Livros e Revistas

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JOSÉ ALMEIDA

O modernismo português parece viver a sua segunda vida. Ocultado durante décadas devido a inconvenientes e constrangimentos político-filosóficos levantados pelos seus principais interlocutores e protagonistas, o nosso modernismo parece estar hoje a ganhar um novo fulgor. Talvez este seja um sinal do redespertar para o “ethos” português através do reencontro com a nossa tradição.

Fundada em 1915, a revista Orpheu constituiu uma curta mas importante aventura editorial dentro do universo modernista de inícios do século XX. Pensada enquanto projecto luso-brasileiro, esta revista teve como directores Luís de Montalvor, em Portugal, e Ronald de Carvalho, no Brasil, ficando o lugar de editor reservado a António Ferro – essa figura ímpar da cultura portuguesa que viria a tornar-se no inexcedível dinamizador cultural do Estado Novo. Apesar de terem sido publicados apenas dois números daquela revista, tendo o terceiro sido abandonado por questões ligadas à suposta falta de financiamento, Orpheu deixou uma marca indelével na cultura portuguesa. Para a história ficaram também muitos dos nomes que integraram esta publicação como, por exemplo: Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Raul Leal, Santa-Rita Pintor, Mário de Sá-Carneiro, Alfredo Guisado, entre outros.

“Orpheu e o Modernismo Português” é o título de uma obra ensaística colectiva, organizada por Paulo Samuel na sequência de um colóquio promovido pela Fundação Eng. António de Almeida a 19 de Março de 2015. Este encontro foi realizado como uma extensão do Congresso Internacional “100 Orpheu”, promovido pelo CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), permitindo a descentralização das comemorações do primeiro centenário da publicação da revista Orpheu, incluindo desta forma a cidade do Porto.

Este volume reúne uma série de artigos em torno desta revista, bem como da sua influência no contexto do modernismo português e brasileiro. Entre os diversos colaboradores cujo nome perfila no sumário desta obra podemos encontrar Paulo Samuel, Ernesto Rodrigues, Fernando Aguiar-Branco, Arnaldo Saraiva, Isabel Ponce de Leão, Salvato Trigo, Eduardo Paz Barroso, António Apolinário Lourenço, Maria de Fátima Lambert, entre outros.

Conforme observa o organizador deste volume, a natureza das conferências apresentadas nesse colóquio exigia a publicação das mesmas, tanto pela qualidade literária, como pelo importante contributo que aportam aos diversos campos do conhecimento, desde a História, à estética, poesia ou literatura. De resto, a Fundação Eng. António de Almeida tem, ao longo das últimas décadas, revelado uma apurada sensibilidade pelo modo como trata as celebrações das efemérides dos momentos altos da nossa História e cultura. Seja através da organização e promoção de encontros, ou através do seu importante plano editorial – no qual se enquadra a publicação deste livro –, colocando-se assim num lugar cimeiro entre as instituições portuguesas que apoiam e promovem a cultura nacional. De resto, a importante marginália e compilação iconográfica anexa a este volume são de tudo isso uma prova mais do que firmada.

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JOSÉ ALMEIDA

Iniciada em 1415, com a conquista de Ceuta, a Expansão Portuguesa marcou a maturidade política do Reino de Portugal e o início de uma Idade de Ouro que projectou a superioridade da civilização europeia em todo o mundo. Um período inigualável da História, ao longo do qual a acção dos portugueses foi, absolutamente, determinante e precursora.

Se associarmos o aparecimento da moderna historiografia portuguesa ao nascimento de Alexandre Herculano, então podemos falar em, aproximadamente, dois séculos de investigação sistemática em História. Ao longo deste período, por inúmeras razões e circunstâncias, as nossas duas primeiras dinastias foram quase sempre privilegiadas nos trabalhos dos historiadores nacionais. O período da Expansão e Descobrimentos Portugueses, uma época particularmente gloriosa da nossa História, associada à maravilhosa gesta eternizada em “Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões, serviu como uma incontornável referência político-identitária, afirmando a importância de Portugal na Europa e no mundo.

Publicado no início deste ano pelo Círculo de Leitores, o “Dicionário da Expansão Portuguesa” (capa dura, 2 volumes, 79,96 euros) aborda esses feitos históricos de uma forma descomprometida com o “politicamente correcto”. Alheio aos lugares-comuns das ideologias canhotas que enfermam os nossos ciclos universitários, esta obra não escamoteia as terminologias enraizadas na nossa tradição historiográfica, mantendo-se fiel a expressões clássicas como “Expansão” e “Descobrimentos”, em detrimento de outras que hoje nos procuram impor como, por exemplo, o ridículo “achamento”.

Dirigido por Francisco Contente Domingues, Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, este dicionário divide-se em dois volumes, cujos conteúdos se encontram cronologicamente balizados entre 1415 e 1600, isto é, entre a  conquista portuguesa de Ceuta e a criação das primeiras companhias comerciais europeias. No total, são 390 entradas, redigidas por 79 investigadores, ligados a mais de 30 instituições universitárias e centros de investigação, nacionais e estrangeiros.

Subdividido em 21 temas, este “Dicionário da Expansão Portuguesa” compila artigos de base – mais longos e generalistas –, bem como outros mais específicos, subordinados a biografias, locais, produtos, entre outros. Deste modo, a organização e os conteúdos destes volumes permitem-nos levar a cabo dois tipos de leituras. A consulta específica de um assunto, ou aspecto relevante para a compreensão de um determinado facto ou acontecimento histórico; ou a leitura de um conjunto de artigos que fazem deste dicionário uma interessante obra colectiva subordinada à Expansão e Descobrimentos Portugueses.

Numa época em que muitos crêem na inutilidade dos livros, dicionários e enciclopédias publicados em formato físico, o novo “Dicionário da Expansão Portuguesa” revela-nos o porquê de não devermos deixar-nos infectar pela tirania da técnica e do progresso. A dignidade com que esta obra nos é apresentada, tanto na sua forma como conteúdo, leva-nos a recomendá-la a qualquer biblioteca, investigador, ou entusiasta da História da nossa Expansão.

Como pontos negativos desta publicação, não podíamos deixar de sublinhar dois aspectos que, no fundo, não são mais do que duas chamadas de atenção: a aplicação do AO90; assim como o excesso de bibliografia estrangeira, revelando um preocupante grau de desinteresse por parte dos investigadores face àquilo que tem sido a produção historiográfica nacional.

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JOSÉ ALMEIDA

O espírito manifesta-se pela estética, pelo que as obras de um regime procuram através desta expressar as linhas de força de uma doutrina ou ideologia. Este esforço deve, no entanto, acompanhar a identidade e tradição do Povo que empreende essa missão edificadora e, simultaneamente, identificadora de uma época. Cassiano Branco foi, nesse sentido, um obreiro e timoneiro da expressão estética de um Portugal cujo espírito se pautava pelo enlace entre tradição e modernismo.

Publicado pela Caleidoscópio, “Cassiano Branco 1897-1970. Arquitectura e artifício” (capa dura, 600 páginas, 39,75 euros) é o resultado da investigação de doutoramento de Paulo Tormenta Pinto. Um livro extenso que aborda exaustivamente a obra do arquitecto português, oferecendo ao leitor um vasto leque de documentos – projectos, desenhos, fotografias e outros elementos –, que permitem aprofundar em pormenor e rigor certos aspectos do seu legado. Uma publicação que honra a arquitectura, mas defrauda a figura de Cassiano Branco, aqui transformado numa espécie de Albert Speer, ou seja, num maquiavélico traidor que constrói uma carreira, em grande parte, às custas de obras públicas, mas que na hora da verdade se apresenta ao público como uma vítima opositora ao regime que serviu. Facto que, como sabemos, está longe de ser assim tão linear.

Nascido em Lisboa, em 1897, Cassiano Branco tornou-se um dos nomes cimeiros da arquitectura portuguesa da primeira metade do século XX. A sua obra marcou não só o espaço público e privado de Portugal, como deixou também vestígios do seu legado na antiga província ultramarina de Angola. Contrariamente à opinião de certos cultores da desinformação histórica, a traça modernista que caracterizava as suas obras não chocava com o espírito e imaginário do Estado Novo. Pelo contrário, ela integrava-se na “Política de Espírito” implantada por António Ferro logo nos primeiros anos da nossa ditadura. Deste modo, contrariamente ao que é sugerido pelo autor deste livro e a julgar pelo número de encomendas estatais que recebeu, Cassiano Branco foi mais arquitecto do regime do que o próprio Raul Lino. Aliás, a ele se deve o projecto do plano urbanístico da Exposição do Mundo Português, bem como outras obras emblemáticas do Estado Novo, como é o caso do célebre parque didáctico-pedagógico de Coimbra, carinhosamente baptizado como Portugal dos Pequenitos.

Em “Beleza”, o filósofo britânico Roger Scruton contrapõe-se ao arquitecto Louis Sullivan, acusando-o de tratar a beleza como um “subproduto da funcionalidade e não como o objectivo determinante”. Ora, este não era o caso de Cassiano Branco que, ensaiando linhas arrojadas e modernistas, não deixava de integrar as suas criações dentro do espírito nacional, de acordo com a expressão estética e programática do Portugal daquele tempo. Podemos facilmente compreender esse aspecto das suas obras ao analisarmos alguns dos edifícios que projectou para espaços nobres de várias localidades como, por exemplo: o Teatro Éden, ou o Hotel Vitória, em Lisboa; o Coliseu do Porto, ou o Grande Hotel das Termas de Luso.

Redigido em bom português, pré-AO90, este livro peca pela natureza do normativismo político que subjaz à caracterização do nosso arquitecto e da época em que viveu. Não obstante esse facto, bem como uma certa ligeireza na abordagem do confronto a outros aspectos ligados à História de Portugal, a profundidade da análise à obra de Cassiano Branco levada a cabo neste trabalho torna-o um importante marco para a revitalização da memória da arquitectura portuguesa do século XX.

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HUGO NAVARRO

Deambular por uma mega-livraria em Portugal pode transformar-se numa viagem aterradora pelo mundo da idiotia e do vazio. Longe do seu livreiro habitual, o repórter precisou de comprar um livro e teve de passar pela dolorosa experiência…

São purgatórios de uma sociedade acamada com insuficiência mental. É certo que o analfabetismo, em Portugal, está reduzido a menos de cinco por cento da população. Mas quando se sabe que entre os “alfabetizados” estão 99,7% dos portugueses que compõem a faixa etária dos 15 aos 24 anos, e conhecendo-os nós de ginjeira, a palavra “alfabetização” ganha um triste significado. É para eles que estão abertas as ‘megastores’ a que me refiro.

Ao entrar uma pessoa nessas pseudo-livrarias, parece ter havido engano no número da porta: não há livros à vista. As primeiras salas estão pejadas de equipamentos electrónicos, acessórios informáticos, brinquedos cibernéticos, discos, capas para telemóveis, aipodes e ainãopodes, óculos de sol, máquinas de filmar e bugigangas várias. Em papel, mesmo, só um escaparate de revistas frívolas, que por comparação chega a parecer “intelectual”.

Procurando bem, entre o ‘coffee-shop’ e a secção infantil, é possível acabar por encontrar estantes com livros. Mas, aqui, o destaque vai antes para as bancas de “promoções” – um mar de capas iguais umas às outras, de prosas de cordel embrulhadas em couché de fantasia, de autores cuja existência tem a duração dos cinco minutos pagos pela editora para ali os ter expostos, em fugaz glória e nenhum proveito.

As estantes, essas, são apenas armazéns mais baratos, com uma primeira fiada de livros a tapar uma segunda, à qual só um obstinado conseguirá aceder.

Nos seus altares, os sucessos do momento. Em primeiro lugar no topo-dez, uma coisa intitulada “A Rapariga no Comboio”, enredo de mistério incluindo violência doméstica, álcool e drogas, assinado por Paula Hawkins, uma rapariga que começou a fazer pela vida como jornalista de temas financeiros.

Em segundo lugar surge “Viver Depois de Ti”, uma lamechice sem nexo da autoria de outra moça, Jojo Moyes, que depois de ter trabalhado para uma empresa de táxis e um clube de férias, também decidiu ser jornalista. Em terceiro no topo, um português, também jornalista: Pedro Chagas Freitas, autor de “Prometo Perder”, uma noveleta semi-erótica com a devida promoção no livro das caras (mais conhecido por ‘facebook’), onde o prosador surge com ar de sábio com óculos.

Vêm depois, na lista dos “livros” mais vendidos, a escultural Bruna Lombardi (sim, também ela sabe escrever) com o seu “Jogo da Felicidade” e José Rodrigues dos Santos, idem, com o enigmático “Pavilhão Púrpura” (e prometo que nunca tentarei desvendar tal enigma).

Passaram cinco minutos desde que entrei – e já corro para a saída. Não sei se é falta de ar, se é uma náusea funda. E (Deus Nosso Senhor me perdoe) até os brinquedos cibernéticos me parecem mais inteligentes!

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diaboJOSÉ ALMEIDA

A arte marginal e os círculos artísticos “underground” constituem uma parte importante do imaginário cultural das sociedades urbanas contemporâneas. Nestes meios, tanto se edificam pontes entre subculturas distintas, como se afirma a própria identidade de determinados grupos. De resto, esta é uma realidade bastante presente no mundo da música onde, tantas vezes, perdemos o rumo da História em virtude da natureza efémera dos fenómenos que a compõem. “Quadro de Honra” representa uma compilação de relatos recolhidos na primeira pessoa, visando preservar uma parte significativa dessas memórias.

Importa, antes de tudo, identificarmos o que classificamos aqui de “underground” e “música alternativa”. “Quadro de Honra”, obra colectiva assinada pela revista “Loud!”, publicada pela Saída de Emergência (brochado, 368 páginas, 16,90 euros), compila cerca de 30 entrevistas com alguns dos nomes mais emblemáticos da música pesada nacional. Estamos perante um repositório de memórias que nos remete para mais de três décadas de sonoridades extremas que vão do punk ao hardcore e do rock ao metal, aqui entendido nos seus variadíssimos subgéneros. Os colectivos musicais cujas entrevistas compõem esta obra são os protagonistas de uma aventura fantástica e revolucionária, desafiadora do gosto e mercados dominantes.

Ao longo de dezenas de edições, a revista “Loud!” – referência em Portugal em matéria de jornalismo musical votado às sonoridades mais extremas –, foi efectuando um trabalho de arqueologia musical sob a forma de entrevistas. Levando a cabo um processo de revitalização da memória que passava pela evocação de alguns dos discos mais marcantes da música pesada nacional, esta publicação periódica foi reunindo nas suas páginas os relatos obtidos juntos dos músicos intervenientes neste capítulo menos conhecido da História da Música em Portugal.

De clássicos como Mão Morta, Mata Ratos, Peste & Sida, Censurados, ou Tarantula, passando por bandas como Moonspell, Heavenwood, Bizarra Locomotiva, Sacred Sin ou Ramp, não deixam de aparecer entre os testemunhos recolhidos outros nomes menos conhecidos do grande público como, por exemplo, Decayed, Thormentor, Sirius, Corpus Christi, Desire, Morbid Death, In Tha Umbra, Inhuman, Genocide, Grog, Holocausto Canibal, entre outros.

Conforme tão bem descreve o escritor José Luís Peixoto no prefácio a esta obra: “Chegará um dia em que tudo o que constitui este instante será passado”. Assim, podemos afirmar que “Quadro de Honra” representa o testemunho de um certo passado ainda bastante presente. Um repositório de ecos de glórias passadas que insistem em permanecer vivas, por via de um diálogo perene entre um passado que se afirma e um presente que se esfuma.

Escrito em bom português pré-AO90 – escolha que muito louvámos –, este livro encontra-se enriquecido pela parafernália iconográfica que o documenta, da qual não poderíamos deixar de destacar as ilustrações de Pedro Silva.

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diaboJOSÉ ALMEIDA

A valorização da Filosofia Portuguesa pressupõe um aprofundamento do conhecimento no âmbito da nossa tradição filosófica, histórica, cultural e espiritual. A recente publicação do “Dicionário Crítico de Filosofia Portuguesa” abre caminho à reflexão sobre autores e temas ligados a esse nosso imenso património, construído ao longo de uma linha temporal que vai dos tempos pré-fundacionais até aos nossos dias.

Em 1943 Álvaro Ribeiro publicou “O problema da Filosofia Portuguesa”. Uma obra revolucionária que, derrubando os preconceitos de todos os que negavam a existência de um pensamento próprio em Portugal, analisou a situação do pensamento filosófico português, da Idade Moderna até à contemporaneidade. Detectando a origem da impureza do nosso pensamento em aspectos como a desatenção face ao logos, a valorização dos factos, ou a cousificação da Filosofia através do abandono do cogito em favor das coisas, Álvaro Ribeiro concluiu que os portugueses, contrariamente ao que muitos ainda hoje defendem, não são um povo com falta de vocação filosófica. Para o filósofo portuense, em determinado momento histórico, os portugueses abandonaram a sua via autónoma de “pensamento pensante” reduzindo, entre nós, a Filosofia à mera importação de “pensamento pensado” e à divulgação de culturas filosóficas, nomeadamente, através da História da Filosofia.

A tese alvarina contemplou as excepções a esta realidade que, de Sampaio Bruno até Leonardo Coimbra, passando por Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, mantiveram viva a nossa tradição filosófica, não materialista e anti-positivista. Uma corrente que viria a ser recuperada na sua plenitude com o movimento da Filosofia Portuguesa. O “Dicionário Crítico de Filosofia Portuguesa” (capa dura, 812 páginas, 29,90 euros), publicado pela Temas e Debates / Círculo de Leitores, integra-se num crescente movimento de valorização do nosso pensamento, procurando alicerçar os conhecimentos e incitar à reflexão todos os interessados por este aspecto tão pertinente e definidor da nossa cultura.

O próprio nome desta obra – “Dicionário Crítico de Filosofia Portuguesa” – representa uma conquista sobre o “status quo”, em geral, hostil face à evidente existência de uma Filosofia Portuguesa. Ao não ser chamada de “Dicionário Crítico de Filosofia em Portugal”, esta obra, coordenada por Maria de Lourdes Sirgado Ganho, professora da Universidade Católica Portuguesa, assume em termos institucionais a existência de uma corrente de pensamento português. O prefixo “Crítico” que consta no título desta obra será, no entanto, um mero elemento de distinção entre esta e uma outra obra – o “Dicionário de Filosofia Portuguesa”, da autoria de Pinharanda Gomes.

De resto, importa sublinhar o nome de Pinharanda Gomes, não só pelo facto de ser o principal colaborador deste dicionário, mas também por ter sido o pai deste projecto. Década e meia após terem iniciado institucionalmente os trabalhos que conduziram à realização deste volume, a obra em destaque apresenta-se já como uma referência de importância inquestionável para o estudo da Filosofia Portuguesa.

Se a Filosofia constitui, tal como na antiga Grécia, uma expressão de maturidade cultural, também Portugal ao longo de quase um milénio alcançou e desenvolveu, seguramente, traços específicos do seu pensamento filosófico. Um património imaterial riquíssimo cuja influência, aquém e além-fronteiras, está hoje ainda longe de ser conhecido e reconhecido pelo grande público, não obstante a sua importância e influência latentes na civilização ocidental e no mundo.

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diaboJOSÉ ALMEIDA

Os estudos comparatistas há muito que acompanham os trabalhos de investigação sobre Fernando Pessoa. O crescente interesse internacional no autor português conduziu, obrigatoriamente, ao cruzamento do seu legado com o de outros nomes de igual modo importantes para a poesia, literatura e pensamento contemporâneos. Ao nível do pensamento filosófico, Friedrich Nietzsche tem sido uma das figuras que, de forma mais sistemática, tem sido estudada na sua relação de influência com o vate português.

Publicado pela Tinta-da-China, o volume “Nietzsche e Pessoa. Ensaios” (brochado, 446 páginas, 16,20 euros) compila uma série de textos apresentados em vários colóquios e conferências, fazendo uma aproximação entre o nosso poeta-filósofo e o filósofo alemão de espírito trágico-poético. Organizada por Bartholomew Ryan, Marta Faustino e Antonio Cardiello, esta obra procura acrescentar um novo contributo à análise da influência nietzschiana na obra de Fernando Pessoa, nomeadamente, ao nível da sua localização no mapa do pensamento ocidental europeu contemporâneo.

Dividida em três grandes partes, “Raízes, Referências e Conversas”, “Entre Filosofia e Poesia” e “A Estética da Pluralidade”, este livro conta com um artigo de abertura da autoria de Eduardo Lourenço, intitulado “Nietzsche e Pessoa”. Um texto originalmente publicado em francês, na obra “Fernando Pessoa: Roi de notre Bavière” (1988), e aqui integrado pelo seu contributo seminal no âmbito dos estudos sobre a recepção da obra de Nietzsche em Portugal. O volume encerra com “Nietzsche e Pessoa: doze textos”, um artigo de Jerónimo Pizarro que, ao seu estilo, analisa alguns dos problemas resultantes da transcrição de textos localizados no espólio de Fernando Pessoa.

Entre as várias temáticas abordadas no cruzamento dos mundos de ambos os autores, estes ensaios levantam questões acerca da consciência, pensamento, cosmopolitismo, fingimento, estética não-aristotélica, neopaganismo, mitologia criativa, pluralidade do sujeito, metafísica das sensações, niilismo, conceito do nada, a relação entre a criatividade e a loucura, bem como a crise geral da modernidade. Assuntos caros e transversais a ambos os pensadores, aqui abordados de forma bastante livre.

Não obstante a importância deste tipo de estudos, auxiliadores no enquadramento macrocósmico da obra de Fernando Pessoa, devemos não perder o Norte quanto à essência do homem e da obra. Nesse sentido, alguns dos contributos deste livro incorrem em certos erros, porventura perigosos, ao propositadamente descontextualizarem certas ideias ou passagens, extrapolando bem para lá do aceitável. Por mais pertinentes que sejam os estudos comparatistas, hermenêutico-documentais e filológicos, não podemos cair no erro ou tentação de desviarmos as atenções daquilo que é fundamental para o que é acessório ou até especulativo.

Afinal, para conhecermos Fernando Pessoa importa, antes de tudo, conhecermos Portugal e a sua tradição, pois foi nessa que o poeta-filósofo se inscreveu espiritualmente. Dado estar prevista uma edição em língua inglesa desta obra, a ser publicada já no próximo ano, torna-se ainda mais pertinente que este ponto seja tido em linha de conta, não vá o universo pessoano ser, definitivamente, corrompido e transformado num mero reflexo do pensamento e opinião dos seus “especialistas” e “exegetas”.

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diaboJOSÉ ALMEIDA

Tobias Barreto, filósofo, poeta, crítico e jurista brasileiro, membro da célebre Escola do Recife, tem vindo a ser o patrono de uma série de colóquios promovidos pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, no âmbito do pensamento jurídico-filosófico. Esta obra, publicada em Janeiro do presente ano, numa parceria entre a Fundação Lusíada, a revista Nova Águia, o MIL e o Instituto de Filosofia Luso-Brasileiro, reúne os textos das comunicações apresentadas no X Colóquio Tobias Barreto, decorrido em Lisboa entre 17 e 21 de Novembro de 2014.

“A Filosofia Jurídica Luso-Brasileira do Século XIX” propõe um olhar sobre os rumos do pensamento filosófico de oitocentos, analisando áreas como o utilitarismo jurídico, jusnaturalismo sensista, racionalismo e krausismo jurídicos, tradição escolástica, o monismo culturalista da Escola do Recife, bem como o cientismo, naturalismo e positivismo na concepção do Direito.

A importância dos contributos apresentados neste volume reflectem-se no modo como conciliam as questões jurídico-filosóficas com a análise histórica, permitindo ao leitor lançar um olhar profundo sobre o espírito que norteava as instituições portuguesas e brasileiras durante grande parte do século XIX.

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diaboJOSÉ ALMEIDA

Recentemente publicado, numa parceria entre o Labirinto de Letras Editores e a Fundação António Quadros Edições, o livro “António Quadros e António Telmo, Epistolário e Estudos Complementares” presta um valiosíssimo contributo para o estudo biográfico de dois dos mais influentes discípulos de Álvaro Ribeiro e José Marinho, bem como para o desvendamento de algumas questões relacionadas com o Grupo da Filosofia Portuguesa.

Fruto de um trabalho de hermenêutica e exegese protagonizado por Mafalda Ferro, Rui Lopo e Pedro Martins, este volume compila, aproximadamente, três décadas de trocas epistolares entre os autores de “Portugal, Razão e Mistério” e de “História Secreta de Portugal”. Lado a lado com Pinharanda Gomes, António Braz Teixeira, ou Orlando Vitorino, António Quadros e António Telmo representam duas das figuras mais influentes do Grupo da Filosofia Portuguesa. As suas obras, essencialmente dedicadas a Portugal e a temáticas filosóficas, culturais, históricas e esotéricas, têm vindo a influenciar várias gerações de portugueses, de forma directa ou indirecta.

Tal como aconteceu com a publicação do volume da correspondência entre Álvaro Ribeiro e Delfim Santos, editado pela Fundação Lusíada em 2001, este epistolário de António Quadros e António Telmo reflecte também um profundo olhar crítico sobre Portugal e o seu lugar no mundo. As análises de ambos os interlocutores demonstram as suas preocupações e angústias, mas indicam também caminhos de esperança, sugerindo soluções e vivificando sonhos de um futuro maior há muito profetizado para Portugal.

As páginas deste livro testemunham, para além da amizade destes dois pensadores, a urbanidade com que trocavam os pareceres das leituras das suas obras, sem qualquer tipo de ocultação face às diferenças de pensamento e de posicionamento relativas a determinadas matérias. Assim, podemos até sublinhar o modo como cada um colocava a tónica nessas mesmas diferenças, abraçando-as como complementos para uma perspectivação integral de um conhecimento que ambos procuravam.

Neste trabalho são ainda dignos de nota os contributos de António Carlos Carvalho e João Ferreira, outro nome histórico da Filosofia Portuguesa, autor da obra seminal “Existência e Fundamentação Geral do Problema da Filosofia Portuguesa”. O primeiro abre o livro com um prefácio intitulado “Um Encontro de Almas”, o segundo encerra-o com um posfácio sobre “As Cartas de António Quadros e António Telmo”. O levantamento da correspondência compilada neste livro é apresentado com bastantes notas e comentários permitindo, até aos leitores menos familiarizados com alguns dos nomes ou problemáticas citadas, uma total compreensão e acompanhamento dos assuntos tratados.

Para além de estar redigido em bom português, pré-AO90, este livro de quase 300 páginas conserva ainda as grafias utilizadas por ambos os autores nas suas trocas epistolares. Obra de importância histórica, peca apenas pela falta de um índice onomástico que, face ao vasto conjunto de nomes e matérias tratados, constituiria por certo um importante instrumento para futuras consultas sistemáticas por parte de investigadores e estudiosos que, certamente, encontrarão neste livro um importante manancial de fontes e informações relativas à cultura portuguesa da segunda metade do século XX.

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diaboDUARTE BRANQUINHO

As “Cartas a um jovem poeta”, de Rainer Maria Rilke, são uma obra intemporal cujo nascimento não foi previsto pelo autor. Felizmente, as missivas enviadas ao jovem Franz Xaver Kappus foram publicadas por este já depois da morte do poeta de “As elegias de Duino” e tornaram-se uma referência. É pois de saudar uma nova edição da tradução feita por Vasco Graça Moura, que também prefaciou e anotou, pela Modo de Ler, bem ilustrada com fotografias e retratos de Rilke.

Em 1902, Franz Xaver Kappus estava na Academia Militar em Wiener Neustadt a ler os poemas de Rainer Maria Rilke, quando soube pelo capelão da Academia que Rilke havia sido aluno da Escola Militar até os pais o terem mudado para outro estabelecimento de ensino devido à sua falta de resistência física. Kappus, que duvidada da sua vocação militar e aspirava a ser poeta, decidiu que Rilke era a pessoa indicada para pedir conselhos literários e não só.

Percebemos pela primeira carta, escrita por Rilke em Paris, no dia 17 de Fevereiro de 1903, que Kappus lhe enviou os seus versos, pedindo-lhe opinião. Na resposta de Rilke antevê-se uma série de conselhos e reflexões sobre a vida que ultrapassam a mera crítica literária, exercício prontamente recusado. Diz o poeta: “Pergunta-me se os seus versos são bons. É a mim que pergunta. Já antes perguntou a outros. Envia-os às revistas. Compara-os com outros poemas e fica inquieto se algumas redacções recusam as suas tentativas. Ora bem (já que me autorizou a aconselhá-lo), peço-lhe que se deixe de tudo isso. O senhor olha para fora e é exactamente o que não deveria fazer agora. Ninguém pode dar-lhe conselhos ou ajudá-lo, ninguém. Há um único meio. Entre dentro de si. Procure o motivo que o faz escrever; examine se tem raízes até ao lugar mais fundo do seu coração, confesse a si mesmo se viria a morrer no caso de escrever lhe ser vedado. Isto antes de mais nada: pergunte-se na hora mais calada da sua noite: tenho de escrever? Escave em si mesmo em busca de uma resposta profunda. E se esta soar afirmativamente, se o senhor tiver de enfrentar esta questão séria com um forte e simples ‘Sim, tenho’, então construa a sua vida em função dessa necessidade; a sua vida terá de ser um sinal e um testemunho desse impulso até nas horas mais indiferentes e insignificantes. Então aproxime-se da Natureza. Então tente dizer, como se fosse o primeiro homem, o que vê e vive e ama e perde.”

A partir desta primeira resposta, inicia-se um diálogo espaçado no tempo e variado no espaço, já que Rilke escreve de diferentes cidades, dadas as suas viagens. Mas é um diálogo do qual temos que imaginar, pelo sentido, uma das partes. Como afirma Vasco Graça Moura no prefácio, “As ‘cartas a um jovem poeta’ não são, pois, uma obra escrita e estruturada pelo seu autor com vista à edição em livro. São uma colectânea de peças irregularmente intervaladas no tempo, organizadas por Franz Xaver Kappus muito depois de as ter recebido. E Kappus viveu até 1966, sem nunca ter esclarecido que outras cartas lhe teriam sido enviadas pelo autor das ‘Elegias de Duino’. Face aos critérios que, hoje em dia, costumam orientar a publicação póstuma das correspondências de escritores, teria sido bem interessante conhecermos não só as restantes cartas de Rilke, mas também as que Kappus lhe enviou…”

É sem dúvida uma questão pertinente e que nos aviva a curiosidade. No entanto, para além do interesse natural de uma edição completa (hoje impossível) para os estudos literários, temos que reconhecer que as “Cartas a um jovem poeta” se tornaram uma obra de Rilke, póstuma e imprevista, à qual não podemos ficar indiferentes.

Por fim, há uma nota especial a fazer à excelente tradução de Graça Moura, que traduz ‘Sehnsucht’, o desejo ou anseio que significa também uma falta imensa, por ‘Saudade’, esse sentimento tão português que em Rilke faz todo o sentido.

CAPA

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