Opinião

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LUÍSA VENTURINIComo uma andorinha que se despede, assomou uma pequena nostalgia à minha janela. Talvez seja do Outono. Talvez seja daquela aura azulada e difusa que ganham as coisas como se todas fossem revestidas de tule e não apenas de bruma. E dou comigo a acenar suavemente à pequena nostalgia, não vá eu assustá-la, convidando-a para que entre, sim, que é bem-vinda, que estou cheiinha de espaço em mim para ela. E sinto que o meu olhar, bem fora da minha vontade, fica mais parado na distância e que o meu gesto, impensado, se torna mais lento, como se em vez de um movimento fosse uma preguiçosa sequência de imagens arrastadas por uma qualquer brisa.

E esta é uma nostalgia boa que me leva de viagem para uma colmeia de horizontes, como quem peregrina por um roteiro de sentimentos benfazejos. Não lhe posso chamar saudade. É outra coisa, mais mansa, mais frágil, quase etérea. Fossem outros os tempos e apercebo-me que seria em idênticas estações da alma que um poema me resvalaria pelos dedos.

No entanto, estou atenta. Não a convido a mais do que a um sereno voo pela casa, a um breve descanso no meu coração e a uma ligeira merenda na minha cabeça, que as nostalgias podem sempre pecar por ser abusadoras, instalarem-se com demasiado conforto e, quando damos por nós e por elas, já tomaram o nosso mundo como coisa sua, já se aferraram como hera, já se transformaram em Saudade e, que nem Hidra, podem matar-nos de desolação.

Não gosto de ter saudades. Não gosto dos sofrimentos das saudades. Não gosto dessa coisa obscena de sentir que parte de mim me fugiu. Comentava um amigo comigo que o pior de tudo é ter saudades de alguém com quem se está – essa costuma ser uma dor irremediável.

Mas não, não vou deixar que esta patanisca de memória, sentimento e bruma se julgue mais do que o que é e comece por aí a ganhar mais substância do que a que lhe reconheço. Para isso, já me basta o resto!

Não. O dia está bonito, o céu azul e o sol tão garboso como se fosse Junho. Recolho-a com a mesma suavidade com que a recebi, não vá eu assustá-la, e, como se fosse uma andorinha, lanço-a meigamente pelos ares fora.

JOSÉ SERRÃOTerminou o Sínodo dos Bispos sobre a Família e o relatório final não obteve a maioria necessária para poder aprovar a inclusão plena dos divorciados e dos homossexuais aos sacramentos, incluindo a comunhão.

Promovido pelo Papa Francisco, este encontro no Vaticano marca uma abertura da Igreja a temas tão fracturantes no seu seio e, ainda, infelizmente, na sociedade.

Francisco tem revelado, no exercício do seu pontificado, pese embora as questões teologicamente dogmáticas, uma anima nova no caminho da inclusão, afastando-se da tradição doutrinária de excluir todos os que não estão ou não podem ou, no seu dizer, se auto-excluíram da graça de Deus.

Saúdo, sempre, todos os que ousam lutar pela inclusão e não se limitam a justificar o porquê da exclusão, ainda que o argumentário seja perfeito, tecnicamente rigoroso e assente na tradição histórica. Assim acontece no seio das religiões e assim acontece no seio de outras instituições, mesmo quando se reclamam defensoras do princípio da absoluta liberdade de consciência.

Se nas religiões se faz do TODO uma parte, a sua parte, excluindo os demais, também outros ousam querer determinar e impor urbi et orbi a sua verdade aos demais, reclamando para si direitos e prerrogativas que ninguém lhes conferiu, nem podia, porque são universais e, consequentemente, insusceptíveis de serem apropriados ou manipulados por quem quer que seja.

O Sínodo de Roma não determinou o acesso dos divorciados, dos homossexuais ou mesmo dos que vivem em união de facto aos sacramentos e a uma vida plena no seio da igreja. Porém, pela primeira vez, as portas do Vaticano abriram-se para que estes assuntos fossem discutidos.

Acontecendo esta discussão, a Igreja revela capacidade para em breve poder incluir e não excluir todos os seus fiéis e quiçá abrir-se a novas “verdades” na senda da unidade das pessoas e dos povos.

Esta via da inclusão deve ser objecto de reflexão de todos nós, sem qualquer excepção.

Com efeito, também no governo da cidade (política) ninguém deve ser excluído, mas, ao invés, incentivado a ter uma participação activa, cívica, empenhada na causa pública.

Nós, cidadãos, tão ávidos a apontar o dedo da imperfeição aos que elegemos e nos governam ou fazem oposição e tão pouco capazes de reconhecer esses mesmos defeitos em nós, também temos graves responsabilidades e novos desafios.

Desde logo, porque somos os primeiros a excluir… Desde logo, porque somos incapazes de ter da política uma visão nobre, inclusiva de todos e, naturalmente, de cada um de nós… Desde logo, porque nos remetemos à cómoda posição de estar de fora a criticar e jamais “calçarmos os sapatos” dos que democraticamente foram eleitos para a função de governar.

A confiança entre eleitos e eleitores, ou a falta dela, também impende sobre nós e as nossas condutas… Não basta votar. Urge ser Cidadão pleno.

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RENATO EPIFÂNIOFoi particularmente penoso acompanhar as diversas eleições que se realizaram nos últimos meses através dos nossos ‘media’. No Brasil, a certa altura, até chegou a parecer que a grande questão em debate era o casamento gay e as alegadas contradições da candidata Marina Silva em relação a este assunto menor (quando as suas interessantes declarações a favor da CPLP foram por cá inteiramente ignoradas).

Já se sabia que a agenda do Bloco de Esquerda dominava grande parte dos nossos ‘media’ nacionais. Agora, quando o Bloco acentua a sua inexorável desagregação interna, essa agenda parece estender-se à cobertura das eleições internacionais. Houve já um Império (o Bizantino) que se deixou cair enquanto se distraia a discutir o sexo dos anjos. No Brasil, felizmente, esse parece ainda não ser o caso.

Na Escócia, a questão em discussão era bem mais decisiva – nada menos do que a independência –, mas, também aqui, o olhar dos nossos ‘media’ foi bastante enviesado. Alinhou na campanha de medo induzida por Londres e Bruxelas, como se, facto, a Escócia pudesse mesmo ficar “fora da Europa”. Isto quando o argumento deveria ser precisamente o inverso: uma Escócia fora do Reino Unido ficaria muito mais dependente da União Europeia.

Mantendo-se como está, isso dá-lhe uma muito maior liberdade, tendo em conta o espaço anglófono que se estende por todo o mundo, que o Reino Unido – ao contrário de Portugal, em relação ao espaço lusófono – nunca desprezou. Se fosse escocês, esse seria o meu argumento maior para ter votado não à independência.

Caso bem diferente – também aqui ao contrário do olhar dos nossos ‘media’ – é o da Catalunha. Aqui há uma real singularidade linguística, histórica e cultural que, mais cedo ou mais tarde, levará – estou cada vez mais certo disso – à sua independência política (se não formal, pelo menos substantiva, como em grande medida, conforme se sabe, já acontece).

A desastrosa gestão do governo central espanhol tem dado, importa reconhecê-lo, uma grande ajuda para esse desiderato, refugiando-se em argumentos jurídicos que, por mais que formalmente legítimos, são por inteiro contraproducentes nos nossos tempos. Mais cedo ou mais tarde, haverá referendo e a única resposta inteligente daqueles que querem manter a unidade do Estado Espanhol seria fazer um referendo à escala nacional. Assim, pelo menos, invertia-se o jogo e seriam os catalães independentistas a ficar na defensiva. Fica o meu conselho – de borla e a contra-gosto – aos castelhanistas…

No que concerne a Portugal, nada há já a discutir. Os nossos ‘media’ já decidiram que António Costa será o próximo Primeiro-Ministro, com ou sem a bengala do Partido Livre, para o qual já estenderam igualmente a sua passadeira vermelha. Tudo isto, garantem-nos, para conduzir uma política realmente alternativa ao do actual Governo, mas sem, claro está, pôr em causa o que sobre-determina essa mesma política: a nossa inserção na União Europeia e o cumulativo respeito por todos os seus Tratados (desde logo, o Tratado Orçamental).

Entretanto, longe do olhar dos nossos ‘media’, há coisas que acontecem – por exemplo: o movimento +DP (Mais Democracia Participativa) encetou um processo que poderá redundar na sua integração no “Nós, Cidadãos”, assim reforçando este novo partido político que figurará nos boletins de voto das próximas Eleições Legislativas. Nem tudo no Outono é declinante.

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MANUEL SILVEIRA DA CUNHANão consigo entender o ódio da Câmara de Lisboa contra o automóvel e o automobilista. O que se passa com a construção das montanhas, a que também se chamam lombas, é verdadeiramente gritante.

Está o lisboeta muito bem na sua rua, por exemplo na Av. Cidade de Luanda, ou na Av. De Pádua e em todo o bairro dos Olivais, e chega uma equipa ao serviço da Câmara. Os funcionários cortam a rua e atafulham a mesma com viaturas das obras. Isto sem qualquer aviso prévio nem sinalização. Deixam uma montanha negra, camuflada, no alcatrão, uma armadilha mortal, sem avisos de redução de velocidade, sem sinais de lomba, absolutamente nada.

Passadas umas semanas, depois de destruídas umas quantas suspensões, partidos uns “carters”, provocados diversos rebentamentos de pneus e outros acidentes, de que as pessoas já nem reclamam, como se valesse a pena reclamar junto da edilidade, resolvem colocar umas pinturas sumárias e uns triângulos provisórios mesmo em cima das referidas montanhas. Passados mais uns dias lá acabam de pintalgar as novas passadeiras, no meio de passadeiras existentes e conhecidas, algumas a menos de trinta metros, em que não fizeram absolutamente nada.

No que diz respeito às vias fulcrais de circulação, como a Av. Cidade de Luanda ou a Av. de Pádua, não foi colocado qualquer sinal de redução de velocidade. Ou seja, espera-se que o pacato cidadão circule desprevenido a cinquenta quilómetros por hora, que parece ser ainda o limite de velocidade em Lisboa por força do Código da Estrada, e espatife o carro na novel passadeira, pois todo o carro normal que passa a mais de dez tem incluído bilhete para o sucateiro.

É uma solução económica que destrói automóveis e mata peões aliviando a segurança social. Segundo estatísticas europeias, é uma solução que provoca mais acidentes do que as vulgares passadeiras sem semáforo e muitíssimos mais acidentes do que as passadeiras com semáforos. É a batalha do senso comum contra a estatística e, na câmara municipal de Lisboa presidida pelo inefável “Gandhi” lisboeta, o mesmíssimo António Costa que será o próximo primeiro-ministro de Portugal, vence o senso comum, o que aliás é a tónica dominante da governação portuguesa.

drive-44330Seria ilógico se o raciocínio prevalecente não fosse mesmo o da destruição e sanha contra o automóvel. Proibindo o tráfego no centro da cidade aos mais pobres. Inventando sentidos de trânsito inenarráveis, como na Av. Da Liberdade e nos Olivais, cortando a circulação na Baixa, transformando a vida dos habitantes e comerciantes nessa Baixa num inferno, isolando a parte ocidental da oriental, no que diz respeito ao tráfego automóvel, ignorando os radares, deixando-os ao abandono sem manutenção nas ruas e vias mais movimentadas e perigosas, parece que o sentido da municipalidade é a perseguição ao automóvel e ao condutor.

Se morrerem na segunda circular, devido ao facto de andarem loucos a cento e cinquenta a provocar acidentes sem controlo do radar, tudo bem; se os peões morrerem nas passadeiras, apesar das montanhas de alcatrão lá colocadas em cima, sabendo-se que passadeiras com semáforos são muito mais seguras, não há problema; “carters” partidos, pneus rebentados, suspensões desfeitas, consumos exacerbados de combustível devido aos congestionamentos constantes nas parcas vias disponíveis?

É tudo aceitável, se não mesmo desejável.

Punir os responsáveis pelas montanhas de alcatrão camufladas que destroem carros atrás de carros? Nem pensar. Fica aqui a analogia: alguém pensaria em punir, no terceiro Reich, os membros das SS que matavam os judeus?

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RENATO EPIFÂNIOPrecisamente oitenta anos após a sua publicação, a Mensagem de Fernando Pessoa continua a ser um texto interpelante para quem insiste em preocupar-se com a destinação histórica de Portugal. Eis o que neste número da “Nova Águia” se comprova. Sob as mais plurais perspectivas – desde as mais esotéricas e espiritualistas até às mais culturalistas e geopolíticas –, a “Mensagem” foi, sobretudo, um excelso pretexto para repensarmos o futuro de Portugal, mais amplamente, de toda a Comunidade Lusófona, mesmo sabendo que nunca chegará “a hora”. Ainda bem – diremos. Sinal de que, ainda e sempre, haverá futuro a construir.

Porque não há futuro sem passado, articulámos essa plural reflexão em torno da Mensagem com a celebração da própria língua portuguesa – na data, esta menos precisa, dos seus oito séculos. Também aqui, o testamento de D. Afonso II, datado de 27 de Junho de 1214, tido como o primeiro documento redigido em língua portuguesa, foi sobretudo um pretexto para reforçarmos essa consciência histórica – não só dessa nossa língua comum a todos os lusófonos, como, mais ampla e profundamente, do que lhe subjaz: uma singular forma, por mais que plural e polifónica, de ver e viver o mundo.

NAPor isso, coligimos também neste número da “Nova Águia” as intervenções dos representantes das várias associações lusófonas da sociedade civil que participaram no II Congresso da Cidadania Lusófona, coordenado pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono e pela Sphaera Mundi: Museu do Mundo, no âmbito da Plataforma de Associações da Sociedade Civil (PASC), decorrido na Sociedade de Geografia de Lisboa, a 16 de Abril deste ano – onde, justamente, se procurou defender e difundir essa consciência histórica e, partir daí, prefigurar as “prioridades na cooperação lusófona”. Nesta secção, destacamos o Discurso de aceitação do Prémio MIL Personalidade Lusófona 2013, entregue, na mesma sessão, a Ângelo Cristóvão, mais um sinal de que, para nós, a Comunidade Lusófona abarca e abraça a Galiza.

Como sempre, também neste número da NOVA ÁGUIA houve espaço para outras “Evo(o)cações”: de Frei Manuel do Cenáculo, nos duzentos anos da sua morte, até personalidades da nossa cultura que nos deixaram mais recentemente, como Maria Helena Varela (2004) e, já neste ano, Vasco Graça Moura, passando por outras figuras lusófonas, como Rui de Noronha e Ariano Suassuna, evocados, respectivamente, por António Braz Teixeira e José Almeida. Em “Outros Voos”, destacamos, entre outros, os textos de Adriano Moreira e Manuel Ferreira Patrício, a par das contribuições vindas de Cabo-Verde e do Brasil – de Elter Manuel Carlos e de José Maurício de Carvalho.

Por fim, para além da “Rubricas” habituais – de Pinharanda Gomes, Eduardo Aroso, Jorge Telles de Menezes, Manuel Gandra e João Bigotte Chorão –, destacamos as já clássicas secções “Bibliáguio” e “Poemáguio”, e, de modo particular, em “Extravoo”, a Partitura Musical de um Poema da Mensagem (“Mar Portuguez”) que nos foi oferecida por Manuel Ferreira Patrício, tudo isto sem esquecer a referência à Colecção “Nova Águia”, onde, até ao final do presente ano, se publicarão mais alguns títulos. Na calha está já igualmente o décimo quinto número da revista, que terá como tema maior “Os 100 anos do Orpheu” e onde, entre muitos outros textos, publicaremos as comunicações proferidas na I Conferência Cabo-Verdiana “Filosofia, Literatura e Educação”, promovida pelo MIL na Universidade de Cabo Verde, a 18 e 19 de Outubro de 2013, em parceria com esta Universidade e com o Instituto Camões.

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LUÍSA VENTURINIApercebo-me que já começa a ser um número muito redondo o das minhas escritas motivadas ou dedicadas àqueles que de nós se vão apartando. Mas como evitá-lo se, com uma frequência algo sofisticada, os episódios de perda se vão avultando no cenário dos meus dias e se só nestes papéis “queimados pelos incêndios da minha alma” encontro um fio finíssimo e subtil que me vai levando a alguma reparação?

Nestes momentos, ando com o coração cheio de lembranças. Lembranças destes que se apartam e lembranças dos que ficam e a quem não conseguimos valer, porque continua a não haver palavras nem gestos para ajudar a ultrapassar o vazio. Só posso mesmo trazer muitas lembranças no coração e acreditar que os pensamentos se encontram como abraços bons, daqueles que transportam em si a quentura dos amores fraternos e estão imbuídos de uma vontade maternal de mitigação.

Foi no dia 9 de Outubro. Precisamente na data em que se cumpriam trinta e seis anos desde a morte de Jacques Brel e quatro da de Paulo Guilherme d’Eça Leal. A notícia correu pelos media, pelo facebook, pelos sítios da internet, por centenas de telemóveis. Breve, esclarecedora em cada uma das suas tenebrosas palavras, deixou todos (creio que digo bem: todos, família, amigos, colegas, alunos, público em geral), suspensos entre o crer e o não poder crer, o não querer crer.

A frase: Morreu o saxofonista Jorge Reis.

A Igreja de Arroios acolheu o ritual de passagem e o espaço encheu-se dos muitos e muitos de nós que tivemos o privilégio de conhecer um coração tão bom e um talento tão invulgar. Nos silêncios, quase se podia ouvir um imenso coro de requiem a emanar de todos aqueles músicos presentes, de todos aqueles não músicos presentes e até daqueles a quem razões maiores tinham forçado a ausência.

jorge reis
CRÉDITO DA FOTO: jazza-memuito.blogs.sapo.pt

A escadaria propiciou a solenidade, o respeito, o profundo afecto da ovação e, depois, houve aquele adeus delicado como uma renda de bilros com que, em nome de toda a gente, creio, os seus pares interpretaram uma peça da sua autoria, como um lenço muito branco que se acena no cais.

Conheci o Jorge através de grandes amigos comuns, um músico e a sua bela família. Recordo a última vez que tive o imenso prazer de o ver e ouvir integrado no Quinteto de Jazz, no Concerto que o Hot Clube de Portugal promoveu em 2012 no Mosteiro da Batalha e lamento não me ter forçado a criar a oportunidade para tornar a ouvi-lo ao vivo e a cores. Nunca se tem tempo, por uma razão ou outra. No dia do seu funeral, em que imprescindivelmente tive de ter o tempo para me despedir, dei comigo a pensar que sempre se incorre no mesmo erro… Lamentavelmente.

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MANUEL SILVEIRA DA CUNHAUm dos grandes problemas da democracia portuguesa é o amadorismo. Não só não existe qualquer preparação para governar, como não se exige currículo aos governantes de Portugal quando escolhidos, em circuito fechado, pelos partidos.

O povo português não é exigente na altura de votar mas, sobretudo, os dirigentes políticos de topo não só não percebem que não têm a menor capacidade de gestão da coisa pública, como não têm a menor preparação e, pior, acham-se os maiores do mundo, confundindo opiniões infundamentadas com factos científicos.

Isto quando, percebendo que não têm quaisquer possibilidades de entender o fenómeno complexo da governação, que exige conhecimentos de história, diplomacia, economia, gestão, estratégia, e não tendo nem instinto nem coragem, usam apenas marketing político e algum carisma (no caso de Passos Coelho, apenas uma boa voz, teimosia e afirmação convicta das tais opiniões) e se agarram ao poder apenas para satisfazer clientelas ou prosseguir com finalidades puramente ideológicas, neste caso uma espécie de cartilha contra tudo o que é Estado e sector público, que seria, aparentemente, liberal, mas elevando os impostos a níveis que tornam o mesmo Estado um sistema socializante dos rendimentos dos mais fracos, deixando impunes os que mais poderiam contribuir e que vêem as suas fortunas aumentar.

Junte-se a isto o propósito de vender o país, naquilo que alguns crêem ser pura alta traição à Pátria, a interesses estrangeiros. Comparar Passos Coelho a Salazar é um grave erro: Salazar nunca deixou achincalhar a autoridade do Estado, a soberania nacional, e nunca vendeu Portugal a retalho.

Aconteceram cinco factos cruciais que determinam em maior ou menor grau aquilo que afirmamos no primeiro parágrafo. Ineficácia do Ministério das Finanças e do Banco de Portugal, em antever a tragédia do Banco Espírito Santo, nomeadamente com a solução encontrada, que não teria custos para os contribuintes, mas que terá custos elevadíssimos, afinal o “preço de ter um banco público”, como afirma a ministra, a mesma Senhora que geria alegremente os contractos de swap e outras despesas que fizeram da REFER e CP os campeões de dívida, superior, aliás, aos buracos do BES, BPN e BPP juntos.

Ineficácia e inacção no caso da PT: um governo corajoso e que defendesse os interesses nacionais teria nacionalizado imediatamente esta empresa depois da história do desbaratar dos novecentos milhões de euros, afinal o filet mignon da PT, num pretenso investimento em papel comercial da Rio Forte, num conluio escandaloso entre governo da PT e a sua estrutura accionista, neste caso do grupo Espírito Santo.

Juntam-se a estes factos os dois escândalos da destruição da estrutura do Estado e da sua credibilidades, os casos CITIUS e da colocação de professores. No caso do CITIUS, um sistema informático desenvolvido dentro da estrutura do Estado foi alvo daquilo a que se chama “outsourcing”. Era barato e funcionava. Em vez de se reforçarem equipas ou de premiar o diligente pessoal da casa, dotando as mesmas equipas internas com melhores meios técnicos e de pessoal, poupando muitos milhões ao Estado, decidiu-se dar o “negócio” a uma empresa exterior que não só não deu conta do recado como destruiu todo o sistema num descalabro que terá consequência terríveis para o próprio funcionamento do Estado de Direito.

Usando como remédio a solução, em cima do joelho, de alargar os prazos, algo que parece claramente inconstitucional. O caso dos professores é sinistro, pois afecta os mais jovens, as crianças deste país, mais uma vez entregues aos bichos. Tomaram-se decisões em cima do joelho, fez-se má programação, decidiram-se concursos sem prazos para corrigir eventuais erros, avançou-se para a decisão do concurso sem se fazerem testes ou sem se validar os resultados antes de os publicar. A pressa e a incompetência são sempre más conselheiras e o ministro, professor de matemática, teve de dar a cara por erros grosseiros de cálculo elementar. Finalmente sai a nova lista e temos professores colocados simultaneamente em dezenas de escolas, um tendo sido colocado em 75 escolas, pasme-se, afectando só este erro mais de mil e quinhentas crianças.

Fica para o final o caso da reunião de 18 horas do conselho de ministros para acertar orçamento e plano. Não seria expectável que tudo estivesse decidido e planeado com tempo? Será que numa longa, mas muito curta, disputa de galos entre ministérios se pode decidir o futuro de um país? É um exemplo de má planificação, decisão em cima do joelho, uma catástrofe estratégica e uma vergonha, esta negociação de toma lá dá cá, praticamente às escâncaras, de assuntos que deveriam ser pensados e maturados com muito tempo e que deviam estar mais que decididos quando fosse a reunião de aprovação da proposta de Orçamento geral do Estado. Mais uma vez com decisões em cima do joelho, fica apenas a questão: quantos serão os orçamentos rectificativos em 2015?

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JOSÉ SERRÃOA política portuguesa está refém de um fim de ciclo, cujos contornos estão envoltos num denso nevoeiro e onde pouco há a dizer em matéria de ideologia ou de modelos socio-políticos.

O rotativismo partidário nos governos (onde ao PS se sucede o PSD e assim sucessivamente…) é determinado pelas promessas de “mais dinheiro nas carteiras” e da sempre “certeza” “nós faremos melhor… porque sim”.

Longe vão os tempos das promessas de sociedade baseadas nos valores ideológicos que cada partido oferecia a Portugal. Longe vão os tempos da clareza ideológica e da previsibilidade do advir.

O ciclo PSD parece estar a chegar ao fim e a nova aurora socialista emerge em cada manhã. Às trapalhadas na educação e na justiça seguem-se as querelas internas na coligação.

O CDS, que sempre procurou estar dentro e fora do Governo, continua a sua cruzada de teimar em nos dizer que é contra a política fiscal, contra a austeridade, contra tudo o que é impopular e desagrada ao bem-estar dos portugueses… e como fazê-lo senão na praça pública?

Passos Coelho continua, aparentemente imperturbável, na sua caminhada até ao fim da legislatura, transmitindo a ideia de que o seu objectivo é chegar à meta, muito mais do que a sua preocupação com cada um de nós, alvos das políticas da austeridade e do empobrecimento. Passos Coelho, que já afirmou “que se lixem as eleições”, parece, na realidade, focado no “seu fim de ciclo” pouco mais se importando com tudo o que está à sua volta.

Neste contexto, emerge a cada dia a messiânica imagem de António Costa, de quem apenas sabemos que a dívida pública não é uma prioridade e que fará melhor mesmo honrando os compromissos internacionais a que o seu PS nos obrigou.

Os eleitores que em 2011 votaram PSD castigando o PS de Sócrates serão os mesmos que castigarão Passos Coelho e elegerão António Costa. E assim continuaremos… até à exaustão que se adivinha.

Que move este eleitorado que navega de Costa a Coelho e vice-versa? Apenas a ilusão de que o próximo será diferente e que lhe trará mais dinheiro, seja de que forma for.

Este é um eleitorado ideologicamente neutro e de matriz puramente pragmática que julga o poder pela medida da sua carteira.

Costa tem tudo para ganhar as próximas eleições legislativas. Mas isso significa que as políticas vão mudar? Que a austeridade vai terminar? Infelizmente, não estou crente nisso.

A Costa sucederá outro Messias que se há-de posicionar com a força mediática para convencer os mesmos de que com ele será diferente. No meio disto, os carreiristas dos aparelhos e as suas clientelas vão-se alterando e serão os únicos que retirarão resultados práticos imediatos…!

Daqui a um ano, passado o estado de graça de Costa, voltaremos a ter os sindicatos nas ruas lutando contra “as políticas de direita”, contra o ministro da Educação, contra o Ministro da Saúde, contra… tudo e mais alguma coisa que sirva como “prova de vida sindical”.

Voltaremos a ouvir a Oposição clamar contra as políticas do governo e a exigir a sua demissão… etc… ou seja, mais do mesmo.

Poucos são os que ousam dizer o óbvio: não são as pessoas… é o sistema que colapsou e já não serve os interesses do país e dos seus cidadãos.

Para onde vamos, afinal? Que futuro para Portugal? Quanto mais tempo demorarmos a perceber o óbvio, mais nos afundaremos e mais nos reduziremos à dependência do exterior, mais poremos em causa a nossa soberania e a nossa identidade nacional.

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RENATO EPIFÂNIO Assinala-se, no dia 15 de Outubro, o quarto aniversário do MIL: Movimento Internacional Lusófono sobre a sua constituição jurídica, e, como em acontecido nos anos anteriores, o “programa das festas”, a decorrer na nossa sede (no Palácio da Independência, em Lisboa), promete.

Tudo começará por volta das 16h com uma Assembleia Geral, onde, conforme a ordem de trabalhos oportunamente publicitada, se procederá à eleição dos novos Órgãos Sociais do MIL (2014-2016), bem como de novos Membros para o nosso Conselho Consultivo (com uma centena de membros, de todos os países e regiões do espaço lusófono) e de novos Sócios Honorários; e, por fim, à ratificação do estatuto de Sócio Fundador do MIL na PASC: Plataforma de Associações da Sociedade Civil-Casa da Cidadania.

Depois, por volta das 17h, procederemos à apresentação do décimo quarto número da revista que, 9904988_SUZNGsemestre após semestre, o MIL tem promovido desde 2008: a “Nova Águia”. Destacamos, neste número, os oitenta anos da publicação da Mensagem, os oito séculos da Língua Portuguesa, bem como as intervenções dos representantes das várias associações lusófonas da sociedade civil que participaram no II Congresso da Cidadania Lusófona, decorrido na Sociedade de Geografia de Lisboa, a 16 de Abril deste ano.

Não só, porém, do décimo quarto número da revista “Nova Águia” se falará nessa sessão a decorrer no Salão Nobre do Palácio da Independência. Para além desta, apresentar-se-á uma obra poética de José Augusto de Pinho Neno, sugestivamente intitulada “Acorda, Portugal”. Maria Dovigo, coordenadora do MIL_Galiza, apresentará ainda os mais recentes títulos da Colecção “Clássicos da Galiza”, editados pela Academia Galega de Língua Portuguesa. Por fim, Armando Jorge Silva, do MIL_Brasil, apresentará o Festival da Cultura Lusófona, que decorrerá simultaneamente em vários locais do mundo no dia 6 de Dezembro e que congrega uma série de outras entidades.

Como igualmente tem acontecido nos anos anteriores, o dia terminará com um jantar de confraternização. Fica aqui o convite, para todos aqueles que se queiram juntar à causa que, no século XXI, mais e melhor garante o futuro de Portugal e de todos os restantes países e regiões do espaço de língua portuguesa: a causa lusófona. Como já foi mil vezes dito, importa por isso reforçar os laços com os restantes países e regiões do espaço lusófono, no plano cultural, desde logo, mas também nos planos social, económico e político. No século XXI, neste mundo cada vez mais globalizado, essa será a nossa maior e melhor garantia de futuro.

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LUÍSA VENTURININa história de Clarissa-a-Velha, como na história de qualquer local, há um capítulo extremamente sedutor onde se reúnem num abraço de grande equívoco episódios verídicos do seu passado e lendas que o consolo ou desconsolo do povo foi forjando.

No caso, há mesmo evidências históricas a atestar a existência de um tal João Ruiz Arrais, Senhor da Boa Morte, tanto nos registos baptismais da Igreja de Santa Maria, como numa menção na “Chronica do muito esclarecido príncipe e pio senhor Dom Affonso”, do cronista Gil Sanches, aos seus “muito bons préstimos e corajosos feitos”, pelos que o príncipe decidira agraciá-lo, doando-lhe “a Herdade da Boa Morte, com seus vinhedos e pomar”.

Não bastando isso, também existe prova da existência de uma tal Dona Maria Joanes Sanches, como se pode ainda hoje ver na lápide tumular que se encontra no pavimento da Capela de Santa Isabel, a terceira do lado esquerdo da nave da Igreja de Santa Maria.

Tanto quanto pude averiguar, para o que foi preciosa a consulta feita à “Imagens de Clarissa-a-Velha – uma perspectiva histórica”, do Prof. Dr. António Maria Senna, nada se sabe do casamento de João Ruiz Arrais com Maria Joanes Sanches, mas consta que ocorreu e que terão tido descendência, da qual se perdeu rasto e memória.

A partir daqui, já só me chegaram os perfumes da lenda que conta que João Ruiz Arrais terá partido, ao serviço do seu príncipe, para longes terras e nelas pelejado durante largo tempo, deixando Maria Joanes Sanches em grande aflição e com três filhas, sem que houvesse dia em que não lançasse os olhos ao rio Guadil, a ver se o via chegar.

Com a vida debruada a angústias e ansiedades, os cabelos tinham-lhe encanecido, ainda que mantivesse a grácil figura e a beleza do rosto. Qual Penélope, ocupava as mãos com tecidos e bordados e a cabeça com leituras, ainda que o olhar todas as tardes se lhe escapasse para o rio. Mas o tempo já lhe esgotava a alma e a Maria cada vez mais se convencia que, certamente, estaria viúva.

Passados muitos anos, aos olhos lhe chegou o sobressalto e viu aproximar-se um cavaleiro de belo porte, a quem decidiu perguntar se saberia do seu marido. Com grandes ambiguidades, ele lá lhe foi respondendo que talvez sim, mas que a resposta teria preço. Em desespero por tamanha maldade perante tamanha esperança, Maria foi oferecendo dinheiro e outros bens, mas o cavaleiro tudo rejeitava. Só a aceitaria a ela como resgate da sua resposta. Ao ver-se assim aviltada, Maria Joanes Sanches bradou por ajuda e foi nesse momento que João Ruiz Arrais se deu a conhecer, pedindo-lhe para ver a outra metade do anel que sempre trazia.

A lenda entrou no repertório popular com as resenhas mais variadas, sendo recolhida e burilada por Almeida Garrett que a incluiu no “Romanceiro”, com o título de “A Bela Infanta”.

Eu, por mim, estou em crer que nasceu aqui.

CAPA

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