Economia do Bloco Lusófono: um gigante em potência

Economia do Bloco Lusófono: um gigante em potência

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Miguel Mattos Chaves

MIGUEL MATTOS CHAVES

Se as nações que integram o Universo Lusófono constituíssem um único país, este seria a sétima maior Economia do Mundo, à frente da Índia, da Itália, do Canadá ou da Rússia. Todos os países lusófonos teriam a lucrar com o fortalecimento da articulação entre si: cada um deles se tornaria menos dependente do bloco regional em que está inserido e ganharia um peso internacional totalmente diferente. Juntos, passariam a constituir um bloco organizado com voz activa no globo.

Muito se tem falado da Lusofonia e da sua importância. Muito se tem falado da organização da CPLP/Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que congrega nações com uma História e uma Língua comum de mais de 500 anos, e que deu corpo organizativo e visibilidade internacional a uma comunidade cuja matriz é Portugal. Muito se tem falado na necessidade de aprofundar a mesma, com benefício para todos os seus integrantes.

Partilho destas asserções e apoio-as inteiramente. Há uns dias perguntei-me qual a dimensão económico-financeira deste bloco. E meti mãos à obra para, de forma simples e fácil de ler, compreender melhor a sua dimensão, neste capítulo.

É esse trabalho que agora partilho, de bom grado e boa vontade, com os leitores. Creio que ficamos todos mais informados e mais aptos a exigir dos Poderes políticos o aprofundamento deste bloco de países irmãos.

Vejamos, então, a dimensão económica do Mundo Lusófono.

O conjunto dos Oito

As oito economias do Bloco Lusófono (isto é, os países originariamente lusófonos da CPLP, cinco dos quais são Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa/PALOP) valem cerca de 2,1 biliões de euros e têm uma população total de cerca de 271 milhões de pessoas. Vejamos então qual a sua dimensão, no particular de cada país, e no seu conjunto.

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Como se infere da leitura do Quadro 1 – sendo um conjunto de países com uma dimensão apreciável, tem no entanto algumas fragilidades, como é o caso de as contas nacionais serem negativas, exceptuando Portugal e Timor, e o facto de ser um bloco com grandes assimetrias, quer em termos populacionais que em termos de riqueza gerada por cada país.

Vejamos então mais alguns indicadores, e algumas previsões do FMI sobre as respectivas economias para 2016 e para 2017, bem como a importância relativa de cada um deles no seu conjunto e a sua importância relativa nos Blocos Regionais em que se inserem.

Angola

Angola é o maior produtor de petróleo na África subsaariana e é a terceira maior economia do Continente Africano. Tem um défice nas contas nacionais de cerca de 8,5%. As perspectivas de evolução da economia são de estagnação: o FMI prevê que o país sofra uma estagnação este ano, recuperando depois em 2017 para os 1,5%.

“Angola está, como a Nigéria e a África do Sul, a adaptar-se à forte queda nas receitas das exportações de petróleo, não deverá crescer este ano e vai ter um fraco crescimento no próximo ano”, lê-se no relatório divulgado em Washington. O FMI revê em forte baixa as previsões de crescimento da economia angolana, já que em Maio apontava para um crescimento de 2,5% este ano e uma ligeira aceleração para os 2,7% no próximo ano.

Angola tem um PIB que ronda os 102,9 mil milhões de dólares e está inserida num espaço regional mais alargado, a África Austral, cujo PIB conjunto dos seus 15 membros chega a cerca de 650 mil milhões de dólares.

Brasil

Este país é, naturalmente, a maior economia do conjunto dos oito países da CPLP analisados. O FMI, na actualização de Outubro ao ‘World Economic Outlook’, antecipa uma recuperação económica no Brasil em 2017, ano em que o crescimento da economia deverá rondar os 0,5%, depois de dois anos de recessão.

“A economia brasileira permanece em recessão, mas a actividade parece estar perto de sair do fundo do poço”, disseram os analistas do FMI, sobre a nona maior economia mundial.

Moçambique

Também em Moçambique os analistas do FMI esperam um crescimento de 4,5% este ano e 5,5% em 2017. Está também inserido no espaço regional da África Austral, cujo PIB conjunto dos 15 membros chega quase a 650 mil milhões.

Portugal

As previsões do FMI apontam para um crescimento de 1% este ano e uma ligeira aceleração para 1,1% em 2017.

São Tomé e Príncipe

São Tomé e Príncipe deverá registar taxas de crescimento de 4% e 5% em 2016 e 2017. É o país com a economia mais fraca dos PALOP.

Timor

Para Timor-Leste, o FMI prevê taxas de crescimento de 5% e 5,5%, em 2016 e em 2017, respectivamente.

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Ao analisarmos, quer em termos do tamanho da sua economia e riqueza produzida, quer em termos de população, chegamos às seguintes conclusões:

Embora não seja muito correcta, tecnicamente, a afirmação de que se fosse um único país, o Bloco CPLP seria a 7ª maior economia do mundo, aqui fica esta nota de mera curiosidade. De facto, um Bloco é constituído por vários países. Como é do conhecimento geral, mesmo sem a produção deste trabalho, a maior economia dos oito é o Brasil, com uma quota de 84,61% do PIB do conjunto. Portugal significa 9,5% da riqueza produzida neste bloco de países, ficando em terceiro lugar. Angola com 4,91%. No seu conjunto, estes três países (Brasil, Portugal e Angola) somam 99,02% da riqueza produzida no total do Bloco Lusófono. Sem o Brasil, o conjunto teria um PIB total de 322,5 mil milhões de dólares, um PIB per Capita de 1.187 dólares e cerca de 67 milhões de habitantes.

Em termos de População, o quadro de importância relativa apresenta algumas diferenças importantes, face ao anterior, mantendo naturalmente, mesmo assim, também neste capítulo, a liderança do Brasil com 75,5%. Mas em segundo lugar aparece Moçambique com 10,3%, seguindo-se Angola com 9,3%. Portugal, neste capítulo, aparece apenas em 4º lugar.

Performance – Capacidade Instalada vs. Riqueza Produzida

Num exercício teórico, em que a população total fosse considerada como a “capacidade produtiva instalada” e a comparássemos com o resultado em riqueza produzida, medindo assim a performance de cada país, em termos de resultados, teríamos o seguinte quadro.

Com performances positivas estariam Brasil e Portugal, pois têm uma quota de riqueza produzida (PIB) superior à quota da sua “capacidade produtiva instalada”, neste caso a população, como acima se referiu.

Blocos Regionais – Comunidades Económicas

Todos estes países estão inseridos em Blocos Regionais, mais ou menos formais, em termos económicos. Vejamos então a dimensão dos mesmos, e a importância de cada um dos países no seu seio.

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Pela leitura do quadro 3, pode-se verificar que o Bloco Lusófono, em riqueza gerada (PIB), está em 5º lugar, a meio da tabela, na classificação dos principais blocos de cooperação económico-financeira mundiais. O bloco mais rico é a NAFTA, de que fazem parte os EUA, o Canadá e o México. O mais pobre é a CEEAC, de que também faz parte São Tomé e Príncipe.

O Bloco Lusófono tem, como se pode ver, uma importância relativa considerável, apesar de o Brasil ter um peso predominante no mesmo. Considerável, pois em termos geográficos é aquele em que mais zonas do globo estão integradas (Ásia, África, América do Sul e Europa). Os restantes blocos têm uma menor dispersão geográfica.

Quanto ao peso predominante de um país, o mesmo, então, se poderá dizer do bloco NAFTA, onde os EUA pesam 86,9%. E nem por isso este bloco deixa de ter a importância que tem.

Vejamos agora mais alguns dados dos blocos regionais, em que os vários países da Lusofonia se inserem.

ASEAN

A ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático) é uma organização regional de Estados do Sudeste asiático instituída em 8 de Agosto de 1967 através da Declaração de Bangkok. A ASEAN engloba 12 nações: dez delas são países-membros e duas são observadores em processo de adesão ao grupo.

Na Ásia, Timor-Leste, com um PIB de 2,6 mil milhões de dólares, está inserido neste bloco, uma comunidade com um PIB conjunto de 2,4 biliões de dólares.

CEEAC

É uma Comunidade Económica da África Central criada em Libreville, Gabão, em Dezembro de 1981. A CEEAC tornou-se operacional em 1985 e os seus objectivos são promover a cooperação e o desenvolvimento auto-sustentável, com particular ênfase na estabilidade económica e a melhoria da qualidade de vida. Na Comunidade Económica dos Estados da África Central (CEEAC) está São Tomé e Príncipe. Esta comunidade tem um PIB que, no conjunto dos países que a compõem, vale 337 milhões de dólares.

CEDEAO

Na Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), que engloba quinze países da África Ocidental e que vale 675 mil milhões de dólares, estão Cabo Verde, com um PIB de 1,6 mil milhões, e a Guiné-Bissau, com 1,05 milhões de dólares.

MERCOSUL

O Mercado Comum do Sul é um bloco composto pela Argentina, o Brasil, o Paraguai e o Uruguai; mais tarde, a ele aderiram a Venezuela e a Bolívia. O Brasil vale 1,77 biliões de dólares. O PIB conjunto do Mercosul conjunto cifra-se em cerca de 3,5 biliões de dólares. O Brasil significa, portanto neste bloco, 50,65% do mesmo.

U.E.

Portugal, com um PIB de 199,1 mil milhões de dólares, está inserido na União Europeia, cujo PIB está estimado em cerca de 16,5 biliões de euros. A economia portuguesa pesa, neste grupo (antes do alargamento – CE a 15 países) 1,33%. Face ao actual (U.E.) e ao total dos 28, Portugal significa 1,21%.

Vejamos então, num quadro resumo, a importância relativa de cada país-membro da Lusofonia e da CPLP, face aos blocos regionais em que se integram:

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Como é fácil de verificar, apenas o Brasil tem uma posição predominante, ou significativa, dentro do bloco regional em que se insere – o MERCOSUL – onde a sua economia tem um peso de 50,65%. A seguir, o país que tem mais peso no bloco regional a que pertence é Angola, cujo PIB significa 15,83% do total do mesmo, seguindo-se Portugal com apenas 1,21% de peso no seu bloco regional, a União Europeia.

Postos os números a descoberto, algumas conclusões se podem retirar:

Em primeiro lugar, que todos os países da CPLP teriam a lucrar com o fortalecimento desta organização. Porquê? Porque não só os tornaria menos dependentes dos blocos regionais em que estão inseridos, como o seu peso internacional seria totalmente diferente, por mais significativo.

Em segundo lugar, por se inserirem num bloco de expressão mundial com um peso, no seu conjunto, mais significativo do que cada um isoladamente considerado.

Em terceiro lugar, por se constituírem como um bloco organizado que tem uma história e língua comuns, o que, a par de uma eventual concertação de posições políticas de carácter internacional, lhes proporcionaria uma voz activa no globo.

Este facto pode agora ser potenciado, dada a circunstância de a Comunidade Lusíada ter um seu membro a ocupar o alto cargo de Secretário-geral das Nações Unidas. Poderia, assim, se houvesse vontade política e discernimento dos líderes de cada país, vir a ser uma potência ouvida e respeitada no Sistema Internacional das Nações.

É preciso que os mais altos dirigentes, de cada um dos países da CPLP, percebam que se se unirem de facto, e não só nos discursos de circunstância, cada país ganhará um espaço e uma influência no Sistema Internacional muito superior à sua importância individual.

Não é por acaso que pediram para serem Membros Observadores (antecâmara de adesão plena) países tão diversos como a Hungria, República Checa, Eslováquia e Uruguai, que foram aceites na Cimeira da CPLP, da semana passada, e que se juntaram assim à ilha Maurícia, Namíbia, Senegal, Turquia, Japão e Geórgia.

Se este grupo de países, que têm uma História e uma Língua comum de mais de 500 anos, fosse um País, seria a sétima maior economia do mundo, atrás da França e à frente de países como a Índia, a Itália, o Canadá, Rússia e outros, como veremos no quadro seguinte:

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Ou seja, o fortalecimento e o aprofundamento do Bloco Lusófono seria benéfico para cada país da Lusofonia, para o Bloco em si mesmo, para a Economia conjunta do mesmo e de cada um dos integrantes. Seria sobretudo útil e benéfico para os habitantes de cada um dos países-membros.