Renato Epifânio

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RENATO EPIFÂNIO

Para nós, o mar é muito mais do que uma questão geográfica – ou até geoeconómica ou mesmo geopolítica. Havendo também nesses planos muito a fazer, em desejável convergência com os restantes países e regiões do espaço lusófono, quero porém aqui salientar a relação cultural – direi até civilizacional – entre a Lusofonia e o Mar.

Com efeito, se à Lusofonia, como a qualquer outra língua, subjaz uma forma singular de ver e viver o mundo, então diremos que o viver do mundo de forma lusófona tem muito a ver com o Mar. E não apenas nem sobretudo, uma vez mais, por razões geográficas.

Não decorre isso tanto da nossa língua como, sobretudo, da nossa história. Foi e é a experiência histórica da Lusofonia o que nos leva a dizer isso: que o viver do mundo de forma lusófona tem muito a ver com o Mar. Porquê? Porque, a nosso ver, há uma dimensão mais marítima, mais fluída, mais plástica na nossa convivência histórica, desde lodo em comparação com outras histórias europeias.

Falemos, como será inevitável, do nosso império ultramarino. Decerto, não irei dizer que não houve aí uma experiência de colonização e de violência – como se fosse possível haver colonizações não violentas. No entanto, comparativamente, a nossa experiência foi muito mais marítima, mais fluída, mais plástica – e, por isso, mais dada à mistura, à mestiçagem, à partilha.

Mesmo no plano religioso, por exemplo, a forma como os “deuses” africanos sobreviveram na cultura lusófona brasileira, ainda que sob o manto de um catolicismo oficial, denota bem essa propensão – ou maior disponibilidade – para a mistura, para a mestiçagem, para a partilha. Por isso, num texto sugestivamente intitulado “Presença de Portugal”, que corresponde a uma palestra feita a um grupo de amigos, em Maio de 1962, na cidade do Rio de Janeiro, aludiu Agostinho da Silva ao que “no tempo e no espaço, podemos chamar a área de Cultura Portuguesa, a pátria ecuménica da nossa língua”.

Mas haverá já uma Pátria Lusófona? Sabemos que não. Num outro texto (“Proposição”), datado de 1974, falou ainda Agostinho da Silva de um “Povo não realizado que actualmente habita Portugal, a Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, o Brasil, Angola, Moçambique, Macau, Timor, e vive, como emigrante ou exilado, da Rússia ao Chile, do Canadá à Austrália”. De um povo ainda não realizado – acrescentaríamos apenas. Por isso, dizemos que esse povo está ainda em gestação – do mesmo modo que essa Pátria. Mas há já uma longa experiência histórica comum, base de uma cultura necessariamente mais mestiça, plural e polifónica. E por isso também marítima.

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RENATO EPIFÂNIO

Para além de Portugal, todos os restantes países da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) são, dada a sua génese histórica (foram constituídos a partir do mar), países marítimos – daí que disponham de vastas áreas oceânicas sob as respectivas jurisdições, que perfazem no seu conjunto mais de 7,5 milhões de km2.

O Conselho de Ministros da CPLP (de 2 de Novembro de 2007) determinou a elaboração de uma estratégia para os seus Estados membros, potenciando o uso e divulgação da língua, bem como a colaboração ao nível global da política de mares, propondo a “concertação de esforços entre os países da CPLP no sentido da elaboração de uma visão integrada, com vista a promover o desenvolvimento sustentável dos espaços oceânicos sob as suas respectivas jurisdições nacionais, inclusive por meio da cooperação internacional”.

Um ano depois, na Declaração de Lisboa (aprovada na VII Conferência de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa: Lisboa, 25 de Julho de 2008), os Chefes de Estado e de Governo da CPLP endossaram a referida decisão do Conselho de Ministros e “sublinharam o interesse em que deliberações técnicas sobre a matéria possam ter lugar no mais curto prazo possível, com vista a permitir a sua implementação no futuro próximo”.

Como se pode ler ainda em documentos oficiais: “Assim, instaram à realização de uma Reunião dos Ministros, responsáveis pela coordenação dos assuntos do mar a nível nacional, com o objectivo de coordenar posições em fóruns da Comunidade Internacional e acompanhar as acções para a gestão sustentável dos oceanos. Apelaram, ainda, à constituição de um Centro de Estudos Marítimos da CPLP – Plataforma de Partilha de Informação e Conhecimento do Mar, que agregue as unidades de investigação dos centros de estudos universitários dos Estados-membros no sentido da dinamização da produção científica, da constituição de uma rede de informação e da compatibilização de bases de dados.”

Apesar de algumas iniciativas já realizadas entretanto – nomeadamente: Conferências dos Ministros responsáveis pelas Pescas da CPLP, Simpósios das Marinhas dos Países de Língua Portuguesa ou Encontros de Portos da CPLP –, cabe perguntar porque, neste últimos anos, não se avançou muito mais. A resposta não pode deixar de remeter para o balanço que não se pode deixar de fazer da CPLP, vinte anos após a sua criação. Um balanço igualmente negativo nesta área fundamental – como em várias outras áreas –, como não pode deixar de se concluir.

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RENATO EPIFÂNIO

Comecemos por responder ao repto de José Rodrigues dos Santos: “Se acham que o fascismo não tem origens marxistas, façam o favor de desmentir as provas que apresento nos dois romances. E, já agora, aproveitem também para desmentir que o fascismo alemão se designava nacional-socialismo. Como acham que a palavra socialismo foi ali parar? Por acaso?” (in “O fascismo tem origem no marxismo”, PÚBLICO, 31.05.2016).

Não, não foi por acaso, nem sequer de forma ilegítima, dado que o fascismo foi, a seu modo, uma variante do socialismo – um “socialismo de direita” –, por muito que isso incomode os auto-proclamados socialistas de hoje – em geral, de “esquerda” (terminologia mais do que equívoca, como aqui sobejamente se verá, para escândalo das mentes mais formatadas pelo “politicamente correcto”).

Dito isto, José Rodrigues dos Santos não tem razão na sua tese (algo provocatória, reconheça-se) de que “o fascismo tem origem no marxismo”. Já teria mais razão se defendesse que o fascismo e o comunismo têm, em parte, origens comuns, sendo que, para tal, teria de recuar muito mais na história. Recuemos nós a Platão (século V a.C.) e à sua “República” e perguntemos: a utopia platónica era mais proto-fascista ou mais proto-comunista?

A resposta não é óbvia: pela minha parte, já vi tanto fascistas como comunistas reconhecerem-se nela. E o que os une, nesse reconhecimento? Desde logo, em termos de ontologia política, a prevalência do uno sobre o múltiplo, ou, se preferirem, da Comunidade sobre o(s) Indivíduo(s). Essa é a subtil, a abissal fronteira do fascismo e do comunismo face ao liberalismo – como já foi mil e uma vezes defendido (sendo, a esse respeito, o livro de Karl Popper, “A sociedade aberta e os inimigos”, a grande obra de referência – e, não por acaso, Popper começa também pela “República” de Platão).

Defendendo ambos esse “mesmo”, o fascismo e o comunismo separaram-se depois, historicamente, em tudo o resto – na aceitação do capitalismo (que o comunismo rejeita por completo e o fascismo apenas em parte) e, sobretudo, na promoção do internacionalismo e da igualdade social. Sendo que aqui há também variantes: se o fascismo sempre afirmou uma hierarquia social, essa hierarquia não estava necessariamente fundada num racismo biológico, mas antes no que alguns autores (como, entre nós, Fernando Pessoa) designaram de “racismo espiritual”.

A referência à história é aqui fundamental. Ente os anos 20 e 40, o fascismo foi apoiado ou, pelo menos, tolerado por diversas outras correntes de direita (algumas até liberais; na teoria, anti-fascistas) porque, para estas, o fascismo pareceu ser o grande foco de resistência (e, por isso, um mal menor) ao avanço, aparentemente crescente, do comunismo.

Isso levou a que o fascismo acentuasse a sua dimensão anti-comunista, que não anti-comunitarista, bem como a outros desvios em relação às suas teses de raiz – sendo talvez o exemplo maior a sua relação com o cristianismo: em tese, o fascismo tende a ser anti-cristão (pelo seu anti-igualitarismo, desde logo); na prática, como sabemos, houve, nalguns casos, uma aproximação mútua, por mais que, em tese, o cristianismo esteja bem mais próximo do comunismo do que do fascismo (não é por acaso que muita gente, ainda hoje, e com bons argumentos, considera o comunismo como uma versão ateia do cristianismo).

Se assim não tivesse acontecido, talvez José Rodrigues dos Santos tivesse bem mais razão. Entre nós, por exemplo, Raul Leal, companheiro de Fernando Pessoa na revista “Orpheu”, defendeu expressamente uma síntese do comunismo e do fascismo – tais as similitudes que encontrava na teoria. Sendo que, pelo menos neste ponto, o marxismo tem razão: a prática é mesmo o critério da verdade.

Pelo menos, da verdade histórica.

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RENATO EPIFÂNIO

Em 2014 aprovou-se, por unanimidade dos deputados do Parlamento Autónomo da Galiza, a chamada “Lei Paz-Andrade”, que previa a inclusão do ensino da língua portuguesa nos centros escolares do ensino primário e secundário, a promoção de conteúdos em português nos meios de comunicação social públicos, e a inserção das instituições públicas galegas nos organismos internacionais do espaço de língua portuguesa.

Entretanto, em 2015, o Instituto Camões assinou um Memorando de Entendimento com o Governo Autónomo Galego, visando formar professores e estabelecer critérios de avaliação para o ensino da língua portuguesa. Ainda em 2015, a Presidência da República de Portugal outorgou a Medalha de Ouro do Infante D. Henrique ao Presidente do Governo Regional, Alberto Núñez Feijóo, o que nos pareceu um compromisso real para a promoção da língua portuguesa nesse território.

Dois anos após a sua aprovação, chegam-nos porém notícias preocupantes sobre a real implementação da Lei Paz-Andrade. A expansão do ensino da língua portuguesa – que foi de 850 no curso anterior para 1850 alunos no presente ano –, deveu-se exclusivamente à iniciativa dos pais dos alunos ou das entidades culturais privadas, sendo que o Governo Autónomo não transmitiu, a este respeito, qualquer instrução nem informação aos responsáveis dos centros escolares, parecendo assim não estar minimamente empenhado na real implementação da referida Lei. Quanto à rádio e televisão públicas, apenas se regista, para além das colaborações no programa “Aqui Portugal”, da RTP, a edição da banda desenhada “Os Bochechas”. Ignoramos se a RTP tem, a este respeito, alguma outra colaboração prevista.

Entretanto, fomos informados de que a candidatura do “Consello da Cultura Galega”, organismo público financiado pelos contribuintes galegos, ao estatuto de Observador Consultivo da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), foi aprovada por unanimidade pelo Comité de Concertação Permanente da CPLP. Constatando que esta entidade tem defendido publicamente que “a língua galega é independente da língua portuguesa” (sic), perguntamos que sentido faz aceitar na CPLP uma entidade que promove o isolacionismo, ao invés da convergência linguística e cultural com os restantes países e regiões do espaço lusófono.

A nossa perplexidade é tanto maior porquanto, em 2011, como então denunciámos, Portugal vetou a candidatura da Fundação Academia Galega da Língua Portuguesa – esta sim, uma verdadeira instituição da sociedade civil e realmente pró-lusófona – ao mesmo estatuto de Observador Consultivo da CPLP.

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RENATO EPIFÂNIO

Conforme o noticiado em vários “media”, o Secretário-Executivo da CPLP em exercício, Murade Murargy, antecipou que a recente crise política no Brasil poderá ter implicações no agendamento da próxima Cimeira da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Lembrou ainda que, até ao final de 2016, decorrerão no Brasil os Jogos Olímpicos, havendo, para além disso, eleições presidenciais em São Tomé e Príncipe e em Cabo Verde, que também terá eleições autárquicas. Lembrou, por outro lado, a Cimeira da União Africana em Julho (esta, por sua vez, não adiada) e o mais recente episódio da crónica crise política da Guiné-Bissau, que culminou com o Presidente da República, José Mário Vaz, a demitir o Governo de Carlos Correia, empossado há menos de um ano (Setembro de 2015).

Todas essas alegações são decerto pertinentes (e mais algumas se poderiam aduzir, como a crise política que se vive em Moçambique), mas não constituem, a nosso ver, razão suficiente para justificar o adiamento da próxima Cimeira da CPLP. Não apenas, desde logo, pela importante Agenda dessa Cimeira: onde se irá eleger a nova Presidência da Comunidade, que transita de Timor-Leste para o Brasil, bem como substituir o Secretário-Executivo, tendo como única candidata à sua sucessão a antiga Primeira-Ministra e Governadora do Banco Central de São Tomé e Príncipe em exercício, Maria do Carmo Silveira – a quem desde já desejamos o maior êxito. Mas, sobretudo, por ser (mais) um sinal de que a CPLP continua a não ser uma aposta estratégica para os diversos Países de Língua Portuguesa.

Como temos mil vezes reiterado, só quando os diversos Países de Língua Portuguesa derem provas de apostarem realmente num caminho de convergência entre si – no plano cultural, desde logo, mas também, cumulativamente, nos planos social, económico e político –, é que a CPLP poderá apresentar obra.

Enquanto essa aposta continuar a ser a última das prioridades para os diversos Países de Língua Portuguesa, a CPLP continuará a ser o que tem sido ao longo destas duas décadas: uma prateleira dourada para políticos e diplomatas em fim de carreira, uma plataforma político-diplomática com um discurso bem-intencionado mas quase por inteiro inconsequente, por não ter meios para cumprir esse caminho de convergência.

Apelamos, pois, para que a próxima Cimeira da CPLP se realize na data prevista. Não podemos continuar a adiar o nosso comum sonho lusófono. Nos vinte anos da sua existência, impõe-se que a CPLP se comece enfim a cumprir.

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RENATO EPIFÂNIO

Segundo se pode ler em vários jornais por todo o mundo, o recém-eleito Presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, entre outras declarações aberrantes, assumiu, numa gravação vídeo, que não se importaria de ter também violado uma freira, realmente violada e assassinada num motim prisional em Davao, em 1989. Do outro lado do mundo, nos Estados Unidos da América, temos um proto-candidato a Presidente, Donald Trump, que, se não fez (até agora) nenhuma afirmação tão brutal quanto esta, tem andado (bastas vezes) muito perto disso. E a pergunta que fazemos é: como é possível que este tipo de “políticos” seja cada vez mais popular?

Nestes dois casos (poderíamos dar outros, mas estes são mais do que suficientes para a nossa reflexão), conseguimos perceber um certo encantamento por parte de grande parte da população por pessoas que (pelo menos, aparentemente) dizem aquilo que pensam (por mais que não pensem naquilo que digam). Isto por contraponto a toda uma classe política, das Filipinas aos Estados Unidos, que manifestamente quase nunca diz aquilo que pensa. Sobretudo nas últimas décadas, tem havido realmente uma ditadura cada vez maior do “politicamente correcto”, que leva a que o discurso político soe cada vez mais a falso. “Eles mentem-nos” – é a verdade, nua e crua. Isto descontando todos os casos em que, por razões de Estado (que existem) os políticos são mesmo obrigados a mentir – ou, pelo menos, a não nos contarem toda a verdade.

Dito isto, estes contra-exemplos estão longe de serem melhores. Quando alguém, retomando o exemplo dado, assume que não se importaria de ter violado outra pessoa (freira ou não, isso aqui é o menos importante), esse alguém só pode estar a negar o seu próprio estatuto de “pessoa”. E aqui o assumir faz toda a diferença. Não há ser humano (excepto talvez os santos, se é que existem) que nunca tenha sentido pulsões transgressoras. Mas, precisamente, o que diferencia os humanos (dos outros animais, desde logo) é conseguirem controlar essas pulsões. E mesmo quando as sentem, não as assumem com esse boçal orgulho. Assumi-las publicamente, como fez o Presidente das Filipinas, é algo que extravasa por inteiro os limites da humanidade civilizada.

Não sendo o maior adepto de máximas moralistas – o pensamento tende a não ser redutível a máximas, moralistas ou não –, houve uma que sempre apreciei, de François de La Rochefoucauld, pela sua subtil sageza cínica: “A hipocrisia é o tributo [ou a homenagem] que o vício presta à virtude”. Com efeito, em última instância, o mal não está tanto no vício, mas sobretudo em deixar de prestar tributo [ou homenagem] à virtude.

Que nestes nossos tempos isso seja de todo esquecido, em prol de uma impossível transparência – tão impossível quanto nefasta –, não augura nada de bom quanto ao nosso futuro colectivo. Precisamos, também aqui, de regressar aos clássicos: para recuperarmos uma visão não infantilizante da humanidade. Só aqueles que sabem o mal de que o humano é capaz podem realmente mostrar-nos o caminho que, não nos podendo levar à santidade, nos leve pelo menos à decência, à civilização. Isso já será o bastante.

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RENATO EPIFÂNIO

Não há provavelmente nenhum partido político que nunca tenha defendido uma medida palerma. Entre nós, o caso mais recente é, decerto, o do Bloco de Esquerda, com a proposta de mudar o nome do “Cartão de Cidadão” para “Cartão da Cidadania” – com o “argumento” (não se riam, por favor) de que “Cartão de Cidadão” é uma expressão sexista. Só não se percebe porque se mantém o “cartão” – não seria melhor “cartoa” ou até “cartolina”? Pela nossa parte, da próxima vez que tivermos que pedir uma “Certidão”, iremos requerer, em vez disso, um “Certificado”, de modo a não ficarmos com qualquer trauma discriminatório.

Com a entrada em cena do Partido dos Animais e da Natureza (PAN), temos contudo que alargar o conceito da palermice política, a ponto de criarmos um neologismo: “panlermice”. Isto porque quando o PAN vem uma vez mais questionar a diferença entre humanos e animais, agora a propósito da proibição da entrada de animais em restaurantes, por exemplo, já não se está no estrito domínio da palermice. Há aqui uma subtil-abissal diferença que só o neologismo “panlermice” assinala.

Conhecemos bem a falácia argumentativa: o especismo (ou seja, a afirmação da espécie humana, na sua diferença irredutível) é equiparável ao racismo ou ao machismo. Assim, tal como é proibido proibir o acesso a restaurantes (mantenhamos o exemplo) em função do sexo ou do tom de pele, também teríamos que levantar a proibição aos animais. Fatalmente, depois o panlermismo tende a enredar-se nas suas próprias contradições, criando outro tipo de discriminações: desde logo, entre animais domésticos e não domésticos. Sendo que no fim parece que o universo dos animais domésticos se restringe aos cães e aos gatos (todos, escusado seria acrescentar, bem educados e muito fotogénicos).

Havendo pessoas que têm como animais domésticos todo o tipo de répteis – apenas para dar um outro exemplo –, ou até outros tipos de mamíferos menos habituais (passe o eufemismo), perguntamos, nesse caso, como se regularia a não proibição no acesso a restaurantes. Aqui, decerto, haverá alguém que apelará ao bom senso. Mas o problema é que, aberta a Caixa de Pandora do panlermismo, não há bom senso que a possa fechar. Ainda que possa não parecer, estamos aqui no domínio da defesa da nossa Civilização. E mesmo que se qualifique essa Civilização como “ocidental”, isso nada altera. Ocidental ou não, essa é a nossa melhor Civilização – aquela que, não por acaso, realmente consagrou os “Direitos do Homem”.

E não se insinue, em jeito de réplica, que o autor destas linhas seja indiferente ao sofrimento dos animais. Independentemente da questão filosófico-jurídica dos “direitos dos animais”, defendemos que esse sofrimento deve ser, tanto quanto possível, evitado – com as devidas penalizações, como já acontece no nosso Código Penal. Mas isso não passa por defender um igualitarismo jurídico, muito menos ontológico.

Há uma superioridade ontológica dos humanos relativamente aos restantes animais que a nossa estrutura jurídica só pode consagrar. Por falar em ontologia, e regressando aos clássicos, acrescentamos que só as estruturas que reconhecem as diferenças qualitativas integram realmente num todo, numa unidade. Ao invés, fazer tábua rasa das diferenças qualitativas é sempre meio caminho andado para o desnorte – por mais politicamente incorrecto que hoje seja dizê-lo.

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RENATO EPIFÂNIO

Quase sempre, nos múltiplos debates sobre Lusofonia em que, como Presidente do MIL e Director da Revista NOVA ÁGUIA, temos participado, surge a questão dos alegados “pecados originais” da Lusofonia. Por estes tomam-se, como é fácil de adivinhar, todas as iniquidades que os portugueses cometeram ao longo do período da expansão marítima.

Longe de nós negar que todo esse período é também uma história de violência, mas não convém exagerar, sob pena de cairmos no ridículo. Quer em África, quer na América, quer na Ásia, o mundo não era um paraíso antes dos portugueses chegarem, como alguns, de forma tão ingénua quanto ignorante, sustentam.

Assim, em África, é mais do que sabido que já havia escravatura – muitos dos escravos africanos que foram levados para o Brasil eram já escravos em África. No Brasil, entre os indígenas, o mesmo já acontecia, ainda que em menor escala. E a quem, ainda assim, defenda que os indígenas tinham um modo de civilização superior, recordamos apenas a prática generalizada de canibalismo, algo de tão contra-natura que, mesmo entre as (outras) espécies animais, só muito raramente se verifica.

E quanto à Ásia: é certo que quando os portugueses lá chegaram encontraram povos com uma já muito apurada civilização. Mas encontraram e eliminaram igualmente práticas assaz bárbaras. Apenas um exemplo: no seu longo vice-reinado, Afonso de Albuquerque proibiu a prática ancestral de as viúvas serem obrigadas a imolar-se com os cadáveres dos seus esposos. Imaginam quantas vidas “o muito cruel” Albuquerque salvou com esta medida?

De resto, todas essas recorrentes alegações assentam num mesmo equívoco – apresentam os portugueses simplesmente como “os colonizadores” e os demais povos apenas como “as vítimas”. Como se, a montante, a própria história da Península Ibérica e da Europa não tivesse sido também uma história de violência mútua. Apenas mais um exemplo: decerto, a expansão do Império Romano por (quase) toda a Europa não foi pacífica. Mas isso, por si só, deveria ter-nos levado a demonizar tudo o que o Império Romano nos trouxe – a nível da língua, dos costumes, da civilização? Isso teria sido, a nosso ver, grotesco.

Analogamente, todos aqueles que insistem em demonizar a expansão marítima portuguesa caem no mesmo equívoco de base, confundindo e amalgamando o que pode e deve ser denunciado e lamentado com o que pode e deve ser valorizado e preservado. Eis o que desde logo se passa com a língua portuguesa. Por muito que alguns tivessem preferido que tal não tivesse acontecido, nenhum país africano houve, depois da independência, a renegar a nossa língua comum. Porquê? Simplesmente, porque perceberam, de forma assaz inteligente, que isso teria sido tão grotesco quanto suicidário.

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Nas restantes cinco partes da sua Carta ao Futuro, mantém, Vergílio Ferreira, este seu tom tão caracteristicamente existencialista, dissertando, de forma sucessiva, sobre a “angústia” e a “alegria final nos limites da nossa condição” (II, p. 34), sobre a alegada “morte de Deus” (III, pp. 40 e segs.), sobre “os limites da condição humana” (IV, pp. 59 e segs.), sobre a “redenção pela arte” (V, pp. 81 e segs.) e, finalmente, sobre o conforto do “sentimento estético”: “Porque é dentro da emotividade que o mundo tem sentido, e a verdade humana, e a orientação fundamental de tudo o que nos orienta. Porque o sentimento estético é uma comunicação original com a essencialidade da vida (…)” (VI, p. 97).

Ao sinalizarmos aqui esse “tom tão marcadamente existencialista”, estamos a fazer um mero juízo de facto – não de valor –, para nós tão evidente e pacífico que nem sequer nos daremos ao trabalho de recordar as posições assumidas pelo próprio. Sim, sabemos que ele se sentia mais próximo de alguns existencialistas – como Jaspers – do que de outros – como Sartre –, mas, passados já mais de cinquenta anos, essas pequenas querelas são para nós quase que inteiramente irrelevantes. O que para nós aqui mais importa é apurar o que, nos tempos de hoje, se mantém de realmente actual do pensamento de Vergílio Ferreira.

A nosso ver, há desde logo algo que se mantém realmente actual, mais do que isso, algo que nos tempos de hoje é particularmente pertinente. E não falamos aqui de nenhum sentimento de “angústia”, nem sequer de “drama”, muito menos de “náusea”. E também não nos estamos aqui a referir ao mais do que estafado tópico da “morte de Deus”. Para além de toda essa “ganga existencialista” – que nos seja permitida a expressão –, há, reiteramo-lo, algo que se mantém realmente actual, mais do que isso, algo que nos tempos de hoje é particularmente pertinente e, por isso, operativo. Falamos da sua paixão pelo humano, da sua aposta pelo humanismo, a nosso ver, com efeito, algo que nos tempos de hoje é particularmente pertinente e, por isso, operativo.

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RENATO EPIFÂNIO

Datada de Dezembro de 1957, Carta ao futuro (Lisboa, Bertrand, 1981, 3ª) é um extenso texto dedicado a um “amigo” indeterminado, escrito, segundo o próprio Vergílio Ferreira, “pelo prazer de comunicar” – recordemos aqui o início da missiva: “Meu amigo: Escrevo-te para daqui a um século, cinco séculos, para daqui a mil anos… É quase certo que esta carta te não chegará às mãos ou que, chegando, a não lerás. Pouco importa. Escrevo pelo prazer de comunicar” (p. 9).

Não será tanto assim – ao definir, logo de seguida, a epistolografia como “a forma de comunicação mais directa que suporta uma larga margem de silêncio” e, mais ainda, como “a forma mais concreta de diálogo que não anula inteiramente o monólogo”, compreende-se que o interlocutor desta carta é, em última instância, o próprio Vergílio Ferreira. Daí o sentimento de solidão que ressalta das primeiras páginas desta carta, onde o autor descreve, num tom marcadamente melancólico, a sua vivência da cidade de Évora (pp. 10-13).

Sente, porém, que “há outra coisa à minha [sua] espera” (p. 15), a “hora da sua verdade”, em última instância, o antecipado momento da sua própria morte – ainda nas suas palavras: “Toda a vida que se cumpre esgota a comunicabilidade onde quer que se anuncie. Assim, a hora da sua verdade não é uma hora de comício, mas de solidão final (…). Ah, estar só é terrível (…). Por isso me ocorre muitas vezes que para um homem saber que voz última lhe fala, deveria ao menos ver-se flagrantemente à hora de uma morte abandonada, numa ilha deserta e perdida. Pascal: On mourra seul… Sim. Mas a mentira conhece todos os caminhos, mesmo os que nós ignoramos.” (pp. 16-17).

E continua: “Todo o homem morre só; mas nem todos o sabem. Recuperar em cada acto a solidão original de uma morte verdadeira é o profundo acto humano de quem se não quiser perder, se quem deseja eliminar essa zona que se interpõe entre a mentira de tudo e a verdade iluminada de nós próprios” (p. 18). Acrescenta que “a realidade imediata reconforta, nem que seja a realidade de uma pedra que nos atirem”, mas, no fundo, sabe bem que essa é outra mentira, que se contrapõe ao que “não tem face nem nome”, à “forma oca de um limiar indistinto, pura anunciação de presença, obscuro alarme de uma aparição” (p. 19).

E continua ainda, terminando assim, neste tom, a primeira parte desta sua Carta: “Num longe imaginado, passam os ventos em linha, massas de névoa deslizam sobre a terra abandonada, uma voz de espaço ressoa à minha atenção suspensa. O que é certo e imediato, o que me vem à boca e tem nome, o que é exacto e mensurável, refugia-se na timidez da penumbra e do silêncio, porque a voz obscura que me fala transcende o passado e o futuro, vibra verticalmente desde as minhas raízes até aos limites do universo, aí onde a lembrança é só pura expectativa despojada do seu contorno, é só pura interrogação. Nesta hora absoluta, conheço a vertigem da infinitude, o halo mais distante da minha presença no mundo…” (pp. 19-20).

Agenda MIL: Debate (com Isabel Pires de Lima) “Lusofonia: a minha pátria é a minha língua”, Convento Corpus Christi (Gaia), 22 de Abril de 2016, 19h | Apresentação da NOVA ÁGUIA 17, Universidade Sénior de Azeitão, 23 de Abril de 2016, 17h.

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