HENRIQUE SILVEIRA – Crítico
Fundado por Dona Amélia no picadeiro real, edifício belíssimo com decorações e pinturas notáveis, o Museu Nacional dos Coches albergava uma colecção única de coches históricos de monarcas, nobres e dos serviços da coroa.

Embora exíguo, o edifício tinha características de nobreza e aparato que se coadunavam com a colecção exibida. No outro lado da rua, na esquina oposta, em Belém, situavam-se os belos edifícios das oficinas gerais do Exército Português.

Foi entendido pelo governo Santana Lopes que os dinheiros resultantes do Casino de Lisboa fossem utilizados para realizar um novo edifício para este museu. Algo surpreendente, se notarmos que não é, certamente, o antigo picadeiro real o mais desajustado edifício para a colecção que lá se encontrava. O Museu da Música, colocado numa estação de metropolitano, o decadente edifício do conservatório, também ornado de belíssimas pinturas e cujo salão nobre, a par de outras instalações, está a cair de podre, careceriam de obras muito mais prementes. Foram gastos quarenta milhões de euros para a destruição das oficinas do Exército e construção do edifício novo do Museu dos Coches.

O projecto foi do arquitecto brasileiro Paulo Mendes da Rocha, prémio Pritzker e doutor honoris causa no Instituto Superior Técnico com título conferido pela Universidade de Lisboa. O novel Museu abriu este fim-de-semana. O projecto é um objecto, um objecto de quarenta milhões, uma afirmação do ego do arquitecto, uma espécie de escultura exterior, uma conjugação de efeitos de luz e de espelhos de água em “monumentais” entradas e uma espécie de armazém, um enorme vazio pós-pós moderno, uma casca de betão desossado onde se encaixam as carroças. Nada no exterior indica a função, nada no interior dignifica a colecção. Toda a construção é uma afirmação contra o local, é um objecto estranho, entre o betão e o esbranquiçado, que depressa empalidecerá dando lugar a um monolítico mamarracho cinzento.

O interior poderia ser, em muitas das suas naves, um armazém de batatas de uma qualquer grande superfície comercial. A museologia é inexistente, o espaço é um amontoado de carros e carroças sem informação. Umas folhas A4 desgarradas e quase ilegíveis, de pequenas, dão breves indicações sobre uma minoria dos coches presentes. Não existe uma teleologia, não existe interacção ou interactividade. Trata-se de um armazém de carroças amontoadas, algo incompreensível no século XXI, pior do que existiria há mais de cem anos quando o museu foi fundado.

Percebe-se que o armazém de carroças tinha de abrir antes das eleições, sem ser na campanha eleitoral oficial, à pressa, sem ideias. Depois de concluído em 2012 e depois de ter estado fechado mais de três anos, surge agora a ideia peregrina do insignificante secretário da cultura de abrir uma obra que não é sua e da qual se mostrou muito crítico, de abrir o museu sem museografia! Fica o mamarracho, contra a cidade.

O esbanjamento é surreal, destruíram-se os edifícios das oficinas do Exército, que remodeladas e reconvertidas por um arquitecto “anti-objecto” poderiam ter dado à cidade um espaço de convivialidade da cidade com o Tejo e os coches que, noutros tempos, serviram para transpor as distâncias entre os homens e países.

Fica também a lamentável nota de José Alberto Carvalho que, junto ao landau de triste memória em que Dom Carlos e Dom Luiz Filipe foram assassinados, leu o testamento do assassino Buíça, como se o Museu não fosse um lídimo e excelente fruto da Monarquia Portuguesa, provavelmente o último, antes da desgraça das repúblicas que se sucedem há mais de cem anos.

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