Deflação pode causar o caos económico já este ano

Deflação pode causar o caos económico já este ano

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“O decréscimo geral dos preços de todos os bens e serviços pode ser desastroso”

É a última barreira a superar antes da Europa começar a sua retoma económica, mas não é um obstáculo simples. Pode parecer um termo económico enfadonho e sem interesse mas, caso a deflação ataque conforme receado, Portugal e a Europa irão entrar na segunda recessão desta década. Com todos os perigos que podem daí advir.

No dia 2 de Janeiro, ainda mal tínhamos chegado a este novo ano, já Mario Draghi, líder do Banco Central Europeu, avisava: a Europa está em risco iminente de deflação.

Para o consumidor, a deflação não parece tanto um perigo mas sim uma bênção. Afinal, durante um período de deflação o que acontece é que os preços dos produtos descem em vez de aumentarem. A deflação conduz literalmente ao aumento do valor do dinheiro. Mas, em certos aspectos, uma deflação do preço de certos produtos, durante algum tempo, pode ser benéfica, especialmente daqueles que são importados ou que influenciam o preço de quase todos os outros, como o petróleo.

No entanto, o decréscimo geral dos preços de todos os bens e serviços pode ser desastroso.

Corrida para o abismo

No caso português, o resultado pode ser a anulação total das pequenas e tímidas conquistas que se fizeram nestes últimos anos.

Caso o dinheiro venha a valer mais no contexto de uma recessão, o peso da dívida pública nacional vai disparar, pois a dívida está contraída em moeda cada vez mais forte. Moeda forte que, devido à recessão, se torna cada vez mais escassa nos cofres do Estado.

Em tempos, muitos países conseguiram diminuir o peso da sua dívida simplesmente com o efeito do tempo: a inflação diminuiu o valor do empréstimo a pagar. Em caso de deflação, a dívida soberana portuguesa ficará (ainda) mais difícil de sustentar.

A deflação é um círculo vicioso: retira o incentivo à produção visto que nenhum produtor quer colocar no mercado um produto que terá de vender abaixo do valor de produção.

O que acontece é que este produtor ou fecha as portas, ou reduz radicalmente o preço do seu produto. Uma das formas de baixar o valor de um produto é melhorar a eficiência da máquina de produção através de equipamento novo.

Mas o produtor não quer fazer mais investimento, tendo em conta que o preço do produto final está em queda, e que o crédito que teria de fazer ficará mais pesado de sustentar ano após ano. Logo, a via seguida será o despedimento de mão-de-obra.

O fabricante das máquinas, por sua vez, verá os seus clientes desaparecer e fechará portas, causando ainda mais desemprego.

É difícil quebrar o ciclo. Os consumidores vão adiar cada vez mais o consumo se conseguirem prever a queda dos preços. Afinal, quem é que quer comprar um frigorífico hoje por 1000 euros, se o pode comprar amanhã por 500?

Já os trabalhadores despedidos, por sua vez, irão comprar menos, forçados pela diminuição dos seus rendimentos. A queda contínua da procura gera um efeito deflacionário cada vez mais profundo, criando pelo caminho mais e mais falências.

E assim continua o ciclo.

Verdadeiros Problemas Estruturais

Segundo dados estatísticos, os países onde os primeiros sinais de deflação se estão a fazer notar são os países da periferia europeia, nomeadamente Portugal e a Grécia.

Segundo especialistas do semanário financeiro “The Economist”, Portugal está a passar por um fenómeno complicado: o consumo diminuiu de forma tão dramática que existe um enorme excedente de oferta em quase todas as áreas.

Um exemplo prático é o mercado imobiliário. Durante a época das vacas gordas, os construtores civis produziram tanta habitação que chega e sobra para toda a população portuguesa. Mas não estão a entrar novos compradores de casas no sistema económico: os jovens em idade de sair de casa e formar família não o podem fazer.

Os ordenados pagos aos jovens em Portugal são demasiado miseráveis. Adicionalmente, muitos dos possíveis futuros compradores em idade de constituir família e carreira estão a emigrar. Os infames vistos ‘gold’ são uma tentativa desesperada do governo de despachar habitação de forma a fazer circular dinheiro na economia. Mas, apesar de tudo, o preço do imobiliário continua em queda e o mercado imobiliário deprimido.

Embora a oposição nunca o vá reconhecer, tal é o espírito clubístico à moda das claques do futebol que corre por aquelas bancadas, há muito pouco que Passos Coelho possa fazer sem o apoio da Europa: e esse apoio tem sido mínimo.

Sem mercado interno com capacidade de consumo, Portugal tenta exportar o máximo que consegue, uma forma produtiva de lidar com a crise. Caso o excedente nacional consiga ser trocado por capital estrangeiro, a longo prazo irá criar empregos e riqueza. Mas, para haver exportações, há a necessidade da existência de um comprador. Mas os mercados onde Portugal poderia vender estão igualmente com problemas económicos.

Logo aqui, o modelo económico que a Alemanha está a impingir aos europeus fracassa: nem todas as nações podem ser exportadoras. Nem precisam de ser, os EUA acumulam déficits da balança comercial há décadas e, no entanto, possuem hoje uma economia tremendamente mais saudável que a europeia.

Os norte-americanos, tendo superado a crise e avançando agora para taxas de crescimento elevadas, voltaram a consumir e a comprar casas e carros, fazendo o dinheiro circular.

Indecisão Europeia

02O famoso economista liberal Milton Friedman uma vez disse, meio a gozar, que uma das formas de se travar a deflação era “atirar dinheiro de um helicóptero”. A metáfora usada por Friedman era um aviso da necessidade dos bancos centrais imprimirem mais dinheiro para este voltar a circular na economia durante uma fase de deflação.

Vários especialistas económicos, incluindo o homem que dirigiu, com sucesso, diga-se, a retoma económica norte-americana, Ben Bernake, líder do Banco Central dos EUA, a Reserva Federal, acham que a Europa precisa imediatamente de baixar o valor do Euro.

Mas é aqui que os inúteis do costume se desentendem no jogo europeu, e sendo 27 contra a Alemanha: ganha a Alemanha. Os germânicos vivem no terror da hiper-inflação, fenómeno que associam com a chegada ao poder de Hitler, e com base nesse medo, qualquer proposta que tenha a palavra “inflação” é vista como negativa.

Ignore-se, claro, o facto de que no coração da grande depressão mundial estava o enorme problema deflacionário nos EUA. O Presidente Roosevelt teve de mandar queimar produtos agrícolas só para reduzir o excesso de oferta.

Mas para a sisuda Germânia um plano de investimento pode significar ainda mais dívida, especialmente em países já previamente endividados, algo que os Alemães vêem muito negativamente. Tal é a rejeição cultural da dívida que em Alemão o conceito de “dívida” e “culpa” é partilhado pela mesma palavra: “Schuld”.

O novo Presidente da Comissão Europeia já apresentou um novo plano de investimento, mas os especialistas consideram que é demasiado pouco, demasiado tarde. O líder do Banco Central Europeu, o pragmático Mario Draghi, também se mostrou disponível para começar a produzir mais Euros, dizendo, nas suas próprias palavras: “Dentro do nosso mandato, temos de fazer tudo o que for necessário fazer”. Infelizmente, Berlim tem sempre bloqueado o processo.

No caso dos EUA, a Reserva Federal começou quase imediatamente a injectar dinheiro novo na economia após o início da recessão. Os alemães ainda tentaram ridicularizar os americanos, em vários artigos publicados na Imprensa, quando o dólar começou a cair face a um Euro mais forte. O desemprego nos EUA é hoje de 7% (e em forte queda), enquanto que a média europeia é muito maior, só na Grécia é 27%. Aquele que ri por último…

Na ausência de políticas de crescimento, o que a UE tem feito é um processo tímido, e que se tem revelado até agora inútil, de incentivo ao investimento através de injecções de capital por vias indirectas, nomeadamente por via da compra de dívida soberana ou do reforço da liquidez dos bancos. Muito pouco deste dinheiro acaba nas mãos dos consumidores, que é o que importa caso se queira acabar com a crise.

Os bancos têm-se revelado pouco disponíveis para conceder crédito às pequenas e médias empresas e, quando recebem financiamento, preferem guardar o dinheiro. No caso português, por exemplo, depois do contribuinte ter resgatado boa parte da banca nacional, descobriu logo a seguir que esta mesma banca não estava, em muitos casos, disposta a conceder-lhe um empréstimo.

Poupadinhos, mas desempregados

A obsessão dos últimos anos com poupança e liquidez da banca deu azo a uma situação onde as pessoas poupam mais do que nunca, com medo de uma repetição da catástrofe económica dos últimos anos. Mas a lógica do pé-de-meia é nociva para a economia visto que dinheiro poupado não circula. A economia é comparável a um organismo vivo, precisa de sangue, neste caso de dinheiro, a circular entre os vários órgãos, os vários motores da economia: os trabalhadores, os empresários, as empresas, o Estado, etc.

Assim, se quase todo o dinheiro ficar retido nas contas bancárias, o resultado final são muitos cidadãos poupadinhos, mas desempregados, muitas empresas fechadas e um Estado falido.

A solução para este problema, até agora fracassada, foi diminuir as taxas de juro a níveis mínimos, de forma a desencorajar a poupança e a incentivar o investimento e o consumo. Este ano, no Natal, já o gasto em prendas subiu um pouco, mas ainda está muito abaixo da normalidade.

Outra solução seria um decréscimo dos impostos, como o IVA, mas o Governo não tem margem de manobra orçamental para o fazer devido ao legado do Executivo anterior, e ainda está a ser pressionado pela UE e pelo FMI para os aumentar mais, mesmo que seja uma exigência incompreensível neste momento.

Estamos, portanto, enfiados a contra-gosto no mesmo autocarro que todos os outros países da União, e a Alemanha é o condutor.

Mas há alguma esperança de mudança. Este ano o Reino Unido vai a eleições e prevê-se um bom resultado dos eurocépticos do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP). Já em Janeiro os Gregos mostram o seu desespero, possivelmente colocando no poder radicais anti-Europa e anti-capitalismo.

A França está a desagregar-se socialmente de dia para dia e a Frente Nacional, em crescimento, aguarda o dia em que vai conquistar as urnas. Esta pressão pode forçar a UE a tomar finalmente as medidas necessárias para nos salvar de uma segunda recessão, sob a ameaça do colapso total da organização.

Ou o condutor acorda, ou vai cair pela ribanceira abaixo. Infelizmente leva-nos a todos com ele…