Opinião

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LUÍSA VENTURINI Não sei que me deu. Foi um daqueles arremessos com que a alma nos acorda e tive um acesso de saudades dos meus amigos de Colares. É verdade que já lá vai um bom par de anos desde a última vez que nos enchemos os corações de regalo com o prazer da nossa companhia. Mas também é verdade que talvez tivéssemos precisado de todo este tempo para refazer-nos da míngua em que ficámos depois da morte do Vicente e da Gwen. Dizem que o tempo cura. Curar, curar, curar mesmo, não lhe confiro essa benesse tão plena. É mais a outra, menos redentora, mas que permite que a cicatrização vá acontecendo, assim, num gerúndio infinito, que não infinitivo.

Bom… Adiante. O certo é que aproveitei o convite da alma e fui ter com eles que, por uma coincidência maravilhosa, também estavam acabados de chegar dos seus próprios percursos. A Berenice chegava de Espanha e o Afonso com a mulher, a Helena, aterravam de um congresso onde participaram, em Londres. Em casa da Clara, já sorumbava o Francisco na preparação da sua tese. A Cecília, o marido e a cria – que já nada tem de “cria”, pois estes anos acrescentaram-lhe envergadura, tanto de corpo como de espírito – com a sua disponibilidade generosa de sempre, apressaram-se a sair de Lisboa para ir ter connosco.

Só lamentámos que o Tomás e o Manuel estivessem numa maratona de trabalho, a acabar de resgatar a decoração art-déco de um restaurante, com data marcada para a inauguração. Sempre nos fazem falta aqueles dois, com o seu humor e gargalhada gostosa. Ainda me lembro do dia em que os conheci, há muitos anos já, chegavam eles numa buzinaria estrepitosa à casa de Colares, com aquele ar de quem sempre anima a festa com os confetti de uma alegria muito lavada e colorida.

Apesar da chuvinha doida que teimou em embaciar-nos os olhos e a paisagem, ainda conseguimos um remanso para um lanche ajantarado no jardim, com uns mimos que a Berenice levou e uns robalinhos grelhados de cortar a respiração. Até o Francisco, sempre tão comedido, se desenfreou com as guloseimas. Foi vê-lo pegar na guitarra e desafiar a Cecília que, passado todo este tempo, deve ter mandado os pejos para as urtigas e já nos solta aquela voz magnífica sem os rogos de antanho.

Claro que tivemos de ouvir Gershwin e Segóvia ao serão e claro que a Berenice dançou. Depois, foi aquela sarabanda de quartos para uns e sofás para outros, ia a noite tão alta que já mal se via. A sensação que todos tivemos naquele pequeno-almoço de café com pão (que só nos lembrava o Manuel Bandeira e pôs a Clara numa lengalenga desbragada) foi que não tínhamos conversado nem metade do que nos apetecia e que o fim-de-semana ia ser mirrado. E claro que foi. Mas, desta vez, selámo-nos numa promessa: antes deste ano acabar, iremos estar todos juntos outra vez.

MANUEL SILVEIRA DA CUNHAO que se passou com o processo Face Oculta, uma teia criminal, uma associação criminosa para tirar partido dos recursos de todos os portugueses em proveito de alguns interesses privados, foi exemplar. Utilizando conexões políticas e empresariais em empresas públicas, presentes, subornos, luvas ou comissões, Manuel Godinho e seus apaniguados mantinham grande ascendente sobre contratos, furtavam materiais, manipulavam concursos utilizando informação privilegiada, sobre-facturavam serviços sobre empresas públicas, violavam deliberadamente as regras das hastas públicas.

Isto era feito em conluio com altas individualidades ligadas ao Partido Socialista: recordamos que o ministro Mário Lino chegou a intervir em questões em que Manuel Godinho era parte interessada alegando interesses de gente importante do PS.

Não espantaria num Estado de Direito ver Manuel Godinho, e a sua teia, condenados a pesadas penas de prisão. Armando Vara, ex-ministro do PS, metido em diversos casos duvidosos, como a célebre Fundação para a Prevenção e Segurança que levou Sampaio, quando era presidente da república, a intervir e forçar a sua demissão, ficou “chocado” com a condenação. Dá-se aqui uma total inversão moral: já não choca ver os alvos de presentes de milhares de euros, de relógios caríssimos ou mesmo automóveis de topo de gama, como provado em tribunal, serem ilibados e saírem do tribunal pela porta grande. Também é interessante ver o advogado Ricardo Sá Fernandes aborrecido com o sistema e discordando do mesmo, sic transit gloria mundi, depois de perder repetidamente na luta contra a corrupção. Deve ter assumido que seria mais fácil ganhar na Justiça pelo lado contrário, isto sem qualquer desprimor pela sua actividade digna de advogado, pois até os corruptos têm direito à defesa.

Tudo isto, no entanto, são faits divers. Depois de recursos sábios e prescrições milimétricas, esta gentinha nunca pagará um tusto, nem passará uma noite na cadeia. É sabido que apenas Vale e Azevedo, que abusou demasiado da sorte, sofre as penas de um Portugal mesquinho e corrupto por inteiro.

Tudo isto é folclore. A CP e a REFER produziram ao Estado uma dívida de mais de dez mil milhões de euros. É monstruoso. É o BPN e o BES juntos. A ministra das Finanças, recorde-se, foi uma das gestoras deste monstro. Anos de gestões miseráveis nestas empresas públicas condenaram os portugueses a um fardo quase eterno que pesará por muitas gerações. Muitos Godinhos passaram, muitos gestores e muitas empresas “amigas” meteram dinheiro ao bolso de muitas maneiras e ninguém investigou. Pode dizer-se que Manuel Godinho, Vara, os Penedos, e outros gestores menos conhecidos, mas mais sintomáticos da corrupção generalizada que se vive no país, foram condenados. Realmente é “chocante”, não por terem sido condenados, mas por serem os únicos, por terem tido o azar de encontrar investigadores sérios, determinados e quase únicos no panorama português. O chocante é Armando Vara ter tido a desfortuna rara em Portugal de ter pela frente um colectivo de juízes liderado por um sério juiz transmontano que percebeu que 25.000 quilómetros eram os 25.000 euros pagos a troco de favores e tráfico de influência pelo sucateiro de Ovar e não se deixou levar na arenga jurídica de advogados pagos a peso de ouro, provavelmente com o dinheiro subtraído a todos os portugueses e que nunca será devolvido.

Agora seria tempo de investigar a fundo as gestões de dezenas de anos de empresas públicas que mexem em milhares de milhões e que arruinaram Portugal. Eu começaria pela CP e pela REFER. Os sintomas são mais que muitos, apenas a ponta do iceberg foi julgada e condenada em Aveiro.

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RENATO EPIFÂNIODe facto, a História não acabou e parece que estamos mesmo numa outra fase de recomposição do mundo. Vem isto a propósito do auto-proclamado “Estado Islâmico”, que semana após semana, vai controlando mais território – a começar na Síria e no Iraque –, antecipando já a constituição de um novo Califado.

Esse horizonte pode-nos soar demasiado delirante – nalguns mapas, este integraria inclusive a Península Ibérica! –, mas, no interior do mundo islâmico, parece-nos ser um projecto “com pernas para andar”.

E não só na Síria e no Iraque – há outros Estados Islâmicos em acelerado processo de decomposição (caso mais evidente: o da Líbia). Como a “natureza (também a política) tem horror ao vazio”, toda essa decomposição estadual poderá ser terreno fértil para a constituição dessa nova realidade transnacional, que se propõe reconstituir o mítico Califado, que, esse sim, chegou a integrar a Península Ibérica, com o nome de “Al-Andaluz”.

Para mais, tornar-se cada vez mais evidente que a entidade “Estado-Nação”, que a Europa exportou como modelo político por excelência, não será o mais adequado no mundo islâmico – onde, precisamente, ao contrário do que acontece na Europa, as diferenças linguísticas, culturais e religiosas não são suficientes para justificar esse tipo de fronteiras. Manifestamente, o que une esses países é muito mais do que aquilo que os separa.

Não deixa de ser curioso que isto aconteça precisamente um século depois do início da I Grande Guerra Mundial, que na Europa teve como principal consequência o abandono do modelo do “Império”, em prol do modelo do “Estado-Nação”. Este modelo, que nos rescaldo da II Grande Guerra, a Europa depois exportou para os territórios recém-descolonizados, parece estar, no mundo islâmico, cada vez mais esgotado – com algumas excepções que confirmam a regra (sendo a mais evidente a do Irão, por conhecidas razões étnicas: os iranianos são persas e nisso se distinguem de todos os seus vizinhos).

O mesmo poderia acontecer, em tese, em África, onde muitas das fronteiras nacionais são igualmente artificiais. Mas aí, não obstante toda a retórica pan-africanista, não há nada que se compare ao que no mundo islâmico tem corroído essas mesmas fronteiras: a religião, precisamente. Para mais, uma religião que não reconhece nem sequer compreende o fenómeno da laicidade (ou seja: da separação entre a Igreja e o Estado), tão característico da Europa e do Ocidente em geral.

Há ainda, apesar de tudo, dois travões relevantes à constituição desse novo Califado: um interno, outro externo. O travão interno decorre da rivalidade histórica entre sunitas e xiitas, que por vezes parece sobrepor-se a tudo o resto. O travão externo derivará de uma atitude demasiado hostil em relação ao Ocidente (leia-se: EUA), que poderá ver-se obrigado a intervir. Apesar de, pelo menos em parte, ser uma nova realidade histórica, esse novo Império Islâmico pode pois sucumbir ao que levou à ruína de (quase) todos os Impérios: uma desmedida fome expansionista. Regressando às lições das duas Grandes Guerras, não se pode combater tudo e todos ao mesmo tempo…

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LUÍSA VENTURINIApesar de nunca ter casado e pertencer a uma geração em que as mulheres eram, na sua maioria, sentenciadas a esquivarem-se da vida, a minha tia Catarina nunca foi uma “solteirona” (palavrinha curiosa, bem encharcada do preconceito de toda uma época).

Porque é Setembro, para mim “o suave mês” e porque acredito que a minha tia Catarina faria anos em Setembro, provavelmente a 14 (que assim, na minha sinestesia, resultam na combinação perfeita das mansas tonalidades sépia com as alegrias de fulgores mais rubros) e porque ao arrumar uns espaventos de livros e papéis, mais uma vez me saltou aos olhos o seu diário, não resisti a relê-la, arredondando-me o serão com alguns gomos dos seus dias.

Ainda me pergunto por que terão bulido tanto comigo as referências que faz ao Joaquín de Saavedra. É verdade que é um dos nomes que mais permeia a suas páginas e é verdade, pelo que escreve, que raramente coincidiram em lugar e tempo. Mas dei comigo a pensar (com esta cabeça domesticada por outras gerações post-Freudianas) se a minha tia Catarina não se teria inventado um amor hollywoodesco com esse tal Joaquín, nem que fosse para afugentar solidões e outros estigmas.

Por outro lado, não sei se ele não faria outro tanto, arranjando sempre enredo epistolar para fazer-lhe chegar poemas em labareda, partilhar com ela intimidades intelectuais e buscar-lhe colos cúmplices para sua sensibilidade desabrida.

O certo é que se escutavam. Mais certo ainda que se entendiam.

Reli a página em que ela descreve como soube do seu suicídio, especialmente o último parágrafo: “Hoje, por volta do meio-dia, ouvi o carteiro. Deixara-me um sobrescrito sóbrio, manuscrito numa bela letra esguia e ligeiramente inclinada para a direita. Lá dentro, um pequeno auto-retrato da Frida, pincelado a café. Como num filme mudo, entendi. Deixei duas flores de cor gulosa na caixa do correio e despedi-me de Joaquín de Saavedra para todo o sempre.”

Não fosse ter-lhe ele enviado aquele retrato, não fosse gulosa a cor das flores e não me teria atrevido a enveredar por esta pseudo-análise. Aliás, estou convencida que, a despedir-se para todo o sempre, não terá sido do Joaquín de Saavedra, mas do altar de esperança que se acostumara a visitar há tantos anos que passara a fazer tão parte dos seus dias como o despretensioso gesto de pentear-se de manhã e à noite. Com ele continuaria a conversar em cada momento, fazendo dessa intimidade um espanta-espíritos, daqueles que até trauteiam pensamentos nos dias mais salobres.

Decididamente, hoje vou pôr ao lume uma sopa de alho francês e comer amoras à sobremesa, para recordá-la melhor. Sob o retrato da Kahlo que ainda me ilumina a sala, talvez me decida a pôr umas flores de cor gulosa em honra dos amores inventados, dos Joaquíns de Saavedra desta vida e da minha especialíssima tia Catarina.

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O PS tem dado um triste espectáculo nesta sua campanha interna para a escolha do candidato a Primeiro-Ministro e futuro líder do PS.

A uma ausência de ideias para Portugal, a um consequente debate vazio, oco e sem qualquer conteúdo ideológico ou mesmo programático, a disputa centra-se no “eu sou melhor que tu”, com Costa a autoproclamar-se o Grande Líder pelo qual o partido ansiava e o país desesperava e Seguro a vitimizar-se, ignorando que a gratidão em política (como no resto, infelizmente) é apenas uma figura de estilo ou de mera retórica.

Todo o foco político nestas eleições internas mas de inquestionável importância para o país radica em quem pode derrotar Passos Coelho nas eleições legislativas. A lógica subsumida na premissa é a de pura conquista do poder. Do poder pelo poder.

Ninguém pode iludir-se que, uma vez conquistada a cadeira de S. Bento, de imediato se perfilarão outros candidatos à sucessão. No entretanto fica Portugal…

É neste ciclo e contra-ciclo, versão moderna do rotativismo do século XIX, que nos encontramos. A política transformada numa mera luta clubística dos bons (os meus, do meu partido, da minha facção dentro do partido, dos meus apoiantes…) e os maus (os outros, todos os outros que dentro e fora do partido me impedem de conquistar o poder e de ser o poder – vã ilusão!).

Perdido o discernimento e a capacidade de se colocarem ao serviço da Causa Pública pelo apelo cego do poder pelo poder, os nossos políticos dão uma confrangedora ideia de gente incapaz de singrar sem o recurso ao viciante jogo das influências e do domínio.

É neste contexto que ninguém se pode espantar com as “golpadas” nos cadernos eleitorais, com as “fraternais” acusações de adulteração dos cadernos eleitorais, de quotas pagas em série, de dezenas de supostos militantes com a mesma residência, com os incontornáveis “moralistas” de cada uma das facções a imputaram as ilegalidades à parte contrária e a rasgarem as vestes da ofensa de lhes imputarem exactamente o mesmo.

Depois de tudo o que se tem visto na casa socialista quem pode ficar descansado que algo de novo está para chegar à política em Portugal?

Quem pode gritar hossanas ao novo Messias que chega da Praça do Município com vontade de chegar ao Palácio de S. Bento?

Que pode o PS afirmar que possa, de facto, ser levado a sério?

Costa, conhecedor dos primeiros resultados das eleições para as Federações, apressou-se a vir clamar que é a hora de pensar em cicatrizar as feridas. Está, como político experiente, bem ciente do que será o PS no dia 29 de Setembro. Bem sabe que nada ficará como dantes. Bem sabe que se foi longe de mais e que muito dificilmente os “camaradas” do Rato se voltarão a olhar da mesma forma. Bem sabe que a sua liderança poderá sempre ser posta em causa em qualquer momento, em qualquer circunstância, sempre que o cheiro do poder entrar pelas narinas dos sequiosos pelo mesmo. O precedente foi criado…!!!

 Aguardemos pelos debates televisivos que, naturalmente, só podem melhorar a situação presente… mas só depois de ver, como S. Tomé… sendo que as declarações de unidade do partido, de proclamação do pluralismo e força do debate interno, de um partido mais pujante e vigoroso, de que o adversário política é o Governo, etc., etc… – a que todos assistiremos na noite eleitoral – nada mais são do que música celestial para os ouvidos dos incautos (ainda os há?… não creio…)

Cá para mim… teremos mais do mesmo… e depois que não se queixem os senhores da guerra…

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RENATO EPIFÂNIO

Em anteriores eleições, José Sá Fernandes foi eleito vereador da Câmara Municipal de Lisboa na lista do Bloco de Esquerda, sob o inesquecível ‘slogan’ “o Zé faz falta”. Tendo-se também entretanto desagregado do Bloco, foi de novo eleito, nas últimas eleições, na lista do Partido Socialista, encabeçada por António Costa. Enquanto vereador dos Espaços Verdes, tem assumido posições marcantes – primeiro, autorizou o aluguer de um jardim da cidade para o lançamento de um automóvel; agora, recusou-se publicamente a preservar o jardim da Praça do Império, em frente do Mosteiro dos Jerónimos – sendo que a grande questão está nos seus brasões, alegadamente “sinais do colonialismo” (cf. “Público”, 27.08.2014).

É caso para dizer que, de facto, “o Zé faz falta”. Ao contrário de muitos outros – que pensam o mesmo mas não o assumem –, ou ainda da maioria (sobretudo da nossa juventude) – que parece ser indiferente à nossa memória histórica –, José Sá Fernandes assume claramente os seus propósitos. Saudemo-lo por isso – apesar da colossal ignorância, do tamanho do próprio Mosteiro dos Jerónimos. Sobretudo num ano em que se assinala o centenário do início da I Guerra Mundial, só, com efeito, uma pessoa colossalmente ignorante pode insistir numa identificação, esta assumida de forma menos clara, entre o colonialismo e o Estado Novo, quando a defesa das ditas “colónias” foi o móbil maior da nossa participação nessa Guerra – algo que, na altura, sem que haja qualquer exemplo comparável, não apenas fez (quase) o pleno entre republicanos, como ainda entre republicanos e monárquicos.

Sabendo isto, talvez agora José Sá Fernandes se lembre de “não preservar” os muitos monumentos republicanos que pululam pela cidade. O Mosteiro dos Jerónimos, esse, claro está, fica igualmente condenado à “não preservação” – assim como o Padrão dos Descobrimentos, para mais projectado pelo autor da Praça do Império (Cottinelli Telmo). E por que não estender essa brilhante lógica a todo o país? Se António Costa se lembrar de convidar José Sá Fernandes para próximo Ministro da Cultura (o que não parece de todo inverosímil), há aqui um vasto programa de “não preservação” a cumprir, por esse país fora. Para mais, quando se sabe, ‘a priori’, que “a cultura está com António Costa”. Será mesmo esta a sua concepção de “cultura”?! Tomando como exemplo o nosso Zé, não há dúvidas.

Com ele, ficará ainda condenado à “não preservação” o próprio ideal da Lusofonia – decerto, também um “sinal do colonialismo”. Melhor fora, com efeito, que não existissem mais povos, por esse mundo fora, a falar a nossa língua – isso sim, seria um bom sinal. Agora haver mais de duzentos milhões de falantes de língua portuguesa à escala global, só pode ser lido como um sinal – mais do que um sinal, uma prova viva – de que houve, de facto, um Império. Decerto, poderemos olhar para esse Império de diversas formas: ou como uma espécie de “pecado original”, que nos faz depois amaldiçoar o próprio ideal da Lusofonia; ou como um processo histórico que, por vezes de forma violenta, como acontece sempre em todos os processos históricos, nos permite, ainda assim, construir um futuro comum, numa base de liberdade e de fraternidade. Escusado será dizer que para mim a Lusofonia é isto mesmo. Por isso mesmo, porém, não faço tábua rasa da nossa História. Nem destruo jardins.

MANUEL SILVEIRA DA CUNHA

O “Bairro das Colónias”, em Lisboa, parece que se chama agora de “Bairro das Novas Nações”. Entretanto, o vereador José Sá Fernandes, de quem os lisboetas sofreram as diatribes contra o túnel do Marquês ao longo de anos e a quem o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, parece dever muitos favores, afirma olimpicamente que não vai recuperar os brasões, peças de arte, feitos em flores, que desde há setenta anos ornamentam a praça do Império, porque os referidos brasões florais representavam (e representam) simbolicamente as Províncias Ultramarinas e o senhor vereador acha que são “símbolos colonialistas” e não vai gastar um tostão a recuperar “símbolos ultrapassados”.

Pela mesma ordem de razão o senhor vereador, se tivesse a seu crédito um palácio antigo, não recuperaria esse edifício se nele tivesse havido uma masmorra ou tivessem servido escravos, porque isso teria sido contra “os direitos humanos”, ou outra razão qualquer. Uma razão anacrónica que não contempla valores como a história e a arte.

O problema tem a ver, não com as opiniões do senhor vereador (o mesmo que hipoteca Lisboa ao serviço das grandes superfícies em piqueniques monstruosos nas zonas de maior prestígio comercial, como na avenida da Liberdade, fazendo perder aos comerciantes e à economia nacional milhões de euros ao serviço dos nabos e couves em publicidade aos supermercados do eng. Belmiro, ou deixa entregar a marcas de automóveis zonas residenciais, como a praça das Flores, torturando denodadamente os moradores, ou tendo no currículo a transformação do jardim Norte do parque das Nações numa espécie de deserto do Biafra), mas com o conceito de arte e de história. Sá Fernandes, um personagem sem qualificações para avaliar uma peça de arte ou um jardim histórico, na zona de protecção dos Jerónimos não pode apagar com a esponja da nulidade do politicamente correcto obras de arte e a História de Portugal.

Angola, Moçambique, Guiné, Timor, Macau, a Índia Portuguesa ou mesmo o Brasil foram influenciados por Portugal, que os colonizou. É um facto indubitável. O Convento-Palácio de Mafra foi construído com o ouro do Brasil, ninguém pode apagar esses factos da nossa história. Será manter esse palácio colonialismo? Lisboa celebrou o Mundo Português na década de quarenta e representou em obras de arte essa relação que durará para sempre. As peças de arte, por mais efémeras do que as flores possam ser, são imutáveis e eternas, a mediocridade do senhor vereador não pode nem deve apagar a história nem, sobretudo, a arte.

António Costa parece ter ficado surpreendido e chamará o assunto a discussão em reunião da vereação. No entanto, o facto de ter confiado um sector tão sensível como o dos espaços verdes a Sá Fernandes demonstra incapacidade de Costa para gerir a coisa pública. Quem comissiona em Sá Fernandes não pode gerir nada. O comissário é igual ao comitente.

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LUÍSA VENTURINI

À conta de um belo terço de recordações que a conversa do serão de ontem suscitou, dei comigo a pensar numa frase que, creio, é pronunciada por uma personagem do “Mystic River” (2003, Clint Eastwood), “O que nos acontece é para sempre”, e a reconstatar o quanto concordo com ela. Mais do que uma tela ou uma película que regista as impressões dos acontecimentos, somos esta maleável peça de olaria que, ao ritmo da roda e da grande artesã que á a vida, vai formando e transformando inexoravelmente a nossa matéria-prima – desde há muito considerada barro, pelo menos por certas Escrituras, o que resulta muito adequado para esta minha metáfora.

E ainda que nestas lides (sim, com “e”) da recordação nos seja bem mais aprazível sentar-nos à sombra dos momentos luminosos, por alguma característica dessa tal nossa matéria-prima, com frequência são os mais penosos que mais rapidamente nos moldam, criando-nos até arestas prepotentes e tão insidiosas que poderão contaminar toda a nossa estrutura.

Talvez que o que mais me fascine no ser humano seja a sua capacidade praticamente ilimitada de aprender e essa outra sua consequente de ter a maleabilidade, consciente ou inconsciente, da adaptação.

Uma adaptação que não tem por que significar “con-formação” – isto é, o ser ficar reduzido à mesma forma ou replicar mimeticamente a forma da circunstância – mas que poderá significar “sub-versão” – isto é, uma outra leitura, mais íntima e profunda, da mesma circunstância que conduz à transformação do ser noutro sentido.

O grave problema ocorre quando a matéria-prima se desanima – abdica da sua anima, da sua vontade e pensamento – e não faz mais do que andar de roda, de roda, de roda, na roda. Como alguém disse, o vazio é sempre um convite do espaço para que algo o ocupe.

E sem entrar por caminhos ainda mais obscuros, as possessões, como se diria na Idade Média, ou as manipulações, como se dirá hoje, têm uma grande probabilidade de acontecer. O que nos acontece é para sempre e a vida, como artesã exímia que é, ocupa-se em criar circunstâncias irremediáveis, para as quais não fomos vistos nem achados. Somos apenas sujeitos, no duplo sentido do termo (subjugados a sofrer a acção).

Se desanimarmos, não conseguiremos alterar nem um avo de quanto está nas nossas mãos inovar, corrigir, inverter, transformar, subverter. Assim, a minha perguntinha de hoje tem precisamente a ver com isso. Será que o que nos está a acontecer tem mesmo de acontecer-nos? Convirá pensar um pouco, ou mesmo muito, porque, se nos acontecer, se consentirmos que nos aconteça, poderemos ficar certos, é mesmo para sempre.

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JOSÉ SERRÃO

Cem anos depois do início da Primeira Grande Guerra Mundial, a “Sociedade das Nações” parece ignorar os sinais dos tempos e, cegamente, revela indícios perturbadores da paz e da harmonia dos povos.

Bastaria falarmos da crise entre a Rússia e a Ucrânia e das sequelas da emergência de um Estado Islâmico, sem esquecer, nunca, a eterna guerra pela posse da Faixa de Gaza, para que nos obrigássemos a reflectir sobre o nosso futuro colectivo e a termos, como cidadãos deste Planeta, a obrigação estrita de construir a Paz e o progresso da humanidade.

A Rússia, a China e os Estados Unidos estão demasiado ocupados com os seus interesses hegemónicos.

WAR & CONFLICT BOOK ERA:  WORLD WAR I/THE FRONT

A Europa está em estado de estagnação, quase vegetativa, incapaz de se reconhecer internamente e assumir externamente o seu papel de “potência” falando a uma só voz, perdida nas suas quimeras, sem uma identidade e sem mais para oferecer do que uma fragmentação de nacionalismos, qual orquestra desordenada em que cada músico toca a seu belo prazer na falta da batuta do maestro.

Os países emergentes, entre eles o Brasil, parecem longe de quererem assumir os seus papéis de construtores deste Mundo Novo, por timidez ou porque demasiado envolvidos nas suas querelas internas.

As instâncias internacionais, como a ONU, estão demasiado reféns das potências dominantes e sem meios para poderem exercer uma acção mais efectiva do que o mero controlo diplomático, nem sempre eficaz e consistente.

Cem anos depois… parece demasiado longe dos nossos dias, algo recordado de quando em vez, perdido que está nos baús da nossa memória colectiva, que por vezes já nem tem a noção do tempo e que fala da Guerra com a mesma contemporaneidade das lendas Arturianas, das viagens dos descobrimentos, das guerras napoleónicas, das declarações de independência dos países das Américas e de África… e com o mesmo sentimento de algo insusceptível de se repetir, pelo mero decurso da vida, do progresso e da história.

Puro engano.

O mundo vive, e não me detive nos detalhes, nem podia, dada a dimensão da crónica, à beira de um “barril de pólvora” e qual “Louco”, caminhando entre mundos, continua ignorante dos sinais, a avançar para o precipício…

Urge fazer parar este “Louco”.

As crises económicas e financeiras, em que ainda vivemos, em nada ajudam neste desiderato colectivo, antes pelo contrário. O instinto de sobrevivência, individual e colectivo, tende a ignorar os valores, os princípios e os conceitos de Belo, de Ética, de Cultura e de Civilização.

A fome e o desespero, sem uma consciência superior activada e focada na Causa Maior da Vida – seja isso o que for para cada um de nós – conduzem à violência e à destruição.

De igual sorte, a culpabilização de tudo e de todos com a natural exclusão de nós e dos “nossos”, conduz ao egocentrismo e aos egoísmos tão eficazes na criação dos fundamentos da guerra e da destruição do outro.

Neste contexto internacional, só o diálogo entre os povos e as nações e uma acção cívica, consciente e determinada de todos nós poderá restaurar a confiança e impedir os devaneios belicistas e hegemónicos.

Despertemos…

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“Ironicamente, esta crise [entre a União Europeia e a Rússia] expôs também a fragilidade da CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa]. Moscovo já anunciou que vai passar a importar de um país chamado…Brasil” [“Público”, 16.08.2014]

De forma no mínimo insólita, assim termina o Editorial do “Público” sobre as consequências do congelamento das importações russas de produtos alimentares europeus, em resposta às restrições europeias aos movimentos russos no mercado financeiro.

Que Portugal fique refém de uma política europeia feita “aos solavancos” e “sem um plano” (idem), ainda se poderá compreender, por muito que o lamentemos. Afinal, o estatuto de Portugal na União Europeia sempre foi, desde o nosso ingresso, de menoridade, agora ainda mais agravada pelo resgate financeiro a que fomos sujeitos – escusado será aqui recordar que sem autonomia económica nunca há verdadeira autonomia política.

O que já não se compreende, de todo, é a sugestão de que a CPLP em geral e o Brasil em particular deveriam (por causa de Portugal?!) ser solidários com uma política que não se tem feito apenas “aos solavancos” e “sem um plano”. Bem pior do que isso: a política que tem sido definida pela União Europeia contra a Rússia a propósito da Ucrânia tem sido suicidária.

Com efeito, não deixa de ser curioso que os mesmos que (bem) tanto denunciaram a ignorância histórica norte-americana nos recentes conflitos no Médio Oriente procurem agora caucionar um conflito entre a Rússia e a (Des)União Europeia a propósito da Ucrânia. O que a Europa deveria ter dito à Ucrânia era simplesmente isto: “Vocês têm que manter uma boa relação com a Rússia”. Em vez disso, criou uma ilusão (como já havia feito com a Turquia…) que, essa sim, pode ter consequências bem desastrosas para os ucranianos.

Ou alguém esperaria que a Rússia ficasse de braços cruzados perante o assédio europeu à Ucrânia? Como eu próprio já defendi num outro texto sobre este assunto, não é razoável esperar que a Rússia abdique da sua hegemonia em territórios em que uma parte substancial da população (e só na Crimeia são cerca de dois terços…) é russófona. É assim tão difícil perceber isto? Julgamos que não e que Portugal poderia e deveria percebê-lo melhor do que qualquer outro país europeu.

Segundo José Marinho, um dos maiores filósofos portugueses do século XX, enquanto povo que habita no extremo da ocidentalidade, o povo português tem afinidades com os povos eslavos: “Tanto como a Espanha, ou os povos eslavos, e mais talvez do que eles, a situação do nosso povo é diferente e sob certos aspectos contrastantes da dos povos da Europa.”. De resto, Marinho chega a dar exemplos dessas afinidades, ao aproximar o nosso pensamento do “grande pensamento da tradição eslava”, nomeadamente do de Wronski, Soloviev, Chestov e Berdiaev. Não que isto interesse alguma coisa – afinal, em geopolítica, não há nada “melhor” do que seguir os cowboys norte-americanos. Saudemos o Brasil por não saber isso mesmo.

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