HUGO NAVARRO

Parece que não falta, no insignificante Partido Socialista português, quem queira dar conselhos e lições a propósito da eleição de Donald Trump para o cargo de Presidente dos Estados Unidos da América.

Esse paternalismo ridículo e deslocado lembra-me uma célebre visita oficial que o inenarrável Otelo Saraiva de Carvalho um dia fez a Estocolmo, nos anos 70. Quando perguntaram ao primeiro-ministro Olof Palme como tinha decorrido o encontro com o militar português, Palme sorriu e disse: “Correu bem. Otelo passou uma hora a explicar-me como devo governar a Suécia…”. O ridículo é letal, mas os seres ridículos nunca dão por isso.

Agora, por cá, o presidente do PS, Sr. Carlos César, considerou com ar sisudo que os resultados das eleições presidenciais dos Estados Unidos da América devem ser avaliados com “a maior precaução” – e, a propósito, permitiu-se dar conselhos “à diplomacia europeia, à diplomacia portuguesa e aos governos”. Sem ter tido a coragem de dizê-lo, referia-se o Sr. César às políticas de imigração da nova Administração norte-americana, que prevêem a deportação compulsiva de imigrantes.

Se o Sr. César quisesse ser leal à verdade, evitando demagogias baratas, haveria de reconhecer que aquilo que Trump repetidamente anunciou como sua política foi a deportação dos casos mais graves entre os dois milhões de imigrantes ilegais com cadastro criminal nos EUA, e não a deportação dos onze milhões de imigrantes indocumentados que vivem naquele país.

Não sei o que poderá haver de tão horrível em querer deportar, para as suas terras de origem, quem entrou ilegalmente no país; nele se manteve sem qualquer preocupação de legalizar o seu estatuto; e nele, para cúmulo, se dedicou a uma vida de crime, muitas vezes envolvendo tráfico de drogas, uso de armas de fogo e agressões sexuais.

Mas, se quisesse ser verdadeiramente esclarecedor, o Sr. César poderia ter acrescentado que, segundo dados oficiais do departamento de Immigration and Customs Enforcement dos EUA, o actual Presidente, Sr. Barack Obama, entre 2009 e 2015, deu ordem de deportação a dois milhões e meio de imigrantes ilegais encontrados no território norte-americano (número que não inclui aqueles que foram recambiados logo ao chegarem à fronteira). E ainda falta contar aqueles que ele deportou no seu último ano de mandato, que agora está a chegar ao fim. Isto faz do Sr. Obama o Presidente que mais imigrantes deportou em toda a história dos Estados Unidos. O Sr. Trump, comparado, é um menino de coro, que apenas tem, claro, a desvantagem de não pertencer a uma minoria “politicamente correcta”.

Mas também a deputada Isabel Moreira tem conselhos a dar a propósito das eleições americanas. Não os dá, porém, “à diplomacia europeia, à diplomacia portuguesa e aos governos” apenas: dá-os à Humanidade inteira. Pois Moreira está com pena de um mundo “ignorante e sem qualquer experiência” que traz populistas como Donald Trump ao colo. Para a deputada socialista, Trump venceu as eleições graças à “exploração deplorável das pessoas mais afectadas pelos efeitos de uma má distribuição de rendimentos, pela pobreza, pela exclusão”. Ora, neste grupo, segundo Moreira, estão “milhões de pessoas sem credo em sistema algum, vivenciando interiormente um não-sistema”, em especial os “homens brancos e com baixas qualificações”, que “foram muito importantes na vitória de Trump” e possibilitaram, assim, a “vitória do fascismo” (palavras da própria). Não sei que mais deplorar neste (desculpem a palavra) “raciocínio”: se a absoluta falta de inteligência, se a demagogia primária, se a mais assanhada das clubites.

A esquerda ainda não conseguiu aceitar a derrota dos valores irrisórios em que assentam quer a sua governação quer o “politicamente correcto”, que vêm sendo estrondosamente rejeitados no Reino Unidos, nos EUA, em França e onde mais se verá. Como não pode, por uma questão de decoro, chamar cretino ao eleitorado, encontrou agora uma explicação para a vitória dos adversários (tanto nos Estados Unidos como na Europa): é que eles são “populistas”.

Recordo que, em Portugal, o termo “populista” era geralmente aplicado a quem, do centro para a direita, falava uma linguagem entendível pelo povo. Aplicado agora à política internacional, o “populismo”, tal como visto pela esquerda, envolve o uso de ideias “primárias”, demagogia e mistificação.

Mas digam-me: quem, melhor do que a esquerda, pode rever-se melhor nestes qualificativos?

  • Paulo Reis

    As demagogias de esquerda são sempre contra as pessoas de bem. Vemos as suas politicas nacionais, onde a sobrevivencia de quem nada faz é assegurada por quem trabalha. A distribuição de dinheiro e bens, não pelos mais necessitados mas por aqueles que nada querem fazer, é uma das bandeiras de esquerda.