Dom Duarte Nuno, o mais amável dos príncipes

Dom Duarte Nuno, o mais amável dos príncipes

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SOARES MARTÍNEZ 

A convite da Causa Real, o Prof. Doutor Pedro Soares Martínez proferiu há dias uma conferência no Grémio Literário, em Lisboa, versando a personalidade de Dom Duarte Nuno, 24º Duque de Bragança, nascido em Seebenstein em Setembro de 1907 e falecido em Portugal, na sua casa de Ferragudo, em Dezembro de 1976 – cumprem-se agora quatro décadas. É dessa conferência que O DIABO retira algumas passagens mais significativas. Numa prosa de grande elegância, Soares Martínez traça o retrato nítido de um Príncipe que viveu para servir e cujo sentido de Dever transmitiu ao filho primogénito, o actual Duque de Bragança, Dom Duarte Pio.

O Senhor Dom Duarte Nuno de Bragança era o mais amável dos príncipes. E não estou empregando a expressão “amável” no sentido de cerimonioso, mas sim no significado, com sabor clássico, de digno de ser amado. Era, realmente, o mais amável dos príncipes, o que terá sido sentido por muitos, ou por todos, que o conheceram […]. E, porque essa amabilidade, essa vocação para ser amado, envolvia a serenidade, a sensibilidade, o respeito próprio e alheio, a simplicidade digna das posturas, a generosidade e a bondade, nenhuma dúvida oferecerá, ao menos para quem o conheceu, a decidida disposição do Senhor Dom Duarte Nuno para ser justo e firme na rectidão dos procedimentos, donde lhe adviria extrema popularidade, se para tanto tivessem sido favoráveis os ensejos. O destino não quis que assim fosse.

[…]

A infância do Senhor Dom Duarte Nuno foi passada ao Sul de Viena, entre Baden e Wiener-Neustadt, na povoação de Seebenstein, rodeada de vinhedos, fronteiros a um famoso lago austro-húngaro, naquela casa do Parque de Liechenstein onde, em 1896, após o seu segundo casamento, o Senhor Dom Miguel II se fixou. E ali, não obstante algumas inevitáveis limitações e dificuldades, a educação dos príncipes, de todos eles, prosseguiu segundo os hábitos tradicionais da família real, hábitos esses de uma grandeza sóbria […]. Tudo leva a crer que, na continuidade daquele viver habitual, em Seebestein, a formação dos jovens príncipes, filhos de Dom Miguel II e de Dona Maria Teresa de Loewenstein, teria decorrido nos termos adequados à posição que lhes advinha, em Viena, da sua origem, da sua qualidade e do próximo parentesco com o Imperador. Mas aquela continuidade foi quebrada, logo em Julho de 1914, pelo início da mais violenta guerra de que havia memória.

A mobilização das nações integradas no Império Austro-Húngaro, chamadas à cobertura de três frentes de batalha, teve efeitos trágicos na vida das respectivas populações, efeitos muito acrescidos pelo bloqueio naval britânico, que, para mais, os Impérios Centrais não tinham previsto, quando a guerra fora desencadeada, por contarem com a neutralidade da Inglaterra. A miséria geral em que foram lançadas aquelas nações, constituídas por austríacos, húngaros, boémios e outros mais, de menor extensão, não poupou os notáveis de todo o Império. Incluindo os de Viena e dos solares aristocráticos de entre Baden e Wiener-Neustadt. Começara a derrocada daquelas nações que, por sua vontade, tinham alcançado soluções de razoável equilíbrio sob o ceptro dos Habsburgos. E começara a dispersão de muitas famílias. Entre elas, aquela família portuguesa, fixada naquela casa, bem portuguesa, sita em Seebenstein, na vizinhança de Neusiedlersee.

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