A vida não está fácil em Helsínquia: a dívida pública aumenta, a austeridade já dói, o ‘rating’ está a baixar e a economia continua estagnada. Fazer futurologia é perigoso, mas se a Finlândia pedir um resgate, não deveria Portugal exigir termos tão draconianos como os finlandeses pediram para nós em 2011?

“A França é a França”. Foi com este extraordinário “argumento” que Jean Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia, tentou explicar por que razão a França não seria sancionada por não cumprir os termos do Pacto de Estabilidade. Parece que na União Europeia também se pode dizer que “a Finlândia é a Finlândia”, pois este país nórdico, que teve uma das posições mais duras quanto às medidas de austeridade a aplicar a Portugal há cinco anos, quebrou mais do que uma vez os limites do Pacto de Estabilidade e apenas recebeu ligeiros avisos da UE, sempre em surdina.

A dívida total da antiga colónia russa rompeu a barreira dos 60 por cento do PIB. É a primeira vez em décadas que tal acontece. Aliás, a dívida total da Finlândia duplicou em relação a 2008, ano em que a crise mundial começou. Em 2008, o pequeno país nórdico devia 63 mil milhões de euros e acabou 2015 a dever 130 mil milhões.

Apesar de apresentadas como duras, a verdade é que as medidas do Governo finlandês nem por sombras se aproximam da dureza draconiana das medidas exigidas a Portugal. E a velocidade do aumento da dívida não pára de aumentar, ao ritmo de 9 a 10 mil milhões de euros por ano. O país superou o limite do défice em 2014, e apenas conseguiu estabilizá-lo em 2015 graças a várias medidas de emergência que, no entanto, deixaram o Governo à beira de cair. Ameaça de sanções? Nem uma.

Adeus ao “triplo A”

As agências de ‘rating’, no entanto, mostraram menos capacidade de ignorar os graves problemas deste país. No dia 3 de Junho, a Moody’s retirou o ‘rating’ “Triplo-A” à Finlândia, sendo a última agência a tomar esta medida. A Fitch reduzira o ‘rating’ finlandês em Março, e a Standard & Poor’s fora a primeira a fazê-lo, tendo tomado essa medida logo em 2014. Durante as negociações do resgate a Portugal, era costume o Governo finlandês gabar-se dos seus ‘ratings’ “perfeitos”. Hoje, nenhuma das três grandes agências acredita que a dívida da Finlândia vá parar de crescer nos próximos anos.

Os juros da dívida, por agora, estão relativamente estáveis e baixos, devido às políticas do BCE – políticas de que Portugal não beneficiou quando foi vítima de um aumento descontrolado dos juros sobre a dívida soberana – mas mesmo que nada mude, a dívida não pára de crescer. “Não é tão mau como o caso da Grécia, mas é apenas uma questão de tempo” – foi o prognóstico do jornal inglês ‘The Guardian’ no inicio do ano passado, quando a Finlândia ainda tinha dois ‘ratings’ “triplo-A”.

Desde então, o país não inverteu curso, mas o cenário económico internacional piorou bastante. No horizonte acastelam-se ameaças económicas que podem fazer descarrilar a Finlândia e obrigar o vulnerável país a pedir ajuda externa, mesmo que tal ainda pareça um cenário distante. No caso português, o colapso também apanhou os portugueses de surpresa.

Se o país pedir ajuda externa, que condições deverão ser-lhe impostas? Talvez os mesmos que Portugal recebeu, ou seja, termos absolutamente draconianos.

Hipocrisia nórdica

Nunca iremos saber qual o impacto total do memorando inicial que foi negociado – e que os finlandeses acharam “generoso” – pois o Governo português de então, acusado de “ir além da troika”, nunca o aplicou na sua totalidade. Aliás, recordando as palavras do antigo, e muito vilipendiado, ministro das Finanças, Vítor Gaspar: “o Governo propôs a revisão dos limites do programa para o saldo orçamental”. Caso não o tivesse feito, o Estado teria sido forçado a reduzir o défice de 2013 para 3 por cento, em vez dos 4,5 por cento que negociou.

O objectivo para 2015, na verdade, era 1,9 por cento, valor que ainda não conseguimos alcançar à data que este texto está a ser escrito. Valor, aliás, que o próprio Governo finlandês não consegue atingir. Os custos sociais e económicos teriam sido tremendos caso se tivesse aplicado o remédio que a Finlândia preconizava para Portugal.

“A Finlândia, em tempos o orgulho da Zona Euro, é um agora um fracasso” – escreveu o ‘The New York Times’ na mesma edição em que elogiava o progresso que Portugal fez na sua economia e no seu turismo. O desemprego finlandês chegou aos 10 por cento, pouco longe dos valores portugueses, e a economia está a crescer mais lentamente do que a da Grécia, isto após três anos seguidos de profunda recessão. A balança comercial finlandesa, da qual o país se gabou em tempos, passou a terreno negativo. Sem Nokias para vender, as exportações caíram 11 por cento no primeiro semestre de 2016.

Nem parece o mesmo país onde, nas eleições de 2011, Portugal era um dos temas eleitorais mais importantes – na verdade, um “bombo da festa” que parecia render votos. Os políticos finlandeses foram exímios a criticar Portugal pela sua falta de reformas estruturais em 2011; hoje, os mesmos políticos não conseguem aplicar no seu próprio país as reformas estruturais que sugeriram para o nosso.

O défice ficou-se pelos 2,7 por cento no ano passado, abaixo das metas do pacto de estabilidade, mas por pouco. Manter as contas públicas em ordem está a revelar-se uma tarefa hercúlea: as despesas do Estado representam 58 por cento do PIB, um dos valores mais elevados do mundo. Sem crescimento económico significativo, a austeridade é a única solução. Mas os finlandeses estão a descobrir que o remédio que impingiram a Portugal é muito amargo.

Dói, não dói?

Os custos de mão-de-obra na Finlândia são 10 a 15 por cento mais elevados do que os dos seus parceiros comerciais, e o Fórum Económico Mundial considerou que a Finlândia tem um sistema de negociação de salários dos mais rígidos do mundo. As medidas propostas chocaram os finlandeses: cortes nos feriados (passam de 15 para 13, os mesmos que em Portugal), aumento das horas de trabalho, redução dos subsídios de férias e congelamento de salários.

As empresas também vão deixar de ser obrigadas a negociar em concertação social, numa Finlândia que é um dos países com políticas salariais menos flexíveis do mundo. Previsivelmente, os finlandeses saíram à rua e paralisaram o país com greves, o mesmo que em tempos criticaram aos portugueses.

Mesmo assim, a Confederação de Indústrias Finlandesas admitiu que os cortes vão ter um efeito quase irrelevante nos custos de mão-de-obra, que apenas vai descer algo como quatro por cento. O espírito reformista está, no entanto, a enfrentar graves problemas. Reduzir o peso do Estado sem crescimento económico seria sempre feito à custa de muito sofrimento. Só para a despesa estatal ficar com a mesma proporção em relação ao PIB que em Portugal, o Governo finlandês teria de cortar quase 20 mil milhões de euros ao orçamento, o equivalente a um quarto de todo o nosso orçamento (que se situa nos 80 mil milhões de euros).

O Governo, uma estranha coligação de conservadores rurais, tecnocratas centristas e nacionalistas anti-imigração, encontra-se continuamente à beira de cair, mesmo tendo acabado de ser eleito em 2015, e os líderes continuam a ser duramente contestados por ousarem cortar nos muitos (e generosos) privilégios de que os finlandeses beneficiam.

Vozes académicas e politicamente incorrectas começaram a falar na saída do Euro como uma alternativa para evitar que os finlandeses façam os mesmos sacrifícios que os portugueses. Outra alternativa, a de se gastar para recuperar o crescimento económico, está a ser proposta pela esquerda local.

Os principais partidos de esquerda, entre os quais o Partido Social Democrático, têm sofrido sucessivas derrotas nas urnas, mas estão a ressurgir nas sondagens. Contudo, esta via acarreta enormes perigos, pois a dívida já ultrapassou os 60 por cento, e caso o crescimento não regresse, a Finlândia poderá ficar com uma dívida que não consegue pagar.

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