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salazar

Um novo livro do Embaixador Fernando de Castro Brandão dá a conhecer duas centenas de cartas particulares enviadas a Oliveira Salazar ao longo de mais de três décadas. Pedidos, queixumes, influências, desabafos, denúncias, intrigas e algumas (não muitas…) manifestações de verticalidade compõem esta impressionante selecção epistolar. E constituem, para além de um valioso contributo para a historiografia do Estado Novo, um retrato dos próprios correspondentes do Presidente do Conselho.

Tem como título “Cartas Singulares a Salazar”, o novo livro de Fernando de Castro Brandão dedicado ao homem que durante mais tempo governou Portugal nos últimos séculos. E são, de facto, singulares e curiosas as missivas seleccionadas: pelo tom por vezes surpreendente, pelo atrevimento e pelo teor despojado das confissões, pela identidade de quem as escreveu. “Portugal em camisa” desfila, nesta obra, perante um Salazar em quem não podemos deixar de adivinhar um sorriso talvez irónico…

O autor da selecção e das notas, o Embaixador Fernando de Castro Brandão, escreve referindo-se à estranha relação da historiografia dominante com Salazar: “Hoje, falar-se neste nome é como que um estigma, uma ignomínia. Por isso, ao longo destes 41 anos de democracia e liberdade, assisto a um pacto, dir-se-ia de silêncio, traduzível pela expressão politicamente correcto”. E assim “omite-se, escamoteia-se ou, quando muito, apouca-se” tudo o que respeite ao Estado Novo ou ao seu primeiro Presidente do Conselho. Os arautos desse “politicamente correcto” clamam por que “não se apague a memória”, mas o que pretendem, na verdade, é “apagar a História” – conclui o autor.

Amália Rodrigues
Amália: “Não resisto à vontade que tenho de lhe gritar o meu bem haja!”

Mas Castro Brandão não lhes faz a vontade: ao longo de 450 páginas, selecciona com rigor uma galeria de personalidades que se auto-definem na sua correspondência com Salazar e que constituem, ao mesmo tempo, um retrato do Portugal do Estado Novo. O resultado é um livro de leitura compulsiva, como todos os que até agora Castro Brandão ofereceu ao público.

Muitos dos remetentes têm apelidos sonantes que se prolongaram na história mais recente do nosso País. Por exemplo, Duarte do Amaral (pai do actual ‘compagnon’ socialista Diogo Freitas do Amaral) assegura, em carta a Salazar datada de 22 de Junho de 1948, que seu irmão Gaspar, preso por equívoco no quartel de Artilharia de Sacavém, onde servia como tenente, é afinal um homem cem por cento da Situação. Aliás, garante Amaral, não só é oficial da Legião Portuguesa como fundou a ‘Sala Salazar’ na Universidade do Porto. O equívoco, felizmente, já fora esclarecido junto de três ministros que se interessaram pelo caso. De todo o modo, Duarte do Amaral tranquiliza Salazar: “damos de boa vontade as más horas ontem passadas como sacrifício pelos anos de sossego que V. Exª nos assegurou”.

Henrique Galvão: “Os mais calorosos aplausos pela política de V. Exª”
Henrique Galvão: “Os mais calorosos aplausos pela política de V. Exª”

Outros exemplos:

  • O capitão de mar-e-guerra Fernando Branco (avô do socialista e ex-PR Jorge Sampaio) era ministro dos Negócios Estrangeiros quando Salazar se tornou Presidente do Conselho. Ao formar governo, Salazar dispensou-o, substituindo-o por César Sousa Mendes (por sinal, irmão do conhecido Cônsul Aristides). Em carta de Junho de 1933, Fernando Branco lamenta a substituição, queixando-se das suas “difíceis circunstâncias de vida”. E confessa que “me seria muito agradável ser nomeado Embaixador em Londres”, ou em Berna, ou em “qualquer outra Embaixada de Legação de 1ª classe”. Em Janeiro de 1935, ainda à espera de colocação, sugere a Salazar a Embaixada de Madrid. E em Maio do mesmo ano, não tendo visto satisfeitos os seus pedidos anteriores, solicita a Salazar (“sempre com receio de importunar V. Exª”) que o faça nomear comissário do Governo ou representante do Estado numa empresa concessionária. Despede-se com “respeitosos e afectuosos cumprimentos e agradecimentos antecipados”, “aguardando a alta fineza da esclarecida atenção de V. Exª”.
  • Em Julho de 1962, o médico portuense Mário Cardia estava de “coração amargurado” porque seu filho, Mário Sottomayor Cardia, havia sido detido com outros estudantes que “cometeram a leviandade” de participar na agitação estudantil de Março desse ano, em Lisboa. O inconsolável pai assegurava, em carta a Salazar, que a actuação do jovem Sottomayor Cardia tivera “motivos exclusivamente académicos” e “nunca poderia ser considerado como agitador e como político” e “certamente” não se deixara “levar por influências estranhas”. Mal sabia o extremoso progenitor que seu filho era já membro, havia dois anos, do Partido Comunista e fora um dos principais instigadores da greve académica. Em nome das “muitas pessoas da nossa família que admiram V. Exª e diariamente rezam para que a sua saúde permita que se conserve à frente dos destinos de Portugal”, o crédulo Dr. Cardia pedia a intervenção directa de Salazar. Sottomayor Cardia militou no PCP até 1971, participando depois na fundação do PS. Após o 25 de Abril foi deputado e ministro socialista. Faleceu em 2006.
  • O jurista José Gualberto de Sá Carneiro (pai do falecido líder do PSD e primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro) explicava a Salazar, em missiva de Novembro de 1941, que não podia aceitar o convite do Presidente do Conselho para ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Administrativo. “Desejaria muito ocupar esse lugar”, escreve, “mas tenho seis filhos e algumas dívidas”. E “o sustento daqueles e o pagamento destas dependem de continuar no exercício da profissão de advogado”…
  • Em Outubro de 1948, o Sr. António Spínola, inspector-geral de Finanças e antigo secretário de Salazar, pede a este que coloque como “delegado do Governo junto de uma companhia dependente do Ministério das Colónias” o seu filho, capitão de Cavalaria António Sebastião Ribeiro de Spínola – que viria a ser, 26 anos depois, o primeiro Presidente da República saído do 25 de Abril. Noutra carta, de 1953, o Sr. Spínola volta a interceder pelo filho junto de Salazar: como o jovem militar tivesse caído do cavalo, fracturando uma perna e três costelas, estando por isso impedido de montar, o pai pede a Salazar que o nomeie comandante da Polícia de Viação e Trânsito. A História talvez tivesse sido diferente se Salazar o tivesse nomeado…

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