Contra quase todas as previsões e sondagens, Donald Trump foi eleito Presidente dos Estados Unidos da América do Norte. O seu inesperado triunfo faz tremer o “centrão” europeu, a braços com vários actos eleitorais nos próximos meses: depois de Trump, a classe média enfurecida já não pode ser domada nem esquecida como tem sido até agora.

No dia em que Trump venceu as eleições, duas mulheres na Europa deram saltos de alegria: Theresa May e Marine Le Pen. Foram, aliás, as duas únicas vozes da Europa Ocidental a enviar parabéns genuínos ao novo líder do mundo livre. Têm razões para estarem felizes.

A primeira-ministra britânica precisava desesperadamente de um aliado face a uma União Europeia vingativa. O 45º Presidente dos EUA, mostrando mais uma vez estar a seguir os passos de Ronald Reagan, admitiu que queria reatar a relação próxima que Reagan e Thatcher em tempos tiveram. Obama, cuja atitude perante o Reino Unido e a Europa sempre foi fria, tinha desdenhado do Brexit, prenunciando que as terras de Isabel II passariam “para o fim da fila” caso votassem a saída da UE. Com Trump, os britânicos podem agora esperar um acordo muito mais favorável de comércio livre, nem que seja pelo facto de muitos elementos do Partido Conservador, incluindo Liam Fox, o ministro do Comércio Internacional, terem ligações profundas com o Partido Republicano.

Marine Le Pen, por sua vez, vê reforçada a sua oportunidade. Enquanto a generalidade dos políticos europeus entrava em pânico, uma sondagem do jornal conservador ‘Le Figaro’ revelava que 56 por cento dos leitores franceses ficaram felizes por verem Donald Trump na Casa Branca. Marine descreveu a vitória como sendo “boas notícias para o nosso país”. Também são boas notícias para ela, pois revelam o quão perto pode estar do poder.

Em Bruxelas, o ambiente ficou gelado. O Presidente do Conselho Europeu mal deu os parabéns ao novo Presidente dos Estados Unidos, apenas sinalizando, de forma implícita, que os “eventos dos últimos meses devem ser tratados como um aviso para todos aqueles que acreditam na democracia liberal”. O impopular Presidente socialista de França, François Hollande, considerou que a vitória de Trump representava a abertura de “um período de incerteza”, e Angela Merkel tentou dar uma lição de moral e ética política ao novo líder americano, em vez de simplesmente lhe mandar os parabéns pela vitória.

Os seus receios têm fundamento. No próximo dia 4 de Dezembro, os eleitores italianos vão às urnas e, se chumbarem o referendo convocado pelo primeiro-ministro socialista, então o mais provável é que sejam convocadas eleições antecipadas, o que levará à quase inevitável vitória do Movimento Cinco Estrelas, que defende a saída de Itália do Euro, e talvez da UE, um golpe ao qual o bloco certamente não sobreviveria.

Nesse mesmo dia, os austríacos regressam às urnas, na segunda volta das eleições presidenciais, depois de o anterior sufrágio ter sido anulado devido a vários casos de fraude perpetrados por agremiações de esquerda – incluindo votos colocados por menores e por não-cidadãos – e agora o candidato nacionalista enfrenta novamente o candidato da esquerda ambientalista. Para todos os efeitos, a presença destes dois candidatos já revela uma mudança: nunca os dois principais partidos do “centrão” tinham ficado de fora na segunda volta das eleições presidenciais.

Em Março, os eleitores holandeses preparam-se para entregar o cargo de primeiro-ministro a Geert Wilders, um homem com um discurso bem parecido com o de Trump, especialmente em relação à imigração islâmica. Wilders também quer realizar um referendo sobre a permanência da Holanda na União Europeia, sufrágio que os eurocratas acreditam que podem perder.

Na Alemanha, o partido Alternativa pela Alemanha, cuja ascensão representa a revolta dos eleitores contra as políticas imigratórias perseguidas por Merkel, prepara-se para conquistar uma boa fatia do parlamento federal visto que, segundo as sondagens, tem quase tantos votos como o Partido Social Democrático.

Todos estes partidos vão a jogo com um eleitorado similar ao que elegeu Trump, e que estão revoltados pelas mesmas razões. Os avisos do descontentamento na Europa há muito que são enviados para as capitais, onde são ignorados pelos políticos. Nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, realizadas em 2014, os partidos eurocépticos conquistaram um quarto da Câmara. Por outro lado, ninguém esperava que os cidadãos do Reino Unido votassem a favor do abandono da União Europeia, mas foi precisamente o que aconteceu. Ambos estes eventos foram abordados como eventos isolados, pequenos azares de percurso.

No entanto, a crise económica que se vive na Europa é bem mais severa do que a que se vive nos EUA. Há quase uma década que a economia europeia se encontra estagnada. Em países como Portugal, Itália e França, os rendimentos nunca recuperaram desde a última recessão. Os únicos países que prosperam na União Europeia são a Alemanha e o Reino Unido, e um deles está a dirigir-se para a porta de saída. Foi também a Alemanha que abriu incondicionalmente, sem sequer debater com os restantes Estados-membros com os quais tem acordos de fronteiras abertas, as suas portas a milhões de imigrantes ilegais. Entretanto, o terrorismo islâmico, bem como o seu encobrimento e a frouxa resposta das autoridades abalaram qualquer sentido de segurança que os europeus ainda tinham. Mas a vitória inesperada de Trump mostra como as maiorias silenciosas podem estar próximas da vitória: tanto na América do Norte como no continente europeu.

Efeito ‘boomerang’

Hillary Clinton entrou no dia 8 de Novembro absolutamente confiante em que seria a 45º Presidente dos Estados Unidos, e a primeira mulher a ocupar o cargo. Ninguém na sua vasta corte duvidava do resultado final. E assim se manteve a “Clintonlândia” até ao último momento.

A imprensa ajudou a cimentar essa ideia, criando uma imagem de Trump que pensavam fatal para a candidatura “politicamente incorrecta”. As propostas do candidato republicano eram sistematicamente classificadas como ridículas, como o controlo da imigração ilegal mexicana ou a promessa de resposta firme às desonestas políticas económicas chinesas. Principalmente, a imagem que foi construída foi a de um imbecil, e todos aqueles que discordaram desta ideia foram incluídos no que Clinton denominou como “cesto de deploráveis”. Milhões de americanos de classe média e baixa foram enxovalhados pela sua escolha democrática, outros tiveram de esconder a sua opção com medo de represálias sociais dos activistas de esquerda.

A fúria dos derrotados esteve à vista durante a última semana. Face à vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais, os activistas de esquerda reagiram com toda a ‘graciosidade’ de uma claque de futebol fortemente alcoolizada. Acicatados por “controleiros” marxistas – que não perderam tempo em distribuir cartazes e panfletos do movimento “Alternativa Socialista” – estes jovens saíram às ruas, destruíram propriedade, agrediram apoiantes do adversário (incluindo idosos) e, numa demonstração do seu “patriotismo”, queimaram bandeiras dos Estados Unidos. A sua falsa dedicação à democracia fica bem ilustrada pelo pedido feito ao Colégio Eleitoral dos EUA para não eleger Trump, um pouco com os radicais britânicos continuam a exigir um segundo referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia. Países diferentes, métodos iguais.

No entanto, a máquina mediática continua a dar a estes activistas uma voz desmesuradamente grande face ao eleitorado que verdadeiramente representam. Hillary Clinton apenas conquistou 55 por cento do voto jovem, muito menos do que os democratas costumavam obter. Donald Trump reuniu 40 por cento dos votos das pessoas com menos de 25 anos, e o resto foi em grande parte para Gary Johnson, o candidato libertário cuja visão económica se aproxima mais dos Republicanos.

Nos EUA, o Partido Democrático há vários anos que abandonou a classe trabalhadora e a classe média, verdadeiras construtoras da prosperidade daquele país. O antigo Presidente Bill Clinton, que foi eleito com os votos destas pessoas, terá avisado Hillary para não os ignorar. Mas a “corte imperial” da candidata recusou dar-lhe ouvidos: havia a certeza absoluta de que os cidadãos dos Estados da chamada “cintura de ferrugem” (assim chamada pela quantidade de fábricas abandonadas) iriam votar no Partido Democrático.

Os democratas, no entanto, preferiram apostar em “causas fracturantes”, ao pior estilo do Bloco de Esquerda português. Até ao último minuto, a campanha de Clinton continuou a discutir o feminismo, os direitos dos ditos “LGBTQ” (uma sigla para os vários grupos homossexuais que apenas fica maior e mais complexa com os anos) e os direitos das minorias. No processo, os problemas da maioria passaram ao lado: a desindustrialização, o desemprego, a destruição da família, a criminalidade, a imigração ilegal.

Donald Trump, por sua vez, foi o primeiro candidato em décadas a discutir abertamente as dificuldades que estes grupos enfrentam, e eles deram-lhe um mandato para ser Presidente. E um dos Presidentes mais poderosos das últimas décadas, visto que o seu partido conquistou maiorias absolutas em ambas as Câmaras do Congresso e controla os Executivos de dois terços dos Estados norte-americanos. O sucesso da aposta nas “causas fracturantes” teve um resultado de ‘boomerang’: há 90 anos que os democratas não tinham tão pouco poder dentro do país.

Colapso socialista

Também na Europa a tendência dos partidos socialistas é para o colapso eleitoral. Tendo optado pelas “causas fracturantes”, perderam o apoio das classes médias e trabalhadoras, que transferiram o seu apoio para partidos conservadores, nacionalistas ou radicais de esquerda.

No Reino Unido, por exemplo, é o Partido Conservador que defende uma política de harmonização das relações laborais que dê mais representação aos trabalhadores nas empresas. Entretanto, o dito Partido Trabalhista alterna entre o marxismo do seu líder e o “politicamente correcto” dos europeístas londrinos – ambos desligados das realidades mais prosaicas da vida real.

Em Espanha, o PSOE está preso numa luta sem tréguas com o Podemos, enquanto o único líder preocupado em governar é o conservador Mariano Rajoy.

Na Holanda, os votos no partido eurocéptico e anti-islamização provêm em grande parte do colapso do Partido Trabalhista, que passou de 25 por cento dos votos para apenas 10. É expectável que praticamente desapareça nas próximas legislativas.

Em França, o Partido Socialista emergiu derrotado das eleições regionais após ter falhado no seu objectivo de reduzir de forma significativa o desemprego. Muitos dos seus eleitores também se ressentem de o país estar controlado pela poderosa Alemanha. Tendo grande parte do seu eleitorado trabalhador fugido para a Frente Nacional, este ano os socialistas não sonham sequer em chegar à segunda volta das eleições presidenciais.

Le Pen sorri. Face ao colapso do Partido Socialista, o seu adversário será sempre um candidato da área conservadora. E num embate com uma possível versão francesa de Hillary Clinton, a eleição nos EUA mostra que Le Pen provavelmente poderá sair vencedora no actual clima político. Mas a líder da Frente Nacional não se encontra nem de longe isolada na insurreição política.

A irrelevância dos socialistas deixa o poder na Europa a ser disputado por conservadores anti-Europa, como o Partido Popular Dinamarquês, conservadores pró-Europa, como a União Democrática Cristã de Merkel, nacionalistas como a Frente Nacional francesa e radicais de esquerda como o Syriza e o Podemos. Pelo menos dois destes grupos estão hoje a preparar a sua procissão a Washington. Theresa May, primeira-ministra do Reino Unido, já é a primeira convidada para aparecer na Casa Branca de Trump a fim de se reatar a “relação especial”. Certamente será recebida na presença do busto do compatriota Winston Churchill. Busto esse que Barack Obama, num gesto depreciativo para com o histórico líder, mandou retirar da sala oval.

Em Bruxelas, Berlim e Paris, os resultados da governação Trump vão ser analisados ao detalhe. Apesar de alguns “iluminados” terem previsto uma imediata recessão após uma vitória de Trump, os economistas estão a rever os planos do 45º Presidente dos Estados Unidos, e a dar a sua aprovação. Afinal, o falecido Ronald Reagan enfrentou mais do que uma vez o Japão para proteger as indústrias americanas, e os anos 80 foram um período de enorme prosperidade para os Estados Unidos, pelo menos antes de o acordo NAFTA, da autoria de Bill Clinton, ter levado a que muitas dessas fábricas abandonassem o país.

Armado com o tesouro de um dos países mais ricos do planeta, Trump planeia reconstruir a infra-estrutura dos Estados Unidos, corrigir o desastroso programa de saúde de Obama (que fez disparar em mais de 100% os prémios dos seguros de saúde da classe média) e diminuir os punitivos impostos sobre o capital implementados pelo Partido Democrático, de forma a captar dinheiro americano que se encontra inutilizado fora do país. Caso tenha sucesso, irá dar ânimo aos europeus que estão fartos de uma década de políticos ineficazes. No momento do voto, quem elege políticos é a maioria silenciosa, que começou a gritar bem alto.