Originalmente publicado na edição de 17 de Dezembro de 2014

A prisão de Sócrates já obrigou os socialistas a abandonarem o discurso de “rei na barriga” com que se preparavam para enfrentar as próximas eleições. Agora, a evolução da economia internacional parece favorecer ainda mais as perspectivas da coligação PSD/CDS.

Os motores das máquinas de campanha eleitoral já estão a aquecer: dentro de nove meses haverá um novo sufrágio para decidir a composição da Assembleia da República. Até lá, espera-se um combate de “narrativas” entre os partidos do Governo e a máquina partidária de António Costa.

Era esta a mesma máquina partidária que, até há algumas semanas, exigia eleições antecipadas o mais rapidamente possível: o seu líder já tinha sido consagrado primeiro-ministro pelos “opinadores” políticos e pelas sondagens.

Quem ouvia os socialistas arriscava-se a ficar convencido de que Costa já era mesmo o novo chefe do Governo, separado do poder apenas pela maçada de ter de submeter-se à lei, neste caso a que rege as datas eleitorais da Assembleia da República.

Entretanto, José Sócrates foi detido e essa exigência esfumou-se tão rápido como tinha aparecido. Pedro Passos Coelho ganhou nove meses para reverter o que se considerava um facto consumado: a vitória do Partido Socialista nas eleições legislativas.

Segundo duas das mais recentes sondagens, o Partido Socialista averba neste momento 38 por cento das intenções de voto dos eleitores. Este valor, embora seja ainda superior ao das intenções de voto nos dois partidos da coligação, não permite a Costa alcançar maioria absoluta.

Mas o importante a reter é que, mesmo depois de quatro anos de duríssimos cortes e de austeridade profunda, os partidos que dirigiram o País durante esse período estão a apenas dois por cento do empate com o PS.

As fracas expectativas eleitorais do PS, quando comparadas com o discurso de “rei na barriga” com que massacraram os portugueses durante meses, podem ainda piorar se a conjuntura externa continuar, como tudo indica que acontecerá, a favorecer cada vez mais o actual Governo.

Dizem os mais ferrenhos defensores de Sócrates que o habitante da cela 44 do Estabelecimento Prisional de Évora não foi um mau governante e que não esbanjou o erário público em obras megalómanas e desnecessárias deixando o país na bancarrota.

Não: segundo eles, José Sócrates foi vítima da “conjuntura externa”, logo estaria absolvido de todas as culpas na humilhação nacional que resultou do seu longo consulado.

Recessão mundial

Já Passos Coelho, eleito poucos meses depois do início da derrocada, é, segundo a “narrativa” socratina, um vilão sádico que quer destruir Portugal, e não apenas um político obrigado a tomar decisões difíceis sob pressão externa.

É curioso como, para os socialistas, a conjuntura internacional é tão importante num momento e tão irrelevante no outro: um “doublethink” digno de Orwell.

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A visão que a esquerda quer passar…

A “grande recessão” não foi a única causa da bancarrota nacional: a economia do País já estava estagnada, com taxas de crescimento nulas, desde 2000.

Antes disso, décadas de má gestão criaram um Estado excessivamente grande e esbanjador.

Adicionem-se seis anos de endividamento por culpa do Governo de José Sócrates e, no fim, a crise económica mundial apenas foi a chave que abriu a caixa de Pandora.

Concorde-se ou discorde-se das suas políticas, Pedro Passos Coelho teve de lidar com os efeitos de 40 anos de má gestão ao mesmo tempo que todo o mundo Ocidental enfrentava uma grave crise económica.

Durante esse período viu protestos, viu a sua popularidade a cair a pique, foi arrasado diariamente nos Media pela sua política de austeridade (até por elementos do seu próprio partido). O desemprego manteve-se alto durante quase todo o seu consulado e a economia insistiu em continuar em recessão: entre 2011 e 2013, Portugal sofreu 30 meses de recessão, uma das mais longas de sempre na nossa História.

Há anos que sucessivos governos dizem que o ano seguinte é o da “retoma”. Tal como na história do Pedro e do Lobo, os portugueses já começaram a ignorar tais promessas, e os governos começam a ter alguma vergonha de as fazer.

Mas 2015 parece que pode mesmo, finalmente, ser o ano.

Petróleo em colapso

O preço do barril de petróleo encontra-se em queda acentuada, tendo chegado quase aos 50 dólares. Em comparação, há que ter em conta que em 2012 o preço do barril chegou a alcançar mais de 120 dólares.

Lentamente, por razões ligadas ao ciclo de fornecimento, o preço da gasolina e do gasóleo também descerão. A influência que esta queda pode ter é significativa para Portugal.

Recentemente, o banco Suíço UBS fez um estudo sobre o impacto do preço do petróleo em várias economias nacionais. Como esperado, e já noticiado pelo nosso jornal, economias dependentes da produção deste recurso, como a Rússia, estão prestes a sofrer um enorme golpe. Inversamente, Portugal é dos países mais beneficiados, sendo que o estudo prevê que o PIB português em 2015 possa vir a subir 0,3 por cento por cada decréscimo de 10 dólares.

Caso estes números se confirmem, e tendo em conta um decréscimo já concretizado na ordem dos 40 dólares, a economia nacional poderá crescer 1,2 por cento só devido a este fenómeno, independentemente de todos os outros factores positivos.

Sublinhe-se o efeito positivo que esta nova conjuntura poderá representar para as empresas em 2015. Caso a queda do valor do petróleo se mantenha, o custo do transporte de mercadorias decrescerá sensivelmente, bem como o preço da electricidade (partindo do princípio de que os organismos reguladores funcionam).

Devemos ressalvar que o Governo planeia introduzir impostos “verdes” sobre a gasolina e o gasóleo, o que significa que o seu preço provavelmente não descerá tão a pique como em outros países.

Mesmo assim, o impacto continuará a ser positivo, embora não directamente, visto que mais dinheiro irá ser canalizado para assegurar a estabilidade das contas nacionais, possivelmente abrindo caminho a uma descida de outros impostos.

Seja como for que o governo decida aproveitar esta “prenda” inesperada, o facto é que a economia beneficiará e que o desemprego poderá registar mais uma queda acentuada.

Exportações sobem

O nosso País tem um sector exportador reduzido, em comparação com outros países europeus. Com menos de metade da nossa população, a pequena Irlanda exporta o dobro de Portugal, por exemplo.

No entanto, este é um sector que não pode ser ignorado. Não é só o Estado Português que se encontra excessivamente endividado, as empresas e as famílias também o estão.

A dívida externa do Estado, neste momento, supera os 130% do Produto Interno Bruto, mas se somarmos a dívida das famílias e das empresas chegamos à aterradora conclusão de que Portugal deve ao estrangeiro o equivalente a 400% do seu PIB.

Embora um aumento das taxas de consumo seja desejável, estas não poderão mais basear-se em dívida: a solução reside na entrada de capital externo em Portugal. Uma das melhores vias para tal acontecer é vender aos outros países mais produtos e serviços do que aqueles que lhes comprarmos.

Também neste aspecto, Passos Coelho poderá ter sorte. A recessão obrigou os portugueses a grandes transformações, e uma delas foi a mudança de mentalidade de muitas empresas que passaram a ter uma visão global em vez de se concentrarem apenas no mercado interno.

Portugal conseguiu, finalmente, equilibrar a sua Balança Comercial em 2012, após 70 anos de défices crónicos. Em 2013 entraram no país mais três mil milhões do que saíram; e informações provisórias indicam que este valor aumentou em 2014 e continuará a aumentar em 2015.

Portanto, boas notícias para a actual coligação no poder. Uma Balança Comercial positiva é um grande primeiro passo para a consolidação da retoma económica, que deverá acelerar no próximo ano.

BCE abre cordões à bolsa

hand-517114O Banco Central Europeu, criado sob forte influência do Bundesbank alemão, tem seguido ao longo da actual crise uma política altamente controversa.

Os burocratas do BCE valorizam a inflação baixa acima de tudo, mesmo acima do pleno emprego e do crescimento económico.

Talvez seja por essa pesada influência germânica que o BCE adoptou uma política monetária que favorece imensamente a Alemanha e prejudica os países com mais dificuldades: falamos, claro, da decisão de manter o Euro a um valor demasiado elevado.

Tanto os Estados Unidos da América como a China tomaram posições completamente inversas, deixando o valor da sua moeda cair de forma a reforçar a sua posição comercial.

Mas todos os dados indicam que o BCE será forçado a inverter o curso em 2015. A política de inflação baixa a qualquer custo colocou várias economias europeias à beira da deflação, um fenómeno económico caracterizado pela queda do valor dos bens e serviços, que a médio prazo retira o incentivo à produção (visto que certos bens são produzidos por valores mais altos do que os da venda) e causa geralmente enormes crises económicas. Muitos economistas consideram que a deflação é mais destrutiva do que a inflação elevada.

É por esta razão que se considera que o BCE será forçado a adoptar uma política de “flexibilização quantitativa” ou, em termos mais simples, o Banco irá criar mais dinheiro, que depois será usado para comprar divida soberana e para investir nas empresas.

A esperança dos técnicos é de que os Estados e o sector privado possam voltar a ter poder de investimento, dinamizando a economia. Estas são boas notícias para o Governo português, que até agora pouca ou nenhuma margem de manobra teve para contrariar o elevado desemprego.

No pico da recessão, o então ministro das Finanças, Vítor Gaspar, não se cansava de recordar: “Não há dinheiro”. Agora parece que já vai haver algum.

A redução do peso da dívida permitirá ao Governo investir mais em programas de apoio ao desemprego, que já algum sucesso tiveram. Aliás, um estudo recente revela que um terço dos novos empregos poderá ter já resultado destes programas.

Até o arauto máximo da austeridade, o FMI, já incentivou oficialmente o Governo a adoptar mais medidas deste género (embora a ideia inicial fosse um corte brutal no ordenado mínimo…).

Excluindo alguma crise no seio da coligação, o Governo tem agora nove meses para pôr em prática, finalmente, um programa relativamente independente de pressões externas. Durante este período, a máquina eleitoral de António Costa terá de convencer os portugueses de que possui um plano melhor.

Aliás, a máquina eleitoral de Costa terá de convencer os Portugueses que possui um plano, visto que até agora pouco mais o PS delineou do que algumas ideias vagas. Costa contava chegar ao poder sem dizer muito, impulsionado pelo descontentamento gerado por uma economia em desagregação.

Pelos vistos, não será esse o caso, e terá agora de mostrar como planeia fazer diferente.