E se a França saísse do euro?

E se a França saísse do euro?

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John C. Edmunds e Frédéric Chartier

Dois especialistas em finanças fazem as contas e trocam por miúdos o que significa a saída da moeda única, pegando na França como exemplo. Se os cortes impostos pela austeridade actual lhe deram cabo da vida, prepare-se para um autêntico filme de terror e miséria…

A crise das dívidas soberanas europeias, iniciada em 2009, mergulhou o continente numa severa recessão económica, sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial. Os governos a braços com a dívida foram obrigados a adoptar programas de austeridade, uma mistura de aumentos de impostos com cortes na despesa pública que fez disparar o desemprego e aumentar as tensões sociais.

O euro preenche vários critérios para poder ser considerado um demónio vindo de longe. Vem de Bruxelas, ou de Frankfurt, e parece ter sido feito de encomenda para ser o mau da fita, um cavalo de Tróia destinado a sabotar a força da República em benefício dos estrangeiros e da alta finança.

A França, segundo a maior economia da Zona Euro e membro fundador da União Europeia (UE), é um exemplo deste fenómeno. Atolada num desemprego crescente, impostos cada vez mais altos e benefícios sociais cada vez mais baixos, os eleitores franceses tornaram-se progressivamente receptivos à retórica anti-Europa e anti- -globalização da extrema-direita e da extrema-esquerda. A Frente Nacional, o partido de extrema-direita liderado por Marine Le Pen, conquistou recentemente 25% dos votos nas eleições para o Parlamento Europeu, o melhor resultado na sua história, acima dos partidos tradicionais do centro-direita e do centro-esquerda.

A solução proposta pela Frente Nacional é a saída do euro e a reintrodução do franco francês. A soberania regressaria às mãos dos eleitos no país, que mandariam imprimir francos para criar emprego e pagar os serviços sociais. A consequência seria a necessidade de um ajustamento da velha taxa de câmbio de modo a sustentar a nova política monetária – mas a economia deveria recuperar fortemente, ao mesmo tempo que seria mais fácil conseguir emprego.

Este retrato idílico ignora, infelizmente, uma questão muito importante. A economia francesa criou muitos activos financeiros, incluindo acções e obrigações. Estes valiosos activos financeiros pertencem tanto a cidadãos franceses como a estrangeiros. O valor de mercado desses activos é de cerca de seis vezes Economia Toda a gente iria sofrer, e não só aqueles que ganham à tripa-forra o PIB francês, incluindo obrigações do governo e de empresas no valor de 4,5 triliões de euros e acções no valor de 1,7 triliões de euros. A esses valores devem ainda acrescentar-se activos bancários no valor de 9,5 triliões de euros.

O valor de mercado desses títulos é fortemente influenciado pelas taxas de desconto que os investidores usam para calcular os valores actuais desses instrumentos. Para se ter uma ideia da diferença que pode fazer a taxa de desconto, considere-se uma obrigação que pagará um euro por ano nos próximos dez anos. Se um investidor usa uma taxa de desconto anual de 3%, o seu valor é de 8,53 euros. Mas se o investidor usa uma taxa de desconto anual de 5%, o seu valor é de apenas 7,72 euros, ou seja, cerca de 9,5% menos.

Se a França saísse do euro e regressasse ao franco, muitas pessoas poderão pensar que a transição seria suave e sem custos. Lembram-se da transição em 2002, quando chegaram as novas moedas e notas de euro. Também se lembrarão de que, nessa altura, não houve qualquer efeito visível na actividade económica. Mas houve um efeito – apesar de os observadores em França não terem dado por ele. O valor de mercado das obrigações da dívida pública a 10 anos caiu. A queda não foi súbita, e muitos observadores dariam outras explicações, mas esse valor caiu de 5,5% em 2002 para cerca de 3,5% em 2008. Depois disso continuou a cair e, hoje em dia, é de uns meros 1,8%. O que isso significa é que os preços das obrigações subiram e que as taxas de juro do crédito à habitação baixaram. Uma família da classe média que pudesse comprar uma casa de 200.000 euros em 2002 poderia hoje, com um rendimento similar, comprar uma casa de 400.000 euros.

Se a França saísse do euro, a transição seria muito mais atribulada. Os preços das obrigações cairiam abruptamente. Essa queda, aplicando o mesmo cálculo simples usado acima, seria de cerca de 450 biliões de euros, o equivalente a cerca de 17% do PIB de França. A perda acentuada de valor repercutir- se-ia nas poupanças dos particulares. Quem possui actualmente obrigações no valor de 500.000 euros descobriria que, de um dia para o outro, teriam passado a valer apenas cerca de 450.000 euros. Essa queda abrupta poderia desincentivá-los de gastar – não totalmente, mas o suficiente para fazer mossa nos comerciantes dos locais onde essas pessoas vivem.

Também o crédito à habitação ficaria mais caro – não é que se tornasse mais difícil de obter, mas a mensalidade da hipoteca subiria de forma acentuada. Isso significa que, se quisesse vender a sua casa, menos compradores teriam dinheiro para pagar a mensalidade. Por isso, os preços das casas cairiam até se tornarem compatíveis com as mensalidades que os compradores pudessem pagar. Um efeito ainda mais prejudicial atingiria as empresas francesas. Poderiam emitir obrigações, como têm feito recentemente, mas essas novas obrigações teriam de pagar um juro superior, por serem emitidas em francos.

As empresas rivais da Alemanha, Holanda, Suíça ou de outros países ver-se-iam de repente com uma maior vantagem competitiva: teriam que pagar menos pelo dinheiro. E algumas dessas empresas rivais poderiam até abalançar-se a tentar controlar empresas francesas. Outra consequência quase certa da saída do euro seria a depreciação abrupta do franco francês (inicialmente convertido à razão de 6,55 francos por euro), à medida que os investidores dentro e fora de França corressem em massa a vender os seus bens em francos franceses, perante a incerteza económica. Se bem que um franco fraco fosse um trunfo competitivo para as exportações, por outro lado tornaria as importações muito mais caras. Mas mais preocupante ainda seria a situação da dívida externa francesa (quase 95% do PIB), que continuaria a ter de ser paga em euros (e noutras moedas estrangeiras).

O serviço da dívida tornar-se-ia proibitivo, com as divisas estrangeiras a terem que ser compradas com os muito debilitados francos franceses. Os efeitos financeiros da saída do euro teriam, em termos de resultado total, consequências muito mais graves do que uma estimativa razoável do crescimento da actividade económica pode prever. Em última análise, a França não deveria abandonar o euro, mesmo que, à primeira vista, a saída só prejudicasse meia dúzia de burocratas arrogantes. Na verdade, os efeitos dessa saída seriam devastadores e generalizados.

Toda a gente iria sofrer, e não só aqueles que ganham à tripa-forra pela sua participação em transacções que deitam abaixo grandes instituições financeiras.

  • John C. Edmunds é Professor de Finanças e director de Investigação no Babson College, Massachusetts, EUA, doutorado pela Universidade de Harvard
  • Frédéric Chartier é Professor de Finanças, doutorado pela Universidade do Texas em Austin.