A campanha eleitoral em Sintra está a ser marcada por uma questão pessoal: o percurso político do candidato socialista, antigo fundador do CDS e ex-defensor dos patrões da Indústria.

Sintra sociedade sem classes? Monserrate a caminho da gestão socialista? Maddona e o proletariado a tomarem conta do Lourel? A aliança operário-camponesa instalada a banhos na Praia das Maçãs? Se acreditássemos nas coisas espantosas que os homens dizem, todos estes cenários seriam plausíveis – agora que estamos à beira de umas eleições autárquicas em que um dos principais concorrentes à Câmara sintrense é o actual autarca, Basílio Horta, carente de mais um mandato.

Mas O DIABO anda cá há muitos anos e já não acredita nas coisas espantosas que os homens dizem. Basílio Horta, por exemplo.

Basílio Adolfo de Mendonça Horta da Franca já tinha 31 anos feitos quando, em 19 de Julho de 1974, ajudou a fundar o CDS: não se pode dizer que tenha sido levado por um impulso irreflectido de adolescente. Jurista com Curso Complementar da Universidade de Lisboa, encetara uma circunspecta carreira em cargos públicos e posicionava-se, nesse momento, como um dos três dirigentes máximos da Direita parlamentar portuguesa.

Foi nessa presunção, pelo menos, que muitos portugueses lhe deram o seu voto, ao longo de anos, elegendo-o deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República. Nessa qualidade foi ministro do Comércio e Turismo dos II e VII Governos Constitucionais, ministro de Estado e Adjunto do Primeiro-Ministro do VII Governo Constitucional e ministro da Agricultura, Comércio e Pescas do VIII Governo Constitucional. Foi vice-presidente e secretário-geral do CDS, vice-presidente da Assembleia da República e membro do Conselho de Estado em representação do seu sector de opinião. Tendo sido secretário-geral da Corporação da Indústria nos tempos da outra senhora, foi-lhe entregue o cargo de director-geral da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), o que pressupõe a confiança do patronato industrial, nesses tempos apodado de “fascista” e “monopolista”. E em 1991, coroando uma carreira de serviço à Direita e à Propriedade Privada, foi candidato a Presidente da República com o apoio do CDS.

Mas em 2001, aos 58 anos, Basílio Horta decidiu mudar de vida. Começou por abandonar o CDS para aderir ao Partido Socialista, cujos princípios doutrinários tinha passado a vida a combater. Depois, pela mão de José Pinto de Sousa, mais conhecido pelo nome de um filósofo da Antiguidade, Horta foi alcandorado a presidente do Conselho de Administração da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP).

Nas eleições legislativas de 2011 já encabeçou as listas socialistas por Leiria, sentando-se de seguida num Parlamento que durante décadas se habituara a vê-lo na bancada oposta (e a única resposta que conseguiu dar a um outro deputado que lhe apontava o vira-casaquismo foi chamar-lhe “ordinário”).

Em 2013 candidatou-se, de novo com o apoio dos socialistas mas com o risível estatuto de “independente”, à presidência da Câmara de Sintra (tendo na sua Comissão de Honra os ex-Presidentes Jorge Sampaio e Mário Soares e ainda Diogo Freitas do Amaral, outro pássaro de arribação para o qual não temos espaço esta semana). É em Sintra que tem estado e é lá que agora quer continuar a estar, candidatando-se a novo mandato.

Com uma pequena diferença: de neo-socialista discreto, Basílio Horta passou já a defensor furioso do punho cerrado. Há dias, ao anunciar publicamente que voltaria a ser candidato a Sintra, Horta afirmou que o faz “com honra” por ser apoiado pelo PS. “Não escondo o símbolo do meu partido, eu sou independente, mas não escondo, assumo-o com clareza, com honra de ser apoiado por esse grande partido da liberdade que é o Partido Socialista”.

Perante tudo isto, é inevitável que a campanha eleitoral autárquica em Sintra esteja a ser marcada pela questão da coerência pessoal. Marco Almeida, o concorrente mais directo do neo-socialista Horta, nem precisa de falar sobre o assunto: o facto de a sua candidatura ser apoiada pelo PSD e pelo CDS é, em si mesmo, uma “bofetada de luva branca” no sinuoso fundador do CDS. Mas Pedro Ventura, candidato comunista sem qualquer hipótese de vitória e sem nada a perder, não precisa de usar luva branca. Recorrendo à mais prosaica luva de boxe, disse há dias: “Nós não procuramos os nossos candidatos no mercado dos ‘vira-casacas’, dos ‘troca-tintas’, ou no mercado do estrelato político mediático. Os nossos candidatos não estão aqui para se servirem, mas para servirem as populações”.

Por estas e por outras, a candidatura de Basílio Horta em Sintra está longe da vitória certa. Já no mandato que agora termina, Horta teve de negociar com o PSD e a CDU, entregando-lhes sete Vereações a troco de uma paz autárquica que lhe permitisse governar o concelho. Simplesmente, o discurso dos comunistas mudou – e os social-democratas juntaram-se ao CDS no apoio a Marco Almeida (que nas últimas eleições, recorde-se, sem qualquer apoio partidário, ficou a uma distância de apenas 1.738 votos da vitória).

A par das problemáticas candidaturas em Braga, dilaceradas por questiúnculas pessoais e internas, a batalha por Sintra, o segundo concelho mais populoso do País, ameaça trazer ao PS grandes amargos de boca.

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