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FERNANDO DE CASTRO BRANDÃO

Embaixador de Carreira Jubilado

Em 1938, o Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, conseguiu pôr fim às graves dificuldades financeiras em que viviam a nora e a neta de Camilo Castelo Branco, afligidas “pela mais negra das misérias”. Duas décadas mais tarde, o governante salvou da dispersão um precioso lote de cartas do grande escritor de S. Miguel de Seide.

É indubitável que Oliveira Salazar foi leitor de Camilo Castelo Branco. Na sua livraria, hoje dispersa e desaparecida, contavam-se vários volumes do escritor. Sem embargo, não conheço dele referências específicas a qualquer obra do consagrado autor.

Curiosamente, em dois tempos da vida do governante registam-se documentados episódios que o ligam à memória de Camilo.

O primeiro remonta a 1936. Em Fevereiro deste ano, Raquel Castelo Branco escreve ao Presidente do Conselho uma carta que é um lancinante apelo a uma ajuda financeira. A remetente apresenta-se como neta da grande figura das Letras Portuguesas. Com mais seis irmãos, é filha de Nuno Plácido Castelo Branco que se ligara, por volta de 1884, a Ana Rosa Correia. Com a morte do pai (1896) a numerosa prole fica em sérias dificuldades económicas.

Ao ser conhecida publicamente a pungente situação, não tardaram a surgir campanhas envolvendo intelectuais, admiradores anónimos e, sobretudo, jornalistas, que dela fizeram sistemático eco.

Ainda que muito lentamente, esse esforço colectivo acabou por colher resultados. A Câmara dos Deputados, em 1906, aprovava o projecto de lei de 13 de Dezembro, que concedia ao carecido agregado familiar uma pensão anual de 500$000 (quinhentos mil réis).

O alívio, porém, não será duradouro. Por força dos termos do decreto, aquele subsídio termina em 1914, quando o mais novo dos netos vivos atinge a maioridade.

Entretanto, ao longo destes anos, à excepção de Raquel, que ficara solteira e a amparar a mãe, todos os demais irmãos haviam encontrado soluções, embora muito modestas, para as suas vidas.

E a vida atormentada de uma penúria crescente abatia-se de novo sobre ela. Em 1925, a conselho de amigos, tentará granjear alguns proventos pela publicação de um livro. Assim, sob o título “Trinta Anos em Seide”, Raquel dá à estampa “documentos inéditos camilianos, que guardava para recordação íntima e exclusiva…”.

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