Cinema

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PEDRO JACOB MORAIS

  • Título português: Tão-só o Fim do Mundo
  • Título original: “Juste la Fin du Monde”
  • Realização: Xavier Dolan
  • Elenco: Gaspard Ulliel, Nathalie Baye, Vincent Cassel, Marion Cotillard, Léa Seydoux
  • Canadá, França, 2016, 97 min

E se um mero almoço de família abrisse a porta à guerra do fim do mundo? E se os talheres, os pratos, os copos, as entradas e o prato principal marcassem indelevelmente a toada da degradação das relações intersubjectivas? Palavras por dizer, explicações guardadas, doze anos de ausência. Um aeroporto, um táxi, paisagem, pessoas que passam à passagem do carro, pessoas que ficam à passagem do carro. E uma casa rodeada por árvores, de porta aberta ao romeiro que voltou aos seus. Os que ficaram não ficaram iguais. Mudou-os a ausência e o que ficou por dizer. Ficou tanto por dizer.

Em “Tão-só o Fim do Mundo” Xavier Dolan abre o espaço cénico à incompreensão mútua, à exiguidade dos espaços fechados. Ao tomar por base uma peça de Jean-Luc Lagarce, Dolan permite-se a certos exageros. Sobredimensiona a carga dramática dos diálogos e estica até ao limite da ruptura as prestações dos actores. Todos são tumultuosos, exagerados e loucos. Todos procuram o conflito, o nó cego em que a elevação do tom de voz marca o vazio comunicacional, em que o discurso se abandona ao ruído.

Louis vai morrer. Regressa de uma ausência de doze anos para dizer aos que ficaram que vai morrer. Chega de manhã, cumprimenta-os, senta-se, discorre trivialidades, cala-se, ouve, recorda o quarto, o jardim, fuma um cigarro, discute, evita explicar-se. Nada diz. Ninguém se entende naquela casa. A irmã tatuada, a mãe que esconde o que sente, o irmão violento e a cunhada que não se sabe expressar mas entende tudo.

Dolan é um talento. Domina na perfeição os artifícios cénicos, os espaços e as distâncias. Revela um cuidado imenso na fotografia, em particular na iluminação. Utiliza a banda sonora, por vezes com recursos inusitados, com grande delicadeza. Acima de tudo sabe dirigir os actores. E que actores foi escolher para este filme. Gaspard Ulliel, Vincent Cassel, Marion Cotillard, Léa Seydoux e Nathalie Baye. É certo que repisa a cada filme as mesmas questões. Os recalcamentos familiares, as inseguranças, a brutalidade e a questão das minorias. Mas fá-lo com uma certa arte. Veremos o que o futuro lhe reserva.

Naquela casa rodeada por árvores há um relógio de cuco que liberta pássaros. Libertos voam soltos na vertigem do confinamento. Morrem em voo picado sobre o tapete da entrada. Abre-se a porta…

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! TAXI B184

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PEDRO JACOB MORAIS

  • Título português: Taxi Driver
  • Título original: “Taxi Driver”
  • Realização: Martin Scorsese
  • Elenco: Robert De Niro, Jodie Foster, Cybill Shepherd, Harvey Keitel

Há duas semanas, o cinema Rivoli transmitiu a versão restaurada do imprescindível “Taxi Driver”. A sala estava cheia de jovens. Muitos deles viam o filme pela primeira vez, tinham o incomensurável gosto de o ver pela primeira vez na grande tela. Tinham a oportunidade de contactar pela primeira vez com este estranho objecto de Scorsese, com esta estranha personagem de De Niro, com aquela cidade de Nova Iorque sitiada sob o peso dos tempos, dias de chumbo.

O “summer of love” pertencia ao passado, juntamente com os sonhos daquela juventude em abandonada peregrinação à Califórnia. Os ídolos sucumbiram ao peso da década de 60, ao fecho dos anos de delírio sem fim. O Vietnam deu estranhos frutos. Quando a crise do petróleo de 73 assolou aquela gente, já tudo tinha um certo ar de fim de festa.

“Taxi Driver” surge no centro da tempestade, escondedouro dos descontentamentos da juventude americana arquetipicamente consubstanciados na personagem de De Niro, jovem regressado da guerra, incapaz de dormir e que percorre a noite, a grande noite novaiorquina no seu táxi. Sem destino, sem ânimo. Casas devolutas, drogados, marginais, excluídos. E uma chuva que tarda, uma chuva que tudo limpe. A cidade que nunca dorme, o taxista que nunca dorme, as suas ruas, avenidas, vielas, sarjetas. Uma chuva que limpe a cidade e que limpe a vida de Travis. Porque este homem é um pobre diabo, institucionalizado pela selva vietnamita, incapaz de se relacionar com o outro, atabalhoado, enfim, filho do seu tempo, verniz estalado do sonho americano.

A cidada apresenta-se diversa da metrópole de “Cavaleiros do Asfalto” e de “Nova Iorque Fora de Horas” e, no entanto, transmite de modo igualmente eficaz a juventude americana, a noite americana. Scorsese não voltaria a filmar com semelhante jovialidade e dinamismo. De Niro fez história. Em momento algum sabemos o que esperar de Travis. Imprevisível, louco, em fúria. Uma fúria por canalizar, difusa, disforme. Um candidato presidencial que aparece como um corpo estranho. Uma sede de campanha imensa. “We are the people”. Uma pistola para matar elefantes, medicamentos, paranóia. Jodie Foster estreia-se no cinema, e que estreia. E não esqueçamos Harvey Keitel, outro talento.

O pequeno auditório do Rivoli estava cheio de jovens. Parte deles via “Taxi Driver” pela primeira vez. Alguns saíram da sessão surpreendidos e rendidos ao filme. Outros não o compreenderam, a julgar pelas gargalhadas nos momentos de maior intensidade dramática. A obra Scorsese ergue-se incólume, rasga aqueles dias de chumbo e projecta-se nos nossos…

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PEDRO JACOB MORAIS

  • Título português: Francofonia
  • Título original: “Francofonia”
  • Realização: Alexandr Sokurov

“Francofonia”, a visão do museu do Louvre pelo cineasta russo Alexandr Sokurov, socava mais do que obras de arte. Socava uma Paris de artistas, sejam pintores ou escultores, um mundo de artistas concentrado em Paris. Uma Paris conquistadora e, ulteriormente, conquistada. Cidade aberta, intocável, acervo universal da loucura da guerra. Um museu à beira do saque das obras que saqueou, conservadores franceses e alemães, viagens de barco a afundar a carga preciosa, templos trasladados, segredos subterrâneos.

A obra se Sokurov surge irrepreensivelmente filmada numa miscelânea de técnicas – da película à imagem obtida com recurso a “drones”. O objecto centra-se na Paris ocupada pela Alemanha em contraposição à miséria colaboracionista, mais especificamente, centra-se em torno dos diálogos entre o conservador francês do Louvre e o homólogo germânico responsável pela curadoria da arte (“Kunstschutz”) na Europa. Às imagens de arquivo e à recolha fotográfica alia alguns diálogos ficcionais entre as duas personagens, bem como uma videochamada com um cargueiro carregado de obras de arte e envolto numa poderosa tempestade.

O que seria França sem o Louvre ou a Rússia sem o Hermitage? A história dos museus, tal a história geopolítica dos Estados que os albergam, faz-se de expansão, seja através da consecução de um espaço vital, grande espaço ou qualquer um dos seus sucedâneos, faz-se de conquista, de dominadores e dominados. A trama da humanidade traz-nos, num incessante movimento pendular, saques idênticos. “Francofonia” apresenta, num interessante truque de espelho, o saque nacional-socialista e o saque napoleónico, sublinha o passado sem o matizar, sem efabular o tríptico da Revolução Francesa – por vezes aparece uma “República” que repete lacónica a sua cartilha semântica.

Grandes homens, obras imensas, pedaços soltos e esquecidos, burocratas e as suas missivas. Em suma, um gigantesco coloide que construiu o Louvre, pedra por pedra.

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PEDRO JACOB MORAIS

  • Título português: Money Monster
  • Título original: “Money Monster”
  • Realização: Jodie Foster
  • Elenco: George Clooney, Julia Roberts, Jack O’Connell
  • USA, 2016, 98 min

O “star system” de Hollywood não cessa de nos brindar com monstruosidades de antologia. Longe fica aquele “dia de cão”, pleno de uma jovialidade há muito arredada da indústria cinematográfica americana, em que Al Pacino, num delírio de suores frios e vida a monte, dispensava os maniqueísmos tipificados pelo género e entrava no banco para um assalto rapidamente feito sequestro.

Refém do amontoado urbano e respectivas neurastenias de betão, num jogo de afinidades com o espectador e respectivos recalcamentos delicadamente delineados. O trabalho de câmara, as prestações dos actores, a tensão dramática não mais se repetiria. Aquele Al Pacino imenso, refractário à análise superficial, ficaria para sempre gravado a cinzel na parede da história do cinema. Aquele Al Pacino imenso não mais surgiria no eterno pastiche da indústria. “Dog Day Afternoon”, de Sindney Lumet, permanece como um objecto de culto, pioneiro, mil vezes copiado, irrepetível e, até à data, insuperável.

“Money Monster” mais não é do que um fraco símile do sequestrador atormentado, injustiçado e com bom coração. Um símile desprovido de profundidade que falha estrondosamente. As prestações dos actores são sofríveis, com destaque para George Clooney, que parece ter construído a sua carreira em torno de efabulações e simulacros. Julia Roberts, ainda que se apresente com alguma dignidade, não consegue sustentar a personagem estafada da directora de conteúdos televisivos exausta de assistir às tropelias de um Clooney sempre caricatural. Jack O’Connell surge mais seguro na personagem de Kyle Budwell, um desgraçado apanhado sem pé pelas flutuações bolsistas e que decide ajustar contas com o apresentador palerma que se dedica a aconselhar diariamente a América sobre investimentos na bolsa. Note-se que mais seguro não equivale a mais competente, numa prestação que remete para Tom Hardy. Mas Kyle Budwell não é Tom Hardy.

Quanto à inverosimilhança da história de fundo, nem uma palavra. Centremos a atenção na fragilidade da construção do argumento, na banda sonora risível e nas peripécias francamente previsíveis. Jodie Foster não se mostra hábil na realização, o que não é, em boa verdade, uma surpresa. Nenhum dos seus trabalhos anteriores, enquanto realizadora, augurava um futuro brilhante.

A crítica à especulação bolsista ínsita na película e enformada pelos mecanismos de “high frequency trading” rapidamente se esfuma e dissipa qualquer pretensão anti-sistema que lhe tentemos assacar. A especulação bolsista não falha pela enfermidade que a enraíza, falha devido a um vilão engravatado que quer comprar uma mina na África do Sul, negoceia com piratas informáticos e é redondamente malvado. O sonho americano não é beliscado. O consumo exacerbado em delírio de bacante continua dentro de momentos.

Jodie Foster não é Sidney Lumet e este não é “Um Dia de Cão”…

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PEDRO JACOB MORAIS

  • Título português: Dheepan
  • Título original: “Dheepan”
  • Realização: Jacques Audiard
  • Elenco: Jesuthasan Antonythasan, Kalieaswari Srinivasan, Claudine Vinasithamby
  • França, 2015, 115 min

Multiculturalismo?

Abre-se a tela em ‘magnum opus’, uma pilha de corpos em chamas, pira fúnebre, acto de despedida do Tigre do Tamil que depôs as armas. O campo de refugiados abre-se à constituição de uma família de estranhos, à formação de um bando, ao abandono. Um guerrilheiro, uma órfã e uma mulher sem filhos. Do Sri Lanka para os subúrbios de Paris, do campo para a pradaria.

A tela de breu que dá o mote a “Dheepan”, obra de Audiard galardoada em Cannes com a Palma de Ouro, desvela um filme singular. O breu entrecortado com luzes de fantasia, adereços de uma noite sem fim, viagem, bagatelas para um combate. O Tigre de Tamil agora é um vendedor, arquetipicamente anónimo, e a família do faz-de-conta espera-o em casa.

Da venda de pechisbeque para um bairro suburbano, o Tigre transmuta-se em zelador de um bloco residencial abandonado ao tráfico, numa dessas zonas de sombra em que a polícia não entra. “Abandonai toda a esperança, vós que entrais”, que, neste apeadeiro, o Estado converteu-se em verbo de encher. A multiculturalidade mais não é do que uma farsa quando se verte num amontoado de corpos esquecidos, quando se converte em objecto asséptico de trabalhos académicos.

Audiard esmaga as promessas europeias, ensaia o desconforto. Neste bairro tudo corre mal, porque foi projectado para que tudo corresse mal. O Estado abandonou aquela gente à sua sorte entre chavões de integração e trípticos de liberdade, igualdade e fraternidade. O realismo da imagem adquire os matizes artísticos de que Audiard já havia dado provas. Subitamente volvamos ao carro de “Um Profeta”, segundos antes do embate, suspensos naquele aviso premonitório. Para Dheepan, o tigre travestido de zelador de condomínio, a prisão surge mais ampla, delirante e febril nos cânticos guerreiros que repristinam o passado.

E quando a vertigem da guerra regressa, a ausência de Estado propicia a barbárie. Tal como em “Um Profeta” e em “Ferrugem e Osso”, o cineasta filma com raro talento as cenas de acção, longe da violência descomprometida e viciosa de Hollywood. Em “Dheepan” cada cena possui um peso cerimonial, na longa jornada em direcção à terra prometida que fica além do Canal da Mancha – ainda que o “el dorado” inglês tenha muito que se lhe diga.

As interpretações são competentes e seguras, o bairro adquire uma plasticidade que nos transporta para o centro da acção e a banda sonora, não só resulta de forma muito eficaz, como realça o lirismo ínsito nos jogos de luz e de sombra de Audiard.

Nesta Europa de folclores concatenados, vive um Tigre com orelhas luminosas…

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PEDRO JACOB MORAIS

  • Título português: Viver à Margem
  • Título original: “Time Out of Mind”
  • Realização: Oren Moverman
  • Elenco: Richard Gere, Ben Vereen, Jena Malone
  • USA, 120 min, 2015

Oren Moverman assina uma obra segura e honesta, que passa ao largo dos holofotes mediáticos. Premiado em Toronto, “Viver à Margem” conta-nos a história de George, um sem-abrigo nas ruas de Nova Iorque. Hipotecou o futuro nos tratamentos do cancro da mulher e o cancro venceu, perdeu o emprego, refugiou-se no álcool, afastou a filha, perdeu a casa. Agora vive a invernia nova-iorquina, a chuva, o vento e a companhia forçada de outras almas penadas com vivências distintas, comuns no desfecho. A temperatura, as ruas inóspitas aos desapossados, a comida, a cerveja, o whisky, o abrigo, as regras, as filas, as esperas, as filhas de espera. O desfile de quem sorri a perda da dignidade não tem fim.

Richard Gere brinda-nos com uma interpretação tocante e franca. Parco nas palavras, guia-nos numa jornada, em certos aspectos, demasiado voyeurista. Não fala, não come, não dorme, por vezes bebe. Tenta recuperar forças para encarar a filha. Tenta recuperar a identidade, a certidão de nascimento, o apelido, em contrapé com a torrente burocrática. Qual seria o seu emprego? Sabe-se lá! Em boa verdade, isso pouco importa. O emprego sumiu entre as frestas da vida, a casa devolveu-o à rua e a cidade permanece imóvel, bloco em bruto, a Manhattan que o reconduz ciclicamente ao bar onde a filha trabalha, que lhe afiança o retorno e, subitamente, lhe cerra a porta. Alguns edifícios dessa cidade são inexpugnáveis, tal o passado de George.

Uma nota para Ben Vereen no papel de Dixon, o enérgico sem-abrigo que decide acompanhar George, entre a narração de feitos passados em serões jazz que talvez não passem de efabulações e problemas com drogas, permite ao espectador recuperar o fôlego da sucessão de misérias apresentadas na tela. Moverman serve-se de um curioso artifício cénico que quadra na perfeição o distanciamento do olhar que os sem-abrigo convocam. Opta por filmar grande parte das cenas do lado de fora dos edifícios. Desta forma, o espectador observa George através de janelas, portas, vitrinas. A sua voz mistura-se e, por vezes, dissipa-se no ruído ambiente, perde-se na cidade sem fim.

“Viver à Margem” traça detalhadamente o esboço dos excluídos e revela à contraluz as cicatrizes do sonho americano. A fragilidade do sistema de saúde, o preço dos seguros, a impotência da segurança social, a indiferença perante o outro.

Estes já não são os tempos de “Na Penúria em Paris e Londres” de Orwell…

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PEDRO MORAIS

  • Título português: Janis: Little Girl Blue
  • Título original: “Janis: Little Girl Blue”
  • Realização: Amy Berg
  • USA, 2015, 103 min.
  • Estreia: 5 de Maio de 2016

Janis Joplin representa na perfeição os sonhos e desencantos daquela década de sessenta americana que poucos recordam. Os registos sonoros prestam fiel testemunho de uma idade dourada que se furta a existir. Quem recorda Janis? Quem recorda a “Work me Lord” de Woodstock cantada sob um ascendente de heroína, signo que lhe foi reverencial e, por fim, fatal? Quem recorda a “Ball and Chain” no festival de Monterey? Essa “Ball and Chain” que marca a cadência que unia e as cadeias que prendiam uma geração inteira.

A voz falha naquele delirante refrão e Janis apresentava-se como era: frágil e sem subterfúgios. Era uma vez um tempo que desconhecia o aparato cénico, a promoção exponencialmente apartada do talento artístico, as aulas de canto laboratorialmente afinadas, as historietas de vida cuidadosamente ensaiadas, os ídolos de pés de barro, a infra-estrutura industrial, a fraude.

Naquele tempo Janis cantava livre na fronteira entre os “blues” (a sua ‘alma mater’), o “rock” e a “pop”. Conduzia um poderoso séquito que julgava poder viver para sempre o Verão da Califórnia. Ainda não conheciam os abusos do “summer of love” em São Francisco, os obscuros planos de Charles Mason e as mortes que funestamente encerrariam a década. Nos anos que a realizadora Amy Berg decidiu documentar, o sonho ainda movia multidões e as fragilidades sociológicas que pressagiavam a vigília futura permaneciam ocultas. Janis cantava a “Ball and Chain” no festival de Monterey, demonstrava a graça e o talento da juventude, a música feita artesanato a opor-se à música liquefeita em objeto de consumo.

“Janis: Little Girl Blue” apresenta uma estrutura tipicamente documental. Possui um encadeamento cronológico, recorre a entrevistas e a uma extensa recolha de material que ajuda a densificar a figura da jovem texana e a traçar a radiografia daqueles curiosos anos. Somos presenteados com imagens resgatadas do baú da memória, desenhos, cadernos, notas de adolescência. Amy Berg escolhe dar particular relevo às idiossincrasias, aos desgostos amorosos, às desilusões da artista. Uma nota negativa para as “celebridades” seleccionadas para proferir algumas palavras de homenagem durante os créditos finais. A escolha da cantora Pink revela, mais do que uma flagrante ofensa ao legado de Janis, um extremo mau gosto.

Este documentário vale por tentar resgatar uma figura que, estranhamente, tem vindo a cair no esquecimento, por nos colocar diante de um talento em bruto, incontrolável. Um talento puro e honesto, desvelado num palco que era púlpito, que não era um cenário, um escondedouro dos maquinismos que toldam as vedetas da tardo-modernidade.

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PEDRO MORAIS

  • Título português: Truman
  • Título original: “Truman”
  • Realização: Cesc Gay
  • Elenco: Ricardo Darín, Javier Cámara, Dolores Fonzi
  • Espanha, Argentina, 2015, 108 min
  • Estreia: 21 de Abril de 2016

“Ainda por cima o pavilhão dos cancerosos era o número treze”. Fosse uma homenagem a Soljenitsin, seria este o mote mais adequado à frieza do campo e à fealdade dos cenários. Uma frase crua e mordaz, a contrariar a trama da realidade, a entrançar um humor mórbido nas camas dos condenados. Mas Cesc Gay, que realiza este “Truman”, não é Soljenitsin, não partilha das mesmas dores e apresenta-nos de forma menos carregada um drama que, de modo eficaz, reflecte sobre a preparação da ausência, ensaia a despedida.

Quem se despede é Julián, doente canceroso a viver os últimos dias numa Madrid sempre tépida, independentemente da sazonalidade estival, sempre acolhedora. Quem o acompanha é Truman, um ‘bullmastiff’ calmo e corpulento, companheiro de aventuras, guardador de memórias que, mais do que rebanhos, secundam os habitantes citadinos. Quem o visita é Tomás, o velho amigo emigrado no Canadá, homem honesto e de poucas falas, mecenas do epitáfio. Juntos viverão uma última semana de aventuras, semana cerimonial, semana de adeus.

Julián recusa a obstinação terapêutica, recusa a encarniçada medicação e, assumindo as consequências da opção tomada, prepara a viagem. O amigo está em cena, a irmã fatigada não arreda pé, o palco que o acolheu centenas de vezes como actor abre-se para o último espectáculo.

“Truman” podia ser um filme sem muito para contar, um filme entre tantos outros, abandonado a um guião demasiado delicado, frágil na sustentação do aparato cénico. Contudo, Cesc Gay revela-se harmonioso na escolha dos cenários, da banda sonora, cuidadoso nos planos. Assim, “Truman” surge digno e seguro, um filme que resiste estoicamente ao lugar-comum mil vezes visto nos “dramas de Domingo à tarde”. As personagens demonstram a sua densidade psicológica a cada hesitação, a cada pausa da dura estrada que trilham. Truman olha-os do fundo da sala, sobre o tapete.

Ricardo Darín, com uma prestação interessante, encarna Julián e configura a força motriz do filme. Por sua vez, Javier Cámara e Dolores Fonzi – esta claramente em segundo plano – afiguram-se como o suporte dramático do guião. “Truman” desvela-se em ritmo lento e elegante, foge dos chavões melodramáticos, encontra-se nos pormenores, no companheirismo dos dois amigos, nos afectos do fiel ‘bullmastiff’. Uma curiosa surpresa do cinema espanhol.

Como surge a certa altura no “Adeus à Linguagem” de Godard, o cão é o único ser capaz de amar alguém mais do que se ama a si próprio…

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PEDRO MORAIS

  • Título original: “The 33”
  • Realização: Patricia Riggen
  • Elenco: Antonio Banderas, Rodrigo Santoro, Juliette Binoche
  • Chile, E.U.A., 2015, 127 min
  • Estreia: 14 de Abril de 2016

Tempos houve em que Hollywood reflectiu dobrada sobre si própria. Tempos houve em que a feira das vaidades suspendeu o olhar perante o reflexo deformado do espelho. Nesses tempos de bruma e esperança, Elizabeth Taylor surgia desfigurada a discutir com Richard Burton e nós, reféns do pesadelo, lutávamos pela vigília, para não ver a chaga aberta na carne da indústria.

O realismo simultaneamente desassombrado e assombroso pertence ao passado. Hoje impera o logro, o simulacro, a substituição da realidade por um sucedâneo insustentável, qual prótese. Hoje as histórias perderam profundidade e verve. As personagens envergam máscaras ocas, actuam maquinalmente. Hollywood surge feita uma gigantesca ‘machina machinarum’.

No filme que hoje nos ocupa, o artificialismo eleva-se ao extremo. “Os 33” pretende narrar a história de sobrevivência e superação dos mineiros chilenos que permaneceram soterrados durante sessenta e nove dias. Produção conjunta entre o Chile e os E.U.A., a ‘pax americana’ não tarda a impor-se através da deturpação da poderosa vivência dos mineiros.

Uma primeira nota para a escolha do Inglês ou, melhor, do Inglês com um ligeiro sotaque latino como língua desta película. Temos, então, uma história verídica, passada no Chile, com gente de expressão castelhana – nas suas múltiplas variantes – que nos é apresentada em inglês. O tom anedótico ou de ofensa gratuita não poderia ser mais evidente. Representa a submissão do Chile aos interesses comerciais americanos. A grosseria recrudesce na escolha de actores cuja língua-mãe radica no latim, como sejam Antonio Banderas, Rodrigo Santoro ou Juliette Binoche.

A selecção dos actores constitui outro ponto problemático. Abissalmente distinto dos reais intervenientes, o elenco de “Os 33” reflecte a aversão das produções de massa à realidade. Os rostos mais humanos, sujos e feios dos verdadeiros mineiros chilenos não servem aos interesses dos grandes estúdios. As suas palavras ficam curtas nas mangas, os seus corpos são avessos às angulares e, consequentemente, a sua história tem de ser matizada, condensada, processada. Urge que sejam substituídos por espécimes mais belos, tonificados e sem qualquer densidade psicológica.

Desprovidos de ânimo, os mineiros surgem como fracos de espírito permeáveis aos discursos motivacionais de Antonio Banderas. A câmara revela-se refractária ao plano aproximado, evita os mineiros, serve-se de subterfúgios, delírios mal executados, castelos de areia. E Rodrigo Santoro? O jovem ministro que manifesta a sua “consciência social” ao trocar o impecável fato por um igualmente impecável pólo vermelho e que revela uma falta de profundidade dramática diga de brado, é a cereja no topo do bolo.

Naqueles Idos de Março, Elizabeth Taylor não tinha medo de Virginia Woolf, não tinha medo dos números e estilhaçava Hollywood contra a parede da pequena residência do ‘campus’ universitário…

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PAULO FERRERO

  • Salve, César!
  • Título original: Hail, Caesar!
  • De: Ethan Coen, Joel Coen
  • Com: Channing Tatum, Scarlett Johansson, Tilda Swinton, Ralph Fiennes, Josh Brolin, Frances McDormand, George Clooney

“Salve, César!” (não devia ser Avé?) é mais uma das muitas sátiras feitas a Hollywood pela própria, de que Mel Brooks foi um dos últimos expoentes, e é mais uma tentativa (semi-gorada) dos manos Coen em adquirirem galões num território, as comédias – por sinal, todas com George Clooney –, onde costumam ser alucinados (sem que isso signifique necessariamente ‘screwball comedy’…) mas atabalhoados, o que colide frontalmente com o vastíssimo palmarés obtido nos seus filmes sérios e incontornavelmente sangrentos, ainda que todos, mas todos, tenham sempre aquela pitada de humor corrosivo e a propósito.

E se à primeira tentativa com «Irmão, Onde Estás?» (2000), uma ‘charge’ aos filmes de fugas de prisão, houve desastre, e à segunda, “Crueldade Intolerável” (2003), o engulho foi logo à primeira comparação com a dupla original de antanho, Grant (C) & Hepburn (K), que lhe servira de inspiração, à terceira o que fica é uma amálgama de episódios desgarrados, alguns, outros metidos a martelo, quem sabe se cortados na pós-produção, de que o da Sra. Joel Coen, Frances McDormand, é sintomático, apesar de no caso ser um episódio de morrer a rir.

Talvez que o filme fosse melhor se satirizasse o burlesco e os filmes religiosos do Mudo, ou os anos 30-40 de Busby Berkely & Cia., e não tanto as produções dos anos 50, pois aquele legionário de Clooney tem muito mais de Robert Taylor e de Zero Mostel do que propriamente de Kirk Douglas, convenhamos. Mas compreende-se que a ameaça-fobia comunista (e como são geniais as cenas com os argumentistas-conspirativos) e os filmes da “sereia” Esther Williams ou os do sapateado de Gene Kelly (Channing Tatum está a tornar-se um caso sério de versatilidade) tenham sido uma tentação irresistível para Ethan e Joel Coen.

Josh Brolin leva muito a sério tudo em que entra e aqui não foge à regra. Mas Clooney, que leva quase tudo a reinar, mete o filme no bolso, ainda que as chapadas que leva daquele sejam mais que merecidas. Scarlett continua a ser Scarlett e o resto é um filme com excessivas referências cinéfilas e argumento a menos.

Mas eram assim os filmes de Dick Powell e Myrna Loy e entretinham e continuam a entreter bastante. Enquanto isso, os estúdios continuam e a Lockheed já se foi.

CAPA

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