Um cançonetista português que ganha o festival da Eurovisão, uma cidade do Leste com calçada à portuguesa, Paris inundada de restaurantes portugueses, Londres rendida à Língua portuguesa, a Europa invadida por vinhos do Alentejo, chouriços, atum dos Açores, bacalhau à Zé do Pipo, sapatos de couro, terrinas das Caldas em forma de couve, andorinhas de loiça nas paredes…

Não é só na música ligeira, nos pastéis de nata, nas latas de sardinha. Mas também é. Na maior parte das vezes, não é por razões fortes, ponderosas, meditadas – mas pela via rápida dos sentidos. Começa, em alguns casos, por Fernando Pessoa e acaba na azulejaria. Noutros, chega pela via do folclore e requinta-se no calçado.

O que é certo é que, por uma razão ou outra, muitos europeus dos nossos dias chegam à cultura popular portuguesa e já não querem sair. Ficam fãs e amigos. Visitam Lisboa e Fornos de Algodres. Aprendem a Língua. Votam em Salvador Sobral no festival da Eurovisão e fazem dele um herói instantâneo. Quase doméstico.

Chamem-lhe uma moda – passageira, por natureza. Chamem-lhe uma graça – volúvel, por definição. Nesta civilização “light” em que vivemos (e não há outra à vista, embora a sintamos latejar no subterrâneo da alma nacional), os mitos de baixa densidade nascem como tortulhos e desaparecem sem um vagido.

No caso de Portugal, contudo, há uma persistência. Dir-se-ia que este nosso cantinho à beira-mar plantado, hoje reduzido à dimensão ‘mignone’ de uma curiosidade, caiu no goto dos europeus.

Já lá vai o tempo em que uns senhores sisudos da Universidade de Uppsala, de crânios debruçados sobre séculos de literatura e ordenações jurídicas, cientes de uma história de dimensões universais, resumiam Portugal a uma erudição de consoantes impronunciáveis.

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