A “pesada herança” que salva o Governo

A “pesada herança” que salva o Governo

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A ‘geringonça’ rejubila com as notícias de que Portugal foi o país da Zona Euro com maior crescimento económico. O que a comunicação social omite é que a economia está a crescer graças às políticas do anterior Governo, que deixaram uma “pesada herança” positiva nas exportações e no turismo. Entretanto, as promessas de Costa de “restituir rendimentos” e “virar a página da austeridade” revelaram-se largamente exageradas: Centeno enganou-se nas previsões “milagrosas”, o consumo continua negativo e a dívida pública não pára de subir em flecha…

Há uma habilidade que ninguém consegue negar a António Costa: a de transformar derrotas em vitórias. A agilidade política do antigo edil de Lisboa já não deveria surpreender. Em pouco mais de dois anos, Costa conseguiu passar de simples autarca a líder do Partido Socialista. Tendo engendrado umas peregrinas “eleições primárias”, derrubou o seu colega de partido, António José Seguro, argumentando que o resultado socialista nas eleições para o Parlamento Europeu fora “poucachinho”.

Numa pequena ironia que a vida ocasionalmente nos concede, apenas um ano depois foi ele próprio derrotado nas urnas. Demonstrando o seu talento no controlo mediático, António Costa fez campanha contra um conjunto de medidas do anterior Governo que estavam rodeadas de controvérsia — como a privatização da TAP — que em tempos o seu próprio partido defendeu ou às quais até deu início. Não chegou. O líder do PS pediu a maioria absoluta, mas recebeu do povo menos deputados do que o PSD. Em vez de assumir a derrota e demitir-se na noite eleitoral, Costa engendrou a improvável “geringonça” e conseguiu manobrar até que o então Presidente Cavaco Silva, contrafeito, teve de nomeá-lo primeiro-ministro.

No poder, seguiu as mesmas linhas que trilhara para o alcançar. Tendo prometido “virar da página da austeridade” durante a campanha eleitoral, o Orçamento do Estado para 2017 vinha repleto dela, mas uma engenhosa campanha mediática convenceu o povo do contrário. Segundo as novas sondagens, se as eleições legislativas fossem hoje, Costa receberia tantos votos como os dois partidos do centro-direita juntos.

Olhando para este sinuoso currículo, não é, portanto, surpreendente que Costa tenha conseguido dar a volta por cima dos dados económicos revelados pelo INE na semana passada. Segundo os técnicos de estatísticas, o País registou o crescimento mais elevado da Zona Euro, o que é causa para festejo de qualquer português patriótico. Simplesmente, as razões para esse crescimento foram “o aumento do contributo da procura externa líquida, verificando-se uma aceleração mais expressiva das Exportações de Bens e Serviços em comparação com a das Importações de Bens e Serviços”.

Ora, é bom não esquecer que o crescimento por via das exportações foi sempre um ponto fundamental do programa da coligação de centro-direita, e não do Partido Socialista. Durante o mandato do anterior Governo da coligação PSD/CDS, as exportações passaram de 29% para 43% da actividade económica. O antecessor de Costa, Pedro Passos Coelho, afirmou em 2015 o seu desejo de que as exportações alcançassem os 50 por cento da economia. Paulo Portas, antigo vice-primeiro-ministro, chamou às exportações “o porta-aviões da recuperação” e fez uma verdadeira campanha internacional de promoção dos nossos produtos. No mesmo período, o famoso programa dos “12 sábios” do Partido Socialista enaltecia o consumo privado como principal motor para relançar a economia, através de medidas como a descida do IRS e da TSU, subsídios e subvenções a rodos e restituição dos ordenados e benefícios da função pública.

Olhando para os dados, confirma-se agora que essa fantasista política socialista não produziu quaisquer resultados, notando o INE que de facto existiu uma “aceleração do consumo privado devido ao comportamento da componente de bens não duradouros e serviços” (por bens não duradouros entenda-se comida e outros bens de consumo imediato), mas que, em compensação, “a componente de bens duradouros desacelerou” (por bens duradouros entenda-se carros, electrodomésticos, etc.). Com crueza factual, o INE conclui que a “a procura interna registou um contributo negativo”, ou seja, o crescimento do PIB não se deveu à mítica “restituição dos rendimentos” (que pouco beneficiou quem não é funcionário público).

A própria oposição, no entanto, criou as raízes do “sucesso” de António Costa, como aliás já várias figuras dos dois partidos admitiram. Ao baixar as expectativas a um nível mínimo, qualquer sucesso, por mais pequeno que fosse, iria reforçar a posição do actual primeiro-ministro.

Diga-se que, comparado com os planos originais do PS, o actual ritmo de crescimento seria uma derrota estrondosa caso as expectativas da população não tivessem sido tão rebaixadas. Há apenas um ano, Mário Centeno previa uma taxa de crescimento de 2,4 por cento ao ano caso as políticas do PS fossem aplicadas. Em contrapartida, os socialistas consideravam que uma taxa de crescimento de “apenas” 1,7 por cento seria o resultado da continuidade das políticas do Governo anterior. Hoje, rejubilam com uma taxa de crescimento de 1,6 por cento num trimestre, e a possibilidade de o crescimento em 2016 não terminar nos 1,2 por cento como previsto, muito abaixo dos 1,5 por cento de crescimento que a anterior coligação conseguiu para 2015. António Costa herdou os resultados económicos do anterior Governo, e agora rejubila com eles.

A grande questão é se estes números poderão manter-se. O grande motor da actividade económica durante o período analisado foi o turismo, uma actividade sazonal. 46 dos 86 mil novos empregos durante o terceiro trimestre do ano foram criados na área do turismo – precisamente, um sector que o anterior Executivo se empenhou em fazer crescer e vê agora resultados positivos.

A dívida pública, entretanto, subiu para o valor mais elevado de sempre em relação ao PIB, após Centeno ter prometido há um ano que por esta altura estaria a cair. O investimento em Portugal também se encontra em níveis muito baixos. Razões pelas quais o Presidente da República se tem mantido cauteloso em relação ao cenário macro-económico, não lançando foguetes nem anunciando a desgraça antes de ela chegar.

A União Europeia, entretanto, deu um aval de confiança ao nosso País afirmando que “Portugal está claramente a sair da crise económica” e abandonando qualquer referência à suspensão dos fundos estruturais. Neste aspecto, o “Brexit” e a eleição de Donald Trump favoreceram claramente António Costa. Amedrontada com o seu possível (alguns até diriam provável) colapso às mãos dos partidos anti-globalistas, a UE tem feito nos últimos dias uma reversão total das suas políticas, incentivando agora o expansionismo económico e abandonando parcialmente a ideia de austeridade, cujo último defensor parece ser a Alemanha. Em causa está mais um referendo, desta vez em Itália, que a UE não pode definitivamente perder, mas que as sondagens indicam que é muito possível que perca.

Por agora, graças ao seu talento de transformar maus ventos em grandes bonanças, António Costa vai navegando calmamente até à próxima etapa: as eleições autárquicas do próximo ano. Um dia de cada vez, como ele diz.

  • Paulo Reis

    Costa vai cantado victoria, mas depressa chorará a derrota. Depois não vão faltar desculpas esfarrapadas: Trump, economia mundial, queda da economia na europa, etc etc. Pena tenho eu dos meus filhos, que sem terem sido ajudados pelo Estado, vão pagar as dividas contraidas por estes verdadeiros criminosos. Que saudades tenho do Sr Jaime Neves ou do Sr Cap. Salgueiro Maia……. Militares a sério, como já não se fazem hoje.