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Quando rebentou a “grande recessão”, a ideia prevalecente, tanto em Portugal como no mundo, era de que, após um período de reajustamento, o crescimento económico regressaria e a prosperidade de outrora seria novamente uma realidade. Oito anos passaram. Não só o Ocidente parece perdidamente estagnado, como o resto do mundo está a seguir-nos rumo ao abismo da crise permanente. No mundo académico debatem-se agora duas grandes teses sobre o futuro: segundo a mais optimista, o crescimento regressará mas irá demorar consideravelmente mais tempo do que o esperado; a mais pessimista considera que a estagnação veio para ficar e que não regressaremos ao progresso económico de outrora durante o nosso tempo de vida.

A estagnação não é propriamente um conceito estranho aos portugueses, ainda que possa sê-lo para alguns dos nossos vizinhos europeus. Na primeira década do século XXI, o crescimento total da nossa economia foi de zero por cento. Tentando relançar o crescimento, o Governo português, desesperadamente, lançou programas de estímulo atrás de programas de estímulo, cujo único resultado foi aumentar a despesa pública e o défice. Em 2010, o Estado era responsável por mais de metade do nosso produto interno bruto.

O mesmo veio a acontecer na generalidade da Europa. Segundo informações do semanário “The Economist”, a economia da Zona Euro ainda se encontra abaixo dos níveis anteriores à recessão de 2008. Ou seja, nos últimos oito anos ainda não conseguimos repor tudo o que foi perdido. O motivo do debate que se instalou nos meios académicos não reside na constatação do óbvio, mas sim nas causas de uma tão profunda estagnação.

Os preços da energia caíram a pique graças à queda do preço do petróleo, e o Banco Central Europeu tem investido fortemente na desvalorização do Euro, bem como em taxas de juro muito baixas, até mesmo negativas. As exportações de facto aumentaram, e a Europa tem uma balança comercial positiva, mas o crescimento é praticamente nulo. Note-se que uma das últimas expectativas de medidas de estímulo, o aumento dos orçamentos familiares através de uma descida generalizada do preço dos combustíveis, não se aplica a Portugal, visto que a “frente popular” que se alcandorou ao poder aumentou radicalmente os impostos sobre a gasolina e o gasóleo.

“Doença” japonesa?

Muitos economistas apontam o Japão como retrato antecipado do que será a Europa nas próximas décadas. Após ter-se tornado uma das maiores potências económicas do mundo do pós-guerra, cuja pujança ainda hoje é visível na abundância de automóveis e produtos electrónicos feitos na “terra do sol nascente”, o Japão subitamente estagnou nos anos 90, em resultado de uma severa crise financeira. Esta “crise” dura há mais de 20 anos.

Ao longo deste período, o Japão teve de enfrentar a deflação, tal como a Europa se arrisca a enfrentar. Durante as últimas décadas, o Governo de Tóquio endividou-se de forma drástica para tentar inverter a estagnação com medidas de estímulo cada vez mais ambiciosas. Ou seja, essencialmente a mesma estratégia que acabou por condenar Portugal, o qual, por ter menos recursos, quase ficou insolvente.

A Europa tentou a austeridade e a flexibilização laboral (ou seja, ajustamentos pelo lado da oferta) como alternativas ao programa japonês. Se um falhou, o outro também. O académico de Harvard e antigo secretário do Tesouro dos EUA (equivalente ao nosso ministro das Finanças), Larry Summers, afirmou à Bloomberg em 2015 que “a Europa está a caminho de ser o novo Japão”, notando que existe a “ameaça de que a qualidade de vida [na Europa] poderá não aumentar não apenas durante um ano, mas durante uma década, ou mais”.

Já a chefe do FMI, Christine Lagarde, avisa que existe o risco de o mundo caminhar para uma “nova mediocridade”, onde a economia não se encontra em recessão, mas também não cresce.

Mas há quem considere que o regresso ao crescimento não é possível num futuro previsível. E não falta quem ache que o crescimento nem sequer é desejável.

O que são taxas de juro negativas?

Imagem para juros negativos

Durante um período deflacionário, como o que vivemos actualmente, os indivíduos e as empresas guardam dinheiro no banco em vez de o gastarem ou investirem. Para “incentivar” os consumidores a não poupar, os bancos centrais determinam que as taxas de juro dos depósitos são negativas, ou seja, em teoria o depositante teria de pagar ao banco juros todos os meses em vez de os receber.

Os bancos preferem, para já, não cobrar os juros negativos aos depositantes, com medo de que eles retirem o dinheiro e o guardem “debaixo do colchão”, mas esta situação poderá mudar com o passar do tempo.

Por agora, nas economias onde são aplicados juros negativos, os bancos comerciais terão de pagar uma maquia considerável todos os meses ao banco central, razão pela qual muitos estão a flexibilizar e a facilitar o acesso ao crédito, mesmo que com juros muito baratos.

Um mundo “pós-PIB”

No caso nipónico, apesar de o PIB do país não crescer significativamente há mais de 20 anos, os japoneses não sentiram de forma muito pronunciada a estagnação. O desemprego mantém-se muito baixo, na casa dos três a quatro por cento, enquanto a população continua a ter uma qualidade de vida invejável, quando comparada com a de quase todo o planeta. Os problemas fiscais do país devem-se apenas às medidas com que o Governo tentou reiniciar o crescimento económico, e há quem considere que não o devia ter feito.

Nós, portugueses, há muito nos habituámos a ouvir falar sobre o PIB – nomeadamente nos noticiários da televisão, quando esse indicador é referido no contexto da dívida nacional (actualmente, a nossa dívida representa mais de 130 por cento do PIB, como costumam repetir-nos sem cessar).

Contudo, um corpo significativo de académicos considera que o PIB deixou de ser a forma adequada de medir a prosperidade, ou a ausência dela. Se o PIB estagnar, mas os preços e os ordenados não mudarem, então a população mantém a mesma qualidade de vida, embora na folha de cálculo não o pareça.

Alguns académicos consideram que entrámos numa época “pós-crescimento”: estando completamente satisfeitas as necessidades essenciais, e até muitas das supérfluas, resta a ideia de que há pouco para onde continuar a expandir. As empresas cada vez “inventam” mais produtos para estimular o consumo, mas estão cada vez mais dependentes das modas.

À medida que a tecnologia ultrapassa a sua fase inicial de rápida evolução e se torna mais fiável, deixa de ser essencial comprar um modelo novo regularmente. Até os aparelhos electrónicos, que se tornaram a “moda” do século XXI, começam a ser substituídos mais lentamente. Um exemplo é o computador pessoal. Um computador comprado em 1990 estava completamente obsoleto em 2000, mas um computador comprado em 2006, muito provavelmente, ainda estará a uso em 2016. Após ter alcançado um pico de vendas em 2010, cada vez se estão a vender menos computadores. Prevê-se que o mesmo vá acontecer em breve aos telemóveis, cujas vendas abrandaram, e a outros aparelhos que vão sendo inventados.

A eficiência de certas indústrias também ajuda a explicar a ausência de crescimento. Se para distribuir um livro, no passado, era preciso imprimir milhares de cópias, com toda uma enorme estrutura na retaguarda e um custo adicional por cada livro impresso, hoje os computadores e a internet permitem que um livro seja velozmente distribuído com custos muito mais baixos. Para este novo núcleo de estudos, a conclusão é que, mesmo sem crescimento em termos nominais, a prosperidade aumenta porque os salários podem comprar mais produtos e serviços, que são produzidos de forma mais eficiente.

Outros académicos, como o economista Tim Jackson, aplaudem mesmo a nova estagnação, considerando que através da falta de crescimento será possível salvar o ambiente. No seu relatório “prosperidade sem crescimento”, que foi academicamente aclamado aquando do lançamento, o autor não só questiona a ideia contemporânea de “prosperidade”, como considera que uma limitação estatal ao crescimento económico irá melhorar a protecção do meio ambiente, garantido uma qualidade de vida melhor e mais sustentável.

Teremos de poupar… menos?

A maioria dos economistas, no entanto, discorda da visão da estagnação inevitável, e considera que a actual situação se deve mais a uma “tempestade perfeita” de más decisões e más políticas económicas do que propriamente a ter-se chegado a um “fim da história”.

Para muitos, o problema reside num excesso de poupança. Se para os portugueses, que foram acossados por terem vivido “acima das suas possibilidades”, esta linha de pensamento parece estranha, o facto é que existem grandes quantidades de dinheiro guardadas nos bancos sem terem uso. O investimento diminuiu consideravelmente, pois as empresas vêem menos oportunidades de obterem um retorno considerável no investimento. Um excesso de poupança cria aquilo que Keynes considerava “estagnação secular”.

A demografia também está contra os europeus, especialmente os portugueses. As pessoas de maior idade tendem a consumir menos e a poupar mais. Em Portugal, a discrepância de riqueza entre os jovens e os mais velhos é enorme, logo o consumo continua muito abaixo do que poderia ser.

Para que não se continue a poupar tanto, os bancos estão a oferecer taxas de juro cada vez mais baixas, algumas até negativas, na expectativa de que aumente a compra de casas, acções, carros e viagens. A desigualdade de rendimentos, no entanto, tem impedido grandes progressos no estímulo ao consumo. A classe média ocidental não vê os seus rendimentos melhorar há 30 anos, e antes da crise apenas conseguia consumir com recurso ao crédito. Apesar de o crédito estar novamente barato devido às baixas taxas de juro, não foram poucos os que compreenderam a lição. Se os teóricos do “fim do crescimento” vêm um lado positivo, na Europa as perspectivas de uma estagnação longa são muito mais complicadas.

Ao contrário do Japão, as taxas de desemprego em vastas áreas do velho continente são elevadas, e a qualidade de vida dos cidadãos não se manteve estável, encontra-se em franca queda. Se será possível manter a estabilidade social caso a economia não volte a crescer – poderá ser a grande dúvida quanto às próximas décadas.