Renato Epifânio

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RENATO EPIFÂNIO

Escreveu Paulo Trigo Pereira no jornal “Observador” (11.04.2017) um interessante artigo intitulado “Agostinho da Silva: Amado e Mal-Tratado”, onde denuncia, a nosso ver com acerto, que Agostinho da Silva tem sido “mal-tratado quer por parte de certa ‘inteligentzia nacional’, quer e sobretudo pelas instituições públicas”.

Sendo a denúncia acertada, as explicações que Paulo Trigo Pereira expõe no seu artigo não acertam, de todo, a nosso ver, no alvo. Dito isto, gostaríamos desde já de ressalvar que não pomos minimamente em causa o agostinianismo de Paulo Trigo Pereira, até porque sabemos, por experiência própria, que há muitas formas de ser agostiniano – formas diferentes, muito diferentes, e até contraditórias. Com efeito, Agostinho da Silva consegue, ainda hoje, congregar pessoas das mais diversas proveniências filosóficas, ideológicas, religiosas, etc.

Feita esta (para nós) importante ressalva, vamos então à nossa explicação para o facto de Agostinho da Silva continuar a ser “mal-tratado quer por parte de certa ‘inteligentzia nacional’, quer e sobretudo pelas instituições públicas”. No essencial, isso deve-se, a nosso ver, à sua visão do país, bem distante (para dizer o mínimo) da visão defendida quer por parte de certa “inteligentzia nacional”, quer e sobretudo pelas instituições públicas.

Compreendemos que, para Paulo Trigo Pereira, que se assume como um “federalista europeu”, o assunto seja incómodo, mas a verdade é que, ainda em vida, Agostinho da Silva expôs as maiores reservas a uma visão oficial do País que, no essencial, reduzia Portugal à então C.E.E. (Comunidade Económica Europeia). Na altura, sobretudo por isso, Agostinho da Silva foi de facto ridicularizado e posto de parte: era, alegadamente, um “passadista”, um “velho do Restelo”, senão mesmo ainda um “homem do Império”, que não aceitava o que nos foi impingido como o (único) futuro, com os resultados que estão hoje à vista de todos.

Na verdade, desde há muito tempo, Agostinho da Silva defendia um outro futuro para Portugal. Apenas alguns exemplos: num texto publicado no jornal brasileiro ‘O Estado de São Paulo’, com a data de 27 de Outubro de 1957, Agostinho da Silva havia proposto “uma Confederação dos povos de língua portuguesa”. Num texto posterior, chegará a falar de um mesmo “Povo não realizado que actualmente habita Portugal, a Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, o Brasil, Angola, Moçambique, Macau, Timor, e vive, como emigrante ou exilado, da Rússia ao Chile, do Canadá à Austrália” [“Proposição” (1974)].

Por tudo isso, chegou a defender: “não me pareceu que a revolução de 1974, tal como estava a ser feita, conduzisse a alguma coisa em que valesse a pena colocar essas ideias. Pareceu-me que era um pronunciamento militar sem grande largueza política” (in “Vida Conversável”, Lisboa, Assírio & Alvim, 1994, p. 53). Face a uma posição como esta, como poderia, de facto, Agostinho da Silva não ser “mal-tratado quer por parte de certa ‘inteligentzia nacional’, quer e sobretudo pelas instituições públicas”? A nosso ver, não poderia. Vamos até mais longe. Se for apenas por esta razão, melhor será que Agostinho da Silva continue a ser “mal-tratado quer por parte de certa ‘inteligentzia nacional’, quer e sobretudo pelas instituições públicas”. Prova de que, no essencial, continua a ter razão, já mais de vinte anos após a sua partida.

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RENATO EPIFÂNIO

Menos de um ano após ter decorrido, por iniciativa do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira e do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto, um Colóquio sobre “A Obra e o Pensamento de Amorim de Carvalho”, é agora lançado o volume que resultou desse evento (MIL/DG Edições), assim justificado, na contracapa: “Nascido, no Porto, duas semanas antes de José Marinho (1904-1975), a quem sobreviveria alguns meses, e mais velho um ano do que Álvaro Ribeiro (1905-1985), em cujas tertúlias lisboetas participou regular e activamente, até se ter fixado em Paris, em meados dos anos 60 da passada centúria e onde a morte o veio surpreender faz, agora, precisamente, quarenta anos, José Maria Caldas de Matos Amorim de Carvalho (1904-1976), que, literariamente, se identificava pelos dois últimos apelidos, foi uma singular figura da nossa reflexão contemporânea a que, até hoje, não fora conferida a atenção de que, inquestionavelmente, é merecedor, lacuna que o presente colóquio pretendeu começar a preencher”.

O volume inicia-se com uma panorâmica da vida e obra de Amorim de Carvalho, realizada pelo seu filho, Júlio Amorim de Carvalho, seguida de uma série de mais de uma dúzia de ensaios, que abordam as várias facetas do seu pensamento: J. Pinharanda Gomes, “A crítica dos filósofos portuenses – Amorim de Carvalho”; Afonso Rocha, “A metafísica de Sampaio (Bruno) segundo Amorim de Carvalho: um ‘positivismo metafísico’”; António Braz Teixeira, “A ontognosiologia de Amorim de Carvalho”; Artur Manso, “Amorim de Carvalho e a missão universalista de Portugal”; Filipe Delfim Santos, “A correspondência entre Amorim de Carvalho e Delfim Santos”; Joaquim Pinto, “Amorim de Carvalho e a intimação ontológica ao(s) ‘eu(s)’ orteguiano(s)”; José Almeida, “Amorim de Carvalho: entre o exílio e O fim histórico de Portugal”; Júlio Amorim de Carvalho, “Da noção de poesia à métrica na obra de Amorim de Carvalho”; Manuel Cândido Pimentel, “A dialéctica mononómica de Amorim de Carvalho”; Mário Carneiro, “Amorim de Carvalho, crítico de Fidelino de Figueiredo”; Renato Epifânio, “Para além d’O fim histórico de Portugal”; Samuel Dimas, “O problema de Deus na filosofia de Amorim de Carvalho: necessidade e liberdade, emanação e criação”.

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RENATO EPIFÂNIO

Era, dir-se-ia, fatal como o destino. Depois de já ter contaminado todas as demais expressões da cultura, a peste do politicamente correcto ameaça agora invadir em força a área do pensamento filosófico. Na edição do Jornal PÚBLICO de 19 de Março, destaca-se que “em Londres, alunos universitários [ligados a um grupo denominado “Decolonizing Our Minds Society” (DOMS), com “mais de 12 mil seguidores no facebook” (sic)] questionaram o estudo de filósofos brancos como Kant”, por “defender a superioridade europeia”.

Que esta campanha tenha começado por visar, entre outros, Immanuel Kant (1724-1804), eis a prova da estupidez intrínseca da peste do politicamente correcto, ou não tivesse sido o filósofo alemão um dos pensadores mais progressistas da história universal – sendo que a pessoa que aqui o afirma não se considera propriamente um kantiano (por uma série de outras razões que não são aqui pertinentes).

Sim, é verdade que Kant defendeu, desde logo ao falar da história da filosofia, uma “superioridade europeia”, mas essa tese não tem que ser interpretada a partir de razões genéticas ou raciais, como pretende a DOMS. A ser assim, o próprio Kant teria sido incoerente: porque, decerto, quando ele celebra o alvor da filosofia na Grécia Antiga, ele não o faz atendendo a esse tipo de razões. Platão e Aristóteles tinham o mesmo tom de pele dos restantes europeus da época – seriam, quanto muito, um pouco mais morenos. E, no entanto, foi na Grécia Antiga que a filosofia nasceu. A tese genética ou racial não explica, pois, nada.

A explicação é bem mais prosaica: a filosofia, como uma das mais altas expressões da cultura humana, pressupõe um contexto social propício – nomeadamente, a existência de cidades, ou seja, de agregados sociais com escala, e de instituições que promovam expressões culturais com maior densidade. Na Grécia Antiga, esse contexto social propício existia, com as Cidades-Estado e as suas Escolas. Como depois veio a existir nos Burgos europeus e nas suas Universidades, durante a Baixa Idade Média e a Modernidade. Se, depois, grande parte da filosofia foi expressa em língua alemã, a explicação é igualmente essa.

A uma escala global, reconhecer a evidência de que a Europa foi, durante séculos, para o bem e para o mal, uma espécie de locomotiva intelectual do mundo, tal como a Grécia Antiga o foi, na Antiguidade, em relação à restante Europa (no essencial, é isso o que Kant defende), não significa pois, de todo, sustentar uma posição racista. Negar essa evidência em nome do “politicamente correcto” é que será, tão-só, estúpido. Iguais em potencial à partida, as línguas e as culturas não têm que ter depois, por razões várias, o mesmo ritmo de desenvolvimento. Na época de Platão e Aristóteles, grande parte da restante Europa estava ainda muito atrás (atraso que veio depois a recuperar). E o mesmo aconteceu, naturalmente, em África, na Ásia e nos restantes continentes. É assim tão politicamente incorrecta esta evidência?

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RENATO EPIFÂNIO

Em 2017, começamos por assinalar os 111 anos do nascimento de Agostinho da Silva, a figura que mais inspirou a criação do MIL: Movimento Internacional Lusófono e da Revista NOVA ÁGUIA: no dia 11 de Fevereiro, a norte (no Porto), e, no Sábado seguinte, a sul, em Olhão. Em Março, estaremos em Macau, para participar no Congresso “Lusofonia, utopia criadora?” (que se estenderá depois a Portugal, em Maio), e iremos igualmente evocar esse mestre maior da Lusofonia.

Em Abril, no dia 18, estaremos na Sociedade de Geografia de Lisboa, para entregar o Prémio MIL Personalidade Lusófona (referente a 2016) ao cidadão angolano e lusófono Ruy Mingas, mais uma ilustre personalidade a quem atribuímos este Prémio – recordemos as anteriores: Lauro Moreira (2009), Ximenes Belo (2010), Adriano Moreira (2011), Domingos Simões Pereira (2012), Ângelo Cristóvão (2013), Gilvan Müller de Oliveira (2014) e Duarte de Bragança (2015).

Na ocasião, iremos igualmente publicitar o Programa do V Congresso da Cidadania Lusófona e apresentar o nº 19 da NOVA ÁGUIA, que publica os textos apresentados no anterior Congresso da Cidadania Lusófona, que teve por tema “O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, 20 anos após a sua criação”. Esse número será depois apresentado no Ateneu Comercial do Porto no dia 29 do mesmo mês, no âmbito do Ciclo Evocativo de António Nobre e Raul Brandão, nos 150 anos do seu nascimento, também organizado pelo MIL e pela NOVA ÁGUIA – bem como, depois, em várias dezenas de outros lugares do país.

O V Congresso da Cidadania Lusófona irá decorrer em Novembro, nos dias 13 e 14, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, em parceria com o Centro de Estudos Africanos dessa Universidade e, como sempre, com o patrocínio da PASC: Casa da Cidadania. Uma vez mais, iremos agregar Associações da Sociedade Civil de todos os países e regiões do espaço lusófono, em torno do tema “Liberdades & Circulação”, assim procurando promover uma reflexão conjunta sobre algumas liberdades que deveriam existir no espaço lusófono: desde logo, a liberdade de circulação e de residência, entre outras.

Nos dias seguintes, de 15 a 18, estaremos em Fátima, para o 2º Festival Literário TABULA RASA, uma vez mais coordenado pelo MIL e pela NOVA ÁGUIA: na primeira edição, o tema foi “A Literatura e a Filosofia”; desta vez, o tema será “A Literatura e o Sagrado”. Tal como na primeira edição, este Festival terá uma forte dimensão lusófona, com representantes de todos os países e regiões de língua portuguesa, como se confirmará a 24 de Fevereiro, dia em que apresentaremos o Programa do Festival. Anunciado já foi, entretanto, o Prémio TABULA RASA “Vida e Obra”. Depois de Eduardo Lourenço, iremos premiar este ano Pinharanda Gomes, decerto uma das pessoas que mais e melhor contribuíram, nas últimas décadas, para a nossa comum cultura lusófona.

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RENATO EPIFÂNIO

A ocasião mais significativa em que me cruzei com Mário Soares ocorreu em 2011, na Academia das Ciências de Lisboa. O MIL: Movimento Internacional Lusófono ia entregar o Prémio Personalidade Lusófona a Ximenes Belo e, sem que estivesse à espera disso, Mário Soares apareceu na sessão. Adriano Moreira, então Presidente da Academia das Ciências, convidou-o para a mesa de honra.

Quando chegou a minha vez de intervir na sessão, justificando a entrega do Prémio, olhei para Mário Soares e tive um momento de hesitação. No meu discurso, enaltecia longamente a personalidade de Ximenes Belo e, mais longamente ainda, a personalidade do povo timorense. Como então fiz questão de frisar, aquele prémio era entregue a Ximenes Belo e, na sua pessoa, a todo o povo timorense: no essencial, por ter conseguido resistir à brutal ocupação indonésia e, depois da libertação, por se ter integrado na CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, reafirmando assim a sua condição de país irmão lusófono.

A par disso, tecia também algumas considerações sobre todo o processo de descolonização. E seria hipócrita não o fazer: a ocupação indonésia de Timor-Leste não aconteceu no vazio. Foi, ao contrário, a última etapa de um processo catastrófico que se iniciou com uma descolonização nada exemplar, que propiciou inclusivamente uma guerra civil. E de pouco vale alegar aqui que as guerras civis que ocorreram em Timor-Leste e noutros países então descolonizados foram uma consequência da Guerra Fria (entre os Estados Unidos da América e a União Soviética).

Decerto, isso é verdade. Simplesmente, a Guerra Fria já existia muito antes do processo da descolonização. A sua existência deveria antes ter levado a um cuidado redobrado, não a uma descolonização apressada, para dizer o mínimo. Feita como foi, o resultado foi catastrófico – e não apenas em Timor-Leste. Países como Angola e Moçambique ainda hoje se procuram recompor de uma guerra civil particularmente sangrenta. E nos países em que não houve propriamente uma guerra civil, logo se instauraram ditaduras de partido único, o que não deixa de ser também tragicamente irónico quando se fala de um processo de descolonização que pretendia ser um processo de libertação. Face a tudo isso, insistir na tese da “descolonização exemplar” constitui uma piada de (muito) mau gosto.

Sendo que, no caso de Timor-Leste, há responsabilidades acrescidas. No texto que levava escrito, falava disso, aludindo até a uma tristemente célebre passagem de uma obra de Mário Soares (“Portugal amordaçado”, 1973), em que se caracterizava Timor-Leste como “uma ilha indonésia que não tem grande coisa a ver com Portugal”. No meu discurso, porém, preferi passar por cima dessa passagem. Preferi pensar que a presença de Mário Soares na sessão tinha sido uma forma de o próprio se retractar dessa página mais negra dessa sua obra, senão mesmo de toda a sua vida. Na hora da sua morte, prefiro pensar que foi isso mesmo que aconteceu. É mais do que tempo de virarmos, todos, essa página.

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Comecemos, então, pelo conceito de cultura de Fidelino de Figueiredo – nas suas palavras: “Cultura é o conjunto de ideais condutores, o sistema de juízos e valores, de opções e preferências, que orientam uma época; é a imagem que cada homem civilizado se forma do mundo e do passado da sua espécie, e o plano de actuação futura que se reserva” (“Menoridade da Inteligência”, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1933, pp. 50-51).

Ainda segundo Fidelino de Figueiredo, esse “conjunto de ideias condutores”, que se consubstancia, geração após geração, num “plano de actuação futura”, não se faz necessariamente, nem sequer idealmente, por renegação do passado, antes no respeito da tradição, pelo menos enquanto esta é, nas suas palavras, “uma força viva”, “sangue quente a circular no organismo social, continuidade profunda e involuntária, como o laço familiar, e não doutrina artificiosamente reconstituída pela nostalgia estática ou pela renúncia descoroçoada” (idem, p. 115)

Eis, ainda segundo Fidelino de Figueiredo, a tarefa das elites culturais de qualquer povo, que se devem reger por essa lógica criadora – ou criacionista, como diria Leonardo Coimbra –, senão mesmo por uma lógica de heroísmo – ainda nas suas palavras: “Por heroísmo entendo eu, não só a sua forma marcial, mas todas as potencialidades humanas levadas ao máximo, o predomínio dos melhores, a reconquista dos direitos da inteligência, da força moral, do ideal interior, para fazer impor e triunfar uma ideia: a capacidade de curvar, obediente, a argila humana às dedadas do génio” (“Torre de Babel”, Empresa Literária Fluminense, 1925, p. 172).

Entrevemos aqui toda a importância dada à cultura, na sua prevalência sobre todos os demais planos – nomeadamente, os planos social, económico e político. Daí também, enfim, o seu conceito de “imagens-força” (cf., por exemplo, “Interpretações”, Editorial Nobel, 1944, p. 30). Correspondem estas às “visões do mundo” que, historicamente, se tornaram hegemónicas ao longo dos séculos – desde a visão mítica do mundo, passando pela visão clássica (de matriz aristotélica), até à visão do Renascimento e da Contemporaneidade (onde, para Fidelino de Figueiredo, a figura de Einstein, e da sua física relativista, avulta). Pois bem – perguntamos: não será tempo de se abrir uma nova visão do mundo, uma visão não diremos “neo-existencialista” mas, de forma assumida e descomplexada, “neo-humanista”?

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Numa visão estrita, para não dizer estreita, do existencialismo, tal como ele se configurou enquanto corrente filosófica e cultural no século XX, Fidelino de Figueiredo não foi de todo um existencialista, mesmo quando defendeu que os “existencialistas franceses têm razão indiscutível, quando matam com certo desdém realista esse perturbador e imaginoso problema das essências, coisa tão vã como a querela dos ‘universais’ (…) à qual de resto se articula” (in “Símbolos & Mitos”, Europa-América, 1964, p. 58).

Recordemos que, nessa célebre querela, se confrontaram, no essencial, duas correntes: uma ainda de matriz platónica, para quem os Universais existem (não apenas do ponto de vista temporal como, sobretudo, ontológico) “antes” das coisas (universalia sunt ante res); outra de cariz nominalista, para quem os Universais são considerados como meros nomes, enquanto criações da mente, sem qualquer referente prévio – existindo, assim, “depois” das coisas (universalia sunt post res).

No entanto, a deriva egóica, para não dizer egocêntrica ou subjectivista do existencialismo contemporâneo já não mereceu, de todo, a sua adesão – como chegou a escrever: “Esses existencialistas já não têm sombra de razão quando com mau humor negam a existência do mundo fora do nosso espírito, da sua representação subjectiva e da sua utilização egocêntrica. Por aqui os existencialistas franceses acordam e reforçam o seu parentesco fenomenológico e vão entroncar-se, queiram-no ou não, na velha corrente idealista, e, se analisássemos fundamente essa atitude, contrariariam o seu antiessencialismo, como se perdessem o pé num redemoinho” (idem, p. 58).

Daí, de resto, a sua inequívoca demarcação de duas das mais prominentes figuras do existencialismo: Albert Camus e Jean-Paul Sartre – ainda nas suas palavras: “O livrinho de Camus [“O Mito de Sísifo”] contém um monstruário dos absurdos da existência humana – sem grande acerto na escolha nem na caracterização de cada um” (idem, p. 59); “No código da doutrina, o tratado ‘L´Être e le Néant’, de Sartre, fervilham, como de costume, nos escritos de metafísica, os paralogismos que levam à paradoxia e às logomaquias, as petições de princípio, os postulados gratuitos e o subjectivismo impressionista” (idem, p. 60)

Ainda assim, encontramos na sua obra elementos que nos poderão levar a um neo-existencialismo, mas já devidamente depurado dessa deriva egóica, para não dizer egocêntrica ou subjectivista, pelo próprio Fidelino de Figueiredo denunciada e renegada. Falamos sobretudo da importância que dá ao espaço e ao tempo – mais do que ao tempo, à história – e do papel do ser humano enquanto construtor da história e da cultura. Daí que, ao podermos falar de um neo-existencialismo a propósito de Fidelino de Figueiredo, possamos cumulativamente falar de um neo-humanismo. Eis, em suma, a tese que procuraremos aqui verificar – abordando, sucessivamente, os conceitos de “cultura”, “tradição”, “heroísmo” e, finalmente, o seu inovador conceito de “imagem-força”

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A visão agostiniana da Galiza emerge no âmbito da sua reflexão sobre Portugal, sobre o seu sentido histórico. Desenvolveu Agostinho da Silva essa reflexão em diversas obras, desde logo, na sua “Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa”, obra publicada no Brasil, em 1957. Nessa obra, logo no primeiro capítulo, Portugal e Galiza aparecem a par, “como dois noivos que a vida separou”. Separação que Agostinho lamenta, por Portugal sobretudo, dado que, como nos diz, se ela não tivesse ocorrido, “talvez o ouro da Índia e Brasil tivesse dado maior proveito e se não tivesse, em plena época de afluxo de riquezas, de fazer aportar ao Tejo frotas de cereal e pão”.

Separado da Galiza, Portugal perdeu pois, à luz desta visão, as suas raízes mais profundas, o seu Norte. Eis, dir-se-ia, o “pecado original” da formação de Portugal e das futuras Descobertas. Nesta visão da História, não é, contudo, essa separação, essa cisão, um horizonte inultrapassável. Eis o que o próprio Agostinho da Silva, de resto, nos havia já antecipado no seguimento da passagem da sua “Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa” que há pouco transcrevemos, essa em que lamentava a nossa separação, a nossa cisão, com a Galiza – como aí escreveu: “Mas tempo vem atrás de tempo; se há ‘talvez’ para o passado da História, há ‘talvez’ igualmente para o futuro da História; pode ser que um dia a reintegração da Península em si mesma, na sua liberdade essencial, se faça através da reunião de Portugal e da Galiza. Dos dois noivos que a vida separou.”.

Talvez que, contudo, sob uma perspectiva outra, essa separação, essa cisão, tenha sido historicamente necessária. Eis o que, pelo menos, o que o autor de “Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa” sugere numa outra sua obra – “Um Fernando Pessoa”, publicada dois anos depois, em 1959 –, quando aí desenvolve uma visão triádica de Portugal, à luz da qual “o primeiro Portugal foi – nas suas palavras – o Portugal da velha unidade galaico-portuguesa, o Portugal lírico e guerreiro das antigas de amigo e das velhas trovas do cancioneiro popular; nele estiveram – como acrescenta ainda – as raízes mais profundas da nacionalidade e nele sempre residiram as inabaláveis bases daquele religioso amor da liberdade que caracteriza Portugal como grei política”.

Para que Portugal pudesse barcar, talvez que, contudo, tivesse que se cindir da sua arca… Eis, com efeito, o que, no seguimento desta passagem, Agostinho da Silva implícita senão mesmo expressamente defende ao afirmar que esse “Portugal da velha unidade galaico-portuguesa” era “demasiado rígido para as aventuras da miscigenação, da tessitura económica e do nomadismo que não reconheceria limites”. A ser assim, essa cisão foi, pois, genesíaca – dado que dela resultou toda a demanda das Descobertas! Poderia, como expressamente salvaguarda o próprio Agostinho da Silva, no segundo capítulo da sua “Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa”, não ter sido assim – nas suas palavras: “O Português podia ter resistido ao apelo do longe, Portugal podia ter-se recusado à acção.”. Contudo, como se questiona ainda o próprio Agostinho da Silva: “… se Portugal não tivesse embarcado, quem teria embarcado?”.

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Contra a opinião dominante nos nossos “media” – cuja tendência para falar negativamente do espaço lusófono em geral e de cada país lusófono em particular se mantém, o que só denota o crescente desfasamento entre a opinião pública e a opinião publicada –, registamos de forma positiva as conclusões da XI Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que terminou no primeiro dia de Novembro do corrente ano, em Brasília.

Antes de mais, saudamos a proposta lançada pelas autoridades portuguesas, visando a “liberdade de residência” para os cidadãos da CPLP. Tendo consciência de que essa não será uma medida exequível no imediato, ela deverá ser, naturalmente, uma das prioridades de médio-longo prazo, em prol da consagração do “passaporte lusófono”, já defendido, entre outros, por Agostinho da Silva.

De igual modo, saudamos a proclamada aposta na cooperação económica. O espaço lusófono é, antes de tudo o mais, um espaço linguístico e cultural, mas só terá a devida projecção a nível global se for também um espaço de crescente cooperação económica para o desenvolvimento sustentável, em prol de um outro paradigma político e ecológico. Também nesse plano, o espaço lusófono poderá fazer a diferença, podendo ser inclusive um bom exemplo para outros blocos geopolíticos do mundo: um bom exemplo de comércio justo e de maior respeito pela natureza.

Como ponto menos positivo, registamos a situação da Guiné-Equatorial, que, se por um lado, tem dado alguns passos, ainda não suficientemente significativos, em prol do ensino da língua portuguesa no seu território, por outro, apresenta ainda um claro défice no respeito dos direitos humanos, plano em que, infelizmente, não está só. Também nesse plano, há muito caminho a trilhar. Muitos dos países de língua portuguesa estão ainda longe de serem verdadeiros Estados de Direito, em que se realmente se respeitam os direitos humanos – o que está muito para além da mera abolição da pena de morte.

Esta tem sido uma questão fetiche para os nossos “media”, sempre prontos a encontrarem novas armas de arremesso contra a CPLP, mas está muito longe de esgotar a questão do respeito dos direitos humanos. Mesmo que a Guiné-Equatorial tivesse entretanto abolido a pena de morte, não seria já, apenas por isso, um verdadeiro Estado de Direito. De igual modo, não é por outros países de língua portuguesa a terem já abolido que merecem esse qualificativo. Para além dos enviesamentos mediáticos, temos plena consciência que a CPLP, já com vinte anos de existência, tem ainda um longo caminho a trilhar para se cumprir. Que os bons sinais que saíram desta Cimeira se confirmem, ao contrário do que muitas vezes aconteceu nos últimos vinte anos – eis o sincero desejo de todos os pró-lusófonos.

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Tal como aconteceu em todos os restantes números, também na NOVA ÁGUIA 18 se evocam diversos autores marcantes da cultura lusófona. Neste número, começamos com uma série de textos sobre Ariano Suassuna – textos apresentados num Colóquio promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, em Abril de 2015 – e Vergílio Ferreira, assinalando o centenário do seu nascimento.

Depois, de forma mais breve mas não menos sentida, evocamos uma série de outros autores, a começar pelo nunca entre nós esquecido Agostinho da Silva – transcrevendo a Conferência que, sobre ele, Eduardo Lourenço proferiu num Colóquio realizado no primeiro semestre deste ano, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Em “Outros Voos”, outros temas são abordados – como, nomeadamente, “a cidadania europeia e a construção do futuro da Europa” (por Adriano Moreira), “a importância das diásporas para Angola” (por Carlos Mariano Manuel), “os caminhos da separação e os motivos da reaproximação entre Brasil e Portugal” (por José Maurício de Carvalho), a questão dos “estrangeirados” (por Miguel Real), ou, ainda, “a Renascença Portuguesa e a Seara Nova” (por Pinharanda Gomes).

Em “Extravoo”, publicamos uma série de textos inteiramente inéditos ou ainda muito pouco conhecidos: de Agostinho da Silva, de Raul Leal, de Vergílio Ferreira e de Delfim Santos. Do último, publicamos a sua “Autobiografia”, um texto só em parte até agora conhecido. Desta forma, associamo-nos ao Ciclo Evocativo que decorre neste ano de 2016, com o alto patrocínio do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, cinquenta anos após o falecimento deste insigne filósofo lusófono.

Depois, em “Bibliáguio”, publicamos uma série de recensões sobre algumas obras marcantes para a cultura lusófona publicadas nos últimos meses – nomeadamente: a Paisagem Portuguesa de Carlos Queiroz, o Epistolário de António Quadros e António Telmo, a Última Entrevista à Imprensa de Agostinho da Silva, o terceiro tomo dos textos relativos à Teoria do Ser e da Verdade de José Marinho, e o Dicionário Crítico de Filosofia Portuguesa. Por fim, em “Memoriáguio”, registamos fotograficamente alguns eventos relevantes decorridos no primeiro semestre deste ano. Caso para dizer: o que os nossos “media culturais” esquecem ou desprezam (por ignorância, recalcamento ou má-fé), a NOVA ÁGUIA lembra…

No próximo número, a levantar voo no primeiro semestre de 2017, antecipamos desde já a publicação de uma série de textos resultantes de dois eventos promovidos pela NOVA ÁGUIA e pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono – falamos do Colóquio “Afonso de Albuquerque: Memória e Materialidade”, decorrido em Dezembro de 2015, que assinalou, da forma descomplexada que nos é (re)conhecida, os quinhentos anos do seu falecimento, e do IV Congresso da Cidadania Lusófona, realizado em Março deste ano, que teve como tema “O Balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – 20 anos após a sua criação”.

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