Planos técnicos que foram metidos na gaveta. Falta de coordenação entre os serviços de emergência. Uma regionalização encapotada e ideológica que pode ajudar à tragédia na floresta. Caos e negociatas na gestão dos meios aéreos. Extinção da Guarda Florestal. De tudo isto se fez o dramático início da “época dos fogos 2017”. Ainda o incêndio de Pedrógão ardia e já os bombeiros da assessoria de imprensa tentavam apagar o fogo da opinião pública, mas é impossível fugir ao facto estatístico de que Portugal arde hoje mais do que nunca na sua história, e o povo português começa a exigir responsabilidades à classe política por décadas de má gestão.

Todos os anos Portugal é flagelado por vastos incêndios, todos os anos se discute a questão, todos os anos a sociedade aplaude o sacrifício dos bombeiros e, sem excepção, todos os anos a classe política pouco ou nada faz para diminuir a intensidade dos incêndios.

Os fogos à escala que Portugal enfrenta hoje não são uma inevitabilidade histórica, ao contrário do que alguns sectores da sociedade nos querem ‘vender’. Segundo estimativas oficiais, em Portugal ardiam em média entre 5 mil e 10 mil hectares por ano nos anos entre 1950 a 1975. Em comparação, só o incêndio de Pedrógão Grande e Góis, que vitimou dezenas de pessoas, consumiu mais de 50 mil hectares de floresta, o equivalente a vários anos de incêndios de décadas anteriores.

Desde 1975 que a situação dos incêndios em Portugal se descontrolou por completo. Só nesse fatídico ano, em plena instabilidade do PREC, arderam 89 mil hectares e nos anos seguintes as médias não pararam de aumentar. Nos anos 80 entrámos na era dos grandes fogos, e novos ‘recordes’ têm sido sucessivamente ultrapassados: em 1985 superou-se os 100 mil hectares ardidos num ano e em 2003 alcançou-se o ‘recorde’ de 425 mil hectares.

A mortalidade entre os civis, essa, também não pára de aumentar. Em 2003 morreram 18 pessoas, o País chorou e a classe política prometeu acção, mas efectivamente nada fez. E a tragédia deste ano é a consequência lógica tanto das suas más decisões como da sua inexplicável inacção.

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