dbDUARTE BRANQUINHO

A recente escalada de tensão no Extremo Oriente, que tem como protagonista Kim Jong-un, o jovem ditador da Coreia do Norte, e como intervenientes directos a Coreia do Sul, os EUA, o Japão e a China, chamou a atenção do mundo para um regime político tão fechado como desconhecido. O que podemos saber, a partir do ponto mais ocidental da Europa, sobre a auto-denominada República Democrática Popular da Coreia (RDPC)? 

O fim da Segunda Guerra Mundial terminou com a anexação japonesa da Coreia e dividiu longitudinalmente a península em duas zonas ocupadas – o Norte pela União Soviética e o Sul pelos EUA, que acabaram por dar origem aos actuais países, após a guerra que os opôs, no início da década de 50 do século passado, naquele que foi o primeiro conflito armado da Guerra Fria.

Ambas as Coreias tiveram, a partir daí, evoluções bastante diferentes. Numa simplificação, uma seguiu o comunismo – o Norte –, e a outra o capitalismo – o Sul. No entanto, para percebermos a actual RDPC, esta classificação binária é claramente insuficiente.

Regime político

Qual é o regime político da RDPC? Esta é uma questão que há muito apaixona os politólogos, já que a mera etiqueta “comunista” não chega. Em primeiro lugar, podemos dizer que nominalmente é uma “democracia”. E não se pense que não há partidários desta tese. Recorde-se, por exemplo, que até em Portugal o líder parlamentar do PCP, Bernardino Soares, afirmou numa entrevista, em 2003, que tinha “dúvidas de que a Coreia do Norte não seja uma democracia”. De facto, para além do Partido dos Trabalhadores da Coreia, existem outros dois pequenos partidos, mas que têm que submeter-se àquele que é, na prática, o partido único desta “ditadura da democracia do povo”, como prevê a Constituição. Muitos classificam ainda a RDPC como uma “ditadura familiar” ou uma “monarquia absoluta”.

kim-Jong-Un, líder da Coreia do Norte
kim-Jong-Un, líder da Coreia do Norte

No aspecto ideológico, a RDPC assenta no ‘Juche’, uma ideia baseada na auto-suficiência, que muitos consideram o “marxismo-leninismo kimilsunguiano”, onde sobressai um culto da personalidade que estabeleceu que Kim-Il-sung é o “eterno presidente” e que evoluiu para uma quase-religião de Estado. Em 1972, o ‘Juche’ substituiu o termo “marxismo-leninismo” na Constituição e em 2009 foram retiradas todas as referências a “comunismo”. Curiosamente, um dos grandes teóricos do ‘Juche’, para além de Kim Il-sung, foi Hwang Jang-yop, que em 1997 desertou para a Coreia do Sul. Recentemente, ganhou força a filosofia ‘Songun’, ou “prioridade militar”.

Há ainda quem defenda algo completamente diferente. Em 2010, Brian Reynolds Myers, estudioso da Coreia do Norte, publicou o livro “The Cleanest Race: How North Koreans See Themselves and Why it Matters” (“A Raça mais limpa. Como os norte-coreanos se vêem a si próprios e porque é que isso importa”), onde defende que a ideologia ‘Juche’ serve apenas para iludir os estrangeiros. Segundo ele, a RDPC é um regime nacionalista, racista e xenófobo, derivado do nacionalismo Showa japonês.

De facto, a única conclusão a tirar é que este regime ‘sui generis’ desafia uma classificação política simples e se presta às mais diversas interpretações.

Imagem

Como chegar até este regime fechado? Hoje em dia, através da Internet, é possível aceder a uma quantidade enorme de conteúdos produzidos pela RDPC, que os transmite através de vários canais. Na página oficial da RDPC podemos encontrar diversas informações sobre o país, uma biblioteca electrónica, informações sobre turismo e negócios, uma galeria de imagens e até uma loja ‘online’ onde é possível comprar DVD com filmes, CD de música, emblemas, bandeiras, etc. Mais curiosa é a informação sobre a Associação de Amizade com a Coreia, que tem duas delegações aqui ao lado, em Espanha, mas também está presente nos EUA, na Bolívia, no Chile, em Itália e na Argélia. Como curiosidade, existe também um ‘blog’ em português do Brasil com traduções dos textos oficiais da RDPC.

Através do YouTube, é ainda possível ver os filmes norte-coreanos legendados em inglês, para além de concertos de música, programas de televisão.

A RDPC tem também agência de notícias, que transmite para o resto do mundo a imagem desejada pelo regime. Para decifrar essas informações, existem vários ‘sites’ na Internet, como por exemplo o “North Korea Leadership Watch”.

Apesar disso, é sempre muito difícil ter uma verdadeira realidade do país, para além da propaganda oficial e da contra-propaganda.

“Parque Jurássico”

Em especial para um ocidental, a RDPC desperta uma curiosidade natural por se apresentar como um mundo à parte. É quase uma espécie de ilha isolada neste mundo globalizado.

Há quem tenha considerado a Coreia do Norte como o “Parque Jurássico do comunismo” e esta estranha realidade tem sido descrita em vários livros da autoria de dissidentes que conseguiram escapar, de diplomatas que lá estiveram, ou de analista especializados naquela região.

Em Portugal, o escritor José Luís Peixoto escreveu o livro “Dentro do Segredo – Uma Viagem na Coreia do Norte”, depois de ter passado quinze dias naquele país. Numa entrevista ao “Diário de Notícias”, afirmou: “Mesmo para quem visite a Coreia do Norte com mais liberdade, existe sempre um constrangimento de movimentos, para além de uma exagerada recriação que é feita para os estrangeiros. Para quem está fora daquele culto de personalidade, é difícil aceitar o que nos é dito sobre os líderes e a grande quantidade de qualidades fora do humano que lhes são atribuídas.”

Por muito que no Ocidente se ironize um regime que nos parece vindo de outro mundo – a lembrar a distopia orwelliana “1984” –, a crescente instabilidade no Extremo Oriente pode originar um conflito de proporções desconhecidas.

ODIABO600x200LUÍS FILIPE AFONSO (em Fukuoka, Japão)

O arqueiro, e não das flechas

É ponto assente que o discurso ameaçador, belicista, e caricatamente inflamado, do regime norte-coreano ao longo das últimas semanas, veiculado através dos seus porta-vozes oficiais e sobretudo pelos seus órgãos de comunicação de massas, é, em larga medida, bebida para consumo da casa.

E isto porque os dirigentes políticos e militares em Pyongyang sabem melhor que ninguém que, na eventualidade de um conflito real ocorrer, a sua posição é manifestamente a mais fraca e que a sua capacidade de resposta a uma ofensiva em larga escala por parte das forças militares combinadas do vizinho Sul e dos EUA — com o prometido apoio do Japão e outros aliados — é pouco mais que nula, malgrado as manifestações de valor puramente propagandístico, enaltecendo a “invencibilidade” das suas forças armadas e a “força indomitável” do seu povo trabalhador, exultante na ‘hora da vitória final’ que a cada dia que passa, o “Rodong Sinmun” — “O Jornal dos Trabalhadores”, órgão de comunicação social oficial do Comité Central do Partido dos Trabalhadores da Coreia, partido único da República Democrática Popular da Coreia (RDPC) — afirma estar mais e mais próxima.

O que está em causa e é subjacente à retórica apocalíptica de Pyongyang, feita de diárias e sucessivas invectivas contra os EUA, Coreia do Sul e Japão, ameaçando consumir os três “num mar de fogo”, é precisamente a questão da capacidade de resistência do próprio regime ultra-Estalinista e da sua própria sobrevivência, num tempo em que os sintomas notórios do seu já muito avançado estado de decrepitude são já por demais difíceis de esconder, tanto externa quanto internamente.

Coreia01

Sendo certo que os números representativos do seu poderio bélico se mantêm impressionantes em teoria, verdade é que se trata de um efeito ‘trompe-l’oeil’, e uma vez que o grosso do seu equipamento militar remonta à década de 1960, carecendo manifestamente de meios adequados à sua manutenção — meios esses outrora providenciados pelo aliado Soviético — e correspondente eficácia em combate, ao que acresce uma crise económico-alimentar profunda que se arrasta desde há vinte anos, altura em que a assistência económica antes providenciada pela ex-União Soviética cessou em definitivo, e à qual o efectivo de mais de um milhão de homens e mulheres em armas, reforçada por um contingente reservista na ordem dos oito milhões, não consegue escapar, com diversos relatórios concorrentes apontando para um recente abatimento (mais um) das rações adstritas aos militares para níveis já abaixo dos mínimos necessários à subsistência humana, numa espiral de fome gritante que atinge já, e inclusive, as suas elites.

Neste contexto, a liderança personificada no ainda recém-entronizado Kim Jong-un, com apenas 29 anos de idade, o mais jovem chefe de estado no Mundo presentemente em funções, filho e neto, respectivamente, dos anteriores líderes Kim Jong-il e Kim Il-sung, sabe perfeitamente o quão frágil é a sua posição actual, carecendo desesperadamente de todo e qualquer expediente destinado a robustecer as suas bases de sustentação, a saber, a confiança das suas forças armadas e o apoio das elites sociais do regime, numa cartada que visa mobilizar todos em torno da causa comum da própria sobrevivência do país.

Acresce que a liderança do jovem Kim, e ainda que, e à semelhança do que sucedia com as pessoas de seu pai e seu avô, venha sendo regularmente insuflada pela propaganda galvanizada em torno do respectivo culto de personalidade, não é, em todo o caso, facto consumado, impassível de impugnação por outros oligarcas do regime.

Formalmente, Kim Jong-un, enquanto secretário-geral do Partido dos Trabalhadores da Coreia, o partido único, e Supremo Comandante das Forças Armadas, é parte de um triunvirato partilhado com as pessoas de Pak Pong-ju, chefe do executivo governamental, e Kim Yong-nam Presidente da Suprema Assembleia Popular, órgão teoricamente representativo dos diversos sectores sociais da RDPC, a que acresce o facto de, internamente, o partido único se cindir em diversas facções com interesses concorrentes, facto a que não é alheio uma alegada tentativa de assassinato levada a cabo já Março deste ano contra a pessoa do próprio Kim Jong-un, operação supostamente orquestrada por “insatisfeitos” dentro do próprio regime, e na sequência de lutas internas entre altos dignitários do regime por posições de supremacia em áreas estratégicas da vida nacional.

Corroída por décadas de corrupção e promiscuidade extrema entre os sátrapas do regime, corrupção essa que se expande exponencialmente a todos os restantes níveis da sociedade Norte-Coreana já de per-si profundamente afligida por décadas de penúria material e fome generalizada, a ordem interna norte-coreana, espelhada na pessoa dos oligarcas de Pyongyang, conhece hoje, melhor do que ninguém, a ruína do sistema que a sustenta, a si e às respectivas clientelas Pelo que, tudo somado, o resultado permite-nos hoje compreender melhor o que está especialmente em jogo nesta hora, e sob a capa de um conflito militar internacional iminente: o futuro do próprio regime Norte-Coreano, um futuro frágil como porcelana.

Como na passada semana, o General Martin E. Dempsey, Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA, afirmava perante uma audiência do Congresso Norte-Americano congregada em torno da presente crise coreana, e recorrendo a uma curiosa imagem alegórica, a preocupação hoje não se deverá focar tanto “nas ‘flechas’ (leia-se mísseis balísticos e outros meios militares da RDPC, um arsenal vasto e susceptível de atemorizar os seus adversários, mas essencialmente envelhecido, fraco, e pouco ou nada credível de um ponto de vista técnico-militar) mas sobretudo no ‘arqueiro’ (os detentores dos ditos meios, o próprio regime norte-coreano)”.

Um arqueiro transtornado, confuso, paranóico, mas também, e por tudo isso, imprevisível.