concorrer”, não tendo visto “razões para deixar de trabalhar com ela por ter aparecido um compatriota na corrida”.

Quando penso em nomes semelhantes da história de Portugal, nomes de senhores e senhoras que foram amigos de figuras estrangeiras, lembro o galego Fernão Peres de Trava e D. Tareja, essa putativa portuguesa antes de o ser. Lembro Leonor Telles, mais conhecida por “a aleivosa”, amiga de João Fernandes Andeiro. Lembro Miguel de Vasconcelos, amigo de Margarida de Sabóia, vice-rainha de Portugal. Lembro a notória amizade entre Junot e Pedro José de Almeida Portugal, valente general, apesar de ser um traidor à Pátria, marquês de Alorna, morto em batalha em Königsberg em 1813 à frente da Legião Portuguesa e que Junot classificava de “muito útil”.

Outro amigo de Junot seria ainda o notório maçon e marechal de  campo Gomes Freire de Andrade, recebido até por Napoleão, hoje com direito a nome de rua. Começou por ser partidário dos ingleses, virou a casaca depois da primeira invasão dos franceses, acabando ao seu serviço. Mais tarde conspirou contra o rei e veio a ser enforcado por traição à Pátria, pena relativamente injusta à data da sua condenação, depois de obtido o perdão real; mais justa teria sido se fosse enforcado logo após o seu regresso em 1815, depois de ter servido contra Portugal ao serviço de Napoleão. Hoje em dia, apesar de ter sido um vira-casacas e um traidor, ainda é reverenciado pelas esquerdas como um modelo e mártir da liberdade! Pamplona Corte Real, marquês de Subserra, foi outro traidor à Pátria ao serviço de Napoleão; participou, inclusivamente, na terceira invasão francesa, comandada por Massena.

Já o brigadeiro da Armada Portuguesa, Marino Miguel Franzini, apesar de ser filho de um veneziano, mal entrou em Espanha, forçado pelos franceses, como subchefe do estado-maior da legião portuguesa, desertou e regressou a Portugal, vindo a ser um reconhecido cientista e militar, falecendo em 1861. O seu nome, apesar de ser leal à Pátria, não veio a ser conhecido, ao contrário dos traidores que acabamos de citar. O general Francisco Silveira, primeiro conde de Amarante, recusou colaborar com o inimigo, demitiu-se, sublevou-se e levantou Trás-os-Montes contra os franceses, combatendo sem meios com as rijas gentes de Trás-os-Montes mas quase sem armas de fogo. Lutou ferozmente contra a segunda invasão de Soult, sob o comando de Wellesley (futuro marquês de Torres Vedras e duque de Wellington), combateu em inúmeras batalhas em que se cobriu de glória, quase ninguém se lembra do seu nome.

As comparações que podem surgir com os tempos de hoje são injustas. São injustas porque, apesar de alguns destes, e muitos outros se poderiam juntar, serem nomes de traidores, pelo menos foram, em algumas circunstâncias, merecedores de figurarem em livros de História.

Hoje em dia, o governo e o Presidente de Portugal envolvem-se numa campanha para fazer eleger António Guterres como secretário-geral da ONU. Não será bem o mesmo que dobrar o Cabo das Tormentas ou descobrir a Índia ou vencer no Passo do Cambalão ou derrotar os franceses, mas é um objectivo nacional que pode, pelo menos simbolicamente, projectar o nome de Portugal e elevar um pouco o nome do País entre as nações. Guterres não é aqui o sr. engenheiro que meteu o rabo entre as pernas e fugiu de governar o País. Guterres é um português, e esse é o único capital simbólico que detém junto de nós, facto que nos força, apesar de contrariados, a defender o seu nome e tudo fazer para que ganhe as eleições. A nossa diplomacia está envolvida e o objectivo é desígnio do País. Não se trata de um traidor ou de um renegado que tenha combatido contra Portugal ao serviço de potências estrangeiras, caso em que seria desculpável não o apoiar.

No entanto, existe um sr. Mário nos corredores europeus que apoia uma tal de sr.a Cristalina, que é uma espécie de búlgara. A razão é que essa sr.a Cristalina é amiga do sr. Mário há sete anos e amigos não se deixam cair. O sr. Mário está no seu direito, e nós também temos direito a ter uma opinião.

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José Sá Fernandes, vereador da “Estrutura Verde”, anunciou mais cento e cinquenta quilómetros de ciclovias em Lisboa (existem actualmente cerca de sessenta). Anunciou ainda João Dias, da EMEL, a empresa dos parquímetros, a compra de 1.410 bicicletas por vinte e três milhões de euros. Estava muito contente porque a proposta inicial da Câmara de Lisboa previa que o sistema fosse instalado por um valor de adjudicação de vinte e oito milhões.

Os números podem parecer naturais à primeira vista, mas dividindo 28 milhões, que a Câmara achava natural à primeira vista, por 1.410 bicicletas, obtemos um valor unitário de vinte mil euros por bicicleta! O valor final, que deixa os responsáveis tão contentes, é de apenas de dezasseis mil e trezentos euros por bicicleta.

Repare o leitor que se a Câmara resolver pagar uma bicicleta a cada alfacinha em idade de andar na via pública, excluindo também os doentes, poderia gastar cerca de cento e vinte euros, o que já compraria uma bicicleta com garantia vitalícia de uma gama superior às que andam aos trambolhões nos sistemas de alugar partilhado. Pior: a Câmara, além de pagar mais de dezasseis mil euros por bicicleta, ainda vai dar os rendimentos do aluguer das mesmas a uma empresa privada.

Imagine o leitor a quem vai a Câmara sacar os dinheiros que vai pagar por este negócio vergonhoso? Ao estacionamento, pois claro. São menos 150 quilómetros de passeios, ruas de circulação e de estacionamento para ficarem desertos.

Será com estas políticas que se vai obrigar os lisboetas e turistas a andarem por montes e vales com o traseiro em cima de uma bicicleta e reduzir-se a poluição e o trânsito? Nem pensar! A cidade tem montes e vales que nunca mais acabam e só atletas bem preparados poderão fazer uma deslocação interior para o trabalho de bicicleta. Por outro lado, Lisboa perde cada vez mais habitantes jovens para a emigração e para as periferias. Quem pode atravessar as pontes de bicicleta? Proibido. Quem virá de Cascais, Sintra, Cacém, Região Oeste, Vila Franca ou da Azambuja de bicicleta? Só um louco que goste do desporto radical de ser atropelado por camiões em bermas estreitas e fossas profundas e de apanhar um cancro o mais rápido possível por respirar escapes no ambiente hostil à bicicleta que rodeia as grandes entradas de Lisboa. De facto, há uns doidos que, de manhã, resolvem fazer a marginal de bicicleta, ocupando alegremente uma faixa, o mais ao meio possível, e causando engarrafamentos monumentais, passando sinais vermelhos nos semáforos, como se o Código da Estrada não fosse para ecologistas.

Estas ciclovias não vão reduzir o trânsito pendular que enche a cidade de Lisboa. Servirão para continuar desertas, como as que existem nas avenidas novas, onde a frequência de ciclistas deve ser de 8 a 10 travessias por dia. Servirão apenas para servir um capricho pretensamente ecologista de pessoas sem a noção da realidade que acham que é bonito haver ciclovias, pagas a custos astronómicos, apenas por haver; e que antes, no caso do vereador Sá Fernandes, conseguiu dar cabo da vida a centenas de milhares de utilizadores da auto-estrada A5 quando andou a empatar a construção do túnel das Amoreiras com providências cautelares. Aliás, uma obra notável que muito ajudou Lisboa.

Tudo que se tem feito no trânsito em Lisboa está errado. Os estacionamentos periféricos são encerrados, como no Campo Grande. Os transportes públicos são cada vez piores. O estacionamento é eliminado, provocando estacionamento em segunda fila, que não é fiscalizado.

Vinte e três milhões de euros serviriam para reparar a rede do metropolitano, com carruagens canibalizadas para peças e uma rede a cair de podre, estações em ruínas, grafitis por todo o lado, sujidade e, pior de tudo, cada vez mais tempo de espera e deslocação em condições infra-humanas devido ao excesso de lotação inerente.

O que se faz em Lisboa é torturar o lisboeta e o visitante que não pode circular de carro nem de transportes públicos que não andam, promover o turista, eliminar o residente português, e construir ciclovias fantasma para alegrar o senhor Sá Fernandes, elimina-se a calçada portuguesa e descaracteriza-se a cidade em projectos miseráveis para uns paisagistas justificarem ordenados e poderes mesquinho pseudo-sapientes. Na duque de Ávila conseguiu-se estar 11 meses a pavimentar noventa e sete metros de rua! E viva a ciclovia mais os dezasseis mil euros por bicicleta, como se fossemos o país mais rico do mundo. Ou então… tire o leitor as suas conclusões.

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Nuno Alves Caetano

Se no primeiro caso não restam dúvidas sobre de onde veio a iniciativa – Bloco de Esquerda –, no segundo, consta que terá surgido em conluio entre o BE e o PS. Venham de onde vierem, o significado é o mesmo: caminha-se para a instauração do verdadeiro socialismo marxista-leninista tão do agrado da extrema-esquerda portuguesa, cujo processo teve início no famoso e famigerado PREC, foi estipulado na Constituição Portuguesa aprovada após o 25 de Abril e foi interrompido em 25 de Novembro de 1975, até à tomada de posse do actual desgoverno.

A mentora do imposto sobre imóveis, a deputada Mortágua, do BE, referiu durante uma entrevista que a medida só atingirá oito mil portugueses e que tem como objectivo angariar duzentos milhões para aumento de pensões e afins. Realmente, se alguma dúvida existia, dissipou-se: esta gente perdeu, de vez, a tal vergonha. Então, só há oito mil pessoas em Portugal com património acima de € 500.000 (ou que seja € 1.000.000)? E o imposto cobrado a essas pessoas (as tais oito mil) vai render duzentos milhões?

O pasmoso, e revoltante, é o quase silêncio do PSD e o do CDS quanto à denúncia deste embuste; manifestam-se contra o imposto invocando, e muito bem, a questão do investimento, mas continuam com “vergonha” de chamar os bois pelos nomes, isto é, de denunciar a mentira do triunvirato PS/PCP/BE e anunciar qual o verdadeiro objectivo destas intenções, que é a quase estalinização do País.

  • Leia este artigo na íntegra na edição impressa desta semana.

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 Luísa Venturini

Todas as vidas têm muitas histórias. Umas boas para recordar às lareiras dos nossos e que nos aloiram o coração, outras boas para deixar que o oblívio as apague, de tal modo nos enegrecem a alma e acabrunham o espírito. E mesmo quando não somos exímios nessa faculdade do esquecimento, por vezes conseguimos colocá-las mais do que à distância do tempo, à distância do patamar em que nos somos hoje, à distância do mundo em que nos habitamos hoje, mesmo com os seus ontens e amanhãs. E o tempo passa e nós quase acreditamos na nossa verdade reconstruída, impossibilitados que estamos de continuar a viver, ou a deixar viver, se essas tais histórias perversas continuassem a pertencer ao nosso quotidiano.

Só que, às vezes, por um malabarismo das circunstâncias, como esqueletos a saltarem dos armários, essas histórias encolhem cruelmente todas as distâncias e caem-nos em cima, com todo o espalhafato, como se acabadas de ocorrer. Nenhuma cicatriz resiste, nenhum escudo funciona, nenhuma estrutura fica ilesa. O sentido cénico aperalta-se, algo viciosamente, com o factor surpresa, tão indispensável a determinadas tramas. E aí o cataclismo no presumível alvo é praticamente inevitável.

É muito difícil coabitar com a falta de vergonha e com a incapacidade de respeito que molda a natureza de algumas pessoas. Tenho dado comigo, ao longo dos anos, a ter eu vergonha por elas e a poupar-lhes embaraços, fiada que algum resquício ético possa assomar-lhes à consciência. Geralmente, a minha lúcida generosidade é tomada por tontice e eu encolho os ombros, convicta de que não podem nem sabem mais. Mas, fatidicamente, quando uma dessas tais histórias salta no tempo para se manifestar no hoje, chega o momento de dizer basta, porque, nessa aterragem, chegam-nos à tona todas as mentiras em que fingimos acreditar para evitar embaraços e outras penas, todos os dolos que nos roubaram o futuro e a alegria, todas as facturas que tivemos de pagar à conta daquelas que nunca nos pagaram.

A vida prepara partidas e podemos dar connosco prontos a defender, nem que seja com desgosto, o respeito que nos temos. Caríssimo pode ser o preço. O pior, porém, será verificar a inutilidade do gesto. De facto, como diria o Chico, “o que não tem vergonha nem nunca terá” e nós a correr o risco de parecer, se não mesmo concluir, que somos nós “o que não tem juízo”.

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RENATO EPIFÂNIO

Ao longo da história da filosofia, já foi mil e uma vezes salientada a relação essencial entre o pensamento e a linguagem. Esta não é apenas um mero instrumento que o pensamento usa para se exprimir. Dado que todo o pensamento é sempre já verbal – ou seja, dado que não há um pensamento que exista antes da linguagem –, a linguagem é, dir-se-ia, a “matéria” através da qual o pensamento se corporiza, se constitui.

No decurso da minha formação filosófica, o autor que foi mais determinante na sinalização dessa relação essencial entre o pensamento e linguagem foi o alemão Martin Heidegger. Ao longo de toda a sua obra, essa sinalização é, com efeito, uma constante. Daí que o exercício do pensamento em Heidegger seja, desde logo, um exercício linguístico. Ninguém mais do que ele, no século XX, explorou os limites da língua alemã.

Sendo eu português, considerei então que o meu futuro filosófico deveria passar por um trabalho análogo com a língua portuguesa. Daí o meu interesse por alguns filósofos que, em Portugal, independentemente das teses defendidas, fizeram com a língua portuguesa um trabalho análogo ao que Heidegger fez com a língua alemã. Independentemente das teses defendidas – que são de facto muito diferentes –, o filósofo português que mais me interessou foi então José Marinho: a meu ver, ninguém mais do que ele, no século XX, explorou os limites da língua portuguesa.

Daí também, tal como em Heidegger, todo o interesse de José Marinho, que acompanhei, para linguagem poética – nomeadamente, pela linguagem poética de Teixeira de Pascoaes, o seu poeta de referência. Daí ainda a sua teorização do conceito de “filosofia situada”, que desenvolveu em vários textos, em diálogo com o seu “irmão espiritual” Álvaro Ribeiro, autor da célebre obra “O Problema da Filosofia Portuguesa” (1943), que muita polémica causou na altura.

Nessa obra, em particular, expõe Álvaro Ribeiro a sua visão da “filosofia portuguesa” e de como esta é expressão (máxima) da própria língua portuguesa – nas suas palavras: “a filosofia só irrompe da sua originalidade quando atinge, pelo vigor e pela autonomia da expressão, e dentro da particularidade de cada idioma, um modo próprio de existência” (p. 11); “Vencer a opacidade do idioma português, dar a expressão dialéctica ao tipo de imaginação e de ideação que nas obras de arte se revela em beleza exuberante, dar transcendência à subjectividade, é – exactamente por virtude da imagem verbal como pela força do raciocínio – desvendar a existência de uma autêntica filosofia nacional.” (pp. 73-74).

Morreram, à data deste artigo, dois formandos do curso de comandos. Dois jovens, militares, que pretendiam acesso ao escol das forças especiais portuguesas.

Ao longo dos anos têm falecido formandos deste curso, em situações, pois, de treino. Ao contrário dos cursos de fuzileiros, de pára-quedistas ou das tropas de operações especiais de Lamego, mais conhecidos por ‘rangers’, o curso de comandos é particularmente propenso a mortes de jovens instruendos.

No caso vertente, e apesar dos cuidados que estas situações sempre merecem, não estamos em face de uma situação única, quer na escala de tempo longa – estes acidentes têm ocorrido desde há mais de vinte anos – quer na escala de tempo curta. Os jovens candidatos ao curso de comando que recolheram ao hospital foram seis, morreram dois e dois ainda estão, à data deste artigo, nos cuidados intensivos.

Por consequência, esta situação não é apenas um acidente isolado devido, eventualmente, ao voluntarismo dos jovens ou a uma particular condição física específica não evidenciada em testes médicos.

Estas situações devem-se, segundo especialistas contactados pelo autor, a diversas ordens de factores.

O primeiro será insuficiente selecção e os testes, físicos e psicológicos, realizados aos candidatos.

A segunda causa será a deficiente preparação dos instrutores, jovens oficiais subalternos, levando a exigências físicas absurdas, possíveis racionamentos de alimentos e água, desrespeitando a duplicação ordenada pelos directores dos cursos. Os oficiais subalternos, matarruanos, com problemas de afirmação e com tendência para se armarem em “rambos” de trazer por casa, podem ter originado esta grave crise. Não afirmamos que possa ser esta a causa fundamental, mas a sequência destes acidentes no comandos, tropas cujas exigências em matéria de cursos não são maiores do que as dos ‘rangers’ ou fuzileiros, leva a crer que os instrutores não cumprem os requisitos de sensibilidade e inteligência para as dificuldades dos cursos e para a condições particulares de cada curso.

Em terceiro lugar, temos o problema do médico que lidou com o caso, que por inexperiência, por insensibilidade, ou por não ser especializado nestes casos, não se apercebeu atempadamente da gravidade do estado dos jovens e os deixou em “observação” na enfermaria. A transferência a tempo para um hospital especializado, evitando seis horas e meia na enfermaria, poderia ter salvado as vidas e evitado graves repercussões na saúde dos sobreviventes. O comportamento deste médico militar deve ser investigado com grande rigor.

Finalmente, resta a questão dos superiores. Os instrutores deveriam exemplificar todos os passos dos exercícios e realizá-los em conjunto com os instruendos, coisa que, sabemos bem, não realizam. Os oficiais superiores deveriam acompanhar o curso e intervir em caso de ruptura das condições de segurança. Os oficiais superiores e directores do curso são responsáveis pela escolha apropriada dos instrutores, e são também responsáveis pela segurança dos instruendos, jovens que confiaram na instituição militar. Os ‘rangers’, por exemplo, têm como princípio a confiança absoluta dos homens nos seus oficiais. Que confiança podem ter os comandos nos seus oficiais, se estes deixam um curso de comandos acabar assim? Seis homens gravemente feridos, dois dos quais mortos?

Alguma coisa falhou gravemente. O inquérito ditará o que foi. Uma das razões acima será eventualmente invocada, mas a responsabilidade máxima é do comando do curso e do comandante actual do regimento de comandos que formata subalternos à sua imagem.

Houve certamente incúria. O exemplo de ‘rangers’ e fuzileiros, a sensibilidade e respeito que nestas unidades se tem pelos seres humanos à sua guarda, deve ser também o mote para os comandos no futuro. Forças que fazem falta ao País e que tanto o dignificaram no passado não podem ser meros conjuntos de “rambos” ignorantes, recalcados, de camuflados apertados de forma ridícula para mostrar músculo mas impedir movimentos reais em combate…

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RENATO EPIFÂNIO

É sabido que, entre os pensadores portugueses contemporâneos, o igualmente açoriano Antero de Quental foi um dos que mereceu maior atenção a Gustavo de Fraga, tendo-lhe dedicado alguns textos. Aqui, determo-nos num deles, sugestivamente intitulado “A síntese impossível” (In AA.VV., Pensar a Cultura Portuguesa – Homenagem ao Prof. Doutor Francisco José da Gama Caeiro, Lisboa, FLUL/ Colibri, 1993, pp. 151-165).

Aí, começa Gustavo de Fraga por defender que “sob influência de Hegel, o seu eclectismo foi guiado pela ideia de desenvolvimento, o que o conduziu a investigar qual o pensamento filosófico mais real e, portanto, na sua época mais verdadeiro. Uma das suas últimas questões foi a religiosa, que procurou resolver no terreno do panteísmo espiritualista europeu, entre Bruno, Schelling e Eduard von Hartmann (este último seu contemporâneo e como ele nascido em 1842), partindo da convicção da inconsciência do Eu absoluto” (ibid., p. 151).

Salvaguardando, logo de seguida, que “é impossível separar a sua tentativa de síntese religiosa das suas ideias morais e metafísicas”, Gustavo de Fraga irá depois defender que “a unidade do acto filosófico exige que tenha duas raízes, uma na especulação, outra na moral” (ibid., p. 154), citando o próprio Antero, a respeito da “tarefa” da filosofia: “sem arredar pé do terreno do espírito moderno, chegar teoricamente até aquela profundidade de compreensão do ‘homem interior’, como eles diziam, a que os místicos chegaram”.

Seguindo a via de “um eclectismo ou um sincretismo mais ou menos sistemático” (ibid., p. 156), Antero procurará chegar a uma “doutrina mística definitiva do espírito ocidental, superior à que o Oriente elaborou no Budismo” (ibid., p. 157) – citando o próprio Antero: “Creio que a obra destes séculos mais próximos será, não destruir o Cristianismo (quero dizer, o espírito cristão, o ponto de vista da transcendência metafísica e moral) mas completá-lo com a ciência da realidade. A religião do futuro, de que nos fala Hartmann, não pode ser outra, e não julgo necessário ir procurar [a]o budismo, quando o que nele há de melhor se encontra no Cristianismo, e com uma forma sentimental mais pura, mais humana.”.

Ressalvando que “esta liberdade com que Antero de Quental utiliza o Cristianismo (no sentido de ‘espírito cristão’) pouco tem a ver com o Cristianismo como religião revelada”, Gustavo de Fraga citará de novo Antero, a respeito de Francisco de Assis: “Considero-o como o primeiro dos precursores do espírito moderno, digo, o espírito moderno como representado por Bruno, Schelling e Hartmann, do Panteísmo espiritualista.” (ibid., p. 159). Apesar de todo o seu misticismo – “quis ser ‘místico dentro da realidade’, porque fora disso só via ‘um novo paganismo’” –, Gustavo de Fraga assinala “a insuficiência da sua ideia do divino”.

Ainda para Gustavo de Fraga, essa “insuficiência” decorre da anteriana atracção – fatal, dir-se-ia – pela ideia de “inconsciente”, que o leva à procura da “dissolução do eu” e da “negação da personalidade”.

Um governo de um partido minoritário no parlamento, o Partido Socialista, cujo programa é relativamente central, e com apoio conjuntural no parlamento, nomeadamente de partidos mais radicais, Partido Comunista e Bloco de Esquerda, mais os folclóricos verdes e os tontos dos animais quando calha, à esquerda, mas pressionado constantemente por partidos à direita, Partido Social Democrata e Centro Democrático Social, que sem hesitar negam qualquer apoio ao governo, tem de fazer cedências à mesma esquerda. O governo desvia, assim, o seu programa do ponto central para a ala canhota, para conseguir fazer passar as suas medidas e continuar a ir ao pote das moedas que constitui o orçamento de Estado, pago com o dinheiro dos portugueses.

Isto resulta numa governação sem estratégia nem rumo, sem teleologia. Isto, em política normal, como vem nos livros, é um problema crucial do nosso sistema político actual. Não é possível ao PS conseguir imaginar uma política coerente. Por exemplo: aumenta o gasóleo mas dá benesses a uma casta de “profissionais” que constitui uma excepção inconstitucional e injustificada perante os outros cidadãos que têm de se deslocar, nomeadamente por necessidades também profissionais; os exames, ou a sua remoção, constituem outra cedência ao facilitismo esquerdista, numa lista que poderia ser exaustiva se este jornal tivesse um número infinito de páginas.

A posição em negação total da oposição, sobretudo no PSD, é duplamente desastrada. Primeiro, não propõe nada de construtivo: é, pois, loso camente reaccionária, preguiçosa, negativista (dou como exemplo a posição esquizofrénica com as sanções, que seriam óptimas para “malhar” no governo actual mas péssimas porque prejudicariam Portugal e, contraditoriamente, seriam responsabilidade, sem o ser, do anterior executivo). A segunda razão é mais táctica e menos filosófica: negando totalmente as propostas do PS, a oposição entrega a governação de bandeja à chantagem da esquerda. O PSD espera que esta política, como por milagre, faça o governo cair e provoque novas eleições.

É claro que uma política negociada ponto a ponto, apoiando a esquerda moderada contra a esquerda radical em medidas menos fracturantes, apoiando o governo em medidas sociologicamente mais de direita, propondo ideias moderadas ao encontro do centro esquerda, ideologicamente o ponto focal do PS, conjugando interesses, de forma a minar a confiança da esquerda radical no governo e no PS, criando factos políticos e intrigas políticas entre os dirigentes dos diversos partidos da chamada geringonça que apoia o governo, seria a melhor forma de fazer oposição, servindo também o País. Mas para isso ter efeito seria necessário o PSD ter um dirigente inteligente, dúctil, diplomático, coisas que Passos Coelho não é nem nunca será.

Estamos assim condenados a ter um País sem rumo, a navegar à vista, entregue a múltiplos interesses. Quando acabar a geringonça, nem as estradas do país serão do Soberano, ao contrário de Dom João II que, pelo menos, detinha as vias de comunicação. Tem uma enorme vantagem para Portugal! É melhor um País sem rumo, sem estratégia, do que um País com mau rumo, um rumo péssimo, um rumo de saque. E aqui dou como exemplo o governo Sócrates, que entregou todos os recursos, e isto num tempo de abundância, a interesses obscuros.

Um País que entregou a energia ao saque dos chineses e das parcerias público-privadas das chamadas energias renováveis, que provocou termos hoje a energia mais cara da Europa face às necessidades e aos rendimentos nacionais, factor que atrasará o desenvolvimento e a saída da crise muito mais do que os colégios privados financiados com fundos públicos. Um problema que a geringonça não ataca, porque os interesses obscuros, por maioria de razão, não saíram do aparelho do PS e a esquerda radical anda entretida com as 35 horas e sonhos trotskistas e estalinistas, como se mandasse mesmo alguma coisa.

O saque instalado continua em vigor, mas novos saques, com este sistema, serão difíceis de instalar. Seria melhor ter um estadista com rumo e força para fazer política, mas esse estadista não é António Costa, logo é melhor que que assim, por enquanto…

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RENATO EPIFÂNIO

Foi indisfarçável o júbilo com que muitas figuras da nossa classe político-mediática seguiram a (mais recente) tentativa de golpe de Estado ocorrida na Turquia, em meados de Julho, a ponto de alguns terem mesmo falado de um “25 de Abril”.

A menos que considerassem que o nosso 25 de Abril foi um golpe de Estado feito à revelia do Povo – o que não me pareceu que fosse o que queriam defender –, estes “entusiasmos”, passe o eufemismo, são a nosso ver graves, porque denotam um olhar completamente enviesado sobre o que deve ser a política externa dos países europeus, por extensão, de todo o Ocidente, que persiste no erro de querer manter um mundo à sua imagem e semelhança.

A questão crucial é aqui a seguinte: deveria a Europa apoiar um golpe de Estado que, contra a manifesta maioria da população turca, visasse criar um Estado realmente laico, à imagem dos Estados europeus? Por muito que isso choque a boa-consciência europeia, a resposta é óbvia: não!

Enquanto não percebermos isso – que há países em que grande parte da população despreza por inteiro o “superior modelo democrático europeu” –, continuaremos a cometer erro após erro. Só quando aceitarmos essa evidência – que nem todos os povos do mundo querem (con)viver como os povos europeus – é que poderemos vir a ter, enfim, uma política externa lúcida e operativa. Porque não temos que ter pactos de amizade com todos os regimes do mundo. Basta-nos ter pactos de não agressão.

Não nos parece, porém, que a Europa esteja disposta, no imediato, a aceitar essa evidência. E por isso, com todas as nefastas consequências, irá prosseguir na sua obsessão de “libertar” o resto do mundo, a começar pelo mundo muçulmano, mesmo contra a sua vontade expressa. O autoproclamado Estado Islâmico só poderá agradecer tamanha “generosidade”. Assim, será bem mais fácil continuar a recrutar candidatos a terroristas-suicidas, para cometerem crimes tão hediondos como aquele que ocorreu no dia anterior, em Nice.

E não usem, por favor, o argumento do acesso ao petróleo para legitimar ingerências nos países árabes – estes continuarão a vender petróleo à Europa porque isso é do seu interesse vital. E também não venham com o fantasma do Califado europeu – o extremismo islâmico quer consolidar-se como força hegemónica no mundo muçulmano, não no “mundo infiel”. E quanto ao argumento de que o Estado Islâmico contraria a “essência do Islão”, lamentamos desiludir: o Islamismo, como todas as demais religiões, é passível de ser seguido das mais diversas formas. Nem o Cristianismo era, a nosso ver, essencialmente laico no plano político – foi a sua concretização histórica, sobretudo na Europa, que o levou a afirmar-se assim.

“O Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social enviou para o Departamento de Investigação e Acção Penal de Lisboa (DIAP) uma auditoria pedida pelo anterior Executivo à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML)”.

A notícia foi avançada no último sábado pelo semanário ‘Expresso’, que confirmou, junto do gabinete da procuradora-geral da República, que os resultados da auditoria à instituição dirigida por Pedro Santana Lopes estão a ser “apreciados no âmbito de um inquérito que corre termos no DIAP”. “Recorde-se que o antigo primeiro-ministro foi reconduzido em Março pelo actual Governo no cargo de provedor da SCML, que ocupa desde 2011”.

Vamos analisar esta notícia em detalhe. Foi publicada pelo ‘Público’ e corresponde a uma auditoria velha de 2015, pedida então para impedir o social-democrata Santana Lopes de concorrer a presidente da república, provavelmente por gente ligada ao CDS dentro do ministério da tutela, a segurança social, ou então por socialistas em conluio com centristas, dentro da mesma tutela da segurança social, que pretendiam minar o apetecido lugar de provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Provavelmente a justificação funciona nos dois casos, e tentaram matar dois coelhos com uma cajadada.

Hoje em dia a notícia é desenterrada, isto porque Santana Lopes pondera concorrer a presidente da câmara de Lisboa. Anunciou que até final de Julho decidiria se avançava. Note-se que não há nenhuma ligação entre a auditoria e o nome de Santana Lopes.

A notícia é construída de forma insidiosa: primeiro fala-se do anterior Executivo, mas não se explica em que contexto a auditoria foi pedida nem que a tutela era centrista, num ministério cuja estrutura está povoada de socialistas; logo, não foi Passos Coelho, apesar de liderar o anterior Executivo, quem pediu a auditoria. Segundo, e mais gritante: o nome de Santana Lopes vem mencionado como dirigente da Santa Casa mas nunca como responsável dos factos: uma aquisição do palácio de S. Roque, a contratação de uma agência de comunicação e de um serviço de amas (este último é de pasmar).

A realidade é esta: Santana Lopes foi presidente da câmara de Lisboa em 2002, 2004 e 2005, e foi o melhor presidente de câmara de todo o período democrático. Em três anos fez mais do que todos os socialistas que por lá passaram, que em vez de terem feito obra têm destruído a cidade e entregue a mesma a interesses obscuros, muito ligados à família Espírito Santo, destruído a mobilidade, prejudicado claramente os transportes públicos, descurado a acção social, expulsado os lisboetas da sua cidade entregando a mesma aos turistas e aos interesses imobiliários ligados ao negócio do turismo, têm conseguido destruir o comércio tradicional com políticas vergonhosas que potenciam lojas indiferenciadas internacionais e aldrabices descaradas; como exemplo cito a grande ideia do “pastel de bacalhau com queijo da serra”, que é o modelo desta vereação de jovens turcos do PS, os mesmos que destroem os brasões das cidades do Império mas querem oferecer aos islamitas uma mesquita de borla, os mesmos que têm destruído os espaços verdes, como nos Olivais (entregues irresponsavelmente a uma junta sem capacidade nem engenho), os mesmos que têm descaracterizado a cidade, destruindo as calçadas e realizando obras eternas que destroem a qualidade de vida dos cidadãos, obras que poderiam ser feitas em fracções do tempo, numa lista interminável de asneiras que não tem fim.

Santana Lopes é assustador, porque ganhará sem a menor dificuldade a Câmara de Lisboa a esta gentalha que tem desgovernado a cidade e apenas tem feito política em seu benefício próprio. Santana Lopes pode ter sido um mau primeiro-ministro, mas foi certamente o melhor presidente de câmara e o povo lembra-se.

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