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“O Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social enviou para o Departamento de Investigação e Acção Penal de Lisboa (DIAP) uma auditoria pedida pelo anterior Executivo à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML)”.

A notícia foi avançada no último sábado pelo semanário ‘Expresso’, que confirmou, junto do gabinete da procuradora-geral da República, que os resultados da auditoria à instituição dirigida por Pedro Santana Lopes estão a ser “apreciados no âmbito de um inquérito que corre termos no DIAP”. “Recorde-se que o antigo primeiro-ministro foi reconduzido em Março pelo actual Governo no cargo de provedor da SCML, que ocupa desde 2011”.

Vamos analisar esta notícia em detalhe. Foi publicada pelo ‘Público’ e corresponde a uma auditoria velha de 2015, pedida então para impedir o social-democrata Santana Lopes de concorrer a presidente da república, provavelmente por gente ligada ao CDS dentro do ministério da tutela, a segurança social, ou então por socialistas em conluio com centristas, dentro da mesma tutela da segurança social, que pretendiam minar o apetecido lugar de provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Provavelmente a justificação funciona nos dois casos, e tentaram matar dois coelhos com uma cajadada.

Hoje em dia a notícia é desenterrada, isto porque Santana Lopes pondera concorrer a presidente da câmara de Lisboa. Anunciou que até final de Julho decidiria se avançava. Note-se que não há nenhuma ligação entre a auditoria e o nome de Santana Lopes.

A notícia é construída de forma insidiosa: primeiro fala-se do anterior Executivo, mas não se explica em que contexto a auditoria foi pedida nem que a tutela era centrista, num ministério cuja estrutura está povoada de socialistas; logo, não foi Passos Coelho, apesar de liderar o anterior Executivo, quem pediu a auditoria. Segundo, e mais gritante: o nome de Santana Lopes vem mencionado como dirigente da Santa Casa mas nunca como responsável dos factos: uma aquisição do palácio de S. Roque, a contratação de uma agência de comunicação e de um serviço de amas (este último é de pasmar).

A realidade é esta: Santana Lopes foi presidente da câmara de Lisboa em 2002, 2004 e 2005, e foi o melhor presidente de câmara de todo o período democrático. Em três anos fez mais do que todos os socialistas que por lá passaram, que em vez de terem feito obra têm destruído a cidade e entregue a mesma a interesses obscuros, muito ligados à família Espírito Santo, destruído a mobilidade, prejudicado claramente os transportes públicos, descurado a acção social, expulsado os lisboetas da sua cidade entregando a mesma aos turistas e aos interesses imobiliários ligados ao negócio do turismo, têm conseguido destruir o comércio tradicional com políticas vergonhosas que potenciam lojas indiferenciadas internacionais e aldrabices descaradas; como exemplo cito a grande ideia do “pastel de bacalhau com queijo da serra”, que é o modelo desta vereação de jovens turcos do PS, os mesmos que destroem os brasões das cidades do Império mas querem oferecer aos islamitas uma mesquita de borla, os mesmos que têm destruído os espaços verdes, como nos Olivais (entregues irresponsavelmente a uma junta sem capacidade nem engenho), os mesmos que têm descaracterizado a cidade, destruindo as calçadas e realizando obras eternas que destroem a qualidade de vida dos cidadãos, obras que poderiam ser feitas em fracções do tempo, numa lista interminável de asneiras que não tem fim.

Santana Lopes é assustador, porque ganhará sem a menor dificuldade a Câmara de Lisboa a esta gentalha que tem desgovernado a cidade e apenas tem feito política em seu benefício próprio. Santana Lopes pode ter sido um mau primeiro-ministro, mas foi certamente o melhor presidente de câmara e o povo lembra-se.

Manuel Silveira da Cunha

O irrelevante presidente Cavaco Silva resolveu sair em grande! Resolveu condecorar um grupo exemplar de personalidades da vida política portuguesa. Em final de mandato, Cavaco cumpre as suas últimas vontades. Pouco dado à oralidade, a frase mais utilizada por Cavaco ao longo do seu mandato foi: “não posso comentar”, no entanto Cavaco é prolífero em sinais, em tabus e em profecias. A sua interpretação tornou-se uma especialidade na imprensa portuguesa e nos comentadores em geral.

Há centenas, talvez mesmo milhares de pessoas que devem o seu emprego a Cavaco. A “cavacologia” tornou-se uma especialidade científica, é uma variante da hermenêutica, área afim da semiótica e da interpretação dos sonhos. Esta disciplina científica tem origens remotas e ilustres: desde os sacerdotes de Osíris a ler no voo dos pássaros até aos Oráculos de Delfos, são quatro mil anos de estudos que se cristalizaram nas leituras semióticas e hermenêuticas sobre temas de Cavaco Silva e sua esposa.

Ele foi o Tabu presidencial, eles são os discursos cabalísticos com apelos saídos de uma imaginação profunda, eles são as vulnerabilidades informáticas e as escutas, eles são as ameaças de dissolução que não se cumprem, eles são os conselhos de Estado para debater o fim da crise a meio da mesma, e no meio do nada, e a ausência de conselhos de Estado para estudar o que fazer no pós eleições, eles são as aberturas espantosas de boca a fingir embevecido espanto, eles são as mastigações fogosas de bolo-rei com copiosas projecções de migalhas, saliva e espuma bocal, eles são os desmaios a meio de cerimónias oficiais com discursos enfáticos, hieráticos e os apelos profundos, proferidos por um Cavaco senhor de uma importância e de um impacto que julgava ter, e tem nos milhares de comentadores, mas que nunca teve no Mundo, incapaz de reconhecer a sua irrelevância e a de um país que ele ajudou a fazer mais pequeno e que gera menos receita do que qualquer farmacêutica, qualquer petrolífera ou mesmo uma empresa de software global…

Tenho pena do que vai acontecer aos cavacólogos passados ao desemprego. De todos menos de um, um cavacólogo reformado será o novo presidente da república e esperamos todos que Marcelo Rebelo de Sousa tenha aprendido, com o estudo aprofundado em muitos anos, a não cometer os mesmos erros que o seu objecto de estudo! Tem a vantagem, num presidente, de conseguir comer bem em público, o que já é um grande passo na restauração da grandeza de Portugal.

Cavaco será sempre Cavaco, mesmo no fim; se já ninguém se lembra do senhor, ele faz-se lembrado. Ele condecora Maria de Lurdes Rodrigues, exemplo fantástico de defensora da causa pública, e dos bens públicos, e condecora António de Sousa Lara. Vejamos este último.

A esquerda vocifera, diz que Sousa Lara vetou Saramago! Que Cavaco não passa de um bandalho, que sai mal, até ao final “é mau, mesquinho, feio, porco e mau”. Nas redes sociais Rui Vieira Nery vem lamentar-se e escreve sobre o currículo de Lara, esquecendo-se, de forma apropriada mas maldosa, dos textos académicos mais sérios do professor catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas de Lisboa da Universidade de Lisboa, num processo típico de redução ao ridículo do opositor, por este ser especialista em genealogias e heráldica, quando tem publicado abundantemente em história, sendo o tratado de Sousa Lara sobre a subversão do Estado um valioso contributo científico.

Mas é neste sinal último, no seu momento derradeiro, que Cavaco tem um dos seus pouquíssimos momentos de pequena grandeza. Saramago é uma vaca sagrada, depois do Nobel não há quem critique o homem, a senhora Pilar arroga-se fazer o papel de vestal da causa, apesar de não reunir os requisitos, como se imagina, no templo do demiurgo Saramago. Ter vetado Saramago, e demonstrado essa coragem, é de homem. Saramago foi um mau escritor, pomposos e mesquinho, incapaz de uma boa gramática e sem saber pontuação, um homem ressentido, no pior sentido do termo, agressivo e maldoso, que teve a suprema vileza de afirmar que a Bíblia, que ensinou o humanismo ao Homem, é um livro de maldade e guerra. Saramago ganhou o Nobel porque os tradutores conseguiram transformar esboços em obras acabadas, nomeadamente melhorando a compreensão dos textos e a pontuação dos mesmos. Saramago passa por demiurgo por ser apenas muito prolixo e obscuro, mas pelo menos teve a manha de se conseguir fazer passar por melhor do que era. Conseguiu, assim, um grande feito: um bufão que aparenta ser águia é façanha que Cavaco não conseguiu nunca almejar apesar do discurso oracular mas sem obras. Sousa Lara é mais fino e percebeu, para além da crosta bruta de refinamento, o verdadeiro Saramago. Apenas por isso mereceria ser condecorado com o Grande Colar da Ordem de Santiago da Espada. Cavaco condecora-o ao mesmo tempo que Maria de Lurdes Rodrigues…

JOSÉ SERRÃOTerminou o Sínodo dos Bispos sobre a Família e o relatório final não obteve a maioria necessária para poder aprovar a inclusão plena dos divorciados e dos homossexuais aos sacramentos, incluindo a comunhão.

Promovido pelo Papa Francisco, este encontro no Vaticano marca uma abertura da Igreja a temas tão fracturantes no seu seio e, ainda, infelizmente, na sociedade.

Francisco tem revelado, no exercício do seu pontificado, pese embora as questões teologicamente dogmáticas, uma anima nova no caminho da inclusão, afastando-se da tradição doutrinária de excluir todos os que não estão ou não podem ou, no seu dizer, se auto-excluíram da graça de Deus.

Saúdo, sempre, todos os que ousam lutar pela inclusão e não se limitam a justificar o porquê da exclusão, ainda que o argumentário seja perfeito, tecnicamente rigoroso e assente na tradição histórica. Assim acontece no seio das religiões e assim acontece no seio de outras instituições, mesmo quando se reclamam defensoras do princípio da absoluta liberdade de consciência.

Se nas religiões se faz do TODO uma parte, a sua parte, excluindo os demais, também outros ousam querer determinar e impor urbi et orbi a sua verdade aos demais, reclamando para si direitos e prerrogativas que ninguém lhes conferiu, nem podia, porque são universais e, consequentemente, insusceptíveis de serem apropriados ou manipulados por quem quer que seja.

O Sínodo de Roma não determinou o acesso dos divorciados, dos homossexuais ou mesmo dos que vivem em união de facto aos sacramentos e a uma vida plena no seio da igreja. Porém, pela primeira vez, as portas do Vaticano abriram-se para que estes assuntos fossem discutidos.

Acontecendo esta discussão, a Igreja revela capacidade para em breve poder incluir e não excluir todos os seus fiéis e quiçá abrir-se a novas “verdades” na senda da unidade das pessoas e dos povos.

Esta via da inclusão deve ser objecto de reflexão de todos nós, sem qualquer excepção.

Com efeito, também no governo da cidade (política) ninguém deve ser excluído, mas, ao invés, incentivado a ter uma participação activa, cívica, empenhada na causa pública.

Nós, cidadãos, tão ávidos a apontar o dedo da imperfeição aos que elegemos e nos governam ou fazem oposição e tão pouco capazes de reconhecer esses mesmos defeitos em nós, também temos graves responsabilidades e novos desafios.

Desde logo, porque somos os primeiros a excluir… Desde logo, porque somos incapazes de ter da política uma visão nobre, inclusiva de todos e, naturalmente, de cada um de nós… Desde logo, porque nos remetemos à cómoda posição de estar de fora a criticar e jamais “calçarmos os sapatos” dos que democraticamente foram eleitos para a função de governar.

A confiança entre eleitos e eleitores, ou a falta dela, também impende sobre nós e as nossas condutas… Não basta votar. Urge ser Cidadão pleno.

LUÍSA VENTURINI

Abeira-te aqui, que hoje não estou em dia de mastigar sozinha os meus desajustes. O tempo (tão bom ter assim à mão uma quase imaterialidade de costas largas) anda a bulir comigo.

Alheia às angústias com que me encharca o ar e a alma, a trovoada estrepita e ribomba impavidamente neste pedaço de céu. Uma paz muito azul destaca-se ali defronte, num daqueles acenos que a Natureza tão bem conhece e que nos diz “Isto também passará”, como na história do anel do rei.

O dia fez-me recordar uma bela varanda numa bela janela, onde, há já uns bons pares de anos, assistíamos ao esplendor rasgado do céu em noites de invernia, como quem se oferece um primeiro balcão numa ante-estreia. Mas, deixando o espectáculo magnífico fora destas cogitações, o certo é que tanta electricidade no ar interfere com o meu sistema nervoso, belisca-me a sensibilidade, provoca-me sinapses dispensáveis, desagradáveis mesmo. No fundo, ressinto-me como um cão ou um gato, o que talvez me faça olhar mais humildemente para esses convivas do meu pequeno universo e repetir, tão mantricamente quanto possível, “isto também passará”.

É nestas alturas que parece que uma tremenda lente se impõe entre mim e a vida e tudo me surge numa dimensão olímpica – é isso mesmo: estúpida e dramaticamente citius, altius, fortius – vendo dos dias apenas os socalcos da frustração ou do fracasso. A objectividade, o distanciamento, o tratamento asséptico das emoções, a ponderação das ideias? Tudo parece esvair-se pelo ralo negro de um caos irremissível, onde me atordoo na busca inglória em que, fatalmente, só alcançarei perder-me, sem Florbela Espanca que me valha.

Também entendo que não faria muita falta dizer-te isto, não a ti, que sabes tão bem quanto eu como só me lembro da Florbela nessas alturas e que, passada a rezinguice e ultrapassado o curto-circuito, a lente esmifra-se como por encanto e volto a saber de proporções e Regras de Ouro, a namorar com os filhos de Da Vinci e de Rumi e a ser, claro está, bem menos tenebrosa.

Sabes? Sei que sabes, mas gosto de repetir-to: É bom ter-te, por todas as razões e por mais essa, a de me seres como um anel sempre presente, como um pedaço muito meu de céu azul que me vai recordando uma e outra vez, uma e outra vez, “Isto também passará”.

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É um facto estabelecido de que um leitor é distraído pelo conteúdo legível de uma página quando analisa a sua mancha gráfica. Logo, o uso de Lorem Ipsum leva a uma distribuição mais ou menos normal de letras, ao contrário do uso de “Conteúdo aqui, conteúdo aqui”, tornando-o texto legível. Muitas ferramentas de publicação electrónica e editores de páginas web usam actualmente o Lorem Ipsum como o modelo de texto usado por omissão, e uma pesquisa por “lorem ipsum” irá encontrar muitos websites ainda na sua infância. Várias versões têm evoluído ao longo dos anos, por vezes por acidente, por vezes propositadamente (como no caso do humor).

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Da América, terra das hamburgas, do frango frito e da boa cola, eis que nos chega mais um grande romance. É engraçado o preconceito: a esquerda acha que à direita nada existe; a direita acha que na América é o deserto.

Pode ser o paraíso da tecnociência e a origem de muitos devaneios, como sugeriram alguns críticos, mas é de lá que vem muita da melhor literatura de sempre. E a melhor dos nossos dias. E quando vejo aqueles “estudos” patetas referirem que 50 por cento dos americanos ou coisa do género, não sabem identificar o país no mapa, pergunto-me quantos portugueses existirão em condições equivalentes. Mas vamos ao que interessa.

Canadá

Dell Parsons é o rapaz que aqui vamos seguindo, durante a década de sessenta.  Melhor, é ele que nos conta a sua odisseia, muitos anos depois, nos nossos dias, para sermos mais correctos, após vários anos dedicados ao ensino. Dell Parsons, que vivia com os pais e a irmã gémea, uma vida rotineira, vulgar, vê-a  transformar-se completamente quando os pais assaltam um banco para conseguirem pagar uma dívida contraída num pequeno esquema fraudulento. A partir daí é a partida, da irmã para a Califórnia, que é para onde vai quem sonha sonhos datados, para o Canadá, de Dell, levado por uma amiga da mãe. E é lá, em Saskatchewan, que vai conhecendo o mundo, que se vai fazendo homem, que vai descobrindo segredos e revelações que não trazem promessas de abundância, mas apenas de repetições, de tempos cíclicos, de sofrimentos em que é fértil a humanidade desde que abandonou a Aliança primordial.

História feita de paisagens estéreis, de objectos que morrem, de locais decrépitos, história que se podia passar num qualquer estado dos EUA, mas cuja acção se desloca, miraculosamente, para o Canadá, esse país absolutamente desinteressante, pelo menos na minha imaginação. Não cria, sinceramente, que lá se pudesse desenvolver uma história com substância, mas isso deve derivar da minha desconfiança contra esse país que tem a maior percentagem de água doce do planeta, mas nunca nos deu mais do que os poemas de Leonard Cohen – e já não é mau. Richard Ford faz mais pela literatura canadiana do que qualquer outro até hoje. Mas, provavelmente, estou a ser injusto. Não me lembro de nada oriundo de lá, mas sei que deve existir, algures, grande literatura canadiana. Se chega a esta, que se passa junto à fronteira, mas que não supera qualquer capítulo da Trilogia da mesma de Cormac McCarthy, é que é muito mais complicado.

CAPA

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