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Para muitos portugueses, o dia da Restauração é um dia fundamental para a Nacionalidade. Para outros, é pouco mais do que um feriado. E dir-se-ia que a maioria nem sabe o que se celebra.

Esta Quinta-Feira é novamente dia feriado: celebra-se a gloriosa revolução que garantiu a independência de Portugal, pelo menos até à entrada na União Europeia, que, tal como o domínio espanhol, não teve sanção popular. Era o feriado civil mais antigo em Portugal, celebrado desde os dias da monarquia constitucional, até que Pedro Passos Coelho, numa decisão que o presidente da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, José Alarcão Troni, considerou revelar “falta de sentido de Estado, falta de patriotismo, e falta de valores nacionais”, decidiu acabar com ele. Hoje está de volta, mas longe vão os dias em que era possível Vera Lagoa reunir 150 mil pessoas nesta data numa celebração patriótica e de desafio aos “Vasconcelos” dos seus dias. Infelizmente, para lá do facto de ser um dia em que os portugueses se podem levantar tarde, poucos sabem porque é que o dia tem alguma relevância.

Longe de cerimónias, figuras oficiais e especialistas, O DIABO perguntou directamente a alguns portugueses comuns, jovens e velhos, qualificados e não-qualificados, se sabiam sequer por que razão se celebra o dia 1 de Dezembro. “Não me lembro”, “não estou a ver” e “não faço mesmo a menor ideia” foram as respostas mais comuns que O DIABO encontrou esta semana. Mais de 70 por cento de todas as pessoas abordadas pelo nosso jornal não tinham conhecimento do significado da data, e cerca de 20 por cento tentaram adivinhar.

Diga-se que estas respostas não surpreendem pela novidade. Por volta das “grandes datas” é costume as televisões andarem à cata de “vítimas” para lhes perguntar o óbvio, e quase sempre o resultado é negativo. Nestas situações, não é invulgar usar-se a desculpa “a câmara confunde” para justificar a falta de conhecimento histórico, ou então “eles escolhem de propósito para só aparecerem os piores casos”. No entanto, O DIABO não notou qualquer diferença quando fez a pergunta directamente, ou quando abordou a questão de forma mais descontraída, no decurso de outra interacção.

Esta realidade afecta jovens e mais velhos de forma igual, embora alguns dos mais idosos sejam muitas vezes aqueles que têm a melhor ideia da data, nem que tal advenha do antigo ensino do Estado Novo, em que se dava primazia aos heróis nacionais e às grandes datas. Também são geralmente quem ainda mantém vivo o fogo e a memória da data.

Entre os mais novos, os poucos que tinham noção do que representava a data apenas se lembravam porque a “stora” (o termo “professora”, pelos vistos, irá desaparecer na próxima revisão do odiado Acordo Ortográfico) tinha falado, geralmente por alto, do tema pelo meio de um currículo dado à pressa.

Pelos vistos, esta é uma memória que não ficou presente para sempre: entre os indivíduos de meia-idade e os jovens adultos usa-se preferencialmente a frase “falámos disso na escola, mas já não me lembro”, notando que “é uma coisa de que nunca se fala em lado nenhum”. De facto, a cultura portuguesa largamente desapareceu das bancas de jornais, dos cinemas e da televisão, em prol da “cultura” importada e da demência futebolística.

“O 1 de Dezembro… teve algo a ver com a República, não foi?” – eis uma resposta que O DIABO também encontrou de forma estranhamente regular. O caso mais caricato aconteceu quando um inquirido insistiu a pés juntos em que o 1º de Dezembro dizia respeito à instauração da República, e conseguiu convencer várias pessoas à sua volta de que estava correcto. Outro ainda tentou compor a sua história, alegando que a revolução republicana tinha ocorrido no dia 5 de Outubro, mas só depois é que se tinha “implantado”…

Um dos abordados pensava que no 1º de Dezembro se celebrava o Dia de Todos os Santos, enquanto outro aventava que o 1º de Dezembro “é o dia daqueles descontos muito grandes, não é?” – obviamente confundindo a data da restauração da independência de Portugal com a “black friday” que encheu os hipermercados portugueses.

A maioria dos jovens, no entanto, até mostrou ter vontade de saber mais sobre o tema, e sobre os vários conflitos bélicos em que Portugal se envolveu, bem como os heróis nacionais, tema que consideram que não é dado de forma interessante ou sequer aprofundada na escola. No entanto, a data irá passar sem grande aparato, visto que o feriado já foi restituído, tendo assim deixado de servir como arma de arremesso aos políticos.

Mesmo depois de informados sobre o exacto significado da data, inúmeros inquiridos mostraram desapego em relação aos valores tradicionais do 1º de Dezembro: infelizmente, o “derrotismo” teima em não abandonar a cultura portuguesa. “Para isto mais valia terem cá ficado os espanhóis” – foi um dos comentários mais comuns. Num País em que, durante a fase mais negra da bancarrota nacional, mais de metade dos habitantes confessou ver de forma positiva uma união com a Espanha, este tipo de atitudes mostra como o espírito do 1º de Dezembro é mais necessário hoje do que nunca.

Note-se que quase todas as pessoas com quem O DIABO conversou concordaram firmemente em que é “importante” que a data deva continuar a ser um feriado, mesmo não sabendo a que se refere. Que o desconhecimento histórico nunca trave um dia de folga.