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Planta geralmente associada à droga, quando cultivada para usos industriais pode produzir bastante riqueza. E, no entanto, quase não é explorada em Portugal.

A primeira coisa a esclarecer, e a mais importante, é que não estamos a falar da mesma planta de que os “janados” tanto gostam. Na realidade, quando plantado para usos industriais, o cânhamo não tem propriedades psicotrópicas. Estas só existem na variedade cannabis, que possui tetraidrocanabinol – a droga entorpecente usada no fabrico do haxixe.

Na sua variedade comum, esta planta tem, pelo contrário, inúmeras aplicações úteis. E os portugueses sabem-no desde a época da Expansão, quando usavam a fibra do cânhamo no fabrico de cordas e velames.

À medida que a poderosa armada lusitana crescia em dimensão, a necessidade de garantir fornecimento estável aumentou de tal forma que o Rei D. Manuel deu ordens para a plantação sistemática de cânhamo, estendendo sobre ele o manto protector do monopólio régio. De facto, a produção e transformação desta planta esteve presente desde o início até ao fim do Império Português.

Por volta de 1970 ainda se viam no Ribatejo enormes plantações de cânhamo, até porque Portugal nessa época ainda não tinha desenvolvido o vício de importar tudo aquilo de que precisa, em vez de investir no produto interno.

O regime de 1974 acabou com os incentivos que o Estado Novo dava a esta cultura, e impôs legislação restritiva de forma a pôr fim à sua produção em Portugal. Mataram e denegriram uma indústria com centenas de anos.

Em anos mais recentes, por todo o País se tentou restabelecer a produção desta planta, por razões muito práticas: há cada vez mais aplicações para o cânhamo, e ele adapta-se extremamente bem ao nosso clima.

Muitos usos

O Canadá rejeitou as pressões norte-americanas e, hoje, as suas vastas plantações de cânhamo rendem milhares de milhões de dólares todos os anos. Na União Europeia, os franceses são os maiores produtores, com enormes apoios de Bruxelas, que já compreendeu as vantagens desta cultura.

Actualmente, cada tonelada de fibra em bruto rende mais de 1.500 euros, mas quando transformada vale muito mais, sendo das culturas fibrosas mais lucrativas.

Portugal tem anualmente “direito” a uma quota de produção de 1.750 toneladas. Ou seja: a preços actuais, só a produção em bruto renderia quase 3 mil milhões para o bolso dos portugueses e, por arrasto, do Estado. A sua transformação renderia muito mais.

O cânhamo é pouco exigente em termos de manutenção, como reconhece um documento oficial do Estado português: a planta “não necessita de pesticidas” e “a técnica cultural é simples e desenvolve-se quase sem trabalhos de manutenção”.

Os técnicos do Estado ressalvam também que “é uma cultura que não é exigente em água”, ou seja, está bem adaptada à situação agrícola nacional.

Depois de colhido, o cânhamo serve bem para o seu uso original e histórico: têxteis a preços razoáveis. Mas hoje em dia também é reconhecido como um bom material de construção, servindo, por exemplo, como um isolante, substituindo soluções artificiais (e por vezes cancerígenas).

Na produção agro-pecuária, o cânhamo pode ser usado como ração para o gado – uma grande vantagem para Portugal, que precisa de poupar os prados. Pode também ser usado para fabricar papel, evitando assim o abate de mais florestas. Por fim, os restos, após a transformação podem ser usados como fertilizante.

Independência energética

O uso mais inovador que pode ser dado ao cânhamo é na produção de combustível, após ser convertido em biodiesel ou biogasolina.

No caso do nosso País, onde o gás e o petróleo têm de ser importados, uma rede de plantações similar à do tempo das Descobertas poderia assegurar a nossa independência energética em relação ao exterior, bem como reduzir o nosso deficit de pagamentos na balança comercial, e ainda garantiria preços de combustíveis mais baixos e menos vulneráveis a especulação ou flutuações.

Mas a maior vantagem em relação a outras energias limpas é que não existe necessidade de se adquirir automóveis novos: os motores clássicos podem ser facilmente convertidos para o novo combustível.

Se depois poderiam circular na Baixa da cidade de Lisboa é um mistério, pois, segundo as novas normas camarárias, um carro anterior a 1996 com emissões zero é mais poluente do que um supercarro novo de 12 cilindros…

A ideia não é recente: os primeiros protótipos do Ford Modelo T, o primeiro carro a ser fabricado em série, usavam biocombustível. Henry Ford, conhecido capitalista e pragmático, considerou que, tendo em conta a imensa produção agrícola norte-americana, o biocombustível garantiria uma fonte mais segura e barata de energia para os seus carros.

Conspiração americana

Ford, tal como outros industriais, foi travado por um poderoso cartel da época, liderado por oligarcas como Andrew Mellon, o maior banqueiro americano dos anos 20 e 30, e William Randolph Hearst, o magnata da imprensa dos EUA.

A oligarquia, que dominava a indústria do papel e a nascente indústria do petróleo, lançou uma vasta campanha mediática e conseguiu manipular a opinião pública, associando maldosamente o inocente cânhamo industrial à variedade cannabis usada para fabricar droga.

Em 1937, ambas as plantas foram proibidas nos Estados Unidos e, graças ao papel norte-americano de domínio mundial alcançado após a II Guerra Mundial, em breve o cânhamo começou a ser proibido em todo o mundo de influência ‘yankee’.

Em Portugal, os apoios que o Estado Novo dava a esta indústria foram retirados por pressão americana, à qual o regime abrilista cedeu com facilidade. A última fábrica de transformação de cânhamo fechou nos anos 90, acompanhando o desmoronamento da nossa industria têxtil.

Regeneração agrícola

O potencial do cânhamo na dinamização da nossa agricultura, actualmente quase completamente abandonada por opção da III República, é enorme, dada a quantidade de empregos bem pagos que pode vir a gerar.

A União Europeia, actualmente, subsidia a sua produção, dando uma ajuda entre 90 a 200 euros por cada tonelada de fibra produzida. Como referido acima, Portugal possui uma larga quota de produção.

E, no entanto, o próprio Estado admite que não tem qualquer conhecimento de produção ou transformação de cânhamo em Portugal desde 1999.

A causa reside também no excesso de regulamentação.

Apesar de a planta não ter características psicotrópicas, um agricultor que se proponha explorar o cânhamo precisa de autorização prévia da Policia Judiciária e de licença passada pelo INFARMED – cuja velocidade burocrática ficou clara quando uma senhora perdeu tragicamente a vida devido à incapacidade desta entidade para lhe fornecer a tempo e horas o medicamento de que precisava.

As barreiras à produção são, portanto, elevadas. Retirá-las talvez fosse uma boa “reforma estrutural” a fazer, mas o Estado, independentemente da cor política do Governo reinante, continua a desprezar a produção nacional de uma planta altamente lucrativa.

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