Viver

0 443

ODIABO300x100

PEDRO JACOB MORAIS

  • Título português: Tão-só o Fim do Mundo
  • Título original: “Juste la Fin du Monde”
  • Realização: Xavier Dolan
  • Elenco: Gaspard Ulliel, Nathalie Baye, Vincent Cassel, Marion Cotillard, Léa Seydoux
  • Canadá, França, 2016, 97 min

E se um mero almoço de família abrisse a porta à guerra do fim do mundo? E se os talheres, os pratos, os copos, as entradas e o prato principal marcassem indelevelmente a toada da degradação das relações intersubjectivas? Palavras por dizer, explicações guardadas, doze anos de ausência. Um aeroporto, um táxi, paisagem, pessoas que passam à passagem do carro, pessoas que ficam à passagem do carro. E uma casa rodeada por árvores, de porta aberta ao romeiro que voltou aos seus. Os que ficaram não ficaram iguais. Mudou-os a ausência e o que ficou por dizer. Ficou tanto por dizer.

Em “Tão-só o Fim do Mundo” Xavier Dolan abre o espaço cénico à incompreensão mútua, à exiguidade dos espaços fechados. Ao tomar por base uma peça de Jean-Luc Lagarce, Dolan permite-se a certos exageros. Sobredimensiona a carga dramática dos diálogos e estica até ao limite da ruptura as prestações dos actores. Todos são tumultuosos, exagerados e loucos. Todos procuram o conflito, o nó cego em que a elevação do tom de voz marca o vazio comunicacional, em que o discurso se abandona ao ruído.

Louis vai morrer. Regressa de uma ausência de doze anos para dizer aos que ficaram que vai morrer. Chega de manhã, cumprimenta-os, senta-se, discorre trivialidades, cala-se, ouve, recorda o quarto, o jardim, fuma um cigarro, discute, evita explicar-se. Nada diz. Ninguém se entende naquela casa. A irmã tatuada, a mãe que esconde o que sente, o irmão violento e a cunhada que não se sabe expressar mas entende tudo.

Dolan é um talento. Domina na perfeição os artifícios cénicos, os espaços e as distâncias. Revela um cuidado imenso na fotografia, em particular na iluminação. Utiliza a banda sonora, por vezes com recursos inusitados, com grande delicadeza. Acima de tudo sabe dirigir os actores. E que actores foi escolher para este filme. Gaspard Ulliel, Vincent Cassel, Marion Cotillard, Léa Seydoux e Nathalie Baye. É certo que repisa a cada filme as mesmas questões. Os recalcamentos familiares, as inseguranças, a brutalidade e a questão das minorias. Mas fá-lo com uma certa arte. Veremos o que o futuro lhe reserva.

Naquela casa rodeada por árvores há um relógio de cuco que liberta pássaros. Libertos voam soltos na vertigem do confinamento. Morrem em voo picado sobre o tapete da entrada. Abre-se a porta…

0 507
! TAXI B184

ODIABO300x100

PEDRO JACOB MORAIS

  • Título português: Taxi Driver
  • Título original: “Taxi Driver”
  • Realização: Martin Scorsese
  • Elenco: Robert De Niro, Jodie Foster, Cybill Shepherd, Harvey Keitel

Há duas semanas, o cinema Rivoli transmitiu a versão restaurada do imprescindível “Taxi Driver”. A sala estava cheia de jovens. Muitos deles viam o filme pela primeira vez, tinham o incomensurável gosto de o ver pela primeira vez na grande tela. Tinham a oportunidade de contactar pela primeira vez com este estranho objecto de Scorsese, com esta estranha personagem de De Niro, com aquela cidade de Nova Iorque sitiada sob o peso dos tempos, dias de chumbo.

O “summer of love” pertencia ao passado, juntamente com os sonhos daquela juventude em abandonada peregrinação à Califórnia. Os ídolos sucumbiram ao peso da década de 60, ao fecho dos anos de delírio sem fim. O Vietnam deu estranhos frutos. Quando a crise do petróleo de 73 assolou aquela gente, já tudo tinha um certo ar de fim de festa.

“Taxi Driver” surge no centro da tempestade, escondedouro dos descontentamentos da juventude americana arquetipicamente consubstanciados na personagem de De Niro, jovem regressado da guerra, incapaz de dormir e que percorre a noite, a grande noite novaiorquina no seu táxi. Sem destino, sem ânimo. Casas devolutas, drogados, marginais, excluídos. E uma chuva que tarda, uma chuva que tudo limpe. A cidade que nunca dorme, o taxista que nunca dorme, as suas ruas, avenidas, vielas, sarjetas. Uma chuva que limpe a cidade e que limpe a vida de Travis. Porque este homem é um pobre diabo, institucionalizado pela selva vietnamita, incapaz de se relacionar com o outro, atabalhoado, enfim, filho do seu tempo, verniz estalado do sonho americano.

A cidada apresenta-se diversa da metrópole de “Cavaleiros do Asfalto” e de “Nova Iorque Fora de Horas” e, no entanto, transmite de modo igualmente eficaz a juventude americana, a noite americana. Scorsese não voltaria a filmar com semelhante jovialidade e dinamismo. De Niro fez história. Em momento algum sabemos o que esperar de Travis. Imprevisível, louco, em fúria. Uma fúria por canalizar, difusa, disforme. Um candidato presidencial que aparece como um corpo estranho. Uma sede de campanha imensa. “We are the people”. Uma pistola para matar elefantes, medicamentos, paranóia. Jodie Foster estreia-se no cinema, e que estreia. E não esqueçamos Harvey Keitel, outro talento.

O pequeno auditório do Rivoli estava cheio de jovens. Parte deles via “Taxi Driver” pela primeira vez. Alguns saíram da sessão surpreendidos e rendidos ao filme. Outros não o compreenderam, a julgar pelas gargalhadas nos momentos de maior intensidade dramática. A obra Scorsese ergue-se incólume, rasga aqueles dias de chumbo e projecta-se nos nossos…

0 749

diabo

JOSÉ ALMEIDA

Iniciada em 1415, com a conquista de Ceuta, a Expansão Portuguesa marcou a maturidade política do Reino de Portugal e o início de uma Idade de Ouro que projectou a superioridade da civilização europeia em todo o mundo. Um período inigualável da História, ao longo do qual a acção dos portugueses foi, absolutamente, determinante e precursora.

Se associarmos o aparecimento da moderna historiografia portuguesa ao nascimento de Alexandre Herculano, então podemos falar em, aproximadamente, dois séculos de investigação sistemática em História. Ao longo deste período, por inúmeras razões e circunstâncias, as nossas duas primeiras dinastias foram quase sempre privilegiadas nos trabalhos dos historiadores nacionais. O período da Expansão e Descobrimentos Portugueses, uma época particularmente gloriosa da nossa História, associada à maravilhosa gesta eternizada em “Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões, serviu como uma incontornável referência político-identitária, afirmando a importância de Portugal na Europa e no mundo.

Publicado no início deste ano pelo Círculo de Leitores, o “Dicionário da Expansão Portuguesa” (capa dura, 2 volumes, 79,96 euros) aborda esses feitos históricos de uma forma descomprometida com o “politicamente correcto”. Alheio aos lugares-comuns das ideologias canhotas que enfermam os nossos ciclos universitários, esta obra não escamoteia as terminologias enraizadas na nossa tradição historiográfica, mantendo-se fiel a expressões clássicas como “Expansão” e “Descobrimentos”, em detrimento de outras que hoje nos procuram impor como, por exemplo, o ridículo “achamento”.

Dirigido por Francisco Contente Domingues, Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, este dicionário divide-se em dois volumes, cujos conteúdos se encontram cronologicamente balizados entre 1415 e 1600, isto é, entre a  conquista portuguesa de Ceuta e a criação das primeiras companhias comerciais europeias. No total, são 390 entradas, redigidas por 79 investigadores, ligados a mais de 30 instituições universitárias e centros de investigação, nacionais e estrangeiros.

Subdividido em 21 temas, este “Dicionário da Expansão Portuguesa” compila artigos de base – mais longos e generalistas –, bem como outros mais específicos, subordinados a biografias, locais, produtos, entre outros. Deste modo, a organização e os conteúdos destes volumes permitem-nos levar a cabo dois tipos de leituras. A consulta específica de um assunto, ou aspecto relevante para a compreensão de um determinado facto ou acontecimento histórico; ou a leitura de um conjunto de artigos que fazem deste dicionário uma interessante obra colectiva subordinada à Expansão e Descobrimentos Portugueses.

Numa época em que muitos crêem na inutilidade dos livros, dicionários e enciclopédias publicados em formato físico, o novo “Dicionário da Expansão Portuguesa” revela-nos o porquê de não devermos deixar-nos infectar pela tirania da técnica e do progresso. A dignidade com que esta obra nos é apresentada, tanto na sua forma como conteúdo, leva-nos a recomendá-la a qualquer biblioteca, investigador, ou entusiasta da História da nossa Expansão.

Como pontos negativos desta publicação, não podíamos deixar de sublinhar dois aspectos que, no fundo, não são mais do que duas chamadas de atenção: a aplicação do AO90; assim como o excesso de bibliografia estrangeira, revelando um preocupante grau de desinteresse por parte dos investigadores face àquilo que tem sido a produção historiográfica nacional.

0 477

diabo

JOSÉ ALMEIDA

O espírito manifesta-se pela estética, pelo que as obras de um regime procuram através desta expressar as linhas de força de uma doutrina ou ideologia. Este esforço deve, no entanto, acompanhar a identidade e tradição do Povo que empreende essa missão edificadora e, simultaneamente, identificadora de uma época. Cassiano Branco foi, nesse sentido, um obreiro e timoneiro da expressão estética de um Portugal cujo espírito se pautava pelo enlace entre tradição e modernismo.

Publicado pela Caleidoscópio, “Cassiano Branco 1897-1970. Arquitectura e artifício” (capa dura, 600 páginas, 39,75 euros) é o resultado da investigação de doutoramento de Paulo Tormenta Pinto. Um livro extenso que aborda exaustivamente a obra do arquitecto português, oferecendo ao leitor um vasto leque de documentos – projectos, desenhos, fotografias e outros elementos –, que permitem aprofundar em pormenor e rigor certos aspectos do seu legado. Uma publicação que honra a arquitectura, mas defrauda a figura de Cassiano Branco, aqui transformado numa espécie de Albert Speer, ou seja, num maquiavélico traidor que constrói uma carreira, em grande parte, às custas de obras públicas, mas que na hora da verdade se apresenta ao público como uma vítima opositora ao regime que serviu. Facto que, como sabemos, está longe de ser assim tão linear.

Nascido em Lisboa, em 1897, Cassiano Branco tornou-se um dos nomes cimeiros da arquitectura portuguesa da primeira metade do século XX. A sua obra marcou não só o espaço público e privado de Portugal, como deixou também vestígios do seu legado na antiga província ultramarina de Angola. Contrariamente à opinião de certos cultores da desinformação histórica, a traça modernista que caracterizava as suas obras não chocava com o espírito e imaginário do Estado Novo. Pelo contrário, ela integrava-se na “Política de Espírito” implantada por António Ferro logo nos primeiros anos da nossa ditadura. Deste modo, contrariamente ao que é sugerido pelo autor deste livro e a julgar pelo número de encomendas estatais que recebeu, Cassiano Branco foi mais arquitecto do regime do que o próprio Raul Lino. Aliás, a ele se deve o projecto do plano urbanístico da Exposição do Mundo Português, bem como outras obras emblemáticas do Estado Novo, como é o caso do célebre parque didáctico-pedagógico de Coimbra, carinhosamente baptizado como Portugal dos Pequenitos.

Em “Beleza”, o filósofo britânico Roger Scruton contrapõe-se ao arquitecto Louis Sullivan, acusando-o de tratar a beleza como um “subproduto da funcionalidade e não como o objectivo determinante”. Ora, este não era o caso de Cassiano Branco que, ensaiando linhas arrojadas e modernistas, não deixava de integrar as suas criações dentro do espírito nacional, de acordo com a expressão estética e programática do Portugal daquele tempo. Podemos facilmente compreender esse aspecto das suas obras ao analisarmos alguns dos edifícios que projectou para espaços nobres de várias localidades como, por exemplo: o Teatro Éden, ou o Hotel Vitória, em Lisboa; o Coliseu do Porto, ou o Grande Hotel das Termas de Luso.

Redigido em bom português, pré-AO90, este livro peca pela natureza do normativismo político que subjaz à caracterização do nosso arquitecto e da época em que viveu. Não obstante esse facto, bem como uma certa ligeireza na abordagem do confronto a outros aspectos ligados à História de Portugal, a profundidade da análise à obra de Cassiano Branco levada a cabo neste trabalho torna-o um importante marco para a revitalização da memória da arquitectura portuguesa do século XX.

0 871

diabo

HUGO NAVARRO

Deambular por uma mega-livraria em Portugal pode transformar-se numa viagem aterradora pelo mundo da idiotia e do vazio. Longe do seu livreiro habitual, o repórter precisou de comprar um livro e teve de passar pela dolorosa experiência…

São purgatórios de uma sociedade acamada com insuficiência mental. É certo que o analfabetismo, em Portugal, está reduzido a menos de cinco por cento da população. Mas quando se sabe que entre os “alfabetizados” estão 99,7% dos portugueses que compõem a faixa etária dos 15 aos 24 anos, e conhecendo-os nós de ginjeira, a palavra “alfabetização” ganha um triste significado. É para eles que estão abertas as ‘megastores’ a que me refiro.

Ao entrar uma pessoa nessas pseudo-livrarias, parece ter havido engano no número da porta: não há livros à vista. As primeiras salas estão pejadas de equipamentos electrónicos, acessórios informáticos, brinquedos cibernéticos, discos, capas para telemóveis, aipodes e ainãopodes, óculos de sol, máquinas de filmar e bugigangas várias. Em papel, mesmo, só um escaparate de revistas frívolas, que por comparação chega a parecer “intelectual”.

Procurando bem, entre o ‘coffee-shop’ e a secção infantil, é possível acabar por encontrar estantes com livros. Mas, aqui, o destaque vai antes para as bancas de “promoções” – um mar de capas iguais umas às outras, de prosas de cordel embrulhadas em couché de fantasia, de autores cuja existência tem a duração dos cinco minutos pagos pela editora para ali os ter expostos, em fugaz glória e nenhum proveito.

As estantes, essas, são apenas armazéns mais baratos, com uma primeira fiada de livros a tapar uma segunda, à qual só um obstinado conseguirá aceder.

Nos seus altares, os sucessos do momento. Em primeiro lugar no topo-dez, uma coisa intitulada “A Rapariga no Comboio”, enredo de mistério incluindo violência doméstica, álcool e drogas, assinado por Paula Hawkins, uma rapariga que começou a fazer pela vida como jornalista de temas financeiros.

Em segundo lugar surge “Viver Depois de Ti”, uma lamechice sem nexo da autoria de outra moça, Jojo Moyes, que depois de ter trabalhado para uma empresa de táxis e um clube de férias, também decidiu ser jornalista. Em terceiro no topo, um português, também jornalista: Pedro Chagas Freitas, autor de “Prometo Perder”, uma noveleta semi-erótica com a devida promoção no livro das caras (mais conhecido por ‘facebook’), onde o prosador surge com ar de sábio com óculos.

Vêm depois, na lista dos “livros” mais vendidos, a escultural Bruna Lombardi (sim, também ela sabe escrever) com o seu “Jogo da Felicidade” e José Rodrigues dos Santos, idem, com o enigmático “Pavilhão Púrpura” (e prometo que nunca tentarei desvendar tal enigma).

Passaram cinco minutos desde que entrei – e já corro para a saída. Não sei se é falta de ar, se é uma náusea funda. E (Deus Nosso Senhor me perdoe) até os brinquedos cibernéticos me parecem mais inteligentes!

0 973

ODIABO300x100

PEDRO JACOB MORAIS

  • Título português: Francofonia
  • Título original: “Francofonia”
  • Realização: Alexandr Sokurov

“Francofonia”, a visão do museu do Louvre pelo cineasta russo Alexandr Sokurov, socava mais do que obras de arte. Socava uma Paris de artistas, sejam pintores ou escultores, um mundo de artistas concentrado em Paris. Uma Paris conquistadora e, ulteriormente, conquistada. Cidade aberta, intocável, acervo universal da loucura da guerra. Um museu à beira do saque das obras que saqueou, conservadores franceses e alemães, viagens de barco a afundar a carga preciosa, templos trasladados, segredos subterrâneos.

A obra se Sokurov surge irrepreensivelmente filmada numa miscelânea de técnicas – da película à imagem obtida com recurso a “drones”. O objecto centra-se na Paris ocupada pela Alemanha em contraposição à miséria colaboracionista, mais especificamente, centra-se em torno dos diálogos entre o conservador francês do Louvre e o homólogo germânico responsável pela curadoria da arte (“Kunstschutz”) na Europa. Às imagens de arquivo e à recolha fotográfica alia alguns diálogos ficcionais entre as duas personagens, bem como uma videochamada com um cargueiro carregado de obras de arte e envolto numa poderosa tempestade.

O que seria França sem o Louvre ou a Rússia sem o Hermitage? A história dos museus, tal a história geopolítica dos Estados que os albergam, faz-se de expansão, seja através da consecução de um espaço vital, grande espaço ou qualquer um dos seus sucedâneos, faz-se de conquista, de dominadores e dominados. A trama da humanidade traz-nos, num incessante movimento pendular, saques idênticos. “Francofonia” apresenta, num interessante truque de espelho, o saque nacional-socialista e o saque napoleónico, sublinha o passado sem o matizar, sem efabular o tríptico da Revolução Francesa – por vezes aparece uma “República” que repete lacónica a sua cartilha semântica.

Grandes homens, obras imensas, pedaços soltos e esquecidos, burocratas e as suas missivas. Em suma, um gigantesco coloide que construiu o Louvre, pedra por pedra.

0 658

diaboJOSÉ ALMEIDA

A arte marginal e os círculos artísticos “underground” constituem uma parte importante do imaginário cultural das sociedades urbanas contemporâneas. Nestes meios, tanto se edificam pontes entre subculturas distintas, como se afirma a própria identidade de determinados grupos. De resto, esta é uma realidade bastante presente no mundo da música onde, tantas vezes, perdemos o rumo da História em virtude da natureza efémera dos fenómenos que a compõem. “Quadro de Honra” representa uma compilação de relatos recolhidos na primeira pessoa, visando preservar uma parte significativa dessas memórias.

Importa, antes de tudo, identificarmos o que classificamos aqui de “underground” e “música alternativa”. “Quadro de Honra”, obra colectiva assinada pela revista “Loud!”, publicada pela Saída de Emergência (brochado, 368 páginas, 16,90 euros), compila cerca de 30 entrevistas com alguns dos nomes mais emblemáticos da música pesada nacional. Estamos perante um repositório de memórias que nos remete para mais de três décadas de sonoridades extremas que vão do punk ao hardcore e do rock ao metal, aqui entendido nos seus variadíssimos subgéneros. Os colectivos musicais cujas entrevistas compõem esta obra são os protagonistas de uma aventura fantástica e revolucionária, desafiadora do gosto e mercados dominantes.

Ao longo de dezenas de edições, a revista “Loud!” – referência em Portugal em matéria de jornalismo musical votado às sonoridades mais extremas –, foi efectuando um trabalho de arqueologia musical sob a forma de entrevistas. Levando a cabo um processo de revitalização da memória que passava pela evocação de alguns dos discos mais marcantes da música pesada nacional, esta publicação periódica foi reunindo nas suas páginas os relatos obtidos juntos dos músicos intervenientes neste capítulo menos conhecido da História da Música em Portugal.

De clássicos como Mão Morta, Mata Ratos, Peste & Sida, Censurados, ou Tarantula, passando por bandas como Moonspell, Heavenwood, Bizarra Locomotiva, Sacred Sin ou Ramp, não deixam de aparecer entre os testemunhos recolhidos outros nomes menos conhecidos do grande público como, por exemplo, Decayed, Thormentor, Sirius, Corpus Christi, Desire, Morbid Death, In Tha Umbra, Inhuman, Genocide, Grog, Holocausto Canibal, entre outros.

Conforme tão bem descreve o escritor José Luís Peixoto no prefácio a esta obra: “Chegará um dia em que tudo o que constitui este instante será passado”. Assim, podemos afirmar que “Quadro de Honra” representa o testemunho de um certo passado ainda bastante presente. Um repositório de ecos de glórias passadas que insistem em permanecer vivas, por via de um diálogo perene entre um passado que se afirma e um presente que se esfuma.

Escrito em bom português pré-AO90 – escolha que muito louvámos –, este livro encontra-se enriquecido pela parafernália iconográfica que o documenta, da qual não poderíamos deixar de destacar as ilustrações de Pedro Silva.

0 737

diaboJOSÉ ALMEIDA

A valorização da Filosofia Portuguesa pressupõe um aprofundamento do conhecimento no âmbito da nossa tradição filosófica, histórica, cultural e espiritual. A recente publicação do “Dicionário Crítico de Filosofia Portuguesa” abre caminho à reflexão sobre autores e temas ligados a esse nosso imenso património, construído ao longo de uma linha temporal que vai dos tempos pré-fundacionais até aos nossos dias.

Em 1943 Álvaro Ribeiro publicou “O problema da Filosofia Portuguesa”. Uma obra revolucionária que, derrubando os preconceitos de todos os que negavam a existência de um pensamento próprio em Portugal, analisou a situação do pensamento filosófico português, da Idade Moderna até à contemporaneidade. Detectando a origem da impureza do nosso pensamento em aspectos como a desatenção face ao logos, a valorização dos factos, ou a cousificação da Filosofia através do abandono do cogito em favor das coisas, Álvaro Ribeiro concluiu que os portugueses, contrariamente ao que muitos ainda hoje defendem, não são um povo com falta de vocação filosófica. Para o filósofo portuense, em determinado momento histórico, os portugueses abandonaram a sua via autónoma de “pensamento pensante” reduzindo, entre nós, a Filosofia à mera importação de “pensamento pensado” e à divulgação de culturas filosóficas, nomeadamente, através da História da Filosofia.

A tese alvarina contemplou as excepções a esta realidade que, de Sampaio Bruno até Leonardo Coimbra, passando por Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, mantiveram viva a nossa tradição filosófica, não materialista e anti-positivista. Uma corrente que viria a ser recuperada na sua plenitude com o movimento da Filosofia Portuguesa. O “Dicionário Crítico de Filosofia Portuguesa” (capa dura, 812 páginas, 29,90 euros), publicado pela Temas e Debates / Círculo de Leitores, integra-se num crescente movimento de valorização do nosso pensamento, procurando alicerçar os conhecimentos e incitar à reflexão todos os interessados por este aspecto tão pertinente e definidor da nossa cultura.

O próprio nome desta obra – “Dicionário Crítico de Filosofia Portuguesa” – representa uma conquista sobre o “status quo”, em geral, hostil face à evidente existência de uma Filosofia Portuguesa. Ao não ser chamada de “Dicionário Crítico de Filosofia em Portugal”, esta obra, coordenada por Maria de Lourdes Sirgado Ganho, professora da Universidade Católica Portuguesa, assume em termos institucionais a existência de uma corrente de pensamento português. O prefixo “Crítico” que consta no título desta obra será, no entanto, um mero elemento de distinção entre esta e uma outra obra – o “Dicionário de Filosofia Portuguesa”, da autoria de Pinharanda Gomes.

De resto, importa sublinhar o nome de Pinharanda Gomes, não só pelo facto de ser o principal colaborador deste dicionário, mas também por ter sido o pai deste projecto. Década e meia após terem iniciado institucionalmente os trabalhos que conduziram à realização deste volume, a obra em destaque apresenta-se já como uma referência de importância inquestionável para o estudo da Filosofia Portuguesa.

Se a Filosofia constitui, tal como na antiga Grécia, uma expressão de maturidade cultural, também Portugal ao longo de quase um milénio alcançou e desenvolveu, seguramente, traços específicos do seu pensamento filosófico. Um património imaterial riquíssimo cuja influência, aquém e além-fronteiras, está hoje ainda longe de ser conhecido e reconhecido pelo grande público, não obstante a sua importância e influência latentes na civilização ocidental e no mundo.

0 603

ODIABO300x100

PEDRO JACOB MORAIS

  • Título português: Money Monster
  • Título original: “Money Monster”
  • Realização: Jodie Foster
  • Elenco: George Clooney, Julia Roberts, Jack O’Connell
  • USA, 2016, 98 min

O “star system” de Hollywood não cessa de nos brindar com monstruosidades de antologia. Longe fica aquele “dia de cão”, pleno de uma jovialidade há muito arredada da indústria cinematográfica americana, em que Al Pacino, num delírio de suores frios e vida a monte, dispensava os maniqueísmos tipificados pelo género e entrava no banco para um assalto rapidamente feito sequestro.

Refém do amontoado urbano e respectivas neurastenias de betão, num jogo de afinidades com o espectador e respectivos recalcamentos delicadamente delineados. O trabalho de câmara, as prestações dos actores, a tensão dramática não mais se repetiria. Aquele Al Pacino imenso, refractário à análise superficial, ficaria para sempre gravado a cinzel na parede da história do cinema. Aquele Al Pacino imenso não mais surgiria no eterno pastiche da indústria. “Dog Day Afternoon”, de Sindney Lumet, permanece como um objecto de culto, pioneiro, mil vezes copiado, irrepetível e, até à data, insuperável.

“Money Monster” mais não é do que um fraco símile do sequestrador atormentado, injustiçado e com bom coração. Um símile desprovido de profundidade que falha estrondosamente. As prestações dos actores são sofríveis, com destaque para George Clooney, que parece ter construído a sua carreira em torno de efabulações e simulacros. Julia Roberts, ainda que se apresente com alguma dignidade, não consegue sustentar a personagem estafada da directora de conteúdos televisivos exausta de assistir às tropelias de um Clooney sempre caricatural. Jack O’Connell surge mais seguro na personagem de Kyle Budwell, um desgraçado apanhado sem pé pelas flutuações bolsistas e que decide ajustar contas com o apresentador palerma que se dedica a aconselhar diariamente a América sobre investimentos na bolsa. Note-se que mais seguro não equivale a mais competente, numa prestação que remete para Tom Hardy. Mas Kyle Budwell não é Tom Hardy.

Quanto à inverosimilhança da história de fundo, nem uma palavra. Centremos a atenção na fragilidade da construção do argumento, na banda sonora risível e nas peripécias francamente previsíveis. Jodie Foster não se mostra hábil na realização, o que não é, em boa verdade, uma surpresa. Nenhum dos seus trabalhos anteriores, enquanto realizadora, augurava um futuro brilhante.

A crítica à especulação bolsista ínsita na película e enformada pelos mecanismos de “high frequency trading” rapidamente se esfuma e dissipa qualquer pretensão anti-sistema que lhe tentemos assacar. A especulação bolsista não falha pela enfermidade que a enraíza, falha devido a um vilão engravatado que quer comprar uma mina na África do Sul, negoceia com piratas informáticos e é redondamente malvado. O sonho americano não é beliscado. O consumo exacerbado em delírio de bacante continua dentro de momentos.

Jodie Foster não é Sidney Lumet e este não é “Um Dia de Cão”…

0 565

ODIABO300x100

PEDRO JACOB MORAIS

  • Título português: Dheepan
  • Título original: “Dheepan”
  • Realização: Jacques Audiard
  • Elenco: Jesuthasan Antonythasan, Kalieaswari Srinivasan, Claudine Vinasithamby
  • França, 2015, 115 min

Multiculturalismo?

Abre-se a tela em ‘magnum opus’, uma pilha de corpos em chamas, pira fúnebre, acto de despedida do Tigre do Tamil que depôs as armas. O campo de refugiados abre-se à constituição de uma família de estranhos, à formação de um bando, ao abandono. Um guerrilheiro, uma órfã e uma mulher sem filhos. Do Sri Lanka para os subúrbios de Paris, do campo para a pradaria.

A tela de breu que dá o mote a “Dheepan”, obra de Audiard galardoada em Cannes com a Palma de Ouro, desvela um filme singular. O breu entrecortado com luzes de fantasia, adereços de uma noite sem fim, viagem, bagatelas para um combate. O Tigre de Tamil agora é um vendedor, arquetipicamente anónimo, e a família do faz-de-conta espera-o em casa.

Da venda de pechisbeque para um bairro suburbano, o Tigre transmuta-se em zelador de um bloco residencial abandonado ao tráfico, numa dessas zonas de sombra em que a polícia não entra. “Abandonai toda a esperança, vós que entrais”, que, neste apeadeiro, o Estado converteu-se em verbo de encher. A multiculturalidade mais não é do que uma farsa quando se verte num amontoado de corpos esquecidos, quando se converte em objecto asséptico de trabalhos académicos.

Audiard esmaga as promessas europeias, ensaia o desconforto. Neste bairro tudo corre mal, porque foi projectado para que tudo corresse mal. O Estado abandonou aquela gente à sua sorte entre chavões de integração e trípticos de liberdade, igualdade e fraternidade. O realismo da imagem adquire os matizes artísticos de que Audiard já havia dado provas. Subitamente volvamos ao carro de “Um Profeta”, segundos antes do embate, suspensos naquele aviso premonitório. Para Dheepan, o tigre travestido de zelador de condomínio, a prisão surge mais ampla, delirante e febril nos cânticos guerreiros que repristinam o passado.

E quando a vertigem da guerra regressa, a ausência de Estado propicia a barbárie. Tal como em “Um Profeta” e em “Ferrugem e Osso”, o cineasta filma com raro talento as cenas de acção, longe da violência descomprometida e viciosa de Hollywood. Em “Dheepan” cada cena possui um peso cerimonial, na longa jornada em direcção à terra prometida que fica além do Canal da Mancha – ainda que o “el dorado” inglês tenha muito que se lhe diga.

As interpretações são competentes e seguras, o bairro adquire uma plasticidade que nos transporta para o centro da acção e a banda sonora, não só resulta de forma muito eficaz, como realça o lirismo ínsito nos jogos de luz e de sombra de Audiard.

Nesta Europa de folclores concatenados, vive um Tigre com orelhas luminosas…

CAPA

SIGA-NOS