Renato Epifânio

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RENATO EPIFÂNIO

Quase sempre, nos múltiplos debates sobre Lusofonia em que, como Presidente do MIL e Director da Revista NOVA ÁGUIA, temos participado, surge a questão dos alegados “pecados originais” da Lusofonia. Por estes tomam-se, como é fácil de adivinhar, todas as iniquidades que os portugueses cometeram ao longo do período da expansão marítima.

Longe de nós negar que todo esse período é também uma história de violência, mas não convém exagerar, sob pena de cairmos no ridículo. Quer em África, quer na América, quer na Ásia, o mundo não era um paraíso antes dos portugueses chegarem, como alguns, de forma tão ingénua quanto ignorante, sustentam.

Assim, em África, é mais do que sabido que já havia escravatura – muitos dos escravos africanos que foram levados para o Brasil eram já escravos em África. No Brasil, entre os indígenas, o mesmo já acontecia, ainda que em menor escala. E a quem, ainda assim, defenda que os indígenas tinham um modo de civilização superior, recordamos apenas a prática generalizada de canibalismo, algo de tão contra-natura que, mesmo entre as (outras) espécies animais, só muito raramente se verifica.

E quanto à Ásia: é certo que quando os portugueses lá chegaram encontraram povos com uma já muito apurada civilização. Mas encontraram e eliminaram igualmente práticas assaz bárbaras. Apenas um exemplo: no seu longo vice-reinado, Afonso de Albuquerque proibiu a prática ancestral de as viúvas serem obrigadas a imolar-se com os cadáveres dos seus esposos. Imaginam quantas vidas “o muito cruel” Albuquerque salvou com esta medida?

De resto, todas essas recorrentes alegações assentam num mesmo equívoco – apresentam os portugueses simplesmente como “os colonizadores” e os demais povos apenas como “as vítimas”. Como se, a montante, a própria história da Península Ibérica e da Europa não tivesse sido também uma história de violência mútua. Apenas mais um exemplo: decerto, a expansão do Império Romano por (quase) toda a Europa não foi pacífica. Mas isso, por si só, deveria ter-nos levado a demonizar tudo o que o Império Romano nos trouxe – a nível da língua, dos costumes, da civilização? Isso teria sido, a nosso ver, grotesco.

Analogamente, todos aqueles que insistem em demonizar a expansão marítima portuguesa caem no mesmo equívoco de base, confundindo e amalgamando o que pode e deve ser denunciado e lamentado com o que pode e deve ser valorizado e preservado. Eis o que desde logo se passa com a língua portuguesa. Por muito que alguns tivessem preferido que tal não tivesse acontecido, nenhum país africano houve, depois da independência, a renegar a nossa língua comum. Porquê? Simplesmente, porque perceberam, de forma assaz inteligente, que isso teria sido tão grotesco quanto suicidário.

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RENATO EPIFÂNIO

Nas restantes cinco partes da sua Carta ao Futuro, mantém, Vergílio Ferreira, este seu tom tão caracteristicamente existencialista, dissertando, de forma sucessiva, sobre a “angústia” e a “alegria final nos limites da nossa condição” (II, p. 34), sobre a alegada “morte de Deus” (III, pp. 40 e segs.), sobre “os limites da condição humana” (IV, pp. 59 e segs.), sobre a “redenção pela arte” (V, pp. 81 e segs.) e, finalmente, sobre o conforto do “sentimento estético”: “Porque é dentro da emotividade que o mundo tem sentido, e a verdade humana, e a orientação fundamental de tudo o que nos orienta. Porque o sentimento estético é uma comunicação original com a essencialidade da vida (…)” (VI, p. 97).

Ao sinalizarmos aqui esse “tom tão marcadamente existencialista”, estamos a fazer um mero juízo de facto – não de valor –, para nós tão evidente e pacífico que nem sequer nos daremos ao trabalho de recordar as posições assumidas pelo próprio. Sim, sabemos que ele se sentia mais próximo de alguns existencialistas – como Jaspers – do que de outros – como Sartre –, mas, passados já mais de cinquenta anos, essas pequenas querelas são para nós quase que inteiramente irrelevantes. O que para nós aqui mais importa é apurar o que, nos tempos de hoje, se mantém de realmente actual do pensamento de Vergílio Ferreira.

A nosso ver, há desde logo algo que se mantém realmente actual, mais do que isso, algo que nos tempos de hoje é particularmente pertinente. E não falamos aqui de nenhum sentimento de “angústia”, nem sequer de “drama”, muito menos de “náusea”. E também não nos estamos aqui a referir ao mais do que estafado tópico da “morte de Deus”. Para além de toda essa “ganga existencialista” – que nos seja permitida a expressão –, há, reiteramo-lo, algo que se mantém realmente actual, mais do que isso, algo que nos tempos de hoje é particularmente pertinente e, por isso, operativo. Falamos da sua paixão pelo humano, da sua aposta pelo humanismo, a nosso ver, com efeito, algo que nos tempos de hoje é particularmente pertinente e, por isso, operativo.

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RENATO EPIFÂNIO

Datada de Dezembro de 1957, Carta ao futuro (Lisboa, Bertrand, 1981, 3ª) é um extenso texto dedicado a um “amigo” indeterminado, escrito, segundo o próprio Vergílio Ferreira, “pelo prazer de comunicar” – recordemos aqui o início da missiva: “Meu amigo: Escrevo-te para daqui a um século, cinco séculos, para daqui a mil anos… É quase certo que esta carta te não chegará às mãos ou que, chegando, a não lerás. Pouco importa. Escrevo pelo prazer de comunicar” (p. 9).

Não será tanto assim – ao definir, logo de seguida, a epistolografia como “a forma de comunicação mais directa que suporta uma larga margem de silêncio” e, mais ainda, como “a forma mais concreta de diálogo que não anula inteiramente o monólogo”, compreende-se que o interlocutor desta carta é, em última instância, o próprio Vergílio Ferreira. Daí o sentimento de solidão que ressalta das primeiras páginas desta carta, onde o autor descreve, num tom marcadamente melancólico, a sua vivência da cidade de Évora (pp. 10-13).

Sente, porém, que “há outra coisa à minha [sua] espera” (p. 15), a “hora da sua verdade”, em última instância, o antecipado momento da sua própria morte – ainda nas suas palavras: “Toda a vida que se cumpre esgota a comunicabilidade onde quer que se anuncie. Assim, a hora da sua verdade não é uma hora de comício, mas de solidão final (…). Ah, estar só é terrível (…). Por isso me ocorre muitas vezes que para um homem saber que voz última lhe fala, deveria ao menos ver-se flagrantemente à hora de uma morte abandonada, numa ilha deserta e perdida. Pascal: On mourra seul… Sim. Mas a mentira conhece todos os caminhos, mesmo os que nós ignoramos.” (pp. 16-17).

E continua: “Todo o homem morre só; mas nem todos o sabem. Recuperar em cada acto a solidão original de uma morte verdadeira é o profundo acto humano de quem se não quiser perder, se quem deseja eliminar essa zona que se interpõe entre a mentira de tudo e a verdade iluminada de nós próprios” (p. 18). Acrescenta que “a realidade imediata reconforta, nem que seja a realidade de uma pedra que nos atirem”, mas, no fundo, sabe bem que essa é outra mentira, que se contrapõe ao que “não tem face nem nome”, à “forma oca de um limiar indistinto, pura anunciação de presença, obscuro alarme de uma aparição” (p. 19).

E continua ainda, terminando assim, neste tom, a primeira parte desta sua Carta: “Num longe imaginado, passam os ventos em linha, massas de névoa deslizam sobre a terra abandonada, uma voz de espaço ressoa à minha atenção suspensa. O que é certo e imediato, o que me vem à boca e tem nome, o que é exacto e mensurável, refugia-se na timidez da penumbra e do silêncio, porque a voz obscura que me fala transcende o passado e o futuro, vibra verticalmente desde as minhas raízes até aos limites do universo, aí onde a lembrança é só pura expectativa despojada do seu contorno, é só pura interrogação. Nesta hora absoluta, conheço a vertigem da infinitude, o halo mais distante da minha presença no mundo…” (pp. 19-20).

Agenda MIL: Debate (com Isabel Pires de Lima) “Lusofonia: a minha pátria é a minha língua”, Convento Corpus Christi (Gaia), 22 de Abril de 2016, 19h | Apresentação da NOVA ÁGUIA 17, Universidade Sénior de Azeitão, 23 de Abril de 2016, 17h.

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RENATO EPIFÂNIO

De ano para ano, o modelo dos Congressos da Cidadania Lusófona, coordenados pelo MIL: Movimento internacional Lusófono em parceria com outras associações da sociedade civil, de Portugal e dos restantes países e regiões de língua portuguesa, tem sido afinado. Neste quarto Congresso, julgamos ter chegado ao modelo (quase) perfeito.

Obviamente, há sempre pormenores a melhorar e subsiste o problema de sempre: o público. Ainda que, no primeiro dia, devido sobretudo ao “factor D. Duarte” (a quem foi entregue o Prémio MIL Personalidade Lusófona), tenhamos conseguido encher a grande e magnífica Sala Algarve da Sociedade de Geografia de Lisboa, com várias centenas de pessoas.

Quanto à cobertura dos “media”, ou à falta dela, talvez seja até melhor não haver. Neste ano, o Canal Q cobriu parte dos trabalhos do segundo dia e centrou toda a sua abordagem na questão da Guiné-Equatorial. Espantoso: estão mais de uma dezena de associações da sociedade civil a fazer o balanço da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, vinte anos após a sua criação, durante dois dias, em reflexão partilhada com uma assistência interessada e participativa, mas, para os nossos “media”, “isso agora não interessa nada”.

Conforme reiterámos na mesa de encerramento deste IV Congresso da Cidadania Lusófona, presidida pelo Professor Guilherme de Oliveira Martins, que, uma vez mais, fez questão de estar presente, nós somos, porém, maratonistas. Sabemos bem que este caminho de convergência entre todos os países e regiões do espaço lusófono – no plano cultural, desde logo, como também nos planos social, económico e político – é uma corrida de fundo.

Por isso, iremos continuar – que ninguém tenha a menor dúvida quanto a isso. No próximo ano, irá decerto decorrer mais um Congresso da Cidadania Lusófona. No devido tempo, anunciaremos o tema, a data e o local. Há vontade de levar estes Congressos a outros países e regiões do espaço lusófono. Veremos se isso será possível já no próximo ano. A única condição imposta é que se mantenha a representatividade alcançada nestes quatro Congressos já realizados – em que estiveram representados todos os países e regiões do espaço lusófono. Decerto, eis o que se irá manter e até reforçar nos próximos Congressos.

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RENATO EPIFÂNIO

A questão emergiu num recente Colóquio sobre Agostinho da Silva, por ocasião dos seus 110 anos, em que participei. A certa altura, discutiu-se um alegado “nacionalismo” no seu pensamento.

Tive a oportunidade de questionar essa alegação. Não me parece, de todo, que Agostinho da Silva tenha sido um nacionalista. Pelo menos, um nacionalista português. Quanto muito, foi um nacionalista brasileiro, tais as esperanças que depositava neste nosso país irmão.

Mais do que qualquer outra coisa, Agostinho da Silva foi, porém, um trans-nacionalista lusófono, prefigurando, para Portugal e para os restantes países de língua portuguesa, um caminho de convergência. Deixou-nos igualmente outras portas abertas: por exemplo, a do trans-nacionalismo ibérico e mesmo hispânico, vislumbrando uma possível união entre os países hispânicos e lusófonos, muito para além do espaço ibérico.

Na sua visão, um país como Portugal não poderia sobreviver sozinho num mundo cada vez mais globalizado. Como nunca se iludiu com a nossa integração europeia, essa convergência com os restantes países de língua portuguesa parecia-lhe a melhor forma de garantir a existência histórica de Portugal, fortalecendo inclusive a nossa posição no seio da Europa.

Eis, em suma, porque Agostinho da Silva não era realmente um nacionalista. A seu ver, para um país como Portugal, a posição nacionalista era demasiado insuficiente para garantir a nossa existência histórica. Se mesmo um país como o Brasil não pode sobreviver sozinho num mundo cada vez mais globalizado, quanto mais um país como Portugal. De resto, sempre foi assim na nossa história. Foi sempre uma hábil política de alianças trans-nacionais o que foi garantindo, até hoje, a nossa existência histórica.

Dito isto, assumo que não contribuo para o “peditório” do anti-nacionalismo. Como no próprio Colóquio disse, de forma provocatória mas não levianamente, “se o nacionalismo é mau, o anti-nacionalismo é bem pior”. Apesar de já nada me espantar, ainda me consigo surpreender com algumas pessoas que são anti-nacionalistas cá dentro – desprezando à partida tudo o que é português –, mas que depois valorizam, para lá das nossas fronteiras, outros nacionalismos culturais e políticos.

É esse, por exemplo, o caso do nacionalismo galego, apoiado expressamente por muitos anti-nacionalistas portugueses – pela simples mas suficiente razão que em Portugal ser nacionalista passe por ser uma posição de “direita” e na Galiza o nacionalismo seja visto como uma posição de “esquerda” (atente-se no caso do Bloco Nacionalista Galego, o partido nacionalista – assumidamente de “esquerda” – que, na Galiza, teve no passado recente, os melhores resultados eleitorais). Bom exemplo, este. Também na Galiza, as pessoas mais lúcidas já perceberam há muito que o nacionalismo galego só poderá sobreviver no quadro mais vasto do trans-nacionalismo lusófono.

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RENATO EPIFÂNIO

No décimo sétimo número da NOVA ÁGUIA, começamos por dar destaque ao III Congresso da Cidadania Lusófona, promovido pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono no primeiro semestre de 2015, na Sociedade de Geografia de Lisboa, onde, em torno do tema “A importância das Diásporas para a Lusofonia”, intervieram representantes das mais diversas Associações da Sociedade Civil de todo o espaço lusófono. No essencial, são essas intervenções que aqui coligimos – começando por Adriano Moreira e Abel de Lacerda Botelho e terminando com Ximenes Belo, para além dos textos conclusivos de António Gentil Martins, José Eduardo Garcia Leandro e Renato Epifânio.

De seguida, evocamos mais de uma dezena de insignes figuras da cultura lusófona, começando em Eugénio Tavares, de Cabo-Verde, e terminando em Sampaio Bruno, autor em destaque no número anterior da NOVA ÁGUIA, por ocasião do centenário do seu falecimento. Dessa série, destacamos o importantíssimo texto de J. Pinharanda Gomes, que desfaz alguns equívocos relativos aos últimos dias da vida de Leonardo Coimbra, que, desde o dia do seu falecimento (2 de Janeiro de 1936, após um trágico acidente de viação), sempre foram motivo de acesa controvérsia.

ilustracao para RENATO EPIFANIO

Em “outros Voos”, abordamos temas diversos, deste a ética neo-tomista na filosofia luso-brasileira contemporânea, pela mão de António Braz Teixeira, até à questão da justiça e da caridade como fundamentos de uma política de acolhimento para os refugiados de guerra, na visão de Samuel Dimas. Depois, em “Bibliáguio”, destacamos uma série de obras saídas recentemente – nomeadamente, “As Teses da Filosofia Portuguesa”, de Orlando Vitorino, “Itinerâncias de Escrita”, de Joaquim Cerqueira Gonçalves, e “O Fruto da Gramática”, de Nuno Júdice (as duas últimas premiadas do 1º Festival Literário de Fátima “Tabula Rasa”, co-organizado pela NOVA ÁGUIA e pelo MIL no segundo semestre de 2015, em parceria com as instituições locais).

De resto, em “Memoriáguio”, publicamos um Álbum Fotográfico, de Pedro Teixeira Neves, desse memorável evento, que se estendeu por cinco dias, entre 18 e 22 de Novembro. Com não menor destaque, referimos, por fim, neste número, a publicação de inéditos de José Enes, Teixeira de Pascoaes e Agostinho da Silva.

Lançamento: 22 de Março, às 18h, na Sociedade de Geografia de Lisboa, no âmbito do IV Congresso da Cidadania Lusófona, coordenado pelo MIL: Movimento Internacional Lusófono.

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RENATO EPIFÂNIO

Para quem, como nós, assume uma filiação no Movimento da Renascença Portuguesa e na sua Revista A Águia, a figura de António Sérgio não será, à partida, a figura mais simpática, apesar de António Sérgio ter tido também essa filiação. Isso deve-se sobretudo às célebres polémicas que António Sérgio manteve com Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra – polémicas em que, de todo, António Sérgio não deu de si a melhor imagem.

Em seu abono, poderíamos recorrer a Agostinho da Silva, que chegou a ser muito próximo de António Sérgio, na sua fase de colaboração na Revista Seara Nova (décadas de 20 e 30). No entanto, numa fase posterior e de maior maturidade, o próprio Agostinho da Silva se distanciou de António Sérgio, tendo chegado a dizer: “…Sérgio não ousou afrontar os problemas filosóficos mais profundos, as questões de dúvida. Preferia manter-se na certeza.”; “Mesmo como pedagogo, a sua atitude tendia a ser de grande arrogância intelectual.” [cf. Dispersos, ICALP, 1988, p. 55].

Hoje, é difícil encontrar pensadores que assumam expressamente o seu legado. Mesmo alguém como Manuel Maria Carrilho, uma figura que, à partida, poderíamos filiar em António Sérgio, assume que “a leitura filosófica de Sérgio é hoje uma leitura deceptiva – e é-o por um certo anacronismo das suas respostas, pela subtil rigidez das suas formulações e pelas generalidades filosoficamente paralisantes que o povoam” [cf. O Saber e o Método, IN-CM, 1982, p. 100]

Assim sendo, só podemos hoje repensar António Sérgio de “olhos lavados” – esquecendo, desde logo, as polémicas que manteve em vida e, em última instância, a forma como a sua obra foi apropriada, postumamente, por certas correntes mais ideológicas. Precisamos de atentar na obra, de olhos lavados, com olhos de ver – esquecendo o seu autor. Se o fizermos, perceberemos, por exemplo, no plano mais filosófico, que o seu conceito de razão não é afinal tão estrito e estreito quanto parecia à primeira vista – estando até bem próximo do conceito de razão do seu arqui-inimigo Leonardo Coimbra. E que o seu pensamento social e político pode ainda manter alguma validade nos dias de hoje.

Eis, em suma, o mote da sessão “Repensar António Sérgio, hoje”, que decorreu no dia 11 de Março na Biblioteca Municipal de Tavira – uma co-organização MIL: Movimento Internacional Lusófono, Nova Águia: Revista de Cultura para o Século XXI e Instituto de Filosofia Luso-Brasileira. Para além das diversas intervenções, sobre o pensamento filosófico, pedagógico, social e político, tivemos ainda a apresentação do nº 16 da Revista Nova Águia. Uma das últimas, dado que o nº 17 está já na forja. Conforme o anunciado, ele terá o seu lançamento no dia 22 de Março, na Sociedade de Geografia de Lisboa, às 18h, no âmbito do IV Congresso da Cidadania Lusófona.

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RENATO EPIFÂNIO

Excelentíssimos Senhores,

No seu “Discurso do Método”, o filósofo francês René Descartes defendeu (de forma irónica) que “o bom senso é o que há de melhor repartido entre os humanos”, mas nós, cidadãos lusófonos, sabemos bem que assim não é: somos mesmo uma das maiores contra-provas vivas dessa tese. E por isso nos entretemos a procurar reinventar a roda todas as semanas e a discutir questões absolutamente absurdas mês após mês, sem atender, ano após ano, ao que mais nos deveria importar. Um exemplo eloquente dessa nossa vocação: segundo o entretanto noticiado em Portugal, “o Ministério da Educação do Brasil (MEC) eliminou a obrigatoriedade do estudo da literatura portuguesa na nova Base Nacional Curricular Comum (BNCC) que está até Março em discussão e deve ser posta em prática em Junho. A decisão é considerada por grupos de educadores brasileiros como ‘política’ e ‘populista’, faz parte de uma série de propostas, que inclui mudanças nos currículos de Língua Portuguesa e de História e está a ser alvo de intenso debate no país” (cf. “Diário de Notícias”, 20.02.2016).

Que uma proposta (tão absurda) como essa esteja sequer em discussão, isso, por si só, já deveria merecer o nosso protesto. Mas, atendendo à nossa referida vocação, já nada nos surpreende. Amiúde, em Portugal, como nos restantes países lusófonos, também surgem propostas absurdas – na área do ensino e noutras áreas. Mas, ainda que tarde, o bom senso acaba (quase) sempre por prevalecer. Aguardaremos pois serenamente que a proposta tenha o destino que merece. E, se nos permitem uma contra-proposta, sugerimos a seguinte – em vez de se eliminar a obrigatoriedade do estudo da literatura portuguesa na nova Base Nacional Curricular Comum (BNCC), estipular a obrigatoriedade do estudos das diversas literaturas lusófonas, a exemplo da proposta que já fizemos chegar ao Ministério da Educação e Ciência do Governo de Portugal: introduzir, complementarmente à disciplina de “Cultura e Línguas Clássicas”, uma disciplina de “Cultura Lusófona”, também no ensino básico. Como então defendemos, no passado ano, igualmente em Carta Aberta:

“Nesta disciplina deveriam ter lugar as diversas culturas de todos os países e regiões de língua portuguesa, numa visão de convergência, acentuando aquilo que nos une sobre aquilo que nos separa, mas sem qualquer pretensão uniformizadora. A cultura lusófona será tanto mais rica quanto mais assumir a sua dimensão plural e polifónica, ou, para usar um termo que tem tudo a ver com a nossa história comum, ‘mestiça’. Desde já nos manifestamos disponíveis para colaborar com o Ministério da Educação e Ciência do Governo de Portugal na definição dos conteúdos programáticos dessa nova disciplina. Essa necessidade de dar a conhecer as diversas culturas de todos os países e regiões de língua portuguesa deveria, de resto, atravessar os diferentes graus de ensino – necessidade tanto mais imperiosa porquanto os nossos ‘mass media’ continuam, por regra, a ignorar ostensivamente o restante mundo lusófono, ou apenas a lembrá-lo pelas piores razões. Se só se pode amar verdadeiramente o que se conhece, é pois tempo de dar realmente a conhecer as diversas culturas de todos os países e regiões de língua portuguesa. Para, enfim, podermos amar a valorizar devidamente a nossa comum cultura lusófona.”

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RENATO EPIFÂNIO

Tal como para o mundo em geral, não foi um bom ano para a Lusofonia, o de 2015. Quase sem excepção, dir-se-ia que todos os países de língua portuguesa estiveram demasiado reféns dos seus problemas endógenos para terem conseguido aprofundar o caminho de convergência entre si: o Brasil, depois de um período de euforia económica, parece agora paralisado por uma crise política de contornos indefinidos; Angola continua sem parecer conseguir dar o salto qualitativo para se tornar num verdadeiro Estado de Direito; Moçambique ameaça regressar à sua guerra civil e Portugal retornou, pelo menos ao nível da retórica política, aos tempos do PREC (Processo Revolucionário em Curso, pós 25 de Abril de 1974). Só dos pequenos países (Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste; da Guiné-Bissau nem vale a pena falar) vieram, de vez em quando, (pequenas) boas notícias. Mas insuficientes, por si só, para mudar o horizonte. Como corolário de tudo isto, o ano de 2015 findou com o incêndio do Museu de Língua Portuguesa, em São Paulo – decerto, um das instituições que melhor simbolizava o espírito lusófono –, onde estivemos, há cerca de um ano, para apresentar o projecto do MIL: Movimento Internacional Lusófono e da “Nova Águia: Revista de Cultura para o Século XXI”.

Tendo sido um ano negativo para a Lusofonia, acabou por ser um ano relativamente positivo para este nosso projecto: cinco anos após a sua formalização jurídica, o MIL consolidou ainda mais o seu caminho de coerência e (por isso) de credibilização; a Nova Águia ultrapassou a fasquia da dezena e meia de números, o que é inédito no universo deste tipo de publicações culturais. Não que isso nos console, de todo. Um ano mau para a Lusofonia nunca poderá ser um ano bom para nós. Daí que, em 2016, esperemos muito mais do que a reconstrução, já prometida, do Museu de Língua Portuguesa. Esperamos passos coerentes e consequentes para uma real convergência entre todos os países e regiões do espaço lusófono – nos planos cultural, social, económico e político. Como não nos cansamos de defender, a Lusofonia cumprir-se-á em todos esses planos ou não se cumprirá de todo. Pela nossa parte, continuaremos a pugnar por esse horizonte. Daí, desde logo, o IV Congresso da Cidadania Lusófona, a realizar-se em Março, onde iremos alargar ainda mais a PALUS, Plataforma de Associações Lusófonas da Sociedade Civil que, de ano a ano, se têm reunido nestes Congressos, fazendo o balanço que falta fazer da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Vinte anos após a sua criação, é (mais do que) tempo de a CPLP ter um papel (muito) mais forte em prol da convergência lusófona. Assim haja Vontade e Visão para tanto.

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RENATO EPIFÂNIO

No final do mês de Novembro do corrente ano, fui convidado, enquanto Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono e Director da “Nova Águia: Revista de Cultura para o Século XXI”, para participar no Congresso “Ensino Superior e Lusofonia”, promovido pelo ISMAI: Instituto Universitário da Maia, em que participaram igualmente representantes das mais diversas Universidades do espaço lusófono.

Para além dessa reflexão conjunta sobre o assaz diverso panorama do Ensino Superior em cada um dos países do espaço lusófono, houve ainda lugar para outras intervenções, desde logo ao nível da cooperação humanitária. Uma delas foi particularmente impressiva: deu conta do muito meritório trabalho de uma ONG portuguesa no interior da Guiné-Bissau, em zonas de grande penúria, onde, como se salientou, não se fala, de todo, a língua portuguesa.

No debate que se seguiu à sessão, houve quem quisesse concluir que, face a essas realidades, a Lusofonia era algo de “elitista”, ou seja, algo de confinado às grandes cidades, ou nem sequer isso: algo apenas confinado a algumas classes sociais mais urbanas. Essa é, de resto, falamos pela nossa experiência, uma das estratégias mais recorrentes de desqualificação da Lusofonia e que, dado o seu cariz demagógico (como se matar a fome fosse uma função da língua…), consegue sempre ter algum efeito. Nestes nossos tempos, nada como usar o epíteto “elitista” como arma de arremesso para conseguir a concordância da(s) assistência(s).

Tal arma é porém, como já se disse, particularmente demagógica. É verdade que na Guiné-Bissau, como noutros países de língua portuguesa – não só em África: refira-se o exemplo de Timor-Leste –, a língua portuguesa é ainda apenas falada realmente por uma minoria da população. Isso deve-se a várias razões: no caso de Timor-Leste, houve uma tentativa de genocídio linguístico e cultural por parte da Indonésia; no caso de alguns PALOPs, isso é desde logo explicável pelas várias guerras civis, que atrasaram a criação de redes de ensino.

Mais do que para as realidades – que todos conhecemos –, deveremos porém olhar para as tendências. E, quanto a estas, é insofismável que o ensino da língua portuguesa se está a alargar em todos esses países. E não, saliente-se, por vontade de Portugal, que pouco, de resto, tem feito por isso. São os próprios Governos de todos esses países que têm feito essa aposta estratégica. Por razões internas e externas. Internamente, por compreenderem que a língua portuguesa será, cada vez mais, um dos maiores factores de coesão nacional. Externamente, por entenderem que a Lusofonia é a melhor forma de inserção de todos esses países numa plataforma global. Eis o que, a este respeito, mais importa salientar.

CAPA

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