Opinião

MANUEL SILVEIRA DA CUNHAExiste uma profunda confusão naquilo que se entendeu chamar de direita portuguesa. Dizer que o governo português actual é de direita é algo extremamente vago e pouco incisivo.

O PSD, maior partido do governo, não tem uma filiação ideológica clara, poder-se-ia designar a sua trajectória desde o 25 de Abril como “pragmatismo oportunista”, algo que é habitual nos partidos do centrão e que tornaram os aparelhos de Estado reféns das suas clientelas.

Passos Coelho, dirigente actual, mistura um discurso liberal com uma política anti-portuguesa e uma socialização dos rendimentos dos portugueses, ao mesmo tempo que adiciona proteccionismo aos interesses puramente financeiros, mesmo que estrangeiros, como se a única soberania que interessasse, indiscutível, fosse a da saúde do sistema financeiro.

Se as empresas portuguesas fogem à esfera de influência nacional, ou se deixam de contribuir para o desenvolvimento do país e da sua economia como a actual Portugal Telecom, se uma EDP é vendida aos interesses do comunismo chinês, se uma GALP pratica preços escandalosos, retirando lucros excessivos em detrimento da economia nacional e dos portugueses, está tudo bem.

Apesar de o interesse nacional estar em perigo, nada se faz, em nome de uma certa falsa liberdade de acção dos agentes económicos e da propriedade dos accionistas, mesmo que espoliados dos seus dividendos por chefes executivos que são capazes de desbaratar novecentos milhões de euros de capitais próprios em aventuras financeiras ruinosas, como no caso da Portugal Telecom, isto sem serem severamente punidos ou sem uma acção severa e exemplar da justiça, também esta reduzida a uma paralisia que reflecte a putrefacta acção política e legislativa dos últimos quarenta anos.

É urgente uma reflexão do que é o interesse nacional. Salazar, homem ponderado, de direita, conservador, nunca teria deixado acontecer com a EDP ou a Telecom o que aconteceu. Um governo que age em interesses meramente financeiros, como o actual, é apenas o agente de uma real plutocracia transnacional e não o governo de Portugal.

Existem virtudes claras no nacionalismo, na noção de Pátria, de costumes, de cultura, de História comum e de partilha que fazem de Portugal o candidato ideal ao detentor do Quinto Império visionado por D. João II e Camões, sonhado por Bandarra, anunciado pelo padre António Vieira, por Fernando Pessoa, Agostinho da Silva e por António Ferro, homem de Salazar, e António Quadros.

Mas para alcançarmos o Quinto Império é necessário livrar-nos da escória, é importante repensar o nacionalismo português, é necessário governar para o bem-estar, tendo em conta a tradição, a história e a cultura, repensando conceitos. Unindo nacionalismo com democracia e fundindo modernidade com conservadorismo. Só assim poderemos potenciar a nossa identidade comum e avançar rumo ao Império do Espírito que é o Quinto Império.

Afirmar que o actual governo é de direita é uma afronta à memória de homens sérios como Sidónio Pais, o único presidente-rei de Portugal, ou Salazar, homem que, com os seus defeitos, amava profundamente Portugal e o seu povo. O governo actual é um governo anti-nacional ao serviço de potências estrangeiras que transformou Portugal num pasto das plutocracias com assento difuso e sem rosto. Uma máquina impessoal e desumana.

Infelizmente a alternativa de António Costa ainda é pior, significa mais destruição e mais serviço a interesses inconfessáveis. Só um novo pensamento, um novo nacionalismo e um novo conservadorismo de vertente humanista e tolerante, mas com muita firmeza e determinação face aos interesses estrangeiros, poderão ainda salvar Portugal da destruição.

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JOSÉ SERRÃOVieira da Silva e Ferro Rodrigues invocaram, por mais do que uma vez, o nome de José Sócrates, no recente debate de aprovação do Orçamento de Estado.

É notório o esforço da actual liderança do PS em trazer à tona da vida política, não só o nome, mas o legado (como se lhe referiu Vieira da Silva) de Sócrates.

Naturalmente poderia pensar-se que era uma forma de unir o PS no pós- Seguro, afirmando-se o passado do PS como um património histórico onde ninguém pode, nem deve, ser excluído.

Acontece, todavia, que tal desiderato, mais do que uma nobre missão de António Costa, com vista à conquista da sua maioria absoluta, tem algo mais, embora ainda velado.

As notícias sobre a hipotética candidatura de António Guterres a Secretário-Geral da ONU em 2016 vieram colocar ou recolocar Sócrates na corrida a Belém e para isso ser possível urge “limpar” ou “branquear” todo o passado do ex-Primeiro-Ministro.

O zeloso Costa, crente de que será o novo timoneiro desta pátria adormecida, investido no papel do Sebastião que chega na manhã de nevoeiro, por vontade própria ou por imposição de outros, está a abrir o caminho para o retorno grandioso do “animal feroz”. E que melhor do que suceder a Cavaco?

O actual PS já age como se as eleições do próximo ano fossem um mero plebiscito à sua futura governação e permite-se, em clima de Halloween, ressuscitar fantasmas e persuadir-nos com as teses de 2011 sufragadas negativamente pelo povo.

Esquece que não foi Passos Coelho que derrotou Sócrates. Foi o voto popular que disse não ao homem que em 2009, ignorando a crise internacional – com que mais tarde tudo pretendeu justificar –, decidiu por razões eleitoralistas aumentar salários e apoios sociais. Também, a bem da verdade, esse processo de colocar dinheiro na economia (?), como lhe chamou, era determinado pela vontade da Senhora Merkel (sim, a mesma de quem hoje o PS acusa Passos Coelho de ser o acólito…). E os célebres PECs não eram programas de austeridade? E que, ainda assim, nos conduziram ao pedido de resgate?

Costa, ao invés de nos dizer como vai fazer a economia crescer, criar postos de trabalho e, em simultâneo, reduzir o deficit, cumprir o pacto orçamental e honrar os compromissos com a Troika, “faz-se de morto” e cria as condições para a ressurreição de Sócrates, revelando, pelo menos na aparência, que o seu PS tem uma agenda escondida de poder e que lhe coube a ele ser o executor.

O tempo dirá, mas António Costa corre o risco de se desgastar antes do tempo, do seu tempo, e ao dar por adquirido aquilo que só o voto pode dar, transformar-se a breve trecho num “morto-vivo”… sem ideias e sem rumo.

Costa tem, dizem as sondagens, o poder à sua espera. Mas não basta deixar passar o tempo… Urge mostrar que não é mais do mesmo e nunca ignorar que o povo é sábio e tem memória.

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LUÍSA VENTURINISe calhar, por causa do ruído dos dias, dou comigo a pensar e a re-pensar não só no silêncio, mas, bem mais precisamente, o silêncio – o tal em cuja existência material eu não creio.

Lembro-me de uma discussão, sem dúvida assanhada por ruidosa, involuntariamente provocada por mim, apenas por ter pensado em voz alta: “De facto, não há silêncio!”

Foi quase um caos de reacções em que me falavam do silêncio da noite, dos campos, das esferas e eu convencida de que as noites, por muito solitárias que sejam, têm sempre o tinir eléctrico das luzes, o ronronar serrilhado dos bichos, o eco longínquo e difuso das vozes e que os campos têm o borbulhar vibrante, senão mesmo compulsivo, da vida dos múltiplos subsolos aos não menos múltiplos estádios dos éteres (e que a vida nunca é silenciosa – teremos, claro, de reportar-nos sempre à acuidade de quem ouve) e que as esferas, as tais longínquas, galácticas, titanicamente transcendentes, são mundos de explosão e contracção, que têm ou detêm a sua própria música – isto é, são completamente avessas ao silêncio.

Talvez que na maioria das vezes se confunda silêncio com calmaria. Mas, quem sou eu para dizer?

Mesmo quando me calo, o meu pensamento não pára e, até quando durmo, ronrona histórias difusas e ruidosas que talvez me sejam lembrança e som no dia seguinte.

Quase que me apetece dizer que o Silêncio, como o Amor e a Felicidade, é um filho dilecto desse Deus Maior que inventámos para conseguirmos suportar o nosso ruído – a ilusão que nos expande, o proto-poema.

Sim, estou a calcorrear uma escala de Si, obviamente. E neste paradoxo em que invoco o Silêncio, só consigo esta imagem que o prova fátuo.

Posso até ter a tentação de dizer: só há Silêncio e Luz. Mas sei que é mentira, porque a Ideia pairará na Luz, abençoadamente, rompendo, rasgando perenemente a hipótese do Nada.

E se não houver Ideia – perguntinha aleatória neste mundo de ruído – haverá Universo?

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RENATO EPIFÂNIONão tão evidente quanto a ocupação política e económica de Portugal nas últimas décadas, a ocupação da nossa cultura e ciência não tem sido, ainda assim, menos vigorosa. Se em troca dos famosos fundos europeus aceitámos destroçar grande parte da nossa agricultura, das nossas pescas e da nossa indústria, apenas para dar três exemplos, o panorama da nossa cultura e ciência não é menos desolador.

Tem-se falado ultimamente mais sobre isso, a respeito das avaliações internacionais dos nossos centros de investigação, mas quase sempre sob um olhar enviesado – na maior parte dos casos, contesta-se o corte no financiamento mas não os critérios que determinam esse mesmo financiamento.

E que critérios são esses? No essencial, as avaliações internacionais dos nossos centros de investigação valorizam o nosso “grau de internacionalização”. Até aqui tudo bem – dirão os mais ingénuos. O problema é que essa valorização é igualmente enviesada. A cooperação com centros de investigação do Brasil, ou mesmo da restante América Latina, por exemplo, não é minimamente valorizada. Na verdade, o único factor que realmente se valoriza é a produção científica em língua inglesa.

Não é pois por acaso que, em Portugal, há já Universidades que leccionam cursos em inglês, bem como revistas que só publicam textos redigidos nessa língua. Em nome de um financiamento cada vez mais exíguo, também aqui abdicámos de afirmar a nossa soberania, a nossa autonomia. Como se esta não se afirmasse também, senão sobretudo, na área da cultura e da ciência. Pois como pode continuar a afirmar-se como soberano um povo que abdica de pensar e de escrever na sua própria língua?

No caso da Filosofia, que conheço melhor, o caso assume contornos ainda mais graves, pois que quase toda a produção filosófica anglófona tende a inscrever-se no que em geral se designa por “filosofia analítica” – uma tradição bem diferente da chamada “filosofia europeia continental”, onde a tradição filosófica portuguesa se insere.

Quem já fez a experiência de escrever filosoficamente em inglês, sabe bem do que falo – nalguns casos, nem sequer há vocábulos para expressar certas diferenças conceptuais. Porque, de facto, uma língua não é apenas um instrumento de comunicação. Ela afecta a própria forma como o pensamento se estrutura internamente.

Também nesta frente, Portugal está hoje num beco sem saída. Quando a nossa política deveria passar por estabelecer parcerias preferenciais com instituições universitárias do espaço lusófono – para assim afirmar cada vez mais a língua portuguesa à escala global – aceitamos ser avaliados por critérios que nos afastam desse caminho.

Que, da esquerda à direita, não haja nenhum partido com representação parlamentar que denuncie este suicídio cultural e científico, isso já nem sequer nos surpreende. Na verdade, e isso é o que mais custa, este suicídio cultural e científico foi propiciado por muitos de nós. Por isso se trata de um suicídio.

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JOSÉ SERRÃODurão Barroso cessou a sua presidência na Comissão Europeia.

Foram 10 anos difíceis. A crise do sistema financeiro veio pôr em evidência todas as fragilidades de uma Europa que cresceu, no que ao numero de membros diz respeito, mas que se afastou do modelo sonhado pelos fundadores da Comunidade do Carvão e do Aço. Os países perderam poder individual em troca de uma suposta dinâmica democrática que se limitou a conferir aos mais poderosos os poderes de controlo e de domínio.

De uma Europa das Nações, Durão deixou uma Europa germanizada e tutelada por uma Alemanha que em tempos se soube unir e solidificar a sua hegemonia.

Durão Barroso ficará na história da União e certamente não pelas melhores razões. Por culpa própria ou mera vítima das circunstâncias, Durão Barroso fica associado a uma Europa da austeridade, do desemprego, mormente no mundo jovem, de uma Europa incapaz de reagir aos ditames dos tempos, de uma Europa perdida nos seus nacionalismos, de um Europa descredibilizada, onde a voz de Merkel é mais ouvida do que a voz de todos os líderes europeus, subvertendo as instituições e minando um poder que deveria ser agregador e não de mera fachada.

Barroso deixa a Comissão Europeia e só a memória dos tempos permitirá saber se, ainda assim, foi por sua acção que a Europa não se desmoronou por completo face às ameaças do poder financeiro internacional e dos banqueiros europeus, face às tentações hegemónicas de alguns e face ao despertar de potências emergentes como a China e mesmo a Índia.

No seu discurso de despedida, registo o aplauso de pé de Francisco Assis.

O antigo líder parlamentar do PS e candidato derrotado por Seguro à liderança do PS, actual eurodeputado socialista, não se coibiu de aplaudir e de o fazer de pé. As razões do seu acto apenas a ele dizem respeito, mas, como sempre, Assis revelou ser um estadista e um político que sabe estar muito acima dos interesses partidários.

Num acto politicamente incorrecto face aos valores preconizados pela nossa actual nomenclatura pensante, o gesto ganha valor por si próprio e será recordado como expressão de quem sabe pensar e defender a imagem de Portugal e dos que, desta terra, são conduzidos a assumirem no plano internacional funções de alto desígnio.

Não defendo que se aplauda um português apenas pela sua nacionalidade se a sua acção não tiver a dignidade que defenda a nossa imagem colectiva. Mas prefiro e defendo, ao contrário de muitos, um português no exercício de funções de grande relevância internacional a um estrangeiro, por “mais amigo de Portugal” que seja.

Foi assim que defendi Freitas do Amaral na Presidência da Assembleia Geral das Nações Unidas e António Guterres como alto Comissário da ONU para os Refugiados, entre outros.

E assim farei com qualquer português, independentemente da sua cor ou da sua ideologia, desde que a sua capacidade e competência o justifique à partida, confiando que a sua acção promova sempre os valores humanistas e universalistas que, desde os primórdios da nossa nacionalidade, nos levaram a “dar novos mundos ao mundo”.

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MANUEL SILVEIRA DA CUNHAO governo de Portugal anuncia uma nova forma de fiscalidade: é a chamada fiscalidade verde! Para compensar os putativos incentivos às grandes famílias, há que aumentar outros impostos. Porque cortar na despesa não é solução para este governo, a não ser que a despesa seja constituída por salários, prestações sociais ou reformas e pensões; e a esses cortes o Tribunal Constitucional vai pondo entraves por um lado e, por outro, é ano de eleições. Para manter o orçamento desequilibrado quanto baste, ou seja, abaixo dos três por cento do Produto Interno, há que ser imaginativo na forma de espoliar os portugueses dos seus parcos e cada vez mais reduzidos rendimentos.

Neste caso, o nome encontrado pelo governo é “verde”. É evidente que os culpados do costume são os combustíveis, já dos mais caros do mundo, e por tabela, a economia portuguesa. Repare-se no oportunismo e na chico-espertice governamental.

Não é só o nome que é enganador, é também o momento: quando o preço dos combustíveis baixa e o imposto é menos pesado, a medida parece menos dura; no entanto, quando aparecer outra crise no Médio Oriente, um previsível atentado patrocinado pelo Estado Islâmico ou outro espirrar dos mercados, o imposto fará sentir toda a sua crueza nas pessoas e na economia. A designação “fiscalidade verde” pode ser simpática, mas o seu efeito será tão ou mais penalizador para as famílias do que as miseráveis migalhas dadas por via do IRS.

Vejamos um casal com quatro filhos: tem de os levar à escola, de fazer compras, levar a criançada a actividades e festas, ir ao médico, etc, etc, etc… Um casal nestas condições, com as viagens para o trabalho, consome em média mais de cinco mil litros de gasóleo, ou gasolina, por ano. Pagará logo à cabeça mais cem euros por ano.

Mas essa é a menor factura: as hortaliças, carne, peixe, leite, ovos, vestuário, serviços, reparações, electricidade, aquecimento, gás, transportes escolares e todos os bens e serviços da actividade económica geral subirão, uma vez que dependem directamente do preço dos combustíveis.

O nome é bem apanhado, mas “fiscalidade verde” é apenas um produto de marketing político para designar roubo ou socialização do dinheiro dos portugueses, isto para os entregar a usurários estrangeiros e aos interesses das Parcerias Público Privadas que continuam verdejantes a prosperar à custa do empobrecimento de Portugal, da emigração dos seus melhores, como são prova a mais baixa taxa de natalidade do mundo, a destruição da investigação científica portuguesa pela nefasta FCT e pelo seu inenarrável presidente Seabra, a destruição do sistema de ensino, com turmas superlotadas e escândalos sucessivos que reflectem apenas má organização e desinvestimento (no próximo ano serão menos 700 milhões) e a menorização do Estado de Direito, como prova o colapso do sistema informático da justiça.

Segunda a ufana ministra das finanças, a receita do Estado já cobre toda a sua despesa excepto os juros e amortizações da dívida. Isto significa que o Estado português não necessita de financiamentos estrangeiros para cobrir despesas sociais, salários, o sistema de saúde, educação, defesa, justiça e representação do estado e manutenção da segurança. Ou seja, Portugal está numa posição muito forte para exigir uma renegociação da dívida, uma vez que o efeito de um possível incumprimento seria o de deixar usurários sem retribuição.

É certo que esse incumprimento seria irresponsável e poderia ter um efeito desastroso na economia, uma vez que muitos dos usurários são bancos portugueses que, por seu turno, pediram emprestado ao BCE a juro quase nulo e recolhem a diferença dos juros. No entanto, um governo forte que utilizasse diplomaticamente a necessidade de renegociação da dívida poderia tirar partido do facto de Portugal, como Estado, já ser plenamente suficiente em termos das suas despesas primárias. Infelizmente, síndroma do capataz, o governo é fraco com os fortes e é opressivo com os fracos.

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LUÍSA VENTURINIComo uma andorinha que se despede, assomou uma pequena nostalgia à minha janela. Talvez seja do Outono. Talvez seja daquela aura azulada e difusa que ganham as coisas como se todas fossem revestidas de tule e não apenas de bruma. E dou comigo a acenar suavemente à pequena nostalgia, não vá eu assustá-la, convidando-a para que entre, sim, que é bem-vinda, que estou cheiinha de espaço em mim para ela. E sinto que o meu olhar, bem fora da minha vontade, fica mais parado na distância e que o meu gesto, impensado, se torna mais lento, como se em vez de um movimento fosse uma preguiçosa sequência de imagens arrastadas por uma qualquer brisa.

E esta é uma nostalgia boa que me leva de viagem para uma colmeia de horizontes, como quem peregrina por um roteiro de sentimentos benfazejos. Não lhe posso chamar saudade. É outra coisa, mais mansa, mais frágil, quase etérea. Fossem outros os tempos e apercebo-me que seria em idênticas estações da alma que um poema me resvalaria pelos dedos.

No entanto, estou atenta. Não a convido a mais do que a um sereno voo pela casa, a um breve descanso no meu coração e a uma ligeira merenda na minha cabeça, que as nostalgias podem sempre pecar por ser abusadoras, instalarem-se com demasiado conforto e, quando damos por nós e por elas, já tomaram o nosso mundo como coisa sua, já se aferraram como hera, já se transformaram em Saudade e, que nem Hidra, podem matar-nos de desolação.

Não gosto de ter saudades. Não gosto dos sofrimentos das saudades. Não gosto dessa coisa obscena de sentir que parte de mim me fugiu. Comentava um amigo comigo que o pior de tudo é ter saudades de alguém com quem se está – essa costuma ser uma dor irremediável.

Mas não, não vou deixar que esta patanisca de memória, sentimento e bruma se julgue mais do que o que é e comece por aí a ganhar mais substância do que a que lhe reconheço. Para isso, já me basta o resto!

Não. O dia está bonito, o céu azul e o sol tão garboso como se fosse Junho. Recolho-a com a mesma suavidade com que a recebi, não vá eu assustá-la, e, como se fosse uma andorinha, lanço-a meigamente pelos ares fora.

JOSÉ SERRÃOTerminou o Sínodo dos Bispos sobre a Família e o relatório final não obteve a maioria necessária para poder aprovar a inclusão plena dos divorciados e dos homossexuais aos sacramentos, incluindo a comunhão.

Promovido pelo Papa Francisco, este encontro no Vaticano marca uma abertura da Igreja a temas tão fracturantes no seu seio e, ainda, infelizmente, na sociedade.

Francisco tem revelado, no exercício do seu pontificado, pese embora as questões teologicamente dogmáticas, uma anima nova no caminho da inclusão, afastando-se da tradição doutrinária de excluir todos os que não estão ou não podem ou, no seu dizer, se auto-excluíram da graça de Deus.

Saúdo, sempre, todos os que ousam lutar pela inclusão e não se limitam a justificar o porquê da exclusão, ainda que o argumentário seja perfeito, tecnicamente rigoroso e assente na tradição histórica. Assim acontece no seio das religiões e assim acontece no seio de outras instituições, mesmo quando se reclamam defensoras do princípio da absoluta liberdade de consciência.

Se nas religiões se faz do TODO uma parte, a sua parte, excluindo os demais, também outros ousam querer determinar e impor urbi et orbi a sua verdade aos demais, reclamando para si direitos e prerrogativas que ninguém lhes conferiu, nem podia, porque são universais e, consequentemente, insusceptíveis de serem apropriados ou manipulados por quem quer que seja.

O Sínodo de Roma não determinou o acesso dos divorciados, dos homossexuais ou mesmo dos que vivem em união de facto aos sacramentos e a uma vida plena no seio da igreja. Porém, pela primeira vez, as portas do Vaticano abriram-se para que estes assuntos fossem discutidos.

Acontecendo esta discussão, a Igreja revela capacidade para em breve poder incluir e não excluir todos os seus fiéis e quiçá abrir-se a novas “verdades” na senda da unidade das pessoas e dos povos.

Esta via da inclusão deve ser objecto de reflexão de todos nós, sem qualquer excepção.

Com efeito, também no governo da cidade (política) ninguém deve ser excluído, mas, ao invés, incentivado a ter uma participação activa, cívica, empenhada na causa pública.

Nós, cidadãos, tão ávidos a apontar o dedo da imperfeição aos que elegemos e nos governam ou fazem oposição e tão pouco capazes de reconhecer esses mesmos defeitos em nós, também temos graves responsabilidades e novos desafios.

Desde logo, porque somos os primeiros a excluir… Desde logo, porque somos incapazes de ter da política uma visão nobre, inclusiva de todos e, naturalmente, de cada um de nós… Desde logo, porque nos remetemos à cómoda posição de estar de fora a criticar e jamais “calçarmos os sapatos” dos que democraticamente foram eleitos para a função de governar.

A confiança entre eleitos e eleitores, ou a falta dela, também impende sobre nós e as nossas condutas… Não basta votar. Urge ser Cidadão pleno.

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RENATO EPIFÂNIOFoi particularmente penoso acompanhar as diversas eleições que se realizaram nos últimos meses através dos nossos ‘media’. No Brasil, a certa altura, até chegou a parecer que a grande questão em debate era o casamento gay e as alegadas contradições da candidata Marina Silva em relação a este assunto menor (quando as suas interessantes declarações a favor da CPLP foram por cá inteiramente ignoradas).

Já se sabia que a agenda do Bloco de Esquerda dominava grande parte dos nossos ‘media’ nacionais. Agora, quando o Bloco acentua a sua inexorável desagregação interna, essa agenda parece estender-se à cobertura das eleições internacionais. Houve já um Império (o Bizantino) que se deixou cair enquanto se distraia a discutir o sexo dos anjos. No Brasil, felizmente, esse parece ainda não ser o caso.

Na Escócia, a questão em discussão era bem mais decisiva – nada menos do que a independência –, mas, também aqui, o olhar dos nossos ‘media’ foi bastante enviesado. Alinhou na campanha de medo induzida por Londres e Bruxelas, como se, facto, a Escócia pudesse mesmo ficar “fora da Europa”. Isto quando o argumento deveria ser precisamente o inverso: uma Escócia fora do Reino Unido ficaria muito mais dependente da União Europeia.

Mantendo-se como está, isso dá-lhe uma muito maior liberdade, tendo em conta o espaço anglófono que se estende por todo o mundo, que o Reino Unido – ao contrário de Portugal, em relação ao espaço lusófono – nunca desprezou. Se fosse escocês, esse seria o meu argumento maior para ter votado não à independência.

Caso bem diferente – também aqui ao contrário do olhar dos nossos ‘media’ – é o da Catalunha. Aqui há uma real singularidade linguística, histórica e cultural que, mais cedo ou mais tarde, levará – estou cada vez mais certo disso – à sua independência política (se não formal, pelo menos substantiva, como em grande medida, conforme se sabe, já acontece).

A desastrosa gestão do governo central espanhol tem dado, importa reconhecê-lo, uma grande ajuda para esse desiderato, refugiando-se em argumentos jurídicos que, por mais que formalmente legítimos, são por inteiro contraproducentes nos nossos tempos. Mais cedo ou mais tarde, haverá referendo e a única resposta inteligente daqueles que querem manter a unidade do Estado Espanhol seria fazer um referendo à escala nacional. Assim, pelo menos, invertia-se o jogo e seriam os catalães independentistas a ficar na defensiva. Fica o meu conselho – de borla e a contra-gosto – aos castelhanistas…

No que concerne a Portugal, nada há já a discutir. Os nossos ‘media’ já decidiram que António Costa será o próximo Primeiro-Ministro, com ou sem a bengala do Partido Livre, para o qual já estenderam igualmente a sua passadeira vermelha. Tudo isto, garantem-nos, para conduzir uma política realmente alternativa ao do actual Governo, mas sem, claro está, pôr em causa o que sobre-determina essa mesma política: a nossa inserção na União Europeia e o cumulativo respeito por todos os seus Tratados (desde logo, o Tratado Orçamental).

Entretanto, longe do olhar dos nossos ‘media’, há coisas que acontecem – por exemplo: o movimento +DP (Mais Democracia Participativa) encetou um processo que poderá redundar na sua integração no “Nós, Cidadãos”, assim reforçando este novo partido político que figurará nos boletins de voto das próximas Eleições Legislativas. Nem tudo no Outono é declinante.

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MANUEL SILVEIRA DA CUNHANão consigo entender o ódio da Câmara de Lisboa contra o automóvel e o automobilista. O que se passa com a construção das montanhas, a que também se chamam lombas, é verdadeiramente gritante.

Está o lisboeta muito bem na sua rua, por exemplo na Av. Cidade de Luanda, ou na Av. De Pádua e em todo o bairro dos Olivais, e chega uma equipa ao serviço da Câmara. Os funcionários cortam a rua e atafulham a mesma com viaturas das obras. Isto sem qualquer aviso prévio nem sinalização. Deixam uma montanha negra, camuflada, no alcatrão, uma armadilha mortal, sem avisos de redução de velocidade, sem sinais de lomba, absolutamente nada.

Passadas umas semanas, depois de destruídas umas quantas suspensões, partidos uns “carters”, provocados diversos rebentamentos de pneus e outros acidentes, de que as pessoas já nem reclamam, como se valesse a pena reclamar junto da edilidade, resolvem colocar umas pinturas sumárias e uns triângulos provisórios mesmo em cima das referidas montanhas. Passados mais uns dias lá acabam de pintalgar as novas passadeiras, no meio de passadeiras existentes e conhecidas, algumas a menos de trinta metros, em que não fizeram absolutamente nada.

No que diz respeito às vias fulcrais de circulação, como a Av. Cidade de Luanda ou a Av. de Pádua, não foi colocado qualquer sinal de redução de velocidade. Ou seja, espera-se que o pacato cidadão circule desprevenido a cinquenta quilómetros por hora, que parece ser ainda o limite de velocidade em Lisboa por força do Código da Estrada, e espatife o carro na novel passadeira, pois todo o carro normal que passa a mais de dez tem incluído bilhete para o sucateiro.

É uma solução económica que destrói automóveis e mata peões aliviando a segurança social. Segundo estatísticas europeias, é uma solução que provoca mais acidentes do que as vulgares passadeiras sem semáforo e muitíssimos mais acidentes do que as passadeiras com semáforos. É a batalha do senso comum contra a estatística e, na câmara municipal de Lisboa presidida pelo inefável “Gandhi” lisboeta, o mesmíssimo António Costa que será o próximo primeiro-ministro de Portugal, vence o senso comum, o que aliás é a tónica dominante da governação portuguesa.

drive-44330Seria ilógico se o raciocínio prevalecente não fosse mesmo o da destruição e sanha contra o automóvel. Proibindo o tráfego no centro da cidade aos mais pobres. Inventando sentidos de trânsito inenarráveis, como na Av. Da Liberdade e nos Olivais, cortando a circulação na Baixa, transformando a vida dos habitantes e comerciantes nessa Baixa num inferno, isolando a parte ocidental da oriental, no que diz respeito ao tráfego automóvel, ignorando os radares, deixando-os ao abandono sem manutenção nas ruas e vias mais movimentadas e perigosas, parece que o sentido da municipalidade é a perseguição ao automóvel e ao condutor.

Se morrerem na segunda circular, devido ao facto de andarem loucos a cento e cinquenta a provocar acidentes sem controlo do radar, tudo bem; se os peões morrerem nas passadeiras, apesar das montanhas de alcatrão lá colocadas em cima, sabendo-se que passadeiras com semáforos são muito mais seguras, não há problema; “carters” partidos, pneus rebentados, suspensões desfeitas, consumos exacerbados de combustível devido aos congestionamentos constantes nas parcas vias disponíveis?

É tudo aceitável, se não mesmo desejável.

Punir os responsáveis pelas montanhas de alcatrão camufladas que destroem carros atrás de carros? Nem pensar. Fica aqui a analogia: alguém pensaria em punir, no terceiro Reich, os membros das SS que matavam os judeus?

CAPA

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