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Henrique Silveira   Crítico

O Ministério da Cultura regressou. O que era um Ministério cosmético no governo efémero de Passos Coelho aparenta ser agora um Ministério mais político no governo Costa.

A escolha recaiu sobre João Soares, cujo principal currículo é ser filho de Mário Soares e ter sido em eras remotas um suposto editor livreiro e vereador da cultura na Câmara de Lisboa, isto antes de ter ascendido ao lugar de presidente da edilidade.

É de saudar que o lugar da cultura tenha sido entregue a um suposto “peso pesado” político, se é que João Soares tem alguma substância política. É antes do mais, e isso parece-nos errado, um entregar de um lugar de destaque a um nome que poderia assumir-se como incómodo se não tivesse este rebuçado, o que revela que a cultura é, mais uma vez, um parente pobre da governação e não uma prioridade.

A cultura é entregue a alguém que teria de ser ministro, pela força simbólica do apelido e pela corrente soarista que ainda existe e que ainda tem um tremendo poder no PS e na comunicação social, basta ver os leitores que Ferreira Fernandes tem no Diário de Notícias e o peso dos seus artigos junto dos soaristas. Mas a João Soares e aos soaristas é entregue um símbolo, um Ministério, mas um Ministério em que este não chateie ou tenha demasiado poder pois, atendendo aos programas do PS no que diz respeito à cultura, onde esta praticamente não figura, o único pior seria o ministério das praias fluviais interiores, se este existisse.

Chame-se Secretaria de Estado ou Ministério, o que importa é o orçamento e o poder real da cultura dentro do gabinete de Costa. Entregar a cultura a um João Soares é certamente mais visível, até pela visibilidade do clã, do que entregá-lo a um irrelevante qualquer como Barreto Xavier.

Mas fica a pergunta: o que sabe João Soares de cultura? Leu uns livros, ouviu umas músicas, mas onde estão os textos de João Soares sobre o assunto? Onde está o percurso do filho de Soares na área cultural? O que sabe de património, de museus, de artes de palco, de produção cultural? O que sabe da importância da cultura no PIB? No retorno do investimento em cultura – quer a curto prazo quer a longo prazo? Será que terá força suficiente ou entendimento suficiente para perceber que a cultura é a única forma de transformar o turismo miserável que assola Portugal num turismo de alta qualidade e alto valor acrescentado sem grandes números em termos de turistas mas de grandes números em termos de rendimento? Saberá por acaso João Soares que um turista médio em Viena gasta mais de 400 euros por dia e que em Lisboa apenas gasta uma fracção insignificante desse número em refeições baratas, hosteis e a andar de tuc tuc?

Que sabe João Soares da qualidade das nossas orquestras? Da nossa programação cultural? Do nosso S. Carlos? S. João? D. Maria II? Metropolitana? Casa da Música? Ou que sabe João Soares sobre a anquilosada Companhia Nacional de Bailado em que a maioria é incapaz de dançar por natural vetustez?

João Soares faz-se acompanhar de uma técnica competente, uma secretária de Estado que lhe poderá fazer o trabalho pesado, isto para João Soares poder andar a passear-se a fazer discursos e a participar em comezainas mas, infelizmente, a mesma secretária de Estado não tem currículo em cultura, ficando a equipa completamente dependente de assessores, adjuntos e outra vilanagem, geralmente pejada de interesses e vícios, bem conhecida e que rodeia a pasta da cultura, sensível a mil e um lóbis, desde o dos arqueólogos ao dos cineastas e à “gente de teatro”, conservadores de museus, entre dezenas de outros que poderia enumerar durante vinte artigos… Sem ter um profundo conhecimento da área, esta equipa ministerial corre o risco de se afundar num pântano colossal pejado de minas.

Veremos se se conseguem aconselhar bem e se o resultado é virtuoso. Só o futuro o dirá, mas a primeira conclusão é que a cultura serve apenas para dar um “tacho” a João Soares onde não faça muitas ondas.

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  • Paulo Reis

    O Ministro da Cultura, para além de ser parvo, nada mais tem o acrescentar no seu CV. Tudo o mais que possa escrever só o vai prejudicar. Uma jantaradas, uns tintos e depois vai a correr para o pai, para lhe contar o que se passa nos bastidores do governo de Antonio Bosta e mais alguns incompetentes