PEDRO A. SANTOS

A BBC enviou centenas de milhar de pequenos computadores aos jovens do Reino Unido, mas a diferença entre este programa e o fracassado projecto socialista “Magalhães” é que os aparelhos digitais têm um verdadeiro destino educativo, em vez de serem apenas um brinde eleitoral. Equipados com tecnologia britânica, apoiados por uma forte infra-estrutura de profissionais da educação e fundações privadas dignas desse nome, os vários projectos de literacia informática do Reino Unido são um enorme sucesso desde 1982 sem custar mundos e fundos ao contribuinte e envergonham, por comparação, o anterior Governo socialista, que não os conseguiu sequer copiar decentemente. 

A rádio oficial do Reino Unido continua fiel aos seus princípios: “informar, educar e entreter”. Em vez de ser somente um ponto de transmissão de inúmeras novelas, como em certos e determinados países, a BBC tem a preocupação de desenvolver iniciativas que beneficiem o Reino de Isabel II. O projecto MicroBit é mais uma delas.

Um milhão de jovens receberam computadores de forma gratuita. Estes equipamentos, no entanto, não são “brinquedos”, como os “Magalhães” portugueses efectivamente acabaram por ser. Compostos por apenas uma simples placa, as crianças são agora convidadas a montar e programar os seus projectos como se de um “kit” informático se tratasse.

O objectivo central do programa, segundo a BBC, é que os jovens cresçam sendo não só consumidores, mas também pessoas familiarizadas com o funcionamento e o desenvolvimento da informática. Os objectivos da BBC não são somente educativos, são também de incentivo à indústria nacional, visto que a tecnologia dos aparelhos foi desenvolvida no Reino Unido.

Poucos portugueses saberão que no coração dos aparelhos de bolso de última geração que tanto prezam não está tecnologia provinda dos mediáticos EUA, mas sim uma arquitectura de processadores desenvolvidos na antiga e histórica cidade universitária de Cambridge. Essa tecnologia, por sua vez, apenas existe por causa do primeiro programa ao estilo do “Magalhães”, e que o Governo socialista de José Sócrates não conseguiu sequer copiar.

O sucesso do Microcomputador BBC

O programa de literacia informática da BBC nasceu em 1981, com o objectivo de “facultar aos telespectadores a possibilidade de aprenderem, através de experiência directa, a programar e a usar um microcomputador”. No total, o pacote incluía bibliografia sobre o tema, formação diferenciada para adultos e jovens, um guia detalhado de utilizador, uma biblioteca de ‘software’ produzida pela BBC, uma série televisiva intitulada “the computer programme”, vários programas de rádio, e a peça central: um computador.

Quando chegou a hora de escolher o modelo que iria ser usado, a emissora fez uma exigência: o computador teria de ser produzido no Reino Unido, para se incentivar a indústria nacional. Esta característica era importante: o Governo conservador de Margaret Thatcher estava disposto a financiar metade de cada máquina vendida a jovens, bem como a comprar computadores para as escolas, mas não tinha intenções de financiar empresas norte-americanas, que nos anos 80, tal como hoje, dominavam o mercado mundial.

A “Acorn”, sediada em Cambridge, acabou por ser a empresa parceira escolhida, e o seu computador teve a honra de ser o primeiro dispositivo intitulado “Microcomputador BBC”.

Os computadores escolhidos pela BBC foram uma peça central das escolas inglesas durante anos. Devido à qualidade de construção muitos ainda hoje funcionam, mesmo estando completamente obsoletos
Os computadores escolhidos pela BBC foram uma peça central das escolas inglesas durante anos. Devido à qualidade de construção muitos ainda hoje funcionam, mesmo estando completamente obsoletos

O projecto foi um enorme sucesso: mais de um milhão destes computadores foram vendidos a privados, e 80 por cento das escolas no Reino Unido já estavam informatizadas no longínquo ano de 1985. Uma geração inteira de engenheiros informáticos foi formada nestes pequenos aparelhos.

O capital ganho com esta iniciativa permitiu o desenvolvimento dos processadores de tipo “ARM” em 1987, e que são hoje o centro de quase todos os telemóveis e tablets modernos. Todo o dinheiro investido acabou por regressar multiplicado, pois desenvolveu-se uma nova indústria de milhares de milhões de libras no Reino Unido.

Tudo graças aos esforços da velhinha BBC.

O fracasso do “Magalhães”

Se o Governo socialista de José Sócrates se inspirou ou não no exemplo britânico, não sabemos. Mas sabemos que o seu projecto informático foi um fracasso total. Intitulado “programa e-iniciativas”, o objectivo era informatizar as escolas portuguesas. Foi constituída uma Fundação que, no entanto, era completamente financiada pelo Estado. Ao contrário do exemplo inglês, o Governo Sócrates apenas procurou distribuir os computadores o mais velozmente possível.

Os objectivos do programa após a distribuição dos aparelhos eram vagos. Não houve colaboração com a comunicação social: nem um único programa televisivo foi feito sobre o tema. Enquanto a BBC produziu uma longa lista de bibliografia sobre os seus computadores, os professores portugueses queixaram-se imediatamente de falta de documentação e criticaram duramente os poucos programas de formação disponibilizados pelo Estado.

O “Magalhães” era um produto de consumo fechado, e cujos fins educativos sempre foram secundários. Um estudo notou que a qualidade de construção era fraca, e que os alunos e os docentes se sentiam frustrados com as constantes avarias dos computadores
O “Magalhães” era um produto de consumo fechado, e cujos fins educativos sempre foram secundários. Um estudo notou que a qualidade de construção era fraca, e que os alunos e os docentes se sentiam frustrados com as constantes avarias dos computadores

Os resultados não podiam ter sido mais negativos: 89,1 por cento dos professores e 86 por cento dos alunos nunca chegaram a usar o computador no contexto da sala de aula, ou para fins educativos. O fim para o qual os alunos admitem que mais usarem o computador? Navegar na internet e usar o jogo “SuperTux”, que vinha incluído no aparelho. O incentivo à engenharia informática também ficou esquecido: os computadores eram, efectivamente, meros produtos de consumo.

Em termos de incentivos à indústria nacional, os resultados do “Magalhães” também foram irrelevantes em comparação com o programa inglês. Os computadores não foram desenhados em Portugal, apenas fabricados em território nacional, sendo uma simples cópia de um computador já existente da empresa americana “Intel”, que também é a fabricante dos componentes do “Magalhães”.

Imagem do jogo “SuperTux”, a aplicação mais popular do “Magalhães”
Imagem do jogo “SuperTux”, a aplicação mais popular do “Magalhães”

Cada computador custou 180 euros só em despesas de fabrico, não contando com distribuição e apoio ao cliente. O Estado entregou gratuitamente um grande número de computadores; outros, disponibilizou a 20 euros; e outros, ainda, a 50 euros. Gastaram-se quase 300 milhões de euros só em material, para resultados francamente medíocres. A hipótese de colmatar a despesa foi gorada quando não surgiram mercados externos onde vender o “Magalhães” – com excepção da falida ditadura populista de esquerda da Venezuela.

No entanto, e esse talvez fosse mesmo o grande objectivo, os “Magalhães” foram mostrados na propaganda socialista para as eleições de 2009. Dois anos depois o programa seria encerrado, quando Portugal teve de pedir assistência externa.

Novos desenvolvimentos

A segunda vaga britânica de programas de incentivo ao conhecimento informático foi lançada em 2008 pela Universidade de Cambridge, de parceria com uma organização privada e independente do Estado, a “Fundação Raspberry Pi”. Objectivo: “Desenvolver o avanço da educação de adultos e crianças, particularmente na área dos computadores, da ciência informática e campos relacionados”.

Aquando do arranque do programa, a Universidade de Cambridge queixava-se da falta de equipamento em que as pessoas, especialmente as crianças, pudessem explorar a tecnologia, em vez de serem somente consumidoras. O seu triunfo foi o desenvolvimento de um computador para entusiastas que custa 35 euros.

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Sem qualquer financiamento Estatal, foram vendidos 9 milhões de unidades até hoje, financiando o desenvolvimento de toda uma infra-estrutura de profissionais da educação para acompanhar uso do pequeno computador nas escolas. A revista oficial do projecto, publicada em papel, é um sucesso de vendas (quem diz que a imprensa tem de ser “assassinada” pelos computadores?). E é possível construir, a partir da placa inicial, um computador muito semelhante ao “Magalhães”. Graças a um novo modelo, mesmo no seu formato mais básico, o Raspberry Pi já faz essencialmente tudo o que o “Magalhães” conseguia fazer… por apenas 35 euros.

É com base neste projecto de sucesso, e com o qual colaborará, que a BBC vai relançou o seu programa de literacia informática. São placas deste género que a BBC ofereceu aos jovens, e que enviou com três meses de antecedência aos professores (mais material de apoio) para se irem familiarizando com o equipamento. No total, o projecto não custou um cêntimo ao contribuinte, pois os parceiros oficiais da BBC ofereceram-se para pagar tudo. Enquanto lê este texto, o programa está-se a expandir para o resto do mundo, inclusive para os EUA.

Instituições fortes e independentes associadas a objectivos concretos e despolitizados: foi assim que os ingleses conseguiram fazer o que os portugueses não conseguiram.

Uma lição para o futuro.

  • PAFioso Usurpado

    O Magalhães foi um sucesso e por isso agora Portugal exporta mais em serviços informáticos do que toda a industria têxtil !!

    O BBC Micro Bit e’ um sistema embebido “Arduino” que vai patrocinar o desenvolvimento de produtos IoT que não existiam no tempo do Magalhães !!!

    Tudo muda!!! …. no ano de 2002 o meu primeiro PC portátil custou-me 2000 Euros e agora por menos de 500 Euros compro um noteboook muito mais rápido com um disco duro 100 vezes mais denso !!!

  • Lolita

    Este Diabo está senil…