Opinião

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LUÍSA VENTURINI
Olha, vim até Clarissa.

O dia fechou-se muito antes de entardecer. Um novelo muito cinzento e redondo de Outono, uma calidez de manta no ar, um estrépito aqui e ali, ao longe. O Guadil apachorrenta-se com veludos de luva junto às margens. Ainda guardo nas mãos o perfume da alfazema que lilazeia os canteiros pelo caminho.

A Avenida das Laranjeiras hoje está muito pacata. De quando em quando chega-me o aroma queimado das lareiras, apesar de não fazer frio. Será da vontade de ninho das famílias… Eu, hoje, sinto-me arredondada como o dia e a música da água sabe-me tão bem, “assim”, sem os corrupios das gentes. Só o rio.

Vim para Clarissa logo de manhã, talvez por ter sonhado toda a noite contigo. Tu sabes que em Clarissa estás sempre mais perto, estejas tu onde estiveres, mesmo que estejas sempre aqui.

A novidade é que acabaram as obras na Abadia de Santa Adélia. Está lindíssima. O lioz recuperou todo o seu esplendor. Logo à noite, vão reinaugurá-la com um concerto nos claustros. Falla, no programa. Para aguçar ainda mais o apetite, o maestro convidado é o Yan Theodorsky. Não consegui bilhetes, claro, que quando soube já estava esgotado.

Manuel Falla… lembras-te? Há quantos anos vimos a Cristina Hoyos e o Antonio Gades no “El amor brujo” do Saura? Falar disto num dia cinzento em que me sinto redonda e debico um chá alourado com uma rodela de limão é quase um paradoxo, não é?

Mas tu sabes que em Clarissa eu fico sempre com espaço a mais para paradoxos, como este de escrever-te sem precisar de escrever-te. Consola-me pressentir o teu sorriso por te trazer, “assim”, desprevenidamente, a Clarissa e às fogueiras da Hoyos e do Gades, num dia outonal como um solo de flauta.

Olha, deve ter acabado de chegar ao largo o carrinho do homem das castanhas – é uma tentação inteira, quentinha e boa, a escapar-se por entre os pingos da chuva. Meia dúzia de pardalitos atrasados acabam de passar, com pressa de chegar a casa.

Eu aconchego-me melhor nas minhas lãs, torno a limpar os óculos e acabo de tomar o meu chá ruivo, com uma vontade doida de comer castanhas e ir para cima de um telhado dançar como Rumi, “assim”, apesar da chuva, apesar do dia precocemente entardecido, apesar da pacatez da Avenida das Laranjeiras.

Desconfio que hoje vou anoitecer por aqui. As luzes acenderam-se e os faróis dos carros acordam nuvens de pirilampos à minha frente. Em Clarissa, mesmo quando raramente não é Junho e a chuva traz às árvores sonatas de mil tons de verde e sépia, respiro-te sempre melhor e a tua presença impregna todos os meus horizontes.

Logo, aninhada no meu pensamento de ti, vou querer adormecer depressa para sonhar contigo outra vez a noite toda, para não deixar de estar “assim” contigo, para dançar contigo sobre os telhados de Clarissa e voar sobre o Guadil, ouvindo Falla, brincando com Rumi e Shams, acendendo fogueiras com a Hoyos, vestida de chuva ou de pirilampos, até amanhecer e ser outra vez Junho em Clarissa.

Mas para já, anda. Vem. A chuva parou. Muito provavelmente vou comer castanhas. Muito certamente vou sentar-me contigo à lareira da nossa casa. Em Clarissa ou em qualquer outro lugar.

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RENATO EPIFÂNIO

A justiça não é para mim o valor mais insuperável e por isso não subscrevo o princípio clássico: ‘Fiat iustitia, etsi caelum ruat’ (faça-se justiça, mesmo que desabe o céu).

Lembro-me de, há já alguns anos, ter tido um desacordo (amigável) com o então responsável da Amnistia Internacional em Portugal (Pedro Krupenski), com quem o MIL estabeleceu um protocolo, a respeito do que estava a acontecer em Timor-Leste no rescaldo do conturbado processo da independência.

A Amnistia Internacional, legitimamente, reclamava o julgamento de todos aqueles que, não tendo aceite o resultado do referendo, se precipitaram numa vingança sanguinária. As autoridades timorenses, de forma igualmente legítima, defenderam um “perdão geral”, em prol de uma mais rápida pacificação geral da sociedade.

Tendo consciência dos prós e dos contras de cada uma das posições, apoiei então a decisão das autoridades timorenses. Nalguns casos, essa cisão interna atingiu inclusive núcleos familiares. Um “perdão geral” pareceu-me a decisão mais inteligente, por mais que fosse aos olhos de alguns – e de facto foi – uma decisão injusta.

Caso muito diferente é, porém, aquele que levou à recente expulsão, “no prazo de quarenta e oito horas”, de oito funcionários judiciais: sete portugueses e um cabo-verdiano. Seja qual for o ângulo de análise, se é difícil vislumbrar nela alguma nesga de justiça, impossível é nela ver um pingo de inteligência.

Foi, em absoluto, em decisão estúpida, mesmo admitindo a tese mais conspirativa: a de que estes funcionários estariam a expor casos de corrupção que envolveriam personalidades várias, incluindo membros do Governo timorense, liderado por Xanana Gusmão.

Admitamos a tese mais benévola para Xanana Gusmão: ele não tem nada a ver pessoalmente com toda essa corrupção, mas considera que, dada a fragilidade do regime timorense, não seria benéfico levar a julgamento membros do próprio Governo. Esta posição até poderia ser, no limite, compreensível (e que ninguém aqui se escandalize – poderia referir diversos casos similares a este, dentro e fora de Portugal).

Mas a forma como Xanana Gusmão geriu todo este processo é que já não é, de todo, aceitável, mesmo nessa oblíqua lógica de “encobrimento da corrupção”. Ao ter expulso com todo o estrondo esses oito funcionários judiciais, Xanana Gusmão adensou as piores suspeitas sobre o nível dessa corrupção e, por arrasto, da cada vez maior “influência” australiana em Timor-Leste.

O que é mais lamentável, porém, é o dano causado nas relações com Portugal – e não falo aqui como cidadão português; falo, ou procuro falar, como cidadão lusófono, que me orgulho de ser. Pretendendo abortar todos os processos judiciais em curso (e admitindo, por um instante, que isso fosse legítimo), Xanana Gusmão poderia tê-lo feito salvaguardando, sem grande esforço, as relações diplomáticas com Portugal.

Não que o dano seja irreparável – como aconteceu também recentemente na relação com Angola, a genuína fraternidade entre os povos lusófonos tem superado sempre a absoluta estupidez de alguns gestos dos nossos Governos.

Apesar do gesto absolutamente estúpido de Xanana Gusmão, os povos português e timorense continuarão a ser, no que mais importa, dois povos irmãos. Disso estamos certos.

Post Scriptum – próximos lançamentos da “Nova Águia”: 20.11.14 – 19h00: Casa da Liberdade – Mário Cesariny. 21.11.14 – 12h00: Universidade Nova de Lisboa. 24.11.14 – 15h00: Escola Secundária do Restelo.

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JOSÉ SERRÃO
António Costa, ao orçamentar na Câmara de Lisboa as já célebres “taxas e taxinhas” sobre as entradas de turistas na capital, veio desvelar a grande alternativa à austeridade tão propalada pelo PS.

Com efeito, mais do que as dúvidas constitucionais da medida – que saudades vamos ter dos inflamados discursos a favor da Constituição por parte da oposição socialista – e muito para lá das justificações económicas sobre a sua relevância e impacto na cidade – à revelia da associação representativa do sector, que à medida se opõe – o que fica é o registo de uma medida que mais não é do que a criação de um novo imposto sobre todos os que visitam Lisboa.

Costa e o PS sempre se esforçaram por nos dizer que têm uma alternativa à política de austeridade assente no aumento cego da carga fiscal sobre as pessoas, as famílias e as empresas. Sempre (ninguém da actual nomenclatura dirigente se manifestou contra) nos garantiram que, sendo governo, a austeridade terminaria, a economia cresceria e o emprego seria estimulado…

Acontece que, na última semana, não só Costa nos veio dizer que a sua criatividade radica no aumento de impostos, ainda que embrulhado na serôdia explicação que serão os estrangeiros que nos vistam que pagarão 1 euro de imposto, como o PS rompe o acordo feito no passado sobre o IRC e vem dizer que é contra a descida da taxa sobre o rendimento das pessoas colectivas… pasme-se, por razões de calendário eleitoral!

Não serve o argumento de que a maioria que critica a medida prevista para Lisboa seja a mesma que nos tem presenteado com a maior carga fiscal de que há memória, pois, em contraponto, se dirá que quem tanto critica a carga fiscal vigente perde autoridade ao criar um imposto na primeira medida que implementa para aumentar as receitas da cidade… Bem prega Frei Tomás, faz o que eu digo mas não o que eu faço!

O mesmo se diga quanto ao IRC. Como pode o PS estar contra a baixa da taxa de imposto e depois manter o seu discurso contra a austeridade e a carga fiscal?

Em igual senda, veio Costa, também esta semana, afastar-se do compromisso de Seguro de reposição total dos cortes feitos aos salários dos funcionários públicos e até da sua mandatária nacional, Catarina Mendes, ao anunciar que os cortes serão repostos “logo que possível”.

Costa assumiu a postura de “fazer-se morto”, não fazer ondas e deixar que o desgaste do Governo e da maioria lhe permita nada dizer, nada propor, nada contrapor, a não ser que Eu farei diferente, Eu farei melhor, Eu…Eu…Eu…, como se de um iluminado se tratasse.

Talvez, num primeiro momento, a estratégia tenha resultado e daí se justifique o apelo permanente e ansioso de eleições antecipadas que permitissem a Costa chegar ao poder sem se comprometer.

Estou em crer que é uma estratégia perigosa e até suicida para os interesses e anseios de Costa e do PS em conquistarem o poder. O povo eleitor está cansado dos que apenas criticam, dos que querem o poder pelo poder sem nada oferecerem, nem nada trazerem de novo, a não ser o “chavão” de que comigo será diferente e de que tudo se resolverá com o endurecimento das nossas posições no contexto europeu e internacional.

É indubitavelmente a hora de Costa. E ele tem que a assumir e dizer ao que vem. O que tem efectivamente para oferecer, que medidas alternativas apresenta e quais os objectivos que preconiza.

Tem de dar a cara… tem que fazer-se de vivo!

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MANUEL SILVEIRA DA CUNHA
Dizem alguns filósofos, a começar por Nietzsche, que Deus está morto, que o Cristianismo como força motriz da Europa já não existe. A própria constituição da Europa baniu qualquer referência ao Cristianismo no seu texto.

Era, de certa forma, previsível. O Cristianismo europeu, apesar de graves distorções ao longo da sua história, mais fruto dos tempos e da natureza humana, sempre foi de um humanismo radical.

A igualdade entre homens, posta em prática pelos Jesuítas no Brasil perante índios e escravos africanos, o que lhes valeu perseguições e banimento, o respeito pela vida humana, que culminou, após um longo processo em que a própria Igreja Católica muito pecou, com a abolição das penas de morte em países como Portugal, o primeiro país a fazê-lo, e a tolerância e liberdade de pensamento, também com muitos acidentes de percurso, que culminaram com a aceitação das teorias da evolução e do primado da ciência sobre o mundo físico, a doutrina social da Igreja Católica, que até admite o direito à greve e a igualdade de oportunidades, foram matrizes fulcrais da Igreja Católica desde 1900.

A Igreja retirou-se do poder temporal, ou a isso foi forçada, há mais de um século, em boa hora, pois a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, mas a sua influência humanista perdura ainda hoje.

O Papa é uma das vozes mais respeitadas no concerto, ou desconcerto, das nações e é reconhecidamente, e constantemente nos últimos cem anos, um homem de paz e de amor, valores quase esquecidos pela civilização materialista que substituiu a visão teísta do mundo, substituindo a ordem moral e ética que presidia a um mundo ideal, ordenado pelo cristianismo, pelo Deus dinheiro.

É uma evolução, provavelmente temporária, que está contida na liberdade que a Igreja e o seu pensamento passaram a dar ao Homem a partir de 1900. Querendo apenas para si os verdadeiros crentes, os que realmente seguem os princípios de amar o próximo e de dar a outra face, a Igreja desfez-se, parcialmente, de todos os materialistas que tinham interesse na morte de Deus, libertários radicais, que renegam o próprio Criador, a quem passaram a chamar Natureza, como se a ideia teleológica não fosse a mesma.

Infelizmente nem todos saíram, ficaram muitos hipócritas e interesseiros, anunciados aliás por Schopenhauer, que se serviram do estatuto da Igreja e de serem seus membros, para interesses egoístas, eticamente reprováveis e, pior, para praticarem o crime. Parece que serão uma minoria, mas contribuíram largamente, esses elementos diabólicos, para a morte de Deus e para a descrença na sociedade.

Ao contrário do Islão, o Cristianismo, sendo uma religião de tolerância, de paz, na sua doutrina original finalmente recuperada após séculos de carnificina e cruzadas, e de liberdade, contém em si próprio a génese da corrosão que destrói o edifício ético das sociedades ocidentais modernas.

Interessa essa corrosão aos plutocratas que governam a Europa e interessa aos ingénuos libertários que não percebem que a única defesa dos desfavorecidos e dos despojados está no Jesus pendurado na Cruz, que, de braços abertos, abraça o Mundo inteiro, incluindo aqueles que não acreditam e aqueles que dele desdenham, como o mau ladrão. Sejamos como o centurião que tarde, é certo, disse, “na verdade este é o filho de Deus” e ajamos em conformidade. Assim acabará a corrupção e a miséria deste mundo.

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RENATO EPIFÂNIONunca se deve confundir o “lado certo” com o sempre circunstancial “lado mais forte” da história. Não sabemos se Durão Barroso faz ou não essa confusão, mas a verdade é que parece estar sempre do “lado mais forte” da história – o que não é, necessariamente, abonatório.

Tendo-se notabilizado nos tempos do PREC (Processo Revolucionário em Curso) enquanto um dos pontas-de-lança do esquerdismo então hegemónico, foi, à sua escala, co-responsável pela descolonização exemplar(mente má), por via do mantra “nem mais um soldado para África”, já para não falar do resto: desconstrução do nosso tecido económico, desestabilização do nosso sistema de ensino, etc.

Logo após o 25 de Novembro, está de novo no “lado mais forte” da história e virá a ser, nos anos 80 e 90, uma das estrelas maiores do consulado cavaquista, em particular no que este teve de pior: a nossa suicida subserviência à então Comunidade Económica Europeia, em troca dos famosos “fundos”, entretanto esfumados.

Entre 2002 e 2004, foi primeiro-ministro, não tendo deixado, nessa condição, nenhum legado memorável. Notabilizou-se, no final desse seu mandato, por ter sido o anfitrião, nos Açores, de uma célebre cimeira entre George Bush, Tony Blair e José Maria Aznar, onde se caucionou a invasão do Iraque e a destituição de Saddam Hussein, com as consequências que estão ainda hoje à vista: o autoproclamado “Estado Islâmico” pode e deve ser visto ainda como uma resposta da minoria sunita a essa destruição do Estado iraquiano.

Dito isto, depreende-se pois que a nossa simpatia por Durão Barroso é pouca ou nenhuma. Ainda assim, não alinhamos no coro condenatório do seu consulado enquanto Presidente da Comissão Europeia (2004-2014), que tanto se tem feito ouvir na generalidade dos nossos ‘media’ nas últimas semanas. Não por uma qualquer razão paroquial – não somos daqueles que, da esquerda à direita, têm bombardeado Durão Barroso por temor da sua candidatura presidencial às Eleições de 2016.

O que nos move é o mais elementar sentido de justiça, que nos leva a defender o seguinte: dificilmente outra pessoa poderia ter deixado a União Europeia (UE) em melhor estado. Não porque a UE esteja bem. Longe disso. Simplesmente, as razões que a levaram, na última década, à sua cada vez mais evidente desagregação em pouco ou nada têm a ver com a actuação de Durão Barroso. Se é verdade que os melhores políticos não ficam reféns da sua circunstância, há limites para uma alteração substantiva da circunstância – no caso, da circunstância europeia. O que afirmamos, em abono de Durão Barroso, é que não teria sido possível fazer algo de muito diferente, para melhor, do que ele fez.

A esse respeito, a habitual comparação com o consulado de Jacques Delors não poderia ser mais desonesta. Delors foi Presidente da Comissão Europeia numa circunstância por inteiro diferente: de crescimento económico e, cumulativamente, de entusiasmo político pelo projecto europeu, em particular na França e na Alemanha. Sugerir que Delors teria tido força, nesta última década, para reverter o decrescimento económico europeu (fruto, em grande medida, da globalização) e, cumulativamente, do crescente eurocepticismo, é não perceber, nos dias de hoje, qual o “lado mais forte” da história. Seja ele o “lado certo” ou não.

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LUÍSA VENTURINIHá coisas estranhas. Definitivamente. Como se movidas por vontade própria, tenho a sensação de que as circunstâncias fazem pactos entre elas, para nosso mal ou para nosso bem. Assim uma espécie de conspiração universal que nos tem na mira.

Eu explico: num belo dia, é a lâmpada do candeeiro do hall da casa que se funde. Tudo bem, é apenas natural. Passados não são cinco minutos, chega a vez da casa de banho ficar mergulhada em treva. Menos natural e mais incómodo, que preciso de um escadote para lá chegar. Mas tudo bem, prossegue-se a lida, limpa daqui, esfrega dali, arruma acolá.

Arrumam-se umas peças no roupeiro. A porta que supostamente é de correr, não corre. Não tuge nem muge. Nem para a frente nem para trás. Uma das gatas deve ter sapateado alguma coisa que impede a calha… bom, há que chamar alguém para resolver o assunto, que eu não tenho força para tanto. Não desmoralizo. Segue o vira. Só que agora o esquentador continua nos seus arquejos, mas a água não aquece.

Quero desligá-lo. O dito não responde. O susto instala-se. Peço ajuda, que estas histórias de esquentadores e de gás nunca me pareceram de fiar. Lá vem uma alma boa que lhe aplica um bisturi certeiro e o leva à semi-morte. Chama-se o técnico. Afinal era só do ventilador… uff! Do mal o menos. Mas, palavras não eram ditas… funde-se o candeeiro da cozinha. Sigo para o supermercado, disposta a adquirir toda uma remessa de lâmpadas, que as de reserva finaram-se.

Degrauzinho arredondado, chuvinha oleosa, folhas de Outono a pregar rasteiras… e lá vou eu num movimento de onda desengonçada estatelar-me em cima de um pobre de um cotovelo que nem tinha sido visto nem achado para nenhuma parte do meu dia.

O que teria o desditoso a ver com esquentadores e com lâmpadas fundidas? Que eu entenda, nada. Mas como as circunstâncias têm destas coisas quando fazem memorandos de entendimento entre elas, alguma razão haverá.

Mas não, não me limitei a ficar de pele esgarçada nem salpicada de papoilas. Não. Fractura mesmo. Daquelas que obrigam à grande discussão: nem desmaias nem vomitas, ouviste? Chama-se a ambulância, passa-se o fim-de-semana fora em grande convívio com enfermeiros, médicos, anestesistas, radiologistas, cirurgiões, auxiliares, etc. Ferro daqui, ferro dali, agrafos, muitos agrafos: um verdadeiro ferro-carril fica instalado no meu braço.

Retorna-se a casa. Expõe-se a parafernália na mesa de cabeceira: protector de estômago, analgésicos, anti-inflamatórios. As gatas interrogam-se, reclamando a falta de um espaço de circulação por elas muito estimado. Eu não reclamo, que apesar da limitação de movimentos, estou sem dores e as mãozinhas funcionam bem. Retomo o meu trabalho. Ah! É verdade! As lâmpadas! Vou ali comprá-las num instantinho.

Volto já (espero eu!).

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MANUEL SILVEIRA DA CUNHAA questão da expulsão dos magistrados judiciais portugueses de Timor Leste é uma questão grave, evidentemente, mas também é apenas um sintoma da natureza humana.

Schopenhauer, o pessimista, afirmava que o ser humano é intrinsecamente mau, velhaco, egoísta e que essas características se revelavam, com raríssimas excepções, mais cedo ou mais tarde.

Uma das condições para a revelação destas qualidades é uma situação de perigo ou de grande crise. Homens elevados, homens de grande coragem e de grande fibra moral e ética superam essas crises com elevada dignidade. Por exemplo, Xanana Gusmão, após captura pelos indonésios, renegou a sua causa, traiu os seus companheiros e apareceu publicamente a defender a Indonésia.

Estava preso, sob ameaça, dirão. Sim, é verdade, por isso mesmo as suas acções foram, de certo modo, desculpadas, quase todos fariam assim para salvar o próprio coiro à custa da infâmia e traição e esse factor induz um elemento de piedade que leva à desculpabilização. Xanana foi lavado, a sua imagem foi reciclada e surgiu, posteriormente a um tratamento muito benévolo pelas autoridades indonésias, como o herói muito necessitado para o povo de Timor.

Mas os heróis são humanos e sabe-se, por exemplo, do desregramento com o álcool de Xanana Gusmão, também desculpado pelos anos de privação e sofrimento por que passou. No entanto, já a palhaçada que aconteceu com a entrada da Guiné Equatorial na CPLP, cujo ditador entrou, qual facto consumado, de braço dado com Xanana na sala da cimeira, humilhando aqueles que defendem os direitos humanos e os portugueses, não falo dos políticos, é indesculpável e cheira a corrupção e jogos de poder nos quais Xanana alinhou de bom grado e de alma e coração, se é que os tem.

Que moral e fígados tem este homem para dar o braço a Obiang, um facínora, um ditador nefando que manda assassinar opositores e oprime raivosamente o seu povo? Afinal não foi este Xanana um combatente pela libertação da sua Nação?

Ou é apenas o traidor por dinheiro e poder que serviu os indonésios? Quem trai uma vez trai sempre e se, primeiro, Xanana traiu por ameaças e coacção, agora trai por poder e dinheiro, o passo psicológico é pequeno.

Não espanta nada esta expulsão dos juízes portugueses, afinal o único travão independente contra a corrupção e a subversão do Estado de Direito. É apenas mais um passo de um canalha a caminho do poder pessoal e fortuna, é mais um passo a caminho do domínio do Estado timorense pelas famílias influentes, verdadeiras tribos orientais com apelidos e origens portuguesas, que têm como modelo aquele a quem Xanana deu o braço, e parece ser o seu modelo, Teodoro Obiang.

Resta a ingenuidade e generosidade do povo português, que veio para a rua lutar por Timor. Não as lamentemos; é certo que sem a ameaça das balas que matavam os timorenses, Timor, mesmo sob as garras de um ditador de meia tigela, estará hoje um pouco melhor, pelo menos o país é governado por canalhas da terra.

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JOSÉ SERRÃO Celebram-se (hoje dia 9 de Novembro de 2014) os 25 anos da queda do muro de Berlim. Com ele caía, como um castelo de cartas, o bloco soviético, arrastando consigo as transformações políticas e sociais nos países de matriz comunista.

Decorrido um quarto de século, alguns desses países do Leste integram hoje a Comunidade Europeia, a Nato e outras instituições ocidentais.

A Alemanha reunificada assume hoje o papel de líder quase hegemónico da Europa, conseguindo pela economia e pela política o que não conseguira pelas duas grandes guerras que promoveu.

O pacto de Varsóvia cedeu e a Nato, pelo menos na aparência, alargou o seu poder e a sua esfera de acção integrando alguns dos inimigos de outrora.

A Rússia, adormecida durante os primeiros tempos, mostra hoje sinais de se querer assumir como a grande potência de outrora e parece ceder à tentação de restaurar os tempos gloriosos anunciadores do Amanhã que nasce.

25 anos que serviram, também, para que questionemos hoje, com a mesma acutilância e a mesma gravidade, as ideologias socialista e capitalista. Com efeito, se ao socialismo comunista, assente na igualdade de todos, ainda que com o sacrifício da liberdade individual, nas suas diferentes expressões, todos fizemos o enterro (todos? Bem, nem todos porque, qual aldeia gaulesa, permanece resistente à mudança e aos sinais dos tempos, o PCP e outros afins, como é bem claro no editorial do último Avante, que se recomenda…) surge agora agonizante o modelo capitalista.

Priorizando a liberdade como sua matriz essencial, o capitalismo tudo permitiu, não cuidando que é o Homem e não o dinheiro a razão de ser quer da economia, quer da finança, quer da política. Os escândalos financeiros na banca e nas instituições financeiras e o primado da especulação sobre a produção da riqueza, fizeram ruir a confiança e revelaram um modelo moribundo e incapaz de dar resposta às necessidades e exigências das pessoas e dos povos.

25 anos depois, tudo está posto em causa. O Homem de hoje já não se divide entre os dois blocos de ontem, muito menos entre as duas ideologias que se digladiaram no século passado. O Homem de hoje, já no pós crise financeira (ou ainda no seu rescaldo), exige participar activamente na vida social e no “governo da cidade” – muito para lá do voto -, exige transparência e rigor na gestão dos recursos colectivos, exige uma adequada repartição da riqueza e dos contributos de cada um para a causa pública, é mais solidário e recusa-se a alimentar ilusionismos ou os vendedores de facilidades.

O Homem de hoje quer assumir a cidadania, não como uma expressão meramente formal da democracia, mas como um imperativo de consciência que o impele a agir.

Na mesma senda, transposta para as Nações, assistimos a sinais bem interessantes das vontades de independência de Nações integradas em Estados fortes e até seculares. Falo da Escócia, onde decorreu recentemente um referendo sobre o seu futuro dentro ou fora do reino Unido, e falo da Catalunha dentro de Espanha, onde este fim-de-semana decorreu um referendo simbólico sobre a mesma causa.

Pessoas, Povos e Nações aspiram hoje a novos patamares de liberdade, que não encontram eco nos modelos do passado e até do presente.

Vivemos tempos de mudança e cabe-nos a nós, só a nós, encontrar os caminhos do futuro. Seremos capazes?

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RENATO EPIFÂNIOSaudamos aqui os novos Presidentes do Brasil e de Moçambique, eleitos neste mês de Outubro de 2014: Dilma Rousseff e Filipe Nyusi, respectivamente.

Sem nos imiscuirmos nas questões internas de cada um desses países irmãos – os povos brasileiro e moçambicano são inteiramente livres e soberanos para fazerem as suas escolhas –, formulamos apenas o desejo de que, nestes novos mandatos, se dêem passos mais fortes: quer para uma maior unidade interna, quer para uma maior união entre os povos lusófonos.

Em ambos os casos, com efeito, foram preocupantes os sinais de fractura interna. Se, no caso de Moçambique, essa fractura decorre ainda de uma guerra civil que se prolongou por cerca de quinze anos, entre 1977 e 1992, no caso do Brasil a bipolarização eleitoral destas últimas eleições presidenciais quase que pareceu levar à divisão do Brasil em dois países.

Estamos certos, porém, que isso jamais se verificará – sendo, de resto, algo que decorre da nossa comum cultura lusófona. Ao contrário do que aconteceu com a restante América Latina, onde uma comunidade que falava a mesma língua e, no essencial, partilhava a mesma cultura, se fracturou em mais de uma dezena de países, o Brasil soube sempre manter o compromisso da sua unidade interna, prova de que, de facto, a cultura lusófona é historicamente propensa ao compromisso.

Também em Moçambique, não obstante a sangrenta guerra civil, essa unidade interna do país jamais, estamos certos disso, será posta em causa, ao contrário do que aconteceu noutros países africanos – recordamos que o mais recente país internacionalmente reconhecido, o Sudão do Sul, resultou de uma cisão daquele que era até então o maior país africano em área geográfica.

Para além disso, importa, a nosso ver, como dissemos, que ambos os países dêem passos mais fortes para uma maior união entre os povos lusófonos. Se, no caso de Moçambique, essa aposta parece ser inequívoca – curiosamente, quer a Secretaria-Geral da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, quer a Direcção-Executiva do IILP: Instituto Internacional de Língua Portuguesa, dois cargos fulcrais na frente lusófona, são hoje ocupados por moçambicanos (Isaac Murargy e Marisa Mendonça, respectivamente) –, do Brasil esses sinais parecem ser por vezes mais ambíguos.

Decerto, o Brasil tem toda a legitimidade para reforçar os laços com os seus vizinhos da América Latina – mas isso não nos parece de todo incompatível com o reforço dos laços com os restantes países e regiões do espaço da lusofonia, conforme defendemos. E o mesmo diremos de Moçambique e dos restantes países africanos de língua oficial portuguesa, em relação aos demais países africanos. E o mesmo diremos de Timor-Leste, em relação aos demais países asiáticos. E o mesmo diremos de Portugal, em relação aos demais países europeus.

Chegou a hora de compreender isso. E de agir, de forma coerente e consequente.

MANUEL SILVEIRA DA CUNHAExiste uma profunda confusão naquilo que se entendeu chamar de direita portuguesa. Dizer que o governo português actual é de direita é algo extremamente vago e pouco incisivo.

O PSD, maior partido do governo, não tem uma filiação ideológica clara, poder-se-ia designar a sua trajectória desde o 25 de Abril como “pragmatismo oportunista”, algo que é habitual nos partidos do centrão e que tornaram os aparelhos de Estado reféns das suas clientelas.

Passos Coelho, dirigente actual, mistura um discurso liberal com uma política anti-portuguesa e uma socialização dos rendimentos dos portugueses, ao mesmo tempo que adiciona proteccionismo aos interesses puramente financeiros, mesmo que estrangeiros, como se a única soberania que interessasse, indiscutível, fosse a da saúde do sistema financeiro.

Se as empresas portuguesas fogem à esfera de influência nacional, ou se deixam de contribuir para o desenvolvimento do país e da sua economia como a actual Portugal Telecom, se uma EDP é vendida aos interesses do comunismo chinês, se uma GALP pratica preços escandalosos, retirando lucros excessivos em detrimento da economia nacional e dos portugueses, está tudo bem.

Apesar de o interesse nacional estar em perigo, nada se faz, em nome de uma certa falsa liberdade de acção dos agentes económicos e da propriedade dos accionistas, mesmo que espoliados dos seus dividendos por chefes executivos que são capazes de desbaratar novecentos milhões de euros de capitais próprios em aventuras financeiras ruinosas, como no caso da Portugal Telecom, isto sem serem severamente punidos ou sem uma acção severa e exemplar da justiça, também esta reduzida a uma paralisia que reflecte a putrefacta acção política e legislativa dos últimos quarenta anos.

É urgente uma reflexão do que é o interesse nacional. Salazar, homem ponderado, de direita, conservador, nunca teria deixado acontecer com a EDP ou a Telecom o que aconteceu. Um governo que age em interesses meramente financeiros, como o actual, é apenas o agente de uma real plutocracia transnacional e não o governo de Portugal.

Existem virtudes claras no nacionalismo, na noção de Pátria, de costumes, de cultura, de História comum e de partilha que fazem de Portugal o candidato ideal ao detentor do Quinto Império visionado por D. João II e Camões, sonhado por Bandarra, anunciado pelo padre António Vieira, por Fernando Pessoa, Agostinho da Silva e por António Ferro, homem de Salazar, e António Quadros.

Mas para alcançarmos o Quinto Império é necessário livrar-nos da escória, é importante repensar o nacionalismo português, é necessário governar para o bem-estar, tendo em conta a tradição, a história e a cultura, repensando conceitos. Unindo nacionalismo com democracia e fundindo modernidade com conservadorismo. Só assim poderemos potenciar a nossa identidade comum e avançar rumo ao Império do Espírito que é o Quinto Império.

Afirmar que o actual governo é de direita é uma afronta à memória de homens sérios como Sidónio Pais, o único presidente-rei de Portugal, ou Salazar, homem que, com os seus defeitos, amava profundamente Portugal e o seu povo. O governo actual é um governo anti-nacional ao serviço de potências estrangeiras que transformou Portugal num pasto das plutocracias com assento difuso e sem rosto. Uma máquina impessoal e desumana.

Infelizmente a alternativa de António Costa ainda é pior, significa mais destruição e mais serviço a interesses inconfessáveis. Só um novo pensamento, um novo nacionalismo e um novo conservadorismo de vertente humanista e tolerante, mas com muita firmeza e determinação face aos interesses estrangeiros, poderão ainda salvar Portugal da destruição.

CAPA

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