Opinião

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JOSÉ SERRÃO A semana foi marcada pelo caso Passos Coelho-Tecnoforma, alimentada ad nauseam pelos media e comentadores da política nacional.

A questão tem dois aspectos relevantes: um de natureza jurídico-penal e um outro de natureza política.

Mas, quer numa perspectiva quer noutra, o que importa concluir afinal é se, enquanto deputado – 1991 a 1999 – em regime de exclusividade, auferiu ou não remunerações da empresa Tecnoforma ou do Centro Português para a Cooperação (CPPC).

Passos Coelho expressou na Assembleia da Republica, no debate semanal, que não auferiu qualquer remuneração no período em causa de nenhuma das entidades, o que foi confirmado pelo representante legal da Tecnoforma em conferência de Imprensa.

Fê-lo depois de ser conhecido o despacho de arquivamento da Procuradoria Geral da República com o fundamento legal da prescrição dos eventuais ilícitos de natureza criminal e após o clamor da comunicação social que insistia que era apenas importante saber a resposta à pergunta: recebeu ou não remunerações entre 1991 e 1999?

Acrescentou, todavia, no que foi corroborado pelo advogado da Tecnoforma, que no período em causa apenas teria sido reembolsado de despesas de representação (viagens, almoços…).

Ainda com eventual relevância para a boa análise do caso importa mencionar que ficamos a saber que Passos Coelho era, na data em que foi deputado, membro do Conselho de Fundadores da ONG referida (CPPC) não auferindo, como todos os outros membros e demais órgãos sociais, quaisquer remunerações.

Estes são os factos conhecidos nesta data.

Juridicamente, salvo qualquer outro elemento desconhecido, nada há a apontar ao Primeiro-Ministro. E politicamente há?

Também aqui não me parece que exista matéria que justifique a censura política ou algo que determine uma valoração moral ou ética do cidadão Passos Coelho. E de nada vale o jogo de palavras que a impreparação jornalística evidencia e a incapacidade de distinguir o que é uma remuneração e o que é um reembolso de despesas, independentemente do valor.

Foi penoso assistir às insistências dos jornalistas na conferência de Imprensa e mais penoso, ainda, assistir aos novos argumentos dos opinion makers no activo. Depois de respondida a questão colocada como essencial surgiam depois duas outras: porquê a resposta só agora e porque não diz qual foi o valor das ditas despesas? Porém, a cereja no topo do bolo veio de Seguro ao suscitar o levantamento do sigilo bancário para se averiguar que valores recebeu Passos Coelho e de quem.

Parece-me a mim, simples cidadão e pretenso cronista por devoção, que a montanha pariu um rato e que daqui a uns meses é mais um caso esquecido.

Agora importa tirar conclusões e conclusões políticas, ainda que breves: vivemos num Estado de Direito e sob a vigência de uma Constituição. Ora os mesmos que por razões fiscais se afirmam defensores zelosos da nossa Lei fundamental escamoteiam e defendem a violação de Princípios universais de direito plasmados na Constituição. O princípio da presunção da inocência e do direito do cidadão ao silêncio no caso de incidir sobre si qualquer suspeita de crime (razão pela qual é constituído arguido) não deve ser violado em razão da conveniência política. O direito a defender-se em caso de acusação, cabendo o ónus da prova ao acusador e não o seu contrário. Mais, o direito à reserva pessoal só deve ser posto em causa por decisão fundamentada de um Juiz sob pena de por dá cá aquela palha qualquer cidadão ver devassada a sua vida pessoal e familiar e ser vítima da inversão do ónus da prova, para mais quando desconhece do que é efectivamente acusado.

A política é uma arte e uma actividade nobre que merece todo o respeito e não pode permitir-se que invocando-a, na estrita esteira de interesses particulares ou meramente partidários, se violem os mais elementares princípios e valores da nossa democracia e da nossa vida colectiva.

Não defendo Passos Coelho, Primeiro-Ministro. Defendo um cidadão como aqui já defendi outros de diferentes colorações e proveniências.

O Estado de Direito e a qualidade da democracia exigem de todos os agentes ponderação, bom senso e respeito ilimitado por qualquer cidadão, dentro do quadro constitucional.

Os jornalistas devem estar mais bem preparados para não serem instrumentalizados e jamais podem confundir o direito à informação com o cerceamento dos direitos de qualquer cidadão esteja ou não no exercício de funções públicas.

O direito a informar exige que se apurem, também, as causas que determinam ciclicamente estes fenómenos de “caça às bruxas”.

Um dia… quem sabe, talvez tudo seja claro…

MANUEL SILVEIRA DA CUNHA Há uns dias cheguei ao aeroporto da Portela vindo de paragens mais frescas. O calor húmido de Lisboa fez-se imediatamente sentir à saída do avião.

Vindo de Munique, onde todos os aviões de médio curso dispõem de mangas, voltei a sentir, como sempre, a miséria das nossas empresas aeroportuárias; um autocarro, com fracas condições, recolheu os passageiros, tipo gado empilhado.

Após uma espera que é sempre desnecessária lá seguiu o autocarro para a porta que, supunha eu, daria acesso à recolha de bagagem e saída. Como viajo sempre apenas com bagagem de mão, supunha eu que cinco minutos depois, como habitual, estaria a sair de regresso bem desejado a casa.

Qual não é o meu espanto, passageiro incauto, quando o autocarro passa a referida porta, aliás deserta e sem movimento, e se dirige, assim parece, para a ponte Vasco da Gama. Entramos numa espécie de garagem extremamente ruidosa, para os fundos do aeroporto da Portela, e o autocarro pára junto de uma porta com acesso a umas escadas rolantes. O calor é infernal, não há ar condicionado, sobem-se as escadas e começa a maratona. Estamos num dos extremos da aerogare, parece que a empresa que gere o aeroporto fez obras e inaugurou uma espécie de centro comercial onde faz gala de fazer passar todos os passageiros. Ainda pensei que fosse uma nova recolha de bagagens, mais próxima do serviço de recepção das mesmas, mas não, é mesmo um espaço comercial novo.

Muitos passageiros, jovens, muito jovens, pais com crianças de colo, idosos, pessoas com dificuldades, calor infernal, nada de novo, dirigimo-nos na direcção das setas que indicam “recolha de bagagem”. Qual não é o nosso espanto quando, depois de fazermos mais de dez minutos de caminhada pelos esconsos e pelas recém-inauguradas lojecas, lá passamos pela porta onde antes paravam os autocarros, mesmo junto do avião que nos tinha trazido e lá nos dirigimos à velha recolha de bagagem, ineficaz e soturna como sempre.

De mim para mim fiz algumas perguntas. Quem seria o cromo que decidiu o novo trajecto? Seria uma espécie de “chato” compulsivo que resolveu incomodar legiões de passageiros? Será que a nova maratona da Portela tem a ver com a exibição das novas fancarias e lojas de hambúrgueres mal cheirosos que enxameiam o novo espaço? Será que a empresa que gere o espaço tem orgulho na dimensão “internacional” da sua chafarica na Portela e a quer exibir mostrando “o aeroporto de Lisboa é mesmo grande” aos passageiros estrangeiros que não conhecem o exíguo espaço aeroportuário de Lisboa? Ou será para parecer que não se espera a eternidade do costume pelas malas fazendo a malta dar umas voltinhas inúteis ao aeroporto? Será um programa de desporto compulsivo para melhorar a forma dos turistas gordos americanos e alemães? Será uma demonstração da tremenda capacidade de um funcionário superior que se quer mostrar indispensável chateando meio mundo? Uma espécie, ou émulo, de Fernando Nunes da Silva que, ao ver como está o trânsito em Lisboa, não quer ficar atrás? Ficam as perguntas para quem de direito. Nós ficamos com o calor infernal da garagem, o mau cheiro dos hambúrgueres e a maratona nas pernas, isto depois de oito horas de viagem.

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RENATO EPIFÂNIO A encerrar o 1.º Congresso da Democracia Participativa, promovido pelo +DP no dia 20 de Setembro no ISCTE, em Lisboa, após se ter recordado a experiência de algumas candidaturas independentes autárquicas por todo o país e antecipado alguns cenários políticos – de uma plataforma partidária promovida pelo Movimento Revolução Branca a uma candidatura presidencial transpartidária –, Paulo Morais falou-nos dos “bloqueios do nosso sistema político”.

Insistiu, sobretudo, no fenómeno da corrupção. Seguindo todos os eloquentes exemplos que deu, é difícil não lhe reconhecer (toda a) razão: a corrupção tornou-se num fenómeno sistémico. E não chega dizer que a partidocracia que temos tolera toda essa corrupção. Muito pior do que isso: essa corrupção sistémica é o grande sustentáculo da partidocracia que temos. Esta não vive apesar da corrupção. Esta vive por causa da corrupção e para a manter, pois só assim se manterá.

No debate que se seguiu, inevitavelmente surgiu a crucial questão: que fazer? Uma vez mais, do modo desassombrado que lhe é característico, Paulo Morais enunciou todos os cenários, inclusive o de um golpe militar. Algo que, de resto, estou convicto que já teria acontecido se fosse outro o contexto. Em Portugal, já se fizeram revoluções por bem menos. No presente contexto e dada a nossa inserção na (Des)União Europeia, esse será (ainda) um cenário remoto, mas não impossível. Isto apesar do fim do serviço militar obrigatório ter alterado a natureza da nossa classe militar. Não por acaso, há cada vez mais gente a denunciar o erro que constituiu essa decisão.

Idealmente, tudo deveria mudar com um levantamento popular eleitoral. Mas aí parece-me haver um obstáculo (quase) intransponível. É que a nossa corrupção sistémica não sustenta apenas a partidocracia que temos. Sustenta igualmente a nossa “mediacracia”, a sua cara-metade. Não é, de resto, fácil de perceber qual a mais corrupta e medíocre: se a nossa classe política, se a nossa classe mediática. Tendo a julgar que a nossa classe mediática consegue ser ainda mais corrupta e medíocre do que a nossa classe política. Decerto, é pelo menos bem mais hipócrita, na sua constante simulação de isenção e abertura.

Com efeito, apesar de toda essa simulação, a nossa classe mediática defenderá até ao fim a nossa classe política. Nem que seja por um mero instinto de sobrevivência. Tenha ou não consciência disso, a nossa classe mediática (pres)sente que só sobrevive com a partidocracia que temos. E por isso nada fará para a pôr realmente em causa. Muito pelo contrário – procurará matar à nascença todo e qualquer projecto político que a possa ameaçar. Quanto muito, aceitará novos projectos políticos inócuos. Resta saber se o princípio de que “é preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma” ainda mantém o seu prazo de validade. Os mais cínicos dirão que sim. Eu, apesar de todo o meu cepticismo, julgo que não. Aproximam-se, pois, “tempos interessantes”. Que venham de vez.

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LUÍSA VENTURINI Acabo de chegar. Fui a correr alçar estores, abrir janelas, assarapantar as gatas como de costume e tomar um duche rápido que me resgatou do pouco sono dormido. Pretensamente fresca, mas certamente bem-cheirosa, olhei para o relógio que, ímpio, mais parecia lançado numa competição contra mim do que pretender a parceria com que, há anos, nos habituámos a viver – tanto e tão bem que há mais de vinte não o trago no bolso. Preparo o café enquanto vejo o correio – três contas e um convite – e beberico-o enquanto instalo e ligo o portátil. Enfio literalmente uma túnica marroquina, muito roxa e com um bordado muito branco (nada como um bom contraste mediterrânico) e sento-me à secretária com aquele ar matinal e decidido que automatiza os dedos no teclado, lê meia dúzia de e-mails a eito e contabiliza mentalmente: são 7:30h, consigo traduzir dez páginas até à hora do almoço e mais cinco até meio da tarde. Depois, fico com umas horas soltas para desfiar tudo o que guardo desta viagem, do ram-ram do comboio, que me trouxe, de mão dada pela noite, de Madrid até aqui. Mais um gole de café, o bom aroma de um cigarro a soltar um filete branco-azulado, tão ondulante como uma odalisca, a avivar o cinzeiro, até ali imaculado e pronto. Abro a pastinha informática onde se avolumam os “.doc” e os “.pdf”, com o original do texto a traduzir e o meu ficheiro de tradução. Só que, por um abracadabra maquinal, abro uma página em branco.

Não passam três segundos e já vejo nela a sedução, a tentação de transformar subitamente todo o meu estrito, ascético, programa para o dia.

Começo pela premissa mais simples: hoje quero ser feliz. Não a mando do relógio, nem dos prazos, nem do cansaço. Ser feliz só porque sim, porque me apetece ser feliz, assim, sem mais, sem purismos Tomistas, êxtases Rumínicos nem transes Nietzschianos. E ser feliz aqui e agora é rememorar a Anunciação de Fra Angelico, que vi pela primeira vez ao vivo ontem no Prado, deixar-me encandear por toda aquela luz durante um momento eterno, saber-me hierofanicamente muito mais do que mim própria, sentir-me transportada para um lugar de mim que é todo o universo, solta de todas as amarras que me encurtam as asas e me tolhem o tempo.

Curiosamente, não cheguei a escrever na página em branco, traduzi dez páginas até à hora do almoço e, mais curiosamente, uma aurazinha de felicidade translucida as paredes, reverbera pelo espaço, dá às minhas gatas um olhar morno de deleite verde e a mim esta faculdade milimétrica e, no entanto, maravilhosa, de transformar o meu chumbo em ouro.

 

LUÍSA VENTURINI

Abeira-te aqui, que hoje não estou em dia de mastigar sozinha os meus desajustes. O tempo (tão bom ter assim à mão uma quase imaterialidade de costas largas) anda a bulir comigo.

Alheia às angústias com que me encharca o ar e a alma, a trovoada estrepita e ribomba impavidamente neste pedaço de céu. Uma paz muito azul destaca-se ali defronte, num daqueles acenos que a Natureza tão bem conhece e que nos diz “Isto também passará”, como na história do anel do rei.

O dia fez-me recordar uma bela varanda numa bela janela, onde, há já uns bons pares de anos, assistíamos ao esplendor rasgado do céu em noites de invernia, como quem se oferece um primeiro balcão numa ante-estreia. Mas, deixando o espectáculo magnífico fora destas cogitações, o certo é que tanta electricidade no ar interfere com o meu sistema nervoso, belisca-me a sensibilidade, provoca-me sinapses dispensáveis, desagradáveis mesmo. No fundo, ressinto-me como um cão ou um gato, o que talvez me faça olhar mais humildemente para esses convivas do meu pequeno universo e repetir, tão mantricamente quanto possível, “isto também passará”.

É nestas alturas que parece que uma tremenda lente se impõe entre mim e a vida e tudo me surge numa dimensão olímpica – é isso mesmo: estúpida e dramaticamente citius, altius, fortius – vendo dos dias apenas os socalcos da frustração ou do fracasso. A objectividade, o distanciamento, o tratamento asséptico das emoções, a ponderação das ideias? Tudo parece esvair-se pelo ralo negro de um caos irremissível, onde me atordoo na busca inglória em que, fatalmente, só alcançarei perder-me, sem Florbela Espanca que me valha.

Também entendo que não faria muita falta dizer-te isto, não a ti, que sabes tão bem quanto eu como só me lembro da Florbela nessas alturas e que, passada a rezinguice e ultrapassado o curto-circuito, a lente esmifra-se como por encanto e volto a saber de proporções e Regras de Ouro, a namorar com os filhos de Da Vinci e de Rumi e a ser, claro está, bem menos tenebrosa.

Sabes? Sei que sabes, mas gosto de repetir-to: É bom ter-te, por todas as razões e por mais essa, a de me seres como um anel sempre presente, como um pedaço muito meu de céu azul que me vai recordando uma e outra vez, uma e outra vez, “Isto também passará”.

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RENATO EPIFÂNIO

Ainda sobre Vasco Graça Moura, salientemos aqui a sua obra “A Identidade Cultural Europeia”, publicada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, no final de 2013. Não tanto pela sua extensão, mas, sobretudo, pela sua densidade, lemos esta obra como uma espécie de “testamento espiritual”, na sua apologia desassombrada da Europa enquanto “identidade cultural”. Decerto, a proximidade da morte acentuou ainda mais esse seu característico desassombro, bem evidente em várias passagens da obra – a título de exemplo, atentemos nesta: “Não pode tolerar-se que o politicamente correcto ou um mal disfarçado propósito de, em nome de outras orientações pretensamente racionalizadas, equipare um totem da Papuásia e um quarteto de Beethoven ou a uma obra de Piero della Francesca” (p. 33).

Fazendo a crítica feroz do relativismo cultural, trave-mestra de todo o pensamento pós-moderno, Vasco Graça Moura desenvolve depois, de forma corajosa, ainda que nalguns pontos decerto questionável, a sua apologia da Europa, dizendo-nos: “O espaço europeu criou condições para uma profunda reflexão do homem sobre si mesmo e sobre o mundo. Arte e filosofia, nesse aspecto, partilham o terreno, muito embora com processos, métodos e objectivos diferentes (…). Já vimos que a Europa, diferentemente dos outros continentes, começa por se pôr em questão. É a Europa e são, hoje, as Américas, suas extensões civilizacionais, num todo que pode genericamente ser englobado sob a designação de Ocidente.” (pp. 62-63).

E acrescenta, logo de seguida – ainda com maior desassombro: “Enquanto um imobilismo ancestral caracterizou as outras áreas do planeta, a essa propensão para a auto-reflexão conexa com a elaboração de uma visão do mundo podemos atribuir a vontade de teorização estética, sobre o Belo, as suas condições e as suas regras, bem como sobre a sua capacidade de representar a realidade com um coeficiente de ‘fidelidade’ e de verosimilhança diferente das maneiras de ver de outras partes do nosso planeta. Essa representação esteve constantemente presente ao longo dos séculos, tendo, com a invenção da perspectiva (Lucca Pacciolli, Piero della Francesca), que é uma descoberta europeia, permitindo a simulação da tridimensionalidade e portanto uma abordagem, uma representação e um conhecimento do real muito mais completos.” (p. 63).

Ao contrário, porém, de todos aqueles que – a nosso ver ingenuamente – partem da afirmação de uma identidade cultural europeia para a defesa da sua união política, Vasco Graça Moura dá mostras de um sábio cepticismo, bem expresso, por exemplo, nesta passagem: “deve notar-se que cada americano é capaz de bater no peito e de se declarar pronto a morrer por ‘the Nation’, seria bizarro esperar-se a mesma atitude da parte de um europeu. Ninguém se mostra disposto a dar a vida pela Europa…” (p. 81). Ou seja, para concluir: há, na sua irredutível multiplicidade, uma identidade cultural europeia; simplesmente, essa identidade cultural não é de todo suficiente para sustentar uma real união política, como pretendem alguns, que insistem em estabelecer um paralelo com o federalismo norte-americano.

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JOSÉ SERRÃO

Os escoceses disseram não à independência e maioritariamente decidiram continuar no Reino Unido, tal como acontece há mais de 300 anos.

No final importa tecer alguns comentários:

  1. A Escócia surge vencedora deste episódio de expressão democrática. Primeiro, pela elevação da campanha e o exemplo de sadia convivência entre os partidários do Sim e os do Não. Um exemplo. Em segundo, pelo comprometimento das autoridades de Londres no que tange a uma maior autonomia política, à redução de impostos e consequente maior distribuição de riqueza pela nação escocesa.
  2. O referendo à independência no quadro europeu veio inevitavelmente trazer à colação a luta dos povos da Catalunha, do País Basco, da Galiza em Espanha e da Flandres na Bélgica.
  3. Lutas, algumas bem seculares, que merecem cada vez mais uma maior atenção, não só dos Governos de Espanha e da Bélgica mas, também, da comunidade internacional. Com efeito, o direito à livre auto-determinação dos povos e das nações merece protecção jurídica, social e política.
  4. No século em que vivemos e com as conquistas democráticas e de cidadania já conquistadas, ao nível individual, do trabalho e das comunidades, não pode deixar de se ter em conta a vontade de povos que se constituem como nações há muitos e muitos séculos. Povos que partilham dentro de si uma língua própria, uma cultura bem específica, tradições sociais e até políticas caracterizadoras da unidade e integralidade do território.

Compreende-se o apelo à unidade do Estado por parte dos Governos de Londres e de Madrid, mas a dinâmica dos tempos determina que a vontade dos povos não é passível de ser calada ou ignorada. A unidade dos Estados só é plena se resultar da vontade livremente expressa dos povos e nações que a integram.

A voz dos escoceses foi ouvida, urge respeitar.

Outros povos vão querer expressar-se de igual forma. Será que tal lhes será permitido?

*

A semana que passou foi ainda marcada por Marinho Pinto. Depois de criticar o Parlamento Europeu e as suas múltiplas incoerências de cariz burguês e tecnocrático, anunciou que continuaria a exercer as suas funções de deputado apenas e só porque carece da remuneração (tem um filho a estudar) mas até às próximas eleições legislativas em Portugal, momento em que se candidatará, sendo que exercerá o mandato até às eleições presidenciais em que será, desde já, candidato.

No caminho rompe com o Partido da Terra e cria o seu partido pessoal de cariz republicano.

Um advogado, ex-bastonário, que criou toda uma imagem pública na crítica aos políticos e ao sistema, manifesta, em pouco tempo, uma incoerência de se lhe tirar o chapéu. Para onde corre este Candidato, agora profissional, a “Qualquer Coisa”? Quem o apoia ou se reconhece na sua mensagem (?) política e social?

De tempos a tempos, a democracia portuguesa é vítima destes populistas demagogos que aglutinam o descontentamento popular com base no verbo justiceiro e a crítica pura e dura sem nexo e sem esperança. Portugal bem dispensa estes oportunistas…

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MANUEL SILVEIRA DA CUNHA É extremamente preocupante o que se passa com os extremistas islâmicos que se estabeleceram no Iraque e beneficiaram com a guerra e o voluntariado jihadista na Síria.

A questão principal não é a barbárie, as decapitações, mutilações e os assassinatos em massa. Ainda há duzentos anos se assavam os aristocratas, e os menos aristocratas, devagar e no meio de gritos dilacerantes, na Paris revolucionária. Depois cortavam-se as cabeças com facas de cozinha e passeavam-se espetadas em paus pelas ruas da cidade Luz. Ainda há setenta anos Hitler massacrava deliberadamente milhões de homens e mulheres, Estaline e Mao continuaram a fazê-lo até muito depois. Os Khmers vermelhos assassinaram dois milhões numa população de seis milhões e os indonésios liquidaram mais de duzentos mil timorenses numa população que não chegava a um milhão. Não, o problema não é a crueldade gratuita, própria da selvajaria animal endógena ao bicho homem. O problema é a indecisão ocidental de quem devia ter cérebros preparados para prever e planear uma visão global, estratégica. O pior é a ambiguidade assassina que, sem perspectiva estratégica ou, pior, com uma visão mercantilista e interesseira do equilíbrio de forças mundial e sem conhecimentos ou domínio da história e dos equilíbrios locais, governa as maiores potências económicas, no caso da Europa, e militares, no caso dos Estados Unidos.

O autoproclamado califado, ou estado do levante, ou o que quer que seja, nasce por omissão ocidental, que, se não foi activa no sentido de incentivar e financiar grupos islâmicos anti-xiitas, que teriam de ser sunitas, foi, pelo menos, deliberadamente vaga, deixando a sunita e primitiva Arábia Saudita, ou os seus súbditos, com mãos livres para proceder a esquemas de financiamento tão próprios, e tão subterrâneos, dos regime árabes totalitários. Não protegendo os estados laicos do Médio Oriente, abria-se um vazio estratégico. No caso gritante do Iraque, cuja situação estava estabilizada e cuja intervenção americana, próxima da idiotia, foi seguida de uma retirada ainda mais acéfala, deixou-se um vácuo que foi preenchido pelos terroristas loucos da Jihad. Dando mão livre aos inimigos da Síria, promovendo loucas Primaveras Árabes, afinal palcos para todos os fundamentalismos, substituíram-se regimes ditatoriais por regimes quase feudais, geridos por hordas loucas de sunitas, ainda piores, no que diz respeito ao respeito pelos direitos humanos, do que os ditadores precedentes. Sobraram a Síria e o Egipto por milagre. Os loucos que ocuparam o vácuo dos ditadores depostos são hoje imprevisíveis, absolutamente intolerantes e capazes de uma expansão perigosíssima para a sociedade contemporânea e os valores humanistas que demoraram dois mil anos a construir.

Ostracizar e isolar o Irão, em lugar de conciliar com este país xiita, logo, necessariamente, mais sensato e moderado que os medievos sunitas, foi outro erro crasso, numa política em que o aliado americano, nunca posto em causa, Arábia Saudita, sempre jogou em dois tabuleiros. É evidente que a questão judaica será sempre uma espinha encravada.

Para alcançar uma paz duradoura, a única solução será, hoje em dia, ter uma mão de grande firmeza, intervindo de forma muito dura contra os extremismos que põem em risco o mundo, tal como o conhecemos, e isso exige grandes acções militares que tardam em chegar. É necessário pensar estrategicamente o problema de Israel e repensar fortemente o papel dúbio, criminoso contra os direitos humanos e civilizacionalmente atrasado da Arábia Saudita no contexto regional do Médio Oriente, algo que deverá ser feito através de diplomacia e pressão económica, recorrendo a alternativas ao petróleo saudita. No Iraque, infelizmente, só resta uma repetitiva intervenção musculada, totalmente por culpa americana.

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RENATO EPIFÂNIO Desta vez, fiz por não alimentar grandes expectativas. Em anteriores idas ao Brasil, o “Brasil Mental” (não o livro) que levei comigo no avião chocou por vezes de frente com o Brasil real que encontrei. Desde logo por isso, desta vez o saldo acabou por ser amplamente positivo.

O paralelo com o Brasil não é, de resto, fortuito. Num jantar, alguém citou um diplomata brasileiro, segundo o qual Cabo Verde seria o Brasil “em ponto pequeno” – a quem um homólogo cabo-verdiano logo contrapôs: o Brasil é que é Cabo Verde “em ponto grande”.

Talvez não seja esse, porém, o melhor ângulo de abordagem. Apesar de algumas semelhanças com o Brasil (com algum Brasil…), Cabo Verde caracteriza-se mais pela sua singularidade, desde logo em relação a África, mesmo à África Lusófona. Durante o Estado Novo, para não recuarmos mais, era em Cabo Verde que o regime recrutava e formava os quadros intermédios, depois destacados para os mais diversos pontos do Império.

Com a descolonização, Cabo Verde viveu um impasse: a população, em geral mestiça, era demasiado “escura” para permanecer portuguesa (daí toda a diferença com o que aconteceu na Madeira e nos Açores…) mas demasiado “clara” para ser aceite como africana pelos demais povos. Essa desconfiança, ainda hoje – garantem-me –, permanece.

Num almoço à beira mar, alguém cita um africano do continente, que garante “aceitar muito melhor um patrão português do que cabo-verdiano”. Da parte dos cabo-verdianos, há também alguma desconfiança. Uma portuguesa que aqui vive há alguns anos fala-me mesmo de algum ressentimento em relação aos portugueses – não, ressalva, das gerações mais velhas, mas das gerações mais novas, ou seja, daquelas que nasceram já após a descolonização. Um caso claro de um (re)sentimento induzido…

Pessoalmente, devo dizê-lo, nunca senti a menor hostilidade, mas, tal como esperava, o discurso lusófono que levei comigo não teve tanto eco como desejaria. Na rua ouve-se sobretudo falar crioulo – nas suas múltiplas variantes – e na única livraria que encontrei, na Cidade da Praia, abundam os livros sobre a identidade cabo-verdiana e a “crioulidade”. E julga Eduardo Lourenço que a questão de “identidade” é uma obsessão portuguesa. Bem maior é, sem dúvida, em Cabo Verde.

Não é essa, porém, uma reflexão de sentido único. Numa pastelaria onde tomei o pequeno-almoço, folhei um jornal e li um texto onde, ao contrário, um cabo-verdiano defende que esta aposta na identidade crioula deve ser complementada com a identidade lusófona – pois que só esta, ao contrário daquela, abre Cabo Verde ao mundo, por integração numa plataforma de escala global. No regresso a Portugal, demorei-me a pensar que, mais cedo ou mais tarde, isso se tornará óbvio para todos os cabo-verdianos – não obstante as diferenças internas entre as ilhas (que se reflecte também no destino das várias diásporas: entre os EUA e a Europa). A história anda sempre mais devagar do que aquilo que desejaríamos. Talvez seja melhor assim.

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LUÍSA VENTURINI Não sei que me deu. Foi um daqueles arremessos com que a alma nos acorda e tive um acesso de saudades dos meus amigos de Colares. É verdade que já lá vai um bom par de anos desde a última vez que nos enchemos os corações de regalo com o prazer da nossa companhia. Mas também é verdade que talvez tivéssemos precisado de todo este tempo para refazer-nos da míngua em que ficámos depois da morte do Vicente e da Gwen. Dizem que o tempo cura. Curar, curar, curar mesmo, não lhe confiro essa benesse tão plena. É mais a outra, menos redentora, mas que permite que a cicatrização vá acontecendo, assim, num gerúndio infinito, que não infinitivo.

Bom… Adiante. O certo é que aproveitei o convite da alma e fui ter com eles que, por uma coincidência maravilhosa, também estavam acabados de chegar dos seus próprios percursos. A Berenice chegava de Espanha e o Afonso com a mulher, a Helena, aterravam de um congresso onde participaram, em Londres. Em casa da Clara, já sorumbava o Francisco na preparação da sua tese. A Cecília, o marido e a cria – que já nada tem de “cria”, pois estes anos acrescentaram-lhe envergadura, tanto de corpo como de espírito – com a sua disponibilidade generosa de sempre, apressaram-se a sair de Lisboa para ir ter connosco.

Só lamentámos que o Tomás e o Manuel estivessem numa maratona de trabalho, a acabar de resgatar a decoração art-déco de um restaurante, com data marcada para a inauguração. Sempre nos fazem falta aqueles dois, com o seu humor e gargalhada gostosa. Ainda me lembro do dia em que os conheci, há muitos anos já, chegavam eles numa buzinaria estrepitosa à casa de Colares, com aquele ar de quem sempre anima a festa com os confetti de uma alegria muito lavada e colorida.

Apesar da chuvinha doida que teimou em embaciar-nos os olhos e a paisagem, ainda conseguimos um remanso para um lanche ajantarado no jardim, com uns mimos que a Berenice levou e uns robalinhos grelhados de cortar a respiração. Até o Francisco, sempre tão comedido, se desenfreou com as guloseimas. Foi vê-lo pegar na guitarra e desafiar a Cecília que, passado todo este tempo, deve ter mandado os pejos para as urtigas e já nos solta aquela voz magnífica sem os rogos de antanho.

Claro que tivemos de ouvir Gershwin e Segóvia ao serão e claro que a Berenice dançou. Depois, foi aquela sarabanda de quartos para uns e sofás para outros, ia a noite tão alta que já mal se via. A sensação que todos tivemos naquele pequeno-almoço de café com pão (que só nos lembrava o Manuel Bandeira e pôs a Clara numa lengalenga desbragada) foi que não tínhamos conversado nem metade do que nos apetecia e que o fim-de-semana ia ser mirrado. E claro que foi. Mas, desta vez, selámo-nos numa promessa: antes deste ano acabar, iremos estar todos juntos outra vez.

CAPA

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