Opinião

0 877
RENATO EPIFÂNIO

Segundo a Agência de Informação de Moçambique (AIM), o Governo moçambicano e a Renamo, principal partido da oposição, assinaram recentemente em Maputo os três documentos essenciais para o fim das hostilidades militares que assolam o país há mais de um ano. Os documentos assinados correspondem a um memorando de entendimento sobre os princípios gerais para o fim da violência militar, os termos de referência da missão de observadores militares internacionais que vão fiscalizar o fim das hostilidades, bem como os mecanismos de garantia de implementação dos acordos, que incluem a aprovação de uma lei da amnistia para procedimentos criminais que tenham ocorrido durante o período de confrontação.

Não podemos deixar de nos congratular com este Acordo que parece pôr fim a um longo ciclo de desconfiança que, para além das trágicas mortes provocadas, chegou a pôr em causa o próprio futuro do país enquanto espaço de convivência pacífica entre todos os cidadãos moçambicanos. Fazemos votos para que este Acordo seja escrupulosamente respeitado por ambas as partes, em prol de um futuro fraterno. É essa a exigência de todos os cidadãos moçambicanos, mais amplamente, de todos os cidadãos lusófonos.

Post-sciptum: Recordamos, a este respeito, a Declaração que o MIL_Moçambique emitiu em devido tempo: O MIL_Moçambique segue com a maior preocupação os mais recentes acontecimentos no nosso país – em particular, a aparente tentativa, por parte do Governo sustentado, legitimamente, pela Frelimo, de derrubar pela força a Renamo, o que faz temer o regresso da guerra civil de tão triste memória. Sabemos que o Acordo Geral de Paz, celebrado em Roma, há já mais de duas décadas (1992), que pôs formalmente fim a uma guerra civil que durou mais de quinze anos, entre a Renamo e a Frelimo, não preveniu devidamente todas as condições para a paz.

Sabemos que, como em todos os processos, há culpas de parte a parte. Não podemos, porém, estar sempre a procurar culpados – quer no passado mais recente, quer no passado mais remoto. Se assim fosse, teríamos que de novo reavaliar todo o atribulado processo de descolonização. Há fases da vida em que temos que sobretudo olhar em frente, para o futuro. Por isso, apelamos a todas as partes envolvidas um esforço suplementar em prol da paz. É esse o mais profundo desejo de todos os moçambicanos e de todos os nossos irmãos lusófonos.

0 958
LUÍSA VENTURINI

“Minha querida Eugénia,

Porque sei que gosta de cartas, aqui lhe envio esta para agradecer-lhe os incómodos a que se deu para tornar inesquecível a visita que lhe fiz e transmitir-lhe os recados de amigos que um ramo de coincidências me permitiu encontrar por estes dias.

A Matilde e o marido foram passar uns dias ao Alentejo com a tropa-fandanga toda, para se despedirem do Ricardo, que lá torna ao Dubai por mais seis meses, e da Rita que, como de costume, se contorce só de pensar que regressa às noites nórdicas. Prometeram que assim que voltarem organizam uma graça em casa deles e que a vão buscar e levar, para que não haja desculpas.

O João Luís lá continua em casa dos pais, a viver entre esperanças. No mês passado conseguiu trabalhar durante quinze dias como motorista e guia de um casal de holandeses, mas, tirando isso, tem sido a penitência do costume. A pequenita passou uns dias com ele e os avós, o que lhe deu muita alegria, como é óbvio, mas já voltou para o Luxemburgo com a mãe e o padrasto.

Encontrei a Margarida no supermercado, na lufa-lufa do costume. Disse-me: “A partir deste mês passas a chamar-me de Santa que ando a fazer omelettes sem ovos e a multiplicar pães que nem Nosso Senhor. Mais 250 euros que se foram e os mesmos cinco lá em casa. E agora, como não faltava mais nada, o pai Matias anda doente e ainda não perceberam o que se passa com ele. Olha, se tocarem na reforma do Carlos, ficamos sem chão. Nem tenho tido cabeça para falar com a Eugénia. Manda-lhe muitos beijos nossos!” – missão cumprida, portanto.

Quem me telefonou ontem à noite foi o Alberto. Parece que os problemas da Carolina continuam. Já é a quarta vez que lhe alteram a medicação, mas, ao que parece, sem melhoras à vista. Voltou a passar os dias deitada, com intermináveis crises de choro. Perguntou se conhecíamos alguém de confiança para passar umas horas com ela, porque ele anda com receio de deixá-la sozinha. Se souber de alguém, por favor, diga-lhe.

Quanto a mim, minha amiga, lembra-se de ter comentado que o Dr. Sousa andava com um ar estranho? Pois, fim do mistério. Vai fechar as instalações em Portugal e apostar seriamente na empresa que tem com os sócios em Moçambique. Que aqui vai ficar apenas um gabinete de apoio para os clientes que tem na Europa. Marcou para dia 1 uma reunião para esclarecer toda a gente. Como pode imaginar, estamos todos antecipadamente esclarecidos, consternados e desempregados. Eu sei que a esperança é a última a morrer, mas, talvez por isso mesmo, eu me vá antes!

A ver vamos se, como costuma dizer, alguma janela se irá abrir. Certo é que a visita que lhe fiz, minha cara Eugénia, me trouxe paz e ânimo para enfrentar estes dias. Bem-haja.

Com muita amizade, a sua

A.”

0 967
JOSÉ SERRÃO

A solução encontrada para o BES, pioneira no contexto europeu, materializando a transposição para o nosso ordenamento jurídico da Directiva Comunitária de Reestruturação e Resolução Bancária de 2012, parece ter reunido o consenso alargado dos vários quadrantes políticos, económicos e financeiros do país, quanto mais não seja pela exclusão de outras soluções possíveis, como sejam a nacionalização ou a capitalização.

Todavia, acautelados os interesses e direitos dos depositantes e dos contribuintes – o tempo confirmará ou não este objectivo – não deixa de ser imperioso questionar o seguinte:

1. Não tendo sido declarado insolvente o Banco BES, como se pode pura e simplesmente cindir um património entre Bom e Mau, deixando os accionistas, sem qualquer distinção, amarrados ao Mau e perdendo qualquer relação como o Bom?

2. Não tendo sido nacionalizado o banco, como podem os accionistas perder todos os direitos sobre o património do banco Bom?

3. Os accionistas que subscreveram e realizaram capital no último aumento de capital do BES, confiantes nas declarações públicas da Administração do Banco, do Banco de Portugal, do Governo e até da Presidência perdem todos os seus direitos, sem mais, no curto espaço de 3 semanas?

4. O valor resultante deste último aumento de capital ficou afecto ao Bom ou ao Mau?

5. O património imobiliário do BES foi afecto ao Bom ou ao Mau?

Estas questões, simples e directas, carecem de resposta do Governador do Banco de Portugal e são de uma grande acuidade e relevância social. Com efeito, deixando de lado os denominados investidores institucionais, que dizer do destino fatal dos pequenos aforradores que decidiram, em má hora, acompanhar o aumento de capital?

A solução não ponderou ou não cuidou estes casos. E devia…

Na realidade, ignorando o destino destes investidores, talvez tenha sido dada a machadada final no denominado capitalismo social e definitivamente rompido o elo de confiança entre os pequenos investidores e os banqueiros ou a banca em geral.

Não sei, ninguém saberá, se esta quebra de confiança será circunscrita a Portugal ou se aqui se deu início a um novo paradigma na relação entre a banca e o sistema financeiro e o público em geral.

Curioso é o “novo” discurso político que reclama separação da finança da política, separação do mundo da política do mundo dos negócios… que reclama que sejam apuradas responsabilidades e que sejam julgados os seus autores, que sejam revistos os critérios de adjudicação e de independência das empresas de auditoria e de certificação de contas, que a supervisão passe a ser mais activa e menos reactiva…

Talvez sejam palavras de circunstância… Mas que o escrutínio dos cidadãos é cada vez mais apertado e apurado também é verdade.

Longe de fazer futurologia, quem sabe se o caso BES não corresponderá, para o capitalismo, ao que o Muro de Berlim correspondeu para o comunismo? Exagero? Talvez, mas são estes casos que criam os símbolos que perduram na consciência colectiva.

MANUEL SILVEIRA DA CUNHA

Prossegue o duelo António Costa contra To-Zé Seguro. Podemos admirar em todo o seu esplendor a glória da política portuguesa e dos seus expoentes máximos. Estes dois senhores concorrem ao cargo primeiro-ministro de Portugal, aspiração legítima e quase certa, a que a nulidade da política portuguesa e a mansidão e ignorância do povo português condenará o país depois da inevitável derrota de Passos Coelho nas próximas eleições.

Este rotativismo, que já inquinou de forma desastrosa os anos finais da monarquia portuguesa, o mesmo rotativismo que, numa escala ainda mais sórdida, corroeu o sistema republicano saído de 1910, condena mais uma vez o país à nulidade e ao desastre.

Passos Coelho foi eleito por falta de comparência de Sócrates depois das suas trágicas políticas económicas e negociatas com as empresas do regime, o mesmo regime que nos traz agora o escândalo BES metido em todas as Parcerias Público Privadas e que já se pressentia há muito tempo. Coelho é um homem sem preparação, que nunca precisou de trabalhar, que tirou um curso na quarta década da sua existência, sem qualquer currículo chegou a primeiro-ministro e será sucedido por gente da mesma igualha.

Seguro pensa que o facto de ser dirigente do PS lhe dá inerência no cargo de primeiro-ministro, não porque seja o melhor para o país, como provam o seu currículo e as suas capacidades, do mesmo nível ou inferiores a Passos Coelho, mas com inferiores capacidade de decisão e carisma, é um homem incapaz de liderar, como já se provou, e incapaz de motivar um país em crise. O lugar de primeiro-ministro é visto por esta gente como uma posição na carreira e não como um serviço.

Chegamos assim a António Costa, outro carreirista. O que tem para oferecer Costa para além de oportunismo político, para além de ambição desmedida, para além da faca nas costas de Seguro? Baseou a sua carreira política numa corrida de burro contra um Ferrari na calçada de Carriche e perdeu as eleições de Loures. Foi ministro mas não deixou qualquer marca para além de dívidas e de sistemas ineficientes pagos a peso de milhões de euros. Como presidente da câmara de Lisboa conseguiu inaugurar a Ribeira das Naus tantas vezes que se lhe perdeu o conto. Sempre que abate um passeio recém-inaugurado seguem-se mais seis meses de cortes de tráfego. Afirma Costa que pagou as contas da Câmara de Lisboa quando, de facto, apenas negociou com a banca um pagamento que arrasa as contas do município prometendo sistemáticos aumentos de taxas ao desgraçado lisboeta. O trânsito e o seu ordenamento são catastróficos. Os radares, inaugurados com pompa e circunstância, depois de pagos milhões, são agora caixotes vazios, vandalizados e ridículos. Os jardins estão destruídos, o parque norte da Expo parece a faixa de Gaza depois de um bombardeamento israelita. Em vez de se contratarem jardineiros, ou de se arranjarem as ruas e seus buracos, contrataram-se exércitos de assessores inúteis, boys pagos a peso de ouro. Destrói-se o melhor e mais moderno quartel de bombeiros de Lisboa para fazer mais uma negociata que, tudo indica, passa pelo grupo Espírito Santo…

É entre estes dois homens que Portugal prepara a decisão do governo. É caso para dizer: estamos entregues aos bichos.

0 754
RENATO EPIFÂNIO

Ainda a respeito da X Cimeira da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, realizada em Julho deste ano na capital timorense, Díli, onde se ratificou o ingresso da Guiné-Equatorial, anda meio país a falar de uma “humilhação nacional”.

Sendo (muito) sensível à questão do orgulho pátrio, não consigo vislumbrar aqui, porém, qualquer espécie de “humilhação”. Nem sequer um indício.

Atenhamo-nos aos factos: o ingresso da Guiné-Equatorial havia já sido equacionado em duas cimeiras: em 2010, em Lisboa, e em 2012, em Maputo. Em ambas, a decisão foi adiada por pressão portuguesa. Ou seja, durante quatro anos Portugal conseguiu contrariar a vontade expressa de todos os restantes membros da CPLP.

Alguém me consegue nomear qualquer outra entidade de que Portugal faça parte onde isso pudesse ser possível? Na União Europeia, por exemplo: alguém imagina que Portugal pudesse contrariar a vontade expressa de todos os restantes membros durante quatro anos? Nem por quatro meses. Quanto muito, por quatro horas. Na verdade, talvez por quatro minutos…

Não deixa de ser, de resto, insólito que, tendo estado Portugal durante estes últimos três anos sob tutela de uma Troika, surja agora tanta gente tão sensível às “humilhações nacionais”. Sem pretender entrar no domínio da psicanálise, só posso qualificar esta hiper-sensibilidade como um “orgulho recalcado”: durante três anos, engolimos em seco as humilhações diárias dos funcionários dessa Troika, que chegaram, inclusive, a dar conferências de imprensa sobre o modo como Portugal deveria ser governado.

Não falo por mim – aí sim, como português, senti realmente essa humilhação nacional. Por isso mesmo, porém, não transfiro agora esse “recalcamento” para a CPLP. Nesta, Portugal tem sido tratado com uma deferência diplomática que porventura, para não dizer decerto, hoje não merece, só se justificando à luz da nossa longa e insigne história. Pelos vistos, ainda há quem, por esse mundo fora, se curve perante ela.

Uma coisa é, porém, deferência diplomática – que neste caso houve. Outra, bem diferente, seria outorgar a Portugal um poder de tutela sobre a CPLP, que lhe permitisse contrariar interminavelmente a vontade expressa de todos os restantes membros. Escusado será dizer que, no século XXI, esse é um cenário que não é sequer equacionável. A convergência lusófona a cumprir-se – no plano cultural, desde logo, mas também social, económico e político – não é compatível com nenhuma espécie de tutela, portuguesa ou outra. E não há aqui qualquer “humilhação nacional”.

0 787

LUÍSA VENTURINI

Ainda bem que chegaste hoje. Já sentia falta de ver a casa desarrumada com as tuas malas, pastas, máquinas fotográficas e bandos de livros a pousarem em todos os cantos; o panamá no bengaleiro, o casaco de linho cor de grão, amarrotado, sempre, a resguardar as costas de uma cadeira e a tua voz grave como um bálsamo de Sarastro a antecipar-me as perguntas e a querer – querer! – saber de mim.

Sempre me fascinou a maneira como contas as aventuras da tua vida – qualquer minudência ganho rasgos homéricos e não há retrato a preto e branco que não narre as cores da Kahlo. Aprecio supinamente o silêncio profundo que guardas para me ouvir nas raras vezes em que tenho alguma coisa para dizer-te e as lamparinas que se acendem nos teus olhos quando falas dos filhos, dos projectos e daquela imensa vontade que tens de voltar a São Petersburgo.

Ainda bem que chegaste hoje. Por entediada, a minha almofada já não me atura, as gatas ignoram-me, Barcelona não está ao virar da esquina e é, no mínimo, presunçoso telefonar aos meus só porque qualquer coisa correu bem.

Tu entendes como ninguém por que vivo entre sonhos e por que as minhas personagens são as grandes arguidas do percalço que tem sido, que é, a minha existência. Agrada-me muito que gostes de ler-me. Às vezes, até incorro na tentação de acreditar que, mais do que por necessidade minha, escrevo apenas para ti, para te levar comigo de passeio pelos meus mundos, para fazer de conta que ando contigo de passeio pelos teus.

No outro dia (eu sei que não ouviste) contei a história de um homem com nome de príncipe. Não, não era a tua história, nem sequer era o teu nome. Mas, mais uma vez e como sempre, escrevi-a para ti, porque tu sabes ouvir por dentro das palavras e conhecer as pessoas por trás das personagens. Mais: tens a sabedoria de querer aprender a amá-las. Por isso és um príncipe, claro. O meu príncipe.

Ainda bem que chegaste hoje e que o teu mundo alvoroçou o meu e que as revoadas dos teus livros e papéis se cutucam assarapantadamente com os enxames com que coabito e que os cinzeiros pedem alforria e que, mesmo noite alta, as janelas da minha casa cantam, alucinadas, os adventos do sol. No pino do Verão, não há clareira como a tua, farol como o teu para eu encontrar o meu caminho de volta a mim.

Mais logo, quando tornar a amanhecer, as chávenas de café no lava-louças, a flor na jarra e os “post-it” no frigorífico vão explicar-me muito bem que não sonhei.

Ainda bem que chegaste hoje. Ou, melhor: Hoje, ainda bem que chegaste.

0 913

Renato Epifânio

Em comparação com as reacções provocadas pela revista “A Águia”, as reacções provocadas pela revista “Orpheu” não foram menos eriçadas – daí a significativa alusão, por parte de Fernando Pessoa, às “referências desagradáveis que a imprensa portuguesa nos tem feito”, numa carta ao poeta Camilo Pessanha: “Sou um dos directores da revista trimestral de literatura Orpheu. Não sei se V. Ex.ª a conhece; é provável que não a conheça. Terá talvez lido, casualmente, alguma das referências desagradáveis que a imprensa portuguesa nos tem feito. Se assim é, é possível que essa notícia o tenha impressionado mal a nosso respeito, se bem que eu faça a V. Ex.ª a justiça de acreditar que pouco deve orientar-se, salvo em sentido contrário, pela opinião dos meros jornalistas. Resta explicar o que é Orpheu. É uma revista, da qual saíram já dois números; é a única revista literária a valer que tem aparecido em Portugal, desde a Revista de Portugal, que foi dirigida por Eça de Queirós. A nossa revista acolhe tudo quanto representa a arte avançada; assim é que temos publicado poemas e prosas que vão do ultra-simbolismo ao futurismo. Falar do nível que ela tem mantido será talvez inábil, e possivelmente desgracioso. Mas o facto é que ela tem sabido irritar e enfurecer, o que, como V. Ex.ª muito bem sabe, a mera banalidade nunca consegue que aconteça. Os dois números não só se têm vendido, como se esgotaram, o primeiro deles no espaço inacreditável de três semanas. Isto alguma coisa prova – atentas as condições artisticamente negativas do nosso meio – a favor do interesse que conseguimos despertar. E serve ao mesmo tempo de explicação para o facto de não remeter a V. Ex.ª os dois números dessa revista. Caso seja possível arranjá-los, enviá-los-emos sem demora.”

Tanto por aquilo que diz, esta carta é igualmente significativa por aquilo que omite: falamos ainda, claro está, da revista “A Águia”, onde Fernando Pessoa publicou os seus primeiros textos, em 1912: “A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente Considerada”, “Reincidindo…” e “A Nova Poesia Portuguesa no Seu Aspecto Psicológico”. Saliente-se que, na citada carta, Fernando Pessoa refere-se ao “Orpheu” como “a única revista literária a valer que tem aparecido em Portugal, desde a Revista de Portugal, que foi dirigida por Eça de Queirós” – ou seja, Fernando Pessoa dá aqui um salto histórico, passando de 1889, data de lançamento da “Revista de Portugal”, para 1915, como se nada entretanto de relevante tivesse acontecido… Verdade que Teixeira Pascoaes lhe pagou na mesma moeda. Na última entrevista que concedeu, reduz o poema Tabacaria a uma mera “brincadeira” – nas suas palavras: “Veja a Tabacaria: não passa duma brincadeira. Que poesia há ali? Não há nenhuma, como não há nada… nem sequer cigarros!… Fernando Pessoa tentou intelectualizar a poesia e isso é a morte dela. É roubar o espontâneo à Alma Humana, isto é, o que ela tem de Alma Universal ou de poder representativo da realidade. Veja o poema (o poema?!) que começa ‘o que nós vemos das coisas são as coisas’… Isto não é poesia, nem filosofia, nem nada.”. E, por isso, chegou a considerar Pessoa como um “não poeta” – nas suas palavras: “Repare: não digo que foi mau poeta. Digo que não foi poeta, isto é, nem bom nem mau poeta. E se foi poeta, foi-o só com exclusão de todos os outros, desde Homero até aos nossos dias…” –, inclusive, como um mero “ironista” que, enquanto tal, não se deve tomar a sério…

Manuel Silveira da Cunha

Pedro Passos Coelho veio fingir-se preocupado com a natalidade de Portugal, a pior da Europa e a segunda pior do Mundo. Sabendo que o CDS já tinha um estudo, veio pedir um outro; era conveniente mostrar-se preocupado com o assunto que ameaça a existência do país, como repetidamente temos escrito aqui neste espaço ao longo de vários anos. Provavelmente, o problema da natalidade é a maior ameaça a Portugal, à soberania nacional, ao bem-estar das escassas gerações vindouras e ameaçando severamente a economia e a existência dos mais velhos que não terão ninguém que os sustente nas suas miseráveis e solitárias reformas.

Este estudo avança com a proposta de incentivos fiscais e de apoios à natalidade, muitos destes com dinheiros europeus que o governo nunca usou nesse domínio. Os custos directos seriam de 300 milhões de euros. Uma quantia insignificante face a qualquer parceria público-privada, basta ver que o custo do Magalhães, que agora apodrece nas lixeiras, foi muito superior.

A hipocrisia é gigantesca, o governo de Portugal nos últimos anos desenvolveu políticas de verdadeira exclusão social sobre os casais mais jovens e mais férteis, retirou o sonho a Portugal, mandou os jovens emigrar, reduziu deliberadamente os salários, tornou todos os novos empregos em lugares extremamente precários ou temporários, não dando as menores condições para planificar famílias. Por outro lado não há política de habitação para os casais jovens, muitos dos quais ficam limitados a partilhar a existência com os pais, atrasando o casamento e os filhos. O governo de Portugal fechou os olhos a crimes contra a maternidade, a despedimentos por gravidez, a patrões obrigando jovens a não engravidar com receio do desemprego, e chegou ao extremo de cortar o salário às funcionárias públicas que tenham de cuidar de filhos doentes durante os primeiros três dias da baixa, reduzindo fortemente o salário no resto da ausência (é precisamente três dias que duram as mais frequentes viroses infantis), naquilo que parece ser puro sadismo e sanha contra a vida e a natalidade. Finalmente, não houve qualquer investimento deste governo em redes pré-escolares e o aborto é incentivado, pago pelo Estado na totalidade, ao contrário do acompanhamento da gravidez, e tem mesmo prioridade sobre os cuidados às grávidas no serviço nacional de saúde.

Afirma Pedro Passos Coelho, num sinal da sua típica e cada vez mais evidente estupidez, que “é preciso avaliar”, que “há pouco dinheiro”. Senhor Coelho, veja lá qual é a avaliação que tem a fazer – dar umas migalhas de trezentos milhões aos jovens deste país para ajudar a mitigar o maior problema que o país enfrenta e que o ameaça na mais profunda raiz ou gastá-los no poço sem fundo das vigarices da anafada banca. É tempo de ir aos bens de quem delapidou o país e o arruinou com negociatas, não de regatear uns miseráveis trezentos milhões de euros para salvar Portugal.

0 766

José Serrão

A semana que passou fica indubitavelmente marcada pela crise no BES, a eleição do novo Presidente da Comissão Europeia e pelo cobarde assassinato de quase 300 pessoas que seguiam a bordo de um Boeing 777 da Companhia aérea da Malásia.

Neste último caso, para além da triste e infeliz coincidência de dois aviões do mesmo tipo e da mesma companhia terem sido alvos, no espaço de poucos meses, um de desaparecimento (?) e outro de abate. Repudia-se, naturalmente e com toda a veemência, que se use um avião comercial – de bandeira diferente dos beligerantes – para o diferendo que opõe a “Rússia” à Ucrânia.

Este acto, violento, cobarde e inusitado, pode ser o fim da máscara de Putin no conflito em causa. A comunidade internacional tem, uma vez por todas, que ser firme e ter uma palavra de condenação contra a prepotência russa. Não pode calar-se sob o pretexto da protecção de interesses económicos, mesmo os que são, hoje, essenciais ao bem-estar das comunidades e dos povos, nomeadamente os europeus, como é o caso da importação de gás natural.

No segundo caso, a eleição de Juncker representa uma continuidade das políticas anteriores e a hegemonia clara da Alemanha e da sua Chanceller.

No furor da sua eleição, Juncker prometeu a criação de dezenas de milhares de empregos, de mais e melhor investimento produtivo, de crescimento… etc.

Promessas que não detalhou, nem esclareceu como irão acontecer. Melhor, onde estavam guardadas para virem agora, só agora, à luz do dia? Não é Juncker um dos pais do Euro e da sua relevância para uma Europa mais competitiva, mais sólida e mais sustentável? Pois… porque se remeteu ao silêncio durante estes anos de crise financeira, dos mercados, de austeridade duríssima… se tinha acesso à fórmula mágica do crescimento e do desenvolvimento?

Temo os líderes que prometem o que não depende deles mesmos. Sempre terão a desculpa de que tudo fizeram… mas não dependia deles. Como se não o soubessem desde sempre.

Teria gostado de ouvir Juncker prometer que tudo faria para que o projecto europeu retornasse ao sonho de Schuman e de Monnet… uma comunidade de países e povos iguais, com os mesmos direitos independentemente da sua dimensão geográfica e demográfica. Mas sobre o que importa politicamente à Europa… nada disse. Temo que a economia e a finança continuem a dominar tudo e todos, arrastando-nos para um abismo de consequências imprevisíveis.

Por fim, o BES. A queda da família Espírito Santo é uma consequência natural do desastre financeiro e até económico de que agora começamos a ter algum conhecimento. Confio nas palavras institucionais do Governo e do Governador do Banco de Portugal, o qual, diga-se de passagem, tem tido um papel determinante e de grande mérito. Como seria se Constâncio não tivesse sido promovido para a Europa?

A entrada da nova administração, liderada por Vítor Bento, veio dar credibilidade ao banco e reforçar a ideia de que nada será como dantes. O senhor “DDT” tem, na realidade, muitas explicações para dar. Esperamos por elas…

Mas a crise do BES é, na realidade, mais uma das expressões da crise de regime em que nos encontramos. Volvidos 40 anos sobre o 25 de Abril, Portugal encontra-se confrontado com a sua própria história.

O sistema político está desacreditado, como desacreditadas estão as principais instituições nacionais, incluindo o Parlamento, os Tribunais e demais Órgãos de Soberania.

Os partidos políticos desagregam-se dia após dia – vide o que se passa no Bloco de Esquerda e no PS. No principal partido da Oposição, a guerra fratricida está para durar e para deixar atrás de si um lastro de destruição… Alguém acredita que Seguro, após a derrota, dá as mãos a Costa e luta para que este seja primeiro-ministro? E, no caso inverso, alguém acredita que Costa sustentará e apoiará Seguro? Eu não…

Ao contrário dos que atacam as propostas de compromisso ou consenso nacional à volta das grandes questões que a todos importam e afectam, com os argumentos mais falaciosos possíveis, como sendo que para haver consenso tem de se saber primeiro sobre o quê, por quanto tempo, etc., ou que tal é inoportuno porque o PS está em crise… (?!), eu digo: para haver consenso tem de haver Vontade, sentido de Estado, Desprendimento pessoal ou partidário, Bom Senso e Patriotismo. O resto é secundário.

Urge saber quem está ou não disposto a servir Portugal…!

0 814

Luísa Venturini

A conversa com um amigo levou-me, como tantas vezes, até ao imaginário pessoano e, talvez pela atmosfera pesada do dia ou pelo meu cansaço, que anda a ensopar-me os ossos e novamente a brincar à apanhada com as minhas insónias, ficou mesmo a apetecer-me apanhar o tal eléctrico amarelo, passear entre pirâmides e conversar com o rei Quéops.

Claro que isto me dá pretexto para matar saudades do meu amigo Paulo Guilherme d’Eça Leal, refascinar-me com os mistérios dos côvados e tornar a revisitar mentalmente a maravilha gótica de uma Aljubarrota da alma.

E, mesmo sem querer, entristeço por não se me escapar o pensamento sobre o acanhadas que andam as nossas alas, mas isso são outras histórias, que hoje não me restam ganas para suspirar por Álvares, por muito que me sejam de Boa Memória.

Hoje é mesmo dia de apanhar o eléctrico amarelo (sim, amarelo e não de qualquer outra cor), que ilumina veredas, por esconsas que sejam, e me transporta deste acabrunhamento em que o mundo, o dito real, tem andado afivelado.

O trajecto? Provavelmente alucinado, com infusões de ervas exóticas a amparar encontros com avós Délficas, com percursos geniais por clareiras do Hindustão, com danças de roda por montes de lua e de muita bruma, com ou sem lagos nas redondezas, porque, à míngua, qualquer riacho serve.

Digamos que meia dúzia de paragens-entre-mundos, para me reabastecer para este, que me anda a engasgar as ideias de tal modo que qualquer interstício entre elas gera espaço suficiente para um belo eléctrico amarelo e para quantos trajectos me aprouverem.

Hoje, contentar-me-ei com apear-me numa rosácea, daquelas que dos orientes trazem as “letras” para os que sabem ler e que iluminam a cidade de Santa Res e a outra, a de Taurus, e mais umas quantas conhecidas dos demandadores de caminhos e de outras coisas.

Vou enrodilhar-me nela e ficar à escuta.

Tenho a certeza que, esta noite, o sol vai cantar para mim.

CAPA

SIGA-NOS