Império chinês estende os tentáculos a Portugal

Império chinês estende os tentáculos a Portugal

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Angola, África, Oceano Pacífico, Filipinas, Coreia, América do Sul, Portugal. O vasto império comunista chinês instalou feitorias e protectorados do século XXI pelo mundo fora, e este ano começou a instalar as primeiras bases militares fora do seu território para consolidar o seu domínio. Há vários anos que a China tem os olhos postos em Portugal, e a Base das Lajes oferece ao regime comunista uma oportunidade estratégica dourada. No entanto, com este negócio, António Costa pode colocar Portugal em rota de colisão com os velhos aliados ocidentais.

Enquanto o Parlamento se entretém a discutir baixa política e gasta o tempo e o orçamento em guerrilha estéril, uma potencial transformação radical do papel de Portugal no mundo decorre nos bastidores da diplomacia.

O actual primeiro-ministro, António Costa, anunciou durante a sua recente visita à República Popular da China que admitia “trespassar” a Base das Lajes, nos Açores, ao Governo de Pequim caso a Administração norte-americana não renove o contrato de exclusividade celebrado com Portugal. Desde que os EUA anunciaram os seus planos de abandono da base, outrora de enorme importância na estratégia ocidental da Guerra Fria, vários Governos têm tentado contrariar esse desfecho. Afinal, a Base das Lajes já foi o maior empregador da Ilha Terceira – um em cada 20 postos de trabalho estavam ligados à base – mas agora apenas cerca de 200 militares e funcionários americanos ainda permanecem, e poderão estar de saída.

O anterior Governo, através de Paulo Portas, tentou uma “operação de charme” nos EUA, em conjunto com vários congressistas norte-americanos que favorecem a continuidade de operações nos Açores. No entanto, a evidência não pode ser ignorada: a possibilidade de a China tomar posse da Base das Lajes é um “plano B” há já algum tempo. A primeira visita oficial chinesa à Ilha Terceira aconteceu em 2012, quando o então primeiro-ministro Wen Jiabao, mais uma comitiva de 100 pessoas, estiveram no local a avaliar o espaço. Mais visitas se seguiram.

Desde essa altura, os sectores mais conservadores e patrióticos dos EUA revelaram a sua preocupação com o que se passava. A ‘National Review’, uma prestigiada revista norte-americana, deixou o aviso de que “se a China controlar a base, o Atlântico já não estará seguro” e relembrou ao público americano que a distância entre as Lajes e a costa dos EUA é mais curta do que a distância entre Pearl Harbor e Los Angeles.

Americanos preocupados

António Costa parece ter acelerado os planos para entregar a Base aos chineses. Em Setembro, Augusto Santos Silva ainda garantia que “o único interesse de Portugal é de que a base seja plenamente usada dentro do acordo de defesa e cooperação que temos com os EUA”. Já em Outubro, após a visita de Estado à China, onde Costa foi recebido com grande pompa e circunstância, o primeiro-ministro admitiu que o Estado chinês poderia tornar-se o próximo inquilino das Lajes.

Apesar de Costa ter prometido que a Base não seria usada para fins militares pelos chineses, algo que colocaria Portugal em confronto directo com os EUA (com todas as consequências de tal acto), Michael Rubin, antigo alto funcionário do Pentágono e um elemento importante do influente American Enterprise Institute, afirmou abertamente a sua descrença nos truques meta-linguísticos tanto da China como da Geringonça: “os chineses nunca lhe vão chamar base militar. Não faz parte do léxico deles. A questão é se vão ou não fazer das Lajes uma base militar em tudo menos no nome”.

De facto, os responsáveis chineses fizeram promessas similares a todos os países onde estão a instalar a sua vasta rede de portos. No Djibuti, por exemplo, o porto civil local acabou por servir como plataforma para instalar uma base com propósitos militares. Nos Açores, a China também manifestou interesse em adquirir a Praia da Vitória para a transformar num porto de águas profundas, mas que também poderia servir como uma base naval para a marinha de guerra chinesa, que se está a expandir velozmente e a adquirir os seus primeiros porta-aviões.

No Congresso dos EUA, Devin Nunes, representante luso-descendente eleito pelo Partido Republicano e chefe do Comité de Informação da Câmara dos Representantes, afirmou a sua certeza de que a China vai usar os Açores como um “núcleo logístico e de informação que poderá vir a ser usado para outros fins militares”. Isto apesar de todas as “garantias” de António Costa. Nunes deu o exemplo de outros locais no mundo, como o Djibuti ou a ilha de Ceilão, onde os interesses chineses supostamente se limitariam a propósitos civis, mas onde “tudo está construído de acordo com especificações militares” podendo, portanto, tornar-se uma base militar apenas com uma mudança de nome. Devin Nunes deixou também duras criticas à administração liberal de Barack Obama, que em vez de aproveitar a Base das Lajes – melhor posicionada, com infra-estrutura moderna já paga e com uma rede de comunicações bem estabelecida – deu prioridade ao plano alternativo que prevê uma estrutura muito mais cara perto de Londres.

Todos os sinais fazem recear que a China planeia tornar a Ilha Terceira numa das suas feitorias modernas, com a aquiescência do nosso Governo e a negligência do Governo dos EUA. A estratégia que Pequim está a usar em Portugal não é nova, e insere-se num programa metódico, cumprido com rigor tecnocrático.

Feitorias do século XXI

No dia 8 de Abril deste ano, as autoridades chinesas anunciaram ao mundo que haviam estabelecido a primeira base militar fora do seu território, no Djibouti. Este facto constitui um passo natural no processo de construção do vasto império comercial da República Popular da China, cuja estratégia está a mudar face à desaceleração da sua economia e ao facto de estar a perder postos de trabalho para locais onde a mão-de-obra é mais barata, como o sudeste asiático, ou África.

Se durante muito tempo, inclusive durante a actual campanha eleitoral dos EUA, se comentou que as empresas ocidentais estavam a ser levadas para a China, a China está agora a levar as mesmas para África. O investimento de Pequim no estrangeiro superou em 2015 o investimento que o Ocidente fez na China. No total, foram 130 mil milhões de euros que Pequim gastou fora das suas fronteiras, tendo comprado empresas ocidentais para adquirir o seu conhecimento técnico ou vantagens competitivas importantes, mas também gastou milhares de milhões em infra-estruturas em locais estratégicos.

Um desses locais é o empobrecido Djibouti, que se pode considerar um dos exemplos mais completos de uma feitoria do século XXI. Desde 2012, Pequim gastou vastos milhares de milhões de euros neste pequeno país – população: 900 mil habitantes – em obras que incluem dois novos aeroportos, um porto de contentores, um caminho-de-ferro, uma central de extracção de sal, uma refinaria e numerosos oleodutos e gasodutos.

Pequim quer consolidar nesta feitoria do século XXI a exportação para a metrópole de recursos e matérias-primas que recolhe mensalmente por todo o continente africano. Um plano que se insere naquilo que os líderes da República Popular intitularam “a rota da seda marítima do século XXI”, efectivamente uma vasta rede de feitorias controladas por Pequim que irão conectar “a orla costeira da China à Europa através do Mar da China Meridional e do Oceano Indico”, segundo o documento oficial que inaugurou este programa. No total, os chineses dedicaram 40 mil milhões anuais só a este programa, o equivalente a todas as receitas correntes do Estado português orçamentadas para 2017.

O Djibouti, onde a República Popular é dona das principais infra-estruturas do território, oferece-nos uma visão daquilo em que poderão transformar-se os Açores debaixo de influência chinesa.

A missão da nova base militar em África – situada muito perto da base americana, em gesto de desafio – é proteger o tráfego comercial chinês numa das rotas marítimas mais congestionadas do planeta, e surge quase organicamente a partir das infra-estruturas ditas “civis”, mas que pertencem, através das empresas estatais, ao regime chinês. Outro objectivo é “mostrar a bandeira” no Canal do Suez, por onde passa muito do tráfego marítimo mundial.

O Presidente chinês visitou o país em Janeiro deste ano, e embora os egípcios não estejam ainda interessados em vender o canal, a República Popular vai financiar tanto a sua expansão, como a construção da cidade que se vai tornar na nova capital do Egipto. Face a estes acordos, os líderes chinês e egípcio assinaram um “memorando de entendimento” em que se prevê a construção de mais uma “feitoria”, denominada “Zona económica sino-egípcia de cooperação comercial do Suez”, que irá cobrir seis quilómetros quadrados onde estarão presentes armazéns, fábricas, centros de montagem, residências para os cidadãos chineses, zonas recreativas, entre outros. Esta extraterritorialidade foi definida como sendo um “núcleo estratégico” da “rota da seda marítima”. Em contrapartida, só por assinar o documento o Egipto recebeu um adiantamento de mil milhões de euros, e um “empréstimo” (com juros favoráveis) no valor de outros mil milhões.

Negócios da china

Além de todos os seus investimentos directos, a China, através de empresas estatais (efectivamente controladas por Pequim), está em negociações para adquirir participações em portos por todo o mundo. O que falta nos planos chineses é uma “feitoria” na Europa, e isso pode explicar a recente aproximação aos portugueses.

Já em 2014 Portugal foi o país europeu que recebeu mais investimento chinês em termos relativos, considerando o peso do dito investimento no conjunto da economia. Foram quase dois mil milhões de investimento directo, um por cento do PIB lusitano. Entre as empresas portuguesas adquiridas encontra-se a REN, que controla a rede energética nacional, bem como a seguradora Fidelidade, a BES investimento, 21 por cento da EDP e uma parte da Petrogal. Em Maio deste ano, um grupo de empresários anunciou a sua ambição de investir 10 mil milhões em Portugal, um comportamento em contra-ciclo com os restantes investidores, que estão a afastar-se do nosso País. A REN, por sua vez, contraiu um financiamento de quase mil milhões de euros com o Banco de Desenvolvimento da China, que pertence ao Estado chinês.

António Costa parece estar perfeitamente ciente dos planos chineses, tendo afirmado que “há novas perspectivas [de investimento] no sector dos portos, sobretudo com o grande projecto chinês de rota marítima”, tendo depois o referido que “uma infra-estrutura como o nosso porto de Sines pode ter um papel essencial a desempenhar”. Esta estratégia poderá ser uma forma de Portugal recuperar o investimento perdido desde que a ‘geringonça’ tomou posse. Aliás, quando ainda se encontrava de visita ao “Império do Meio”, Costa referiu que o futuro investimento chinês em Portugal proporcionaria uma “valorização da nossa economia, com criação de emprego, estabilização do nosso sistema financeiro e potenciação da capacidade de produção industrial”.

Mas os milhares de milhões de euros não chegam a custo zero. Enquanto a oposição parlamentar se distrai a discutir detalhes num Orçamento do Estado já essencialmente aprovado, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, mostrou estar atento às movimentações de António Costa. “É evidente que não há almoços grátis”, afirmou o Chefe do Estado, notando que “estas escolhas estratégicas têm contrapartidas a prazo”. E as mesmas podem ser elevadas.

Toma lá, dá cá

Embora Pequim tente apresentar os seus investimentos de forma benéfica, o certo é que nem sempre as populações locais beneficiaram com eles. Costa certamente já visualiza uma nova “inundação de dinheiro”, comparável à que durante décadas “choveu” de Bruxelas”, embora se saiba que esse dinheiro foi uma das causas da nossa actual fragilidade face às humilhações impostas pela União Europeia.

Convém, ainda, não esquecer a situação de humilhante dependência em que se encontram países como Angola, que se encontram firmemente nas mãos dos chineses. Em troca de algum “dinheiro de Pequim”, as autoridades angolanas estão a ignorar a produção local em troca da compra de produtos chineses. A China ultrapassou Portugal como principal fornecedor da antiga província ultramarina em 2015, e é bem possível que os cinco mil milhões injectados pela China no Estado angolano ajudem a explicar essa evolução.

“Estamos cada vez mais dependentes deles [chineses]. Não é amizade, é negócio, e tem de ser tratado como tal” – afirmou o presidente da Associação Industrial de Angola, José Severino, notando que não lhe parecia bem “estarmos a aumentar as importações, venham elas de onde vierem, sobretudo daquilo que nós podermos produzir no país”.

Em grande parte, o problema reside no facto de Pequim ter uma atitude neo-colonial perante os países que domina economicamente: tornam-se produtores de matérias-primas e receptáculos de produtos feitos na “metrópole”, como aliás os industriais angolanos, através do seu porta-voz, fizeram saber: “As empresas chinesas não gostam nada de comprar às empresas angolanas. Elas compram entre si e obviamente que isto não nos interessa, estamos a criar uma cadeia de dependência cada vez maior”.

O facto de a China ter “nacionalizado” uma fatia considerável da economia portuguesa e a confirmação de que a sua influência está a aumentar em Portugal de dia para dia deveriam preocupar qualquer governante, mas o “dinheiro de Pequim” parece estar a ofuscar os nossos líderes, tal como o “dinheiro de Bruxelas” (ou o “dinheiro do Brasil”, séculos antes) os ofuscou.

Por agora, o assunto está a avançar praticamente sem qualquer debate público ou parlamentar. Portugal poderá tornar-se um aliado da China sem os portugueses terem sequer um voto na matéria, algo que já foi feito aquando da adesão à União Europeia. Mas é necessário relembrar as palavras do Presidente Marcelo: “não há almoços grátis”.